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terça-feira, 9 de abril de 2013

3155) Pelo Estado laico (9.4.2013)





Quem lê meus artigos ou me conhece pessoalmente, sabe duas coisas a meu respeito: 1) Eu sou agnóstico, não acredito na existência de um Deus nem de uma alma humana imortal; 2) Eu não me importo que outras pessoas acreditem nisso, desde que essa crença as torne pessoas melhores e não prejudique os demais. Acho a religião uma coisa importante, mas para mim (para MIM, pessoal e intransferivelmente) a Ciência fornece explicações mais sensatas sobre o Universo, o mundo e o ser humano. “Ah, mas há milhões de coisas no mundo que a Ciência não explica!”. É verdade, mas, e daí? O mundo é novo, minha gente! A Ciência mal começou!

O Brasil é uma República onde todo mundo (pelo menos no papel) tem os mesmos direitos, e que não dá preferência a uma religião sobre as demais. Dar precedência jurídica a qualquer grupo religioso – essa coisa tão subjetiva, tão alicerçada na fé, tão de-foro-íntimo, tão pessoal-e-intransferível – equivaleria a dar poder legislativo a um teoria estética sobre as demais. Permitir, por exemplo, que um gênero literário (ou um ritmo musical, ou um movimento teatral, etc.) tivesse o poder de bloquear todos os apoios governamentais aos outros. Ia ser muito engraçado ver ensaios intitulados – “O Declínio do Romance Realista Urbano no Brasil: Uma Ditadura da Ficção Científica?”.

Religião é uma coisa parecida com a Arte. Não se baseia em verdades universais, mas em crenças pessoais, acreditadas e disseminadas de início por pequenos grupos, que vão se ampliando à medida que ganham adeptos, mas que, em última análise, não têm o direito de impor sua visão sobre os demais. Não há provas consensuais de que qualquer um desses deuses (Deus, Iavé, Allah, Shiva, etc.) exista, assim como não há provas consensuais de que Picasso seja um bom pintor, Glauber Rocha um bom cineasta, H. G. Wells um bom escritor ou Pinto do Monteiro um bom repentista.

Não há como avaliar isso de modo imparcial, objetivo, distanciado. Arte e religião são certezas íntimas cultivadas por pessoas, e merecem o maior respeito. Pelo respeito que merecem, precisam ser deixadas de fora da atividade legislativa e jurídica: porque todas precisam ser levadas igualmente a sério, o que significa que nenhuma delas tem o direito de se sobrepor juridicamente às demais. O Estado brasileiro tem que ser laico em matéria de religião, como garantia de que todas as religiões terão livre curso para suas atividades; e que todas as formas de arte serão igualmente livres para criar.

Principalmente nesta época (“Oh, tempos! Oh, costumes!”) em que é muito mais fácil ficar rico inventando uma igreja do que criando obras de arte. Vamos lutar pelo Estado laico, sempre.


sábado, 26 de janeiro de 2013

3093) O anjo e o átomo (26.1.2013)



(Salvador Dali, O anjo caído)



Eu nunca vi um anjo e nunca vi um átomo, mas, por alguma razão profunda, duvido “de graça” da existência do anjo e acredito “de graça” na existência do átomo.

A primeira proposição precisa ser qualificada para não gerar mal entendidos. Jamais duvido da existência do anjo como um produto da nossa cultura, um personagem, uma criatura composta de lendas e imagens. Um anjo existe tanto quanto um elfo, um vampiro, um saci. São personagens da cultura, têm sua função, ajudam a focalizar emoções, servem de símbolo, servem de comparação, ajudam a contar parábolas e histórias... 

Enfim, são personagens que se tornaram indispensáveis na nossa cultura, pelo menos a ocidental e cristã, pois não sei se os chineses, os ianomâmis ou os aborígines da Austrália têm criaturas equivalentes.

