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domingo, 16 de março de 2025

5162) Parolagens nordestinas (16.3.2025)




(pintura: Irene Medeiros, Campina Grande)
 

Dizem que os esquimós têm dezenove palavras diferentes para descrever diferentes tipos de neve. Pode ser que sim; palavras que aparecem com frequência na fala cotidiana acabam se desgastando um pouco, e gerando sinônimos, variantes, equivalentes. Sempre há algum temperamento mas criativo que introduz um jeito novo de exprimir uma idéia antiga. 
 
No linguajar nordestino, tenho observado a grande quantidade de expressões que se usa para exprimir o conceito de grande quantidade. É coisa que não acaba mais. 
 
"Assim de", por exemplo. Esta expressão é complementada pelo gesto de unir as pontas de todos os dedos em círculo e fazer pequenos movimentos de abre-e-fecha.    
 
"Rapaz, eu fui no comício ontem à noite. Disseram que ia ser fraco, mas a praça estava ‘assim’ de gente!"  
 
O gesto, pela convergência das pontas dos dedos, indica quantidade e aglomeração. É semelhante ao gesto que em outros lugares do Brasil os motoristas fazem uns aos outros, durante o dia, para alertar que o outro está com os faróis acesos, por distração.  Nesse caso, o gesto significa os raios de luz, e o piscar do farol.  Durante muito tempo, toda vez que eu via esse gesto nas avenidas ou nas estradas, pensava que queria dizer "o trânsito está ‘assim de’ gente lá atrás”.  
 
“Castigo”. Geralmente exprime uma grande quantidade de pessoas. Usa-se muitas vezes para exprimir o lado incômodo da presença de muita gente. 
 
"Detesto ir num Banco no dia 1º do mês, é aquele castigo de gente, cada fila enorme."  
 
"Pensei em ir na praia ontem, mas quando vi aquele castigo de gente passando nos ônibus acabei desistindo."  
 
Esse lado negativo expresso por “castigo” está presente também em “um horror”. 
 
"Passei três meses viajando, quando cheguei em casa tinha um horror de contas pra pagar." 
 
Embora também seja usado sem necessariamente dar uma idéia negativa. 
 
“ -- Aí pronto. O velho é assim.  Senta, paga um horror de uísque, me dá dinheiro e vai embora.” 
(Ricardo Soares, Nadir, pág. 127)
 
“Dar no meio da perna” (ou “... da canela”) é uma boa imagem visual.
 
“Rapaz, a festa foi demais, o uísque dava no meio da perna.” 
 
“De cambão aparece em linguagem de jogadores, em qualquer tipo de esporte ou de jogo, para indicar uma vitória de goleada, ou por grande diferença. 
 
“Eles disseram que iam armar o melhor time de todos, mas estão apanhando de cambão toda vez que jogam.”

“Em banda de lata” é outra imagem visual, se bem que na minha cabeça eu não entendo muito porque as bandas-de-lata implicam em grande quantidade. Enfim; usa-se muito, ainda hoje. 
 
"Rapaz, eu fui na festa de Fulana ontem, tinha gente em banda de lata."  
 
"No dia em que fizerem uma devassa no ECAD, vão prender gente em banda de lata." 
 
“Lote” e “magote” são palavras aparentadas não só pela rima, mas pela função: indicam em geral uma porção de gente, mas sempre com um viés desdenhoso ou pejorativo. 
 
“Ele chega de madrugada em casa com um lote de cachaceiros, acorda a mulher, e manda fazer comida pra todo mundo”. 
 
“Aquilo não é uma família, é um magote de desordeiros.”   
 
Certa vez, Martins Preto chegou à Fazenda Bonfim, onde seu filho, Pedro Martins, era o vaqueiro de maior confiança, procurou o proprietário, Antônio Nunes, e disse: 
-- Seu Antônio, eu estou muito aperreado porque Joaquim Aragão quer tomar minha terrinha e eu não sei o que vou fazer para sustentar o magote de moleque que eu tenho. 
(Pedro Nunes Filho, Guerreiro Togado, pag. 342)
 
“Outro tanto” exprime a mesma quantidade que acaba de ser mencionada.  
 
“Ele disse que Fulano vai pagar dois mil, e o pai dele outro tanto, para ajudar na sua operação.”   Também se diz “o mesmo tanto”. 
 
Quanto mais eles andavam
menos saíam do canto
porque o chão dessa ponte
avançava o mesmo tanto,
e eles não prosseguiam
pela força desse encanto.
(Braulio Tavares, A Pedra do Meio Dia, ou Artur e Isadora)
 
“Paiol” me parece um termo tipicamente paraibano, nunca vi sendo usado em outro lugar além de Campina Grande. 
 
"Eu não vou poder ir não, que estou com um paiol de coisas pra fazer nesse fim de semana."    
 
“Ruma” é termo bem antigo, e tem o sentido imediato de  monte, montanha, elevação de terra, com a conotação de grande quantidade.  
 
"Eu estou com uma ruma de provas pra corrigir em cima da mesa."    
 
Galinha põe todo dia
invez de ovos, é capão,
o trigo invez de semente
bota cachadas de pão,
manteiga lá, cai das nuvens
fazendo ruma no chão.
(Manoel Camilo dos Santos, Viagem a São Saruê)
 
Quando o chão está molhado
aparecem coisas boas:
se levantam cogumelos
que as capas parecem broas;
os sapos chocam de ruma,
bordam com cachos de espuma
os cenários das lagoas.
(Sebastião Dias, cit. em De repente, cantoria, de Geraldo Amâncio e Wanderley. Pereira, pág. 120)
 
“Só isso tudo?!” é uma exclamação irônica quando a gente se surpreende com algo além da conta, maior que as expectativas. Uma combinação de “Só isso?” com “Isso tudo?”. 
 
“-- Fulano, me empresta duzentos reais.  -- Só isso tudo?  Tá pensando que eu sou o Banco do Brasil?”   
 
“Só isso tudo?  Eu disse que gosto de doce de leite, mas se eu comer esse prato aí eu vou parar no hospital”. 
 
“Tem coisa que dá uma guerra” é um equivalente para “tem muita coisa, tem coisas demais.” 
 
“Na casa dele tem livro que dá uma guerra”. 
 
“Naquela novena de ontem tinha gente que dava uma guerra.”
 
A renovação constante da língua se dá por esta necessidade de inventar novas palavras ou novas expressões comparativas para exprimir idéias comuns. Ninguém aguenta passar anos a fio dizendo as coisas sempre do meso jeito. Ou melhor – muita gente aguenta, mas muita gente, também, procura criar uma maneira mais exagerada, mais visualmente vívida, mais forçosa, mais surpreendente, mais engraçada... 
 
É uma forma incipiente de criação literária, porque a literatura não consiste apenas na contação de histórias, envolve também o enriquecimento dos modos-de-dizer. Esse vocabulário do concreto é um desafio permanente para as pessoas que são verbalmente inventivas – e que tantas vezes, vejam só, são pessoas de baixa escolaridade, mas muita habilidade verbal. 
 
