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sábado, 12 de março de 2022

4802) Creio em Deus porque é absurdo (12.3.2022)




Eu discuto política, religião, futebol... discuto qualquer coisa. O que eu não discuto são os gestos totalizadores da vontade. Eu não discuto o que é questão de fé pessoal.
 
Um gesto totalizador da vontade é quando decidimos professar uma crença absoluta, um amor absoluto, uma obediência absoluta ao que quer que seja. É um gesto “totalizador” por causa desse caráter pessoal, “de foro íntimo”, incondicional, que nos faz crer numa religião, numa doutrina política. E que, num plano mais restrito, nos faz amar uma pessoa. Ou, num plano mais superficial, torcer por um time de futebol, ser fã de um artista...
 
Por que não discuto? Porque discutir significa tentar ver algo pelo lado de fora, e quando uma pessoa executa esse gesto (crer num Deus, ter uma ideologia, etc.) é como se não existisse mais a possibilidade de um “lá fora”. Aquela crença permeia tudo, impregna tudo. Ela explica e justifica, ou explica e condena, cada gota dágua, cada grão de areia.
 
Não discuto porque discutir significa tentar decompor essa crença em seus elementos: os argumentos que a justificam, as provas (mesmo provas meramente verbais, meramente retóricas) que a confirmam. Para quem tem fé absoluta em alguma coisa, essa fé é indivisível como um número primo. Não é composta de fatores que podem ser isolados, e depois analisados separadamente. Não há fatores. Não há argumentos. É algo totalizante.
 
Há uma famosa frase da tradição religiosa, “credo quia absurdum”, que vem sendo discutida há séculos pelos exegetas. Não entrarei aqui nos labirintos latinos e teológicos, mas comentarei a frase como ela é, hoje, percebida em português, pelas pessoas de hoje.
 
Por muito tempo imaginei que essa frase, uma justificativa frequente da fé religiosa, queria dizer algo como “Eu acredito nisso, mesmo que isso pareça absurdo.” O que do meu ponto de vista, aos quinze ou vinte anos, fazia sentido. Eu também acreditava em coisas que pareciam absurdas aos adultos da época. Não me era difícil ficar alternadamente tanto na posição dos que creem quanto na posição dos que ficam atônitos.
 
Depois, fui direto às fontes e me explicaram que não é bem assim. É o contrário: “Eu acredito nisso, justamente porque é absurdo”. É por ser absurdo que eu creio. Se fosse uma coisa lógica, eu não precisaria acreditar: bastaria prová-la com dois ou três silogismos.
 
E é engraçado, porque esse argumento aparentemente contraditório me pareceu mais forte do que o anterior. Porque ele se refere a outro tipo de crença. É a crença dos iluminados, dos que um dia são fulminados por um raio de compreensão e esse raio não se extingue dentro deles.
 
Há os que são convertidos a uma causa pela razão, pela lógica, pelos argumentos, pela força da persuasão alheia. E há os que vêm cavalgando pela Estrada de Damasco e são fulminados pelo relâmpago da Fé.


(“A Conversão de São Paulo”, Nicolas-Bernard Lepicie, 1767)
 
Como explicar isso? Não sei, só sei que é assim. E é porque é assim (dizem os crentes) que eu creio. Ninguém precisou me convencer. Ninguém me fez escalar degrau por degrau, lição por lição, apostila por apostila, até um dia chegar no alto da montanha. Eu vinha andando na rua, de repente houve um clarão e eu estava no alto da montanha, “e a Verdade se desvelou para sempre diante dos meus olhos”.
 
Vai se discutir o quê com uma pessoa como essa?
 
A fé filosófica ou religiosa não se distingue muito, nesse aspecto, de outras revelações que podemos comprovar de forma experimental, em laboratório. As descobertas científicas brotam às vezes do Inconsciente (olha aí, já é uma tentativa de decompor o relâmpago).
 
Alguns exemplos são clássicos. O cientista passa meses ou anos pesquisando uma coisa, sem resultado, e um belo dia está fumando charuto numa poltrona ou subindo no ônibus, e zapt! – a resposta brota prontinha em sua mente, armada da cabeça aos pés como a deusa Palas-Atena.
 
