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sábado, 3 de dezembro de 2022

4889) "Balada do amor através das idades" (3.12.2022)




Este poema simples, movimentado, cordelesco, é um dos mais conhecidos de Alguma Poesia (1930), livro com que Carlos Drummond de Andrade estreou na poesia aos 28 anos.  
 
O Modernismo impôs em nossa literatura a importância e a complexidade do verso branco (sem rima obrigatória) e livre (sem métrica obrigatória, sem formas fixas de estrofe). Ao mesmo tempo, ele não eliminou a importância ou a beleza do verso rimado e metrificado.
 
Muitos modernistas de primeira hora (e até de hoje em dia) correm para o verso livre por ver nele uma zona de conforto, onde podem escrever qualquer coisa sem se importar com nenhuma regra. Estão enganados. O verso livre tem regras, exige (como muitos poetas Modernistas atestam) uma sensibilidade até mais complexa, um domínio verbal maior.
 
Enquanto isto, poetas como Drummond, Manuel Bandeira, Mário de Andrade e outros se mostraram sempre à vontade tanto num tipo de verso quanto no outro. Drummond rima e metrifica impecavelmente, quando se propõe a isto. Quando não, maneja o verso sem rima e sem métrica com sutilezas de sonoridade que nos ensinam muito mais do que aprenderíamos com a rima e a métrica convencionais.
 
Note-se que embora a cadência básica seja do verso de 7 sílabas, Drummond geralmente o utiliza com o mesmo senso de não-obrigação de João Cabral, cujas estrofes frequentemente flutuam do começo ao fim do poema entre 6, 7, 8 e até 9 sílabas. Uma liberdade que escandaliza os nossos cordelistas, para quem a obediência rigorosa à métrica é uma espécie de décimo-primeiro Mandamento.
 
Esta balada de Drummond se destaca em sua obra pelo uso do termo “balada”, palavra que tipicamente indica os poemas narrativos em língua inglesa, e que em português substituímos por “romance” (não o romance da prosa de ficção; o romance popular em verso, herdado do Romanceiro Ibérico).
 
O poema conta cinco histórias diferentes – ou conta a mesma história cinco vezes, a depender do olho de quem lê. Um rapaz e uma moça se amam; o mundo conspira contra eles. Existe algum tema mais antigo do que este? Qualquer manual de roteiro de cinema resume o roteiro ideal na fórmula “Boy meets girl, boy loses girl, boy gets girl” (“Rapaz encontra moça, rapaz perde moça, rapaz consegue moça”).
 
São cinco momentos da história, que o poeta nos ajuda a visualizar com uma surpreendente versatilidade. A Grécia antiga, do tempo da Ilíada. O império romano e seus espetáculos brutais, do tempo de Quo Vadis. Os piratas do Mediterrâneo. Os nobres da monarquia francesa pré-revolução. O mundo moderno do cinema e dos esportes.



A permanência dessa história de amor irrealizada, em mundos diferentes, lembra filmes como A Morte Cansada (“Der Müde Tod”, 1921; na França, “Les Trois Lumières”) de Fritz Lang, um filme que Drummond pode muito bem ter visto e tomado como inspiração. Nele, três histórias de amor são mostradas: no Oriente árabe, na Veneza renascentista e no império chinês.
 
Essas ambientações exóticas não precisam de muita fidelidade histórica, de muito rigor documental. Estão aí apenas como alegorias, quase como alegorias carnavalescas, para indicar que os dramas do amor se assemelham, mesmo tem países e séculos diferentes. É um tipo de “passado ornamental”, baseado em figurinos e cenários, algo que o cinema mudou herdou da ópera do século 19.
 
A influência cinematográfica fica bem explicitada na estrofe final, quando o narrador se compara a um “herói da Paramount”, contemporâneo dos finais felizes. Um dos aspectos psicológicos do nosso Modernismo literário foi o esvaziamento do melodrama sentimental. Os afetos tornaram-se mais leves, mais descontraídos. A Bossa Nova faria o mesmo com as letras da canção popular, quarenta anos depois.
 
