Mostrando postagens com marcador pobreza. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador pobreza. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

4543) "Parasita": o filme (23.1.2020)





O marxismo criou a expressão “luta de classes” – se não a criou, pelo menos a transformou num utensílio do idioma. Ou seja, uma expressão que qualquer estagiário de redação usa com plena convicção de que sabe do que está falando. Foi o que aconteceu com “trauma” de Freud, “paradigma” de Thomas S. Kuhn ou “quântico” de Max Born.

Não importa quem inventou o termo. Na verdade, nem importa quem o gravou na linguagem popular, um suporte mais duradouro do que o mármore. Importa que após esse ato de nomear uma coisa abstrata ela se torna estranhamente concreta e as pessoas mais variadas (inclusive jornalistas culturais não-remunerados, como eu) se julgam no direito de botá-la no bolso e sacá-la sempre que for preciso.

O motivo deste nariz-de-cera é que pensei em falar do filme coreano Parasita (2019), de Bong Joon-Ho, sob a ótica da luta de classes, mas essa luta não é uma guerra tão nítida quanto – por exemplo – a guerra entre as formigas e os cupins. O que acontece entre os ricos e os pobres é luta, mas em certos aspectos é dança, em outros aspectos é intercurso sexual, em outros é esporte radical, em outros é combinação-contra-o-feda (como se diz na Paraíba), em outros é jogo de cena, em outros é bestialização coletiva...

“Luta”, apenas, não descreve a relação que neste filme une a família rica (os Park) e a família pobre (os Kim). As duas são simétricas: pai trabalhador, mãe atarefada e cheia de angústias, filha lindinha, filho voluntarioso. Dentro deste quadro, cada um dos oito personagens cresce no seu próprio formato, atira-se no caminho sem volta de suas próprias decisões, sejam pensadas ou aleatórias.

A “luta” entre as classes, em termos como estes, tem algo de sedução e algo de estupro, tem algo de convivência pacífica e de vizinhança em-pé-de-guerra, tem algo de libido predatória e algo de nojo controlado. Como se fosse uma luta entre iguais, mas com armamentos distintos.

Não estarei dando nenhum spoiler se disser que, por uma combinação de circunstâncias, a família de favelados consegue empregar um dos seus membros na casa da família rica; e depois, um segundo; e depois, um terceiro... E por aí vai.

O objetivo deles é previsível, e o resultado disso também. Conheço (aqui do lado de fora da tela) dezenas de histórias pitorescas sobre empregados que, no primeiro piscar de olhos dos patrões, aprontam uma, em sua ansiedade de sentir o gostinho do conforto e do consumo.

Quando vou numa casa bem rica, como a arquitetônica moradia da família Park, tenho às vezes a fantasia de que me empreguei ali como mordomo e que, mais dia, menos dia, a família vai passar férias fora e eu ficarei durante uma semana inteira por dono da casa, sozinho. A partir daí, como dizem as sinopses na web, “mayhem ensues”. Instala-se o caos.

É próprio das pessoas de classe baixa essa atitude contraditória com reação à riqueza: admirá-la, sonhar com ela, e, uma vez tendo-a ao alcance, destruí-la de forma pueril e negligente. Porque (aí é minha “mente rica” que interpreta) a gente só dá valor ao que conquistou com esforço, e quando um grupo de gente maltrapilha se apossa de uma adega, de uma despensa, de uma mansão, por que razão deveria tratar aquilo com reverência e parcimônia? O grande exemplo cinematográfico disto é a ceia dos mendigos no Viridiana (1960) de Luís Buñuel.



Parasita é um exemplo interessante da figura narrativa que denomino A Tomada, por inspiração do conto “Casa Tomada” (1951) de Julio Cortázar: uma situação em que pessoas permitem que seu ambiente seja gradativamente invadido, de forma aparentemente casual e pacífica, por pessoas estranhas que de repente tomam o controle de tudo.

Outro exemplo clássico disto é uma história de terror que nada tem de terror, mas que até hoje me dá arrepios quando lembro dela (como ocorreu ao ver este filme). É o conto de Hugh Walpole “A Máscara de Prata” (1932), que incluí na minha antologia Freud e o Estranho – Contos Fantásticos do Inconsciente (Casa da Palavra, 2007).  

