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sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

5021) Algumas leituras de 2023 - 3 (12.1.2024)

 

(Algumas leituras do ano passado, alguns dos livros que achei marcantes por variados motivos; sem nenhuma ordem especial. Como sempre, incluo apenas livros que li do começo ao fim. Se eu fosse incluir todos os livros bons que comecei mas não li por completo, não ia ter espaço que coubesse.)
 


 
O corpo encantado das ruas (Civilização Brasileira, 2023), de Luiz Antonio Simas
O Rio de Janeiro que me atrai, e que mais me ensina, não é o do Pão de Açúcar, é o da Pedra do Sal. O Rio se divide entre a Rua e o Resto. O que mantém coesa esta cidade partida é sua cultura das ruas, o caldeirão fumegante de heranças e memórias, o canjirão farto e compartilhado, de coração aberto, com quem compartilha de coração aberto. Esta coletânea de crônicas é um pequeno clássico contemporâneo, já em 12ª. edição; Simas é um dos que mexem nesse caldeirão, e sei que posso chamá-lo de “professor de rua”, no sentido em que existem “músicos de rua”. Trabalhando sem pausa na zona crepuscular entre a memória oral-familiar-grupal e o ensino formalizado pelas escolas e pelas editoras, Simas é um dos muitos operários da missão de explicar “uma cidade fundada para expulsar franceses que um dia resolveu ser francesa para esconder que é profundamente africana”. 
 
 


“Un episodio en la vida del pintor viajero” (2000), de Cesar Aira
Aqui no Rio de Janeiro há um fã-clube informal deste escritor argentino, mas todas as vezes que me aproximei em busca de informações fui gentilmente escorraçado sob o pretexto de ser um leigo total. Fico feliz em afirmar que tal obstáculo foi removido. Este livro curtinho e intenso relata (glosa, amplifica, interpreta) um evento trágico na vida do pintor Rugendas, muito conhecido aqui dos brasileiros, mas que também viajou pintando por toda a América Latina. Cruzando o pampa argentino, Rugendas sofreu um acidente com seu cavalo e ficou com o rosto totalmente despedaçado, sendo forçado a usar máscara e a tomar doses enormes de morfina e outros remédios. César Aira conta essa história como uma espécie de delírio psicodélico desse alemão que entrou para a História do Brasil. 
 



Lunário Encourado (Itatiaia, Ed. do Autor, 2022), de Adiel Luna
Adiel é violeiro, embolador de coco, enredador de rimas, mestre-pastor de palco embandeirado, e tudo o mais que se imaginar; inclusive autor deste livro que Pedro Américo, na contracapa, descreve como “uma narrativa com 20 cantos ou movimentos”. Numa série de poemas com formatações variadas, mas sempre dentro da prosódia sertaneja, ele constrói passo a passo a vida de um vaqueiro, usando com abundância a terminologia local. Tal como Elomar Figueira de Melo, tem a precaução de acompanhar tudo com um glossário em doses medidas, página a página. Mais que um longo poema, é uma longa suíte de canções de apartação, de vaquejada, de cavalo rompe-mato, de namoro e dança. Como diz o narrador a certa altura (p.79): “Meu branco, regule! Tem cousa que munta gente diz: não consta no mundo. Já ôto chega e dí: -- Consta no mundo!”. 



Nací (Je suis né) (2022), de Georges Perec
Todo ano faço minha romaria à obra de Perec e leio um livro que não conhecia ainda. Li este ano Nasci, na tradução espanhola (Anagrama, Barcelona). É livro póstumo (Perec morreu em 1982), reunindo material inédito e disperso. Alguns textos são textos preparatórios para sua memória W ou a Memória da Infância (1975). Há transcrição de uma carta dele a Maurice Nadeau (um dos historiadores do Surrealismo), na qual ele enumera os projetos em que trabalha na época (1969); uma entrevista a Frank Venaille, e outros artigos curtos sobre literatura e memórias. “Los lugares de uma fuga” narra na terceira pessoa um episódio em que um garoto (ele) foge de casa, mas só se lembra disso depois de adulto; é calmo e arrepiante. “El salto en paracaídas” é um longo monólogo de improviso (gravado ao vivo, numa reunião, em 1959) em que ele compara o lançamento de uma revista a um salto de paraquedas. 
 