No seu primeiro livro Drummond já revela uma leveza narrativa surpreendente, comprimindo em cada uma dessas estrofezinhas um enredo bem capaz de alimentar todo um filme do cinema mudo – era uma época de muitos filmes com 20 ou 30 minutos. Juntando todo o poema, poderia resultar num filme em episódios com uma hora e meia.
 
Curiosamente, vi o poema certa vez numa Antologia da Poesia Espírita, que encontrei num sebo. E se percebe que o texto pode claramente ser interpretado como uma narrativa de um casal em reencarnações sucessivas; quase que um precursor da tendência recente de fazer regressão psicológica e “recordar vidas passadas”.
 

 
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Balada do amor através das idades
 
Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irmão.
Matei, brigamos, morremos.
 
Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.
 
Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria de meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal-da-cruz
e rasgou o peito a punhal...
Me suicidei também.
 
Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freita...
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.
 
Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de muitas peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.
 
 
 
 







quarta-feira, 16 de março de 2011

2505) Medo de alma (16.3.2011)



Por que temos medo de alma do outro mundo? Pergunta que todo psicanalista deveria fazer aos clientes. Pouparia tempo e esforço aos dois. Uma réplica muito frequente seria: “E quem lhe disse que eu sequer acredito na existência delas?”. Diante do que, caberia ao doutor perguntar: “Por que não acredita?”. Encurralado por essa pergunta, eu, no divã, diria algo como: “Porque acredito que nós não temos alma. Somos apenas um corpo.” E ele: “Quer falar sobre o seu corpo?” E aí começaria a desenrolar o fio freudiano que conduz ao minotauro.

São várias as razões para ter medo. 1) Que a alma nos leve para o outro mundo. 2) Que ela nos demonstre (desmoralizando-nos) que o outro mundo existe, sim. 3) Que pelo fato de estar no mundo transcendental ela tenha tido acesso a uma versão resumida da Onisciência Divina e saiba uma porção de coisas que fizemos e pensamos. 4) Que ela prove, ao provar a existência da alma, que o corpo, “este excelente, completo e confortável corpo” (Drummond), não passa de ilusão; 5) Que o contato com algo que não existe prove simplesmente que você ficou doido. (Vide o argumento do cara que não viajava de avião: “Não tenho medo de que o avião caia. Tenho medo de morrer de medo.”).

Não: as “almas do outro mundo” pertencem a uma categoria, os corpos deste mundo a outra. As almas são projeções feitas por nós mesmos, e é o cacoete religioso que nos faz dar-lhes uma origem sobrenatural. Pergunte, a qualquer sujeito que já viu uma alma do outro mundo, como era a aparência dela. Ele dirá algo como: “Era meu avô, juro! Reconheci a barba branca dele, o rosto quadrado, o chapéu que usava... Estava com um casaco escuro, de bengala, parado perto da escada do porão”. Ou então: “Vi a alma da antiga dona da minha casa! Estava segurando uma vela acesa na mão, com um vestido do século 18, um xale branco...”

Quem melhor equacionou essa charada metafísica foi Rudyard Kipling no seu conto “O Riquixá Fantasma” (1888). Nele, o protagonista vive assediado amorosamente por uma mulher que não larga do seu pé, e vive no seu riquixá (uma espécie de carroça indiana) a assediá-lo. A mulher morre. Tempos depois, ele vai andando na rua e vê a morta, no mesmo riquixá, ainda a persegui-lo. E ele se pergunta: “Peraí... eu estou vendo a alma dela... mas o riquixá também tinha uma alma?!”.

É curioso que, quando vemos a “alma” de nossa bisavó ou de um escravo que morreu no engenho, essas almas estejam sempre vestidas, e nunca nuas. Se o que vemos fosse de fato a projeção visível de sua alma imortal, essa projeção deveria se deter nos limites do corpo biológico do falecido, porque a alma corresponde ao corpo. Não existem a alma do paletó, a alma do chapéu, a alma do colete, a alma do vestido, a alma dos sapatos... Não, minha gente. Se o fantasma aparecer vestido, é mera projeção alucinatória do nosso inconsciente. Agora, se a alma de Marilyn Monroe aparecer nua em pelo na minha frente... eu ajoelho e rezo.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

2165) A experiência do dr. Lugano (14.2.2010)





Este episódio está registrado nos Anais do Instituto Histórico e Geográfico do Cariri, vol. XII, a partir da página 119, substanciado por depoimentos e reproduções das imagens pertinentes ao caso. Basta-me aqui referir os fatos principais, que julgo não serem de conhecimento do grande público.