Já o átomo, comparado com o anjo, é uma coisa muito sem graça. Quando eu era menino ele era representado como um aglomerado de bolinhas de cores diferentes (o núcleo) rodeado, em órbitas, por outras bolinhas menores (os elétrons). Nunca deixou de me inquietar a noção de que “a menor partícula da matéria” podia ser dividida em partículas ainda menores. Essa contradição filosófica nunca me escapou. 

Em todo caso, um átomo não é feito de miçangas, e sim de vibrações localizadas de energia que se atraem e repelem, e que ao longo de bilhões de anos foram se combinando em padrões estáveis (os elementos químicos).

Por que motivo acredito no que acabei de escrever aí em cima? Eu nunca vi um átomo. Vi fotos com microscópio eletrônico, mostrando espaços negros pontilhados por manchinhas luminosas. Uma coisa inconvincente; eu próprio, se me dessem um bom software de animação, seria capaz de produzir átomos muito mais verossímeis. 

Os átomos são feitos de 99,9% de vazio e 0,1% de energia. E no entanto eu acredito que eles existem, sim, e que são mais ou menos como a Ciência os descreve. (É a própria Ciência que me adverte a colocar esse “mais ou menos”.)

Nós somos convencidos por provas, mas, mais do que por provas, somos convencidos pela Narrativa que se cria em torno de qualquer coisa. 

Se a gente não gosta da Narrativa, nem as provas mais arrasadoras são capazes de nos fazer mudar de opinião. 

Se a Narrativa é convincente, as provas são mera ilustração. 

A Narrativa religiosa do anjo não me convence (o Anjo como entidade espiritual); a Narrativa científica do átomo, sim. Desde a infância a gente vai examinando as Narrativas que recebe (da família, da escola, dos amigos, dos livros), vai se afastando de umas e se filiando a outras. E passa a viver no mundo dessa Narrativa. Eu vivo num mundo onde, se Anjos existem, são feitos de átomos.






quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

3060) Ser agnóstico (19.12.2012)






Um ateu tem certeza de que Deus não existe; um agnóstico acha que não há como saber, neste momento, se isso é verdade ou não. (Segundo Ariano Suassuna há uma terceira categoria, o herege, que diz: “Eu acredito em Deus, sim, mas antipatizo com ele”). O agnóstico em geral não antipatiza com a religião. Ele talvez tenha tido uma formação científica e tem o hábito de proceder por análises, argumentos e exames de provas. Se alguém quiser usar esse método para descobrir se Deus existe ou não, vai ter uma certa dificuldade. É possível provar verbalmente a existência de Deus, com argumentos teológicos; mas os mesmos argumentos serviriam para provar a existência de numerosas outras coisas. Se as premissas forem bem escolhidas, e forem aceitas pelo interlocutor, pode-se provar seja lá o que for.

Algumas pessoas religiosas dizem que a fé é espontânea, nasce de uma iluminação íntima, e não de uma discussão filosófica. Neste caso (dizem os agnósticos), estou aqui até hoje, esperando essa iluminação que no meu caso não aconteceu. Como dizia Darcy Ribeiro, “Deus me conhece, sabe onde eu moro, e se quisesse que eu acreditasse nele já tinha providenciado”.

Um agnóstico respeita as religiões pelo mesmo motivo por que respeita as literaturas. São construções do espírito humano, onde projetamos nossas visões do mundo, nossos comentários sobre a condição humana, sobre os nossos medos, nossas aspirações, nossas visões a respeito de tudo que transcende nossa vida: o infinito, a eternidade, etc. As religiões são ficções organizadas que tentam dar um sentido a tudo que vemos e descobrimos sobre o mundo. O Islã, o Cristianismo e o Judaísmo são o produto de três culturas diferentes. A visão que elas nos dão sobre Deus está inextricavelmente tecida com seus relatos históricos, os preceitos sociais e morais de cada uma, os seus mitos e seus ritos. O agnóstico não vê neles revelações divinas; vê documentos humanos, da maior importância, mesmo que não sejam factualmente verdadeiros – tal como ocorre com o teatro universal, o romance, a poesia épica. Pouco importa se Ulisses existiu ou não, isto não diminui o valor da Odisséia. O mesmo se dá com os livros sagrados.