 
 
A arte do nevoeiro indelével (Campina Grande, Papel da Palavra, 2023), de Maxwell F. D.
Tenho observado cada vez mais a convivência pacífica, principalmente nos livros dos novos poetas, entre o verso livre/branco e o verso metrificado/rimado. Desde que me entendo de gente vejo um dos dois convidando para a missa de 7º. dia do outro, e por sorte continuam vivos e bulindo. Como vivem e bolem neste livro de estréia de Maxwell F.D., onde as formas fixas convivem em paz com o verso solto, algumas brincadeiras gráficas e trocadilhísticas, mas sempre denotando algo essencial e que nem sempre está presente em quem publica livros: o gosto pela palavra, a curiosidade pela palavra, o sabor de manejar a palavra e indagar tudo que ela pode dizer: “a luz que tinha era pouca / bruxuleava a chama / donde a fumaça emana / onde há fumaça há fogo / então vou lá descobrir / cavar, olhar, confundir / ao deixar tudo desnudo / eu sem querer clareei / as incertezas do mundo”
 


 
Chêne et Chien (1937), de Raymond Queneau
Outra romaria anual me leva todo ano à obra de Raymond Queneau (1903-1976), o intelecto mais bem-humorado da literatura francesa, que tende a ser tão constipada. O título “Chêne et Chien” alude às palavras de que se origina seu nome de família: “carvalho” e “cachorro”.  O livro é descrito pelo autor como um “romance em versos”, e é uma espécie de autobiografia psicológica numa série de poemas de formatos variados: livres, metrificados, com e sem rima. Queneau reconta sua vida com auto-ironia, e há uma sequência de poemas em que ele se reporta aos seus anos de psicanálise, de forma impagável: “E vejam que esse sacripanta / quer me fazer pagar por estas sessões. (...) Eu, o doente, insisto / em julgar esse psicanalista: / é um sedento, um rapinante, / um pobretão ávido de lucro / uma ratazana cheia de audácia / um salteador de estradas!”. 
 



O irreal e a suspensão da credulidade (Arribaçã, 2023), de W. J. Solha
W. J. Solha é um poeta privilegiado, um sibarita das letras, pois (ele mesmo o confessa) sua enorme e excelente produção literária é bancada integralmente por um circunspecto funcionário público, o bancário Waldemar José Solha, a quem o Banco do Brasil muitos serviços deve. Sua série de poemas-livro, caudalosos, whitmanianos, faz uma espécie de recenseamento das correspondências, relações, filiações, ecos e diálogos entre a pintura, a religião, a poesia, a história... Tenho comentado todos eles em meu blog, e este aqui é mais uma catadupa de imagens, de descobertas, de premonições: “E a humanidade – sempre antevendo o apocalipse – se sente, agora, a um lapso de ser eliminada pela Inteligência Artificial, / como o Homo Sapiens fez com o / Neandertal. / É a Terra se encaminhando / a seu objetivo / final”. 
Leia mais aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/10/4990-o-real-irreal-de-w-j-solha-9102023.html
 
 
 
Os gatos quando os dias passam (Ed. 34) – Thiago E
Livro de poemas com tema único é sempre um desafio arriscado. Sinto um livro de poemas como algo que vai aos poucos se ramificando em várias direções, ao invés de convergir para uma só. E atesto que Thiago Eh saiu-se com láureas dessa tarefa de encontrar novos dizeres e novas maneiras, em cada um desses poemas dedicados à raça alienígena que devagarinho está nos amansando. Como ele diz: “sem ser notado, um gato te acompanha / desde o parto – escondido pelo sangue / entre ombros e quadris em crescimento / fortaleceu alguns grupos de músculos /das pernas, do abdômen e dos braços / a fim de pôr teu corpo em quatro apoios / no chão, e assim brincar equilibrista / a criança descalça, hoje esquecida / que um felino lhe deu coordenação / quando bebê, enquanto nem podia / sequer supor o mais vago sentido / desta infantil palavra: engatinhar.” 
 


