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terça-feira, 9 de janeiro de 2024

5020) Algumas leituras de 2023 - 2 (9.1.2024)


(Algumas leituras do ano passado, alguns dos livros que achei marcantes por variados motivos; livros sem nenhuma ordem especial. Como sempre, incluo apenas livros que li do começo ao fim. )


Sombras na Relva (1960), de Karen Blixen (“Isak Dinesen”), trad. Maria Luiza Newlands (Ed. 34, 1992)
Estou dando-uma-geral na obra da escritora dinamarquesa cuja carreira tem um perfil único e invulgar. No ano passado, comentei a obra de estréia, que lhe deu fama, Sete Contos Góticos. Este ano li esta pequena coletânea de quatro textos memorialísticos, uma espécie de expansão de seu livro mais famoso, A Fazenda Africana. Blixen teve uma fazenda de café no Quênia, e é impressionante a visão dessa baronesa da Dinamarca andando de jipe, calçando botas, atirando em leões, contando histórias e, principalmente, convivendo com os quenianos de diversas nações. Principalmente os somalis, que ela descreve como “altivos e ingovernáveis”. No primeiro capítulo ela lembra do somali Farah, que foi uma espécie de mordomo em sua fazenda – um homem inescrutável, elegante, que falava inglês e francês, e administrava tudo com delicadeza e mão de ferro. Em “Barua Soldani” ela fala de uma carta que recebeu do rei da Dinamarca, e que depois de mostrá-la aos nativos estes começaram a atribuir poderes mágicos à folha de papel. Em “O Grande Gesto” ela comenta o esforço de cuidar da saúde dos “kikuyu”, que têm hábitos peculiares, e diz: “Cometi alguns erros muito graves, em que ainda hoje não consigo pensar sem consternação, mas estes aparentemente não abalaram meu prestígio; às vezes, acho que as pessoas gostavam mais de mim por eu não ser infalível. Essa peculiaridade dos africanos aparece em outros aspectos de suas relações com os europeus.” E em “Ecos das Colinas” ela reflete sobre os sonhos, e conta os longos anos de correspondência postal que manteve com seus ex-criados. Tudo que ela escreve vale a pena ler.





The Cement Garden (1978), de Ian McEwan
Há um sub-gênero do insólito que podia ser chamado ”Histórias de crianças ou pré-adolescentes que após a morte ou desaparecimento dos pais tenta continuar vivendo por conta própria, sem que o mundo perceba”. Muito longo este rótulo, então talvez caiba “Os Órfãos Independentes”. É o tema de A Menina no Fim da Rua (livro de Laird Koenig, filme de Nicolas Gessner), Todas as noites às 9 (livro de Julian Gloag, filme de Jack Clayton) e deste romance arrepiante de McEwan, que começa com a frase: “Eu não matei meu pai, mas às vezes tenho a impressão de que lhe dei um pouco de ajuda.” Jack, Sue e Julie são três adolescentes que após a morte do pai ficam cuidando da mãe doente e do irmão menor, Tom. São uma família isolada, sem amigos, que não se dá com os vizinhos. Julie, a mais velha, tem independência bastante para ir ao banco receber a pensão, fazer compras. Os três mais velhos vivem infernizando uns aos outros com brigas constantes e com jogos eróticos. A mãe morre, e agora a casa é deles.
McEwan é um escritor de enorme precisão narrativa, e coloca em cerca de 150 páginas uma história de sadismo infantil, fuga da realidade, estagnação social, naqueles bairros meio pobres onde não há vida comunitária, não há futuro, e as pessoas acabam inventando fantasias necrófilas para se distrair.




Pecúlio (2023), de Jorge Filó (Recife, Ed. do Autor)
No departamento da poesia popular, registro este livro onde Jorge Filó dá uma amostra da convergência tradicional, mas que não é visível a todo mundo, entre o repente e o cordel nordestino, por um lado, e formas tradicionais, como o soneto. Para muitos críticos literários, repente e soneto são antípodas, porque instintivamente pensamos no primeiro como uma poesia oral cultivada nos pés-de-parede do Sertão, e no segundo como uma poesia refinada cultivada nos cafés da Rua do Ouvidor. Ledo engano, como comprova a obra do sonetista maior do Pajeú, João Batista de Siqueira, “Cancão” (1912-1982). Em Pecúlio, Jorge Filó traz uma caixa sortida de investidas poéticas onde tem décima, soneto, sextilha, poema longo e curto, poema irreverente e poema filosófico. Este último gênero tem raízes visivelmente filogênicas, pois o autor, que já conquistou brilho próprio, é herdeiro da linhagem do mestre Manoel Filó, de São José do Egito. Portanto... sai do meio que lá vêm os Filós: “O repente acelera o pensamento / cada verso retrata um sentimento / que nenhum outro ser, por si, revela. / A não ser um poeta improvisando / as belezas do mundo vislumbrando / do batente que Deus tem na janela.” 