O agnóstico geralmente é um individualista, um isolado, pelo menos em termos dessa crença. Ele gosta de pensar por si mesmo; daí que agnóstico seja quase sinônimo daquele termo do século passado, que quase não se usa mais: “livre pensador”. Um agnóstico não está obedecendo um manual, nem uma escritura sagrada, nem uma profecia. Há um bilhão de maneiras de ser agnóstico; basta (como dizia Dick Peter) que “veja as coisas com os seus próprios olhos”.




quarta-feira, 26 de setembro de 2012

2986) O fanático sorridente (26.9.2012)




Sou agnóstico mas considero a religião uma forma importante de conhecimento intuitivo do mundo e de relacionamento interpessoal.  Sem as religiões à minha volta, minha vida ficaria empobrecida, mesmo que eu não concorde com as premissas delas (existência de mundo espiritual, existência de seres superiores que nos avaliam e nos julgam, existência do Céu e do Inferno, etc.). Fazem parte da cultura que me cerca. Por outro lado, não preciso de religião. Para explicar o Universo, a Ciência tem me quebrado o maior galho.  Para conviver com a humanidade, tenho uma espécie de humanismo doméstico, que não queima incenso em nenhum altar.  Se um dia eu mudar de idéia e me converter a alguma fé, serei o primeiro a avisar a todo mundo. Por que não?

Aqui no Brasil, uma das primeiras providências da Casa Grande foi abrir uma capela pertinho da Senzala. Quando um povo domina e escraviza outro, não basta destruir seus armamentos, é preciso destruir seus deuses também. Os espanhóis queimaram milhares de códices maias, mas se fossem os maias que tivessem invadido a Espanha teriam feito o mesmo com as catedrais (os republicanos queimaram centenas delas na Guerra Civil). Hoje circula nas redes sociais, numa campanha contra a evangelização forçada dos índios, uma imagem orgulhosa de um jovem índio brasileiro dizendo: “Seu mito não é melhor do que o meu”. O problema é que quem acredita em mitos acha sempre que mito é só o dos outros – o seu é a verdade. A fórmula de toda crença requer pelo menos um átomo de fanatismo, porque crer é ter certeza, e o fanatismo não passa de certeza. Uma certeza ansiosa para se expandir, e que não aceita ser questionada ou relativizada pela existência de certezas opostas. Não é preciso desprezar nem odiar os fanáticos. Devemos apenas enquadrá-los, impor limites civis e coletivos a sua atuação, impedir que infernizem a vida alheia com sua hipótese de Paraíso. Podemos perdoá-los, porque é evidente que não sabem o que fazem.

Vejam bem – não falo dos caras que empunham archotes acesos e enforcam gente.  Falo dos fanáticos pacíficos, cuja única arma é o altofalante na casa vizinha bradando aleluias e hosanas. (Confesso que nessas horas quem tem vontade de empunhar archotes e enforcar gente sou eu.) Alguém já disse que fanático é um sujeito que nunca muda de opinião, nem de assunto. E vou mais além – é o cara para quem o simples fato de você acreditar em algo diferente exige que você seja imediatamente convencido a mudar de idéia. O quê? Não concorda com minha definição, amigo?  Beleza!  Fique com a sua que eu fico com a minha. Basta não tocar na minha campainha, e dar uma abaixada no som.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

1858) Pare de se preocupar (21.2.2009)



Rola na Europa uma campanha de ateus e agnósticos que coloca posters nos ônibus urbanos dizendo: “Provavelmente não existe Deus, portanto pare de se preocupar, e aproveite a vida”. A finalidade da campanha não é reduzir as preocupações dos cidadãos comuns, e sim alfinetar os grupos fundamentalistas, cujos membros caem ao chão, ciscando e espumando, toda vez que avistam uma frase desse tipo. Com todo respeito, é o mesmo que mostrar cruz a vampiro.

