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domingo, 15 de setembro de 2019

4503) "O senhor acredita na realidade?..." (15.9.2019)




Uma vez, depois de uma mesa-redonda sobre temas ligados a religião, fé, etc., alguém me perguntou: “Por que você não acredita na existência de Outro Mundo?”, e eu disse: “Eu não consigo acreditar nem sequer neste, quanto mais num que eu nunca vi!...”

Um cético nem sempre é um cara aferrado à realidade. Às vezes é um cara que precisa de comprovações muito rigorosas. E se ele sente que o mundo de cá está em falta, o que dizer de um mundo com o qual ele nunca teve nenhum contato?

Não que eu seja tão cético assim, e na verdade tenho uma certa medula sertaneja que me leva a ser prático, aceitar as coisas como elas parecem ser, e botar açúcar no café, mesmo admitindo a possibilidade de que ambos não passem de ilusões berkeleyanas do meu espírito.

A respeito disso, tem uma história muito divertida a respeito dos filósofos Bertrand Russell e Rudolf Carnap. Os dois estavam num congresso filosófico discutindo sobre o “phaneron”, um conceito grego que designa o conjunto de nossas percepções sobre o mundo. Quando existe uma certa regularidade nessas percepções, construímos uma “ficção lógica” para afirmar que qualquer coisa existe: uma pedra, uma cadeira, uma casa, uma pessoa...

Porque não sabemos o que é o mundo – sabemos apenas o que percebemos dele, mas pode haver infinitas coisas que não percebemos. O exemplo na linguagem comum é o vento, que a gente não vê, mas deduz sua existência pelas coisas que ele move. (A resposta mais simples a essa questão é que a existência do vento não é percebida pela visão, mas o é pelo tato, assim como há coisa que o tato não percebe mas a visão sim, como as estrelas do céu.)

Há também o mundo microscópico, que era inacessível a nossa percepção, mas começou a fazer parte do nosso phaneron com o advento do microscópio, etc.


(Bertrand Russell e Rudolf Carnap)

Pois bem: certa vez os filósofos Bertrand Russell e Rudolf Carnap estavam debatendo esta questão, perante um auditório na Universidade de Chicago, e a certa altura Russell perguntou:

-- Professor Carnap: nossas esposas vieram conosco, e estão presentes aqui no auditório. Será que elas existem, de fato, ou devem ser consideradas meras ficções lógicas baseadas em regularidades existentes no phaneron de nós dois, seus maridos?

Foi uma pequena molecagem da parte de Russell, que tinha aquele humor britânico fundado em muita gentileza e cara-de-pau. É um argumento aparentemente irrespondível, e que me lembra uma boutade semelhante de Ariano Suassuna, que dizia:

-- Eu não gosto de Kant [o filósofo] e um dos motivos é esse. Ele dizia que nós não podemos afirmar a realidade exterior, que aquele jasmineiro é uma coisa para mim, outra para você, outra para ele. Mais do que isso, ele acreditava que eu nem sequer posso provar que a imagem que eu tenho corresponde ao real. (...)  É muito fácil você discutir se aquele jasmineiro, se a imagem daquele jasmineiro corresponde ou não ao real. O jasmineiro está quieto, no canto dele. Mas eu garanto que, se fosse uma onça que entrasse aqui, nem Kant iria perguntar se por acaso se tratava de uma correspondência com o real.
(Cadernos de Literatura, Instituto Moreira Salles, pag. 30)


O pragmatismo oncístico de Ariano ecoa o pragmatismo conjugal de Bertrand Russell. Tem certos aspectos da realidade que, por mais que a gente procure questionar filosoficamente, eles sempre dão um jeito de prevalecer e dizer, “pára com essa besteira, é claro que eu estou aqui.”

O mesmo problema – penso eu – pode lançar luz sobre o famoso Paradoxo de Aquiles e a Tartaruga, que já fez correr muita tinta de penas ilustres como a de Jorge Luís Borges e a de Douglas Hofstadter (Godel, Escher and Bach). É aquela antiga pegadinha onde o filósofo tenta nos convencer de que numa corrida entre “o velocípede Aquiles” (como se diz em algumas traduções de Ilíada) e uma tartaruga aquele jamais conseguiria ultrapassá-la. É claro que consegue. Mas é mais difícil provar isso teoricamente do que na prática.

