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quarta-feira, 18 de outubro de 2023

4993) A pior sensação da vida (18.10.2023)



(Manuel Bandeira)
 

“A vida inteira que poderia ter sido e não foi”, pensou um dia Manuel Bandeira, durante um poema.
 
Frágil, ameaçado pela tuberculose desde a adolescência, o poeta  não tinha como não fantasiar outras vidas, o que aliás fez lindamente em “Vou-me embora pra Pasárgada”. Tanta coisa para viver, tantas aventuras, tantos prazeres! E a vida se resume ao esforço fatigante de preservar uma existência sem atrativos. Por isso, talvez, gente como Janis Joplin dizia preferir viver dez anos a mil-por-hora do que mil anos a dez.
 
Janis conseguiu o que queria. A maioria das pessoas prefere viver pianinho, prefere pegar leve, poupar-se, mesmo que resignando-se a uma certa pasmaceira. E abrindo mão daquilo que a cultura-de-massas chama “a realização do seu sonho”.


 
Paulo Coelho popularizou (não foi ele quem criou) a expressão “quando você vai atrás do seu sonho, o universo inteiro conspira a seu favor”. É uma frase eficaz no sentido motivacional, porque todos nós precisamos de uma aplicação de otimismo quando temos que encarar uma tarefa, mesmo algo simples como arrumar a escrivaninha ou lavar o banheiro de casa.
 
É preciso acreditar que o objetivo vai ser atingido. Times de futebol, equipes de vendedores, grupos de militantes políticos, soldados no campo de batalha – todos eles precisam acreditar no sucesso, precisam da hipnose benéfica do otimismo.
 
Esse tipo de auto-ajuda funciona de forma paradoxal, porque as pessoas conseguem acreditar ao mesmo tempo no livre-arbítrio (“eu tomei esta decisão e tenho certeza de que alcançarei meu objetivo”) e no destino (“está escrito que serei vencedor”). O que é compreensível: sempre que os fatos parecem desmentir um desses aspectos, basta-nos trocar de chave, e acreditar no outro.



(Hugh Mac Leod)
 
Hugh MacLeod, autor de livros de auto-ajuda, afirma (em Ignore Everybody):
 
Toda pessoa foi trazida para a Terra com um Monte Everest privado para escalar. Talvez você nunca chegue ao pico, e isto é compreensível. Mas se você não fizer pelo menos um esforço sério para chegar ao cume nevado, anos depois você vai se ver deitado em seu leito de morte, e tudo que vai sentir é um enorme vazio. (trad. BT)
 
A auto-ajuda consiste muitas vezes em reafirmar, com suas próprias palavras, algo que você leu e lhe pareceu fazer sentido.


(Franz Kafka)

 
Franz Kafka tem uma parábola famosa chamada “Diante da Lei”. Um homem chega diante de uma porta que dá acesso à Lei. Diante dela há um guarda enorme, ameaçador, que o dissuade de tentar entrar ali. “Depois desta porta há outra,” explica ele ao homem, “com um guarda ainda maior que eu, e depois outra ainda maior, e assim por diante; eu próprio não consigo olhar para eles sem ficar tomado de terror.”
 
O homem hesita, acha que não vai ser capaz, e passa o resto da vida ali, ao pé da porta. Perto de morrer, ele chama o guarda e pergunta por que motivo, durante todos aqueles anos, não apareceram outras pessoas ali à procura da Lei. O guarda responde: “Porque esta porta existia somente para ti, e como agora vais morrer, terei que fechá-la”.
 
A porta da Lei e o Everest privado são o mesmo conceito – existe algo que somente você será capaz de tentar, e não adianta tentar se beneficiar da experiência alheia ou do efeito manada, invadindo o recinto junto com uma multidão. As conquistas pessoais são solitárias, por definição. Dependem só de você.



(Henry James)

Henry James glosou este mote em sua misteriosa noveleta “A Fera na Selva” (1903). Seu protagonista, John Marcher, é um homem inteligente, pacato, metódico, que confessa viver à espera de um evento extraordinário que (por uma intuição qualquer) ele pressente estar à sua espera no futuro. Preparando-se para esse evento (que tanto pode ser uma epifania quanto um desastre), ele  se poupa, se protege, evita embarcar em outros compromissos. E no final, nada acontece. O evento extraordinário talvez estivesse no seu caminho se ele tivesse se lançado à vida, ao invés de se proteger dela.


