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segunda-feira, 9 de setembro de 2019

4502) Bacurau, o dia da caça (9.9.2019)




Bacurau (2019), de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é um filme que contrasta empatia e crueldade, uma das questões cruciais da civilização de hoje.

Apesar de violento, não é um filme sobre a violência, assim como não é um filme sobre telecomunicações, que têm um papel importantíssimo no seu roteiro. Também não é um filme sobre política partidária e a administração pública – embora faça delas um retrato caricato e burlesco em seu terço mediano, e revele a sua face sádica no desfecho.

Em termos de ficção científica, eu minimizo a importância das engenhocas tipo GPS, drone, transmissor de ouvido, etc. Prefiro filiar este roteiro à linha que é comumente associada ao conto “Vintage Season” (1946), de Catherine L. Moore e Henry Kuttner, sob o pseudônimo de “Lawrence O’Donnell”. E às suas incontáveis variantes nas décadas seguintes.

Pode não ter sido a primeira, mas é uma das melhores histórias sobre turistas do Futuro que viajam pelo tempo para presenciar as estações mais belas do Passado. Moore e Kuttner destacam a alta tecnologia dos viajantes, sua beleza física, sua sofisticação, o secretismo de suas atitudes e o desprezo que sentem pelos “locais”.



Bacurau pega esta premissa e a transporta para outro contexto, o dos caçadores profissionais (no caso, uma competição onde cada caça abatida conta pontos numa disputa). Eles levam consigo seus armamentos, alguns altamente sofisticados (o que os deixa parecidos com Viajantes no Tempo), outros “vintage”, objetos de memória afetiva pessoal. Cria-se a disputa entre dois mundos, o mundo pós-drone e o mundo pré-água-encanada.

É um pouco como um safari caçando elefantes ou leões no Serengeti ou no Kilimanjaro. Ou, quem sabe, em algum vilarejo remoto da China ou da Índia, um lugar perdido, fora do mapa, habitado por gente toda igual, sem nome, sem rosto, sem história pessoal, descrita no tom monocórdio de quem faz relatórios: “Foram abatidas duas presas, sendo um macho, uma fêmea...”.


O que esses “visitantes do Futuro” não sabem é que o futuro exportado por eles próprios já chegou ali, sob a forma de celulares, tablets com GPS, escopetas, e a mesma determinação em liquidar sem muita conversa. Naquele mundo, entretanto, a empatia é como a água potável: um bem cuidadosamente armazenado e fruído.

O vilarejo de Bacurau é anunciado por uma placa de estrada dizendo “Bacurau – se for, vá na paz”, o que ecoa a advertência de Riobaldo Tatarana no Grande Sertão: Veredas: “O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal...”.

Guimarães Rosa não está ausente desta história de violência, e a canção de Geraldo Vandré, “Réquiem para Matraga”, nos remete a Augusto Matraga, o desordeiro que vira cristão e abandona os tiroteios, mas volta a pegar em armas para defender dos jagunços o vilarejozinho de Rala-Coco, não muito maior que Bacurau.



A violência é boa? A violência é ruim? A violência é uma parte da Natureza física. É uma parte da natureza mental humana, quer a gente queira, quer não. Bacurau descreve essa sucessão de violências, mas elas são efeito colateral do verdadeiro tema, que é a crueldade, e neste aspecto a gente não deve olhar para o que os personagens empunham, e sim para os seus olhos.

Pode até haver no mundo um ator cujos olhos exprimam mais crueldade fria do que os de Udo Kier, mas esse ator hipotético não foi escalado para o filme. Quem está lá é este veterano aterrorizador-de-gente, com seus olhos de naja, de consideração-zero para com as vidas humanas à sua volta.


Ou então o ator Thomas Aquino, "Acácio", mais conhecido como “Pacote, o Rei do Teco”, pistoleiro que executa com limpeza e sem pressa e é uma espécie de Billy the Kid local, com os olhos intensos de quem já viu mais coisas do que suporta contar.