Eu pertenço à ala direita dos AA (sou agnóstico) e entendo a intenção da campanha, inclusive simpatizo com o bom humor e a leveza da mensagem, muito diferente das diatribes furiosas que um dos seus patrocinadores, o cientista Richard Dawkins, costuma produzir em seus próprios livros. A campanha não chama os crentes-em-Deus de imbecis nem de fanáticos, apenas diz: “Calma, esse assunto não é uma prioridade, vá cuidar de coisas mais urgentes”. É claro, no entanto, que uma pessoa que apoiou toda sua vida mental no conceito da existência de Deus, e por consequência na existência de sua própria alma imortal, não vai admitir que os aviões do ateísmo derrubem duas torres tão imponentes, das quais depende sua aposta na vida eterna.

Mais do que o conteúdo secular da proposta, contudo, o que me agradou foi o jeito de dizer as coisas, algo muito importante quando se mexe com a crença alheia. Não podemos dizer “você é um idiota por acreditar nisto” (ou “por duvidar disto”). Melhor dizer assim: vá se ocupar com outras coisas. Deus existe? Então deixe Deus quieto no canto dele e vá fazer coisas que sejam úteis para alguém mais. Eu nada tenho contra a fé religiosa, mas vejo com certo desânimo as pessoas para quem acreditar numa Divindade significa passar o dia inteiro entoando loas, louvações e elogios à Divindade. Grande parte da atividade religiosa que vejo por aí consiste apenas em ficar salmodiando: “Você é grande, gigantesco, perfeito, onipotente, etc.” É isso que uma Divindade espera ouvir de seres dotados de alma imortal e de livre arbítrio?

Todas as religiões são humanas, demasiado humanas. O que têm de transcendente ou de epifânico é uma pepita no meio de um cascalho de rituais repetidos de forma mecânica. Quando chega um grupo de pessoas e diz “pare de se preocupar e aproveite a vida” na realidade está dizendo, “pare de tratar Deus como um imperador mimado e vá fazer as coisas que ele espera que você faça”. Vá alimentar os famintos, agasalhar os que têm frio, arranjar terra para quem quer trabalhar, indicar um caminho para quem está perdido no mundo.

Se não me engano há um trecho nos Evangelhos em que Cristo diz: “O que fizerdes por eles, é por mim que estareis fazendo”. Se ele disse isso, vai ver que estava dizendo algo como: “Deus existe e sou eu. Portanto, pare de se preocupar e aproveite a vida”. (Claro que hoje em dia “aproveitar a vida” é beber, cair e levantar, mas ninguém pode botar a culpa em Jesus Cristo.)

quinta-feira, 25 de março de 2010

1825) A paz da descrença (14.1.2009)



(ilustração: Millôr Fernandes)

Numa entrevista ao programa Encontro Marcado com as Artes, Millôr Fernandes rememora um episódio crucial de sua infância. Tendo perdido o pai aos cinco anos, ele perdeu a mãe aos dez, e foi morar na casa de um tio. O dia do enterro da mãe foi um dia meio confuso em que ele não teve muita noção do que estava acontecendo. Quando tudo acabou, de volta à casa do tio, ele ficou sozinho no quarto que lhe destinaram. A casa tinha um piso de tábuas corridas, e o piso tinha sido lavado naquele dia. Embaixo da cama havia uma esteira, e o piso estava ainda fresco e úmido, naquele dia de calor. “Fui para baixo da cama,” diz ele, “deitei na esteira e chorei até me acabar. Ninguém viu. Chorei até não poder mais. Depois que acabei, baixou sobre mim uma paz muito estranha, que só posso definir como a paz da descrença. Eu percebi que existia eu, existia o destino, e nada mais. Nenhum intermediário. Nenhuma interface.”

