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quinta-feira, 18 de novembro de 2021

4765) Meu personagem existe mesmo (18.11.2021)




(ilustração: Pere Borrel de Caso, 1874)
 
O escritor Daniel Abraham, criador da série de ficção científica “Long Price Quartet”, conta uma história curiosa a respeito de seu primeiro texto publicado.
 
Por volta de 1996, ele estava vivendo “de favor” na casa de amigos, tentando virar escritor profissional, e teve essa idéia de escrever uma história sobre uma moça, Rebecca, que era engenheira de som e sofria de uma enorme timidez. Ela começa a seguir pessoas e a gravar os sons do mundo por onde essas pessoas circulam, compondo assim uma espécie de “trilha sonora” da vida delas.
 
O conto, que tem outros desenvolvimentos narrativos, foi publicado naquele ano na revista The Silver Web, com o título “Mixing Rebecca”. E Abraham conta (Locus, junho de 2008, trad. BT):
 
Anos depois, recebi uma mensagem de um cara que era engenheiro de som. Ele tinha gravado um álbum intitulado “Rebecca Remix”; e o nome dele era Daniel Abraham! Ela queria saber se meu nome verdadeiro era mesmo aquele, e se eu tinha andado atrás dele e aproveitado títulos dos trabalhos dele para botar nos meus trabalhos – algo que eu achei meio assustador. Foi um momento bem “Além da Imaginação”.
 
Será mentira? Não parece haver nenhum propósito em inventar uma história assim. “Daniel Abraham” me parece um nome judaico bastante comum, e se você pensa o termo “Remix” e procura um personagem feminino, “Rebecca” pode não ser o único, concordo, mas é um dos que me ocorreriam.
 
Coincidência, mas um pouco inquietante.
 
Caso parecido se deu com Julio Cortázar, que é um verdadeiro atrator para esse tipo de evento, que ele chama ao longo de sua obra como “convergências”, “constelações”, “figuras”, “concatenações instantâneas”, “bruscas coagulações” e outros termos. É o encontro aparentemente casual de coisas muito afastadas mas que acabam convergindo, de maneira inexplicável mas perturbadora.



No livro Todos os Fogos o Fogo (1966) ele publicou o conto “Instruções a John Howell”, em que o espectador de uma peça de teatro é levado aos bastidores no intervalo e convencido (ou forçado) a entrar no palco no segundo ato, interpretando de improviso o papel de “John Howell”, um marido cuja esposa o trai. Ele meio que se diverte com a situação, mas no palco a atriz que faz o papel da esposa sussurra ao seu ouvido: “Fique aqui, não deixe que me matem”, e ele percebe uma trama sinistra por trás daquilo tudo. (Não contarei o final – que aliás é enigmático.)
 
Pois bem: conta o mestre Julio (em Cortázar: Notas Para Uma Biografia, Mario Goloboff, Editora DSOP, 2014; trad. José Rubens Siqueira) que em setembro de 1973 recebeu uma carta de um leitor norte-americano chamado John Howell, que já havia lido outras obras cortazarianas, e que ao ler uma resenha de Todos os Fogos o Fogo descobriu que um dos contos citava seu nome.

 
E ele explica a Cortázar que também nunca foi ator, mas tem um amigo em Nova York que praticamente o obrigou a aceitar um papel na peça que estava dirigindo, e dessa forma ele subiu ao palco como ator durante três meses, na única experiência teatral que teve na vida. E conta que, como também escrevia de vez em quando, escreveu um conto passado em Paris e deu ao personagem o nome de Julio Cortázar, porque sabia que este escritor era um morador parisiense.
 
O que não fica claro, na biografia de Mario Goloboff, é se quando Howell batizou o personagem como “Cortázar” já sabia (ou não) que Cortázar tinha batizado um personagem seu como “Howell”. E se o amigo diretor de teatro sabia deste último caso, e resolveu usá-lo como ator de propósito.
 
Cortázar, como já falei é um verdadeiro “atrator” para tais episódios. Seu conto “Queremos tanto a Glenda” (1980, livro do mesmo nome; no Brasil, Orientação dos Gatos) imagina uma trama curiosa em torno de uma atriz de cinema, Glenda Garson, que é uma visível homenagem a Glenda Jackson (que ele não conhecia pessoalmente, mas admirava). No livro Fora de Hora (1982), ele publicou o texto “Garrafa ao Mar” onde comenta o fato de que logo após a publicação daquele livro Glenda Jackson, a verdadeira, estrelou um filme intitulado Hopscotch, ou seja, “O Jogo da Amarelinha”.