Em casos assim, é possível mostrar que houve uma pré-elaboração dessa idéia, ela não “caiu do céu”. Não é maluquice presumir que as faculdades analíticas da mente possam ficar “rodando” como aplicativos, fora da consciência, enquanto o cientista almoça, bota os filhos pra dormir, dá aula, joga xadrez com os colegas, troca afagos com a consorte.
 
O programa está rodando, caladinho, à sorrelfa, está checando caminhos, experimentando outras variáveis. Um belo dia, zapt! – aparece uma resposta, o cientista tem um sobressalto, e voilà!...
 
Um livro muito útil a respeito desse processos é The Psychology of Invention in the Mathematical Field (1943), de Jacques Hadamard.



Voltando à fé religiosa: talvez não seja despropositado imaginar que esse é um domínio onde iluminações desse tipo possam acontecer com maior frequência, até porque não precisam ser demonstradas mediante cálculos matemáticos ou experiências de laboratório, como ocorreu com as iluminações de Isaac Newton, Einstein, Descartes, Poincaré, Kékulé e tantos outros.
 
Os raios da fé religiosa dificilmente desabam no senador da república ou na verdureira da quitanda, que têm outras preocupações. Desabam em mentes já envolvidas com questões religiosas ou existenciais mal resolvidas, desabam em pessoas que passam noites em claro, com o juízo bouleversado, tentando fazer sentido das experiências de sua vida. Essas pessoas são pára-raios prontinhos para atrair o relâmpago da fé. (Que, sempre é bom lembrar, não cai do céu – cristaliza-se no inconsciente, e com tal força que emerge, de baixo para cima.)
 
Quando o crente diz “acredito justamente pelo fato de ser algo absurdo, inacreditável”, está dizendo, por um lado, que o que pudesse haver de análise, exame, avaliação, já foi feito pelos aplicativos do seu Inconsciente, nos quais ele instintivamente confia.
 
Por outro lado, está dizendo que essa crença não é o resultado de uma operação lógica, mas um gesto da Vontade. Acredito porque decidi acreditar. Acredito porque tudo que me mobiliza intelectualmente e emocionalmente me disse que acreditasse “sem discutir”.
 
Não é muito diferente de muitos exemplos do “amor romântico”, essa outra divindade onisciente, onipotente e onipresente em nossa cultura. Claro que a maioria dos apaixonados encontra laudas e laudas laudatórias para se justificar: ela é linda, é inteligente, é carinhosa, tem caráter, tem bom coração, tem rosto formoso, corpo bacana, é de boa família, se veste bem, gosta dos Beatles, torce pelo meu time... Argumentos nunca faltam, e mesmo que faltassem à donzela todas essas qualidades aí, o romeu acharia outras, igualmente importantes.
 
A raiz do fenômeno pode ser investigada melhor naqueles casos “quia absurdum”, em que o desafortunado se rói de paixão e ele mesmo comenta: “não sei que diabo está acontecendo comigo, isso não pode dar certo nunca.”  Ou (como cantavam os Beatles), “I don’t like you but I love you; I don’t want you, but I need you” (“You’ve Really Got a Hold On Me”, de Smokey Robinson).
 
– Mas John Lennon, essa mulher é muito feia!  
– É feia mesmo que eu gosto.



(foto: Susan Wood)
 
Um crente religioso sincero passa por um processo semelhante. Crer em Deus é uma iluminação totalizadora, que nem sempre brota da Vontade, no sentido da intenção original (veja-se o caso de São Paulo, o típico perseguidor que se converte à fé dos perseguidos), mas é encampada por ela no momento em que o intelecto orgulhoso abaixa a cabeça diante de uma certeza que seus raciocínios nem sonham em abarcar.
 
Como discutir com alguém assim? Como tentar convencê-lo de que o Deus dele não existe, de que o ideal político dele é falacioso ou historicamente datado?
 
Notem que estou me referindo aos sinceros, e não aos bilhões de zumbis que aceitam aquele credo como teriam aceitado outro qualquer, desde que lhes fosse imposto nas mesmas circunstâncias da vida e por meios semelhantes.
 
“Acredito porque é absurdo”, porque diante do absurdo só existem duas reações possíveis: a rejeição prudente ou a aceitação total.








sexta-feira, 16 de outubro de 2020

4631) O soldado e o fanático religioso (16.10.2020)




Lendo sobre o arraial de Canudos e a guerra civil descrita em Os Sertões, acabei intercalando essa leitura, sem querer, com a das memórias de Conan Doyle, Memories and Adventures (1924).
 