O que todos esses problemas envolvem é um detalhe que foi levantado com justiça pelo professor Carnap, naquele debate com Russell. Queixou-se ele de que Russell estava tentando ser engraçadinho às suas custas, pois na verdade não se estava ali duvidando da existência das esposas de ninguém. O que eles dois (e todos os filósofos) procuram é algum tipo de certeza filosófica, uma prova argumental de que isto em que acreditam é verdadeiro. Querem uma prova filosófica irrefutável de que o mundo é real; e essa prova não existe.


(Bruno Latour)

Um artigo de Ava Kofman no New York Times conta os percalços filosóficos de Bruno Latour, um filósofo da Ciência que vem passeando há muitos anos nesses labirintos. Ela abre o artigo narrando como Latour estava no Brasil em 1996, participando de um simpósio, e um ansioso psicólogo conseguiu levá-lo para um lugar discreto e desfechar-lhe a pergunta: “Professor, o senhor acredita na realidade?...”


Parece piada de leitor de Philip K. Dick depois de algumas cervejas. Mas isso é o café-com-pão desses filósofos, que se veem forçados a esmiuçar as menores coisas na tentativa de provar o que parece óbvio a todo mundo.

O trabalho de Latour envolve uma longa tentativa de provar que os fatos científicos não existem por si sós: eles são o produto de uma rede (networtk) de instituições e práticas e grupos e debates e consensos, que os tornam inteligíveis e aceitos. Se essa rede de apoios sócio-culturais se romper ou se esvair, fica fácil provar qualquer coisa. Até que a Terra é plana.

A consciência científica é uma consciência social, comunitária. Ela pode ser sacudida de vez em quando pelos terremotos de um novo “conceptual breakthrough”, uma ruptura de conceitos para abarcar uma visão mais ampla – como o que Einstein fez com a Física, ampliando (e negando em alguns aspectos cruciais) o universo de Isaac Newton.

Ela pode também ser sacudida por terremotos de obscurantismo, como parece estar sucedendo agora, com a ascensão de grupos semi-letrados manipulados por gente interessada na devastação do meio ambiente, por exemplo. Ou na (impossível) eternização do modelo energético baseado no petróleo e nos motores a explosão.

Esses grupos se aproveitam de um certo torre-de-marfinismo da própria comunidade científica e começa a questionar coisas absurdamente óbvias – se a Terra gira em torno do Sol, ou se de fato existem micróbios. E se propõem, principalmente para milhões de jovens inconformados com isto ou aquilo, como “questionadores do status quo científico”, como rebeldes perseguidos pelo mundo acadêmico.

Filósofos e cientistas são capazes de questionar a existência de uma esposa ou de uma onça, pelo mero esforço intelectual de explorar uma pergunta até o fim (coisa que os semi-letrados detestam fazer). E é irônico que agora sejam forçados a ignorar perguntas como “O senhor acredita na realidade?”, que em sua aparente ingenuidade é uma pergunta crucial, para explicar o que nunca lhes passou pela cabeça ter que explicar – que é preciso tomar vacinas contra o sarampo, ou que não existem alienígenas reptilianos disfarçados de políticos ou banqueiros. (Se bem que esta última imagem seja a metáfora mais adequada que nosso inconsciente coletivo já produziu sobre estas duas categorias profissionais.)









domingo, 29 de janeiro de 2012

2779) A prova do real (29.1.2012)




(Bertrand Russell)

Distinguir entre o que é e o que não é real é, para os filósofos, um problema insolúvel e um passatempo inesgotável. 

É também um dos motivos que levam o cidadão comum, que lê jornal e anda de ônibus, a torcer o nariz para a atividade filosófica, que ele considera uma mistura de enxugar gelo e chover no molhado. O cidadão acha que não há motivo para ficar discutindo se o mundo existe, uma vez que se o mundo não existisse os próprios discutidores do assunto não estariam ali para discuti-lo. 

No passado, o Bispo Berkeley foi um dos grandes defensores do idealismo, da teoria de que o mundo existe apenas como uma idéia, uma espécie de alucinação consensual, dentro de nossas cabeças. Tudo é ilusão, dizia Berkeley. Seus detratores replicavam: “E no entanto o Bispo tem o saudável costume de entrar em sua residência pela porta, e não através da parede”.

Martin Gardner relata um debate divertido entre os filósofos Bertrand Russell e Rudolf Carnap, na Universidade de Chicago, sobre o “phaneron”, o mundo das percepções e dos fenômenos. 

O “phaneron” é tudo que vemos, tocamos, e sentimos; um conjunto de percepções. Nunca conseguiremos provar (ou desmentir) de maneira irrefutável se o que julgamos perceber existe de fato. Só sabemos do universo o que nossos sentidos nos revelam, mas eles podem estar enganados. (Só sabemos disso quando somos vítimas de uma alucinação, um delírio, etc.; desse dia em diante aprendemos a desconfiar do que vemos.)

