Mostrando postagens com marcador Cory Doctorow. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cory Doctorow. Mostrar todas as postagens

sábado, 4 de junho de 2022

4829) Os reis do dinheiro (3.6.2022)



(Elon Musk)

Uma contradição permanente das democracias é que o poder vem nominalmente do povo, através do voto em representantes (no Executivo e no Legislativo), mas este é praticamente o único poder que o Povo tem. O melancólico poder de olhar uma lista que lhe fornecem e dizer: “Prefiro essa pessoa aqui.”
 
Porque poder econômico, o que de fato mexe as engrenagens do mundo, o cidadão comum (eu por exemplo) não tem nenhum. A façanha-de-super-herói dele é estar com os boletos em dia, sem dever a ninguém, e ter um extra para a cerveja no bar da esquina. 
 
E aí entram em cena os bilionários, essa casta de Super Heróis (ou Super Vilôes, conforme o ponto de vista) que hoje em dia é capaz de tudo. São muitos. Copio, do verbete da Wikipedia:
 
Em 2018, existem 2.200 bilionários (em dólar) no mundo inteiro, com uma soma de riquezas de mais de 9 trilhões, mais do que os 7 trilhões que possuíam em 2017. De acordo com um relatório de 2017 da Oxfam, os oito bilionários mais ricos possuem uma soma equivalente à das posses da metade mais pobre da humanidade.
 
E em 2019 surgiram 19 novos bilionários no mundo!




(Cory Doctorow)

O escritor Cory Doctorow publicou um texto recente em que ele questiona o modo como as democracias contemporâneas permitem essa concentração de riquezas. Ele faz uma comparação com as monarquias absolutistas, onde todo o dinheiro arrecadado ia para a família do rei, e o rei, por ser representante de Deus na Terra, podia fazer o que lhe desse na telha. Um dia, era deposto por um inimigo – que passava a ocupar seu posto e a fazer mais ou menos o que ele fazia antes.
 
Diz Doctorow:
 
Como disse o senador John Sherman ao Congresso, quando se esforçava para fazer aprovar sua histórica lei anti-truste em 1890: “Se não aceitamos um Rei como um poder político, não devemos aceitar um Rei como possuidor da produção, transporte e comercialização dos bens necessários à vida. (...) Se não nos submetemos à vontade de um imperador, não devemos nos submeter à vontade de um autocrata do comércio.”
 
A verdade é que esses indivíduos (como Bill Gates, Jeff Bezos, Elon Musk e outros) têm hoje um poder que deixa no chinelo monarcas como Luís XIV ou o Rei Leopoldo da Bélgica (aquele que foi dono do Congo e tornou-se um dos homens mais ricos da história). E esse poder não é apenas o do dinheiro. É também o do comando financeiro de tecnologias que podem ter na vida humana um impacto inimaginável no século 19.
 
A república continua a ser um sonho, uma miragem distante, mesmo na Europa e na América. Uma ficção coletiva que nos leva a votar de ano em ano. Vivemos sob monarquias. Se não as do sangue e das casas reais, a do dinheiro, do neo-liberalismo econômico, e da mitologia midiática. Assim como os reis de antigamente diziam ser os representantes de Deus na Terra (e sendo assim tudo que faziam estava certo) os bilionários de hoje são os nossos representantes. “Todo poder emana do povo, e em seu nome será exercido” – pelos bilionários, e em seu proveito próprio.


(Werner Herzog)

Numa entrevista recente ao The New Yorker, o cineasta Werner Herzog ironizou essa nossa fascinação pelos bilionários.
 
https://www.newyorker.com/culture/the-new-yorker-interview/werner-herzog-has-never-liked-introspection
 
[A corrida espacial dos bilionários] é uma competição movida a testosterona. Um indivíduo que se destaca nela é Elon Musk, porque constrói foguetes re-utilizáveis, o que é uma coisa bacana e muito nobre, mas ao mesmo tempo a sua idéia de levar um milhão de pessoas para colonizar Marte é uma obscenidade. Devíamos cuidar do nosso planeta, em vez de tentar tornar viável um planeta inóspito. Não é preciso ser cientista para perceber que colônias em Marte são um projeto sem futuro. Quanto a essa disputa dele com Bezos e outros bilionários, acho que é uma estratégia de marketing. Dá a ele o rótulo de – e estou dizendo isto entre aspas, ponha uma porção de aspas antes e depois – “visionário”. Ou seja: se você for comprar um carro elétrico, não compre dos alemães, não compre dos chineses, compre do “visionário”.
 (trad. BT)
 