O criador de Sherlock Holmes é talvez minha primeira grande descoberta literária. Nos anos 1950, a Editora Melhoramentos lançou uma coleção de suas obras em 26 volumes. Graças à boa vontade de minha Tia Adiza, que assinou a coleção (recebia 2 volumes por mês), li toda, e tenho ainda hoje todos os livros. Pelo menos um deles, Contos do Ringue e de Guerra, é o mesmo exemplar que li quando menino.
 
Conan Doyle teve uma vida movimentada. Como todo inglês, procura rastrear origens nobres de sua linhagem, e afirma descender da casa dos Plantagenetas. Curiosamente, era de família irlandesa mas seu pai, por questões de emprego, mudou-se ainda jovem para a Escócia, e o menino Arthur nasceu ali, em Edinburgh. (Jorge Luís Borges, num soneto, o chama de “irlandês”, e vejo agora que não estava tão equivocado assim.)
 
Gostava do mar e sua primeira grande aventura foram meses num navio baleeiro, com vinte e poucos anos. Depois de se formar, foi médico de bordo de outros navios. Era grande observador de ambientes e de tipos humanos, uma característica da literatura de seu idioma e de sua época. Seu primeiro livro foi o hoje famoso Um Estudo em Vermelho (1887), a primeira aventura de Sherlock Holmes, que nessa primeira edição passou despercebido. Em seguida, ele produziu uma obra um pouco mais ambiciosa: um livro sobre guerra civil e fanatismo religioso.
 
Micah Clarke (1888) foi publicado no Brasil como A Narrativa de Miquéias Clarke, numa saborosa tradução de Agenor Soares de Moura. Conta a revolta protestante de 1685 liderada pelo Duque de Monmouth contra o rei James, católico, que não era simpático a uma parte considerável da população. Monmouth, que vivia na Holanda, desembarcou na Inglaterra proclamando-se rei, passou alguns meses arregimentando um exército composto em sua maioria por fanáticos mal-treinados mas decididos (um pouco como os jagunços de Canudos), e acabou derrotado na Batalha de Sedgemoor pelas forças mais bem equipadas, e mais experientes, do exército Real.
 
O livro de Doyle conta essa aventura, por meio do jovem Miquéias Clarke. O pai dele é protestante, e ajuda o rapaz a se engajar na batalha através do veterano Decimus Saxon, um mercenário a serviço de Monmouth. Miquéias é aquele rapagão de vinte anos e com dois metros de altura, cheio de vigor físico e boas intenções. Saxon é um dos grandes personagens da obra de Doyle: grisalho, calejado, malicioso, estrategista, com um olho infalível para entender situações bélicas e para detectar as espertezas alheias.



(Conan Doyle)

Falando desse romance, escrito aos 28 anos de idade, Conan Doyle recorda:
 
Esperando ainda a publicação do meu primeiro livro, e sentindo-me invadido por idéias de grande porte, decidi testar minhas forças e escolhi um romance histórico para este fim, porque me parecia a melhor maneira de combinar uma certa dignidade literária com aquelas cenas de ação e aventura que brotavam naturalmente de minha mente ardente e jovem. Sempre experimentei simpatia pelos Puritanos, que, apesar de suas peculiaridades, representaram a liberdade política e a sinceridade religiosa. Geralmente têm sido objeto de caricaturas, na ficção e na arte. Mesmo [Walter] Scott não os retratou como eram. Macaulay, sempre uma das minhas inspirações, foi o único que os tornou compreensíveis: aqueles lutadores soturnos, com suas Bíblias e seus espadagões. Há uma passagem sua (não posso citá-la literalmente) em que ele afirma que após a Restauração se alguém visse um peão mais inteligente que os demais, ou um camponês que lavrasse melhor a terra, podia ter a certeza de tratar-se de um ex-guerreiro de Cromwell. Esta foi minha inspiração para Micah Clarke, onde me deixei galopar à solta pela estrada larga da aventura. Eu estava impregnado de História, mas mesmo assim passei alguns meses pesquisando detalhes, e depois escrevi o livro com certa rapidez. Há passagens nele, como a descrição dos lares dos Puritanos, ou o retrato do Juiz Jeffreys, que não creio haver superado.
(p. 76, trad. BT)
 
Doyle é um excelente narrador de cenas de ação, de perseguição, de batalha. Isto transparece nos romances históricos ainda mais do que nas aventuras de Sherlock Holmes. São romances que trazem pesquisa livresca (Miquéias Clarke tem doze apêndices com informações históricas e transcrições de documentos) mas têm aventuras, suspense, reviravoltas, tensão.


