quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

5221) A cidade apaga as suas luzes (18.2.3036)

 



A cidade apaga as suas luzes

pouco a pouco, como um corpo

desliga suas funções e amolece

sobre os lençóis amassados.

A cidade não quer dormir, mas dorme.

Amanhã os semi-escravos rolarão no trem,

no ônibus, no metrô, e agradecerão

por mais um dia de prisão perpétua.

 

Hoje, contudo, a cidade ordena que durmam.

Precisam estar a postos logo cedo,

os corpos repousados, refeitos, dispostos

a rodar a manivela da cidade.

 

Por isso a noite não perdoa

e os que não chegaram em casa a tempo

dormirão nas calçadas, na plataforma do trem,

no batente da loja, no cascalho da pracinha,

sobre o capô dos carros e a lona das carroças,

corpos caídos, encolhidos, fetais,

toda a cidade coberta por um tapete de corpos,

trabalhadores abatidos que ressonam,

vigiados pela lua-holofote;

tombaram roncando a caminho de casa

e acordarão aos bocejos com o novo sol.

Dali mesmo retornarão para as engrenagens

agradecendo aos maquinistas

o privilégio de ter vida e sangue para dar.

E levarão nos braços a pedra-travesseiro

e na roupa a fuligem do orvalho.