 
 
 
 
 



quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

5143) Jessier Joyce (15.1.2025)



 
As idéias também rimam, de vez em quando. Às vezes a gente está lendo um romance policial italiano, aí pega por acaso um livro de um poeta argentino do século 19, e quando menos espera vê duas frases, ou dois parágrafos, ou duas cenas que têm tudo a ver entre si, como se aqueles dois autores estivessem conversando por cima das nossas cabeças e do nosso espaçotempo. 
 
Estou lendo o livro de Frank Budgen (James Joyce and the Making of Ulysses, 1934) onde o autor, que conviveu com Joyce em Zurich, recorda suas conversas, e comenta os episódios do romance joyceano com o olhar de quem acompanhou a criação daquela obra, por assim dizer, no próprio set de filmagem. 
 
E me caiu nas mãos o livro novo de meu primo-transverso Jessier Quirino, Eu Parece que Tô Vendo (Recife, Ed. Bagaço, 2024), com o habitual tabuleiro sortido de poemas, quadrinhas, aforismos, comparações, canções, verdades enfeitadas e mentiras involuntárias. 
 
Se eu fosse um profissional rigoroso faria aqui um parêntese para explicar aos meus leitores de Joyce quem é Jessier, e aos meus leitores de Jessier quem é Joyce; mas este blog é apenas o que Antonio Houaiss chamaria “uma obra de desfastio”, então irei direto ao assunto. 
 
Uma coisa em comum entre esses dois cabocos é a volúpia quase-etílica da palavra, o prazer de curtir as palavras, de abri-las como um guri abre um Kinder-Ovo, de colecioná-las como um torcedor coleciona gols na memória. Tanto o irlandês quanto o paraibano são escritores encharcados do linguajar dos livros e das feiras-livres, das academias e das calçadas, dos botequins e das bibliotecas, das lojas de conveniência e das casas de tolerância. 
 
Quando Jessier diz “eu parece que tô vendo” ele alude certamente à “inelutável modalidade do visível” de Stephen Dedalus no Ulysses: o que se pode ver com os olhos e com a mente, ou, como diz o catacego Joyce, “feche os olhos e veja”. 
 
Jessier define o poeta como “um prestador de atenção”, e vou aproveitar um dos seus textos onde ele se põe a explicar como é possível reconhecer um sertanejo pelo seu palavreado, palavrório, palanfrório. Como fazê-lo? Vejamos na página 71: 
 
Pegar bigu na palestra 
nos franzimentos de testa 
e, cada palavra escutar. 
 
É lascança; é caixa-prego 
breado; chorumingado; 
labrojeiro; é pirangueiro 
nem deu fé; amundiçado 
bafafá; foi no migué; 
munganguento; incriquiado; 
infeliz-das-costa-oca;
chinelão espragatado,
imbeiçado; puxincói;
é toitiço; é trimilique
zoró; brebote; miado;
bateu fofo; é breu-com-cola!
Tibungão; atabacado
encangado; cocorote
xexêro; malacabado. (...)
 
Por enquanto basta. Já me serve para deixar de presente uma paginazinha da minha Work In Progress pessoal: o meu Dicionário Nordestinense (também referido como Assim Falou Trupizupe), uma compilação desopilante que pode servir como modesto adendo ao gargantuesco Dicionário do Nordeste (Recife, CEPE, 2013, 2ª. ed.) de Fred Navarro. 
 
Dito isto, vamos ao ave-palavra em pauta.
 
Lascança
É o ato isolado de se lascar, ou a condição permanente de quem vive se lascando. “Veja o exemplo do Botafogo do Rio: não vivia naquela lascança?... Então? Se ele se salvou, qualquer um pode!...” 
 
Caixa-prego
Exemplo clássico de lugar distantíssimo, também conhecido como “Caixa-bozó”. Vale lembrar: é o nome de um lugar real na ilha de Itaparica (BA), com a grafia de “Cacha Pregos”. 
 
Breado
Tecnicamente, significa “sujo de breu”, mas na prática é sujo de qualquer coisa. “Me traz uma muda de roupa, essa aqui tá toda breada de lama.” 
 
Chorumingado
A ação de “choramingar”. “Você pare com esse chorumingado aí, não tá doente coisa nenhuma, vai pra aula nem que seja debaixo de cacete.” 
 
Labrojeiro
Mal-amanhado, mal-feito, mal-arrumado; uma coisa de mau gosto, de má qualidade. “Meu marido inventou de me dar um presente, mas me deu um relógio tão labrojeiro que quando eu vou pra rua eu tiro do braço”. 
 
Pirangueiro
Uma combinação de malandro, desocupado, filador-de-cigarro, pedidor-de-dinheiro-emprestado. “Não quero você andando com esse sujeito, é um pirangueiro de porta de bodega, não tem o menor futuro.” 
 
Nem deu fé
Dar fé é perceber, notar, reparar em alguma coisa. “Levaram meu celular e eu só dei fé quando cheguei em casa”. 
 
Amundiçado
“Mundiça” (ao pé da letra, “imundície”) designa tudo que não presta, principalmente algum conjunto de gente vulgar, de maus costumes. “Não se misture com aquela mundiça daquele bar.” “Você de uns tempos pra cá está todo amundiçado, são esses seus amigos da sinuca.” 
 
Bafafá
Briga, confusão, altercação violenta. Para alguns teóricos mais sofisticados, o mesmo que “rififi”. Ou “sururu”. 
 
Foi no migué
Curiosamente, esta gíria me parece mais carioca do que nordestina, e se for mesmo é mais um desses contrabandos verbais incentivados em mão dupla pela televisão. O “migué”, como o entendo, é truque, é finta, é negaceio, seja físico ou mental. “Cheguei atrasado no trabalho, mas quando me viram dei um migué e falei que tinha saído de novo, pra comprar cigarro”. 
 
Munganguento
Adjetivo, derivado do substantivo “munganga” (=trejeito, careta, gatimônia). “Eu sou fã de Tom Waits, mas depois de velho ele está cada vez mais munganguento”. 
 
Incriquiado
É uma versão-tremida de “encarquilhado”, cheio de pregas, de rugas. “Fiquei meia hora na pia lavando prato, vê só as pontas dos meus dedos, tá tudo incriquiado”. 
 
Infeliz-das-costa-oca
Um insulto pesado cuja origem se perde na noite dos tempos e na madrugada das discussões de mesa-de-bar. Não sei o significado, no contexto, dessas “costas ocas”. Talvez tenha relação com o termo “santinho do pau oco” (=hipócrita), em alusão àquelas imagens de santo, feitas de madeira, que eram ocas e serviam para esconder dinheiro. 
 
Chinelão espragatado
É o chinelo que, de tanto uso, espragatou-se todinho. Amassou-se, deformou-se. Termo parecido é “achinchelado”, mas usa-se com sapato: é quando a gente enfia apenas a parte dianteira do pé dentro do sapato, e fica pisando na borda traseira com o calcanhar: isso é “achinchelar” o sapato (“achinelar”). Atrai puxões de orelha maternos. 
 
Imbeiçado
Ou “embeiçado”: é estar em vias de apaixonamento por outra pessoa, arrastando-a-asa, arriado-dos-quatro-pneus. Em inglês, “infatuated”. 
 