 
The Housekeeper and the Professor (2003), de Yoko Ogawa
Está sendo publicada aos poucos no Brasil a obra desta escritora japonesa. Ogawa tem uma forma oblíqua e interessante de contar suas histórias. Em muitos casos, elas abordam a relação entre uma mulher mais jovem e um homem mais velho, cada vez com diferentes dosagens de adoração, sadomasoquismo, vassalagem. Neste caso, uma governanta precisa cuidar de um cientista que sofreu um acidente e só lembra o que lhe aconteceu na última hora e meia. A dependência mútua entre eles cria uma afetividade gradual e distante, numa dinâmica relatada com voz impassível, e bruscas surpresas de vez em quando. 
Leia mais aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/10/4991-empregada-e-o-professor-12102023.html
 



Fábulas cabulosas e outras histórias subversivas (Rocco, 2022), de Henrique Rodrigues
O título dá uma idéia bastante próxima dessas historietas em que o autor revisita, da maneira irreverente, as mais conhecidas histórias infanto-juvenis, arrancando-as da noite aconchegante de seu contexto folclórico e trazendo-as, cara amassada, cabelo em desalinho, olhos piscando, para o meio-dia implacável do mundo atual. Atualizar histórias infantis tem sido um passatempo das décadas mais recentes, inclusive no campo da fantasia e do horror. Henrique Rodrigues as leva para o campo da crônica urbana atual, e as recheia com todo o linguajar (e conceitos) que atulham as redes sociais. De um lado temos Pinóquio, Branca de Neve, Pequeno Polegar e outros personagens, e de outro o jargão lacratório das redes: suas aventuras estão polvilhadas de “empoderamento”, “pertencimento”, “autoajuda”, “inclusivo”, “desconstrução”... O contraste entre arquétipos e clichês sempre rende boas risadas e boas reflexões. 
 

Transversais (Belém, Floresta Urbana, 2023), de Adriano Abbade
Uma das coisas que o Modernismo de cem anos atrás nos explicou foi que poesia lírica e registro prosaico podem ser complementares, fortalecendo-se mutuamente: a proximidade e o contraste faz ressaltar o que cada um tem de sensorial e de concreto. Adriano Abbade alterna poemas que lembram certas “notícias de jornal” de Bandeira ou Drummond, resgatando a beleza crua do banal da vida, e poemas de delicada percepção visual e sonora: “a poesia não está nesses versos / mas na cena que estes pretendem evocar / fim de tarde numa fazenda / generique miles davis a rolar / depois do vinho e da ganja / hae-mi levanta-se querendo dançar / despe o casaco / e a blusa branca / com as mãos cria uma ave /e tensiona com ela voar / seios beijando o vento / braços qual asa a planar / nua da cintura para cima / corpo de gaze aspirando ao luar / balé sem lastro / neste atordoante som / a leste cai a noite / em dourado azul neon.” 
 



Era apenas um presente para o meu irmão (Todavia, 2023), de Bruno Ribeiro
Um dos crimes mais cruéis da história recente da Paraíba? Pode ser, mas a concorrência a este título é tão grande que é preferível usar o termo consagrado junto à imprensa e ao público: “a Barbárie de Queimadas”. Em fevereiro de 2012, nessa cidade, um filho de uma família importante local ofereceu uma festa de aniversário ao irmão, e convidou algumas moças bonitas da cidade. O que elas não sabiam é que havia um “presente” para o aniversariante: no meio da noite, um bando de encapuzados invadiu a festa e começou uma longa sessão de estupros, de que o aniversariante e o organizador participaram. Duas das moças acabaram sendo mortas a tiros. Bruno Ribeiro usou este episódio para escrever uma reportagem corajosa (eu pelo menos não teria tido coragem de escrevê-la) sobre o mundo de hoje. 
Leia mais aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/09/4979-barbarie-de-queimadas-692023.html
 


Veja também:

Algumas Leituras de 2023 - parte 1

Algumas Leituras de 2023 - parte 2 


 






segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

4778) O ser e o seu contrário (27.12.2021)



(Ursula LeGuin, por Camila Fernandes: Instagram @mila.f.arte)
 
Na década de 1960, Ursula LeGuin deu início à série de livros de fantasia conhecida como “Earthsea” (“Terramar”). Era para ser uma trilogia apenas, mas novas idéias foram surgindo, e a série foi aumentando. Interrompeu-se com a morte da autora, com um total de seis livros, sendo cinco romances e uma coletânea de contos. Talvez haja mais alguma coisa, que desconheço.
 
