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quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

4898) Nove detalhes sobre Pelé (29.12.2022)



1
Eu nunca vi Pelé pessoalmente, nem mesmo no gramado. Me arrependo de não ter dado uma fugida da farra, do trabalho ou do passeio para ir ao estádio numa das vezes em que ele jogou pelo Nordeste, ou visitou o Maior São João do Mundo. Nunca vi Pelé. Vi (no estádio) alguns de seus companheiros de geração jogarem: Garrincha, Djalma Santos, Rivelino... Pelé, nunca.

Muitos anos atrás li um artigo, de algum cineasta talvez, explicando que na nossa memória formam-se dois aposentos contíguos de lembranças: a) o das experiências vividas diretamente, em primeira mão, em carne e osso, presencialmente; e b) o das experiências a que temos acesso de forma indireta, por imagens, fotos, filmes, gravações, textos, relatos de outras pessoas... 
 
É interessante tentar avaliar qual desses aposentos é maior, qual deles está mais entulhado de referências. A verdade é que nossa “memória de carne e osso” funciona a todo vapor, 24 horas por dia, registrando coisas, mas apenas nos ambientes aonde nosso corpo nos conduz. E a “memória de imagem, ou de palavras” nos dá acesso ao planeta inteiro, ao mundo virtual ou ficcional inteiro, aos milênios de História, às galáxias. É uma memória construída, ficcionalizada, maior (talvez) do que a outra.
 
Philip K. Dick, nas suas impagáveis divagações, dizia que muitas partes do mundo na verdade não existem – são construídas às pressas quando vamos fisicamente para lá. Como no Show de Truman, ou como num videogame, em que a paisagem se recompõe (ou se cria) magicamente no horizonte, enquanto avançamos.
 
Eu e Pelé jamais existimos no mesmo universo físico, jamais estivemos no mesmo lugar ao mesmo tempo. 
 
2
Falei acima que Pelé já jogou na Paraíba. Meus amigos de outros Estados talvez não saibam que um dos orgulhos ficcionais dos paraibanos é o fato de que Pelé marcou seu gol número 1.000 em João Pessoa, num amistoso noturno com o Botafogo-PB, cobrando um pênalti. O famoso gol marcado no Maracanã, contra o Vasco, é a “versão chapa-branca” do fato, a lenda que se publica quando a realidade é menos cativante. Para a imprensa brasileira, era muito mais cativante que esse gol fosse feito no Maior Estádio do Mundo, diante do Vasco (time de coração do Rei), num goleiro argentino que fez o possível para alcançar aquela bola.... A lenda, sem dúvida, dá mais Ibope. 
 
No jogo com o Botafogo, a imprensa afirmava que Pelé tinha naquele momento 998 gols. Toda vez que Pelé dava um passe em profundidade para um atacante do Santos os jogadores do “Belo” se afastavam da bola, na esperança de que ela fosse direto para o gol. Nunca ia. Cometeram um pênalti, em desespero de causa. Longas confabulações. Pelé bateu, fez o gol, e foi substituído. Era (de acordo com a imprensa) o gol 999. No domingo seguinte, jogou contra o Bahia na Fonte Nova, e um zagueiro do tricolor salvou uma bola em cima da linha. No meio da outra semana, veio o gol no Maracanã.
 
Refizeram as contas depois, havia um gol antigo que não tinha sido computado... Mas quem vai reescrever a História só para dar uma glória dúbia ao Botafogo de João Pessoa? Eu, pelo menos, acho desnecessário.
 
3
Um episódio sem nada a ver com futebol é o encontro improvável entre Pelé e John Lennon. Os dois estavam morando em Nova York nessa época – Pelé recém-contratado pelo Cosmos, e Lennon em sua politizadíssima fase pós-Some Time in New York City. Encontraram-se casualmente nos corredores de uma escola de idiomas. Pelé estava aprendendo inglês. Lennon estava fazendo aulas de japonês, algo que certamente teve vontade desde que começou a viver com Yoko Ono. 
 
Consta que os dois se cumprimentaram cordialmente, aquele papo de “sou muito fã seu”, normal entre gente que vive sob os holofotes da fama (e gente que percebe, no outro, a genialidade que os fãs do outro às vezes nem entendem direito). E Lennon confidenciou que, quando a Copa do Mundo de 1966 foi realizada na Inglaterra, os Beatles, então se preparando para lançar Revolver, tiveram a idéia de fazer uma visita à Seleção Brasileira, então bicampeã mundial – mas a burocracia da CBD os desaconselhou. 
 
E eu fico imaginando um universo paralelo onde exista uma daquelas fotos com dois grupos misturados, intercalados: os Beatles e a seleção com Pelé, Garrincha, Gilmar, Bellini, Gérson...
 
Uma pequena digressão: é interessante que nenhum dos quatro Beatles, todos eles liverpudlianos, tenha sido um torcedor fervoroso de futebol. O único futebolista na capa do Sgt. Pepper’s é Albert Stubbins (1919-2002) – do Liverpool, claro. Ao que se diz, alguém sugeriu colocar um jogador de futebol, e Lennon o escolheu porque quando garoto achava o nome dele engraçado. Stubbins é, na famosa capa do disco, o sujeito de rosto rubicundo logo abaixo de Karl Marx e um pouco acima de Marlene Dietrich. 
 
4
Outro encontro improvável de Pelé, que sempre me fez divagar, foi o que ocorreu em Araraquara, numa tarde de domingo de 1960. Numa praça central da cidade, cruzaram-se dois grupos que se entreolharam à distância. Um deles acompanhava Pelé e o time do Santos, que se encaminhava para um jogo com a famosa Ferroviária de Araraquara. O outro acompanhava os escritores Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, que se dirigiam, por sua vez, para uma palestra na Faculdade de Filosofia local. 
 
Já escrevi com maiores detalhes a respeito desse encontro inusitado:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2008/03/0045-um-encontro-em-araraquara-1452003.html
 
 
5
A violência no futebol é como a violência em qualquer esporte de contato, de disputas corporais acirradas. Varia de acordo com o estilo dos jogadores e dos técnicos, com o ambiente, com o peso das ambições transformando um simples jogo numa batalha de vida ou morte. Há grandes jogos em que a violência campeia de parte a parte, e grandes jogos em que se vê futebol-arte do começo ao fim, sem nenhuma falta mais ríspida. Tudo isto faz parte da vida. 
 
Tenho duas imagens de Pelé que se não são “um exemplo para as gerações futuras” ilustram bem o lado “testosterona pura” do futebol. 
 
A primeira é a caçada que Pelé sofreu no histórico jogo Brasil 1x3 Portugal, que tirou o Brasil da Copa de 1966 ainda na fase de grupos. Portugal mereceu a vitória, porque a Seleção daquele tempo era aquilo que os coleguinhas da crônica esportiva gostam de chamar “um amontoado de jogadores”. Mas o que Pelé apanhou não está no gibi, e em grande parte não são as faltas comuns, na disputa brusca pela bola, na imposição de uma força sobre outra força. São faltas planejadas, onde o jogador pensa “vou pegar no joelho”, e o faz. Naquele tempo o futebol não permitia substituições. Pelé ficou mancando em campo, só para fazer figuração, até o fim.
 