Puxincói
“Puxa-encolhe”: qualquer processo repetitivo, que não avança, que não resulta, que é preciso ficar insistindo nele, mesmo sem muita esperança de resultado. Nas últimas décadas, tem dado lugar ao equivalente “muído”. 
 
Toitiço
A parte frontal do tórax; o peito, o peitoral. “Ele nem bem terminou de falar e eu dei-lhe uma cabeçada no toitiço que ele caiu de bunda na poça do meio-fio.” 
 
Trimilique
Estremecimento generalizado, talvez com causa física, mas geralmente por medo, paúra, choque de covardia, afrouxamento-das-pernas. Existe a variante “estrimilique”. 
 
Zoró
Tonto, desnorteado, desorientado, sem conseguir fixar a vista numa coisa nem a cabeça numa idéia. “Rapaz, quando ela vem falar comigo eu fico zoró, só acerto a dizer besteira, e quando-é-depois a vontade de morrer é grande”. 
 
Brebote
A pronúncia é “brê-BÔ-te”. Conversa fiada, miolo-de-pote, cordão-de-besteira, de nonada, de tutaméia... “Vamos comprar uma cerveja e ficar conversando brebôte na calçada!. 
 
Miado
Adjetivo: mixuruca, fraquim-fraquim, sem graça, sem valor, sem interesse. “Achei muito miada a festa de casamento deles – pra o tanto que ele diz ter gasto...” 
 
Bateu fofo
“Bater fofo” significa ficar muito aquém da expectativa criada. A analogia é com um tambor;  alguém se prepara pra percutir, com muita mizancene, e quando desfere a pancada vê-se que o couro do tambor está mole, frouxo, meh. Lenine usou isso em “Que Baque é Esse”: “E o maracatu passou já com o bombo batendo fofo...” 
 
Breu-com-cola
Breu é mais uma palavra multiuso. Na minha infância, usava-se para negar algo com veemência: “ – Domingo o Campinense vai ganhar do Treze!... – Vai ganhar, breu!  Treze cinco a zero!...”   Essas negações iam se enfeitando e ficando mais barrocas, quando eu tinha uns 12 ou 13 anos já se dizia: “É breu com cola, macaco na escola, tomando Coca-Cola!...” – pra dizer: “de jeito nenhum”, “nem que a vaca tussa”. 
 
Tibungão
O verbo é “tibungar”, onomatopéia derivada de “tchibum”. Ou seja: mergulhar na água com barulho, com espalhafato. “Bora tibungar no açude!” “Tibungão” pode ser um mergulho mais ruidoso. 
 
Atabacado
“Tabaco” é outra palavra multiuso. Um sujeito abobalhado, bundão, é “um tabaco-leso”. Quando uma pessoa cai de maneira desengonçada, barulhenta, ela “se estabacou”. “Atabacado” (ou “entabacado”) deve ser quando o sujeito está furioso, botando fumaça pelas ventas. 
 
Encangado
Preso a uma canga, aquela peça de madeira que mantém juntos os bois de carro. Por extensão, tudo que está sempre junto. “Ele e aquele amigo dele vivem encangados, pra onde vai um o outro vai atrás” Aparece também na expressão “Ah, Fulano, vai encangar grilo!...” – expressão de impaciência equivalente a “vai pentear macaco, vai catar minhoca no asfalto!...” 
 
Cocorote
Pancada na cabeça de alguém com os nós dos dedos. Primo-carnal do “cascudo”, com a diferença de que o “cascudo” é uma pancada seca e rápida no quengo da vítima, e no “cocorote” a gente fecha a mão, pressiona os nós dos dedos no quengo e depois os desliza com toda força, “riscando” o crânio do infelicitado. 
 
Xexêro
Ou “xexeiro”: o indivíduo que “passa xêxo”, ou seja, deixa de pagar uma despesa, uma dívida, etc., e escafede-se da maneira mais discreta (ou mais cara-lisa) possível. 
 
Malacabado
Pode trocar na balança por “labrojeiro”, e só um especialista toca o alarme. 
 
***
 
E para encerrar, preciso dar um alerta: a lista acima não é de invenções jessierianas. Tudo isto é linguagem coletiva, da rua-de-cima e da rua-de-baixo, das-antigas: é um vovocabulário, que gerações atrás já era dito e entendido sem catabís. 
 
Ao mesmo tempo, Jessier é também um palavrista consumado, e no mesmo livro eu cato ao Acaso invenções miúdas, desprovidas da prosopopéia impoluta de quem quer invadir dicionários – é apenas a palavra-nova brotando como um drible-de-corpo necessário para resolver um momento específico. 
 
E assim brotam “esperando de tocaia que ela me lararasse”, “versejador tutanudo”, “ele tava pensaroso”, “jumentice desgovernou sua vida”, “cuscuz cortado aos pedaços e cuscuz esfarofado”, “sofreu uma incinerança no peito”... 
 
Uma palavra nova é um prego-e-tábua onde pregar uma idéia para que ela não fuja, e às vezes a dita-cuja cai no gôto, cai no gôsto, ganha nome, rosto e verbete. 



 
 




terça-feira, 24 de setembro de 2024

5105) A palavra incontornável (24.9.2024)



 
De vez em quando o povo descobre (ou inventa) uma palavra. Ela começa com um susto-de-novidade, projetando uma luz diferente e interessante na frase onde se instala. “Que maneira legal de dizer isto”, pensam as pessoas, e se danam a usá-la a torto e a direito. 
 
É nova.  É diferente.  Desperta a atenção de quem ouve, e é sempre bom ter um jeito-de-dizer capaz de arrancar as pessoas do piloto-automático. Tirar as pessoas do transe-zumbiforme em que elas parecem estar mergulhadas, até mesmo quando estão andando, olhando, falando alto. 
 
É o caso atual da palavra “incontornável”. Num efeito curiosamente metalinguístico, ficou difícil contornar essa palavra, que volta e meia insiste em se postar à nossa frente, mãos nos quadris, atitude desafiadora. Não importam as voltas e volteios do nosso discurso verbal, a gente acaba indo na direção dela, tentando contorná-la como um motorista contorna um girador, mas... debalde. 
 
Depois que esbarrei nela cinco vezes seguidas antes das três da tarde, nas redes sociais, fiz uma promessa muda de nunca utilizá-la. Percebi que já estava se fossilizando em clichê, adquirindo as mesmas propriedade anti-pensantes da maioria do nosso vocabulário comum. Estava indo para a mesma prateleira onde já estão, por exemplo, instigante e camadas. 
 
“Camadas” é a besta-sinistra do meu confrade Lira Neto, cuidador do idioma, a quem irrita a onipresença dessa metáfora em tudo quanto é assunto. Tudo hoje em dia se define em termos de “camadas”. 


 

Há, de fato, muitas camadas superpostas no uso desse termo.  No começo de tudo, foi útil trazer esse aspecto para o meio da discussão, porque todo mundo começou a admitir que, sim, não só no mundo físico como no mundo das idéias tudo se organiza em películas superpostas. Tudo é constituído de layers, como as cascas geológicas que se recobrem umas às outras em nossos continentes. Por baixo de alguma coisa há sempre uma coisa diferente. 
 