Eu nem sou tão velho assim, mas me lembro de um tempo em que quando se queria dizer que um sujeito era rico dizia-se que ele morava “numa mansão” e “andava de Cadilaque”. O nível de enriquecimento a que se chegou nas últimas quatro décadas é algo que supera qualquer proeza imaginativa anterior. E o mais curioso é que se você fizer uma pesquisa no Brasil vai ver que a maioria das pessoas admira Jeff Bezos, Bill Gates, Elon Musk, etc. Por que? Ora, porque todo brasileiro acha que tem chances de virar bilionário um dia. Então, ele já vai falando bem do clube a partir de agora.
 
Por que motivo nos identificamos com os Imperadores do Dinheiro, numa república, numa democracia? Talvez porque a economia ainda esteja sujeita ao que Cory Doctorow citou acima: é um espaço onde ainda se podem realizar os sonhos de absolutismo, de poder total, um poder que não precise ser repassado de 4 em 4 anos para um oportunista qualquer, um antagonista qualquer.
 
Mesmo que Elon Musk seja filho de um dono de minas de esmeralda, os norte-americanos médios (e até os brasileiros médios) conseguem ver nele um “homem que fez a si próprio”, um meritocrata, que ficou bilionário por uma mistura de talento, esforço, e fé. Quem acha que tem essas três coisas, acha que pode juntar uma fortuna semelhante.
 
As antigas tragédias clássicas (desde as gregas até as elisabetanas) se concentravam nos reis porque eles eram o símbolo do povo. Rei triunfante, povo vencedor. Rei alquebrado, povo enfraquecido.
 
Nossos “reis do dinheiro” cumprem um papel parecido, com um detalhe diferente. Eles não foram empossados no trono por desígnio divino. Eles se elevaram da multidão informe e sem rosto, e se tornaram super-homens, dotados de um super-poder. É o mesmo sonho dos garotos pobres que graças à música popular ou ao esporte se tornam milionários – só que um sonho elevado a uma potência maior.
 
É o garoto que nasce nos Alagados, Trenchtown, Favela da Maré. Ele tem todo o direito de sonhar em ser um Neymar ou um Michael Jackson. Tornar-se bilionário como Musk ou Bezos é “outro patamar”, mas o direito ao sonho é o mesmo. Eles são vistos como visionários (como disse Herzog), e é esse o seu carisma: transformam cada um de nós num visionário, num cara que “acredita”. 




quarta-feira, 22 de novembro de 2017

4289) O que não fazer num livro para jovens (22.11.2017)



Assim como tem gente que muda o tom de voz quando vai falar com alguém mais novo (coisa que os “alguéns mais novos” em geral detestam, porque veem como sinal de falsidade), muitos escritores mudam o tom da escrita quando trabalham num livro dirigido a crianças, ou a esse leitor que modernamente vem sendo classificado como “jovem adulto” (“young adult”, na língua da matriz).

Esse tom paternalista na escrita pode se manifestar de várias maneiras, em duas direções básicas.

Na primeira, o autor sobe num pedestal e fala de cima para baixo com o leitor, como se quisesse reafirmar sua autoridade e sua hierarquia de mais velho: “Olha aqui, presta atenção, vou te explicar tudo...”

Na segunda, o autor resolve falar de igual para igual com o hipotético leitor-jovem, imitando o que ele considera serem os trejeitos verbais e mentais do seu público – mas o máximo que consegue é parecer um sujeito de 50 anos trajando bermudão e boné virado pra trás.

Vai daí, resolvi enumerar alguns exemplos.

O PATERNALISMO CONSTRANGEDOR
Se o seu leitor é jovem, não importa de que idade (suponho sempre um leitor já capaz de sentar sozinho com um texto e decifrá-lo em silêncio, sem ajuda) evite tratá-lo como se ele fosse meio burrinho. Não escreva algo como: “Naquela noite, os nossos heróis tiveram que dormir ao ar livre, embaixo da intempérie. Palavrinha difícil essa, não? Intempérie quer dizer tempo ruim, chuvoso.”

