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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

5216) O "Frankenstein" de Del Toro (8.1.2026)



 
Existem algumas centenas de monstros-de-Frankenstein espalhados pelo cinema, pela literatura, pelas artes gráficas. O cientista criado por Mary Shelley, o doutor Victor Frankenstein, descobriu um ovo de Colombo: a capacidade inesgotável de criar um ser a partir de pedaços de outras criaturas. 
 
O mito de Frankenstein completou duzentos anos (o livro original de Mary Shelley é de 1818) e nada indica que esteja se esgotando. Cada escritor, desenhista ou cineasta retalha pedaços das obras alheias e com eles compõe a sua. “Frankenstein” é, de certo modo, uma vasta metáfora da reciclagem, da pirataria, da canibalização (reutilização de obras já existentes, em outro contexto), da colagem de pedaços alheios para produzir uma criatura monstruosa que em princípio nem sequer conseguiria estar viva. “E no entanto ela se move.” 



(Ilustração de Theodor von Holst para a edição de 1831 do livro)

 
O inglês Brian Aldiss advoga, desde a primeira edição de seu estudo Billion Year Spree, que a ficção científica começou com o livro de Mary Shelley, e tem bons argumentos para isto. Aldiss define assim o gênero: 
 
A ficção científica é a busca de uma definição do homem e de seu status no universo, baseada em nosso atual estágio de conhecimento (avançado, ainda que confuso) e é tipicamente delineada no modo Gótico ou pós-Gótico.
(The Encyclopedia of Science Fiction, trad. BT) 
 
Há um número espantoso de histórias de FC que de científicas têm apenas a superfície, a parafernália, os adereços. Estão a anos-luz de distância da mais básica verossimilhança científica. Parecem ignorar o método científico. Passam por cima de verdades científicas básicas, sem o menor constrangimento. Por exemplo: histórias de espaçonaves mais rápidas que a luz, ou histórias de máquinas do tempo. 
 
São fantasias científicas, na verdade. Histórias desbragadamente fantásticas que pedem emprestados os figurinos da Ciência, não para ridicularizá-la, mas para imaginar melhor, alcançar outras regiões do pensamento. 
 
E algumas dessas histórias usam de maneira até exagerada certas convenções da literatura Gótica, como sugere Aldiss. A impressão de que o mundo é governado por forças inexplicáveis (e isto não se refere nem a Deus nem ao Diabo). A sensação de pequenez e de impotência do ser humano diante de um universo hostil. A carga e o peso de uma culpa cósmica, um pecado original que não se refere ao critério religioso, mas ao simples fato de existir. 



(Guillermo Del Toro) 

 
Uma narrativa está vibrando num diapasão Gótico quando nela se verifica uma invasão trágica do sobrenatural no mundo físico, e uma invasão do Passado no Presente. 
 
E nas histórias de Ciência Gótica, essa invasão se dá mediante o uso alucinado da Ciência, o seu uso arrogante, egocêntrico, desafiador, o uso de quem tenta ultrapassar limites, fazer o que não pode ser feito. Daí que o título original do livro de Mary Shelley seja: Frankenstein, ou O Prometeu moderno. A ciência é um desafio aos deuses. 


A imaginação visual de Guillermo Del Toro parece feita sob medida para esses temas, e o seu Frankenstein está à altura da riqueza visual de seus outros filmes, em termos de direção de arte, cenografia, fotografia, iluminação, etc. Numa entrevista, o diretor lembra que o laboratório do Dr. Victor Frankenstein não é descrito no livro de Mary Shelley. É uma criação do cinema e das artes visuais. Uma criação que não cessa se se ampliar e se enriquecer, como este filme demonstra. 



 
(A Noiva de Frankenstein, 1935)

 
Del Toro comenta também que para ele o filme é uma fábula da paternidade, da relação pai/filho. Diz que se tivesse feito o filme vinte anos atrás, estaria falando de sua relação com seu pai; fazendo-o agora, está falando disto, mas também de sua relação com seus filhos. 
 