Já disse algum pensador que se arranharmos a superfície de um cínico vamos sempre encontrar um idealista desiludido. E Fausto Fawcett, o Bardo Cibernético de Copacabana, já observou que se a gente raspar um Jetson vai encontrar por baixo um Flintstone. Camadas. 
 
Por que apareceu, de um momento para outro, essa necessidade de definir tudo em termos de camadas? Porque se trata de uma palavra instigante, e aí chegamos a esse outro piercing verbal, penduricalho que, por volta dos anos 1980, todo mundo trazia na ponta da língua. 
 
Falei disso aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2009/01/0755-palavra-instigante-1982005.html
 
São palavras que já existiam no idioma mas estavam meio que na despensa ou no freezer, e quando alguém lhes dá uma requentada e as traz para o centro da mesa não chegam pra quem quer. 
 
É longa a lista de palavras atualmente na moda, e já com verniz de clichê, a ponto de franzir a testa de muita gente.  Ressignificar.  Potente.  Território.  Narrativa.  Imersão.  Literalmente.  Icônico.  Multifacetado.  Resiliência.  Empoderamento.  



(Lewis Carroll, Through the Looking-Glass, ilustração de Sir John Tenniel) 
 

Estas palavras são idiotas? De jeito nennhum, são palavras bastante úteis e expressivas, e eu já devo ter usado todas elas. Só que, no momento, faço questão de não usar mais – porque já prevejo as caretas resignadas de muita gente. “Ai meu Deus, de novo essa palavra idiota, não aguento mais.” 
 
As palavras são como um chiclete, começam com um gosto agradável de hortelã ou de cereja, mas esse gosto logo desaparece, vai-se embora o susto-de-novidade que uma palavra invulgar contém. O açúcar se dissolve todo, e fica só a borrachinha. O chiclete vira clichê. 



(arte: Philadelpho Menezes)

 
Penso às vezes que isto acontece porque vivemos numa bolha cultural onde é muito rápido, para uma palavra, entrar na moda; e pelas mesmas razões é muito rápido tornar-se lugar-comum. Num país de mais de 200 milhões de usuários do idioma, essas sucessões de modismos e clichês se dão numa bolha minúscula de meio milhão a um milhão de leitores, se tanto.  
 
O ricochete interno nas paredes da bolha (leia-se imprensa eletrônica; leia-se redes sociais) é muito rápido. As palavras viralizam nas redes sociais, com todo seu charme de novidade e potência (êpa) expressiva; e logo viralizam mesmo, literalmente (êpa), como vírus, doença, uma coisa chata que quando a gente vê já contraiu.  
 
Alguns meses de uso intenso, de incômoda reiteração... e pronto, a palavra está puída, desgastada, desvalorizada, eu diria quase prostituída por tantos usos e abusos. 
 
Pobres das palavras, que culpa alguma carregam. Pobre da palavra incontornável, quando descobre que não é indispensável, inevitável, imprescindível.    


 


 



domingo, 15 de setembro de 2024

5102) A arte de inventar palavras (15.9.2024)




Devem ser poucos os leitores jovens que tenham ouvido falar no Dr. Castro Lopes (1827-1901), um filólogo que foi um dos grandes defensores da pureza do nosso idioma.  
 
Defender a pureza absoluta do idioma é tão utópico quanto como defender a pureza absoluta do ar que respiramos.  O mais que podemos fazer é controlar o nível de poluição e lutar para que o resultado seja bom para a saúde.  
 
O Dr. Castro Lopes defendia nossa saúde verbal combatendo os galicismos, palavras de origem francesa. Naquela época, o grande referencial para quem queria ser “chic” no Brasil era o francês; hoje, o referencial para quem quer ser “cool” é o inglês.  
 
Para combater essa influência, que considerava nefasta, Castro Lopes passou a inventar palavras com raízes gregas ou latinas. Pelo seu raciocínio, ao que parece, o Brasil tinha mais a ver com Roma e a Grécia antiga do que com a França. 
 
O problema era que na sua mente de erudito bastava que a palavra fizesse sentido, filologicamente, para estar justificada.  Por exemplo: ele não gostava de “abajur”, palavra derivada do francês “abat-jour”; e propunha, para substituí-la, “lucivelo”.  Por que não usá-la? É uma palavra que contém as mesmas idéias, de “luz” (jour/luci) e de “ocultar” (abat/velo). 
 
Por algum razão, a palavra inventada não pegou.  Em toda minha vida, só vi essa palavra em artigos sobre o Dr. Castro Lopes. Por outro lado, na Paraíba todo mundo chamava o objeto de “quebra-luz”. 
 
Outro galicismo que ele abominava era “piquenique”, aportuguesamento do francês “pic-nic”: e propôs  em seu lugar “convescote”.  Esta chegou a ter uma certa aceitação, mas não substituiu a outra.  O doutor não gostava de “chofer” (do francês “chauffeur”) e sugeriu dizermos “cinesíforo”.  Não gostava de “galocha”, e propôs usarmos “anidropodoteca”.  E assim  por diante. 
 
Tenho grande admiração pelo doutor. Ele parece ter sido (não sei quase nada de sua biografia) um desses cientistas puros de coração, que se guiam pela razão e pela lógica, e ficam meio surpresos quando a Humanidade não os acompanha. Uma espécie de Sheldon Cooper das letras brasileiras. 
 
O exemplo do heróico doutor bastaria para chegarmos à conclusão falsa de que palavras inventadas não “pegam”, não se incorporam espontaneamente à língua.  Mas não é o que acontece.  Escritores (e também filólogos) criam palavras do nada, ou da justaposição inesperada de elementos, e em pouco tempo elas estão fazendo parte da nossa linguagem diária.  

Num dos seus prefácios a Tutaméia (“Hipotrélico”), Guimarães Rosa lista uma série de palavras e os autores que as inventaram (ou puseram em circulação): altruísmo (Auguste Comte), niilista (Turgueniev), egolatria (Rui Barbosa), necrotério (Alfredo de Taunay)... 




A estas poderíamos juntar intertextualidade (Julia Kristeva), anestesia (Oliver Wendell Holmes), eugenia (Sir Francis Galton), agnóstico (Thomas Huxley)...  
 
Atribui-se ao editor John W. Campbell, que pilotou durante décadas a revista Astounding Science Fiction, a criação do termo “hiperespaço” (“hyperspace”), para designar um espaço alternativo a este em que vivemos, um espaço onde fosse possível a uma nave viajar mais veloz do que a luz. 
 
Um método simples para inventar palavras é produzir uma variante de uma palavra já existente. Como Campbell fazia suas naves viajarem no “hiperespaço”, não me custou muito esforço sugerir (em A Espinha Dorsal da Memória, 1989) que os meus alienígenas, os Intrusos, viajavam no “hipertempo” (que em inglês seria “hypertime”), uma vez que tempo e espaço são apenas modos diferentes de nossa percepção do mesmo fenômeno. 
 
Guimarães Rosa foi um grande inventor de palavras novas, e há muitos livros dedicados exclusivamente a esse aspecto de seu talento literário.  
 