Na Copa seguinte, em 1970, há outro episódio (que tal como o outro pode ser encontrado no YouTube) no jogo Brasil 3x1 Uruguai. Pelé sofre uma falta, rola no chão. Enquanto está caído, um uruguaio passa por ele, assim como quem não quer nada, e pisa no seu joelho. Pelé marca o cara, e logo depois, quando os dois perseguem uma bola longa lá na ponta esquerda, espera que ele se aproxime, e mete o cotovelo na sua testa, com toda força, antes de rolarem os dois pelo chão. O juiz não viu nada. Deu falta a favor do Brasil. 
 
Isso é feio? Sim, a vida é feia. Todos nós sonhamos com a possibilidade de um mundo futuro onde não existam a violência, os terremotos e as baratas. Viver não é apenas perigoso, viver é cruel.
 
6
O melhor livro sobre Pelé (não que eu tenha lido muitos) talvez seja Viagem ao Redor de Pelé, de Mário Filho, que li adolescente. Foi numa época em que meu pai comprava todos os livros sobre futebol que apareciam na Livraria Pedrosa. Mário Filho escrevia brilhantemente a última página, enorme, da Manchete Esportiva. Eu lia e relia todas.  Juntamente com seu irmão Nelson Rodrigues e com João Saldanha, ele encarna a simplicidade e a riqueza imagística de quem sabe escrever sobre o futebol brasileiro. Destes três, para mim, derivaram todos os que contam histórias futebolísticas e interpretam o mundo fantasioso do futebol, cada qual com sua paleta própria, e a todos li com prazer: Sandro Moreira, Armando Nogueira, Eduardo Galeano, Fernando Calazans, Juca Kfouri, etc. 
 
7
Tem um provérbio segundo o qual “Dinheiro pouco é problema muito, e dinheiro muito é problema muito também”. Pelé ganhou rios de dinheiro, tal como os Beatles. E, tal como os Beatles, poderia ter ganho o dobro ou o triplo se desde o começo a sua fortuna crescente fosse administrada por alguém que tivesse essa rara combinação de qualidades: honestidade, lealdade pessoal e competência.
 
Tem um personagem, hoje obscuro, na história de Pelé, que era conhecido como “Pepe Gordo”. Foi empresário ou contabilista das empresas de Pelé durante anos, e deixou um rombo gigantesco. A imprensa da época dizia que Pelé tinha abandonado o futebol mas teve que voltar, e assinar com o Cosmos, para tapar o buraco deixado por Pepe Gordo.
 
Virou uma expressão de gíria entre alguns amigos meus. Às vezes algum conhecido nosso ficava rico, arranjava um empresário, e alguém comentava: “Ih... o cara tem um jeitão de Pepe Gordo...”  Alguns anos atrás, o bardo Leonard Cohen, com 70 anos de idade, tinha deixado a administração de seus negócios na mão de uma empresária de confiança, Kelley Lynch, a qual raspou o fundo do tacho e sumiu com a grana. E quando eu li a notícia pensei: “Pepe Gordo ataca novamente”. 
 
8
Muita gente criticava Pelé pelo seu hábito de se referir a si próprio na terceira pessoa: “Ah, o Pelé acha isso, o Pelé acha aquilo...”  Para muita gente, é sinal de vaidade, de auto-engrandecimento. Muita gente famosa adquire esse cacoete, que desperta antipatia nas pessoas. 
 
Eu acho meio chato também, mas entendo que isto nasce da consciência de que o personagem admirado pelas multidões é uma coisa, e o “eu”, “a minha pessoa”, é uma coisa diferente. É sempre assim. Pelé fazia com frequência a distinção entre “o Pelé” e “o Edson”. Ele sabia que o público precisa do personagem para fantasiar seus próprios desejos, suas expectativas, seus sonhos, seus medos, seus preconceitos a-favor ou contra... E sabia que a pessoa é sempre um mero portador do personagem. 

9
Uma das expressões mais vívidas sobre a época de ouro do Santos foi uma declaração do próprio Pelé. O Santos, nos anos 1960, era um assombro futebolístico comparável ao que foram em épocas recentes o Barcelona (na era entre Romário e Messi), ou o Real Madrid “galáctico”. Clubes pelos quais a gente não torcia, mas fazia questão de acompanhar os jogos porque sabia que coisas memoráveis iam acontecer naquela tarde, naquela noite. 
 
Era o Santos que tinha a famosa linha atacante com Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.  Não somente esses. Havia o atacante Pagão, que era o preferido de Chico Buarque. Havia Toninho, um artilheiro nato, matador, no estilo de Pedro (Flamengo) ou Germán Cano (Fluminense). O Santos era um assombro.
 
O jornalista perguntou a Pelé, já idoso, quais as coisas de que ele sentia saudade da época do futebol. E Pelé respondeu: “Eu tenho saudade da sensação que a gente tinha no início de todos os jogos, quando as equipes tomavam posição, a gente botava a bola no centro, se preparava para dar a saída, e então eu levantava a cabeça e olhava o time adversário. E via o medo nos olhos deles. O medo que eles tinham do Santos.” 
 
 
 
 
 
 






terça-feira, 21 de abril de 2020

4572) Meu curso de Natação (21.4.2020)





Fiz um curso intensivo de natação, num centro cultural que tem aqui entre Ipanema e o Leblon. Nem estava muito interessado, mas um amigo meu fez um trabalho para eles e ganhou algumas bolsas para alunos. Me ofereceu uma, e lá fui eu, por mera curiosidade.

As aulas foram à noite, de segunda a sexta. Na primeira noite tivemos uma conferência massa, de um figurão cujo nome esqueço, mas foi até de terno e gravata. Ele falou sobre “A Origem da Água”, assunto que nunca tinha me despertado a curiosidade, mas só naquela hora vi como era fascinante.

Claro que ele não estava falando na origem física da água, que afinal sabemos ser o famoso H2O presente na Natureza, e sim a origem dessa relação lúdica que o ser humano tem com a água. A água, explicava ele, se constituía como universo fluido do prazer, e como desafio carinhoso ao movimento corporal. Citou Gaston Bachelard, citou Jean Baudrillard, e outros nomes que anotei para futura referência.

Na segunda noite veio outro professor, que nos explicou “Os Segredos do Movimento”. Se a primeira conferência tinha sido filosófica, esta segunda teve um perfil de natureza mais técnica. Abriu com um Power Point minucioso a respeito dos músculos dos braços e das pernas, falou sobre os impulsos elétricos que o cérebro envia aos músculos, etc.  Depois exibiu uma animação mostrando exemplos de movimentos coordenados de braço, perna e pescoço, com contra-exemplos do “que não se deve fazer”.



Aula muito intrutiva, eu inclusive não sabia que temos dois hemisférios no cérebro, e que cada uma dessas metades coordena a metade oposta do corpo!  A esquerda comanda a direita, e a direita comanda a esquerda.

A terceira aula tinha como título (ainda guardo o programa, muito bem impresso) “O Mito de Sísifo”, e eu cocei a cabeça sem saber como encaixar aquilo no tema proposto. Mas a professora (uma francesa, que falava muito bem o português, com sotaque encantador) deu um banho, sem trocadilho.


Porque o mais importante na natação, disse ela, é o objetivo a ser alcançado, e a concentração mental a ser desenvolvida: ela citava o mito de Sísifo (aquele cara que empurrava uma pedra para o alto de um morro e quando ia chegando lá em cima a pedra escapulia, toda vez) para ilustrar que certas atividades podem parecer insensatas quanto à sua finalidade, mas se descobrirmos sentido e prazer na atividade em si, o meio torna-se um fim e isso nos traz a paz interior.