 
Cuentos (Llamadas Telefónicas, 1997; Putas asesinas, 2001; El gaucho insufrible, 2003), de Roberto Bolaño
Este ano dei cabo desta excelente coletânea de três livros de contos de Bolaño, pela Ed. Anagrama (Barcelona). Bolaño é um escritor de prosa enganosamente descomplicada, que nos leva a participar de uma história a princípio totalmente comum e previsível mas aos poucos tudo vai se distorcendo numa direção ou noutra, e logo estamos dentro do insólito. Não o sobrenatural (raro nos contos dele), mas num universo de gangsters, mulheres fatais, atrizes de cinema pornô, colecionadores, adolescentes carrancudos, escritores na pindaíba, acadêmicos emproados, gente que reconhecemos no primeiro parágrafo em que surgem, mas que nos surpreendem poucas linhas depois. 
Bolaño abre o livro com uma série de “Conselhos Sobre a Arte de Escrever Contos”, onde diz: “Nunca aborde os contos de um em um. Se alguém aborda os contos de um em um, honestamente, pode estar escrevendo o mesmo conto até o dia de sua morte. O melhor é escrever os contos de três em três, ou de cinco em cinco. Se se acha com energia suficiente, escreva-os de nove em nove, ou de quinze em quinze.”
Leia mais aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/04/4937-as-chamadas-telefonicas-de-roberto.html
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/10/4996-os-segmentos-de-estoria-de-roberto.html




O corpo e o caleidoscópio (2023), de Thays Albuquerque (Recife, Ed. Castanha Mecânica)
Uma narrativa que mistura memorialismo e imaginação, um desses relatos em que a gente encontra a cada passo um pequeno marco confirmatório batendo com as informações biográficas sobre quem escreveu; mas basta isso para cancelar todo o restante, cancelar toda a parte textual baseada em improvisos, lembranças recauchutadas, memórias fugidias, reinterpretações, invenções por descuido ou por deliberação? A narradora está pesquisando a história das ditaduras militares na América Latina: Chile, Argentina, Brasil... É quando chega no Brasil que a trava emperra, porque aqui é mais fácil saber do tempo da ditadura através de obras literárias do que de obras escolares: “em 70 eu ainda nem tinha nascido, minha mãe e meu pai tinham onze anos, em muitas das nossas conversas, eu perguntava sobre a ditadura. mainha diz que era muito pequena e não lembra de nada. durou até 85, duas décadas, você se tornou adulta durante a ditadura. como não consegue lembrar? ela me olha sem entender. não diz uma palavra”. Acho que existe toda uma literatura hoje em dia, de jovens com a idade dos meus filhos, perguntando isso, como quem diz: Tudo bem, mas me fala: pra baixo de qual tapete isto foi varrido? 



The case of Erle Stanley Gardner (1946), de Alva Johnston
Este ano pude ver pela primeira vez alguns episódios da famosa série de TV “Perry Mason”, onde o advogado-detetive é interpretado por Raymond Burr (o ator que faz o assassino em Janela Indiscreta de Hitchcock). A série é divertida, com episódios curtos de ritmo frenético para a época (1957-66). Isto me motivou a ler esta curta biografia do autor, que eu tinha há anos. Gardner era uma máquina de escrever. No seu rancho na Califórnia, ele mantinha secretárias para quem ditava seus romances palavra por palavra. No início da carreira (diz Johnston) ele escrevia um romance por semana. Depois que ficou rico, tirou o pé do acelerador e passou a produzir um romance por mês. Seus livros policiais repousam no seu extenso conhecimento de filigranas jurídicas e de casos reais improváveis, que ele usava como ponto de referência para imaginar crimes onde uma pessoa inocente é acusada, recorre a Perry Mason para salvá-la, e ele o faz, descobrindo durante o processo quem foi o verdadeiro criminoso. Já li uns 30 ou 40 romances dele. A fórmula nunca falhou. 




