Mostrando postagens com marcador Stanislaw Lem. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Stanislaw Lem. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 3 de março de 2022

4799) Os Revenantes, os fantasmas modernos (3.3.2022)




Escrevo de vez em quando sobre fantasmas, não porque acredite neles, mas justamente porque, não acreditando, fico incrível com a persistência desse visionarismo cultural em todos os tempos, em todas as culturas.
 
Na literatura de ficção, a história de fantasmas (ghost story), mesmo sendo tão sujeita a repetições e uso de fórmulas, oferece infinitas possibilidades dramatúrgicas. (Uso “dramaturgia” no sentido mais amplo de “criação de narrativas”; não necessariamente para o teatro.)
 
A principal limitação para a história de fantasmas, pelo meu juízo, é o fato de que a raiz da maioria delas é uma raiz meramente religiosa: a crença de que cada pessoa tem uma alma imortal e que, depois da morte do corpo, essa alma pode ser avistada pelos vivos, comunicar-se com eles, influir no seu comportamento.
 
Nada contra a hipótese religiosa, que é sempre uma fonte suculenta de inspiração. Mas eu tenho interesse especial por histórias de fantasmas onde a “aparição” não é a alma de um penitente em busca de consolo ou vingança, e sim – por exemplo – o resultado de uma fissura entre dois universos paralelos, fazendo com que pessoas de um sejam vistas no outro.
 
Seria uma hipótese mais científica, digamos, embora em termos rigorosamente científicos a existência de universos paralelos esteja tão longe de ser comprovada quanto a da alma imortal.
 
Uma variante que tem se desenvolvido nos anos mais recentes (embora com precedentes históricos um tanto antigões) é a dos revenantes, os retornados, os-que-voltaram. Pessoas oficialmente mortas que, de modo inexplicável, voltam à vida, mantendo características físicas e psicológicas que tinham antes, mantendo a memória de sua vida anterior, e tentando reintegrar-se ao mundo onde foram dados como falecidos.


O exemplo mais atual é o filme francês Les Revenants (2010) de Robin Campillo, que já foi ampliado para série de TV.  Ao ver esse filme, com seus defuntos que voltam à vida intactos, barbeados, limpos, de roupa limpa, mas amnésicos, me veio à mente a trilogia Southern Reach (2014) de Jeff VanderMeer. Comentei aqui essas duas obras:
 
 
Parecem-se um pouco com o clássico de ficção científica Solaris – livro de Stanislaw Lem (1961) e filme de Andrei Tarkovsky (1972).
 
Ali, também, pessoas mortas parecem voltar à vida meio desorientadas, sem lembrar onde estiveram, e sem saber direito o que estão fazendo ali. O protagonista deduz que elas são corpos formados por neutrinos, por influência do planeta Solaris, onde eles se encontram. O planeta acessa as lembranças mais profundas dos astronautas e as “esculpe” em matéria, dando-lhes vida.


No caso mais doloroso, é a esposa do cientista, que se suicidou porque o marido lhe dava pouca atenção. Ela volta agora, linda, jovem, carinhosa, sem saber o que lhe aconteceu, querendo afagos, e o cientista roendo-se em culpa, duplicada agora por esse retorno impossível mas real.
 
Na tradição mística oriental fala-se no conceito de tulpa. Uma tulpa, segundo os tibetanos, é uma réplica de um ser humano produzida pelo pensamento, uma projeção mental que se materializa em carne e osso. Um dos mais entusiasmados investigadores do Oculto, Colin Wilson, em Mysteries (Parte III, cap. 2) fala de pessoas que imaginaram criaturas assim, conseguiram materializá-las, mas depois perderam o controle sobre elas, tendo muito dificuldade para fazê-las desaparecer.



É nessa direção que a série Twin Peaks de David Lynch explora não apenas o reaparecimento de pessoas tidas como mortas mas também a multiplicação de réplicas de uma pessoa específica, como o Agente Cooper (Kyle MacLachlan).