Ou então o outro líder local, Lunga, uma criatura feral, que apropriadamente vive emboscado no mato e quando é convocado emerge no vilarejo como (ele também) um visitante do Futuro, um mad-max pós-apocalíptico com olhos que já cortaram o cordão umbilical com qualquer zona-do-conforto histórica.



São os três grandes personagens trágicos do filme, os três que vivem plenamente no futuro onde há execuções públicas no Vale do Anhangabaú, uma suposição que dez anos atrás nos pareceria absurda, mas que hoje parece estar a meros dez anos no futuro. 

Os demais personagens são gente comum, tanto os rambos-de-fim-de-semana que vêm caçar no Brasil quanto os habitantes da cidade. A violência de uns tem um viés sádico – o casal que trepa no mato, à noite, logo após executar com uma-rajada-de-balas outro casal que fugia.  A de outros tem um distanciamento prosaico, como o casal de negros idosos, que abatem os atacantes com escopeta, mas usam pistolinha de plástico para borrifar água nas plantas enquanto conversam com elas.

A ausência de empatia, de vínculo, é o grande crime cultural assumido por esses caçadores do futuro, com armamento liberado e proteção das autoridades do Município, para o qual estão decerto “gerando divisas”, porque, num presente como o de agora, está na cara que o futuro não nos reserva apenas o turismo sexual.

A situação mais patética é a dos “guias locais”, esses personagens ambíguos de todo filme de aventuras em ambiente alienígena – o africano que fala inglês, o aborígene que ouve rock, o rastreador marroquino que no fim da caçada ganha do japonês um rifle de lembrança. Divididos entre dois mundos, acabam sendo destruídos por um deles – geralmente pelo que tentavam acessar, e que os repele pelo que são.

Bacurau tem um ritmo arrastado que condiz com o ambiente onde aquilo acontece, e é mais um desses filmes nordestinos onde tanto protagonismo é dado às estradas, seja o asfalto esburacado e carcomido, seja a terra-batida trepidante de pedregulhos. As intermináveis estradas que nos conduzem a Mossoró, a Sousa, a Salgueiro, a Serra Talhada, a Catolé do Rocha, a Parnaíba, a Monteiro, a Taperoá, a São José do Egito.

Alguém deveria cortar e emendar todas essas deslocações intermináveis em Cinema, Aspirina e Urubus, em Árido Movie, em Azougue Nazaré, em Baixio das Bestas, em dezenas de outros filmes onde os personagens, como num video-game de free-roaming, não se teleportam magicamente de um lugar para o outro, mas têm que vencer fisicamente aquelas distâncias.

Optando por uma narrativa descentralizada, sem se focar num personagem ou par de personagens específicos, o filme mostra apenas pedaços da vida desses desconhecidos que surgem, abatem ou são abatidos, e desaparecem para sempre. O caráter fragmentado da história é reforçado nas cenas finais, quando o último caçador é conduzido para a cripta subterrânea (que evoca um dos episódios mais arrepiantes do futurista A Estrada de Cormac McCarthy) e grita: “Isto é apenas o começo!”.








quarta-feira, 23 de maio de 2012

2876) A violência no México (22.5.2012)




O tráfico de drogas e a escalada do combate militar aos traficantes está produzindo uma tal situação no México que dias atrás, no “Jornal Nacional”, a apresentadora Patrícia Poeta afirmou tratar-se de “uma guerra violentississsíssima” (sic). (O que me lembra o famoso verso de Drummond, dirigindo-se ao Deus da Comunicação: “Eis-me prostrado a vossos peses, / que sendo tantos todo plural é pouco”).  Toda ênfase é pouca para qualificar a hecatombe mexicana, uma inebriação pela violência que parece corresponder a um software embutido no DNA daquele bravo povo, capaz de fazer do Dia dos Mortos um carnaval.