(John Crowley)
 

Ter medo da vida é doloroso. O que dizer de quem tem medo da literatura? John Crowley tem um conto, “Novelty”, na coletânea do mesmo nome (Foundation / Doubleday, 1989), cujo protagonista, um indivíduo cheio de ambições literárias, um dia se depara, dentro de si mesmo, com uma revelação acabrunhante.
 
Muitos anos depois, ele percebeu que a diferença entre ele e Shakespeare não era propriamente de talento, mas de fibra. A capacidade de não se intimidar diante das idéias mais vastas ou mais poderosas e de simplesmente (simplesmente!) sentar-se à mesa e pôr mãos à obra. A terrível languidez que se apossava dele quando algo imenso e complexo tornava-se subitamente claro aos seus olhos, algo com as dimensões de um “Rei Lear” e a minúcia de um soneto. Se ao menos não desabasse sobre ele assim, de uma vez, tudo tão monumental e tão perfeito, deixando-o amedrontado e frouxo diante da perspectiva de articular tudo aquilo, cena por cena, página por página!... (...) Gemendo como um fantasma desprezado, a idéia grandiosa ruflava as asas e sumia no vazio.  (trad. BT)
 
Alguns autores são assim, capazes de se maravilhar (e se aterrorizar) com as dimensões de uma empreitada. Outros são mais pragmáticos.



(Thomas Carlyle)
 

Conta-se que Thomas Carlyle recebeu de seu colega John Stuart Mill, em 1834, a encomenda da redação de uma história da Revolução Francesa. Mill recebera essa proposta mas não tinha condições de executá-la. Carlyle aceitou, e pôs mãos à obra. Depois que concluiu o livro (cuja edição atual tem cerca de 800 páginas), enviou o manuscrito para Stuart Mill. Na casa deste, por engano, uma criada pegou o pacote com o manuscrito e o queimou, achando que era destinado ao lixo. Quando recebeu a notícia, Carlyle sentou-se à mesa, pegou pena e tinteiro, escreveu “Capítulo 1”, e refez o livro por completo.
 
 
 




domingo, 27 de dezembro de 2015

4007) Livros do ano 1 (26.12.2015)



Esta é a época em que os críticos fazem listas dos melhores livros do ano, mas os críticos parecem ler somente o que foi lançado agora. Minhas leituras são aleatórias. Tenho muito mais interesse pela literatura de cem anos atrás do que pela atual. Não que uma seja melhor do que a outra. É mera veneta, cacoete mental; é como achar que qualquer rua de Istambul ou Toronto deve ser mais interessante do que a rua aqui do lado. Dito isto, vamos em frente.

Terminei este ano de ler a coletânea Ghost Stories of Henry James. James é um desses casos meio raros de autores de estilo refinado que escreviam caudalosamente. Como produziu esse sujeito! Seus contos de fantasmas são quase todos psicológicos, de clima, ambientação, ilustrações perfeitas para a teoria todoroviana da oscilação entre explicação real e sobrenatural. Vão do gótico puro de “The Romance of Certain Old Clothes” (1868) até o desdobramento físico em “The private life” (1892). Todos são muito bons. Há uma certa falta de surpresa nos desfechos, mas a literatura de James reside mais nos detalhes do que na estrutura, que é clássica, previsível.

Li este ano O Mago (2008) de Fernando Morais, biografia de Paulo Coelho, desmerecida por alguns por ter sido uma biografia “chapa branca” (autorizada). Biografias autorizadas podem ser boas, sim, menos para quem só pensa em escândalo. Morais traça com precisão o histórico do Mago, e mostra, curiosamente, que desde a adolescência ele sonhava em ser o escritor mais bem sucedido do mundo. Eu achava que ele era um roqueiro que virou best-seller meio por acaso. Não era. Foi um projeto profissional que, com desvios inevitáveis pelo temperamento malucão do personagem, e também da época, sofreu mil contratempos, mas se realizou.