Usos recentes do tema têm sido marcantes nas séries de TV. Katla  (série islandesa, uma temporada, 2021) mostra um povoado próximo a um vulcão em erupção contínua, e o reaparecimento não apenas de pessoas oficialmente mortas e sepultadas, mas de réplicas idênticas a pessoas vivas da região, que de uma hora para outra precisam encarar “clones” de si mesmas, que reivindicam para si os mesmos direitos.


Na literatura brasileira não é difícil encontrar exemplos, como o recente conto de Cristhiano Aguiar, “Lázaro” (em Gótico Nordestino, Alfaguara, 2022), em que os médicos tentam meio às pressas explicar por que razão pessoas mortas de Covid-19 começam a ressuscitar e retornar para a sociedade, que os chama de “lázaros”.

 
Roberto de Sousa Causo, em O Par – Uma Novela Amazônica (São Paulo: Humanitas, 2008), descreve uma Amazônia num futuro próximo, visitada por naves alienígenas e ocupada por forças militares. Um fenômeno estranho, deflagrado pela proximidade dos extraterrestres, faz com que no corpo de alguns indivíduos brotem “caroços” de rápido crescimento que acabam se desprendendo e se transformando em pessoas. No caso do protagonista, a falecida esposa, que passa a fazer-lhe companhia na mata.
 
Estão longe os tempos góticos quando os fantasmas eram silhuetas etéreas, ectoplásmicas, nuvens de brilho luminoso e lunar, produzindo gemidos distantes.
 
Os revenantes, os fantasmas modernos, são feitos de carne e osso, são feitos à imagem e semelhança de si mesmos. Os do filme francês surgem em casa intactos, de roupa limpa e passada (por quem?), corpos inteiros após anos de sepultura (como?).
 
E são materiais, mesmo que não sejam uma escultura de neutrinos como as aparições de Solaris. É como se no tempo de hoje, tempo do hiperrealismo nas fotos, dos vídeos de um milhão de pixels, dos clipezinhos em 5G, da tela-plana digital mostrando rugas e espinhas do âncora, precisássemos de fantasmas à altura desse excesso de realidade.
 
Fantasmas que acabam sendo uma espécie de deep-fake em três dimensões, e mais: com os arquivos de memória do defunto, porque esses revenantes conversam, voltam aos seus quartos, perguntam pela camisa tal, ou pelo livro que estavam lendo, abraçam seus cônjuges que os aceitam com um misto de desejo, saudade, repulsa e desespero.
 
Os fantasmas parecem vir de uma Matrix superposta a este mundo, e causam medo, não porque sejam agressivos ou ameaçadores, longe disso. Causam medo porque diante deles sabemos como são frágeis os nossos conceitos para definir o que é real, e o que não é.  


 
("Les Revenants", 2015)
 





sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

4659) Leituras de 2020 - parte 3 (1.1.2021)




Jorge Luis Borges dizia que só devemos ler por prazer, e se a leitura de um livro, mesmo o mais respeitável clássico, nos entedia, devemos largá-lo e pegar outro. Isso serve para o que chamo de leituras pessoais. Existem também as leituras de trabalho, os livros que preciso ler, goste ou não. Quando estou pesquisando algum tema especificamente literário, não me basta ler sobre o autor, preciso ler o que ele escreveu, por pior que seja.
 
Existem livros cuja leitura flui, e outros que não. Há livros que já peguei para ler mais de dez vezes, ao longo dos anos, e não consegui. São ruins? Não, muitos deles são clássicos da literatura, obras-primas indiscutíveis. Outros são de meus autores preferidos, mas cuja escrita, nesse título especificamente, não conseguiu me arrastar.
 
Outros são de amigos, e nada nos deixa com mais remorsos do que tentar ler o livro de um amigo e não conseguir. (Imagino que meus próprios livros já proporcionaram a alguém essa frustração; peço desculpas, e compreendo.)
 
Abaixo, comento alguns dos livros lidos em 2020 cuja leitura fluiu sem problemas. Outra coisa: nas minhas anotações, computo apenas os livros que li do começo ao fim. Mesmo livro de contos, artigos, poemas, etc., se só li uma parte, não anoto.