Voltei para casa transformado; um novo homem. Eu sentia uma verdade íntima muito grande no olhar dela quando cruzava com o meu. Os olhos dela eram cinza-azulados com reflexos índigo, uma coisa impressionante.


Na quarta aula, demos uma geral na história da natação. O professor era um sujeito pequeno, troncudo, meticuloso, de bigodinho bem aparado, que usava uma vareta de metal telescopável para apontar os gráficos, as tabelas de nomes e de números.

Ele dividiu tudo em vários períodos, que copiei diligentemente, mas agora só lembro o Período Empírico, o Período Olímpico, o Período Pré-Científico, o Período Científico... Lembro do momento em que ele apoiou a ponta da vareta na palma da outra mão, empurrou-a para dentro do cabo e disse com ar ameaçador: “E precisamos nos preparar para o Período Pós-Científico”.


A quinta e última aula foi com outra professora, uma senhora sessentona, de óculos, muito bem vestida e com excelente didática. Foi uma abordagem, como direi? Uma abordagem de cunho pessoal. Via-se que era uma ex-atleta, uma pessoa que apesar da idade mantinha um ritmo regular de atividade física. Alguém cochichou no meio da turma que ela era famosa, tinha ganho medalhas não sei onde.

Nadar, demonstrou ela, produz em nós um estado alterado de consciência. Nenhuma outra atividade envolve de modo tão radical nosso corpo, nossa mente, nossos instintos mais básicos, porque quem nada está escapando à morte em cada segundo e está empenhando cem por cento do seu Ser nessa conquista. Andar é falar a própria língua, comentou ela; nadar é dominar uma língua estrangeira. Mas – e aqui ela erguia um dedo de unha bem manicurada – uma língua estrangeira que é também a nossa Ur-Linguagem, nosso idioma primordial, no oceano esférico da placenta.

No final houve a entrega dos certificados, e um breve coquetel, em que confraternizamos. Gostei muito da experiência, e na semana que vem já me inscrevi para o curso de “Reportagem Jornalística”.











terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

4316) "Notícias em três linhas" (20.2.2018)



De vez em quando um leitor deste blog se queixa de que eu costumo comentar “livros obscuros, não traduzidos no Brasil, de autores que ninguém nunca ouviu falar”. Verdade. Para os livros de autores famosos e recém-traduzidos aqui, o leitor tem as páginas dos jornais. Minha missão aqui é ampliar o cardápio dos curiosos, e felizmente, de vez em quando, coincidências acontecem, e se não são coincidências são aquele fenômeno de variação aleatória num processo costumeiramente repetitivo, aquilo que o cavanhaquíssimo Georges Perec chamava de clinâmen, fenômeno que podemos comparar ao de duas gotas de chuva que se chocam uma com a outra durante a trajetória de queda, dando origem, não a uma terceira gota-síntese, como a lógica formal esperaria, mas a um chuveirinho de gotículas menores, produto da convergência do momentum (massa x velocidade) das duas gotas originais.

O parágrafo acima é o contrário do que praticava Félix Fénéon (Notícias em três linhas, Rocco, 2018), ao registrar fatos do noticiário urbano e policial da França no Le Matin (1906).

Os dois parágrafos acima mostram que um escritor não precisa necessariamente “ter uma maneira de escrever”: pode usar várias, conforme sua conveniência ou as circunstâncias do ofício.

Félix Fénéon (1861-1944) era um sujeito discreto, que deixou pouca coisa escrita. Destacou-se como editor: editou Les Illuminations de Rimbaud (atribui-se a ele a ordem final das secções do livro), e a primeira publicação dos Chants de Maldoror de Lautréamont, além da primeira tradução francesa de James Joyce, Dèdale.

Envolveu-se com o movimento anarquista francês e em 1894 foi julgado (e absolvido) por um atentado a bomba, do qual talvez não fosse de todo inocente.

Em 1906 trabalhou no Le Matin produzindo essas notinhas em 3 linhas sobre o noticiário policial, às quais imprimiu um tom pessoal. Ninguém lhes deu muita importância na época; sua amante Camille Plateel recortou e colou tudo num álbum, que foi encontrado pelo crítico Jean Paulhan após a morte do casal.

O Grão-Duque Alexis, agora em Paris, esteve ontem em Nancy. Como há russos morando ali, a polícia o seguiu por toda parte.

Já ocorreram oito suicídios em Montpont-en-Bresse no espaço de poucos meses. Desta vez, Lacroix, 70 anos, enforcou-se.

Em Clichy, um elegante rapaz jogou-se sob as rodas de borracha de um coche, escapou ileso, e jogou-se depois sob um caminhão que o reduziu a pó.

Fénéon não “faz literatura”, não enfeita, não romantiza, até porque havia uma restrição editorial (de extensão) a esses fragmentos. Não podia ser maior do que é. O redator tem que (como se diz no futebol) dar um drible num espaço do tamanho de um lenço.

O Globo de hoje (terça, 23) traz no “Segundo Caderno” matérias de Bolívar Torres e Victor da Rosa saudando a primeira publicação brasileira das Notícias em três linhas (Rocco), com tradução de Marcos Siscar e Adriano Lacerda. 

A página reproduz também o único retrato pintado (por Paul Signac) do também cavanhaquíssimo Fénéon (que foi amigo de artistas como Seurat, Pissarro, Toulouse-Lautrec, Bonnard e outros).



Em Bécu, 28 anos, que chegou ao hospital de Beaujon ferido a bala, foram contadas 27 cicatrizes. Seu apelido no submundo: O Alvo.

Uma dama de Nogent-sur-Seine desapareceu nos Pireneus em 1905. Foi encontrada numa ravina perto de Luchon, e identificada pelo anel que trazia no dedo.

Poupon, Gaudin, Jiffray, Ordronneau e Granic negaram todos ter assassinado Mme. Louet. O juiz de Ramouillet mandou prender todos eles mesmo assim

O Globo lembra que a cobertura de Fénéon tem tudo a ver com o Twitter: são menores que um tweet de 280 caracteres. Eram um formato editorial da época, talvez entregue ao “estagiário” de plantão. Um sujeito com pendor literário e um tanto ocioso poderia perfeitamente se dedicar a dar polimento a um formatinho tão desafiador.



Na igreja de Chavannes, na Savoia, um raio derreteu os sinos e deixou paralítico um paroquiano. Um aguaceiro devastou a vila.

O sr. Jules Kerzerho era presidente de um clube de ginástica, e ainda assim foi atropelado ao tentar saltar para dentro de um bonde em Rueil.

Casado há três meses, um Audouys de Nantes cometeu suicídio, usando láudano, arsênico e um revólver.

Uma mulher estava sentada no chão em Choisy-le-Roi. A única palavra de identificação que a amnésia lhe permitia era “modelo”.

O título desses fragmentozinhos de Fénéon (Nouvelles en trois lignes, o mesmo usado para intitular a secção do jornal) é curioso, porque “nouvelles” tanto pode significar “notícias” quanto “novelas”. Tanto é assim que a tradução em inglês (New York Review Books, 2007, com tradução e uma introdução por Luc Sante) chama-se Novels in three lines (e não “News in three lines”).

São pequenas novelas, encapsuladas num resumo que é possível ter como ponto de partida para, se não um romance inteiro, pelo menos um conto de certa extensão. Quanto mais excêntrico o personagem, quanto mais inusitado ou tocante o fato, maior a voltagem literária que se pode extrair dele.