Em meados de 1976 surgiram boatos de que uma D. Eulália, residente em Monteiro, no Cariri paraibano, estava produzindo fenômenos mediúnicos, testemunhados por dezenas de pessoas. Não havia a tradicional comunicação com espíritos dos mortos; foi constatado que nas ocasiões em que ela entrava em transe ocorriam fenômenos de levitação, poltergeist, materialização de ectoplasma, etc. 

O dr. Alberto Lugano, professor da então FURNe (hoje Universidade Estadual da Paraíba-UEPB), procurou-me no Museu de Arte, onde eu trabalhava, e pediu-me que o acompanhasse numa visita, levando uma filmadora Super-8.

Em Monteiro, fomos recebidos pela família de Dona Eulália. Explicamos que queríamos filmar tudo, e não encontramos oposição. Havia uma dúzia de visitantes na sala, que era ampla, e mais alguns membros da família. Instalei o tripé, acendi luzes. 

D. Eulália sentou-se numa cadeira, e pedimos que se colocasse de encontro a uma parede branca, que nós mesmos escolhemos. E foi assim que consegui filmá-la no momento em que, depois que ela mergulhou em transe, a cadeira se ergueu no ar, diante dos nossos olhos, oscilando um pouco para os lados, mas subindo verticalmente, a um palmo da parede, e chegando a ficar quase dois metros acima do chão. Depois, baixou.

O filme provocou debates acalorados na FURNe (“Charlatanismo! Hipnose!”), e depois na UFPB em João Pessoa, para onde o levamos na semana seguinte. Era apenas um rolo de Super-8; eu tinha levado vários rolos, mas o fenômeno durou apenas dois ou três minutos. 

Pude mostrar que não havia truque, até porque o Super-8 é reversível, ou seja, não tem um negativo de onde se tire uma cópia. O rolo filmado é, depois que o revelamos, o mesmo rolo exibido, e era claro que não havia manipulação. E não se pode hipnotizar uma película.

Voltamos para Campina e fizemos nova sessão, convidando a imprensa. Todos prenderam a respiração vendo novamente o plano único, sem cortes, da médium sentada, seu rosto arfando, os olhos esbugalhados fitando a câmara e fechando-se devagar. Em seguida sua cabeça descaía para o lado, e a cadeira começava a se elevar. 

Chegando ao fim do filme, um crítico de cinema local veio até o projetor e pediu-me para fazer uma nova projeção, mas começando do ponto em que a mulher já estava em transe. Fiz o que ele pedia, apagamos as luzes... e daí em diante (juro pelos meus filhos) a mesma imagem que víramos antes mostrou apenas a cadeira imóvel, e a médium de cabeça baixa. Nada se mexeu, nada se elevou. 

“Sim,”, disse o crítico, “é impossível hipnotizar uma película, mas se a película registra algo capaz de hipnotizar, julgamos ver na tela o que nunca foi registrado pelas lentes. É sempre assim”.


(Este conto está incluído no livro Histórias Para Lembrar Dormindo, Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2011)


sábado, 27 de março de 2010

1832) O algoritmo Dylan Thomas (22.1.2009)



(Dylan Thomas)

Os surrealistas franceses foram talvez os primeiros poetas a tentar produzir poemas ao Acaso. Um dos seus jogos preferidos era o “cadáver delicado”, em que frases eram escritas aos pedaços, por diferentes pessoas, cada uma sem saber o que as demais tinham escrito. Produziam frases que para mim são de uma estranha beleza: “O cadáver delicado beberá vinho novo... A ostra do Senegal comerá o pão tricolor…” Vale como experiência e como passatempo, mas não pode ser um sistema para a produção constante de poesia.