Dois livros recentes têm como ambientação essa guerra insensata dos “narcos” como são chamados lá os traficantes.  Uma é Onde os Fracos Não Têm Vez de Cormac MacCarthy (filmado pelos irmãos Coen), que começa com um ligeiro desentendimento entre bandidos durante uma transação de drogas no meio do deserto, que resulta na morte de todos os envolvidos.  Uma maleta com 2 milhões de dólares vai parar na mão de um veterano da Guerra do Golfo, e daí em diante ocorre um banho de sangue, promovido por criminosos que querem tomar-lhe o diabo da maleta. É uma dessas histórias sobre um objeto maldito do qual todo mundo quer se apossar, e que causa a morte e a desgraça de todo mundo.

Outro livro é 2666 de Roberto Bolaño, que não é bem sobre drogas, mas relata dezenas de mortes violentas e misteriosas ocorridas no distrito de Santa Teresa.  O México parece estar passando por uma situação de pré-caos social, mais ou menos como ocorreu com a Colômbia alguns anos atrás. (Não que a Colômbia seja agora um paraíso, mas ao que parece a crise baixou um pouco a fervura.)  Bolaño era chileno, morou muitos anos no México; este seu último romance exprime um pouco desse inferno social, em que todo mundo está à mercê de uma brutalidade inexplicável, de um momento para outro.  E que vigora também em algumas áreas do Brasil.

Numa resenha ao livro de Bolaño, “Slouching towards Santa Teresa”, Adam Kirsch cita o poema “A Segunda Vinda” de Yeats (“que bruta fera, agora que soou sua hora, rasteja rumo a Belém para por fim nascer?”) e comenta que Bolaño parece ver nessa violência insensata e gratuita que assola o México (e o mundo) o sinal de um realinhamento cósmico.  Ele lembra a frase casual de uma personagem do livro: “Ninguém dá atenção a esses crimes, mas o segredo do mundo está oculto neles”. Provavelmente está, e, como acontece com todos os segredos, não os enxergamos por serem grandes demais, evidentes demais.  Caminhamos sobre eles como se pisássemos um mapa gigante com palavras que não conseguimos enxergar por completo.

domingo, 22 de abril de 2012

2851) Os fracos não têm vez (22.4.2012)


O romance de Cormac MacCarthy e o filme dos irmãos Coen têm o mesmo título, No Country for Old Men, que foi traduzido aqui como Onde os Fracos Não Têm Vez. É uma citação ao poema “Sailing to Byzantium”, de William Butler Yeats.  O poema do irlandês conta a ânsia de viagem de um homem maduro para longe do país em que vive, um país voltado para os jovens e os deleites da vida. O homem quer ir para Bizâncio e entregar-se a atividades de natureza mais espiritual.  No filme e no livro os indivíduos mais velhos estão diante de atos de violência de uma proporção que lhes parece espantosa, e se queixam (principalmente nas sequências em que aparece o xerife Bell, interpretado por Tommy Lee Jones) de que “os jovens hoje fazem o que bem entendem, e o mundo está perdido”.

Na verdade a culpa nem é dos jovens, a menos que vejamos neles um mercado significativo para as drogas que desencadeiam a verdadeira matança que ocorre ao longo da narrativa. O enredo é uma variante do argumento “Sujeito Descolado Põe as Mãos Sem Querer Numa Fortuna Que Pertence a Gente Braba”.  Daí em diante, a narrativa vai se transformar num jogo de gato e rato onde os gatos são muitos e o rato é um só.  Llewellyn Moss (Josh Brolin) é um ex-veterano do Vietnam cheio de pequenos truques e que sabe usar uma arma, mas além da polícia e dos traficantes ele está sendo caçado por Anton Chigurh (Javier Bardem), um dos vilões mais imprevisíveis e filosóficos que a literatura e o cinema nos deram nos últimos tempos. Chigurh mata por crueldade, mas mata também por algum tipo de missão cósmica que não entendemos bem, mas que parece guiar suas decisões muitas vezes surpreendentes.

