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sábado, 3 de agosto de 2019

4490) O Romance de Uma Frase Só (3.8.2019)




Eu tenho uma fascinação inexplicável por textos literários contínuos. Textos não interrompidos por nenhum ponto, nenhum corte, nenhuma pausa. Como o famoso “monólogo de Molly Bloom” que constitui o último capítulo do Ulisses de James Joyce. 

Foi onde tomei conhecimento de que uma façanha assim não apenas era factível, mas podia resultar, como resultou, num texto fervilhante de sentidos e de uma estranha beleza. (E basta isto para cancelar o “inexplicável” que coloquei no começo.)

Um texto com pontuação normal, como este aqui, equivale a andar a pé: é uma série confortável de impulsos e repousos. É diferente com um texto onde a pontuação se limita praticamente à vírgula, este sinal que proporciona apenas um segundinho para respirar, e também a travessões – tão necessários quando precisamos enxertar um período qualquer bem no miolo de um período mais longo que fica, por assim dizer, parado, à espera de que essa melodiazinha noutro tom se encerre e a lenga-lenga retorne ao tom normal – e quem sabe também ao uso de parênteses (os quais, aqui pra nós, eu já acho um pouco de jogo sujo, porque tudo que estiver dentro dos limites dessas meias-luas mágicas está pra todos os efeitos num outro plano da existência e do discurso, o que muitas vezes chega a produzir exageros e excentricidades, como a famosa história, tão repetida no folclore oral da literatura escrita, do sujeito que abriu um parêntese num livro e só se lembrou de fechá-lo no romance seguinte).

Textos assim parecem o alçar-voo de uma criatura que a partir do instante em que se desprende do chão passa a contar somente com seus próprios esforços para não se precipitar nele de volta com todo seu peso e momentum

Ler esses monólogos incessantes me lembra o esforço daqueles craques do basquetebol que quando se elevam do chão rumo a uma “enterrada” consagradora pedalam com as pernas no ar, como se isso fosse capaz de mantê-los em pleno voo, tal qual um colibri ou Dadá Maravilha, que em matéria de impulsão e planadura nada devia a Michael Jordan ou Shaquille O’Neal.

Isso me vem à mente quando leio que um dos concorrentes ao Booker Prize (um dos principais prêmios literários da língua inglesa) deste ano é o romance Ducks, Newburyport, de Lucy Ellmann – um romance feito de uma única frase que se estende por mais de 1.000 páginas.

Pelo que descreve a imprensa, “trata-se do monólogo interior de uma dona-de-casa de Ohio, que está ruminando sobre todo tipo de coisa, desde o cardápio de um jantar para amigos até o lado mais tenebroso da América de Donald Trump”.

Alguém se deu o penoso trabalho de contar quantas palavras tem o texto. (É simples: no meu teclado, é Shift + Ctrl + G.) Parece ser algo em torno de 426.100 palavras, e nem vou falar que se trata de um recorde, porque coisas mais ambiciosas do que isso já devem ter visto o laser das impressoras.

Textos desse tipo têm mais liberdade do que se imagina, e isso depende apenas da habilidade do(a) autor(a).