A poesia de Dylan Thomas, o poeta galês, é extremamente rica, difícil, obscura, marcada por imagens surpreendentes, alusões às vezes inacessíveis, e um vocabulário muito específico. Talvez por causa desta última característica um grupo de fãs (ou de críticos sarcásticos, nunca se sabe) criou um “gerador automático de poemas de Dylan Thomas”. Você clica, e segundos depois aparece na tela um poema que poderia (?) ter sido escrito por Thomas. No dia em que acessei o saite (em: http://tinyurl.com/yklnehr) o poema que estava na tela era: “I slept heartily / By the goosefield of the truant boy / Laughing mildly on the invisible leaves / On thoughts of tides / Where bones lie proudly / And all the patchwork birds burn and walk”. Não traduzirei. Eu não consigo traduzir o Thomas de verdade, quanto mais um ghost-writer cibernético que escreve em seu nome.

A brincadeira consiste na criação de dois bancos-de-dados, um com o vocabulário característico do autor (algumas centenas de substantivos, adjetivos, verbos, advérbios, preposições, etc.) e outro com suas estruturas sintáticas preferidas, além dos padrões rítmicos (alternância de linhas longas e curtas, etc.). Quem faz esse banco não é o computador, claro. O computador é uma máquina burra. Quem faz são pessoas que entendem de literatura, conhecem a obra do poeta, conhecem os mecanismos de composição literária. Esse papo furado de que “o computador está escrevendo poesia” é balela. O baralho todo é criado por pessoas; o computador apenas traça o maço e escolhe algumas cartas.

É complicado? Não acho. Um amigo meu, Harry Ingham, que não era programador de informática nem nada, escreveu um programazinho chamado “Pim” que gerava poemas dessa forma. Podíamos mudar o banco-de-dados, por exemplo, para substituir as palavras “poéticas” (nuvem, sorriso, flor, etc.) por palavrões ou por palavras absurdas (ornitorrinco, moringa, caduceu...) e os resultados eram sempre interessantes.

Falei em ghost-writer, e isso me lembra que os tais poemas psicografados por médiuns espíritas não são muito diferentes. Conhecendo o vocabulário, os temas e os padrões sintáticos típicos de um poema, é muito fácil produzir centenas de sonetos de Cruz e Souza ou Augusto dos Anjos. Quanto mais típico, quanto mais diferente dos outros é um autor, mais fácil imitá-lo. Qualquer paródia acaba ficando parecida com o original.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

1355) Os fantasmas escritores (18.7.2007)




A revista Piauí de junho tem uma matéria de Chico Mattoso, “À Sombra dos Ectoplasmas em Flor”, sobre a literatura mediúnica no Brasil. Este assunto despertou minha curiosidade na infância, quando descobri o Parnaso de Além Túmulo com poesias de Olavo Bilac, Augusto dos Anjos e dezenas de outros. Eu, ainda muito pequeno, custava a entender como esse pessoal morria e continuava esvaziando tinteiros. Acreditar no Céu e da Vida Eterna eu conseguia, mas como era possível conciliar essas estratosferas metafísicas e a obrigatoriedade de contar dodecassílabos?

Segundo a Piauí, o Brasil tem cerca de 200 editoras de livros espíritas, que vendem 6 milhões de exemplares por ano. A grande maioria são livros atribuídos a espíritos famosos ou a espíritos que se identificam com nomes genéricos como “Emanuel”, etc. Para os mais melindrosos vou logo avisando que minha mãe era espírita e dezenas de parentes meus (tios e tias, primos e primas por quem tenho respeito e afeto) compartilham das crenças kardecistas. Todos já estão acostumados com minha maneira cética de tratar esses assuntos. Não acredito – mas não mango, não menosprezo, e acima de tudo não tenho certeza de que estou certo. Apenas não acredito que alguém continue existindo depois que morre, quanto mais que escreva sonetos!

Chico Xavier (informa a revista) publicou mais de 400 títulos e vendeu mais de 25 milhões de exemplares. A atual líder do mercado é Zíbia Gasparetto, cuja gráfica imprime 500 mil exemplares por mês – nem todos de livros espíritas, pois a empresa também imprime livros por encomenda para outras editoras. Mas não se pode negar que é um mercado em crescimento constante, ainda mais lançando obras de autores que vão de Luigi Pirandello (psicografado por Elifas Alves) até Edgar Allan Poe, Cego Aderaldo e Florbela Espanca (psicografados por Jorge Rizzini).