O que não deixa de lembrar o conto de Jorge Luís Borges “As Ruínas Circulares” (em Ficções, 1944), onde um mago se dedica a sonhar um ser humano, imaginá-lo mentalmente com tal intensidade que será capaz de dar-lhe existência física: 
 
Todo pai se preocupa com o destino de um filho que gerou (que permitiu) num momento de mera vertigem ou êxtase; era natural que o mago se preocupasse com a sorte desse filho, pensado entranha por entranha, detalhe por detalhe, ao longo de mil e uma secretas noites. (trad. BT)

 




Na lenda de Frankenstein a tragédia se desencadeia pela hubris do cientista, que se decepciona com sua criatura, acha-a disforme, rudimentar, monstruosa, indigna do gênio que a criou. 
 
A criatura sempre se rebela contra o criador?  O criador sempre subestima o poder da criatura?  O criador acaba sempre por desdenhar a criatura?
 
Robert Ryan (em The Penguin Encyclopedia of Horror and the Supernatural) faz um comentário muito afinado com o filme de Del Toro: 
 
Se [o Frankenstein de Mary Shelley] era de fato um protesto ou um alerta consciente, não o era contra a tecnologia em si, mas contra a tendência humana de deixar a tecnologia à vontade para criar ou descobrir sua própria ordem natural. O pecado de Victor Frankenstein não é sua criatividade, mas sua falta de empatia e de responsabilidade moral. O problema, sugeria Shelley, não é que as nossas invenções sejam refratárias ao nosso controle, mas que nós perdemos a motivação para as controlar e para lhes impor uma ordem humana capaz de refletir nossos melhores valores e ideais. (p. 161, trad. BT)
 
Talvez o monstro mais frankensteiniano produzido pela Ciência de hoje seja a Inteligência Artificial.
 
Ela também é fruto de um laboratório caríssimo, só que agora um projeto coletivo, faraônico, espalhado por todo o planeta, trabalhando em várias frentes simultâneas (ChatGPT, DeepSeek, Grok, Gemini, Midjourney...). 
 
É também um processo que se dedica também a retalhar e recombinar pedaços de uma cultura que já existe. Frankenstein recolhia e recombinava partes de cadáveres. A I. A. recolhe e recombina, inclusive, obras ainda em catálogo, de autores ainda vivos. 
 
As reações diante desse novo “monstro” variam: existe a fascinação temerosa, a exploração oportunista, e o desdém intelectual diante de algo que julgamos “incapaz de um dia possuir uma inteligência igual à nossa”. 
 
Enquanto isto, as I. A. vão proliferando, desenvolvendo-se numa rapidez quase exponencial, acumulando erros, acumulando acertos, incorporando lições, desenvolvendo um tipo de inteligência que aos poucos, em vez de tentar imitar a nossa, procurará se afastar dela, desenvolver as vantagens que têm em relação a nós, e contornar os aspectos em que lhe somos superiores. 
 
A criatura verá com que olhos os seus criadores? 
 



 






quinta-feira, 13 de março de 2025

5161) Lord Byron, Drácula, Frankenstein (13.3.2025)



 
Estou há quase um mês atracado com o livro Byron: poemas, cartas, diários, &c (Perspectiva, 2025) de André Vallias, que fez a organização, tradução e introdução ao volume. 
 
São 640 páginas que podem ajudar muito a trazer de volta às discussões literárias o nome de George Gordon, Lord Byron (1788-1824), morto aos 36 anos,  protagonista de uma vida movimentada e errante, e um dos poetas mais famosos da Europa em sua época. 
 
Antes de curtir os poemas, estou lendo a parte biográfica do livro, que tem uma longa introdução de André Vallias, e depois numerosas cartas, trechos de diários e documentos do próprio Byron. 
 
Conhecido como grande poeta, Byron é uma espécie de patrono invisível da literatura fantástica e da ficção científica. 
 
Isto não transparece em suas cartas e diários, que se concentram em questões práticas (dinheiro, namoros, viagens) e políticas – ele se envolveu em guerras nacionalistas tanto na Itália quanto na Grécia, onde acabou morrendo, de morte natural. 
 
A ligação de Byron com a literatura fantástica se dá principalmente pelo famoso episódio de junho de 1916, quando ele estava hospedado em Genebra, na mansão conhecida como Villa Diodati, em companhia do casal Percy e Mary Shelley, do médico John Polidori e de Claire Clairmont, irmã adotiva de Mary. 