Eu posso começar um romance, por exemplo, contando o problema que tive hoje de manhã, quando recebi inesperadamente um telefonema internacional, de um número desconhecido com código da China, onde com alguma dificuldade uma voz que se exprimia num português claudicante perguntava por um tal de Brouláiol que não imagino quem seja, mas logo conseguimos nos entender, em parte porque o interlocutor de sotaque oriental foi logo substituído por uma voz feminina e impaciente, de inconfundível acento mineiro, explicando com eficiência secretarial que eu estava sendo convidado para ministrar uma oficina de Literatura de Cordel naquele país do Oriente, o que por um lado me surpreendeu, mas por outro nem tanto, haja visto que os portugueses que tanto ejacularam seu DNA na América do Sul também rumaram a Catai e outras portas do fim do mundo, não é à toa que o Macau deles não difere muito do Macau do Rio Grande do Norte, a não ser por características geofísicas e geopolíticas que seriam de se esperar, mas afinal de contas somos todos iguais, somos todos bípedes implumes e caniços pensantes, como nos assevera a História da Filosofia, todos dotados do mesmo sistema operacional básico que permitiria a qualquer um acompanhar sem muito esforço esta xaropada que aqui estou enfileirando com o propósito único, que talvez realize agora, de mostrar como em textos desse tipo o que importa é produzir uma sucessão de fragmentos que alguém possa entender sem fazer muito esforço, porque os leitores, em sua imensa e democrática maioria, se satisfazem com pequenos triunfos e, vamos e venhamos, não estão nem aí para o que os teóricos chamam The Big Picture, assim como as pessoas que mastigam jujubas se satisfazem com essas façanhas rudimentares de eficiência mecânica e com os miúdos orgasmos da glicose, e não estão nem aí, repito, para os índices de absorção de nutrientes – o que faz com que esta sucessão de fragmentos aparentemente inteligíveis aja em benefício do leitor, que a cada pousada-de-pé encontra um chãozinho semântico onde se apoiar e um vetor sintático que o conduz na direção do próximo passo, razão pela qual não é difícil a um escriba calejado em redações e Olivettis chamar-lhe a atenção para o fato de que a glicose e o açúcar das jujubas não difere muito, em termos químicos e sociológicos, do sal que os nossos irmãos norte-riograndenses extraem com desmedido e mal-pago labor, unindo dessa forma duas pontas improváveis de um colar textual no qual podemos enxergar algo como um enorme fio onde contas da mais variada natureza, formato e cor podem ser enfiadas uma atrás da outra, o importante é que o fio não se parta, e seja possível estendê-lo quase que indefinidamente, mesmo tendo que elevar a voz para abafar os irritados protestos da mineirinha pragmática do outro lado do outro fio, que insiste em saber se está falando com a pessoa certa, insiste em saber se eu sou eu mesmo (como se fosse necessária outra prova além desta catadupa estilística com que a estou banhando e enxaguando), insiste em saber se estou de brincadeira, insiste em saber o que andei fumando, e logo se despede com um tunco e uma rabissaca e um seco recado mandando-me “passar bem”.

É meio assim que conseguem se virar certas cobras-criadas como David Foster Wallace e James Joyce. Não duvido que nossa amiga Lucy Ellmann (que, vejam só, tem o sobrenome de um dos biógrafos do bardo-ribaldo irlandês!) seja capaz de estender-se confortavelmente ao longo de um lençol de mil páginas. Garante o resenhador do Quartzy, onde colhi estes dados, que a certa altura do romance o fluxo-de-consciência da narradora principal se alterna com o ponto de vista de uma leoa-da-montanha, o que por si só já elimina qualquer chance de monotonia.

Os finalistas do Booker Prize serão anunciados em 3 de setembro, e o nome do vencedor será dado a público em 14 de outubro.



(Lucy Ellmann)





terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

4058) A depressão (24.2.2016)



(David Foster Wallace)

Uma obra literária pode levar ao suicídio uma pessoa depressiva? O caso mais famoso, ao que eu saiba, foi Os sofrimentos do jovem Werther (1774) de J. W. Goethe. É uma das grandes obras do romantismo alemão, um livro escrito aos 24 anos onde Goethe, reza a lenda, descarregou sua tristeza por uma paixão que não deu certo. O livro aparentemente provocou uma onda de suicídios de leitores jovens que se identificaram com o protagonista, um rapaz que se mata porque sua amada casou com outro.

Males de amores, contudo, raramente causam depressão. Ela pode ser deflagrada por problemas psicológicos profundos ou por desequilíbrio químico do organismo (neste caso é comum o tratamento pelo uso de remédios). Um caso recente de suicídio literário foi o de David Foster Wallace, o autor de A Piada Infinita (“Infinite Jest”). Wallace sofria de depressão desde jovem, e usava medicamentos. Já famoso, com mais de 40 anos, seu médico sugeriu interromper o tratamento ou tomar outra medicação. Ele o fez. Não deu certo, e a depressão voltou com tudo. Ele voltou ao remédio antigo – e este não fez mais efeito. Um dia a esposa deu uma saída rápida, e ao voltar encontrou Wallace enforcado no porão, com os cachorros da casa parados em volta, olhando.

Disse ele certa vez, sobre o problema: “É o motivo pelo qual quero morrer. (...)  É como se não fosse capaz de encontrar nada fora dessa sensação e por isso não sei que nome lhe posso dar. É mais horror que tristeza. É mais horror. É como se uma coisa horrorosa estivesse prestes a acontecer, a coisa mais horrível que se possa imaginar, não, pior do que se possa imaginar porque há também a sensação de que é preciso fazer qualquer coisa de imediato para se deter aquilo, mas não se sabe o que se deve fazer e de repente está acontecendo, durante o tempo todo, está prestes a acontecer e ao mesmo tempo está acontecendo.”