Esses comentários didáticos, piscando o olho para o público, têm a intenção de aumentar a cumplicidade e a proximidade entre o Autor e o Leitor, mas pra mim têm o efeito contrário. Acabam fazendo o Leitor achar que está sendo considerado burrinho, que não sabe o significado de uma palavra, e que o Autor é forçado a interromper a narrativa para passar a mão na cabecinha dele diante de toda a turma, como fazem alguns professores, e dizer: “Ora, ora, garotos, não riam do Fulaninho. Ele não sabia a palavra, mas agora entendeu, e não vai mais esquecer, não é, Fulaninho?”

Agora me diga qual é o leitor que gosta disso.

DESCRIÇÃO DE EMOÇÕES
Como o Autor adulto imagina que os jovens não percebem sutilezas emocionais, ele acha que a emoção deve ser descrita de forma caricatural. E a toda hora fica usando expressões como “com os olhos fuzilando de ódio”, “espumando de raiva”, “com o rosto contorcido de fúria”.

A descrição de emoções  passa por vários estágios. O primeiro estágio é o da descrição abstrata: “Ao ouvir isso, João ficou furioso”. É uma mera informação, sem nenhum indício concreto. Depois o escritor aprende que é melhor dar alguma pista; risca a frase anterior e escreve: “Ao ouvir isto, João teve um sobressalto, ficou com o rosto vermelho, ofegante, soltou um palavrão e deu um chute na cadeira mais próxima.”  Esta é uma maneira concreta (mesmo que rudimentar) de dizer que o cara “ficou furioso” sem recorrer ao adjetivo.

O problema é que todas essas descrições de segundo nível acabam se transformando em clichê. Há até mesmo autores que brincam o tempo todo com os próprios clichês, como Nelson Rodrigues, que vivia repetindo: “com o olho rútilo e o lábio trêmulo”.

Como, então, descrever as emoções dos personagens sem recorrer aos meros adjetivos, e aos clichês descritivos?  Não sei. Escrever é descobrir essas coisas.


DIÁLOGOS CARICATURAIS
Brigas em que as pessoas se insultam enquanto trocam socos! Isso é um defeito mais frequente dos quadrinhos do que nos livros, mas está presente nos dois.

Das brigas que já presenciei ao vivo, me ficou uma lembrança sonora de grunhidos, arquejos, um certo rugido de fundo de garganta, um ou outro palavrão truncado, mas diálogo mesmo teve muito pouco.

Quando você está engalfinhado com alguém, numa briga pra valer, não fica dizendo (como nos quadrinhos), “você agora vai ver uma coisa, seu verme maldito”, “não pense que tenho medo de você, grandão” ou o clássico “tome isto, isto e mais isto!”. E por incrível que pareça eu vejo brigas narradas assim até em livros para adultos.

Sou especialista em brigas? Nem de longe, nunca briguei com ninguém. Mas já vi muita briga a poucos metros de distância, e estou falando em briga séria, entre adultos doidos para arrebentar um ao outro de verdade, e tenho boa memória. Só quem briga pronunciando frases de efeito é o Batman.


LINGUAGEM AFETIVA ABESTADA
Usar diminutivos o tempo inteiro. Não sei se é preconceito, mas eu vejo muito isso em livros infantis com personagens femininas. A garota não tem um cachorro, tem um cachorrinho; ela não está lendo um livro, está lendo um livrinho; ao se recolher ela não vai dormir em sua cama, mas em sua caminha. Esse cacoete de linguagem afetiva fica irritante bem depressa.

E não é porque eu sou homem e velho; quem eu vejo se queixando disso são garotas que leem.


DECISÕES MORAIS
Os adultos pensam que vivem num mundo psicologicamente complexo e profundo, e que os jovens vivem num mundo psicologicamente simples e raso. Eu diria que frequentemente é o contrário. Adultos vivem num mundo onde, bem ou mal, já aprenderam a se comportar; os jovens estão aprendendo às custas de tentativas e erros, e aprendendo em público, à vista de todo mundo.

Cory Doctorow (revista Locus, julho de 2008) afirma:

Escrever para leitores jovens é algo entusiasmante. Um autor de livros para “jovens adultos” me disse: “A adolescência é uma série de decisões corajosas e irreversíveis.”

