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domingo, 6 de abril de 2025

5169) "Flow" e a arte de narrar (6.4.2025)



 
Flow (2024), dirigido por Gints Zilbalodis, é um filme feito na Letônia, e que ganhou recentemente o Oscar de Melhor Animação. Está em cartaz em vários lugares pelo Brasil afora. 
 
O  principal encanto narrativo de Flow está sugerido no próprio título, que indica a noção de fluir, de fluência, de fluxo, de um fluido que escorre sem se deixar reter. 
 
Esta imagem provém, é claro, da situação inicial do filme. Uma floresta cheia de animais (e sem seres humanos visíveis) é invadida de repente por uma inundação, devido a um tsunami ou outro fenômeno parecido. As águas invadem tudo, elevando-se irresistivelmente, em poucos minutos. 




A narrativa acompanha um grupo de quatro animais unidos pela fuga e pelas circunstâncias: um Gato, um Cão, um Lêmur e uma Capivara. Eles se esbarram durante a fuga, brigam, afastam-se, reaproximam-se, ignoram-se, salvam-se mutuamente. 
 
Tudo isto ocorre numa dinâmica de surpresas, improvisos, atitudes espontâneas, tudo condicionado  pelos problemas imediatos que um deles, ou o grupo, é forçado a enfrentar. 



 
Flow é uma lição de narrativa porque de minuto a minuto aparece uma situação nova; um problema inesperado; uma solução salvadora; uma consequência não-prevista dessa solução; um re-arranjo de comportamento para contornar esse novo obstáculo; a chegada de um personagem novo; a hostilidade inicial desse encontro; o desequilíbrio de forças que um minuto atrás pareciam ter negociado satisfatoriamente os respectivos espaços. 
 
E tudo isto sem o benefício de um diálogo sequer. 
 
Os bichos de Flow não são bichos humanizados como os da Disney ou da Pixar, que não passam de seres humanos que pensam, falam, agem e vivem como seres humanos, mesmo tendo forma exterior de animais – como o Pato Donald e o rato Mickey. 
 
Em Flow, os bichos parecem se comportar da maneira instintiva e arisca dos respectivos bichos da vida real – o gato age como um gato qualquer, a capivara como uma capivara, e assim por diante. Suas atitudes não são as de bichos capazes de raciocinar, prever, deduzir como seres humanos. São atitudes de bichos que, diante de um perigo ou de uma vantagem, agem de acordo, como um bicho o faria. 




Claro que existe um trabalho sub-liminar de humanização nesses personagens, permitindo-nos deduzir ou prever muitas de suas ações. São as ações que nós, espectadores torcendo pelo seu sucesso, esperamos que eles pratiquem. 
 
A animação do filme, ao que se diz, foi feita com o software Blender, um software tão acessível que muitos amigos meus disseram: “Tenho no meu computador... Não é dos melhores, mas é bastante bom.”  Levou cinco anos. 
 
E cabe à animação projetar nesses animaizinhos mais uma tintura de verossimilhança, dando-lhes os movimentos característicos dos animais, algo que certamente requereu muitas e muitas horas de observação e de reprodução minuciosa, principalmente no personagem Gato, o que mais aparece e que arrasta consigo a narrativa. 




Graças a isto, aceitamos que aquele gato parece de fato um gato e se move, caminha, pula, escapole, esgueira-se e briga como gato. Essa verossimilhança física nos ajuda a aceitar que nos momentos mais fantasiosos da ação é mesmo um gato que está fazendo aquilo – p. ex., algumas acrobacias mais heróicas. 
 
É algo equivalente, na extremidade oposta do espectro, ao que os gibis de Walt Disney conseguem com a turma de Mickey e Donald. Essa turma se comporta de maneira tão inconfundivelmente humana que rapidamente qualquer criança aceita suas aventuras e seu universo, sem perguntar por que razão um deles é um rato de calças e o outro um pato sem calças. 
 
Os bichos de Flow têm essa plausibilidade visual (graças à boa animação) e psicológica (graças ao bom roteiro) para que os aceitemos totalmente como bichos, mesmo naqueles instantes em que, para corresponder às exigências cada vez mais dramáticas da história, eles precisam fazer coisas que bicho nenhum faria com tal fluência. Como quando eles, refugiados num barco à deriva, começam instintivamente a manejar a vela e o leme. 