 
O autor comenta, dirigindo-se ficticiamente à atriz::
 
Ter chegado do México trazendo um livro que é anunciado com seu nome, e encontrar seu nome em um filme que é anunciado com o título de um dos meus livros, já significava uma bonita jogada do destino que tantas vezes me aprontou jogadas semelhantes.
(Fora de Hora, Nova Fronteira, 1985, trad. Olga Savary)
 
Como em tudo que envolve o Sobrenatural – ou pelo menos o Insólito –, ficamos remexendo nos detalhes em busca de uma explicação racional qualquer. Que muitas vezes existe e resolve tudo. Mas... e quando nenhuma explicação racional se mostra satisfatória?
 
Meu caso preferido nessa área é um episódio narrado por Alan Vaughan em seu Incredible Coincidence (1989). Em 1966, um grupo de professores estava reunido em Londres, tentando por brincadeira imaginar um romance futurista. Um deles sugeriu que um personagem poderia ser um refugiado, vindo talvez da Hungria. Outro, buscando um nome tipicamente húngaro, sugeriu que o personagem se chamasse “Horvath-Nadoloy”.
 
Dias depois, um deles viu no jornal a notícia de que a polícia tinha encontrado no Hyde Park um estrangeiro, aparentemente desmemoriado, dizendo que se chamava Horvath-Nadoloy. E comentou: “Sentimos que tínhamos inventado esse vagabundo, e ao longo do processo de inventá-lo acabamos por trazê-lo à vida, e uma vida não muito agradável.”
 
Algumas seitas místicas e alguns grupos de pseudo-ciência dizem que a mente humana é capaz de criar pessoas pelo simples poder de invocá-las mentalmente. Digamos que fosse verdade. Neste caso, o mundo em que vivemos estaria coberto por uma superpopulação mais que absurda. A densidade demográfica de qualquer área do deserto do Saara seria maior do que a de Meca em dia de peregrinação.
 
Não é bem assim. Acho que Cortázar se aproxima da verdade quando fala que o que produzimos não são os seres, mas sim as conexões entre eles, aproximando-os em função de um nome, de um endereço, de hábitos compartilhados, de lugares frequentados por criaturas que imprevisivelmente revelam ter algo em comum.
 
Histórias de ficção têm sempre um pé na realidade, falam de cidades, de pessoas, de ambientes, de profissões, de atividades humanas, de ritos sociais, e tudo isso são constelações de elementos que se repetem, porque na Física das culturas humanas o Semelhante atrai o Semelhante e ao mesmo tempo atrai também, grudado a ele, o Oposto.  
 
O entrecruzamento das linguagens e dos meios de comunicação humana gera um algoritmo próprio, sem controle central.
 






sexta-feira, 20 de maio de 2016

4116) Os momentos philipkdickianos (20.5.2016)



(ilustração: Jeff Drew)

É uma espécie de gíria interna entre nós, leitores, tradutores, críticos, que curtimos a obra do criador de Blade Runner e do Homem do Castelo Alto.  “Momentos Philip K. Dick” ou philipkdickianos são aqueles momentos de flagrantes quebras da realidade. Momentos em que a pessoa imagina ter cruzado um portal, uma zona de transição entre dois universos que coexistem à revelia um do outro, mas sob certas circunstâncias podem se tocar, podem permitir a passagem de alguém numa direção ou na outra.

Ou duas narrativas conflitantes, dois grupos de pessoas que, mesmo misturadas umas às outras, afirmam pertencer a universos diferentes. Cada qual explica as coisas e os fatos à sua volta com uma narrativa histórica totalmente coesa em si, mas irredutível à narrativa do outro. As duas se excluem mutuamente. Alguém ali está num universo a que não pertence. É assim com as pessoas que um acidente nuclear transporta para dentro do mundo mental de cada uma delas, sucessivamente, em Eye in the Sky, ou o solteirão desocupado de Time Out of Joint (1959), que vive de favor na casa da irmã e do cunhado, e que um belo dia tem uma revelação maior e mais apocalíptica do que a de Truman Burbank em The Truman Show, se bem que de natureza semelhante.

Momento Philip K. Dick é quando você chega numa esquina onde não passa há um mês e vê que a costumeira calçada escura e esquisitona está agora coberta de mesas sob o resplendor de luzes fluorescentes e vidraças de bares cheios de uma rapaziada bebedora que parece ter nascido ali. Rupturas inesperadas do continuum espaçotempo a que a gente estava domesticado.