A febre (2023), de Marcelo Ferroni
Tzvetan Todorov dizia que uma narrativa é fantástica quando, durante e após a leitura, somos incapazes de decidir se tudo aquilo foi uma interferência do sobrenatural ou foi apenas (por exemplo) uma alucinação do personagem. Este romance de Marcelo Ferroni narra uma daquelas claustrofóbicas histórias que transcorrem quase totalmente durante uma noite de medo e sofrimento, uma noite que o personagem pensa que nunca vai acabar. É uma “longa jornada noite adentro” de dois irmãos rivais e hostis cuidando do pai senil, no apartamento em que este vive, repleto de recordações do seu tempo de homem poderoso durante a ditadura. Pense numa noite em que tudo dá errado, a ponto do protagonista, Marco, começar a imaginar que seres do além estão interferindo para vingar-se da família. Marcelo Ferroni (disclaimer: Marcelo é meu editor na Alfaguara, e graças a ele traduzi H. G. Wells e Raymond Chandler) já fez incursões bem sucedidas pelo romance policial (Das paredes, meu amor, os escravos nos contemplam, 2014) e pela ficção científica (As maiores novidades, 2021, uma curiosa história de viagem no tempo ambientada no mundo corporativo). Este novo livro é a narrativa de um pesadelo cruel que aflige gente cruel e gente fraca. 


 
Regarde les lumières, mon amour (2014), de Annie Ernaux
Fiquei gostando do estilo despojado de auto-ficção praticado pela ganhadora do Prêmio Nobel do ano retrasado. Este livrinho, em forma de diário, descreve sua experiências de frequentadora do supermercado Auchan. Os franceses são catalogadores e classificadores até a medula, sentem-se na obrigação de tudo classificar, tudo descrever, tudo interpretar. O livro de Annie Ernaux parece um olhar apolíneo e distanciado avaliando e julgando a experiência do consumo, a ética e a estética das gôndolas e dos caixas, a psicologia dos frequentadores. Entretanto, a certa altura ela começa a relacionar certas catástrofes ocorridas em Bangladesh, com milhares de mortos, e a empresa dona do supermercado.
Mais comentários aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/03/4919-o-supermercado-de-annie-ernaux.html




Contos Encantados do Brasil (2023), de Marco Haurélio
Marco Haurélio é neste momento um dos pesquisadores mais dedicados e mais confiáveis da nossa literatura oral. O fato de ser poeta e cordelista com obra própria (e muito pessoal) não interfere nessa atividade; antes o ajuda a perceber e preservar a riqueza de sonoridades, coloquialismos e variantes dialetais de que essa literatura é tão rica. Riqueza que às vezes se perde quando o estudioso e transcritor sente-se levado a traduzi-la para o linguajar do relato jornalístico ou para o do ensaio acadêmico, que muitas vezes tendem a ser pálidos e uniformes. Estes contos, colhidos em fontes primárias e cuidadosamente anotados, deverão agradar a leitores de Ítalo Calvino (Fábulas Italianas), Angela Carter (103 Contos de Fadas) e da obra inesgotável de Altimar Pimentel, Câmara Cascudo, Sílvio Romero e muitos outros. 



A Tabela Periódica (1975), de Primo Levi (Relume-Dumará, 1994, trad. Luiz Sérgio Henriques)
Primo Levi declarava repetidamente que não era cientista e que não era escritor: era um técnico com formação em química. Não chamo a isto modéstia, a qual no mais das vezes não passa de auto-defesa de um Ego vulnerável; chamo auto-conhecimento, que em geral é uma conquista cara e sofrida. Vi há pouco o filme A Trégua (Francesco Rosi, 1997) que narra como Levi (1919-1987) sobreviveu a Auschwitz, e reconstitui sua tortuosa volta a sua Ítaca natal, Turim, após o fim da guerra. A Tabela Periódica se detém em outros episódios de sua vida, com a precisão verbal de um escritor e a imaginação meticulosa de um cientista.
Leia mais:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/07/4966-tabela-periodica-de-primo-levi.html