Este episódio lança uma pequena pista sobre a complexa personalidade de Millôr Fernandes, que tem sido por mais de cinco décadas, à distância e à revelia, um dos meus professores de agosticismo. Tive a sorte de não ter passado por uma perda semelhante à dele, de forma que minha relativa descrença se teceu com outras fibras. Millôr é um cético e frequentemente um cínico, pela sua visão irreverente das nossas limitações morais. É um cinismo, contudo, que critica a humanidade em nome de um humanismo. Não é o cinismo ególatra e “blasé” de um certo pessoal de hoje em dia, que escarnece de todas as ideologias, de todas as crenças, de todos os valores, mas preserva cuidadosamente a própria vaidade e os próprios interesses. Millor diz, na entrevista: “A maior qualidade humana não é a inteligência nem a competência técnica, é a bondade. Se estou na minha janela e vejo um acidente lá embaixo na rua, às vezes, por alguma razão, não posso descer para ajudar, mas vejo que duas ou três pessoas descem. Isso me dá fé na humanidade”.

A descrença em divindades sobrenaturais é, para alguns, uma fonte perpétua de desespero, negação de tudo, revolta surda e irritada contra a vida. Para outras pessoas, a descrença pode ser a força que leva cada indivíduo a extrair um humanismo de si mesmo, um humanismo por conta própria, não aprendido num manual ou numa Escritura Sagrada, mas como consequência das experiências de vida de cada um.

Millôr já se queixou muitas vezes de que não é considerado escritor porque nunca escreveu um romance. O que produziu – mesmo que filtrado, enxugado, reduzido ao essencial, ao não-circunstancial, ao que é realmente bom – somaria alguns milhares de páginas. (Sem falar no seu espantoso trabalho como artista gráfico.) Mas os manuais de Literatura Brasileira não lhe reservam mais que umas poucas linhas, enquanto dedicam páginas e mais páginas a algumas cavalgaduras diplomadas e pomposas que só produziram miolo-de-pote. Nossa descrença começa sempre em nossa própria casa.

domingo, 14 de março de 2010

1789) O céu dos agnósticos (3.12.2008)



(Blaise Pascal)

Ah, a imensa solidão do agnóstico! No centro da esfera escura e oca que é seu mundo, ele contempla à distância duas luminosidades: a luminosa certeza dos Crentes, e a luminosa certeza dos Ateus. Essas luzes (que sejam duas, que seja uma só, tanto lhe faz) não existem para ele. Ele habita o centro da treva do não-saber, do não-acreditar, e talvez os Iluminados, que o percebem de longe, dele se compadeçam. “Coitado,” pensam, “vive ali, no escuro, no frio, sem certeza de nada... Por que não lhe mandamos uma marmita, uma garrafa térmica com café, uma manta, um colchonete?...”

Obrigado, queridos amigos! Não preciso, não precisamos. Sei que “o silêncio eternal destes espaços infinitos vos amedronta”, como disse Pascal; mas a mim ele não passa do silêncio acolhedor e aconchegante que precede o sono e nos sossega as pálpebras. O ser humano é um bípede pensante, e mais do que isto: um bípede que se agita, que se socializa, que precisa desesperadamente acreditar que os outros bípedes à sua volta são reais, e daí é só um passo silogístico para acreditar na existência de um Bípede Supremo que criou o universo bipedal e o administra. Assim se criam as religiões. Tudo nelas é imagem e semelhança.