Essas coisas podem acontecer num contexto explicável (problemas pessoais, financeiros, de saúde, etc.) ou inexplicável (os ataques de pânico que acometem pessoas sadias e sem problema algum). A bebida e as drogas acabam sendo válvulas de escape para alguns. Parece óbvio que não resolvem o problema, e sim o agravam, pois a euforia momentânea do barato tem como reverso a rebordosa do dia seguinte. Toda pessoa deveria ter uma atividade, uma prática qualquer capaz de fazer frente a essas quedas terríveis na areia movediça do nada-vale-a-pena. Artistas muitas vezes fazem de sua arte um salva-vidas precário que os ajuda a manter-se à tona. Nem sempre funciona, mas quando funciona acaba sendo a única coisa que segura um sujeito do lado de cá até que passe a tempestade.






sexta-feira, 23 de agosto de 2013

3272) David Foster Wallace e o navio (23.8.2013)



Em seu volume de ensaios
Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo (Cia. Das Letras, 2012), David Foster Wallace relata a empreitada que recebeu da revista Harper’s: fazer uma semana de cruzeiro pelo Caribe num navio de luxo, e relatar suas impressões. 

O texto resultante, “Uma Coisa Supostamente Divertida Que Eu Nunca Mais Vou Fazer”, é alternadamente fantástico, engraçado, assustador, intrigante. Como sou um escritor profissional e Wallace também o era, recorro ao senso ético da profissão para supor que ele não inventou nada daquilo. Sua interpretação dos fatos é a mais subjetiva e distorcida possível (ele mesmo o admite várias vezes), mas se os fatos forem mesmo aqueles o mundo é um lugar muito fantástico. Comparado a ele, Salvador Dali é um Mondrian.

As 125 páginas do ensaio são uma mistura do jornalismo gonzo de Hunter Thompson e da nostalgia claustrofóbica de E La Nave Va.  

Documenta a hipertrofia das glândulas consumistas que Henry Miller já tinha diagnosticado em Pesadelo Refrigerado e a cafonice endinheirada de True Stories de David Byrne ou de Heaven de Diane Keaton. 

Tem a voltagem de algumas das reportagens de Bruce Sterling ou William Gibson (só que com humor). E nos faz sentir o tempo inteiro a flutuação escheriana entre um corredor na Ilha de Caras e uma escada num filme de David Lynch. A terrível revelação de que o Sonho Americano é, e sempre foi, uma “bad trip” gerada por um LSD com defeito de fábrica.

Wallace observa, interage, recorda e escreve ora como um filósofo pessimista, ora como um adolescente travesso, ora como um intelectual mergulhando em espirais vertiginosas de associações de idéias dentro de idéias num torvelinho que se exprime por meio de suas famosas notas gigantescas de pé de página que se desdobram diante dos olhos do leitor como bonecas russas contendo outras bonecas, numa construção-em-abismo sem fim. 

Curiosamente, é um olhar tipicamente masculino, embora não machista, pelo tom do seu discurso, a empáfia das descrições técnicas, a auto-ironia peculiar, o prazer infantil das sugestões escatológicas, a camaradagem rude com os serviçais... 

Um grande livro, mas não consigo imaginar uma mulher gostando dele, pelo menos as mulheres para as quais se destina a chamada “literatura do olhar feminino”. Se isso de fato existe, o olhar de Wallace é um olhar masculino, mesmo que ele não dê muita importância aos aspectos de gênero. Ele tem uma irreverência e uma fascinação de rapaz adolescente pelos aspectos numéricos, verbais e técnicos do mundo que está descrevendo. E desenvolveu um estilo que é ao mesmo tempo produto desse mundo e caricatura crítica dele.







quinta-feira, 15 de agosto de 2013

3265) Os ensaios de Wallace (15.8.2013)





Este volume de ensaios de David Foster Wallace (Cia. Das Letras, 2012) tem um título que parece uma correntinha de clips: Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo (tradução satisfatória para o original: “Getting Away from Already Pretty Much Being Away From It All”). A tradução é de Daniel Galera e Daniel Pelizzari, que cortam um dobrado, com competência, para traduzir a prosa errática, precisa, absurdista de Wallace. O livro tem ensaios variados: um texto curto e perceptivo sobre o humor na obra de Kafka; uma análise em câmera lenta e stop motion dos prodígios que Roger Federer realiza numa quadra de tênis; uma aula magna em que ele diz aos estudantes, basicamente, que a vida é chata, e que cabe a nós torná-la excitante e maravilhosa através do esforço conjunto da imaginação e da vontade; uma reportagem gastronômica que desanda num questionamento do nosso direito de matar lagostas em água fervente.