Rosa nem sempre inventava: às vezes recuperava, com pequenas alterações, palavras esquecidas.  “Nonada” e “tutaméia” são termos que ele repôs em circulação (pelo menos nos círculos literários), ambos significando ninharias, miudezas, coisas sem importância.  




No próprio volume de Tutaméia o autor nos presenteia com “fifrilim”, coisa insignificante (em “O Outro e o Outro”), “letrilhas”, versinhos populares (em “Sota e Barla”), “furta-flor”, o colorido do rosto de uma menina (em “Tresaventura”), “infinilhões”, grande quantidade (em “Estória no. 2”)... 
 
Por que ninguém usa estes termos, tão vívidos, tão intuitivamente verdadeiros?  Talvez porque sua origem literária seja evidente demais.  Os livros do escritor mineiro nos dão às vezes uma sensação constante de desperdício, de um léxico inteiro à disposição do povo, mas este não se sente à vontade para utilizá-lo porque o vê protegido (ou encarcerado) pela aura protetora da “literatura”. 
 
Os poemas de Carlos Drummond estão cheios de palavras cujo sentido e função poética são captados num instante: monstruário, incurioso, tremulargentina, ingaia...  
 
O poeta as inventa ou compõe por uma necessidade de expressão específica: para o assunto daquele poema, o tom de voz que o produz, os códigos verbais implícitos em cada um (erudito, irônico, paródico, etc.).  Talvez sejam palavras tão precisas, tão exatas, que só possam ser usadas uma vez. 
 
Ninguém pode prever se uma palavra vai ser incorporada à língua.  O próprio Dr. Castro Lopes, cujos fracassos mais retumbantes foram citados acima, nos proporcionou “cardápio”, que ainda hoje trava uma luta equilibrada com o francês “menu”.  “Cardápio” é uma palavra que pegou, pelo menos nos restaurantes. Por que?  É difícil saber.  
 
É relativamente mais fácil uma palavra nova se impor no meio mais erudito, no meio científico, quando corresponde à necessidade de encapsular num só termo um conceito novo ou complexo. É uma palavra que já nasce com a intenção de tornar-se propriedade coletiva. 
 
A palavra inventada com fins literários, porém, parece mais presa à personalidade de quem a inventou.  Basta ver a obra de notórios inventores como Lewis Carroll e James Joyce, para perceber que é ínfima a percentagem de palavras suas que chegaram à linguagem do dia a dia.  Talvez o uso desses termos, num contexto ficcional ou poético, as deixe demasiadamente personalizadas, ao passo que o uso “científico” de uma palavra nova a marque como sendo uma palavra impessoal, que pode pertencer a todos. 
 
Um exemplo recente de que tomei conhecimento foi a palavra “contradução” (“contraduction”), proposta pelo escritor Dan Barker, que a explica como um raciocínio feito às avessas, fazendo um efeito parecer a causa e vice-versa. Ele dá dois exemplos: quando estamos num trem parado na estação e vemos o trem ao lado entrando em movimento, temos a sensação de que é nosso vagão que está se deslocando. 
 
O segundo exemplo, mais útil, é o da popular falácia científica de achar que a gravidade e a atmosfera da Terra foram concebidas por alguém para favorecer os seres humanos, quando é mais sensato imaginar que foram os seres humanos que se adaptaram a ambas. É o mesmo raciocínio de quem diz: “Como é sábia a natureza, fazendo os rios passarem bem pelo meio das cidades, justamente onde sua água é mais necessária!...”  
 
 
 

segunda-feira, 6 de maio de 2024

5059) O falatório nordestino (6.5.2024)




(Corbiniano Lins, "Monumento aos Pioneiros", Campina Grande)

Acho oportuno lembrar que estas minhas compilações de palavras e expressões não têm o objetivo de afirmar que elas têm origem no Nordeste, ou na Paraíba, etc.  São expressões da minha linguagem afetiva, que ouvi pela primeira vez na infância ou adolescência, e depois descobri serem um tanto raras, principalmente na linguagem escrita. Claro que não são exclusividade do Nordeste. Fazem parte de um Nordeste que é só meu, mas que me dá prazer compartilhar com quem se interessa. 
 
 
Às folhas tantas
Expressão usada, geralmente pelas pessoas mais velhas, para dizer: "em dado momento...  foi então que..."  Entra na narrativa para indicar um sentido de passagem de tempo, de que houve uma certa duração entre o que houve antes e o que vai ser narrado a seguir.   "Eles entraram no bar e ficaram conversando, comeram alguma coisa... Às folhas tantas, Fulano tocou no assunto do pedido de emprego."    
 
Imagino que há uma relação com a expressão muito frequente no linguajar dos cartórios: "Está registrando no Cartório Tal, livro 16, às fls. 27-28..."    Neste caso, a intenção é apontar um local preciso, enquanto a expressão anterior simplesmente indica transcurso de tempo.  Eis um exemplo típico de como uma utilização pode ter acabado dando origem à outra: 
 
Até dois amigos mais íntimos de Mary McCarthy se surpreenderam com suas maravilhosas (e mal organizadas) memórias, ao contar que chifrou fartamente todos seus conhecidos amantes e maridos.  Às folhas tantas se pergunta se é promíscua, porque dormiu com quatro homens no espaço de tempo de 24 horas. 
(Paulo Francis, O Globo, 29-6-1995) 
 
 
Deforeta
“Tomar uma deforeta” (pronúncia: "deforéta") é dar uma relaxada, descontrair um pouco, descansar, ir à janela ou ao terraço para respirar um pouco de ar puro.  “Faz três horas que a gente está pegado com esse trabalho...  Vamos dar uma paradinha e tomar uma deforeta, daqui a pouco a gente volta.”   Quando éramos garotos, minha irmã Clotilde sentenciava: “Deve ser uma corruptela de diaforético”.  Indagada sobre o que seria isso, ela respondia: “Não sei, mas parece nome de remédio”.  Na verdade, "diaforético" diz-se de algo que provoca a transpiração.  Variante: "deforéte". 
 
O senhor de engenho, por sua vez, estagnava na rotina e na indolência.  Sair da rotina era coisa que parecia exceder de todo a sua capacidade de ação.  A indolência do corpo não era menor que a do espírito.  Durante o dia tirava largos deforetes na rede da sala ou, deitado sobre montes de bagaço, espiava pachorrentamente o engenho moer. 
(Horácio de Almeida, Brejo de Areia, pag. 106) 
 
 
Pabulagem
Jactância; hábito de contar vantagem.  “Não venha com pabulagem não, que todo mundo aqui sabe que você é muito do mentiroso”.  Existe o verbo “se pabular”: “O papo estava até bom, mas depois de uma certa hora Fulano começou a se pabular, contando riqueza, aí eu enchi o saco e vim embora”. 
 