 
E aí voltamos à questão do fluxo, do desenrolar contínuo e sem descanso da narrativa. É uma narrativa que nada tem de hitchcockiana, mas parece seguir ao pé da letra um dos lemas de Alfred Hitchcock: “Se a ação for suficientemente fascinante e suficientemente rápida, o público não terá tempo de se perguntar se aquilo é plausível ou não”. 
 
Flow tem cerca de uma hora e meia de duração, não tem tempos mortos. Os animais fogem das águas que se elevam, sobem em árvores, sobem em barcos, deixam-se levar pela correnteza, são atacados por pássaros, se viram como podem. 
 
Não há seres humanos na história. A correnteza os leva às ruínas de uma cidade, mas são ruínas já muito antigas, sem relação com o tsunami presente. Quem construiu aqueles palácios, aquelas muralhas, já se extinguiu há muito tempo. Os animais não parecem guardar memória alguma daquele ambiente. 
 
Seu mundo é um eterno presente, como o dos animais em geral parece ser. O passado existe, mas só o passado recente; e o presente, um compasso de espera até a próxima decisão de sobrevivência. 
 
É uma narrativa que parece levar em conta um princípio posto em prática por muitos ficcionistas, seja da literatura, do cinema, etc.  É o da narrativa onde só conta o que acabou de acontecer, ou, como dizem alguma “a narrativa Fibonacci”. 
 
A série de Fibonacci, para quem não conhece, é um artifício matemático com mil e uma utilidades. É uma série infinita de números onde cada novo número a ser adicionado é simplesmente a soma dos dois anteriores. 
 
Eis a série de Fibonacci em sua versão básica: 
 
1 – 1 – 2 – 3 – 5 – 8 – 13 – 21 – 34 – 55 – 89 - ... ... ...
 
Cada número é a soma dos dois que o antecedem: 89 = 55 +34; 55 = 34 + 21; e assim por diante. 
 
Este princípio pode ser mais ou menos aplicado à narrativa de ficção. Sem muita exatidão, claro, para não virar uma obrigação mecânica. Mas como um recurso que pode ajudar naqueles momentos em que o escritor não sabe com muita clareza o que fazer em seguida. 
 
O princípio básico deste recurso pode ser expresso assim: A próxima cena a ser escrita precisa desenvolver elementos que estavam presentes na última e na penúltima
 
Isto não é uma obrigação. É uma possibilidade útil. 
 
Até porque outro recurso importantíssimo é justamente o reaparecimento de algum elemento (um personagem, uma situação, um local, etc.) que o espectador tinha visto meia hora atrás, e do qual já tinha esquecido. Quando aquilo reaparece, e reaparece de maneira dramática, com impacto, ele pensa, subconscientemente: “ih, é mesmo, tinha esse detalhe, nem me lembrava, mas é isso mesmo”. 
 
O efeito “série Fibonacci”, no entanto, lida com outra tática. A tática de fazer algum malabarismo com elementos que o espectador ou o leitor acabou de conhecer, tem ainda vívidos na memória, e muitas vezes espera algum desenvolvimento. Situações tipo “ih, agora eles conseguiram isto, daqui pra frente tudo vai ser diferente”. 
 
A narrativa flutua com segurança entre o grande conflito (como os bichos sobreviverão à inundação?) e os conflitozinhos menores – principalmente quando os quatro conseguem se refugiar no barco-a-vela e isso produz uma série de pequenas rivalidades, pois cada um quer uma coisa diferente a cada momento. 


 
Flow é um filme de ação. É engraçado dizer isso, porque no linguajar de hoje em dia “filme de ação” implica sempre em ação humana violenta, em confrontos físicos, brigas de arma em punho, e assim por diante. A ação não-humana deste filme torna-se humana pelo grau de empatia que conseguimos desenvolver para com um gato que tenta não morrer afogado; e com o nosso grau de entendimento desses pequenos conflitos intra-grupo, em que os bichos não são muito diferentes de nós. 
 