Também este ano terminei finalmente de ler The Crying of Lot 49 (1966), o mais curto dos romances de Thomas Pynchon, mas espantosamente concentrado. A prosa de Pynchon é pesadíssima de alusões culturais, mas em seus momentos mais leves é uma delícia de barroquismo pop. Este livro é um clássico das teorias da conspiração romanescas (ou seja, as que não se propõem como verdadeiras), sobre uma organização secreta de correios infiltrada nos EUA.

The third policeman (1967), de Flann O’Brien, é um dos melhores romances absurdistas que já li (há tradução brasileira). Uma sucessão de episódios fantásticos que parecem dar acesso a universos paralelos, ao Além-túmulo ou a delírios do personagem. Há momentos que lembram Alice de Lewis Carroll, outros que lembram Ubik de Philip K. Dick, outros que dão a impressão de um Jorge Luís Borges tentando escrever um romance policial metafísico. (Continua)




quarta-feira, 16 de julho de 2014

3552) O desejo e o objetivo (16.7.2014)



Uma das piores coisas que podem acontecer durante uma discussão sobre literatura e mercado editorial é alguém aludir a Stephen King, J. K. Rowling ou Paulo Coelho para dar exemplo seja lá do que for. Esse pessoal que vende milhões passa para o autor novato a idéia de que o objetivo dele deve ser, também, vender milhões de cópias, o que é um erro. Na pressa de atingir esse número irreal, ele vai se oferecer pra “transar com Deus e com o lobisomem”, como dizia o parceiro do autor de O Alquimista. Não vai conseguir, e talvez acabe entrando para o clube azedo e ressentido dos que dizem: “Pois é... um país que não lê... ah, se eu escrevesse em inglês...”

Vender dez milhões de exemplares não pode ser o objetivo de ninguém que publica um livro, ainda mais se for um livro de estréia. É um objetivo irreal, que chega à beira do absurdo, mas mesmo assim vejo muitos autores jovens e autoconfiantes dizerem: “Se a série Crepúsculo vendeu tanto assim, por que um livro meu não pode vender também?”.  Isso, minha gente, não é um objetivo, é um desejo.  Todo mundo é livre para desejar o que quiser, sonhar com o que bem entender.  Mas isso não pode ser confundido com um objetivo.  Objetivo é algo que está no horizonte do possível, algo que pode ser planejado e cumprido.

Quando Dan Brown ou Stephen King fazem a tiragem inicial de um livro novo com um milhão de exemplares, isso não é um desejo, é um objetivo.  Toda a história anterior da vendagem do autor o autoriza a imprimir um milhão de cópias de uma tacada só. Ele já sabe que é possível vendê-las. (Às vezes encalha; às vezes, dependendo da aceitação do livro, mesmo Brown ou Coelho levam anos para vender essa tiragem inicial. Mas o objetivo era fundamentado, sim.)

Meus livros têm em geral uma tiragem de 2 ou 3 mil exemplares, que é a tiragem padrão do mercado brasileiro.  Alguns já venderam 40 ou 50 mil, mas nem por isto eu coloco esse número como um objetivo. Se rolar, beleza.  Mas o bom senso aconselha, a mim e aos editores, ir de pouquinho, sentindo a resposta do público, e preparando tiragens maiores se a gente vir que a aceitação é boa.

Colocar Paulo Coelho e seus não-sei-quantos-milhões de livros vendidos na conversa é despertar um desejo confuso e infantil de sucesso instantâneo, sucesso com pouco esforço. Duvido que algum novo autor se dispusesse a fazer a peregrinação que Paulo Coelho fez, com o Diário de um Mago embaixo do braço, de livraria em livraria, de rádio em rádio, de jornal em jornal, de TV em TV, de amigo em amigo, vendendo caladinho seu peixe, pensando talvez que iria ser um sucesso com 20 mil livros vendidos.


domingo, 1 de maio de 2011

2545) Traduzir o obscuro (1.5.2011)




Numa entrevista recente ao jornal literário Rascunho, de Curitiba (março de 2011), o escritor e tradutor Marcelo Backes comentou, ao ser perguntado sobre o nível das traduções brasileiras em geral: 

"Acho que o nível da tradução tem melhorado, inclusive porque os tradutores mais críticos estão deixando de ser meros intérpretes das expectativas do leitor e, aos poucos, estão dando mais atenção à arte da obra original do que ao gosto do leitor da tradução. Deixam complicado o que está complicado, e mantêm poeticamente obscuro o que é poeticamente obscuro. (...) A simplificação da obra de arte não ajuda nada no sentido de torná-la mais compreensível”.