O episódio mais sintomático é a questão judicial movida em 1944 pela viúva de Humberto de Campos, a quem se atribuíam numerosas obras espíritas psicografadas por Chico Xavier. Esta senhora argumentou, com razão, que se de fato os livros eram escritos pelo falecido esposo então os direitos autorais cabiam a ela, e não ao copista mediúnico. O juiz do caso saiu pela tangente decretando que a propriedade intelectual se encerra com a morte do autor, mesmo que este continue a produzir no Mais Além.

Confesso minha perplexidade em saber que autores estrangeiros são psicografados em português, num processo de tradução simultânea que em muitos casos não me parece sem ruídos, porque até agora não vi nenhuma obra psicografada que me parecesse à altura das obras escritas em vida pelo autor. Será preconceito? Pelo contrário. Quem me dera que autores como Guimarães Rosa, James Joyce, Raymond Queneau ou Jorge Luís Borges pudessem vir matar as saudades deste humilde leitor, com textos à altura dos que escreveram quando assinavam ponto neste vale de lágrimas!

sábado, 31 de outubro de 2009

1338) Máquina de escrever e mediunidade (27.6.2007)




Existe coisa mais fascinante do que a mente humana? Duvido. Ela é como aquelas casas antigas, imensas, labirínticas, onde a gente se perde com facilidade, e onde, quando menos espera, descobre um aposento onde jamais havia entrado. Ao que parece, a invenção da máquina de escrever produziu um novo aposento nas mentes humanas, gerando uma experiência de dissociação psíquica talvez comparável à que outros indivíduos experimentaram em períodos remotos da História quando a escrita se impôs como um veículo para a produção de um texto a sós.

Uma resenha de Joan Acocella sobre o livro The Iron Whim: A Fragmented History of the Typewriter, de Darren Wershler-Henry, cita uma porção de episódios curiosos na história deste nobre instrumento. Escritores sempre cultivaram uma relação de enfrentamento físico com a escrita, mas essa relação sempre foi íntima, quase sensual, com a ponta úmida da pena rascando de leve a epiderme do papel, deixando ali as senhas manuscritas através das quais os pensamentos do autor podiam ser reconstituídos. A escrita se assemelhava um pouco ao desenho. Era uma relação íntima, silenciosa.

Chegou a máquina de escrever com seus mecanismos e seu estardalhaço, e pareceu que o mundo ia se acabar. Era preciso dar uma pancada com o dedo, fazendo o martelinho desferir outra pancada no papel, amortecida pela fita úmida que imprimia o negror da letra. Em meus bons tempos de tradutor-por-sobrevivência, já trabalhei de 8 a 10 horas por dia numa máquina de escrever mecânica: quando ia dormir, as unhas estavam em frangalhos, os dedos inchados e insensíveis. Mas o mais interessante é que a máquina exigia outro tipo de relação mental. O livro de Wershler-Henry fala que após a morte de Henry James, sua datilógrafa,Theodora Bosanquet, dizia continuar ouvindo a voz do escritor ditando-lhe textos, e que outros escritores já mortos, como Thomas Hardy ou John Galsworthy, também estavam querendo ditar-lhe textos.

Wershler-Henry afirma que “as pessoas acreditavam que o que era escrito numa máquina era ditado, por uma voz que não era a mesma da pessoa que datilografava; mesmos as pessoas que compunham seus textos diretamente na máquina achavam que estavam seguindo um ditado vindo de outra parte”. Bastava isto para um escritor meio visionário como William S. Burroughs inventar em alguns de seus romances fantásticos uma máquina que ele chamava The Soft Typewriter (“A Máquina-de-Escrever Mole”), uma espécie de máquina orgânica que escrevia não só nossos livros como nossas próprias vidas.

Pode ser mediunidade; ou pode ser simplesmente um processo esquizóide benigno brotado na nossa mente, o mesmo que me permite estar agora datilografando uma frase que já pensei enquanto com o mesmo cérebro já estou tentando pensar a próxima. Cada nova tecnologia-de-pensar cria um novo puxado em nossa mente, esta casa infinita que malassombramos com nossa alma.