Flow levou cinco anos em preparação, é hoje o filme de maior sucesso na história da Letônia, um país com menos de 2 milhões de habitantes. Um estátua do Gato foi erigida em sua homenagem na capital, Riga. 


 




quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

5034) As minhas vacas (21.2.2024)

 
 


Quando eu tinha doze ou treze anos, na casa em frente à nossa morava um homem que criava duas vacas leiteiras. A casa dele não existe mais, ou melhor, existe no mesmo sentido em que o Maracanã continua existindo no Rio de Janeiro. A estrutura original foi removida, e em seu lugar aplicou-se uma jaqueta arquitetônica, um dente artificial que aproveita a raiz do dente anterior.  
 
Era uma casa larga, de frente para a nossa, mas num nível levemente inferior, porque o Alto Branco é uma colina de inclinação suave, onde tudo desce na direção da Avenida Canal, antes de se reerguer novamente rumo ao centro da cidade. 
 
A poeira do sótão das lembranças me faz às vezes misturar os nomes das famílias que moraram ali, mas ao enfiar a mão no baú da memória o nome que me vem é o de Seu Rodoval. A casa tinha um espaço largo na parte lateral, um beco-coberto, por onde eu e os filhos dele entrávamos para chegar à vacaria, nos fundos. 
 
Ali, tinha um quintal com algumas árvores, com muros baixos e um matagal brabo do lado de fora. E nos fundos da casa havia dois cochos não muito largos onde as duas vacas passavam a maior parte do tempo. Foram poucas as vezes em que me aproximei daqueles seres desmedidos, alienígenas, de corpo maciço e quente, e olhos negros, líquidos, com toda a tristeza e a resignação do mundo. 
 
Eram mansas, e eu ficava brincando com os outros garotos, enquanto algum dos mais velhos pegava a foice, afiava na aresta do degrau de pedra e começava a cortar palma para dar de comer às bichinhas. A palma é um cactáceo (vejam só, eu nessa época já sabia o que era um cactáceo), uma planta achatada e arredondada que serve de alimento ao gado. Como todos os cactos, tem muita fibra, e guarda líquido nos seus internos. A superfície externa tem alguns espinhos pequenos, coisa que a boca da vaca tira de letra. 
 
Zé de Seu Rodoval pegava a foice e ficava fatiando a palma, jogando dentro do cocho ou então estendendo para que a vaca comesse na mão dele. Eu também cheguei a me atrever, peguei um desses pedaços e estendi para a comensal mais próxima. Ela refugou com a cabeça; mas foi para espantar alguma mosca, e então esticou o pescoço e abocanhou prudentemente o pedaço de palma que eu lhe estendia, deixando bem claro que não tinha intenção de arrancar a minha mão resoluta e trêmula. 
 
As vacas eram personagens importantes na economia doméstica da rua, mas não figuravam muito nos meus planos, nem nos planos dos outros meninos, Zé, Boaventura e os mais novos. Nosso negócio era jogar pelada na própria rua, que na época tinha uma extensão de oito ou dez casas e era de terra batida. (Nossa rua só veio a ser calçada pela Prefeitura quando eu já morava fora de Campina, já estava casado e pai.) 




(Rua Estilac Leal, no Alto Branco) 

O jogo de pelada era feito de ponta a ponta da rua e, como sempre, as regras platônicas do futebol eram submetidas ao leito-de-Procusto dos meios de produção da vida real. Por exemplo, de um lado da rua a hipotética “linha lateral” era o mato, e cada bola que um pé puxava de volta dava origem a uma negociação ferrenha, saiu, não saiu. 
 
Do lado oposto era mais tranquilo, porque havia a continuidade dos muros das casas, que eram todas emendadinhas umas nas outras. A bola chutada para aquele lado batia no muro e voltava, então continuava em jogo. 

Quero render minha homenagem (talvez até póstuma) a Zé de Seu Rodoval, que era um cara troncudo, alourado, sardento, com físico de estivador, apesar de naquela época ter menos de vinte anos. Zé não era um craque, mas fez um gol, ali mesmo, em frente às nossas casas, que não esqueci até hoje. 
 
