O dinheiro é talvez a mais perigosa das drogas, porque
não tem sintomas aparentes. O indivíduo bêbado-de-dinheiro parece normal, mas
está sujeito, ou mais que isto, está condenado a praticar todo tipo de
insensatez.
O dinheiro produz sensações combinadas de
invulnerabilidade, de impunidade, de onipotência, de estar-com-a-razão. Produz
até mesmo a ilusão de ser amado, pela quantidade de gente sorridente que atrai.
Já fiquei bêbado algumas vezes, mas, mais do que isso, já
pastorei muito bêbo chato. Aquele amigo que se embebeda e não quer ir para
casa, quer tomar a saideira, nem que seja na lata de lixo onde acabou de vomitar.
Uma vez era um amigo que tinha acabado de assinar um
contrato absurdamente desproporcional com sua vida financeira até então, e
recebeu umas “luvas” astronômicas. Pegou o telefone, convocou todo mundo,
patrocinou uma mesa de vinte pessoas num restaurante cujo nome não vem ao caso,
insistiu em trazer três litros de uísque para uma mesa em que todo mundo só
queria chope. (Era verão carioca. Verão é outra droga embriagadora, merece um
capítulo à parte.)
Ele não permitiu que ninguém puxasse a carteira. A noite
desceu pelo ralo, todo mundo foi embora e fiquei eu, de olho nele, visto que
morávamos no mesmo bairro e nenhum dos dois tinha carro, então sobrou pra mim.
Um garçom, já à paisana, nos conduziu amável mas
firmemente à porta; saímos para a rua nos primeiros rubores da aurora. Meu
amigo cambaleou, abriu os braços para o mar, para a possibilidade do sol, eu com
a mão no ombro dele para navegá-lo. Paramos num dogão da madruga. Ele apontou:
-- Eu adoro essas coisas. Já teve noite que eu queria
comer um desse e não podia pagar.
-- Eu também – concordei, e era verdade. – Mas a gente
acabou de comer uma bacalhoada.
-- Dois, completos! – berrou ele, de dedo em riste, para
a moça de olhos redondos e sonolentos. – Com tudo que tiver direito! Milho,
maionese, ervilha, bacon, coentro... Tem coentro?
-- Eu não quero – avisei. – E você não precisa. Olha, lá
vem um táxi. Bora pegar esse.
-- Pra viagem! – insistiu ele. – Come amanhã.
Perdemos três táxis que passaram devagar, se oferecendo,
até que recebemos os dois pacotes (nessas horas, concordar é mais simples). Ele
puxou do bolso uma nota de cem reais, botou no balcão.
-- Senhor, o seu troco.
-- Não precisa!
Semana passada, muitos anos depois, estávamos eu e ele na
calçada de outro boteco, conversando abobrinhas, chorando pitangas, desdenhando
as uvas verdes do sucesso alheio, e eu lembrei esse episódio. Ele passou a mão
pelo cabelo agora branco, e disse:
-- Rapaz, aquele foi um período muito maluco. Eu vi tanto
dinheiro que pensei que estava vendo o dobro.
Mudamos de assunto. Águas passadas. Sobrevivemos, não é
verdade? Estamos aqui. Vamos pedir mais um chope e ficar de olho na pilhazinha
de cartões. Vamos descontrair, vamos falar de futebol.
Vamos falar do Flamengo, e seus 144 milhões de reais para
contar com o ponta-esquerda Samuel Lino, e seus 58 milhões de reais pelo
lateral-direito Emerson Royal, e seus 263 milhões de reais pelo meia-atacante
Lucas Paquetá.
(Não venham me corrigir as cifras, peguei no Google, e os
valores são meramente ilustrativos.)
Existe uma enorme semelhança entre o futebol e as altas
finanças. São dois universos que se fundamentam na competição: as chances são
poucas, os concorrentes muitos. Tudo é concorrência, é disputa, é antagonismo,
tudo são desfechos onde alguém vai ganhar e alguém vai perder. E quem decide
isso é o deus que preside esse dois universos: o Número.
O futebol (os esportes, por extensão) se baseia no Número.
É bem verdade que mil interpretações subjetivas podem ser aplicadas a um
confronto, flutuação de critérios, sutilezas qualitativas, o escambau. Mas um a
zero é um a zero, sete a um é sete a um. No mundo mental e emocional dessas
pessoas, o Número é a última e definitiva instância que determina a realidade
dos fatos, a direção da História. Os números são estes. Eu ganhei. Você perdeu.
Eu ganhei mais vezes, eu perdi menos vezes, minha
percentagem é maior, minha margem de erro é menor, minha média está subindo. Eu
e você queríamos comprar algo, você ofereceu 5, eu ofereci 6 e levei. Eu sou o
primeiro desta lista. Eu consegui isto mais vezes do que qualquer um.
E nada disto é “opinião”: tudo é Número, a única coisa
indiscutível do universo.
O Brasil tem cerca de 300 bilionários. Vinte anos atrás,
eram dois ou três. Não é exagero dizer que metade desses indivíduos vivem mais
transtornados do que um inquilino da cracolândia.
E milionários? São (é o que me traz a pesquisa de dois
cliques) 572 mil no país, e entre estes pode incluir jogadores dos grandes
times do mundo. Adivinhem quem está entre os grandes times do mundo.
Não nos enganemos, quem manda no mundo é o conceito de
Número, muito mais do que o conceito de Deus, que aceita diferentes versões, ou
o de Democracia, que aparentemente ninguém leva a sério.
O futebol é o universo dos empurrões, cabeçadas, quedas,
cotoveladas, dribles, matadas no peito, embaixadinhas, folhas secas, lençóis,
bola na trave, bola na bochecha da rede, gol de placa, chute na orelha da bola,
cama-de-gato, corta-luz, drible da vaca... Mas tudo isto em função de um
número.
As altas finanças são compostas de ativos, passivos,
debêntures, papéis da dívida, ações preferenciais, mercados futuros,
helicópteros, jatinhos, carpetes, limos, charutos... Mas tudo isto, também, em
função dos números.
E a sensação numérica da fortuna financeira é mais grave do
que “café espresso” ou outras drogas
excitantes.
Num dos seus contos de Dublinenses (1914), “Depois da Corrida”, James Joyce diagnosticava:
“O deslocamento muito rápido pelo espaço
nos deixa inebriados; o mesmo se dá com a fama; o mesmo se dá com a posse de
dinheiro”.
Joyce se referia às corridas de automóveis do começo do
século passado. No conto, um rapaz irlandês, classe mediazinha, aficionado das
corridas, faz uma farra-de-amanhecer-o-dia junto com amigos bem mais ricos do
que ele, todos eles europeus do continente. Acaba torrando um dinheiro que não
tem.
Eu estava finalizando este artigo na madrugada de ontem para hoje, enlevado
pela goleada de 8x0 que o Flamengo aplicou no time-com-10-homens do Madureira.
Faltou a James Joyce completar: “Uma grande
quantidade de gols nos deixa inebriados”.
E nesse momento pipocaram nas redes sociais as notícias
da demissão do técnico Filipe Luís e eu achei que não precisava dizer mais
nada. Deixa o pessoal se divertir, antes que venha a ressaca.