As histórias de Earthsea ocorrem num planeta imaginário e num arquipélago com dezenas (talvez centenas) de ilhas de todos os tamanhos. Algo como o Havaí ou o Japão, por exemplo, só que em escala maior. Um mundo composto de uma parte fixa, as ilhas, e uma parte móvel, o mar, por onde todos se deslocam continuamente. Uma civilização de canoeiros e navegadores.
 
Esse nome composto, Terramar, me chamava a atenção porque revelava ser um paradoxo assimilado. Terra e Mar são tidos como antônimos, como contrários, mas na verdade são espaços que se complementam para formar uma terceira coisa que necessariamente inclui eles dois, e que poderíamos chamar de o(a) Terramar ou a(o) Marterra.


O mesmo poderia ser aplicado ao nosso planeta, não é verdade?  Ele é chamado de Terra mas cerca de três quintos dele, quase dois terços, são cobertos pelo mar. E por baixo do mar existe mais terra. E nas superfícies de terra existem rios, lagos, e outras coisas que valem como infiltrações do mar, ou do elemento líquido. Nosso planeta bem poderia ter o nome de Terramar.
 
Tudo isso tem a ver com a visão de LeGuin, uma escritora que traduziu para o inglês o Tao Te King (“O Livro do Caminho Perfeito”, de Lao Tse), e para a qual os polos opostos existem, mas cada extremidade de um oposto está permeada, invadida, impregnada pelo outro. É dentro do Yang que cresce o Yin, é dentro do Yin que cresce o Yang. O mar está cheio de terras, a terra está cheia de mares. A Terra é composta de terra e mar.
 
Isto e mais uma série de exemplos me levou a formular o seguinte postulado:
 
Em nossa cultura, temos o hábito, ao tratar de uma entidade composta por dois elementos distintos e aparentemente contrários, de dar a esse conjunto o nome do mais visível desses elementos, o elemento predominante, o mais imediatamente perceptível. É ele quem “batiza”, “registra” e denomina essa dualidade.
 
Poderíamos chamar nosso planeta de Mar, porque nele os oceanos predominam; mas escolhemos chamá-lo de Terra, porque é onde vivemos, e portanto consideramos egoisticamente a terra mais importante do que o mar.


(Yin-Yang, por Aimará Decor)
 
Ocorreu-me que tratamos do mesmo jeito o dia e a noite. Um dia é um espaço de 24 horas, o tempo de uma volta completa do planeta em torno de si mesmo.  Ora, acontece que em cada momento desse giro uma parte do planeta está voltada para a luz e outra parte para a sombra. Chamamos aos momentos de luz “Dia” e aos momentos de sombra “Noite”.
 
O Dia, portanto, é algo composto de duas metades: o Dia e a Noite.
 
Essa analogia pode ser ampliada para um terceiro exemplo? Talvez.  Estive pensando na questão da memória, por exemplo. Andei vendo entrevistas de alguns psicólogos e neurocientistas, e me chamou a atenção o modo como eles se referem à memória como um processo que envolve tanto o lembrar quanto o esquecer. A memória não é apenas a atividade de lembrar, é também a de esquecer, de deletar, de descartar, de substituir, de “gravar por cima” das coisas anteriormente gravadas.
 
A Memória é um processo complexo que envolve a memória e o esquecimento. Ou, para ser mais preciso, a Lembrança e o Esquecimento.
 