Peguei, apenas para consultar, as Memories and Adventures (1924) de Sir Arthur Conan Doyle. Um dos meus autores preferidos, e um livro que eu tinha há mais de vinte anos e até agora tinha achado a leitura chata. Desta vez, durante a consulta, acabei voltando ao início e não parei mais. Doyle é um inglesão à moda antiga, sólido, prático, patriota, tradicional. No livro, comenta várias de suas obras; repito que seus romances históricos e de FC são literariamente superiores aos livros de Sherlock Holmes.
 
Doyle comenta a certa altura que havia o hábito de serializar romances nas revistas semanais ou mensais, mas o lado negativo disso era que quando o leitor perdia um número ficava com uma lacuna na leitura. Ele considera ter sido o primeiro autor (e The Strand o primeiro periódico) a utilizar de forma deliberada o formato da série de aventuras semelhantes com um mesmo personagem, onde cada publicação contém uma história completa em si – o que ele e a revista puseram em prática a partir de 1887, com as aventuras de Sherlock e Watson.


Outra autora favorita é Ursula Le Guin, de quem li este ano dois títulos. The Other Wind (2001) é o quinto volume da série “Earthsea” a respeito deste arquipélago e da escola de magos de Roke Island. É um romance crepuscular, o último da série, pelo que entendo, em que os Magos e os Dragões de Terramar têm que firmar um pacto que envolve a aceitação da morte. Tales of Earthsea (2001) contém cinco histórias com episódios variados do ciclo, abrindo com “The Finder”, uma notável noveleta descrevendo como foi fundada a escola dos Magos, em Roke.


De outro autor que admiro muito, Stanislaw Lem, li o livro de memórias Highcastle: a Remembrance (1966), centrado na sua infância. Lem é um dos autores mais intelectuais da FC e está para a Polônia assim como Borges está para a Argentina. Sua obra gigantesca é parcialmente traduzida em inglês, e só uma dúzia de romances em português. Highcastle mostra a vidinha comum de um garoto de classe média em Lvov. São especialmente ácidos os seus comentários sobre as preparações militares dos adolescentes poloneses, ensaiando ordem-unida e exercícios militares com bastões em vez de rifles, até a invasão nazista em 1939.
 
Lem fala pouco sobre ficção científica (sobre a qual ele discorre longamente em coletâneas de ensaios como Microworlds (1984). Seu retrato de infância e adolescência entre-guerras é cheio de percepções sagazes e mostram como funciona sua mente observadora, metódica, ousada, ao mesmo tempo de grande objetividade e grande imaginação.



Por falar em ciência, uma leitura importante foi a de Sapiens (2012) de Yuval Harari, um best-seller recente que vem na linha dos grandes livros de Carl Sagan, Arthur C. Clarke ou Fritz Kahn (cujo O Livro da Natureza iluminou meus verdes anos). Harari dá uma geral na evolução da humanidade, e é muito importante a Parte 1, sobre a Revolução Cognitiva. O modo como a espécie humana criou os softwares de interpretação e modelagem da realidade, acompanhado pela linguagem, é uma coisa espantosa. A gente fala no Fogo, na Roda, etc., mas essa revolução que não deixou rastros físicos diretos foi a coisa mais fascinante.
 
O livro poderia se chamar “História da Inteligência Humana”, porque Harari expõe, com linguagem clara e simples, o quanto a civilização é uma ficção coletiva. Ele fala nas ficções jurídicas, nas ficções financeiras, nas ficções ideológicas, nas ficções empresariais. Nada disso tem existência concreta além das ações das pessoas que acreditam nelas. A civilização é um simples conjunto de narrativas (o termo está meio batido hoje; quem tiver um melhor, traga).
 
Na verdade, vivemos numa Matrix que não tem existência física, mas cuja existência abstrata é consenso de bilhões de pessoas que acreditam em Deus, em democracia, em dólar, em amor, em arte, em indivíduo... Alucinações coletivas (diria Philip K. Dick); Harari louva a capacidade do ser humano em “transmitir grandes quantidades de informação sobre coisas que não existem de fato, tais como espíritos tribais, nações, companhias de responsabilidade limitada e direitos humanos”.