(Noiva de Frankenstein, de James Whale, 1935: “Mary Shelley”, Elsa Lanchester; “Lord Byron”, Gavin Gordon; e “Percy Shelley”, Douglas Walton)
 
 
É um episódio célebre da história da Literatura, muitas vezes adaptado pela ficção e pelo cinema. Era um verão chuvoso. O grupo estava discutindo questões filosóficas e lendo histórias de terror, principalmente a coletânea alemã (traduzida ao francês) Fantasmagoriana, ou Recueil d'histoires d'apparitions de spectres, revenants, fantômes, etc., traduit de l'allemand par un amateur
 
Byron propôs que cada um do grupo escrevesse uma “história de fantasmas”, e várias narrativas começaram a ser escritas naquela noite. O próprio Byron deixou um texto incompleto conhecido hoje como Fragment of a Novel – a história da morte e sepultamento de um homem que, de acordo com a idéia inicial, deveria aparecer depois em outro país, vivo e ativo. 
 
Byron não chegou a concluir o conto, que trazia em si a idéia do vampiro, o morto aparente que depois se revela estar vivo. André Vallias informa (p. 22) que a tradução “Fragmento de Novela” foi publicada no Brasil na antologia Contos Clássicos de Vampiro (Ed. Hedra, São Paulo, 2010), organizada por Bruno Costa, com tradução de Marta Chiarelli. Byron já havia explorado o tema no poema O Giaour, de 1813; mas na verdade nunca demonstrou grande interesse por ele. 
 
O tema do vampiro – um personagem notório do folclore europeu – foi retomado por John Polidori. Ele aproveitou inclusive o nome do personagem de Byron para sua novela O Vampiro (1819), que Christopher Frayling disse ser “a primeira história que conseguiu fundir com sucesso os elementos díspares do vampirismo num gênero literário coerente”. Uma tradução brasileira do texto de Polidori está na ótima antologia O Vampiro Antes de Drácula (Ed. Aleph, São Paulo), organizada por Martha Argel e Humberto Moura Neto. 




O texto mais importante a resultar dessa noite foi sem dúvida o Frankenstein de Mary Shelley, cuja primeira edição (1818) saiu anonimamente, fazendo algumas pessoas atribuírem o livro ao pai de Mary (William Godwin) ou ao seu marido (Percy Shelley). 
 
Essa bifurcação temática faz com que Byron tenha sido, pelo menos por um impulso inicial, um inspirador tanto do personagem “Drácula” quanto do personagem “Frankenstein” – e neste caso, da literatura de ficção científica, que para muitos historiadores, como Brian Aldiss, começa em 1818 com a obra de Mary Shelley. 
 
Byron escreveu em 1819:
 
A história do acordo para escrever os livros de fantasmas é verdadeira – mas as Senhoras não são irmãs – uma é filha de Godwin com Mary Wollstonecraft – e a outra é filha da atual Sra. Godwin com um marido anterior. Tanto para a história do “incesto” do canalha Southey – nem houve qualquer relação promíscua, ambas são invenções do execrável vilão Southey – a quem chamarei assim tão publicamente quanto ele merece. – Mary Godwin (agora Sra. Shelley) escreveu “Frankenstein” – que você resenhou pensando ser de Shelley – acho que é um trabalho maravilhoso para uma garota de dezenove anos – nem ainda dezenove, na verdade – naquela época. 
(Carta a John Murray, 15-5-1819, em Byron, trad. André Vallias, p. 425-426)
 
Byron paira como um espírito inspirador por cima da narrativa fantástica inglesa, onde o tipo chamado ”o Herói Byroniano” ganhou uma projeção que vai muito além, talvez, da projeção dos seus próprios versos.  O Lord foi sucesso de vendas na sua juventude: O Corsário (1814) vendeu dez mil exemplares no primeiro dia de lançamento. 



No capítulo 5  de A Heritage of Horror: The English Gothic Cinema 1946-1972 (New York: Avon Books, 1974), David Pirie esmiuça o modo como a personalidade do Lord se impregnou na cultura inglesa, independentemente de seus poemas. 
 