Quando Monmouth reúne suas precárias tropas na cidade de Taunton, começamos a sentir o “tom” dessa insurreição desunida nas palavras do personagem (real) do pastor John Ferguson, exortando o “rei Monmouth” à batalha:
 
– Vou tornar bem claro o meu pensamento, Majestade. Não chegou ao nosso conhecimento que Argyle está perdido? E por que é que ele se perdeu? Porque não teve fé firme nas obras do Onipotente e teve forçosamente de rejeitar o auxílio dos filhos da luz trocando-o pelo da raça miserável dos fautores do prelatismo, que são meio pagãos, meio papistas. Se ele tivesse andado no caminho do Senhor, não estaria agora na prisão de Edimburgo com a corda ou a machadinha diante dos olhos. Por que não cingiu ele os rins e não marchou diretamente para a frente com a bandeira da luz, em vez de deter-se aqui e parar como um Dídimo poltrão? O mesmo ou pior nos sucederá se não marcharmos pelo país dentro e não fincarmos os nossos estandartes diante da perversa cidade de Londres – a cidade onde tem de ser feita a obra do Senhor, e o joio tem de ser separado do trigo e amontoado para arder no fogo.
(pág. 258-259, trad. A. S. M.)


Treinamento militar e armamento capaz, para soldados assim, não substituem a fé a o apoio divino. É um insurreição armada na base do “Deus proverá!”. Narra Miquéias:
 
Na cidade inteira ressoavam pregações. Cada tropa ou companhia tinha o seu orador escolhido, e às vezes mais de um, que discursava e expunha. De barris, carroças, janelas, e até mesmo do alto das casas, eles falavam às multidões embaixo; e nem se diga que sua eloquência não produzia efeito. Ouviam-se pelas ruas gritos roucos e ferozes, de mistura com orações entrecortadas e jaculatórias. Os homens andavam ébrios de religião como se fosse de vinho. Tinham o rosto afogueado, a voz pastosa, os gestos desordenados. Sir Stephen e Saxon sorriam um para o outro ao observarem aquela gente, pois sabiam, como soldados veteranos, que de todas as coisas que tornam um homem valente nos seus atos e indiferente à vida, o ímpeto religioso é o mais forte e o mais duradouro.
(pág. 412, trad. A. S. M.)
 
Admiramos os fanáticos de Canudos (e admirei, ao reler estas 500 páginas, os fanáticos ingleses) não por serem fanáticos, mas por serem o lado mais fraco e mais sincero. O único armamento que têm para defender seu fanatismo são chuços, foices e trabucos. Estão enfrentando lutadores muito mais preparados do que eles: mesmo o Exército patético e semi-maltrapilho que devastou Canudos tinha por trás de si forças e logísticas muito superiores às dos jagunços.
 
Fiquei pensando em escrever um romance sobre um confronto armado onde algum Poder conseguisse reunir – por meio de uma tecnologia de comunicação instantânea com milhões de pessoas pavlovianamente pré-condicionadas – o fanatismo religioso dos que acreditam estar conquistando uma vida-eterna melhor que esta, o treinamento e equipamento militar dos tempos modernos, e a impiedade fria de quem se julga moralmente superior ao inimigo.


 
("The Morning of Sedgemoor", de Edgar Bundy)
 
 







quarta-feira, 26 de setembro de 2012

2986) O fanático sorridente (26.9.2012)




Sou agnóstico mas considero a religião uma forma importante de conhecimento intuitivo do mundo e de relacionamento interpessoal.  Sem as religiões à minha volta, minha vida ficaria empobrecida, mesmo que eu não concorde com as premissas delas (existência de mundo espiritual, existência de seres superiores que nos avaliam e nos julgam, existência do Céu e do Inferno, etc.). Fazem parte da cultura que me cerca. Por outro lado, não preciso de religião. Para explicar o Universo, a Ciência tem me quebrado o maior galho.  Para conviver com a humanidade, tenho uma espécie de humanismo doméstico, que não queima incenso em nenhum altar.  Se um dia eu mudar de idéia e me converter a alguma fé, serei o primeiro a avisar a todo mundo. Por que não?