Num dia, você é alguém que nunca disse uma mentira com consequências graves; no dia seguinte, você acabou de fazê-lo, e nunca mais vai poder voltar atrás. Num dia, você é alguém que nunca teve uma atitude nobre para ajudar um amigo; no dia seguinte você o fez, e isso também não pode ser desfeito.

É de estranhar que os jovens experimentem suas amizades de maneira tão intensa quanto companheiros de campo de batalha? É de estranhar que as partes do nosso cérebro que governam a avaliação do perigo não estejam plenamente desenvolvidas até a idade adulta? Quem correria riscos tão corajosamente, quem enfrentaria tais dilemas existenciais, se tivesse um sistema de avaliação de riscos maduro, e em pleno funcionamento?

Os jovens vivem num mundo que se caracteriza por uma dramaticidade intensa. Isso é o sonho de um autor criador de enredos. Quando você percebe que seus personagens vivem nesse estado de consequências cruciais, cada virada do enredo adquire um impulso e uma importância que fazem o leitor não parar de virar as páginas.

Escreveremos melhor, para os jovens, se compreendermos que eles vivem a fase mais cheia de riscos da vida inteira, quando tudo que tem importância crucial está acontecendo pela primeira vez. E talvez o que aconteça nessa vez determine tudo o que virá depois.








sexta-feira, 13 de julho de 2012

2922) Não dá pra ler tudo (13.7.2012)








O aumento exponencial de textos eletrônicos disponíveis e gratuitos causa uma euforia sem limites e um pessimismo sem volta. Centenas de milhares de livros, milhares de filmes, milhões de músicas!  Tudo ao alcance de um clique, de graça!  O único senão é o fato de que o dia continua tendo apenas 24 horas.  Nosso tempo de leitura é o mesmo de que dispunham os leitores do século 18, ou mesmo os leitores da Grécia Antiga (e mesmo eles certamente se queixavam de que “não dava pra ler tudo”).  Esse “não dá pra ler” é relativo, e não faz muita diferença. Digamos que eu conseguisse ler um livro por dia; seriam 30 livros por mês.  Se meu limite é esse, não faz muita diferença se estou deixando de ler 100 livros ou um milhão.  Leio trinta, e acabou-se.

A questão é: Que trinta?  Porque era mais fácil escolher trinta entre 100 do que trinta entre um milhão. Não teríamos desculpa para estar lendo algo a contragosto, porque teríamos acesso, se não a tudo, pelo menos a uma quantidade inesgotável de obras que de fato queremos ler.  Tem muitos leitores de bibliotecazinhas humildes do interior, mundo afora, que ficam relendo seus autores preferidos, ou avançando aos bocejos por entre obras que não lhes interessam, apenas porque não aparecem livros novos.

E como ter acesso a informações novas, a autores que ainda não conhecemos? Cory Doctorow (do saite BoingBoing) diz: “Twitter e blogs são a única maneira de administrar a enorme quantidade de material disponível. Sem isto, ninguém sairia de sua órbita de contatos sociais, ninguém trocaria idéias com os milhões de pessoas que conhecem outros milhões, os polinizadores que pegam uma informaçãozinha aqui e levam para acolá. Sem eles, a conversa morreria. Essas pessoas garantem que o que é realmente bom acabará chegando ao topo da pilha e ficando acessível”.

O dia continua tendo apenas 24 horas, mas por isso mesmo é preciso preenchê-las bem. O leitor não deve imaginar que os milhões de livros possíveis de ler já lhe pertencem, ou estão de alguma maneira a cobrar-lhe um posicionamento. O leitor deve se perguntar: Entre trabalho e outras atividades, hoje em terei meia hora para ler.  Ou duas horas, ou cinco, etc.  Vou preencher esse tempo com que?  Você não precisa ter um iPod com mil romances, basta ter um livro por perto, um livro que lhe interesse. (Tanto pode ser digital quanto de papel.) Se você pensar nos mil livros extraordinários que gostaria de ler, não vai sair do canto. Basta ter sempre coisas boas por perto, e todo dia pensar: vou ler o que?  O fato de haver 100 vezes mais títulos disponíveis não me obriga a ler 100 vezes mais, apenas me ajuda a escolher melhor.