Foi num dia em que ele dominou a bola e partiu para o ataque, foi bloqueado por dois zagueiros adversários – mas nesse instante viu que o goleiro se apavorou e correu para cima deles, na esperança de catar a bola. Zé chutou a bola em diagonal para a linha lateral, ou seja, o muro, onde ela ricocheteou e, numa carambola perfeita, entrou rolando no gol vazio. 
 
Gol mais original do que este, só mesmo o gol de Pedro Beiçola. 
 
Houve uma confusão dentro da pequena área (termo platônico, é claro) quando Pedro Beiçola tentou cabecear, foi empurrado, caiu, a bola bateu lá e cá, e ele, caído quase dentro do gol, estendeu as pernas, prendeu a bola entre os tornozelos, e com um impulso inesperado ergueu as pernas no ar com bola e tudo, e com bola e tudo despencou o corpo para dentro da linha do gol. 
 
Tudo isso aconteceu há cerca de seis décadas, mas serve para mostrar como o futebol é imprevisível, inesgotável, e inesquecível. 
 
Tínhamos a nossa turma, que além de jogar bola gostava de brincar de bandido, de jogar barra-à-bandeira... E lembrei agora do que um dia aconteceu entre Zé e seu irmão Boaventura, que tinha mais ou menos a minha idade. Eles eram uns meninos meio brutos. Eram boa praça mas tinham costume de resolver questão na porrada. E um dia formou-se um alarido na rua, em frente à nossa casa. Minha mãe, que estava na cozinha, foi ao terraço, enxugando as mãos num pano de prato. 
 
Eu estava no quarto lendo, não dei atenção. Ela voltou um tempão depois com a má notícia:  Zé tinha pegado uma briga com Boaventura e deu uma pancada com uma pedra nas costas do irmão, que ficou caído, com suspeita de fratura na coluna vertebral!  Paralisia, pro resto da vida! 
 
Isso me assustou, meti os pés, corri na casa dele para ver, mas não autorizaram, tinham carregado o menino para dentro, a ambulância já tinha sido requisitada. Minha mãe, que vivia um melodrama italiano 24 horas por dia, passou a noite fazendo suas tarefas e suspirando: “Um menino tão bom, tão brincalhão, ficar reduzido a uma cadeira-de-rodas pelo resto da existência!...” 
 
Senti que a ocasião era grave e pedia de mim uma atitude. 
 
Esqueci de dizer que essa fase, dos treze anos, foi a minha fase místico-religiosa. Tudo eu resolvia por meio de rezas e promessas, principalmente os jogos do Treze, que eu assistia no Estádio Presidente Vargas, ou acompanhava pelo rádio da sala, sempre com papel e lápis na mão, para anotar as dezenas (as centenas) de Pai-Nossos, Credos e Ave-Marias que eu prometia a cada ataque do Treze, cada ataque do adversário, cada escanteio, cada falta, cada bola cruzada. 
 
Era uma contabilidade furiosa e muda, porque tudo eu prometia em silêncio, de mim para mim, dez Pai-Nossos, não, quinze! Vinte!  A bola entrava, a bola saía, o placar ia se formando, e no final de tudo eu tinha algumas horas de oração de que me desincumbia de maneira sonambúlica enquanto tomava banho, trocava a roupa, escovava dentes, penteava cabelo, tomava sopa – um murmúrio indistinto como um canto gregoriano, e acelerado como uma narração de jogo por Joselito Lucena da Rádio Borborema. 
 
Habituado a subornar com preces a divindade, resolvi fazer uma promessa para salvar Boaventura do seu destino de paraplégico. Resolvi inovar. Em vez de rezas, fiz uma promessa corajosa: “Para Boaventura ficar bom, prometo ficar um mês SEM LER!”. Formalizei o compromisso com um pelo-sinal e um nome-do-pai, e fui dormir. 
 
Não dormi nada, porque minha consciência cartesiana não deixou. A certa altura, me veio uma pergunta com minha própria voz: “Um mês sem ler? E como vai ser no colégio?!”  Abri o olho no escuro, liguei de novo para Deus e avisei: “Com exceção dos livros do colégio! Tudo bem?”  Deus, como sempre, calou e consentiu. 
 