Aqui no Brasil, uma das primeiras providências da Casa Grande foi abrir uma capela pertinho da Senzala. Quando um povo domina e escraviza outro, não basta destruir seus armamentos, é preciso destruir seus deuses também. Os espanhóis queimaram milhares de códices maias, mas se fossem os maias que tivessem invadido a Espanha teriam feito o mesmo com as catedrais (os republicanos queimaram centenas delas na Guerra Civil). Hoje circula nas redes sociais, numa campanha contra a evangelização forçada dos índios, uma imagem orgulhosa de um jovem índio brasileiro dizendo: “Seu mito não é melhor do que o meu”. O problema é que quem acredita em mitos acha sempre que mito é só o dos outros – o seu é a verdade. A fórmula de toda crença requer pelo menos um átomo de fanatismo, porque crer é ter certeza, e o fanatismo não passa de certeza. Uma certeza ansiosa para se expandir, e que não aceita ser questionada ou relativizada pela existência de certezas opostas. Não é preciso desprezar nem odiar os fanáticos. Devemos apenas enquadrá-los, impor limites civis e coletivos a sua atuação, impedir que infernizem a vida alheia com sua hipótese de Paraíso. Podemos perdoá-los, porque é evidente que não sabem o que fazem.

Vejam bem – não falo dos caras que empunham archotes acesos e enforcam gente.  Falo dos fanáticos pacíficos, cuja única arma é o altofalante na casa vizinha bradando aleluias e hosanas. (Confesso que nessas horas quem tem vontade de empunhar archotes e enforcar gente sou eu.) Alguém já disse que fanático é um sujeito que nunca muda de opinião, nem de assunto. E vou mais além – é o cara para quem o simples fato de você acreditar em algo diferente exige que você seja imediatamente convencido a mudar de idéia. O quê? Não concorda com minha definição, amigo?  Beleza!  Fique com a sua que eu fico com a minha. Basta não tocar na minha campainha, e dar uma abaixada no som.

sábado, 31 de março de 2012

2832) Proibido dinossauro (31.3.2012)




Como se sabe, hoje existe uma batalha cerrada sobre a criação do mundo e da humanidade. 

De um lado, estão os Evolucionistas, os que, com Darwin e a ciência, acham que o Homem é uma espécie animal como as outras, que evoluiu através de milhões de anos. (A fórmula popular “o homem veio do macaco” é uma simplificação inexata e grosseira do que Darwin afirmou.) 

Do outro lado, estão os Criacionistas, para os quais Deus criou o mundo e a humanidade já prontos, há poucos milhares de anos. Para estes, as provas geológicas, astronômicas e físicas de que a Terra é muito mais antiga são falsificações ou equívocos.

Acontece que nos EUA, que já foi o país da liberdade de expressão, está cada vez mais difícil ir de encontro aos Criacionistas. A CBS de Nova York informou (http://cbsloc.al/GTdyzT) que nas provas do Departamento de Educação da cidade estão sendo proibidas palavras que possam incomodar a sensibilidade de estudantes de determinadas crenças. 

“Halloween” não pode ser mencionado porque sugere paganismo; “dinossauro” também está proibido porque lembra a Teoria da Evolução, e os partidários do Criacionismo podem se sentir ofendidos; “aniversário” (“birthday”) também está proibido, porque as Testemunhas de Jeová não comemoram aniversários e também poderiam se sentir desconfortáveis vendo essa palavra escrita numa prova.

Tem mais. Outras palavras cujo banimento nos exames públicos está sendo estudado: álcool, armas nucleares, câncer, desemprego, divórcio, parapsicologia, pobreza, pornografia, religião, sexo, terrorismo... 