Nada porém, caracteriza melhor esses momentos do que os pequenos detalhes que não batem, as coisas insignificantes, adereços de cenário, props, mas que para nós exprimem o que o mundo real tem de mais sólido, opaco, desinteressante, confiabilíssimo. O cara mora naquela casa há anos, entra no banheiro, às escuras, estende a mão para pegar o cordãozinho de fio pendurado junto à lâmpada, para acendê-la, aí se detém e pensa: “Peraí! A luz daqui sempre acendeu com interruptor! Por que eu lembrei tão vividamente que era um cordão com uma ‘pera’ pendurada?”

Que importa se a Terra está em guerra com a Lua, ou com mais alguém. Afinal de contas, é mais fácil se acabar o bar da esquina do que um país inteiro, mas o mundo está cheio de bares com mais longevidade do que algumas grandes potências ou impérios. O país pode se dissolver no ácido da ambição alheia, mas o interruptor da luz precisa ser o mesmo, o degrau quebrado da escada ainda é o terceiro do segundo lance, o meu botão de elevador é o penúltimo, a bandeira esportiva na parede da sala é aquela e não outra. Esse mundo é meu. Mas se mexem nesses detalhes tão banais, tão pessoais, aí sim, nosso senso do real fica prejudicado. Sentimos que “o próprio tecido do espaçotempo” está se esgarçando pelo forçar da nossa passagem.

Louis Pauwels, co-autor do clássico O Despertar dos Mágicos, onde propõe o conceito de Realismo Fantástico, exemplificou uma vez (creio que na antiga revista Senhor) como o Fantástico surge muitas vezes por uma diferença de percepção. Vemos algo impossível e segundos depois nossa mente corrige nosso olho: “Não, não é isso, é isto aqui”, e às vezes basta mudar um pouco de posição para ver que sim. Pauwels conta que num dia de nevoeiro cerrado ele caminhava ao ar livre, numa neblina que só permitia enxergar no raio de um metro ou pouco mais. De súbito emerge um corvo voando lento, à altura do seu rosto. Ao se deparar com ele, o corvo solta um grito aterrorizado e desaparece num voo pânico numa direção qualquer. Pauwels diz que o corvo achou que estava voando na camada alta que lhe era costumeira, de modo que, do ponto de vista dele, surgiu no ar um homem caminhando a vinte metros de altura. Daí o terror. “Ele viveu um momento de Realismo Fantástico”, dizia o autor.

Dick usava isto extensivamente, mas era um assunto tão importante para ele que ele nunca deixava de imaginar novas circunstâncias num enredo. Momentos philipkdickianos são o transe zen do personagem de O Homem do Castelo Alto, segurando um objeto e através dele sendo transportado para um mundo paralelo. É também um leit-motif recorrente de suas histórias: o instante em que alguém enxerga a si mesmo (corpo, comportamento, evidência externa) e percebe ser um andróide ou equivalente. Há um momento clássico em Time Out of Joint, quando o personagem, na piscina de um clube num dia de sol, dirige-se para uma barraca de refrigerantes e ao fazer o pedido tem uma espécie de vertigem, fica tonto, e quando se recompõe vê-se diante de um espaço vazio, e no chão está pregada uma folha de papel dizendo “Barraca de Refrigerantes”.

Momento Philip K. Dick mesmo vai ser quando eu um dia pensar: sim, mas me diga uma coisa, o que é que eu estou fazendo aqui neste lugar, a esta hora, com esta roupa, e por falar nisso, quem sou eu?





quarta-feira, 9 de outubro de 2013

3312) O Mágico e o Fantástico (9.10.2013)




(by Alexander Johansson)


Existem dois termos que a imprensa literária usa de modo intercambiável: “Realismo Mágico” e “Realismo Fantástico”. 

Eu acho que os dois exprimem coisas muito diferentes, acho que são usados de maneira irrefletida e confusa, e para aclarar essa confusão proponho a classificação abaixo.

O “Realismo Mágico” é aquele tipo de narrativa literária em que uma história aparentemente realista na sua descrição de ambientes e de personagens inclui também elementos impossíveis de acontecer, mas que obedecem a uma lógica emocional da própria narrativa. 

Exemplos clássicos são Cem anos de solidão (1967) de Garcia Márquez ou Midnight’s Children (1980) de Salman Rushdie. 

É um tipo de história característico de culturas em que um verniz europeu (cientificista, cartesiano) se sobrepõe a uma medula indígena ou milenar (dominada pelo pensamento mágico), o que dá origem a essas infiltrações. Predomina na América Latina mas também tem versões próprias nas literaturas orientais: Índia, China, Japão. O romance e o conto (ou seja, as prosas de ficção) são o seu território principal.