Ele cita Herbert Read em Surrealism and the Romantic Principle:
 
E o calafrio moral que o simples nome de Byron provoca nos lares burgueses viria a ser intensificado por nossa aclamação. Byron não é, por medida alguma, um poeta surrealista; mas é uma personalidade surrealista. Ele é o único poeta inglês  capaz de ocupar, em nossa hierarquia, a posição ocupada na França pelo Marquês de Sade. 
(trad. BT)
 
Bonitão, rico, perdulário, bissexual, erudito, carismático, dono de um verso fluente e acessível, Lord Byron foi idolatrado e odiado a ponto de fugir da Inglaterra e nunca mais voltar. Construiu, meio por impulso, meio de improviso, meio por arrogância juvenil, uma persona dentro da qual desapareceu. 
 
Diz David Pirie:
 
O Vampiro [de John Polidori] revela a ligação entre Byron e Drácula de tal modo que torna-se impossível não vê-los como parentes literários; porque o romance de Stoker trouxe, para o consumo popular de sua época, a estirpe do Aristocrata Fatal com olhos penetrantes e ambições mortais, que Byron já havia capturado das páginas de Mrs. Radcliffe e transformado num culto a um personagem. (trad. BT) 
 
Ele encarnou em muitos aspectos o herói romântico de sua época, inclusive em sua fascinação pelas terras exóticas. Perseguido na Inglaterra por seu comportamento chocante e por dívidas, chegou a cogitar em 1822 mudar-se para a América do Sul. Apoiou os italianos em sua luta nacionalista e depois rumou para a Grécia, com dinheiro, armas e disposição para ajudar os gregos na luta por sua independência do Império Otomano. 



(Christopher Lee, o vampiro byroniano)

 
Sob este aspecto é bom lembrar o discurso nacionalista do Conde Drácula no filme de Jesse Franco Count Dracula (1970). Quando inquirido por Jonathan Harker, o Conde é tomado por um acesso de orgulho guerreiro, e diz que foram os Dráculas que se opuseram a invasões sucessivas, ao longo dos séculos, de exércitos estrangeiros que não conseguiram submeter aquele recanto obscuro da Europa. 
 
Aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=rZJ49vOD64s
 
Byron cultivava esse impulso romântico de defender os underdogs contra os poderosos, os Davis contra os Golias, os pequenos bandos de guerrilheiros contra os exércitos, os idealistas contra os legalistas – seu primeiro discurso na Câmara dos Lordes em 1812 (transcrito no livro) foi a favor dos “luditas” que quebravam teares, e contra o projeto de lei que os condenava à morte. 



(Ada Lovelace)

 
Um último elo de Byron com a literatura de FC é bastante indireto mas não menos significativo. Sua única filha legítima (com Annabella Milbanke) foi a famosa Ada Lovelace (1815-1852), uma personagem crucial na história da computação e da informática, citada em numerosos romances de FC, entre eles A Máquina Diferencial (1991) de William Gibson e Bruce Sterling. 
 
Essa relação ganharia um ângulo novo e interessante com o romance da recriação de Byron por Inteligência Artificial, Conversações Com Lord Byron Sobre Perversão, 164 Anos Depois de Sua Morte, de Amanda Prantera, que comentei mais detalhadamente aqui: 
 
https://mundofantasmo.blogspot.com/2021/07/4720-mente-cibernetica-de-lord-byron.html
 
No próximo dia 25 de março, terça-feira, estarei conversando com André Vallias, na Livraria Travessa, de Ipanema, a partir das 19:00, sobre o seu livro Byron, tradução poética, vida e aventuras do Lorde e outros assuntos que sobrevenham. 