Um romance de ficção científica que me impressionou foi Triton (1976) de Samuel R. Delany, um dos meus autores favoritos. Ele tem o subtítulo “Uma Heterotopia Ambígua”, e a ação transcorre quase toda numa lua de Júpiter, colonizada artificialmente, durante uma época de guerra.
 
Bron Hellstrom, o protagonista, é um funcionário mediano na administração local e se envolve com um grupo vanguardista de teatro-de-rua comandado por Spike, uma jovem atriz e dramaturga. Do encontro dos dois começam a sair fagulhas, porque acompanhando as ações de Bron durante as quase 400 páginas do livro vemos o delineamento da personalidade de um sujeito egocêntrico, determinado, inseguro, ousado, bem intencionado, catastroficamente desastroso em seus relacionamentos interpessoais.
 
Delany descreve com a riqueza de detalhes habitual a vida nessa ambiente high-tech, os hábitos, as roupas, as comidas, as práticas cotidianas: seus livros têm uma atenção sociológica constante ao recriar um mundo onde, aliás, as pessoas fazem cirurgias transexuais como nós aqui fazemos uma tatuagem.



Li alguns romances policiais importantes neste ano. Entre eles, um clássico que há anos eu tinha na fila: Death From a Top Hat (1938) de Clayton Rawson, um dos mestres do “crime impossível”. É o romance de estréia de Rawson e tornou-se um clássico, por ser o livro que explorou de maneira mais complexa (e cheia de reviravoltas inesperadas) a proximidade entre o romance policial e a magia de palco, com seus truques mecânicos e suas ilusões perceptivas.
 
Rawson introduziu neste livro O Grande Merlini, um mágico novaiorquino que se torna detetive para competir com criminosos que – no presente caso – estão assassinando os participantes de uma “grande noite” promovida pela Society of American Magicians. Não preciso dizer que cada um dos crimes é cometido da maneira mais complexa possível, bem ao estilo de Ellery Queen, John Dickson Carr e outros clássicos daquela época. O romance é uma antologia de efeitos e de truques; literariamente, talvez Rawson funcione melhor no âmbito do conto, onde suas idéias espantosamente simples e originais têm um impacto mais nítido, numa trama única e compacta que o leitor tem condições de visualizar.
 
Matei este ano a saudade de um dos escritores que mais gosto, Fredric Brown, que hoje parece ser mais conhecido pela sua ficção científica (sempre rápida, satírica, cheia de sacadas leves mas brilhantes) do que pelos seus romances policiais sempre ótimos.


É o caso de The Screaming Mimi (1949), um belo passeio pelo submundo de Chicago, por onde o repórter William Sweeney vagueia procurando um serial killer. A pista principal é uma estatueta de uma mulher gritando de terror, a “Mimi” do título. Sweeney é um desses detetives por conta própria capazes de se meter em confusões que um policial de uniforme evitaria a todo custo. O melhor, aqui, é o realismo sem-nonsense com que Brown descreve todas as peripécias e todos os ambientes da investigação, mesmo que pareçam absurdos às vezes. O clímax tem uma reviravolta de enredo típica de Brown, e um desfecho notável em que Sweeney, desarmado, precisa ficar falando durante horas diante do assassino para evitar ser morto.


Ainda melhor do que este é Madball (1953), onde Fredric Brown volta ao ambiente dos carnivals, aquele misto de circo e de parque-de-diversões ambulante tipicamente norte-americano. Numa narrativa em que cada capítulo salta para o ponto de vista de um personagem diferente, vemos os crimes violentos e os conflitos de interesse entre artistas, técnicos, agregados, cartomantes, dançarinas e toda a fauna humana de um carnival. O enredo: antes do início da narrativa, dois membros do carnival praticaram um roubo enorme e esconderam o dinheiro nas instalações do parque ambulante; logo em seguida, sofreram um acidente de carro em que um deles morre e o outro escapa, mas logo é assassinado. Começa então a caça ao tesouro: em que local do parque eles esconderam a grana?
 