Um tradutor procura geralmente o equilíbrio entre tornar o texto inteligível ao leitor e respeitar o texto no que o texto tem. 

Um texto literário, não importa em que língua seja escrito, e não importa o talento de quem o escreveu, contém partes pouco compreensíveis, partes obscuras. Contém às vezes erros, ou trechos mal escritos. 

Por mais brilhante que seja um autor, ele não é brilhante o tempo inteiro, e sabemos que muitos grandes escritores têm um texto desleixado e cheio de furos (são grandes autores porque têm outras qualidades, em outros departamentos). 

É voz corrente no Brasil a galhofa de que os livros de Paulo Coelho são muito melhores traduzidos do que em português, porque lá fora os tradutores corrigem seus defeitos de redação e de estilo.

Corrigem mesmo? Se o fazem, que vergonha. Porque não cabe ao tradutor melhorar o texto alheio. Se a frase é cambaia, que seja traduzida por uma frase cambaia, de sentido equivalente, no idioma-alvo. Se é obscura, que permaneça obscura ao passar pelo filtro. 

É preciso mostrar ao leitor-alvo quem é o escritor, com suas pequenas incompetências, suas contradições, seus deslizes de ritmo, sua empáfia ou vulgaridade vocabular... Há autores que escrevem bem, mas pontuam mal. Outros não revisam o que escreveram. Se um autor repete um verbo dez vezes em dez linhas, o tradutor deve fazer o mesmo ou recorrer a sinônimos?

Muitas vezes me deparei com um parágrafo que se estendia por três ou quatro páginas. O editor aconselhava: “Divida. Faça um parágrafo novo de vinte em vinte linhas, pra clarear a página”. Eu dizia: “É um texto de 1880, publicado em jornal, naquele tempo os caras queriam aproveitar cada centímetro”. Ele dizia: “Sim, mas está sendo lido hoje. O leitor de hoje gosta de uma página com muitos parágrafos, uma página que respira.” 

Obedecer ao texto antigo ou ao leitor atual? Decisões assim são tomadas a cada passo da tradução de uma obra. Qualquer autor, por melhor que seja, tem pequenos cacoetes, hábitos ou defeitos que (num mundo ideal!) um tradutor deveria tentar reproduzir. 

Às vezes uma frase desmantelada em inglês nos sugere uma frase perfeita (e de sentido equivalente) em português. Devemos usá-la? Ou devemos traduzir as imperfeições da frase original?






sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

1585) O ginecologista no harém (11.4.2008)

Todo sujeito muito perseguido se torna vingativo quando enriquece, mas se torna magnânimo se ficar muito milionário. 

É o caso do escritor Paulo Coelho. Cada livro que ele publica é tratado como se fosse um tapete velho que a gente pendura num varal e mete a pancada para tirar a poeira acumulada ali há cem anos. 

Bater nos livros de Paulo Coelho é um esporte nacional. E no entanto ele trata os críticos com uma benevolência zen, e afirma: “Cabe ao leitor ler, ao crítico criticar, e ao escritor escrever”. 

Numa coluna recente na revista dominical do “Globo”, PC citou uma frase de Brendan Behan: “Críticos são como eunucos em um harém. Teoricamente, eles sabem qual a melhor maneira de fazer, mas não conseguem ir além disso”. 

Na qualidade dupla de escritor e de crítico (embora qualquer um possa me considerar mau escritor e mau crítico), acho que posso contribuir com algo para essa descrição. Um crítico não é necessariamente um eunuco, alguém incapaz de fazer o que critica. Alguns dos melhores filmes da história do cinema foram feitos por críticos que um dia se meteram a dirigir: François Truffaut e Jean-Luc Godard são dois exemplos que me ocorrem (e muito diferentes entre si – a única coisa que têm em comum é que eram da mesma turma). 