A lei não escrita que rege essas proibições é: coisas desagradáveis não devem ser ditas em voz alta, e principalmente não devem ser lembradas num exame público. Os argumentos contra essas palavras são cheios de atitudes defensivas, “não-me-toques”. Elas podem desagradar os estudantes, fazer com que se sintam incomodados, desconfortáveis, ofendidos. Parece haver da parte dessas autoridades um medo de ofender pessoas que são muito delicadas, têm sentimentos muito frágeis, precisam ser protegidas...

Quer saber de uma coisa? Não é bem assim não. 

O que as autoridades não querem é pisar no rabo do leão, catucar a onça com vara curta. Sabem que a cada ano avoluma-se uma Presença Ameaçadora no país, uma vasta comunidade de criaturas sorridentes e implacáveis capazes de destruir quem quer que seja em nome de fazer-lhes o Bem. 

Destruirão opiniões, pontos de vista, idéias; destruirão tudo que não reze pelos seus mandamentos. Os norte-americanos laicos vivem numa casa tomada. Convém pisar de leve, falar sussurrando, omitir as palavras tabus que fazem a Naja erguer a cabeça e abrir os olhos.





quarta-feira, 26 de março de 2008

0300) O fanático (6.3.2004)




("Caprichos" de Goya: "Asta su abuelo")


O fanático que amarra dinamite ao corpo e se auto-explode dentro de um ônibus ou de um shopping-center é um caso extremo, mas não o mais típico. O fanático típico é aquele que fica com raiva quando discute um assunto. Não importa se se trata de futebol, música popular ou religião, o fanático é uma mente sequestrada por uma idéia alheia. Quando converso com um sujeito que possui uma Ideologia, nunca deixo de ter a incômoda sensação de que é a Ideologia quem na verdade o possui. Se a gente ousa contradizer um só dos slogans que ele emite com a tranquilidade olímpica dos iluminados, vemos que ele se transforma, porque o fanático, por mais que se ostente condecorado de certezas, não habita o Monte Olimpo da verdade absoluta, e sim a Montanha da Perdição do “Senhor dos Anéis”, onde um Sauron totalitário impõe a-ferro-e-fogo sua versão pessoal dos fatos.

Não sei de melhor antídoto para essas extremismos do que a tranquila sensatez de Jorge Luís Borges, quando dizia: “As polêmicas são inúteis. É inútil estar de antemão de um lado ou do outro, sobretudo se ouvirmos a conversa como uma polêmica, se a virmos como um jogo em que alguém ganha e alguém perde. O diálogo tem que ser uma pesquisa, e pouco importa que a verdade saia da boca de um ou da boca de outro.” O velho Borges não era tão bonzinho e tão zen quanto esta frase sugere, mas pouco importa. Ele sempre soube que o que nós dizemos é superior ao que somos.

Suponhamos que o tema da discussão é a frase acima, de Borges: eu concordo com ela, e meu amigo discorda em gênero, número e grau. Eu jogo essa idéia (“bater boca não adianta nada”), meu amigo me traz uma dúzia de argumentos mostrando que bater boca adianta, sim senhor, que é através da dialética das idéias que se chega a uma síntese mais elevada, e pá, e bola, bê-bê-bêi, caixa de fósforos... Uma ou duas horas depois, teremos examinado o tema pelo direito e pelo avesso. Eu saí lucrando alguma coisa, ele também, e cada um volta pra casa pensando que se saiu melhor do que o outro.

Mas há pessoas cujas idéias estão por trás de uma barreira intransponível, uma muralha de titânio com dez mil metros de altura e quinhentos de espessura, protegida por canhões-laser e bombas atômicas. Ai de quem disser: “Que é isso, rapaz, isso que você está falando não tem nada a ver...” Tomara que sua família esteja por perto, para decidir o que fazer com as cinzas.

Por que são assim? Há duas possibilidades. Uma é de que o sujeito tenha passado a vida inteira lendo, estudando, pensando, discutindo, até chegar a uma conclusão; e ele vê com horror a possibilidade de abrir mão dessa conclusão, aceitar uma opinião alheia, e ter que começar tudo de novo. Aí tudo bem; acho que também é o meu caso. Em muita coisa. Mas... a outra possibilidade é de que, sem o saber, ele seja um fanático. Uma idéia foi infiltrada na sua mente a golpes de doutrina. E aí, meu amigo, saia de perto, antes que ele puxe o detonador da dinamite.