Num livrinho de 192 páginas, Brown comprime uma narrativa rápida, vívida, cheia de personagens banais e marcantes. As cenas de sexo são indiretas mas com sensualidade e malícia. O desenho dos personagens é de uma riqueza inesperada nesse tipo de pulp fiction, que oscila sempre na corda-bamba entre melodrama criminal exagerado e realismo psicológico.


(continua nas próximas postagens)
 
 
 
 
 







quarta-feira, 14 de julho de 2010

2261) A estética do Logo Agora (6.6.2010)



O romance folhetim, cuja encarnação eletrônica de hoje é a telenovela, tem uma estética própria, baseada numa fascinante concepção do mundo. O folhetim joga alternadamente com a surpresa e a fatalidade, com o altamente improvável e o fatalmente inevitável, com o Acaso e o Destino. Comentando o conto de Jorge Luís Borges “A Loteria de Babilônia”, Stanislaw Lem observou certa vez: “Borges contrasta duas explicações do universo que são mutuamente excludentes: a sorte estatística e o determinismo total. Usualmente consideramos incompatíveis estas duas noções. Borges fala de um mundo cujo sistema se baseia numa loteria, e reconcilia duas explicações cosmológicas sem destruir as bases lógica de cada sistema”. De fato, no conto de Borges existe uma Companhia secreta e onipotente patrocinando uma loteria permanente, que distribui prêmios e castigos aos habitantes, seguindo um sistema cada vez mais complexo e abrangente. A Companhia interfere a tal ponto na vida cotidiana do povo que qualquer fato, por mais insignificante, pode ser consequência de uma ação dela, e mesmo quando um indivíduo toma uma decisão e pratica um ato qualquer não tem certeza se isto não lhe foi induzido pela Companhia.

O folhetim é a mesma coisa. Por isso é o reino da coincidência, do “deus ex machina”, das soluções artificiais para problemas dramatúrgicos. No folhetim, o autor é, mais do que em qualquer outro gênero, um Deus Caprichoso, faz o que lhe dá na telha, sem obedecer a nenhuma regra auto-imposta a não ser suas próprias venetas e sua própria necessidade de improvisar o tempo todo para que a história caminhe.

Isto me veio à mente ao ver na TV uma chamada para esta nova novela da Globo, Passione, em que Fernanda Montenegro, no papel de uma dama de negócios, recebe um recado urgente qualquer e exclama, contrariada: “Mas logo agora!” Esta é a exclamação típica da pessoa que se vê, de súbito, posta numa encruzilhada por dois fatos imprevistos, e precisa fazer uma escolha, tomar uma decisão (geralmente sem muito tempo para ficar ponderando). “Logo agora”, em termos narrativos, significa que o personagem não esperava aquilo, não contava com aquilo, não está nem um pouco confortável com esse fato caído do céu sobre o seu colo. Para ele, muitas vezes, é uma surpresa total. Geralmente não o é para o espectador, que está acompanhando as diversas subtramas do enredo e sabe que mais cedo ou mais tarde Fulano iria receber aquela notícia.

O folhetim requer complexidade (várias histórias entrelaçadas acontecendo ao mesmo tempo, e interferindo umas nas outras) e requer também que o espectador esteja na posição de um Deus intermediário, capaz de olhar do alto tudo que acontece com aquelas pessoas, capaz de saber mais sobre o que ocorre na vida delas do que qualquer uma delas. Acima dele, claro, está o último Deus, que é o Autor, ou A Companhia.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

2004) Orfeu em Solaris (11.8.2009)



(Orfeu)

No filme Solaris, de Andrei Tarkovsky, a jornada de Kris Kelvin é de certa forma uma jornada de Orfeu às avessas. Orfeu é o herói grego que penetrou no reino dos infernos para resgatar sua amada Eurídice e trazê-la de volta à vida. O deus dos infernos, Hades, atende seu pedido e diz que ele pode retornar à Terra, mas adverte que se durante o trajeto ele olhar para trás perderá Eurídice para sempre. Ora, em qualquer relato mitológico as proibições são feitas para serem desobedecidas. Orfeu, a certa altura da caminhada, começa a imaginar que Hades está trapaceando, e que ele na verdade está voltando sozinho para casa. Olha por cima do ombro... e vê Eurídice, que o seguia, desaparecer para sempre. (Não, leitor, não corra a consultar os gregos. Estou contando a versão que circula hoje. No original, vai ver que é diferente.)