Wallace é uma mistura de satírico feroz e humanista compassivo, tão frequente na literatura dos EUA. Ele consegue, num mesmo parágrafo, mostrar todo o ridículo do comportamento de um grupo de pessoas e ao mesmo tempo nos despertar uma certa simpatia por elas. Isto é mais visível nos dois primeiros (e mais longos) ensaios do livro. O primeiro, que lhe dá o título, é sua cobertura da Feira Estadual de Illinois, uma dessas feiras agro-industriais-precuárias que misturam comércio e lazer. Eu gostaria de ver o choque cultural que esse texto produziria num habitante de um grotão qualquer, alguém que não vê TV e tem apenas uma vaga idéia do que sejam os EUA. O próprio Wallace, que passou a infância e a adolescência em Illinois, quase se apavora diante daquele evento de desbragado consumismo, mau gosto, glutoneria, tacanhice, ostentação kitsch e ingenuidade caipira. E ao mesmo tempo ele parece estar pondo o braço sobre os ombros do leitor e dizendo: “Pssst... nós também somos assim”.

O outro ensaio é “Uma Coisa Supostamente Divertida que Eu Nunca Mais Vou Fazer”. Outra reportagem encomendada, desta vez sobre um cruzeiro num navio de luxo pelo Mar do Caribe, em “uma entre as mais de vinte linhas de cruzeiro que operam atualmente a partir do sul da Flórida” (o ano era 1995, mas ouvi relatos recentes de uma viagem assim; não mudou muita coisa). Comentarei em detalhe esse texto numa próxima coluna, mas basta lembrar que Wallace, até por não ser um jornalista, e sim um escritor, mergulha nessas empreitadas de corpo inteiro e alma aberta, e equilibra de maneira prodigiosa o olho atento, o espírito incrédulo, o humor ferino e uma prosa permanentemente criativa sem traços de beletrismo.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

3257) Vida e literatura (6.8.2013)


(D. F. Wallace, por Charlie Powell)

A vida é irredutível a palavras, como sabe quem já experimentou uma e quem utiliza as outras, mas é essa mesma incompatibilidade de essência que torna indispensável a tentativa. 

Verbalizar não produz uma síntese da experiência vivida, mas uma mera antítese a ela, uma expansão dela, a criação de um simulacro em tão alto grau de alteridade e de abstração que o simples ato de produzi-lo ou de absorvê-lo (ou seja, o ato de escrever e o ato de ler) turbina a intensidade da experiência vital, e chegamos a nos perguntar se faz sentido passar pela vida inteira sem experimentar esse simulacro que não a explica nem substitui, mas talvez a justifique.

No seu famoso ensaio “Uma coisa supostamente divertida que eu nunca mais vou fazer” (em Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo, Cia. Das Letras, 2012), David Foster Wallace assim descreve o cheiro de detergente no banheiro de um navio de luxo: 

“...um desinfetante norueguês estranho, mas nada mau, cujo perfume se parece com o cheiro que existiria se alguém, que conhecesse a exata composição organoquímica de um limão mas nunca tivesse de fato cheirado um limão, tentasse sintetizar o perfume de um limão.” 

A escrita é um epifenômeno (um fenômeno secundário, consequência de um fenômeno principal) que na tentativa de evocar o fenômeno principal desenvolve estruturas expressivas de tal complexidade que adquire vida própria e essência independente, tornando-se tão ou mais digno de atenção quanto o fenômeno que, a princípio, tentava reproduzir ou sintetizar.

Wallace falou em limão mas a imagem que me ocorre é a de um caju. O caju não é uma fruta. O fruto do cajueiro é na verdade a castanha (que para nós é somente um caroço avantajado, como o do abacate ou o do pêssego); o caju é apenas “um pedúnculo carnoso”, que desenvolveu forma, cor, aroma, textura, massa esponjosa, cordames tenros, sucos adstringentes e doces, e, como uma atriz tarimbada contracenando com uma estrela mais jovem, dá um jeito coreográfico de colocá-la de costas para a platéia, ou sob luz desfavorável, invertendo assim o balanço hierárquico e tomando as rédeas da cena. 

Não desmerecemos o fenômeno principal (castanhas assadas são sempre uma delícia), mas igualmente há que se tirar o chapéu para a exuberância ontológica desse mero coadjuvante que, por méritos próprios, consegue redefinir o Universo em seus próprios termos.

Pois é isso que a Arte, mero efeito, faz com a Vida, causa essencial e primeira de todas as coisas, dela inclusive; e o único consolo dos que apenas vivem e não têm tempo para a Arte é dizerem, cobertos de razão, que quando íamos para os cajus eles já vinham das castanhas.