Martina no Vale do Germânio (2023), de Eduardo Souza Lima
Vivo matutando sobre os caminhos até agora abertos pela ficção científica brasileira, e sobre as atitudes possíveis a um escritor brasileiro diante de um gênero dominado, quantitativa e qualitativamente, pelos autores de língua inglesa. (Spoiler: ainda não vejo solução.) Eduardo Souza Lima é crítico de cinema desde o tempo em que as barbas eram pretas, e neste seu romance de estreia adota o absurdismo fragmentário presente em outras obras nacionais recentes, com o Back in the URSS, de Fábio Fernandes. Um absurdismo com algo da sátira dos cineastas brasileiros que ao sucesso do seríssimo Tubarão respondiam com o escrachado Bacalhau. Ou o absurdismo com que os cineastas da Boca do Lixo paulistana canibalizavam cinema de Hollywood, cultura pop, marxismo de botequim, dramalhão latino-americano. Uma espécie de escracho reverente com que os artistas da indústria mais fraca homenageiam os da mais forte, enquanto lhes batem a carteira. Em suma: é uma ficção científica udigrudi. (Nem sei se o autor concordaria, mas eu sou como ele, não peço licença a ninguém.) 
 


Maria Amélia Mello (2023), de Marisa Midori Deaecto e Carolina Bednarek Sobral
Este perfil biográfico pertence à coleção “Editando o Editor”, da EdUsp, e traça o perfil da minha amiga e editora Maria Amélia Mello. Além do relato saboroso de suas leituras, estudos, viagens, idéias editoriais brilhantes, o livro coloca esta questão tão interessante do olhar feminino sobre a atividade editorial. Discussão que não se esgota. Na ficção científica, por exemplo, existe uma copiosa bibliografia de artigos e ensaios a respeito de John W. Campbell (1910-1971), um editor que formatou a “Golden Age” da FC com suas qualidades, mas também com suas limitações e seu conservadorismo. E pouco se escreve sobre uma editora como Judith Merrill (1923-1997) e sua esplêndida série de antologias anuais (de 1956 a 1968) onde ela, com total conhecimento de causa, misturava ficção científica, fantasia, poesia e literatura mainstream. Os caminhos são sempre abertos por pessoas, cada qual com uma visão única, irrepetível, preciosa.
Leia mais aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/05/4947-editando-editora-maria-amelia.html
 



terça-feira, 30 de maio de 2023

4947) "Editando a Editora": Maria Amélia Mello (30.5.2023)


 
Terminando de ler o livrinho bem cuidado e simpático da coleção “Editando o Editor”, da EdUsp. É uma coleção voltada para depoimentos autobiográficos de editores brasileiros, traçando sua trajetória, sua formação, e a sua atividade como editor de livros.
 
Em seu décimo número, a coleção mudou de nome para “Editando a Editora”... porque coube às autoras Marisa Midori Deaecto e Carolina Bednarek Sobral entrevistar a primeira mulher dessa seleção majoritariamente masculina.
 
Maria Amélia Mello é minha editora, e amiga desde que pus os pés para morar no Rio de Janeiro. Ou até antes disso, porque antes de alugar casa aqui pela primeira vez me lembro de ir visitar o Centro de Cultura Alternativa que ela dirigiu na RioArte (ela fala disso no livro), e de deixar ali meus cordeizinhos e provavelmente meu livro Sai do Meio Que Lá Vem o Filósofo (1980).  



(Maria Amélia Mello) 
 
Somos da mesma geração e não é de admirar tantas coincidências de filmes, músicas, leituras (ponha Cortázar, Campos de Carvalho...). Ela observa que desta geração em diante os cargos editoriais começaram a ser ocupados por pessoas que, como ela, vinham da área do Jornalismo. Comenta o susto que teve ao descobrir o quanto Frida Kahlo era famosa, e que o olho de um editor precisa se estender a todos os campos além das “Letras”:
 
Esta história demonstra que o editor tem que ser ousado, mas também muito atento, fazer as sinapses, as conexões entre tudo que está acontecendo na área cultural. (...) Quando entrei na [editora] Civilização [Brasileira], em 1978, havia pouco diálogo entre as áreas, os livros “apareciam” na minha mesa e ninguém sabia de onde saíam. Os editores vinham da Sociologia, História, Letras. Mas na década de 1990, na época de Frida Kahlo, havia muitos jornalistas migrando para o editorial. E jornalista é assim, tem agilidade, faz pauta, sabe quem pode escrever sobre um determinado tema, vai atrás de uma informação. Coisas que faltavam no mercado, para o qual a entrada dos jornalistas trouxe um novo fôlego. E uma curiosidade: a entrada de mulheres como editoras, em cargos de comando. (p. 123-124)
 