No prefácio à edição em inglês, Luc Sante diz:

As pequenas novelas de Fénéon, se consideradas como uma obra única, representam um marco crucial e até agora menosprezado na história do modernismo. Mesmo sendo cada item obsessivamente trabalhado, esse trabalho é num certo sentido o primeiro ready-made. Ele anuncia a era das comunicações de massa, através de uma sensibilidade formada pelas cadências e simetria da prosa clássica; preconiza o século da estatística, ao mesmo tempo em que dá destaque aos detalhes individuais e cotidianos; estimula a velocidade do consumo ao mesmo tempo em que deixa manifesto o longo tempo dedicado a sua elaboração.







quinta-feira, 6 de julho de 2017

4250) João Saldanha, 100 anos (6.7.2017)



Neste mês de julho comemora-se o centenário de nascimento de João Saldanha, jornalista, técnico do Botafogo no tempo em que o Botafogo era um dos melhores times do mundo, técnico da Seleção Brasileira. 

Um personagem fascinante, que comecei a admirar ainda garoto, lendo suas crônicas na imprensa, e depois lendo o excelente Os Subterrâneos do Futebol, relato de sua vivência botafoguense, cheio de episódios pitorescos, mostrando como é o futebol fora de campo.

Saldanha foi um dos caras mais politicamente incorretos do seu tempo, não porque fosse pior do que os outros, mas porque era o único que dizia o que pensava, sem se importar com o que alguém achasse. 

O meio do futebol profissional é todo cheio de dedos, cheio de pose, de discurso patriarcal moralista, quando diante do microfone. Som desligado, ninguém distingue um jornalista de um cartola. João Saldanha rasgava, falava tudo, e por isso ficou com fama de pior do que os outros, quando era apenas mais verdadeiro.

Em alguma prateleira empoeirada, no sambaqui de papel em cujo centro habito, devo ter ainda uma esfarelada pasta de plástico com dezenas de recortes de suas crônicas publicadas no Jornal do Brasil, que eu lia com o vagar e a aplicação de quem está estudando para um mestrado.

Acho que ele e Paulo Francis foram os únicos cronistas de quem guardei recortes. Não por achar aquilo um documento histórico, mas para reler de vez em quando e não me esquecer de como se escreve. Se não fosse pela leitura imunizadora dos dois, eu já poderia estar em alguma Academia.

Vi-o em carne e osso apenas uma vez, numa palestra dele na Facha (Faculdade Hélio Alonso), no Rio. Alertado por algum amigo, fui lá na faculdade (era perto de casa) num começo de noite e vi João perorando para 50 ou 60 universitários durante mais de duas horas.

Era um falador incansável, inesgotável e brilhante, da estirpe de Darcy Ribeiro e Ariano Suassuna. Não tinha nhém-nhém-nhém, ia direto ao ponto, mandava uma idéia forte, concreta e inquietante, e em vez de ficar tagarelando em volta dela produzia logo outra; e outra; e mais outra.

Inquieto, desassossegado, teimoso, dos que não abrem nem prum trem. Articulado, hábil com a linguagem, criativo, sem paciência para com a retórica vazia e a pomposidade de tantos técnicos de futebol, de tantos cronistas. Sorria pouco, mas transmitia uma impressionante energia de viver. (“Alegria de viver” me parece um termo besteirolzinho demais, perto da impressão que ele causava.)

No ambiente futebolístico carioca, João mantém uma curiosa relação folclórica com Neném Prancha, figura ligada ao Botafogo e a quem se atribui uma quantidade enorme de frases notáveis. Algumas delas, diz-se, eram na verdade de Saldanha. 

Neném Prancha (tinha esse nome por causa dos pés enormes) foi o cara que dizia: “Se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano só terminava empatado”, “Pênalte é tão importante que devia ser batido pelo presidente do clube” e outras preciosidades.

Sendo Neném um personagem típico como Seu Lunga ou Zé Limeira, acabaram lhe atribuindo coisas que ele provavelmente nunca disse. Não importa: vale o que foi falado. Quem fica é a frase, a gente pede a conta e vai embora.

Tenho visto algumas notas na imprensa a respeito do centenário de Saldanha, e parece que estão saindo algumas coletâneas de suas crônicas. Uma dessas coletâneas é As 100 melhores crônicas – comentadas – de João Saldanha, de Alexandre Mesquita, César Oliveira e Marcelo Guimarães (LivrosDeFutebol, 2017).

Preciso reler, porque nas épocas mais recentes tenho recorrido, naqueles momentos em que a cabeça está a zero e o texto avança com a velocidade da hera na treliça, de um cacoete em que beletristas pátrios são useiros e vezeiros, esses floreios caligráficos de uma prosa ornamental que consiste em esticar na máxima medida possível uma idéia bem curtinha e bordá-la toda de lantejoulas verbais e miçangas metafóricas com o intuito de disfarçar seu vazio mais vazio do que um estômago vazio.

Vamos lembrar de João. Vida que segue.





quinta-feira, 25 de agosto de 2016

4150) Geneton (25.8.2016)



Um mês  atrás compartilhei no Facebook um pedido de doação de sangue para o jornalista Geneton Moraes Neto, que estava hospitalizado. Acendi a luz amarela de alerta, mas não houve novidade nos dias seguintes e acabei esquecendo. Não tínhamos contato direto (mais por culpa minha, que hoje sou um anacoreta com direito a redes sociais). Eu o via por acaso – fosse num corredor da Globo (nas vezes em que trabalhei lá), num lançamento de livro, ou algo assim. Nosso último papo tinha sido antes da sessão de lançamento do filme Brincante de Walter Carvalho e Antonio Nóbrega, aqui no Rio.

Geneton, como tantos de nós, era um Mágico de Oz comandado de dentro por um cineclubista. No caso dele, um cara moreno, barbudo e enfezado, que fazia uns filmes despirocantes no Recife, no meio de uma turma que incluía Jomard Muniz de Britto, Paulo Cunha, Amin Stepple – este último de Campina Grande, amigo meu de geração, que me apresentou aos demais. Quando Amin e Geneton surgiam caminhando lado a lado na calçada me lembravam Dom Quixote e Sancho Pança, um longilíneo e encurvado, o outro atarracado e hirsuto.

O superoitista virou jornalista. Acompanhei muitas das grandes entrevistas que ele fez para a TV Globo, e ver Geneton entrevistar era um pouco como ver alguém montar num boi brabo. Ao vê-lo formular certas perguntas a um ex-presidente ou a um general, minhas mãos se cobriam de suor frio. Eram perguntas que eu tinha vontade de fazer, mas morreria e não faria mesmo que por trás de mim, me bancando, estivessem não apenas a Rede Globo, mas o Pentágono, a KGB e os duzentos jagunços de Augusto Santa Cruz.

Perguntar é a arma do repórter (o que GMN foi na medula, ao fim e ao cabo; o que se orgulhava de ser), mas uma arma de alto risco, cuja bala pode inclusive inverter a direção depois de disparada. O entrevistado pode até ter um acesso apoplético (como o general Newton Cruz esteve a ponto de ter diante das câmeras) e não responder. Mas a pergunta pressupõe que existe uma resposta, que existe a questão; que existe, na multidão silenciosa que o repórter representa, a necessidade de ficar sabendo.