Na literatura, temos o exemplo de Umberto Eco, que era um crítico ao quadrado, ou seja, professor de Semiologia numa Universidade, e quando estreou foi com um romance que botou os escritores profissionais no chinelo. 

Se é para comparar o crítico a alguém, melhor do que um eunuco é um ginecologista. O problema do crítico, quando se mete a escrever, não é a falta de imaginação criativa. O que lhe falta é a descontração lúdica de quem faz algo por mero prazer. 

O excesso de bagagem teórica pode ser uma vantagem na hora de criticar, mas é um peso na hora de criar. O escritor é um cara que olha para dentro de si mesmo; um crítico é um cara acostumado a olhar para dentro dos outros. É clínico, distanciado, brechtiano. Na hora de ser criativo, ele poderia lamentar-se como o robô dos quadrinhos de Barbarella, quando a heroína elogia seu desempenho na cama: “Madame é muito gentil, mas meus impulsos têm algo de mecânico”. 

O escritor acostuma-se a ser levado pela intuição, escreve sem precisar explicar muita coisa a si mesmo. Pode se dar o luxo de responder “Não sei” a quem lhe pergunta o porquê de tal ou tal detalhe do que escreveu. 

O crítico, que fez a própria fama explicando os porquês das obras alheias, sente-se pressionado a ter a mesma jurisdição sobre as próprias. Quando é um crítico meramente impressionista, que critica com base nas suas paixões subjetivas, ele até que se furta um pouco a essa cobrança. Mas os grandes críticos de nossa época são grandes racionalistas. São mentes apolíneas e implacáveis, acostumadas a analisar, dissecar, discernir. Na hora em que precisam do arrebatamento dionisíaco, o Deus do prazer se vinga e não comparece.





sábado, 28 de março de 2009

0927) Política literária (7.3.2006)




(Ernest Hemingway & Fidel Castro)


Política literária é tratar cada leitor como um político trata um eleitor. 

Dar-lhe atenção, quando abordado, mesmo que não disponha de muito tempo. 

Ouvir o que o leitor tem a dizer. 

Procurar dizer-lhe algo em que ele possa ficar pensando, e que lhe seja útil. 

Tratar a imprensa com atenção, mas sem promiscuidade. 

Não misturar relações profissionais com relações pessoais. 

Tratar bem os concorrentes de hoje, que podem ser os aliados de amanhã, e vice-versa. 

Saber que tudo que se diz em público pode vir a ser lembrado e repetido (e será, com certeza, se for algo inconveniente).

Existem escritores de gênio que são péssimos políticos, e somente a genialidade faz com que sejam lembrados hoje. Em geral, quem suaviza sua escalada é um grupo de pessoas mais próximas (família, agentes literários, editores, amigos) que se encarregam de aparar arestas, administrar o cotidiano do artista, cuidar de sua imagem (porque ele não cuida), e de um modo geral fazer com que ele se dedique a fazer a única coisa que faz bem: escrever.

Outros são excelentes políticos. Guimarães Rosa, Garcia Márquez, Arthur C. Clarke, Machado de Assis, Octavio Paz, Jorge Amado, são exemplos que me ocorrem assim meio ao acaso. Indivíduos equilibrados, afáveis, bem falantes, hábeis no trato com o homem da rua, com a imprensa, com os poderosos. 

Praticaram, ao longo de suas carreiras, a difícil arte de andar no convés de um navio, em plena tempestade, sem derramar uma gota sequer do seu coquetel. Alguns foram malhados pela crítica ou perseguidos por polemistas profissionais; mas nunca sofreram sequer um “knock-down”. 

Há escritores que são assim, mas cuja obra não têm muita densidade. Estes, tipicamente, atingem o auge da glória quando em vida, mas uma vez sumidos, sumido seu charme, sumido o vigor impositivo de sua presença, some a obra também.

Fico pensando em auto-sabotadores contumazes como Edgar Allan Poe, Arthur Rimbaud, Lima Barreto... Pode-se fazer qualquer elogio a eles, menos dizer que eram hábeis na administração da própria carreira. 