(A Villa Diodati, em Genebra)



 
 
 
 
 




quarta-feira, 7 de outubro de 2015

3939) O Duplo (8.10.2015)



(o ator Richard Mansfield como "Jekyll e Hyde")

O duplo é uma figura familiar a quem se interessa pela narrativa fantástica. Ele é chamado de “double”, de “Doppelganger”; é o reflexo no espelho, é o Outro... O conceito é rico, e por isso mesmo acaba acumulando variantes, nem todas com o mesmo DNA ou seguindo a mesma lógica. Nem todo conjunto de dois personagens muito próximos ou muito parecidos tem a mesma dinâmica, a mesma hierarquia de relacionamento. São dois. Mas são dois que obedecem a diferentes sintaxes de dramaturgia (não sei se o termo é absurdo, mas vá lá). O retrato de Dorian Gray é um duplo dele, mas em circunstâncias muito diferentes, por exemplo, do modo como a imagem do Estudante de Praga, também um “Duplo”, que sai do espelho para cometer crimes em nome dele.

Na noveleta famosa de R. L. Stevenson, a relação entre o Dr. Jekyll e Mr. Hyde não exprime o conceito do “duplo” no sentido de uma “aparente duplicação de um indivíduo, com variados graus de semelhança”. É uma relação de Criador e Criatura (que aliás não existe nos exemplos acima). O dr. Jekyll cria cientificamente o seu opositor. Sua narrativa tem o DNA da história do Dr. Frankenstein e o monstro que ele faz surgir em seu laboratório.

O erro mais frequente nas interpretações desse livro é opor um Jekyll bom a um Hyde mau. Ouve-se às vezes por aí algo na linha de “Fulano de Tal exibe a bondade e a pureza de um dr. Jekyll, mas dentro dele se esconde um Mr. Hyde.”  Bondade e pureza não se aplicariam nem a Jekyll nem a Victor Frankenstein. Talvez arrogância, hubris, descaso com precauções. No caso de Stevenson, ele indica Hyde como um inimigo de Jekyll, mas parece sugerir que ele é uma droga, um vício secreto com que o doutor se diverte mas quando menos espera tudo está a ponto de se tornar público.

O médico ilibado e o sadista de rua não são reflexos ou réplicas um do outro no sentido em que o são, p. ex., os sósias e xarás do conto “William Wilson” de Edgar Poe. Aí, sim, existe um espelhamento distorcido. Cada um é espelho do outro, com diferenças essenciais. A leitura moralista diria que um era a má consciência do outro. Mais interessante é notar que dois sósias, de nome igual, estudando no mesmo colégio têm que se autodestruir, como duas partículas subatômicas contrárias.

A ficção científica pegou esse conceito do Duplo e propôs o Múltiplo. E daí pôs em movimento caravanas de clones, de vítimas de duplicadores moleculares, de viajantes no Tempo arrastados num remanso onde acabam se chocando com versões alternativas de si mesmos. O William Wilson justiceiro podia ser uma versão eu-sou-você-amanhã do WW “frívolo peralta”.  Cada Duplo se rege por leis diferentes.



sábado, 16 de novembro de 2013

3345) Lord Byron's Night (16.11.2013)



(foto: Dani Barcellos)

Estive na 59a. Feira do Livro de Porto Alegre, para dois compromissos dentro do evento Tu Frankenstein, dedicado à literatura fantástica. O primeiro, um bate-papo com Duda Falcão e João Pedro Fleck, organizadores do evento, e os tradutores César Alcázar e Guilherme Braga. O outro, um desafio curioso. Como sabem os fãs da literatura de terror, em 1816 os poetas Lord Byron e Percy Shelley (este com sua noiva Mary) se encontraram na mansão do primeiro, às margens do Lago Genève (ou Lago Leman), na Suíça. Numa noite chuvosa, eles e mais alguns convidados propuseram uns aos outros o desafio de cada um escrever uma história de terror. Algum tempo depois, surgiram dois clássicos da literatura fantástica: O Vampiro, de John Polidori (um dos amigos presentes, e médico pessoal de Byron) e Frankenstein, ou o Moderno Prometeu de Mary Shelley.

O desafio gaúcho, chamado informalmente “Lord Byron’s Night”, consistiu em colocar 18 escritores para passar uma noite em claro dentro da Biblioteca Pública de Porto Alegre (que está fechada para restauração), sem poder sair, sem conexão de Internet, da noite do sábado até o amanhecer do domingo, com o compromisso de cada um entregar, no fim do prazo, um conto de terror. Temas e ambientação foram deixados a cargo de cada um; a única exigência era que a Biblioteca aparecesse, fosse como local da história (em parte ou no todo), ou por conter uma livro ou documento que iria desencadear o enredo, etc. No andar térreo, um bufê com sanduíches, salgados, refrigerantes, café e cerveja – para manter todo mundo inspirado e desperto.