Penso também na dualidade entre o nosso corpo e a nossa mente. Tudo em nossa cultura nos induz a ver as duas coisas não apenas como diferentes, mas como antagônicas. Não são! A mente faz parte do corpo, do ponto de vista físico: ela depende do cérebro, da medula espinhal, dos nervos que comandam nossos movimentos etc. 
 
A mente é um fenômeno provocado no cérebro pelos sentidos, mas que ganhou um grau espantoso de autonomia e de auto-referencialidade (eita!), tornando-se capaz de administrar a si mesma, num processo constante de retro-alimentação. Mas ela é parte do corpo e não existe sem o corpo. A chama faz parte da vela.
 
O Corpo, portanto, é um processo complexo que inclui o Corpo e a Mente.


(Luiz Antonio Simas e "O Corpo Encantado das Ruas")
 
Vendo há algum tempo uma entrevista de Luiz Antonio Simas, o autor do Dicionário Social do Samba (com Nei Lopes), O Corpo Encantado das Ruas e outros livros, grande pesquisador da cultura popular, registrei este comentário dele:
 
Eu sou um sujeito que trabalho muito com a dimensão do cruzamento. Trabalho muito com a dimensão do “cruzo”, a dimensão do encontro. Tem um princípio da cosmopercepção de mundo que é Bantu, que é Bakongo, os povos que vieram ali do norte de Angola, do antigo Império do Congo e tal...  E o Bakongo diz sempre uma coisa que eu acho muito interessante: “O ser não é ele ou o outro. O ser é ele e o outro”. E o campo da cultura é um campo de circularidade né?
 
Não sei se estou entendendo certo, mas acho que isso bate um pouco com a minha idéia de que a noção do dia como “o contrário da noite” é útil em vários aspectos, mas a noção de dia como a soma entre o que chamamos dia e o que chamamos noite é mais completa. E assim por diante.





terça-feira, 17 de setembro de 2019

4504) A palavra Exu (17.9.2019)




Proposta Inicial: “Toda palavra é uma mensagem que pode ser decifrada, mesmo não tendo sido cifrada antes por ninguém.”

"Decifrar" pode ser também inventar uma intencionalidade a-posteriori. Não é a “descoberta”, e sim a invenção de significados. Decifrar não é apenas encontrar o que estava escondido, é criar o que não existia antes.

Uma caixa vazia e fechada, que a gente abre e no momento em que ela é aberta se enche de coisas.

Há muitos anos, na Bahia, tomei uma noitada de cerveja com o cineasta Miguel Borges, que divertiu todo mundo na mesa com interpretações onomástico-numerológicas do nome de cada um. Ele pegava cada nome, explicava (inventava) um significado, uma mensagem. A pessoa morria de rir vendo o truque, mas concordava que tinha tudo a ver com ela.

Sim, era o mesmo Miguel Borges que dirigiu As Escandalosas e O Enterro da Cafetina – ele também foi editor da “revista mística” Ano Zero e tinha uma certa propensão ao Realismo Fantástico.

(Infelizmente, as testemunhas da veracidade do que estou dizendo, Guido Araújo, Pedro Camargo, estão a esta altura debruçados numa varanda lááá de cima, me cochichando: “Não se preocupe, vai em frente, faz de conta que está inventando mesmo.”)

A palavra “exu”, por exemplo, que neste amanhecer sonolento se depara comigo numa página (a página de abertura) do livro novo de Luiz Antonio Simas, O Corpo Encantado das Ruas. Essa palavra contém o quê?

Ela contém um E, um X e um U.

É a palavra “EU”, só que no centro dela, cravado nela, dividindo-a, está um X, uma incógnita, o símbolo do desconhecido (uma quantidade que não sabemos qual seja) e do arbitrário (uma quantidade que nos permite decidir: “é tanto”).

No centro do Eu, dois machados cruzados, duas lanças, duas espadas, simbolizando o conflito, mas não apenas o conflito negativo (a guerra, a destruição), mas o conflito gerador, o cruzamento entre o macho e a fêmea gerando vida, o cruzamento entre duas lascas de pedra gerando fogo.

Esse X é uma encruzilhada no centro do Eu, assim como existe um grão de areia no centro da ostra. É em redor desse conflito incômodo que camadas sucessivas de luz começam a se sobrepor e a se irradiar.