Em Solaris (tanto no filme quanto no romance de Stanislaw Lem) o protagonista viaja para o planeta em busca de conhecimento. Na época (imprecisa) em que transcorre a história, já faz cerca de um século que a Humanidade descobriu o planeta Solaris, coberto por um oceano que já deu demonstrações de ser uma criatura pensante. (Imaginem um cérebro maior que os oceanos Atlântico e Pacífico somados.) Mas o contato tem sido impossível, porque o Oceano não dá mostras de perceber a presença dos humanos explorando sua superfície.

Kris Kelvin tem um nome que evoca tanto a religião (Cristo) quanto a ciência (Lord Kelvin, o físico britânico). Ele vai para o planeta em busca do conhecimento; quer decifrar o enigma de Solaris. Chegando lá, encontra na estação planetária uma réplica perfeita de sua falecida esposa, Harey, que se suicidou aos 19 anos. Fascinado mas cético, Kris a examina e descobre que ela não é um ser humano, e sim uma formação de neutrinos destinada a reproduzir (para os cinco sentidos) a pessoa que ele guardava na memória. A mulher parece ter amnésia: não sabe que morreu, não sabe como foi parar ali, sabe apenas que o ama e que quer ficar ao lado dele.

Kris é um Orfeu que foi parar no inferno, o Inferno dos Cientistas, que não é o dos tormentos físicos, mas o da incapacidade de compreender algo; e ali reencontra sua amada. Ele sabe que não é ela. Mas a réplica é tão perfeita que ele volta a se apaixonar. Os cientistas da Estação já chegaram à conclusão de que o Oceano é capaz de perscrutar seus inconscientes e materializar algo que esteja lá dentro, algo que pareça ser mais importante do que todo o resto. Eles se propõem a construir um desestabilizador de neutrinos, o que teria o poder de dissolver “Harey” em partículas subatômicas. E Kris acaba perdendo novamente sua amada, porque duvida, porque olha para trás. Ele sabe que ela não é de verdade, e permite que seja destruída. Prefere o conhecimento, mesmo precário, à ilusão do amor. Prefere destruir a cópia pirata, mesmo sabendo que o original foi perdido para sempre.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

1998) “Solaris” (4.8.2009)



Participei, no cineclube da Casa da Ciência da URRJ, de um debate sobre o filme Solaris de Andrei Tarkovsky. A obra de Tarkovsky foi relançado numa coleção de DVDs em que os filmes são complementados por discos com entrevistas, documentários e o “making of” de algumas obras. O diretor russo, falecido há alguns anos, é autor de um livro de ensaios sobre cinema, já traduzido no Brasil, intitulado Esculpir o Tempo. É uma boa definição para seu cinema, que valoriza o tempo dos personagens, das paisagens e das ações. Seus filmes têm um ritmo longo e largo, que provoca impaciência nos espectadores acostumados ao cinema em que uma nova cena surge na tela de 15 em 15 segundos. Tarkovsky gosta de planos complexos, com lentos movimentos de câmara, organizados em função dos deslocamentos sutis de seus personagens por um cenário que traz revelações à medida que nosso ponto de vista se desloca.