Foram perseguidos por uma combinação nefasta: temperamento impulsivo, vícios, egocentrismo, ambiente preconceituoso, conflitos familiares... Sobre eles parecia pairar uma maldição cuja fórmula dizia: “Não serás popular. Conquistarás poucos admiradores, e mesmo estes acabarás afastando de ti. Muitos te admirarão; mas na hora H, ninguém estará do teu lado”.

Ser político é uma dimensão inevitável de qualquer sujeito, mesmo um pedreiro ou um balconista. Não ocorre só na literatura. 

Outras atividades nos mostram parelhas de talentos com diferentes destinos: Pelé x Garrincha, Luiz Gonzaga x Jackson do Pandeiro, Paulo Coelho x Raul Seixas. 

A diferença entre o que acontece a uns e a outros não é uma diferença de talento, mas uma diferença de habilidade política, de capacidade para administrar a si próprio. Para o público não faz muita diferença, mas para eles, fez, e muito.





terça-feira, 13 de janeiro de 2009

0751) A ida e a volta (14.8.2005)


Era uma vez um jovem pastor espanhol, que vivia apascentando seu rebanho de cabras ou de ovelhas. Dormia numa velha igreja abandonada, ao pé de um enorme sicômoro que crescera por entre as ruínas. Uma noite sonhou com um tesouro, enterrado junto às pirâmides do Egito. Juntou tudo que tinha e saiu de mundo afora. Muitas peripécias e duzentas páginas depois, chegou ao pé da pirâmide, e foi cercado por tuaregues desconfiados. Quando explicou o que o trouxera até ali, o chefe do bando riu na cara dele. “És muito leso, ó jovem pastor que acreditas em tesouros. Eu sonho há anos com um tesouro que está escondido numa igreja em ruínas, nas raízes de um velho sicômoro. Mas tu acha que eu sou besta de perder meu tempo indo atrás disso?” O pastor pegou o caminho de volta, cavou nas ruínas da árvore, encontrou o tesouro e ficou rico, embora não tão rico quanto Paulo Coelho, autor de O Alquimista, onde esta história é contada.

Eu conheço essa história desde pequeno. Meu pai a contava como tendo acontecido com um rapaz que morava numa fazenda em Minas Gerais, que sonhou com um tesouro enterrado numa ponte do Recife, foi até lá, e um soldado de polícia lhe disse que sonhara com um tesouro enterrado numa fazenda assim-assim-assim, foi só voltar, tirar o tesouro e correr pro abraço. Minha irmã Clotilde usou essa história como uma das narrativas em seu livro A Botija. Aliás ela e Paulo Coelho estão em muito boa companhia, porque Jorge Luís Borges fez a mesma coisa em sua História Universal da Infâmia, no conto intitulado “História dos Dois que Sonharam” (que ele alega ter pegado das Mil e Uma Noites, noite 351): um sujeito no Cairo sonha com um tesouro em Isfahan, na Pérsia, vai até lá, encontra com um cara que sonhou com um tesouro no Cairo, bibibi, bobobó.

Plágio? Imitação? Inconsciente coletivo? Prefiro pensar que essas histórias tão diferentes, mas todas baseadas numa mesma mecânica estrutural, exprimem uma verdade profunda, através dessa estrutura mítica comum a todas. Existe uma sabedoria cósmica por trás de todo esse trajeto que, à primeira vista, é percorrido em vão. Uma pessoa simplória vai comentar; “Coitado! Morava em cima do tesouro, e teve que passar tanto sacrifício! Por que não sonhou logo com o tesouro no lugar onde estava?” A resposta para isso é (eita, meu destino é ser escritor de auto-ajuda!) que mais importante do que achar o tesouro é ter a experiência e a maturidade para administrá-lo, e isso o camarada só adquire fazendo a tal viagem aparentemente inútil.

E é a mesma verdade profunda expressa por T. S. Eliot nos Quatro Quartetos: “We shall not cease from exploration / And the end of all our exploring / Will be to arrive where we started / And know the place for the first time”. Ou seja: “Nossa exploração nunca vai cessar / e o fim de todas as buscas / será voltarmos ao ponto de partida / e conhecermos aquele lugar pela primeira vez”.