O Exu (diz Simas) é “o mensageiro entre o visível e o invisível”. É o equivalente ao Hermes grego e o Mercúrio romano. (Essa analogia é por minha conta e risco.) Não é uma pessoa, é um portal que pensa, um portal ambulante com intencionalidade e algo de emoções humanas. Uma passagem e ao mesmo tempo um passageiro.

Como todo mundo sabe, o símbolo da cruz é visto por alguns como o instrumento de suplício em que Jesus Cristo foi sacrificado. E é visto por outros como a Cruz de Descartes, o eixo das abscissas e ordenadas, do X e do Y, do visível e do invisível.

O X e a cruz são o mesmo símbolo, em diferentes momentos de sua rotação. São o contato com o Incógnito, o Desconhecido, o Mistério Inefável.

Exu não é o diabo cristão, como muita gente insiste em vê-lo. O Diabo cristão é por um lado uma personificação (uma antropomorfização) do Mal, um Mal que de fato existe no mundo físico-espiritual. Mas no varejo ele acaba sendo o personagem preferido das correntes puritanas e repressoras, como um elemento contaminador que serve para envenenar tudo que torna a vida mais intensa e por isso causa medo. O sexo é coisa do Diabo, o riso é coisa do Diabo, a festa é coisa do Diabo, o prazer é coisa do Diabo, a comida saborosa é coisa do Diabo, a bebida é coisa do Diabo...

Essas coisas não são do Diabo, não são do Mal: são do Exu, são dessa contradição cravada em nós – a contradição entre o físico e o espiritual, duas forças que nos puxam em direções opostas e nos dilaceram, mas nesse puxar e dilacerar geram a energia que nos move.

Não podemos existir só no físico – nem só no espiritual. Temos que existir neste ponto onde os dois se encruzam, neste X. Neste cabo-de-guerra onde essas duas energias se enfrentam, como numa queda-de-braço onde centímetros de vantagem se alternam mas um é sempre incapaz de derrubar de vez o outro.

Na adolescência eu olhava fascinado um livro que me foi muito importante, e que não reli desde então: Sexus de Henry Miller. E eu via o Exu dentro desse título. O sexo (cujo mundo eu estava adentrando pé ante pé, virginiano que sou) tinha cravado dentro de si esse diabrete irrequieto com o pau duro de fora, e quando eu prestava atenção via que o diabrete era eu.

Era o trupizupezinho que reencontrei anos depois numa xilogravura e usei como carimbo dos meus folhetos e livros de poemas. Um diabinho do bem, de asas, mas olhando de soslaio as coxas das moças. Um diabinho que dança. “Só posso acreditar num diabo que seja capaz de dançar”.


SEXUS é uma palavra que tem EXU no centro e dois S nas extremidades. Por que um S? O que diz essa letra? Quem dá a resposta é a sextilha famosa de Pinto do Monteiro:

Eu só comparo esta vida
à curva da letra S:
tem uma ponta que sobe
tem outra ponta que desce
e a volta que dá no meio
nem todo mundo conhece.

A Vida nas duas extremidades. O Eu dentro dela. E no centro do Eu esse X mercurial, instável, desequilibrante, arlequinal, ora rude ora terno, ora violento ora apaixonado, com duas correntes de energia que se cruzam e se reforçam uma à outra.

Não estou “viajando”, aliás são 10:55 da manhã e tudo que tomei foi meia garrafa de café, com um sanduíche de queijo. “Sexus” era uma palavra onde se cifrava esse sentido da vida como algo que tem no seu centro uma encruzilhada, o lugar das oferendas (a oferenda é o nosso corpo, que deixamos aqui para que o espírito possa subir – segundo a crença de muitos).

A prova de que não estou delirando é que o próprio Henry Miller sub-titulou aquela sua trilogia como “A Crucificação Encarnada”, “The Rosy Crucifixion”. Uma dessas expressões onde a forma traduzida é superior à original, porque “encarnado” não significa apenas “cor de rosa, avermelhado”, mas “transformado em carne”.