Há um diálogo emblemático no filme, quando um xerife idoso diz: “Alguém iria imaginar que um dia, nas ruas do Texas, passariam rapazes com cabelo verde e um osso enfiado no nariz?  E alguém iria imaginar que seriam nossos filhos?”. Os tempos estão mudando. O livro de MacCarthy é uma reflexão sobre a enorme importância da droga dentro de nossa sociedade.  A droga que leva homens a se fuzilarem uns aos outros, a sangue frio, numa chacina progressiva que dura semanas e atravessa várias cidades.  Alguém dirá que estão se matando por dinheiro; mas a droga é um dos meios mais baratos para produzir dinheiro fácil.  É um dos negócios mais lucrativos, em termos do quanto se investe.  A droga significa Prazer para uns e Dinheiro para outros.  Enquanto o Prazer e o Dinheiro forem o objetivo de tudo que fazemos, a sociedade não se livrará da droga. E daqui a algumas décadas em nenhum país existirão pessoas velhas. Todo mundo morrerá cedo – por causa da droga, do prazer e do dinheiro.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

2523) “A Estrada” (6.4.2011)



Terminei de ler The Road (2006), já traduzido e publicado no Brasil pela Alfaguara. Mais conhecido do que o livro talvez seja o filme, dirigido em 2009 por John Hillcoat, com Viggo Mortensen. Não vi o filme; o livro, que terminei de ler ontem, é daqueles que me deram vontade de, chegando à última página, voltar à primeira. Não porque quis esclarecer dúvidas ou quis reinterpretar o começo da história à luz do que foi esclarecido no final, mas pelo impulso instintivo de fazer com que aquela história continuasse acontecendo. Não sinto isto com qualquer livro, e é curioso que o tenha sentido com este que já foi considerado “o livro mais depressivo de todos os tempos”.

Houve um cataclismo qualquer que destruiu a civilização, e na Terra devastada um homem foge com seu filho de 7 ou 8 anos. As florestas foram arrasadas pelo fogo, não existem mais pássaros nem animais, os rios e o mar estão contaminados e não têm mais peixes. A vida nesse mundo permanentemente nublado e chuvoso consiste em procurar comida e armazenar água. Não existem mais cidades, nem eletricidade, água potável, comunicações, vida organizada. Os sobreviventes se organizam em milícias armadas que praticam o canibalismo e percorrem os continentes, saqueando tudo que encontram.

É um cenário pós-apocalíptico parecido com o de vários romances de Stephen King, mas Cormac McCarthy tem todas as qualidades de King sem nenhum dos seus defeitos. O livro acompanha, com uma secura verbal impressionante, a jornada de pai e filho rumo ao litoral (‘não sobreviveremos a outro inverno se ficarmos aqui”, diz o pai), empurrando estrada afora um carrinho de supermercado onde amontoam tudo que pode ser útil: lençóis, roupas, latas de comida em conserva, garrafas de água, todo o combustível que conseguem encontrar. Não conseguem achar sapatos: seus pés estão envoltos em panos e plástico, e amarrados com fios. Ao ouvir qualquer barulho empurram o carrinho para o mato e se escondem. Há cenas violentas e chocantes, mas estas, num livro de 280 páginas, não totalizam nem cinco.

O que nos prende no livro são os personagens. McCarthy raramente nos diz o que eles estão pensando ou sentindo. O livro é quase todo narrado “de fora”, apenas mostrando o que eles dizem ou fazem. Os personagens ganham, assim, o que chamo de “interioridade pressentida”, um conjunto complexo de qualidades mentais e emocionais que somos forçados a deduzir para justificar suas palavras ou ações. Pai e filho repetem pequenos rituais de sobrevivência e de reafirmação, frases que lhes servem como “bordão” para manter a sanidade mental e a convicção de que, por algum motivo, eles são “as pessoas boas” e são eles que estão “conduzindo a chama”. Um livro depressivo? Jamais. Um livro que, explorando uma situação limite, usa com plenitude recursos literários tão frugais quanto os que vão garantindo, dia a dia, a sobrevivência dos seus personagens.