De que serve o senhor se pabular
que só conta grandeza e valentia
já mostraste a tua covardia
e vai correndo com medo de apanhar
se fugires, eu corro até pegar
a minha volta ninguém se livra dela
com uma mão no peito e outra na goela
mas se o bruto salvar-se dessa vez
eu pego ele, tranco no xadrez
e o Pelado servirá de sentinela. 
(João Martins de Athayde, Peleja de João Athayde com Raimundo Pelado do Sul
 
Vai dormir, que teu mal é sono
Expressão brincalhona que se usa em várias ocasiões: quando a pessoa está de fato sonolenta; quando está de mau humor, sem motivo; quando está perturbando o sossego dos outros.  "Cala essa boca, menino, deixa a gente acabar de ouvir a história!  Vai dormir, que teu mal é sono!" 
 
Já peguei Josué na Catingueira
uma noite de São João numa novena
meia-noite o rapaz fazia pena
deu-lhe frio levantou-lhe até coceira
quis meter-se debaixo da fogueira
ficou logo sem sentidos, descorado
não podia estar em pé e nem sentado
eu lhe disse: "vá dormir, seu mal é sono
vá sabendo, no sertão só tem um dono
é Carneiro, este velho seu criado." 
(João Martins de Athayde, Peleja de Serrador com Carneiro) 
 
“Mulher, vem pra dentro que teu mal é sono!  Vem, pra dentro,
vem!  Vem, que teu mal é sono, e o meu também!” 
(Ariano Suassuna, A Farsa da Boa Preguiça, Ato I) 
 
 
Todo mundo quer ser bom, e a lua falta um pedaço
Equivale a: "Não há quem não tenha algum defeito".  Observe-se que a grafia mais correta será com acento grave: "...e à lua falta um pedaço".  Há variantes, como: 
 
Na propriedade alheia
outro de fora não manda.
Todo mundo quer ser bom
a lua falta uma banda.
E um dos meus carneirinhos
quem sabe em que lugar anda! 
(Severino Pinto, cit. em Um século e meio de repentes, de Edvaldo Muniz de Melo, pág. 97)
 
 
Não se cresça!
O mesmo que “Não se atreva!  Não se meta a besta!”  Usa-se geralmente no imperativo.  “Olhe, Fulano, você não se cresça comigo não, porque amizade tem limite.” 
 
Dizia o príncipe ao anão:
Vou abrir sua cabeça,
O anão dizia: príncipe
É melhor que se esmoreça
Se renda logo à prisão
Fique calmo e não se cresça
(Minelvino Francisco da Silva, “O filho de João Acaba-Mundo e o Dragão do Reino Encantado”, em Minelvino Francisco da Silva, pag. 102)
 
Pegado
Vizinho; diz-se de moradias. “Eu estou indo morar pegado com a casa de Seu Fulano”.  Variante: “encostado”. 
 
-- Essas duas casas são pegadas ao casarão onde o senhor mesmo mora?
-- São sim senhor!
-- É verdade que elas se comunicam por portas internas?
-- É sim senhor!
-- Sua casa é pegada, pelo outro lado, ao prédio da Biblioteca que o senhor dirige?
-- É sim senhor!  A Biblioteca fica na esquina.  Depois, do lado direito e pegada com a Biblioteca, fica minha casa.  Depois, pegada à minha pelo lado esquerdo, vem a casa do Professor Clemente.  E finalmente, pegada à de Clemente, fica a casa do Doutor Samuel. 
(Ariano Suassuna, Romance da Pedra do Reino, pag. 272)
 
Olhe a boneca!
Exclamação de zombaria que se usa quando alguém vem nos anunciar uma novidade que já é do conhecimento de todos.  “-- Minha gente, vocês não sabem da maior...  O Papa morreu!  -- Olhe a boneca!   Deu na TV faz mais de meia-hora.”   Vem acompanhada de um gesto -- a pessoa que dá a resposta agarra um pedaço de pano, geralmente da própria roupa, e o exibe ao “dono da novidade”, como se mostrasse uma boneca.
 
 
 





segunda-feira, 18 de março de 2024

5043) As dificuldades do inglês (18.3.2024)




O difícil de traduzir, no inglês, não são necessariamente os casos mais óbvios: arcaísmos, gírias, palavras obscuras, nomes de plantas ou insetos raros, etc.  A língua inglesa (como todas as outras) tem pequenas expressões que lhe são típicas, se a compararmos com a língua portuguesa-brasileira. 
 
Conectivos, locuções, frases feitas, expletivos, pequenos “modos de dizer” para os quais nem sempre temos um fiel correspondente semântico e sintático. É preciso às vezes fazer um circunlóquio, um “arrodeio”, desmontar a frase e remontá-la em outra ordem, para poder inserir um equivalente a essa expressãozinha complicada. 
 
“To be about (...)” Essa expressão inglesa tem dado origem à praga do “sobre”, nos últimos anos. As pessoas dizem: “Tocar música popular não é sobre técnica, é sobre sentimento”. Seria, claro, um possível equivalente a dizer em inglês “Playing popular music is not about technique, but about feeling”. 
 
Acontece que o “sobre” português-brasileiro não traduz todas as funções do “about” inglês-americano. Traduziria, corretamente, casos assim: “This book is about European history”, “este livro é sobre a história da Europa”, porque neste caso o “about” indica “a respeito de”, “acerca de”. 
 
No outro exemplo, pode-se perfeitamente traduzir: “Tocar música popular não é uma questão de técnica, é uma questão de sentimento”. Fica muito mais claro e elegante, porque a expressão “é uma questão de“ já está em uso na língua e todo mundo entende sem estranheza. 
 
A palavra “about” tem uma latitude de uso muito maior, no inglês, do que a palavra “sobre” tem em português. Em inglês é como um canivete suíço que tem sacarrolha, lanterna, corta-unhas, abridor de garrafa, etc., enquanto a nossa modesta “sobre” é um canivete comum, com uma lâmina grande e uma pequena. Mais ou menos.  
 
No entanto, são palavras tão frequentes nas duas línguas, tão aparentemente óbvias, que para muita gente o mais simples é traduzir direto. Esse atalho de traduzir direto me incomoda, mas não me parece burrice nem estupidez. É um fenômeno natural no confronto entre duas línguas quaisquer. Havendo uma “primeira opção” que parece satisfazer o sentido, e já é comum na língua, dezenas de milhões de pessoas a usam, e dezenas de milhões entendem “marromeno” qual foi a intenção do uso. Algumas dezenas de milhares de sheldoncoopers como eu ficam com crise alérgica, mas o fato é que muitos desses pinos-quadrados-em-buracos-redondos acabam se instalando. 
 
Outros, não tem como argumentar. Digamos um diálogo em inglês. 
 
-- How much time does it take to go there?...
-- About forty minutes, if you go by car.
 
Duvido que alguém tentasse fazer uma tradução direta tipo:
 
-- Quanto tempo leva para chegar lá?
-- Sobre quarenta minutos, se for de carro.
 
O sentido não encaixa nem com muita boa vontade, como “parece” (parece!) se encaixar em algo como “O problema do Brasil não é sobre pobreza, é sobre desigualdade.” Teríamos que dizer, por exemplo: "Cerca de quarenta minutos, se for de carro". 