E não me refiro às perguntas sensacionalistas dos escândalos miúdos, das pegadinhas onde são feitas perguntas infantilóides, canalhamente indiscretas, perguntas que não passam de fofocas ou maledicências encomendadas.

São perguntas como (me deem licença para um exemplo provinciano) o jornalista Chico Maria fazia no seu programa “Confidencial” da TV Borborema de Campina Grande, olhando nos olhos do ex-prefeito Plínio Lemos e perguntando: “Por que o senhor mandou matar o vereador Félix Araújo?”, ou para Luís Carlos Prestes, e dizer: “Por que o senhor apertou a mão de Getúlio Vargas, que entregou sua esposa Olga Benário aos nazistas?”. (Ver aqui: http://mundofantasmo.blogspot.com.br/2009/06/1123-confidencial-20102006.html).

É a pergunta feita de pessoa para pessoa – o respondedor carregando consigo o peso do passado, e o perguntador trazendo o peso do presente. A pergunta (agora num exemplo em escala nacional) da escola de Joel Silveira, mestre de Geneton, repórter batedor de perna na calçada, questionador, atrabiliário, pavio curto, cuja frase era uma guilhotina.

E, curiosamente, no trato pessoal Geneton desmentia a imagem de enfezado que passava num primeiro contato, porque era meio retraído e sempre afável, discreto como um verdadeiro cineclubista, um “prestador de atenção” na expressão de Jessier Quirino. Tinha o humor escarninho do recifense, mas nunca se alterava.  Entrevistando, era incisivo sem ser hostil, mesmo quando a gente sabia que ele não gostava do entrevistado.

O lado cinéfilo era o outro prato da balança que o fazia escapar das tentações do “furo de reportagem” como valor absoluto. O amor à Arte equilibrava nele o amor à Verdade. Feliz de quem (principalmente quem tem talento e/ou poder) consegue equilibrar Arte e Verdade, essas duas coisas aparentemente próximas, e na prática incomensuravelmente distantes, e em última análise apenas duas faces de uma coisa maior que ninguém enxerga.

Dos trabalhos de Geneton nos últimos anos vi apenas seu documentário sobre o tropicalismo, Canções do Exílio (comentei aqui: http://mundofantasmo.blogspot.com.br/2011/02/2481-labareda-que-lambeu-tudo.html), e sua longa entrevista com Geraldo Vandré (aqui: http://mundofantasmo.blogspot.com.br/2010/10/2364-entrevista-de-vandre-4102010.html).

Pesco aqui um trecho de um longo post de Sérgio Rodrigues no Facebook, citando Geneton: “Não existe assunto desinteressante: o que existe é jornalista desinteressado.“ Vale para a literatura, vale para tudo.







domingo, 1 de maio de 2016

4109) O dia de um serial killer (1.5.2016)







O filme começa como um documentário tradicional, em preto e branco, imagem granulada, câmera na mão balançando bastante. 

A primeira cena é de um homem jovem de pé no estreito corredor de um trem em movimento, debruçado à janela, olhando para fora. Uma mulher vem se aproximando, do lado oposto ao da câmera, e quando ultrapassa o homem por trás ele se endireita, com agilidade surpreendente, dá-lhe uma gravata e a arrasta para a cabine cuja porta estava aberta. Caem os dois sobre o banco; ele a agarra com uma espécie de fio, e a estrangula devagar, enquanto ela se debate cada vez menos, e ouvem-se apenas os ruídos surdos da luta e o balanço cadenciado do trem.


Parece o início de um filme policial qualquer, mas nisso o filme corta para um terreno baldio onde o homem está agachado junto a um corpo envolto em lona. Ele se dirige para a câmera, num tom de quem dá entrevista, e começa a discorrer sobre os aspectos técnicos de um crime, como por exemplo a quantidade de pedras que é preciso amarrar a um cadáver para jogá-lo na água e impedir que ele depois venha à tona. De trás da câmera ouvimos perguntas, a que ele responde com vivacidade e nonchalance. 

Sim (percebemos), ele é um serial killer, e está sendo seguido por uma equipe de filmagem que documenta seus crimes e faz o retrato de seu dia-a-dia (encontros com a família, ensaios musicais com a namorada, etc.), entre pessoas inocentes que não fazem a menor idéia dos crimes que ele comete.

O filme é belga, intitula-se C’est arrivé près de chez vous (1992) e foi escrito, produzido, dirigido, montado e interpretado por três estudantes de cinema sem um vintém no bolso: Benoît Poelvoorde, Rémy Belvaux e André Bonzel. O título da versão em inglês, admirada por Quentin Tarantino, é Man bites dog

Pertence ao gênero chamado mockumentary, “mock documentary”, documentário fingido. Neste gênero o meu preferido é This is Spinal Tap (Rob Reiner, 1984), onde uma equipe acompanha turnês e gravações de uma hilária banda de rock, fictícia, é claro.


Em C’est arrivé..., muitos crimes são mostrados apenas em cenas rapidíssimas de poucos segundos, mas há pelo menos duas sequências mais longas em que o diretor consegue transmitir a aterrorizante impressão de que aquilo está acontecendo de verdade. 

A primeira é quando Ben, o assassino, invade uma casa e mata sucessivamente esposa, marido e filho pequeno, contando para isto com a ajuda de membros da equipe. 

A outra é quando invadem um apartamento e durante uma longa noite todos eles, assassino e documentaristas, estupram a esposa e depois a matam juntamente com o marido.


Nestas cenas fica mais claro o aspecto (para mim) mais perturbador do filme. Não são as cenas de violência gráfica, porque afinal estamos acostumados a ver coisas até piores nos filmes de hoje. Não é a sensação de que “aquilo tudo é de verdade”, porque depois dos primeiros minutos qualquer espectador menos opaco percebe que se trata mesmo de encenação com atores. 

Mas o gradual envolvimento da equipe com os crimes de Ben arrasta o filme do gênero mockumentary para aquele departamento mais amplo dos filmes que questionam a imprensa e o modo como ela se envolve e manipula os fatos que alega estar documentando.


Para mim, C’est arrivé... (ou Man bites dog) se assemelha, por exemplo, a A Montanha dos Sete Abutres (“The Big Carnival”, Billy Wilder, 1951), onde um jornalista inescrupuloso (Kirk Douglas) retarda o quanto pode o socorro a um homem soterrado numa caverna, para faturar com o episódio. 

Ou com Rede de Intrigas (“Network”, Sidney Lumet, 1976), onde um âncora de telejornal (Peter Finch) tem um surto ao vivo e acaba servindo de pretexto para sua rede de TV intervir na política norte-americana. 

Ou Mera Coincidência (“Wag the Dog”, Barry Levinson, 1997), onde um produtor de Hollywood (Dustin Hoffman) inventa uma guerra fictícia na Europa para desviar a atenção do público de um escândalo envolvendo um candidato a presidente dos EUA.


Vistos em conjunto, estes filmes (e vários outros) ajudam a refletir sobre ética e antiética da imprensa, sobre a manipulação midiática de conteúdos supostamente “imparciais e objetivos”, sobre o envolvimento interesseiro de jornalistas ou documentaristas com os acontecimentos que estão abordando, sobre as infinitas formas de manipulação e distorção dos fatos para produzir um discurso fictício, a tal ponto que fica impossível distinguir entre a cobertura de um crime e a cumplicidade com ele.








terça-feira, 21 de julho de 2015

3871) Cidadão Kane (21.7.2015)



Revendo Cidadão Kane, revi também o documentário The battle over Citizen Kane (de Michael Epstein e Thomas Lennon, 1996), que acompanha o DVD. O documentário mostra a vida e a carreira de William Hearst, o magnata que Welles alvejou com seu filme, e que lutou, com relativo sucesso, para transformar o filme num fracasso e a vida de Welles num inferno.  Dá ao espectador algo que um livro-biografia de Hearst talvez não desse: uma informação visual sobre o mundo do milionário, seus castelos, suas indústrias, suas campanhas políticas, e a história de sua paixão por Marion Davies (ridicularizada por Welles no filme, com certa injustiça).