Existe algo ominoso, algo cruelmente veraz na sua brutalidade: o vulcão virtual de violência que jaz sob cada jardim gramado onde uma família rica recebe convidados chiques – para uma festa-coquetel, para um casamento ao ar livre, um aniversário de criança...

Neste filme lembrei também, inexplicavelmente, do clássico pouco conhecido da FC, As Esposas de Stepford, livro de Ira Levin, filme de Bryan Forbes. Lembrei do arrepiante almoço-ao-sol no filme Corra! (Get Out) de Jordan Peele, em que um rapaz negro aceita o convite para um fim-de-semana na mansão dos pais da noiva. Neste último caso a lembrança é inevitável, pois vi este e Parasita, por acaso, no mesmo dia.

Todo roteirista pode bem avaliar as possibilidades de variados efeitos quando encaixamos uma cena de festa seguida por uma cena de carnagem. Carnagem é o que cada espectador está esperando ver, por este ou aquele motivo. Parasita é um desses filmes em que numa ocasião social cheia de tensão civilizada começa a se quebrar uma casca com força, e a gente sabe que alguém vai matar alguém de maneira horrenda. O bom é saber isto possível em cada um deles. E quando acontece, a surpresa é igual, a plausibilidade também.

A luta de classes é sempre encarada como o equivalente sociológico ao choque de placas tectônicas. As histórias humanas são as faíscas produzidas por esse atrito. “Luta” é adequado mas “parasitismo entre classes” talvez fosse um termo mais interessante, porque abriria caminho para comparações possivelmente úteis.

As duas famílias também são parasitas das telecomunicações. Tudo que fazem é mediado por selfies, wi-fi, mensagens, videofone, telefonemas, código Morse. Pode-se igualmente dizer que se, como dizia William Burroughs, “a linguagem é um vírus do espaço exterior”, então as web-comunicações são um vírus criado em laboratório e que está nos parasitando até agora.

Opor um núcleo rico e um núcleo pobre significa a possibilidade de jogar com cumplicidades recíprocas, quando convier à história, e antagonismos declarados, quando for o caso. As chanchadas de Oscarito e Grande Otelo não cansavam de arremessar essa dupla de toscos-simpáticos nos ambientes mais granfinos da época. E instalava-se o caos.

Sobre Parasita, declarou o diretor Bong Joon-Ho:

Para pessoas de diferentes condições sociais a vida em conjunto num mesmo espaço não é coisa fácil. É cada vez mais o que ocorre num mundo triste como o nosso: as relações humanas baseadas na co-existência ou na simbiose não podem se sustentar, e um grupo é levado a assumir uma relação parasítica quanto ao outro. No interior de um mundo assim, que poderá apontar seu dedo contra uma família que batalha, uma família travando uma verdadeira briga pela sobrevivência, e chamá-los de parasitas? Eles não eram parasitas desde sempre. Eles são nossos amigos, são nossos vizinhos, nossos colegas de trabalho. Tudo que aconteceu foi que eles foram empurrados por sobre a borda de um precipício. Ao ser a descrição da vida de pessoas comuns que caem numa tragédia inevitável, o filme é: uma comédia sem palhaços, uma tragédia sem vilões, e nele tudo conduz a em enfrentamento violento e uma queda de ponta-cabeça escada abaixo. Estejam convidados a assistir a ferocidade incontrolável desta tragicomédia.




 (poster: Andrew Bannister)

        






terça-feira, 21 de maio de 2013

3191) Pobre de novela (21.5.2013)





O Realismo Socialista era uma literatura que se propunha a reproduzir “personagens típicos em situações típicas”. Para evitar o individualismo burguês (a ficção centrada em heróis individuais) e a alienação das vanguardas (cujas obras falavam de um mundo que só o autor entendia) o Realismo Socialista pretendia ser um retrato cru e sincero da sociedade. Queria mostrar “a vida como ela é”. Ora, a vida é mais complexa do que qualquer fórmula. O Realismo Socialista produzia tipos e lhes dava nomes; os tipos nunca pareciam com gente de verdade, e sim com caricaturas ideológicas.