Dizemos hoje uma porção de coisas que deviam soar “mal traduzidas” aos ouvidos de Machado de Assis, mas a força bruta da quantidade se impôs, o uso se normalizou, os gramáticos se adaptaram. Com o tempo e o uso, pinos se arredondam e buracos se enquadram. 
 
Isto significa que devemos usar o “sobre” que todo mundo usa? Jamais!  É preciso continuar lutando. Como diziam Jorge Luís Borges e Ariano Suassuna, a gente não luta somente pela vitória: luta para mostrar qual é o lado certo. 
 
Certas coisas incomodam o ouvido porque a tradução direta, sem refletir, é uma tentativa de gambiarra linguística. Funciona, mas a gente sempre acha que tem alguma-coisa-faltando. 
 
Digamos que a gente leia, num livro traduzido, um diálogo assim: 
 
– Puxa vida... Você soube o que aconteceu com nosso amigo John Smith? 
 
– Não. O que foi?
 
– Bateu com o carro ontem, saindo do bar.
 
– Serve-lhe bem. Eu já falei a ele para só ir ao bar se for de táxi.
 
Dá para entender? “Para os leigos, sim.”
 

(Digressão: esta expressão é homenagem ao grande Hugo Lima, o mago da eletro-eletrônica de Campina Grande, recentemente falecido.  Consertando uma vitrola, meio século atrás, ele disse: “Essa vitrola está com 33 rotações, em vez de 33 e um terço”. Eu disse: “Mas Hugo, não é a mesma coisa?...”  E ele: “Para os leigos, sim.”)
 

No exemplo acima, o contexto é claro, e a expressão “serve-lhe bem” acaba adquirindo uma pincelada de sentido. Se milhões de pessoas começarem a usá-la, outros milhões começarão a ratificar esse sentido, a confirmá-lo... e daí a pouco a tentar impô-lo como sentido obrigatório.
 
E lá atrás ficarão algumas dezenas de teimosos dizendo que se no original tem “Serves him well”, já existe entre nós a expressão “Bem feito!” que diz a mesma coisa. E que tem, pelos séculos de uso no Brasil, inúmeros filamentos de sentido e de contexto ligando-a a outras memórias linguísticas, as memórias que encorpam nosso entendimento das palavras. Letras de música, provérbios, expressões do cotidiano como “Bem feito pra sua cara!...”
 
Cartola:
https://www.youtube.com/watch?v=Xd0xM7pulo0
 
Toda língua está cheia dessas expressõezinhas, e para muitas a gente não encontra um equivalente. Uma delas é “what with”, que felizmente nenhum influêncer ainda traduziu por “o que com”. Ela indica as razões, causas, etc., para alguma coisa que está sendo explicada.
 
I didn’t go to the party, what with all the rain that fell yesterday.
 
A maneira mais simples e parecida que temos para dizer isso pode ser: “Eu não fui à festa, com toda a chuva que caiu ontem”.  Dizemos assim em português, e esse “com” é entendido corretamente. Não pensamos que a pessoa não foi “levando a chuva consigo”.
 
Outro termo que é sistematicamente mal usado é “eventually”, que eu mesmo já cansei de traduzir por “eventualmente”. O sentido mais imediato que se pode dar à palavra é “por fim”, “mais cedo ou mais tarde”.
 
“I do eventually get around to speaking of something other than myself, you see. (Raymond Chandler).
 
Eu traduziria: “Veja bem, mais cedo ou mais tarde eu acabo falando de outra coisa além de mim mesmo.”
 
E o que quer dizer “eventualmente” em português? Essa palavra se colou mais ao sentido de “de vez em quando, não-sistematicamente”. Talvez pela sugestão de vários “eventos” com uma certa distância entre si. “Não conheço bem esse restaurante, mas já fui lá, eventualmente, quando morava em Copacabana”.
 
Outro sentido que usamos em português é de “possivelmente, quem sabe”: “Guarde esta lanterna, eventualmente pode lhe ser útil”. Que é um sentido um tanto mais próximo do sentido dado em inglês, e são essas nuances, essas flutuações, essas equivalências apressadamente subentendidas, que acabam, ao longo de vários anos e dezenas de milhões de usos, fazendo a palavra ir numa ou noutra direção.
 
Veja-se que estes sentidos são catalogados sempre “a posteriori”. Primeiro o uso se consagra. Depois, os dicionários, gramáticas e manuais registram: “Usa-se assim, assim e assado”.
 
O erro ou o barbarismo de hoje pode se tornar o uso acadêmico de amanhã, tal como muitos usos acadêmicos de hoje foram barbarismos ou erros no tempo de Machado de Assis, de Eça de Queiroz ou do dr. Castro Lopes.
 
 
 
  
 




domingo, 18 de fevereiro de 2024

5033) "Anatomia de uma Queda" (18.2.2024)



 
Este filme multi-premiado e muito debatido tem uma porção de qualidades que bastam para justificar esse trelelê todo. Direção (Justine Triet), fotografia, elenco, tudo muito competente, e para mim a prova disto é que comecei a ver o filme às 3 da manhã e só fui dormir quando acabou. Se um filme me prende desta forma, alguma qualidade ele tem. Muitos clássicos e muitos blockbusters já me mandaram para o travesseiro após 15 minutos de teste. 
 
Sandra (Sandra Hüller) e Samuel (Samuel Theis) são um casal de escritores que mora nas montanhas, no interior da França, perto de Grenoble. Ela é acusada de assassinar o marido, que caiu-ou-se-jogou-ou-foi-jogado de um terceiro andar, no chalé isolado em que vivem com o filho, um garoto de 11 que ficou cego após um acidente. 
 
Segue-se uma longa batalha de tribunal, um promotor (Antoine Reinartz) altamente disposto a conseguir uma condenação, uma porção de provas circunstanciais que apontam todas para a culpa de Sandra, e o esforço do seu advogado (que é super na-dele, mas salta aos olhos que é perdidamente apaixonado pela cliente) para tirá-la do buraco.   



(Swann Arlaud, o advogado, e Sandra Hüller, a acusada)


O filho do casal, Daniel (Milo Machado-Graner) é o vértice dessa história toda, e o terror calmo e lúcido do garoto diante dessa ominosa possibilidade (“minha mãe assassinou meu pai”) ajuda a manter toda a narrativa equilibrada sobre esse fio-de-aranha de indecisão. Assassinou? Não assassinou? Essa é a grande questão do filme (há outras, menores, importantes), mas vê-se que desde o princípio (ao que tudo indica) os roteiristas (a própria diretora Triet, com Arthur Harari) decidiram não “bater o martelo”. Não tem resposta final. Eles deixam a interpretação a cargo do público. 
 
Eu tenho um gosto especial por filmes que não dão resposta final, não solucionam o mistério, não carimbam um desfecho dizendo “foi assim, não foi assado”. Por que? Talvez porque quando isso acontece o filme nunca se fecha em nossa mente, a gente leva o filme para casa, dorme com ele, acorda pensando nele... Aos poucos ele vai cedendo lugar a novos acontecimentos, mas sempre que alguma coisa faz barulho aquela luzinha na memória se acende. 