Solaris é um dos meus filmes de FC favoritos, assim como o romance de Stanislaw Lem, que lhe deu origem, é um dos meus livros favoritos. Solaris é um planeta que, depois de descoberto, torna-se o alvo principal das investigações da Humanidade, pois é coberto por um oceano de plasma que dá todos os indícios de ser uma criatura pensante. Entre outras coisas, o Oceano é capaz de corrigir a órbita do planeta, que gira em torno dos dois sóis. Violando as leis da física, o planeta otimiza sua órbita em torno dos sóis como se fosse manobrado por alguém. Durante um século, milhares de cientistas viajam para Solaris, fazem pesquisas intermináveis, mas não conseguem se aproximar de algo que possa ser classificado como um contato com essa inteligência colossal.

Quando a ciência solarística já está decadente, no entanto, os poucos remanescentes na estação planetária descobrem que o Oceano é capaz de ler suas mentes e projetar, em forma de seres materiais, imagens colhidas em sua memória. E o protagonista, Kris Kelvin, reencontra em Solaris a imagem – em carne e osso – de sua falecida esposa, Harey, que se suicidara por sua causa, num ataque de depressão.

Solaris é um dos grandes símbolos do Desconhecido, do Misterioso e do Desmedido na ficção científica. Como possível repositório de um saber inconcebível, assemelha-se à Biblioteca de Babel, de Jorge Luís Borges. Como local gigantesco e inacessível, lembra o Castelo, de Kafka. O planeta de Lem/Tarkovsky é um dos “Grandes Objetos Mudos” que os personagens da ficção científica encontram em suas viagens pelo Cosmos – enormes espaçonaves à deriva, ruínas ciclópicas de civilizações desaparecidas, máquinas subterrâneas ocupando todo o subsolo de um planeta, estações espaciais onde caberiam milhões de pessoas... Tudo vazio, tudo indecifrável. Espaçonaves ou portais de teleporte que somente depois de décadas de estudo são compreendidos pelos humanos, e quando postos em funcionamento abrem para eles caminhos inimagináveis pelo Universo, como na série Gateway de Frederik Pohl.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

0953) Stanislaw Lem (6.4.2006)


(Stanislaw Lem)

Morreu Stanislaw Lem. Caso nunca tenha ouvido falar nele, caro leitor, eu compreendo. Lem foi um Mestre com M maiúsculo, mas nunca foi tão chegado aos holofotes e às câmeras como muitos de seus contemporâneos. Poucos livros seus foram publicados no Brasil. O mais conhecido deles, Solaris (Editora Relume-Dumará), só chegou ao grande público por ter sido filmado pelo russo Andrei Tarkovsky e pelo americano Steven Soderbergh. Para alguns críticos é seu melhor romance (e eu próprio já o incluí certa vez na minha lista dos “Dez Melhores Livros de Ficção Científica”). Mas a obra de Lem é numerosíssima e variada. Seu saite fica em: http://www.lem.pl/english/main.htm.

Nascido na Polônia, médico de profissão, Stanislaw Lem escreveu dezenas de livros onde se percebe erudição literária, uma inclinação para o humor e o trocadilho, uma percepção intuitiva e cética do absurdo da existência humana, uma grande capacidade de manipular elementos científicos e dar-lhes feição de conto folclórico. Alguns de seus livros mais curiosos são aqueles onde ele finge investigar ciências imaginárias. Imaginary Magnitude (1973) consta de uma série de prefácios para livros fictícios sobre temas que vão desde a criação de imagens pornográficas com o uso de Raios-X (“Necróbios”) até a arte de conversar por escrito com bactérias microscópicas (“Erúntica”). Em A Perfect Vacuum, em vez de prefaciar ele resenha livros imaginários, e diz: “Até agora, a literatura nos tem apresentado personagens fictícios. Devemos ir mais adiante, e descrever livros fictícios. É uma chance de recuperar a liberdade criativa, e de unir duas mentalidades que atuavam em campos opostos: a do escritor e a do crítico literário”.

Erudição e humor são duas constantes na obra de Lem, e estão presentes em outro livro seu já traduzido entre nós, e que pode ser achado nos sebos: O Incrível Congresso de Futurologia, a história de um congresso de cientistas cujo hotel sofre um atentado terrorista (LSD na água) que deixa todo mundo ligeiramente delirante. Ciência e absurdo fazem de Lem o escritor que criou os alienígenas mais verossímeis de toda a FC: distantes, enigmáticos, tão incompreensíveis para nós quanto nós o somos para eles.