Lembro sempre disto quando vejo essas novelas de TV onde os autores, geralmente sujeitos que ganham 100 mil reais por mês e moram num condomínio da Barra da Tijuca, tentam reproduzir o modo de ser, de vestir, de falar e de agir dos pobres, ou, mais precisamente, da classe C+, C-, D+ e demais tabulações alfabéticas baseadas no número de eletrodomésticos existente em cada lar.

A obrigação de mostrar como se comportam os pobres produz uma novela em que o pobre tem que ser um Símbolo de Pobre em cada diálogo, em cada gesto, em cada peça de roupa. Tudo tem que convergir para essa idéia. Se Fulano pertence ao “núcleo pobre” da novela, tem que usar somente palavras e expressões de pobre, ter idéias de pobre, emoções de pobre. Cada personagem vira um cabide de atributos. Não se comporta como uma pessoa, e sim como um aglomerado de clichês que de tão redundantes acabam sendo contraditórios, como se aquela pessoa tivesse a idéia fixa de ser pobre 24 horas por dia.

Não há dois pobres iguais. Os ricos tendem a ser parecidos, porque têm medo de ser considerados pobres, então se imitam uns aos outros o tempo todo. (Sim, sei que não é assim; estou dizendo isso apenas para incomodar certas figuras.) Pobre de Novela tem que ser típico, viver em situações sempre típicas, beber cachaça, pender cigarro na boca, mostrar a sandália vagabunda à câmara, e olhar ansioso para a platéia: “E aí, chefia? Sacou quem sou eu?” Qualquer casinha de subúrbio onde aquela novela é assistida tem mais complexidade sociológica do que todas as novelas juntas. Um pobre (ou um rico) não é um conceito, é o produto sempre em-processo de mil fatores aleatórios. Tatuá-los assim com um adjetivo é uma maneira negligente de ignorar o que têm de único e trabalhoso. A novela formata todos numa formulazinha que pode ser repassada à equipe. A intenção é não correr o risco de que a novela se torne algo como a vida: imprevisível, com dinâmica própria, podendo a todo instante fazer algo que não estava nos planos de quem a administra.




terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

2468) "Pierrô" (1.2.2011)




Este conto de Guy de Maupassant, que li há meio século, me volta à mente quando esbarro com uma dessas situações propensas à alegoria. Porque, diante das grandes catástrofes, precisamos reduzi-las ao tamanho das pequenas tragédias, para termos a sensação de que estamos entendendo aquilo.

Pois bem: a viúva Lefèvre mora numa aldeiazinha da Normandia, em companhia de sua criada, Rose. A velha é sovina como um cacto, e certa noite descobre, alarmada, que um ladrão pulou o muro e roubou algumas besteiras da horta. Ela fica insegura e resolve arranjar um cachorro. Oferecem-lhe vários, mas ela sempre acha o preço extorsivo.

Até que um vizinho traz um filhote horroroso: “um estranho animalzinho, todo amarelo, quase sem pernas, corpo de crocodilo, cabeça de raposa e cauda em forma de trombeta, verdadeiro penacho do tamanho do corpo”. Apesar da descrição é mesmo um cachorro, e ela lhe dá o nome de Pierrô.

Pierrô cresce, e, coitado, se revela um desastre como guarda. Não late para nenhuma visita, faz festas a qualquer estranho; só late quando tem fome, e late com força. As duas, apesar de secas e empertigadas, se afeiçoam ao bicho.

Até que lhes cobram um imposto sobre a posse de animais domésticos: oito francos! A viúva se escandaliza e a criada também (é avara com os vinténs da patroa, por temer que venham a lhe faltar um dia). Resolvem fazer o que se faz na aldeia: jogá-lo num poço onde morrerá de fome.

Jogam-no, mas dias depois, tomadas de remorsos e pesadelos, as duas se arrependem. Agora é tarde para tirar Pierrô dali! Elas levam pão com manteiga, atiram os pedaços no poço, e choram diante dos latidos alegres de Pierrô.

Isso dura alguns dias, até que certa manhã, ao atirar o pão, elas ouvem um latido mais forte. Alguém jogou outro cão, um cão dos grandes, no poço! Cada pedaço de pão que atiram provoca um alarido lá embaixo, e ganidos de dor que elas reconhecem. Gritam: “É para você, Pierrô!”, mas de nada adianta.