A Biblioteca é mais antiga, mas o prédio atual, em reforma, é de 1922, e tem paredes, tetos e decoração extremamente interessantes. Iluminação indireta criava um ambiente soturno. O grupo de escritores incluía os argentinos Federico Andahazi (autor de O Anatomista) e Gustavo Nielsen, o francês Alexis Aubenque, os norte-americanos Sean Branney e Christopher Kastensmidt (este radicado no Brasil há 12 anos), e os brasileiros Felipe Guerra, João Pedro Fleck, Duda Falcão, Marcelo Amado, Celly Borges, Guilherme Braga, Cesar Alcázar, Carlos Patati, Bráulio Tavares, Simone Saueressig, Felipe Castilho, Max Mallmann e Carlos André Moreira. Os contos deverão ser reunidos numa antologia com lançamento previsto para a 60a. Feira, daqui a um ano.

Foi uma rara sensação passar a noite escrevendo, cercado pelo tlec-tlec de 17 notebooks, com pausas de hora em hora para um café e um bate-papo com os colegas, e produzir, das 21 horas às 3 da manhã, um conto de 3.200 palavras, num regime de total improviso (eu não sabia o que ia escrever até digitar a primeira frase).


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

2998) O autor anônimo (9.10.2012)





A questão dos direitos autorais está ligada, de um lado, à remuneração do trabalho do autor (aspecto material) e a um aspecto que poderíamos chamar imaterial ou simbólico, que é referido nos contratos como “o direito de ser reconhecido como o autor da obra X”. Este é um aspecto interessante porque implica numa vantagem (se não o fosse, não seria reivindicado pelos autores), mas uma vantagem de caráter abstrato. Esse direito e essa vantagem nos parecem indiscutíveis, mas a verdade é que, pelo menos na literatura, nem sempre havia a pressuposição tácita de que o autor gostaria de se identificado com a obra. Às vezes, entretanto, o autor preferia ficar na sombra.

Edgar Allan Poe publicou em 1837 seu primeiro livro, Tamerlane and other poems, assinando-se como “Um bostoniano”. Talvez uma tentativa de sentir-se mais integrado à população de Boston, cidade onde nasceu e com quem manteve uma relação de amor e ódio. Talvez por ter apenas 18 anos, estar servindo ao Exército sob nome falso (“Edgar Perry”) e não querer chamar atenção sobre si próprio. Sempre achei este episódio semelhante ao que ocorreu com Manuel Antonio de Almeida, que publicou em 1852 as Memórias de um Sargento de  Milícias, assinando-se como “Um brasileiro”. Por que?  Já li num ensaio ou prefácio que Almeida limitou-se, como jornalista, a escutar as histórias narradas por um personagem real, e as transpôs para o livro sem muita interferência.. Por isso sentia-se meio desconfortável em apresentar-se publicamente como o inventor daquilo tudo, coisa que não era.

Folheando uma reedição recente do Frankenstein de Mary Shelley vi uma reprodução da página de rosto da edição original de 1818, em três volumes.  O livro saiu sem menção ao autor, o que só ocorreu da segunda edição em diante. Pelo fato de ser uma mulher?  Talvez, mas o livro era prefaciado por Percy Shelley (marido da autora) e trazia uma dedicatória ao pai dela, o filósofo William Godwin.  Hoje em dia, um livro que saia sem indicação do autor, mesmo um nome falso ou um pseudônimo, é quase inimaginável. Livros anônimos são, às vezes, livros que podem produzir reações polêmicas, como os Vestígios da História Natural da Criação, que Robert Chambers publicou anonimamente em 1844, com uma teoria cósmica da evolução.

Entre o autor que receia ser revelado e o autor que não faz a menor questão de ser conhecido vai uma grande distância. Se tomássemos no seu sentido mais amplo as palavra “história” e “canção”, e fosse feito um balanço de muitos séculos, veríamos que numa espantosa percentagem delas nunca se veio a saber quem foi o seu criador.