No meio do debate, Bertrand Russell fez a Carnap a pergunta: 

-- Nossas esposas estão presentes aqui no auditório. Será que elas existem, de fato, ou devem ser consideradas meras ficções lógicas baseadas em regularidades existentes no phaneron de nós dois, seus maridos?

Comentando essa pergunta depois com Gardner, Carnap queixou-se: 

-- Mas não é disso que se trata.  

De fato, os filósofos não afirmam que o mundo não existe. Eles acreditam na existência do mundo, de suas esposas (!) e tudo o mais. Eles apenas gostariam de ter uma prova filosófica, ou seja, uma prova argumental, de que isto em que acreditam é uma verdade; e tal prova não existe.

Essa questão, antiga como o mundo, é talvez a questão mais importante do mundo. (Talvez não seja apenas a mais urgente – aí estão as guerras, as desigualdades sociais, etc., com muito mais urgência.) 

É a mais importante por ser a questão mais total, mais abrangente: ou tudo existe, ou tudo é ilusão. Todos nós já tivemos sonhos intensamente vívidos, que nos deram, enquanto duravam, uma intensa impressão de realidade. Como qualquer um de nós pode ter certeza de que não está sonhando, no momento em que escreve (ou que lê) estas linhas?






sábado, 8 de março de 2008

0099) O centauro, a catedral e a televisão (16.7.2003)



(Catedral de Rouen, com projeção luminosa)

A Arte de Ver é mais recente do que parece. Os gregos, por exemplo, não tinham o hábito de usar cavalos como montaria. Quando começaram a ver tribos de nômades a cavalo, julgaram que o torso daqueles homens emergia diretamente do corpo do animal, e assim surgiu a lenda do centauro. 

O que prova, pelo menos para mim, que é mais fácil inventar uma coisa impossível do que aceitar uma coisa com a qual não se está acostumado.

Algo parecido sucedeu na América. O cavalo era desconhecido em nosso continente, e os incas, astecas, etc. não entendiam por que motivo eles matavam metade daquele monstro e a outra metade se despregava da metade morta e continuava batalhando. 

Não adiantaria de nada chegar para os incas e gritar: “Vocês estão cometendo um erro conceitual!” Eles só enxergavam o que estavam preparados para enxergar.

Há um conto policial em que o detetive vê na neve as pegadas de um homem e uma mulher indo até a beira de um rio, e depois as pegadas do homem voltando sozinho. A dedução imediata é de que a mulher foi embora de barco, ou nadando. O detetive, contudo, observa que na volta as pegadas do homem estão mais profundas do que na ida, e que portanto ele voltou carregando o corpo da mulher nos braços.

Bertrand Russell disse certa vez que durante milênios os seres humanos pensavam numa junta de bois e num par de dias sem perceber que a ambos se aplicava o conceito de “dois”. 

Descobrir o conceito de número é uma coisa intelectualmente tão embriagante que tem gente que não pára nunca mais. Para alguns cérebros, transforma-se numa função exclusiva, atrofiando todo o resto. O “rain man” de Dustin Hoffman via uma caixa de fósforos ser derramada no chão e dizia de imediato: “Cinquenta e oito...” Ele via. Ele só via isso.

Às vezes enxergamos muitos sem perceber que estamos vendo apenas um. Foi o que sucedeu com Halley, que um dia se tocou que “aqueles cometas todos” que passavam era um só, voltando a intervalos regulares. 

Em outros casos, só conseguimos descrever adequadamente uma coisa se a considerarmos como duas. É o caso da luz, que tanto pode ser formada de ondas quanto de partículas, duas descrições que se auto-excluem, mas que parecem ambas corretas.

Conta uma historieta que um camponês levou certa vez à cidade seu filho pequeno, que nunca tinha saído da roça. Lá, foram à catedral, uma daquelas gigantescas catedrais góticas: Reims, algo assim. Quando voltaram para casa, a família pediu ao menino que descrevesse a catedral que tinha visto. Ele hesitou, hesitou, e por fim pôs as mãos no chão, plantou uma bananeira, e ficou ali sem dizer uma palavra. Eu não conheço melhor descrição da experiência de entrar numa catedral gótica. 

Outro matuto, lembrado por Guimarães Rosa, ouviu a avó pedir-lhe que explicasse como era a tão falada televisão, e saiu-se com esta: “Vó já viu uma máquina de costura? Pois bem: a televisão é completamente diferente!”