E por fim a viúva diz, em tom ácido: “ – Absolutamente não posso alimentar todos os cachorros que forem jogados aí dentro. Temos de desistir. – E, indignada ante a idéia de uma porção de cachorros vivendo à sua custa, ela se retirou, levando consigo o resto do pão, que comeu, enquanto caminhava”.

C’est la vie! As autoridades não detestam os pobres; pelo contrário, têm boas intenções para com eles, e, se pudessem, fariam de tudo para ajudá-los. O problema é que pobre dá muita despesa e pouco lucro, então é melhor empurrar a todos para o fundo de um poço, a encosta de um barranco, a periferia de um subúrbio.

Quando os sentimentos humanitários botam a cabeça de fora, as autoridades começam a enviar dinheiro para os pobres, mas no meio do caminho aparece um cachorro grande, insaciável, que devora tudo. Por mais que as autoridades gritem: “É para vocês, pobres!”, o cachorro grande se atravessa. E elas nada podem fazer, porque quem botou o cachorro grande ali foi, sem dúvida, outra autoridade.







domingo, 9 de março de 2008

0123) Os pobres (13.8.2003)

Falei dias atrás que os ricos são generosos. Mais generosos ainda são os pobres, e não falo dos mendigos ou miseráveis; falo dos pobres, os que conhecem a angústia e a responsa de possuir alguma coisa. Um rico pode dar-nos de presente uma BMW ou uma casa de campo sem que isto abale o seu saldo médio; já um pobre, quando reparte seu almoço, está nos dando metade do que tem. A concentração de valor nas posses de um pobre é uma coisa que até assusta, porque um pires quebrado talvez só possa ser reposto no ano que vem, e se o leite que está no fogo derramar, babau. Um cara que mora num barraco nas Malvinas está, do ponto de vista dele, mais cercado de preciosidades insubstituíveis do que o zelador do Louvre.

A literatura de esquerda contribuiu muito para criar uma imagem idealizada dos pobres, através da repetição de verdades parciais como “todo pobre é explorado”, “todo pobre é honesto”, “todo pobre quer melhorar de vida”, e assim por diante. Pobre não é tão simples assim; até por uma questão de loteria genética, qualquer pobre é tão complexo e contraditório quanto um playboy de F. Scott Fitzgerald ou uma marquesa de Proust. Seria extremamente educativo se pudéssemos criar um Museu da Imagem e do Som só com depoimentos de brasileiros de esquerda que, nas décadas de 1960-70, largaram seus apartamentos de classe média para trabalhar junto ao Povo, e acabaram descobrindo que o Povo não era nada do que tinham imaginado nos livros.

Os ricos, quando querem aventura e adrenalina, vão escalar o Vesúvio ou caçar rinocerontes em Uganda. O pobre produz a mesma adrenalina encarando o transporte, o batente, o patrão, as contas no fim do mês. Uma vez eu conversava num táxi sobre esses assuntos gerais – falta de grana, falta de trabalho, despesas acumuladas – e o taxista disse: “Pois olhe, nesses últimos dez anos eu só conheci duas situações: cabeça dentro dágua, cabeça fora dágua, cabeça dentro dágua de novo...” Vida de pobre é uma decisão de campeonato por dia. São três horas de ida, oito de trabalho, três horas de volta, e ao adormecer ele pensa: “Obá! Nem fui demitido hoje!” Enquanto ele mantiver a cabeça fora dágua, tem todos os motivos para comemorar.

O sujeito que se mantém honesto quando pobre dificilmente deixa de sê-lo se enriquecer; por isso a indústria da propina e do suborno é tão maléfica quanto a da droga. Subornar um guarda com 10 reais é como levar uma mulher para a cama por 10 reais; depois que ela aceita, daí para a frente é só questão de discutir preço. O cara embolsa a grana, mas deixa de ser pobre, começa a virar miserável. O miserável é o pobre que perdeu os valores, perdeu o rumo, perdeu o sentido, o planejamento, a esperança. Um miserável é como o time que percebe que perdeu a decisão do campeonato, e agora só pensa em acabar o jogo com um sururu. Um miserável é capaz de matar para tirar um real de alguém. Um pobre não; mas é capaz de morrer pra defender o derradeiro real que traz no bolso.