Uma luzinha que se acendeu na minha memória foi Dois São Culpados (“La Glaive et la Balance”, André Cayatte, 1962). Este é um dos mais curiosos filmes de tribunal já feitos. Há um sequestro e assassinato cruel de um garoto. Os dois sequestradores, mascarados, são perseguidos pela polícia e se escondem num farol. A polícia cerca o local, e prende três rapazes que encontra lá dentro (interpretados por Anthony Perkins, Renato Salvatori e Jean-Claude Brialy). 
 
Cada um dos três diz mais ou menos a mesma coisa: “Eu estava aqui no farol, passeando, e de repente apareceram esses dois caras, fugindo de alguém”. Nenhum tem álbi. Todos precisam de grana. O roteiro consegue encaixar bem os detalhes, e cria um ótimo suspense com essa situação inusitada: dois são culpados, um é inocente. Mas qual? 
 
A obra de André Cayatte tem uma porção de filmes de tribunal, e merece uma atenção sob este aspecto: a dificuldade de se saber a verdade quando tudo que temos são testemunhos, impressões pessoais e depoimentos de segunda mão. Como decidir sobre a vida e a morte de uma pessoa, com base no que outras pessoas dizem sobre ela? 
 
Cayatte dirigiu um díptico que nunca assisti, mas parece interessante: Jean-Marc ou La Vie Conjugale (1964) e Françoise ou La Vie Conjugale (1964). Os dois filmes contam a história de um casal sob o ponto de vista do marido (Jacques Charrier) e da esposa (Marie-José Nat). 
 
É sempre isto: a versão de cada um, a narrativa de cada um, a interpretação de cada um. O sistema judiciário ergue as mãos para o céu quando lhe trazem impressões digitais, imagens de câmeras de segurança, mancha de pólvora ou de sangue na mão do suspeito. Sinais mais ou menos inequívocos de que Fulano é culpado. Mas, o que fazer quando não se tem certezas físicas, e é preciso recorrer ao que outras pessoas acham que pode ter acontecido?




Um dos grandes trunfos do roteiro de Anatomia de Uma Queda é seu multi-lingüismo. A esposa é alemã, o marido morto era francês, os dois se comunicam em inglês. Cada palavra pesa. De tempos em tempos o debate se cerra em torno do significado de uma palavra, que o promotor que ouvir de um jeito (como “sedução”) e a testemunha insiste em interpretar de outro. A acusada, Sandra, recebe a determinação de falar em francês, já que o julgamento ocorre na França, mas volta e meia ela pede licença e pula para a língua inglesa para explicar melhor o que sente – e isso bota em atividade os tradutores simultâneos. Quem sai ganhando com a mudança? É golpe? É estratégia? 
 
Acabei me lembrando de um postulado meio radical de George Steiner, citado por Douglas Hofstadter em Le Ton Beau de Marot (1997): 
 
Deste modo, um ser humano pratica um ato de tradução, no pleno sentido da palavra, quando recebe uma mensagem verbal de outro ser humano. (...) Resumindo: no interior de uma língua, ou mesmo entre duas delas, qualquer comunicação humana é sinônimo de tradução. Um estudo da tradução é um estudo da linguagem. (trad. BT) 


 

Neste filme, uma mulher alemã é acusada de matar o marido e tem que se defender em duas línguas estrangeiras, seja o inglês que usava para conversar com ele, seja o francês que é a língua falada pelo juiz, pelo promotor, pela corte em geral. 
 
Para tornar ainda mais movediço esse terreno, tanto ela quanto o marido eram escritores profissionais, inventavam histórias, manipulavam personagens, escreviam coisas que não necessariamente reproduziam seus sentimentos e seus pensamentos. 
 
Um sub-tema acusatório que surge durante o julgamento é o de que ela teria plagiado um livro do marido, livro que ele jogou no lixo por desgosto, mas do qual ela salvou uma idéia “de umas 20 páginas” que desenvolveu mais tarde, criando outra narrativa, um romance de 300 páginas, que foi um sucesso, elogiado pela crítica... E o marido acabou se sentindo prejudicado. Com razão? Sem razão? 



(Antoine Reinartz, o promotor)
 

Anatomia de Uma Queda é um mistério criminal, é um drama de tribunal, é a história do naufrágio de um casamento, mas a costura que une todas estas dinâmicas é a palavra, o modo como se usam as palavras, como elas são cuidadosamente escolhidas para produzir efeitos específicos nas pessoas, e como elas têm que ser exaustivamente analisadas para que alguém possa tomar decisões a partir delas.    
 
Tribunais se fundamentam na palavra, no que é irremediavelmente pronunciado. Vale o que foi dito em voz alta. E gravado em fita magnética. E registrado pelas estenógrafas. Mas (como diz a ré a certa altura) nem sempre o que a gente grita em voz alta numa discussão é a totalidade do que a gente sente. Como diz o bolero: “A gente briga... Diz tanta coisa que não quer dizer...”  O que a gente diz é sintoma do inconsciente, mas o consciente está justamente à procura de um antídoto para isto, está tentando convencer o inconsciente de que ele está errado.  
 
O filme é mais um que mostra como réus e testemunhas se preparam para enfrentar a Corte: sendo interrogados de modo exaustivo pelos próprios advogados, para não serem apanhados de surpresa, para escolherem bem o vocabulário, para evitarem termos que podem servir de “gatilho” para deflagrar uma acusação. 
 
A mescla entre palavra e realidade é mostrada nos trechos em que vemos em flash-back a vítima, Samuel. 

Primeiro, na briga que ele gravou no celular e que é reproduzida para os jurados e o público – só nesse momento a narrativa mostra o marido e a esposa “em carne e osso”, discutindo. No momento da briga física, porém, a imagem volta ao tribunal; ouvimos os baques, as pancadas, mas não temos certeza de quem está batendo em quem, e mais uma vez temos apenas a palavra dela quando diz que o marido, em desespero, estava dando socos no próprio rosto, na própria cabeça. 


 
Depois, é o depoimento do filho, relatando a conversa que teve com o pai no carro, quando o pai lhe aconselhou a ficar preparado para a morte do cão, que era inevitável – e o garoto percebe que era sobre a própria morte que o pai falava. Mas nesta cena ouvimos apenas a voz do garoto. A imagem do pai, em sincronismo labial perfeito, diz o que o garoto nos disse que ele disse. Podemos confiar no garoto?  As “aspas”, as frases atribuídas a outra pessoa, nunca foram tão bem relativizadas como nesta cena. 
 
Acreditar é um ato da vontade, não da razão. Anatomia de Uma Queda mostra que, na ausência de provas físicas, científicas, incontestáveis, temos o direito de acreditar no que nos convém, ou, mais precisamente, no que se harmoniza melhor com as nossas experiências prévias, e com as nossas expectativas futuras. 
 
O filme nos acompanha para casa, após a sessão, e nega a resposta confortável que a maioria dos filmes nos oferece: “Fulano é inocente”, “Fulano é culpado”. Em quantos casos de culpa e inocência, na vida real, temos certeza da verdade? Em quantos casos não acabamos acreditando naquilo em que, para nós, é mais seguro acreditar? 


(Swann Arlaud, a diretora Justine Triet, Sandra Hüller, Milo Machado-Graner)