O “Realismo Fantástico” é algo próprio da prosa de não-ficção: o ensaio (ou pseudo-ensaio), a reportagem especulativa, o jornalismo investigativo voltado para assuntos misteriosos e controvertidos. 

Os melhores exemplos de realismo fantástico são os livros O Despertar dos Mágicos (1960) de Pauwels & Bergier (que usa esse termo em seu subtítulo) e Eram os Deuses Astronautas? (1968) de Erich von Daniken, que têm como precursor ilustre O Livro dos Danados (1919) de Charles Fort e a série Believe it or Not (1919) criada por Robert L. Ripley. 

Neste caso, não se trata de romances de ficção, e sim de explorações semi-jornalísticas de fatos inexplicados, curiosos, insólitos, absurdos. Para essas obras, o termo “mágico” não se aplica muito, porque ele não exprime a presença de uma visão mágica do mundo, e sim a mera existência de fenômenos extraordinários que o nosso “realismo” ainda não aceita: extraterrestres, criaturas fantásticas, conspirações, pseudo-ciência, etc.

A principal distinção entre os dois, contudo, é o fato de que o primeiro é composto de literatura de ficção, e o segundo de textos de não-ficção. 

O Realismo Mágico conta histórias assumidamente inventadas pelo seu autor, as quais, como toda obra literária, oferecem uma visão pessoal e profunda da condição humana. 

O Realismo Fantástico apresenta discussões factuais sobre assuntos controversos, geralmente propondo uma versão um tanto fantasiosa dos fatos, o que bastaria para classificá-lo como uma espécie de “jornalismo imaginativo” ou de “ensaística da imaginação”.








domingo, 6 de outubro de 2013

3310) A revista "Planeta" (6.10.2013)




Num debate recente no VII Fantasticon, em São Paulo, juntamente com Manuel da Costa Pinto, o escritor Ignácio de Loyola Brandão recordou os anos em que foi editor da revista Planeta, a grande divulgadora do realismo fantástico no mundo ocidental. Como lembro Loyola, a edição original francesa (Planète), surgiu em consequência do enorme sucesso do livro O Despertar dos Mágicos de Pauwels & Bergier (1960), livro que abordava temas obscuros como alquimia, holística, ocultismo, cabala, etc.  No ano seguinte os autores criaram a Planète, que em seu pico de vendagem chegou a mais de 100 mil exemplares.

Loyola comentou que, na época, era editor da revista Cláudia, onde publicava textos sobre moda, decoração, beleza, etc. Quando lhe ofereceram pilotar a edição brasileira da Planète, mesmo ganhando menos, não hesitou. Segundo ele, o número 1 da revista (que era mensal) teve tiragem de 20 mil; o 2, de 30 mil; o 3, de 40 mil.  Com poucos meses a revista atingiu e manteve um pico de vendagem de 120 mil cópias por mês, comparável à da edição francesa. Diz Loyola que houve um fato curioso: quando a Planeta pôs Chico Xavier na capa, no número seguinte a vendagem caiu para 70 mil, e foi preciso um longo tempo para voltar ao patamar anterior. Sinal de que? Segundo ele, um certo preconceito contra o espiritismo, na época. (E eu digo: se fosse hoje, com o recrudescimento da pregações religiosas, Chico Xavier faria aumentar a circulação da revista – que aliás ainda existe, só que noutro formato, e com uma orientação místico-religiosa totalmente diferente).

Loyola disse que ficou na Planeta de 1971 a 1979, e que considera este período crucial para que assuntos como OVNIs, sociedades secretas e mistérios arqueológicos começassem a ter um tratamento sério por parte da imprensa. Por outro lado, a Planeta publicava autores como Lovecraft, Borges, Sheckley e outros ligados ao fantástico e à FC. Umberto Eco, que fazia críticas à revista (“A mística de Planeta”, em Viagem na Irrealidade Cotidiana, 1984) , concede que a Planète foi “o primeiro caso de uma revista de luxo que se torna um acontecimento de massa”.  No Brasil, a revista serviu como um aglutinador de ufólogos, ocultistas, forteanos, estudiosos da alquimia e da Cabala... e de leitores de ficção científica. A presença de contos de FC no meio de artigos sobre Gurdjieff ou a Atlântida trazia o gênero de volta ao universo da pulp fiction, onde em termos de imaginação vale tudo. A Planeta formou minha geração, e ajudou a dar-lhe uma abertura européia bem-vinda num contexto editorial totalmente dependente dos EUA.