Assim diz, na página de abertura do seu livro, compartilhada em foto nas redes sociais, o autor Luiz Antonio Simas:

A ruas são de Exu em dias de festa e de feira, dos malandros e pombagiras quando os homens e mulheres vadeiam e dos Ibêjis quando as crianças brincam.

Tudo começa com o ipadê, o padê de Exu, a cerimônia propiciatória com farofa de dendê, cachaça (oti) e cantos rituais, para que Exu traga bom axé para as festas nos terreiros, cumpra seu papel de mensageiro entre o visível e o invisível, chame os orixás e não desarticule, com suas estripulias fundadoras da vida, os ritos da roda, aqueles em que os deuses dançam pelo corpo das iaôs (as filhas de santo). O padê de Exu também pode ser colocado na encruzilhada, lugar em que as ruas se encontram e os corpos da cidade circulam.

A encruzilhada é a crossroads onde se diz que os cantores de blues como Robert Johnson “fizeram um pacto com o Mal para aprender a tocar”. O que é uma falácia, uma calúnia. Nas encruzilhadas o único pacto possível é com o fluxo, o trânsito, a passagem, a travessia. A encruzilhada representa (entre outras coisas) o lugar onde o Bem e o Mal se cruzam, se tocam, se contaminam: a Vida.

E quem tem jurisdição sobre a encruzilhada é esse trickster, esse diabrete, esse anjinho da cara suja, esse palhacinho exuberante, exultante, exumado do fundo da terra e que ao ser trazido de volta à luz está eternamente vivo, transgressor, desarrumando o arrumado, viramundo virado, fechando um caminho aqui, abrindo outro acolá, ponto de energia ora em corrente alternada, ora em corrente contínua, cravado no centro do Eu do mundo.











terça-feira, 1 de janeiro de 2019

4419) Algumas leituras de 2018 - I (1.1.2019)




Aqui vão algumas das minhas leituras de 2018. Podem valer como indicação para quem se interessa pelos mesmos assuntos. Muito do que leio são leituras de trabalho, apenas para informação. Algumas acabam se destacando. Também só comentarei abaixo os livros que li do começo ao fim. Minha leitura é fragmentária: de cada dez romances que começo, só termino um. E não é que os outros nove sejam maus livros; em geral é somente porque naquele momento não estou com vontade de ler aquele tipo de livro. O que leio, leio por prazer. Ninguém me paga e ninguém me cobra.



CULTURA POPULAR

Minhas pesquisas recentes sobre cordel e poesia popular passaram por títulos que recomendo com gosto.

O roteiro do verso popular, do português A. A. Freire, faz um breve apanhado das ligações entre a poesia popular brasileira e portuguesa, dando destaque a alguns personagens pouco conhecidos.  Deveríamos ler mais os registros portugueses sobre esse tipo de poesia. É sempre bom ver o que temos em comum com eles, e o que temos de irreprimivelmente nosso.

História da Literatura de Cordel, de Carlos Dantas, é uma pesquisa detalhada e bem documentada sobre as primeiras décadas de nossa poesia, e os primeiros pioneiros como Leandro, Chagas Batista e Athayde. Surgida de uma tese de doutorado, levanta com bastante rigor nomes, datas, locais, depoimentos e versos. Há pouca coisa escrita sobre esse período de cem anos atrás, e livros com este nível de dedicação são sempre bem vindos.

Uma História do Samba: as Origens, vol. 1 (Cia. Das Letras) de Lira Neto. O que foi dito acima vale também para o samba, embora a bibliografia neste caso seja muito maior. Lira Neto reconstitui episódios cruciais na transição musical do maxixe e outros ritmos para o que chamamos samba, destacando a origem social e os traços de personalidade dos grandes sambistas.

Água da Mesma Onda (Fortaleza: Editora Íria, 2011), de Francisca Pereira dos Santos, reproduz e comenta a correspondência, em prosa e em verso, entre Patativa do Assaré e a poetisa Bastinha. Mostra não apenas a presença meio obscura e discreta das mulheres no universo basicamente masculino da poesia do Sertão, como também o hábito, até hoje pouco analisado pelos estudos acadêmicos, de escrever cartas em versos, o que mostra a disseminação da dicção poética numa população de leitores de poesia que não se atrevem a se apresentar publicamente como poetas.