Lem foi para a Polônia o que Jorge Luís Borges foi para a Argentina: aquela montanha solitária vista ao longe, que indica a existência de um continente, e que só quando nos aproximamos percebemos que a montanha não é tão isolada assim, é apenas o pico mais visível de uma longa cordilheira de tradição cultural e literária. A obra dos dois é um ótimo argumento contra a tese de que a literatura de ficção científica é algo tipicamente dos EUA, como o filme de faroeste. Não é. O que há é que nenhum polonês, argentino ou brasileiro poderá fazer FC americana tão bem quanto os americanos. Em contrapartida, coube a Lem mostrar como seria um FC polonesa, e a Borges como seria uma FC argentina.

quinta-feira, 27 de março de 2008

0302) Retrato do artista quando chove (9.3.2004)




Eu não tenho nada contra o sol, mas me sinto muito mais à vontade na companhia da chuva. Estou falando bem baixinho para que não me escutem no Rio de Janeiro, onde moro, e em João Pessoa, onde este jornal também circula.

Que isto fique somente entre nós, campinenses, que aprendemos desde a infância a arte sutil de saborear a textura diáfana de uma neblina, e que não nos sentimos de maneira alguma prejudicados quando a tarde se acinzenta, as nuvens se avolumam, e o céu cai por cima de nós com toda força.

Tenho pensado muito nisto agora, com essas chuvas que andam desabando pelo Nordeste, derruindo pontes, invadindo casas, expulsando populações inteiras. Muita gente aqui no Rio fica perplexa, porque os telejornais ficam mostrando imagens alternadas de catástrofes e de comemorações; adultos em lágrimas com os troços na cabeça e pirralhos felizes tibungando na barragem. A mente cartesiana dos civilizados trava um pouco diante disto.

É difícil explicar que num lugar apocalíptico como o velho Nordeste tudo está sempre a uma vírgula de uma catástrofe qualquer. Chover é problema, mas não chover também é problema, e já que tudo é problema nós apenas vivemos num nível mais problemático de normalidade – e é só tocar o barco como sempre se fêz.

O bom da chuva, reconheço, é quando se mora numa casa segura, num apartamento ao abrigo das enchentes e de outros incômodos. (Calma, amigos, sou solidário com as populações ribeirinhas e periféricas, mas tenho meus momentos poéticos!) A chuva que sangra açudes, desmorona barragens, engrossa rios e alaga bairros é uma chuva prosaica, uma chuva desencadeadora de meros fatos. Eu gosto mesmo é da chuva que se escuta lá fora, de preferência à noite.

Primeiro é um barulho ciciante que parece vir de todas as direções, cada vez mais alto; então escutamos o tamborilar das primeiras gotas no vidro da janela, e logo é um verdadeiro jorro de água que fustiga o vidro. Pelo meio-fio desce a enxurrada marrom onde passam velozmente galhos, sacos plásticos, latas amassadas.

A chuva lava o mundo lá fora, e o ruído da chuva parece que lava a gente aqui por dentro, como uma ducha fria em tarde quente, arrastando até o último grão de poeira em nossos cabelos e em nossa pele.

A chuva lembra à gente que o mundo está vivo. Numa hora qualquer de sol ou de noite aberta, a gente até pensa que está num lugar morto, numa espécie de Marte que ainda não virou deserto mas onde a Natureza não existe mais. Durante um temporal, contudo, não há como não perceber que aquilo é uma espécie de voz dizendo alguma coisa.

Quando chove estamos escutando, como diria Stanislaw Lem, “uma sinfonia que cria a si mesma”, a música que o mundo tocava para si mesmo antes de ser habitado por criaturas que produzem sons com instrumentos inventados. A chuva nos diz algo que só entendemos aqui, no escuro, à luz dos relâmpagos e ao som dos trovões, no calor aconchegante de quem retornou a águas antigas.