Suponhamos (por obra de argumento) que não haja um Deus. O que somos, então? Acasos biológicos que se organizaram em sociedades e criaram idiomas. É uma resposta paupérrima, insatisfatória. Eu próprio não a ouço com bons ouvidos. Suponhamos (caso contrário) que haja um Deus. Tudo que conhecemos, por conseguinte, é obra sua. Cada spin de cada elétron em cada nanossegundo é ordenado pessoalmente por ele; cada ascensão e queda de Império, cada formação de Sistema Solar, cada Big Bang. Vem daí minha questão: por que nos preocuparmos, então? Se Deus é Onisciente, Onipresente e Onipotente, é o mesmo que não existir, visto que qualquer alternativa que nos ocorra já lhe ocorreu a ele, e qualquer decisão que tomemos já foi tomada por ele desde um trilhão de Eternos Retornos atrás. É como, amigos, pegar os dois termos de uma equação e multiplicar cada um por um bilhão de bilhões de bilhões. Dá no mesmo.

Pascal (lá vem ele de novo) ponderou com argúcia sobre a conveniência de crer. Disse ele que é melhor crer do que não crer, porque se estivermos errados e Deus não existir, então nada se perde; mas se não acreditarmos em Deus e ele existir, então toda a Eternidade estará perdida para nós. Eu proponho o seguinte a Pascal: já que Deus é Onisciente (e conhece inclusive o futuro, está olhando agora o que pensarei e farei daqui a dez anos) ignoremo-lo. Ajamos como se ele não existisse, mas existisse, entre os seres humanos, um pacto recíproco de ajuda, respeito e equilíbrio. Ajamos como se o Universo fosse uma treva sem Deus, e coubesse aos homens acender nessa caverna uma luz. Que Deus (que Deus antropomorficamente bom e ético) condenaria uma humanidade tão agnóstica, mas tão mais humana do que esta?

sexta-feira, 7 de março de 2008

0055) O cético (25.5.2003)



Houve uma época em que eu circulava numa turma de amigos que liam muito sobre Magia Ritual, Ocultismo, Paranormalidade, esse tipo de coisas. Cada um tinha seus pontos de vista a respeito. Um de nós, descrevendo dois outros participantes do grupo, usou esta expressão: “Fulano acredita, mas não vê. Sicrano vê mas não acredita.” 

 Não conheço fórmula melhor para descrever os dois tipos de céticos. 

O cético não é apenas um cara teimoso, que se recusa a acreditar, que tapa os olhos e os ouvidos e fica cantarolando “lá-lá-lá-lá-lá” para não cair em tentação. 

O cético é simplesmente um sujeito exigente. Ele não se deixa levar pela primeira conversa, nem mesmo quando a conversa é a dele próprio.

O cético mais famoso é São Tomé, que, ouvindo o relato dos demais sobre a ressurreição de Cristo, duvidou dela. O episódio está no Evangelho de São João (os outros Evangelhos referem a incredulidade dos discípulos, mas não citam nomes). 

Ao pedir para conferir os ferimentos no corpo de Cristo, Tomé é admoestado: “Tu creste, Tomé, porque me viste? Bem-aventurados os que não viram e creram.” Este pequeno episódio foi muitas vezes usado por materialistas e ateus para mostrar que a religião adora afirmar sem provas, convencer sem argumentos, dizer sem confirmação. 

Eu mesmo escrevi um poeminha: 

Ninguém me embroma. 
Eu sou como São Tomé. 
Meto o dedo no hematoma 
pra que ninguém me tome 
pelo que é.

Quando eu vejo uma luz passar no céu, eu não penso que é uma espaçonave alienígena, não penso nem sequer que é um “objeto voador não-identificado”. Como vou saber se aquilo é um objeto ou não? Por mim, é apenas uma luminosidade. 

Mas tem gente que basta ver um brilhozinho passando pra dizer logo: 

-- Tá vendo? Olhe aí a prova! São visitantes extra-galácticos! Eles estão observando nosso planeta há séculos, mas não se aproximam porque nós temos bombas atômicas! 

Se eu estiver passando na rua e vir um disco-voador pousar, e uma porção de extra-terrestres saírem de dentro dele, a primeira explicação que vai me ocorrer é que fiquei doido. Me parece muito mais provável.