Almanaque de Brasilidades (Rio, Ed. Bazar do Tempo) , de Luiz Antonio Simas. Título auto-descritivo para um enorme apanhados de nomes, fatos, anedotas, definições, listas, registros cronológicos e históricos. Simas é um grande conhecedor de cultura popular, principalmente do samba e das religiões de matriz africana. Seu almanaque é para ser lido ao acaso, abrindo e colhendo o que se oferecer. (Embora eu o tenha lido do começo ao fim sem queixas.)



ROMANCE POLICIAL

Em matéria de livro policial, li pouco este ano.

O ano novo de Montalbano (Ed. Record) de Andrea Camilleri é mais um título das aventuras do Comissário Montalbano, de uma cidadezinha da Sicília. Desta vez é uma coletânea de contos, com algumas pequenas tramas engenhosamente concebidas, e principalmente os retratos inesperados e verossímeis de personagens miúdos. Já comentei outros livros da série aqui no blog.

Fogo na Carne (“Fire in the Flesh”), Edições de Ouro, de David Goodis, é um romance noir desse autor pouco convencional, que tinha leitores fiéis nos EUA dos anos 1940-50, e na França mereceu biografia e estudos críticos. A narrativa acompanha as conseqüências de um incêndio proposital com vítimas, no submundo de Filadélfia. É uma dessas histórias que decorrem praticamente ao longo de uma noite insone, com perseguições, violência, traições, personagens marginais escapando por pouco à polícia e à própria tendência autodestrutiva.

He Who Whispers de John Dickson Carr é justamente o contrário: um mistério detetivesco à moda clássica, na Londres pós-guerra, com um crime insolúvel do passado sendo deslindado no presente pelo detetive Dr. Gideon Fell e desestruturando as vidas de uma porção de pessoas. Como nos outros mistérios de Carr, muita engenhosidade, prestidigitação narrativa, uma certa concessão à coincidência e a alguma improbabilidade psicológica... Mas, como sempre, uma história de eventos inexplicáveis cuja explicação final nos deixa sem o que dizer.


POESIA BRASILEIRA

À Cidade (Fortaleza, Expressão Gráfica e Editora) de Mailson Furtado, ganhador do Prêmio Jabuti, é um livro-poema esmiuçando os minutos e os anos da vida numa cidadezinha do sertão nordestino, num ritmo recursivo cheio de sutilezas. Um livro promissor de um poeta jovem.

Sertão Japão (Ed. Casa de Irene) de Xico Sá e Grãos de Esperança (300 haikais) (Ed. Chiado) de Wilson Guerreiro Pinheiro são uma parelha de livros sobre a qual ainda pretendo escrever com mais vagar. Os dois poetas usam o haikai para comentar a natureza, as pessoas e a psicologia do Sertão. Xico com mais liberdade formal, Guerreiro com fidelidade estrita ao “modelo guilherme-de-almeidiano” do hai-kai. Ambos com flashes memoráveis de observação e delicadeza.

Anamnese (Ed. Lacre) de Alexei Bueno é mais um livro que me recupera a fé na poesia de forma fixa, as estrofes rimadas e metrificadas, que predominam aqui. Uma forma da qual Alexei é um executor da maior competência, num começo de século cada vez mais entregue às estrofes curtas de versos livres com rima eventual.

Lendário Livro (Editora Rubra) é uma antologia de que participei ao lado dos amigos Toinho Castro, Numa Ciro, Nonato Gurgel, Aderaldo Luciano e Otto. Dicções diferentes de uma trupe com diferentes focos, diferentes repertórios, e muita coisa em comum.

Quero morrer na caatinga (Ed. Areia Dourada) de Aderaldo Luciano é talvez o melhor livro de poemas do bardo de Areia. Um olhar sem ilusões e sem medo diante de um mundo em turvação, vazado em dísticos implacáveis como pancadas de enxada em terra dura.

(continua amanhã)