Uma das teses principais do documentário é que Kane, como personagem, deve tanto a Welles quanto a Hearst. Por exemplo: Kane é separado à força de sua mãe na infância, o que pode explicar sua necessidade de ser amado por milhões de pessoas, por um país inteiro. Isso não aconteceu com Hearst, mas aconteceu com Welles. E ao longo do documentário de Epstein/Lennon vemos Welles aos 25 anos se maquiando para interpretar Kane com 60, e vemos logo em seguida Welles aos 60 refletindo sobre si mesmo e sobre seus filmes.

Epstein e Lennon mostram como Welles contou seu próprio futuro ao desvendar o passado de Kane; ele acabou sendo um Kane sem Xanadu. Certas obras, produzidas numa fase de euforia criativa e energia vital, parecem levar um autor a um teto que ele nunca voltará a alcançar. Kane é tão profético sobre Welles quanto “O Barco Ébrio” é profético sobre Rimbaud, mesmo tendo sido escrito aos dezesseis anos. Como se depois de publicado o poema e exibido o filme aquilo virasse um mantra inconsciente no autor.

Kane caberia em muitas retrospectivas temáticas: filmes sobre jornalismo, sobre magnatas, filme de mistério investigativo, filmes sobre política dos EUA, filmes neo-expressionistas, etc.  A famosa profundidade de campo na fotografia de Gregg Toland continua notável hoje, com pessoas minúsculas no centro da imagem conversando com alguém de perfil juntinho à câmera. Kane é cheio de personagens vistos de corpo inteiro a dez ou vinte metros, e o enquadramento parece os dos filmes de truques de Ray Harryhausen.  Diz-se que os atores suavam, porque para a imagem ser nítida era preciso inundar a cena de luz, e os refletores eram muito quentes. Orson participou de um programa de rádio com H. G. Wells, em 1940 (aqui: http://tinyurl.com/pn8nuvl). O inglês perguntou-lhe como era o filme que estava fazendo, e ele disse: “É um novo tipo de filme, como um novo método de apresentação, e alguns novos tipos de experiências técnicas e novas maneiras de narrar um filme”.


terça-feira, 10 de março de 2015

3758) Caça aos clichês (11.3.2015)



Lendo uma entrevista do jornalista Sérgio Augusto no suplemento Cândido (Curitiba-PR), li um parágrafo que me alegrou e me constrangeu, quando ele fala do uso insuportável de clichês nas matérias de jornal e revista. Diz ele:

“Para ganhar tempo, paro de ler de imediato qualquer texto com clichês e expressões que abomino.  De imediato, mesmo, ainda que o assunto me esteja interessando. É minha forma de protestar em silêncio contra o insulto que a meu ver representam coisas do tipo ‘resgatar a memória’, ‘conquistar corações e mentes’, ‘ícone’ disso e daquilo, ‘emblemático’, e por aí vai, o glossário não para de crescer. Com a internet e seu vale-tudo vernacular, sintático e estilístico, esse descalabro atingiu culminâncias inéditas. Há blogs que, só de olhar, me provocam engulhos, com seus pontos de exclamação torrenciais, suas palavras ‘gritadas’ em caixa alta, seu gosto por hipérboles do tipo ‘o máximo’, ‘genial’, ‘imperdível’.”

Fiquei alegre porque concordo, e constrangido porque uso alguma dessas besteiras. São as filhas da pressa e da palavra impressa. Vemos uma frase repetida dia e noite, noite e dia, em jornal, em livro, em TV, em rádio, em papos ao vivo... Aquilo se instala em nossa memória por mero peso estatístico. Quando tentamos dizer alguma coisa parecida, nossa memória age como um Google e nos traz “a mais frequente, a mais acessada”. Aí a gente escreve coisas do tipo: “O novo livro de Fulano de Tal me deu um prazer inenarrável”.

O clichê nunca é uma simplificação, é sempre uma enfeitação de uma idéia.  Como tantas enfeitações, no momento em que aparece produz um susto-de-novidade que pode passar como uma comunicação mais intensa.  O leitor percebe aquela expressão que nunca viu na vida: “Resgatar a memória”. Que coisa profunda: a nossa memória, a nossa História foi sequestrada, e estamos invadindo o território inimigo, pegando-a de volta na marra, como é nosso direito, etc.  Depois da décima vez, no entanto (e pra isso bastam alguns meses depois da primeira vez), quem aguenta mais ouvir o clichê? Deixou de dizer. Virou uma expressão coringa, sem informação própria, e que está ali meio que guardando lugar para a próxima expressão criativa que alguém vier a produzir.

O clichê é como aquele cigarro de mentira dos caras que estão tentando deixar de fumar.  Eles ficam segurando, levando à boca, aspirando sem fumaça, botando no cinzeiro ou na beirada da mesa...  O objeto cumpre todo o ritual de movimentos de um cigarro, mas não tem essência de cigarro.  Não transmite informação nicotínica, assim como o clichê não transmite mais nenhuma informação verbal nova.



sábado, 10 de janeiro de 2015

3707) Wolinski (10.1.2015)



E os extremistas mataram Wolinski, o único cartunista francês cujo nome e cujo traço eu sabia de cor.  Conheci a obra dele lá por 1980, em Olinda, quando eu me asilava na casa de Paulo Santos de Oliveira, perto do Alto da Sé.  Paulo era cartunista (hoje é romancista: A Noiva da Revolução) e junto à sua prancheta havia uma estante cheia de álbuns trazidos das andanças européias. Wolinski tinha aquele traço minimalista e acelerado que Henfil, entre nós, levou aos píncaros mais delirantes. Seu personagem típico era um cara careca de nariz batatudo, queixo noel-rosa, sempre cercado por sereias vulcânicas que ou se recusavam ao sexo com ele ou se ofereciam sem que ele percebesse. A sacanagem de Wolinski nada tinha da nossa sacanagem moreno-tropical, era o mundo daqueles magrelos e branquelos franceses, discutindo Godard ou Sartre mas pensando o tempo todo naquilo.  Me identifiquei no ato.

Depois saíram álbuns dele aqui, pela Editora Três, se não me engano. Foi um alívio, porque o francês daqueles baluns era um dialeto críptico muito diferente do francês do “Cahiers do Cinéma”, que eu conseguia decifrar às apalpadelas. O humor era escrachado, e, pro meu temperamento cauteloso, ousado demais.  Nem a turma do Pasquim pegava tão pesado quanto o daquelas publicações, o Charlie Hebdo, o Canard Enchainé, o Echo des Savanes, outros nomes que agora me vêm brotando na memória, por entre a fuzilaria.