Eu sou principalmente um literato (poeta, contista, romancista) mas já trabalhei em jornal, estudei fugazmente num curso de Ciências Sociais, e sempre achei que o mercado editorial deveria servir a todos estes senhores. A Literatura é vista por uns como uma aristocracia do espírito, por outros como a prima pobre cuja fama se esgota na noite do coquetel. O(a) editor(a) tem que ter essa visão de perceber as diferentes frequências-de-onda de um livro de poesia e um tratado sociológico, de uma antologia de contos e uma biografia, de um romance e um livro de história do cinema. Não se pode tratar tudo isto com os mesmos modelos estatísticos, como se fossem creme dental ou cerveja.
 
Acho o olho jornalístico tão importante quanto o olho científico, o olho entretenimento, o olho show-business e muitos outros, porque em toda área existe a possibilidade de descobrir um livro novo, um livro bom, um livro que vai trazer uma nova voz, um novo enfoque. Não existe só a alta literatura. Existe o livro de boa qualidade, que não vai ser best-seller, mas que vende.
 
A presença de mulheres no mercado editorial é muito um fenômeno da nossa geração. Há muitas editoras (mulheres) que publicaram livros meus, e nesse “publicar” está incluído ler, avaliar, sugerir, mexer, questionar, fazer alertas, propor, dar forma final, divulgar. 

Posso estar esquecendo alguém, mas já tive livros meus editados por Andréa Mota (Pirata), Maria Emilia Bender (Brasiliense), Vivian Wyler (Rocco), Valéria Gauz (Biblioteca Nacional), Bia Bracher (34), Martha Ribas (Casa da Palavra), Clotilde Tavares (Engenho e Arte), Maria Amélia Mello (José Olympio), Renata Nakano (Casa da Palavra), Fernanda Cardoso (Casa da Palavra), Inez Koury (Bagaço), Lucinda Azevedo (Imeph), Sandra Abrano (Bandeirola)... Minha gratidão a todas, pela paciência e clarividência. 
 
Isto sem falar nas que me guiaram em mil outros trabalhos, como redator e tradutor. Algumas, em casas editoriais gigantes, outras em editoras da sala-de-visitas; não importa. 

E não se pense que não tive (e tenho) excelentes editores, talvez até mais numerosos. Far-lhes-ei a devida vênia no melhor momento.  São meus parceiros, eles e elas. Sempre que um leitor argumenta algo comigo nos termos de "Ah, mas o livro é seu", respondo: "O que é meu é o texto; o livro foi a editora que fez". O processo é sempre o mesmo: “isto aqui é bom, vale a pena gastar dinheiro para imprimir cópias numa gráfica e tentar vendê-las ao povo”. 

Existe um “olhar feminino”, um “radar feminino” na escolha e publicação de livros? É bem capaz, mas não me arrisco a defini-lo. Minha teoria básica é de que no plano literário tudo que um homem é capaz de pensar uma mulher também pode, e vice-versa. Para além disso, entram as histórias pessoais, as sensibilidades individuais, as leituras e experiências – que são sempre únicas, são só da pessoa. 



O bom é quando vem a encomenda, como no dia em que Maria Amélia me mandou um email pedindo um livro sobre Ariano Suassuna, que escrevi em dois meses. O ABC de Ariano Suassuna (José Olympio, 2007) não é um estudo aprofundado sobre o criador de Quaderna, mas me parece uma boa introdução ao universo variado e intenso que ele criou. 
 
Diz a editora:
 
Este “novo” editor participa das pautas, das vendas, do marketing, da divulgação, ou seja, de todo o processo. Nós fazemos, muitas vezes, até o preço do livro, pois quanto mais falamos em letras mais nos preocupamos com números. Esse diálogo é saudável, pois assim é possível encontrar o melhor momento para publicar um livro, lançando mão de ferramentas de outras áreas. Existe também a relação com sites, blogs, tecnologias, como as de printing on demand, que vêm ganhando espaço. Tudo para acertar mais nas escolhas, enxugar custos, evitar estoques e focar melhor. (p. 172-173) 
 
Eu tenho a sorte de poder publicar constantemente (um amigo meu diz que eu tenho mais títulos publicados do que exemplares vendidos). E sempre vejo no editor um parceiro de criação. O editor é o primeiro leitor de um livro, e mesmo que uma sugestão dele não seja aceita pelo autor, ela revela uma maneira-de-ler-aquilo para a qual o autor precisa estar atento. 
 