Nem todo mundo que acredita vê. Perguntei uma vez a um ufólogo se ele já tinha visto um OVNI em seus vinte anos de estudos. “Não,” confessou ele, “toda vez que vejo alguma coisa acabo percebendo que tinha outra explicação, bem simples.” 

Pense num cara honesto! É o contrário de um monte de gente que tem por aí, que diz que foi abduzido, andou “por outras galáxias”... esse pessoal acha que andar por outros planetas é pouco, tem que ser “por outras galáxias”. 

Parece essas pessoas que se convertem ao cristianismo e meses depois já estão falando com Jesus, conversando com os anjos e montando no cavalo de São Jorge.

Um cético não duvida apenas dos outros, duvida de si próprio. O cético é um cara a quem alguém mostra o Everest, e ele diz: “Só acredito que isso é uma montanha se eu conseguir chegar lá em cima.”





0006) Se Deus existisse, como seria? (29.03.2003)

Pediram-me para reproduzir nesta página a minha contribuição a uma mesa-redonda que se realizou em Campina Grande, durante o XII Encontro Para a Nova Consciência. Essa mesa teve lugar no “V Encontro de Ateus e Agnósticos”, um evento que aliás surgiu por sugestão minha, baseado numa verdade muito simples: se a Nova Consciência nos ensina a respeitar todas as crenças, por que não respeitar também a crença dos que não crêem? Um ateu também é filho de Deus, mesmo afirmando que o Homem não passa de um clone de si mesmo.

Só para esclarecer: um ateu é um cara que tem certeza de que não existe Deus. Um agnóstico é o que acha que dificilmente conseguiremos nos entender com um Ser Sobrenatural, caso este exista mesmo. Para um agnóstico, pode até existir um mundo espiritual; mas a possibilidade de um ser humano entendê-lo é mais remota do que a de um cupim decifrar a enciclopédia que está roendo.

Quando construímos a idéia de Deus, ela cumpre três funções. A primeira delas é uma função intelectual, a de explicar a origem, o funcionamento e o propósito do Universo físico onde estamos. É uma máquina complexa demais para ser obra do Acaso: galáxias, planetas, vida orgânica, moléculas, átomos... Não é possível. Tem que ter sido concebido por uma Mente Superior.

A segunda função é moral: Deus precisa existir para que tenhamos uma balança de valores éticos, para que tenhamos um Bem Absoluto com que medir nossos pequenos erros e acertos. A frase de Dostoiévski, “Se Deus não existe, tudo é permitido”, ainda nos causa a mesma crispação de horror de quem primeiro considerou a sério esta possibilidade. Se Deus não existe, então como poderemos convencer quem quer que seja de que somos eticamente superiores a um nazista ou a um serial killer? Quem nos garante que o mundo é feito à feição da nossa alma, e não à de Hannibal Lecter?

A terceira função existe para nos dar uma sensação de objetivo, de finalidade. Deus foi criado para nos trazer o imenso alívio de acreditar que a existência do mundo tem um propósito, assim como nossas vidinhas pessoais. A existência de Deus transforma o universo num lugar aconchegante, onde nos sentimos bem-vindos, onde por mais que enfrentemos dificuldades sabemos que existe, governando tudo, o Bem, uma presença severa mas amorosa, e que podemos viver em paz porque ela vela por nós.

Deus existe? Podemos responder: “Agora, sim”. É um conceito criado pelo homem, assim como o conceito de Arte, ou o de Democracia, ou o de Amor Romântico, que não existem na Natureza. Deus existe, e é tão real quanto Dom Quixote, quanto Ulisses, quanto o príncipe Hamlet, quanto Raskolnikov. Só que cada Deus é criado à nossa imagem e semelhança. O Deus de um sertanejo não é o Deus de uma socialite. E se é pra acreditar em alguma coisa, eu por mim prefiro acreditar numa Hipergaláxia Megafísica Pensante do que acreditar no Deus de um pastor que chuta a santa dos outros e tosquia os últimos tostões do rebanho.