Quando o sujeito passa 50 anos satirizando Deus e o Mundo, um destes dois acaba reagindo. Em geral não é Deus.  Vi uma piada ótima na esteira do massacre, um twitter em inglês dizendo: “Eu sou Deus Todo Poderoso, sou Onisciente e Onipresente, o criador dos Tempos e dos Espaços, e posso muito bem aguentar uma porra duma piada”. Já o Mundo, infelizmente, não tem o mesmo senso de humor do Pai Eterno. Não sei ainda (alguém chegará um dia a saber?) se os assassinos são fanáticos ressentidos ou se são paus-mandados para apimentar uma crise geopolítica. Ou uma terceira coisa, ainda pior que estas duas. Mas é no meu artista que penso, o artista cujo rosto só vi, pela primeira vez, nos necrológios.

Disseram os sobreviventes que os Ninja-do-Mal entraram de rifles em punho na redação e “fizeram a chamada”, mandando que todos se identificassem para serem abatidos. Nas linhas que a tinta da História deixa em branco, todo mundo é capaz de rabiscar a lápis a lenda que mais lhe agrada. Criei para mim a fantasia consolatória de que ao ouvir seu nome, pronunciado com ódio pelos enviados do ódio, Wolinski, 80 anos, uma vida plena, uma vida ganha, ligou o “foda-se”, ficou de pé e disse: “Wolinski sou eu.  Algum problema?”




quinta-feira, 1 de maio de 2014

3487) Garcia Márquez (1.5.2014)



(Garcia Márquez, por Charles Burns)

A imprensa do mundo inteiro está dando um balanço na obra literária de Garcia Márquez, falecido recentemente. Não direi que ele era uma unanimidade junto ao público e à crítica; conheço pessoalmente gente que não gosta, que o acha meio “macumba para turistas”, um “folclorizador da miséria, como Jorge Amado” (já ouvi isto). Eu não acho. A leitura de Cem Anos de Solidão aos 20 anos mudou minha compreensão da literatura e da América Latina. Curiosamente, muitos que não gostam de Márquez são fãs de Borges.  Veem Borges como o que todo latino-americano deveria ser: civilizado, lendo latim e alemão, conhecendo a filosofia clássica e pensando de forma apolínea (Borges detestaria essa descrição, aliás injusta; é o modo como ele é visto, não o que ele era). Márquez era um escritor formado em redação de jornal, esquerdista, bigodudo, plebeu total.

Seu discurso de recebimento do Prêmio Nobel traça duas linhas paralelas de sua visão da América Latina, dando substância ao que veio a se chamar de realismo mágico. Por um lado, há os aspectos bizarros e extraordinários da realidade física e mental do continente, tudo que parece estranho aos que vêm do Hemisfério Norte e determinam o que é normal e o que não é. Por outro lado, há a espantosa desigualdade social do continente, resultado da pororoca inicial e posterior convivência entre a brutalidade do colonizador e a do colonizado (aqui se praticava a escravidão, o canibalismo, os sacrifícios humanos).

Nos seus romances, muitos detalhes atribuídos ao realismo mágico eram meras reconstituições de fatos históricos. Nisso, Márquez dava uma lição que autores tão diferentes como Tim Powers ou Bruce Sterling souberam utilizar bem: pegue da realidade o que ela tiver de mais inacreditável, e deixe sua ficção apenas um ponto abaixo. Qualquer crítico que listar as coisas mais impossíveis do enredo vai quebrar a cara ao ver que eram reais.

Na outra mão desse processo, Márquez fazia relatos jornalísticos, reconstituições de episódios reais, com os artifícios da ficção: Relato de um Náufrago, Notícia de um Sequestro, A Aventura de Miguel Littín clandestino no Chile... Alguns amigos meus (e alguns críticos literários) se queixam de que isso não é jornalismo, porque Márquez mudava detalhes, personagens ou situações para acomodá-los a sua conveniência narrativa. Muito bem, que não seja jornalismo, que seja então ficção inspirada em fatos reais. O que importa é que a volúpia narrativa está toda ali, e eu não sei se Euclides em Os Sertões ou Graciliano em Memórias do Cárcere foram mais fiéis aos fatos do que ao significado dos fatos. Há uma diferença.


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

3432) Entrevista (26.2.2014)



PERGUNTA – Sr. Braulio, o momento atual da literatura envolve impasses que, ao que parece, não estão sendo resolvidos de maneira satisfatória nem pela crítica, que, presa a critérios estabelecidos, demonstra pouca maleabilidade para acompanhar o fôlego criativo dos novos autores, nem pelos próprios autores, que apesar da garra e da adrenalina características das novas gerações tendem a perder de vista o específico literário e a dissipar suas energias em atividades extra-página, por assim dizer, tais como incontáveis sessões de autógrafos, palestras, aparições em talk-show da TV, participações em festas literárias e bienais do livro, realização de oficinas, manutenção de websaites, divulgação nas redes sociais, e todo um conjunto de práticas menos voltadas para a criação literária do que para a divulgação dos resultados dessa mesma criação. Para alguns, trata-se de uma tática de sobrevivência em que a literatura, sempre encurralada nas fatias mais estreitas da divisão do mercado, procura adotar para si uma postura mais agressiva através da ênfase em táticas da publicidade e da propaganda, o que traz a mente a filosofia de trabalho de alguns filmes de Hollywood, que destinam 100 milhões de dólares para a feitura do filme e 150 milhões para a sua divulgação.  Ora, isso acaba criando um aparente impasse entre duas funções paralelas com que qualquer escritor em qualquer época sempre se defrontou, a necessidade de produzir livros e a de divulgá-los, sabendo-se que qualquer uma delas estará sempre subtraindo da outra tempo, esforço e energia. O que se coloca diante dos autores, no entanto, parece ser algo mais complexo do que a mera organização do tempo de trabalho, porque salta aos olhos o fato de que escritores mais afeitos às tarefas propagandísticas do que ao fazer literário parecem estar colhendo frutos mais substanciais do que aqueles que não se sentem muito à vontade em aparições públicas diante de platéias e de câmeras, seja por timidez, seja pela fadiga resultante dos incessantes compromissos, viagens, idas e vindas, etc., seja até por uma compreensível irritação diante da expectativa, que parece também ser típica dos leitores de hoje, de que um escritor seja também uma espécie de showman ou de garoto-propaganda de si mesmo.  O senhor acha que, neste contexto, caberia aos autores em geral uma atenção maior ao desenvolvimento da própria escrita, a fim de que a literatura não venha a se tornar, como parece estar ocorrendo em outras atividades como o próprio jornalismo, um território dominado pelos mais fluentes, os mais extrovertidos, os mais semelhantes aos atores de cinema e de televisão?  RESPOSTA – Sim.


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

3402) O mulato Isaías (22.1.2014)



Isaías é um rapaz da Baixada Fluminense, gosta de ler, tem boas notas, quer tentar a carreira no Rio.  Consegue uma carta de recomendação para um deputado e vem. Na pensão, torna-se amigo de jornalistas, comerciantes. O tal deputado não se interessa em ajudá-lo. Logo as economias que trouxe se evaporam. Começa a passar fome. E ao mesmo tempo frequenta, parasitariamente, as noitadas dos amigos que “têm boas colocações”. Acaba sendo admitido como servente na redação de um jornal chamado “O Globo”. E aí começa a vingança: sua narração na primeira pessoa destrói moralmente o jornal, os jornalistas, a imprensa carioca, a política brasileira.