No fim das contas, o trabalho criativo de um editor é como o do antologista, função que exerço de vez em quando. É ficar atento para as coisas boas que aparecem ao longo das leituras, da vivência, das conversas. Perceber a qualidade e a novidade que há em cada uma, o toque diferente, relevante. Anotar muito, fazendo aproximações por diferentes associações de idéias (“isto aqui dá certo junto com aquilo”). Redescobrir coisas boas esquecidas; revelar coisas boas que acabaram de surgir. Compor, com obras alheias, uma vitrine capaz de revelar uma visão própria. 
 
Editar um livro é tratá-lo com mão de jardineiro para que ele floresça. (p. 172) 
 
 







terça-feira, 1 de abril de 2008

0343) Campos de Carvalho (25.4.2004)




Não sei se posso incluí-lo entre meus romancistas preferidos, porque não sei se os livros dele são romances, tecnicamente falando. Em todo caso, são livros escritos em prosa, contando histórias fictícias, e com uma certa extensão; então chamemo-los assim à falta de outro rótulo, aliás dispensável. Os romances de Campos de Carvalho são apenas quatro, mas me acompanham mundo afora há mais de trinta anos, ao longo de muitas mudanças de casa, de cidade, de profissão. O autor nasceu em Uberaba em 1916, e morreu há poucos anos. Vi-o entrevistado por Pedro Bial no canal GloboNews. Estava velho, amargurado, emergindo de uma depressão, falando na morte o tempo inteiro. O pessimismo latente em seus livros parecia ter tomado conta de seu mundo.

Não importa. Nos livros, o pessimismo de Carvalho em relação à humanidade se transmuta numa prosa de inventividade incessante, num humor cheio de piruetas e acrobacias verbais sempre inesperadas, muito longe das meras graçolas que parecem ser a moeda corrente no humor literário de hoje. O primeiro, deles, A Lua vem da Ásia (1956), já surpreendia o leitor com sua anti-convencional seqüência de capítulos: “Capítulo primeiro”, “Capítulo 18o.”, “Capítulo doze”, “Sem capítulo”... (Mais adiante há um “Capítulo sem sexo”, “Dois capítulos num só”...) É um monólogo alucinatório em que se suspeita aos poucos que o narrador é um preso num campo de concentração ou um louco num hospício.

Também alucinatória é a voz narrativa de Vaca de nariz sutil (1961, título tirado de uma tela de Jean Dubuffet), o monólogo de um soldado traumatizado pela guerra, que é preso por violar a namorada sobre uma lápide no cemitério. A chuva imóvel (1963) é um delírio que tem como pano-de-fundo a ameaça nuclear, e O púcaro búlgaro (1964), seu livro mais engraçado (para alguns críticos, o melhor de todos), mostra como um grupo de malucos se junta numa expedição para tentar descobrir se a Bulgária existe de fato.

Estes quatro livros foram reunidos por Maria Amélia Mello, da Editora José Olympio, num único e precioso volume que pode ser encomendado hoje em qualquer livraria. São o melhor exemplo brasileiro da literatura absurdista, aquelas obras que, inspiradas na tradição de Alfred Jarry, Franz Kafka, Samuel Beckett, Eugene Ionesco e Albert Camus, mostram um universo onde a vida humana é movida e determinada por forças imensas e sem propósito. Os personagens-narradores de Carvalho são indivíduos massacrados pela lei, pelos preconceitos, e pelos grandes conceitos demagógicos (a Pátria, a Sociedade, a Família...) que são mais desmoralizados justamente pelos que os defendem com mais veemência. São livros escritos por um velho pessimista, mas que, por essa alquimia própria da grande literatura, ainda hoje emocionam e arrebatam os jovens rebeldes. Espíritos impacientes com o Passado e o Futuro, que cravam os dentes no Presente, e seja o que Deus quiser.