Diz-se que Lima Barreto fez de Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909) uma provocação ao Correio da Manhã de Eduardo Bittencourt (O Globo, de Irineu Marinho, só viria a ser criado em 1925).  Típico das muitas atitudes murro-em-ponta-de-faca do autor, o livro, que desmascarava a imprensa carioca, foi ignorado pela imprensa carioca.  É um livro cruel pelo modo quase monocórdio como o jovem Isaías, servindo cafezinhos, enchendo tinteiros, fazendo mandados, ridiculariza a pompa e a fatuidade de jornalistas abonados, muitos dos quais leram menos e conhecem menos do que o mulatinho do café.

Isaías sobe profissionalmente – tendo que levar um recado urgente ao dono do jornal, ele o surpreende num bordel, e desse dia em diante o dono começa a tratá-lo bem, fazer-lhe agrados (certamente temendo uma chantagem), até promovê-lo a jornalista.  E Isaías, que sonhava em fazer carreira intelectual nas letras e tornar-se doutor, acaba se transformando numa daquelas cavalgaduras engravatas que tanto ridicularizou.

O jornalismo e a literatura do Brasil estão repletos de antas semi-alfabetizadas, que estão somente um degrau acima do embrutecimento mental dos seus leitores, mas criam um sistema de elogios mútuos que os mantém à tona.  Isaías percebe isso e não perdoa.  Torcemos pelo mulatinho de periferia, mas ele próprio não nos poupa seu ressentimento (a cada capítulo aumenta o seu lado “não confiável” como narrador), sua inveja, seu desprezo; e quando parece que vai escorregar no maniqueísmo, ele se transforma naqueles que despreza.  O fato de ter escapado dali (são recordações, redigidas muitos anos depois) lhe dá o equilíbrio necessário para evocar aquilo tudo e poder ver à distância seus erros tanto quanto os dos outros.

Isaías Caminha é um livro brasileiro sem esforço, e atual, com sua imprensa mantida às custas de propinas políticas, suas manifestações de rua, seus intelectuais da indústria do entretenimento, suas questões mal resolvidas de raça e de classe social.


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

3398) "Mais um dia de vida - Angola 1975" (17.1.2014)



Pelas praças, ruas e avenidas da capital, principalmente as que convergem para o aeroporto ou para o cais, por entre as casas e edifícios de pedra, começa a surgir uma outra cidade de madeira, uma cidade de caixotes, de contêiners, de todo tipo de embalagem sólida onde os milhares de fugitivos possam embalar e amontoar seus televisores, seus sofás, candelabros, roupas de cama e mesa, porcelanas, flores artificiais. É uma cidade de madeira que brota em poucas semanas, e que vai fazer-se ao mar para sempre. Mais um dia de vida – Angola 1975 (Lisboa: Tinta da China, 2013, tradução de Ana Saldanha), de Ryszard Kapuscinski, é a reportagem dos últimos três meses da guerra civil em Angola, entre a evacuação catastrófica dos portugueses e dos angolanos brancos, e as batalhas finais entre os exércitos do MPLA, da FNLA e da UNITA, que lutavam pelo poder.

Kapuscinski, correspondente de guerra polonês, atuando em vários continentes, já foi acusado de falsear os fatos, mas não de escrever livros insípidos. Ele mostra a crueza da guerra com descrições cruas mas imperturbáveis, mesmo quando afirma que se perturbou quando aquilo aconteceu. Um repórter com estilo suficiente para transformar aquilo num thriller de campo de batalha e ao mesmo tempo no olho investigativo de um polonês sobre a sociedade, a mente e os valores dos angolanos, tanto brancos quanto negros.

Luanda é evacuada, as duas ofensivas convergem para a capital que o MPLA tenta manter sob seu domínio. FNLA ao norte e UNITA ao sul, com tropas sul-africanas, convergem para a capital, e Kapuscinski fica saltando pelo país de jipe, de avião, de comboio, tentando ver com os próprios olhos a situação no front Sul, e voltar a Luanda para transmiti-la por telex. E a cada passo a terrível gratuidade da morte, a morte aleatória, a morte por coincidência, a morte individual desnecessária a qualquer vitória coletiva.

Um cinema drive-in reexibe sem parar Emmanuelle, a única cópia que ficou em suas mãos. Sem água, sem luz, sem lixeiros nem bombeiros, a cidade arde e apodrece. Ele diz que “embora os dois mundos, o conforto e a pobreza, se encontrem a dois passos um do outro e ninguém esteja a guardar o bairro rico dos europeus, os negros das cubatas de adobe não tentaram mudar-se para lá. A idéia não lhes passou pela cabeça”. Depois, Kapuscinski, na estrada, pergunta a Diógenes, um líder, por que eles andavam em caminhões tão precários quando as cidades estavam cheias de veículos em bom estado, deixados pelos portugueses. O outro responde que esses veículos eram propriedade dos portugueses. Não poderiam tocá-los. E de fato não tocam. Guerreiam com o que têm.


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

3395) "Notícia de um sequestro" (14.1.2014)





Na série “Livros Meio Antigos Que Sempre Me Interessaram Mas Só Agora Estou Lendo” posso incluir com prazer este relato de Gabriel Garcia Márquez, de 1996, a época em que a violência na Colômbia atingia proporções quase de guerra civil. Márquez, por um lado, tem uma imaginação “Realismo Mágico”, capaz de infinitos desdobramentos e constantes surpresas.  Sua formação, no entanto, é jornalística, e quando se detém sobre fatos ele parece ser tão objetivo e atento ao detalhe quanto – digamos – um Fernando Morais ou Ruy Castro, dois dos nossos referenciais de história verdadeira contada com rigor de minúcias.

O livro acompanha o sequestro de uma dezena de jornalistas colombianos pela quadrilha de Pablo Escobar, o barão da cocaína que na época tentava pressionar o governo para evitar ser extraditado para os EUA, onde suas chances de escapar à justiça seriam nulas. Os jornalistas eram de famílias influentes (havia a filha de um ex-presidente da República), famosos em todo o país. Ficaram em diferentes cativeiros, vigiados 24 horas por adolescentes drogados e armados, e a narrativa acompanha tanto os reféns quanto as famílias que, do lado de fora, pressionam o governo e os sequestradores em busca de uma solução.

Márquez arma o livro como uma história de suspense. Para nós, não-colombianos, todos aqueles personagens são desconhecidos. Lá, já se sabe (é fato histórico) quem morreu e quem foi resgatado com vida; para um leitor distante, é uma história que está acontecendo pela primeira vez no instante da leitura. Imaginamos a qualquer instante um desfecho trágico para qualquer um daqueles personagens. Sabemos que tudo já aconteceu, mas nossa ignorância do resultado nos ajuda a ler os fatos como se qualquer final fosse possível.

É uma história com intriga política, suspense, violência, fazendo um corte de várias classes sociais (há um contraste patético entre o refinamento inútil dos sequestrados e a rusticidade dos “testas de ferro” dos cativeiros), contada por um narrador onisciente que não pode interferir no enredo: ele vê tudo, mas tudo imovel, porque já aconteceu. Se fosse literatura, seria interessante saber até que ponto seriam toleráveis certos infelizes acasos que ocorreram, e certos destinos trágicos que parecem escritos em implacáveis estrelas. Descontando a crueldade e a tragédia das mortes de fato acontecidas, o destino da maioria dos reféns é um anticlímax. Romancistas e roteiristas de cinema hesitam em encerrar um drama dessas proporções de maneira banal, com pessoas famintas, atarantadas, andando numa rua de periferia em busca de um táxi ou de um telefone.