Meu amigo ficou acamado um tempo, mas a cada dia as notícias eram melhores, ele foi ao hospital, depois voltou, a gente ia visitá-lo, eu ficava conversando no quarto, muito formal, como no tempo em que minha mãe fez cirurgia no Pedro I. Hospital exige gravidade, a gente fica pensando na vida e comendo maçã. 
 
Com uma semana de promessa minha vida tinha se transformado num inferno, porque no meu movelzinho do quarto havia duas ou três pilhas de livros de bolso para ler, era Futurâmica, era Agente Secreto FX-18, era Irving Le Roy... Eu matava a vontade lendo os livros do colégio, até que não aguentei mais. 
 
Convoquei Deus para uma reunião e expliquei: “O senhor deve ter visto que hoje de tarde eu estava lendo a História das Invenções de Hendrik Van Loon e a História da Raça Humana de Henry Thomas. Não são livros do colégio, mas são livros de estudo, certo? Vamos considerar assim: livros de estudo, pode”. 
 
Nunca fui sertanejo, que morre mas não quebra, quebra mas não entorta. Sempre tive esse caráter meio escorregadio, negociador, conciliador, disposto a regatear milagres com Deus desde que fosse para o bem de todos e felicidade geral da nação. 
 
Para encurtar a história, duas semanas depois estava Boaventura lépido e fagueiro correndo atrás da bola, e eu de olheiras fundas sem poder pegar o livro novo de F. Richard-Bessière ou de Bruno Fischer, enganando Deus com a leitura de alguma enciclopédia ou biografia (“livros de estudo”). 
 
E por trás de tudo isto eu chegava ao terraço e via os meninos de Seu Rodoval tangendo e guiando as duas vacas na sua saída eventual para não-sei-o-quê. Ainda hoje não entendo se as vacas são como os cachorros, que todo fim de tarde precisam sair para passear. 
 
E quando eram recolhidas à vacaria eu aparecia novamente ali, para sentir aquele cheiro de palha azeda, aquele cheiro de bosta de vaca que faz bem à saúde, para ver os estremeções da pele com que elas afugentavam algum inseto perfurador, para olhar aqueles olhos cuja expressão eu reencontraria depois nos versos de Caetano Veloso cantados por Maria Bethania, e que eu entendi com profundidade autobiográfica. 
 
Link
https://www.youtube.com/watch?v=shoYZ26Nr6o
 
Eram apenas duas vacas, e nem sequer eram minhas. Tornaram-se minhas porque dos que alisaram com a mão o seu pelo não restam muitos vivos, e me vejo hoje com mais este compromisso, de mantê-las vivas na lembrança de quem bebeu seu leite. 
 
Chamavam-se Estrelinha e Quixabeira. Estrelinha, porque era preta, e tinha a manchinha branca no meio da testa. 
 
Quantas pessoas, neste dia, neste instante, ainda se lembram delas? Meu irmão, minhas irmãs? Os meninos de Seu Luís, os meninos de Fred? Lembro eu, e celebro seus nomes. Não há nada como um nome para ancorar uma lembrança no cais, impedir que ela enfune velas e parta feliz rumo ao lugar para onde todas as lembranças acabam indo, mais cedo ou mais tarde. 

 


 
 






quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

4792) Um cachorro doido (9.2.2022)



Era uma roda de chat, online, via zum. (Não reclamem do “zum”; é uma tentativa de abrasileirar nosso idioma atual.) Eu estava com alguns amigos, nordestinos, conversando miolo de pote, e alguém contou um episódio bizarro acontecido há pouco tempo.
 
– Não é possível – disse alguém. – Quem foi que contou essa história?
 
– Fulano.
 
– Ah, esquece. Fulano mente mais do que cachorro doido.
 
Houve uma risada geral, porque esse amigo, cujo nome omito por cautela, é um notório inventor de mirabolâncias. Mas a comparação, que é familiar no idioma nordestinense, acendeu uma luzinha na minha memória.
 
“Fulano mente mais do que cachorro doido.”  Cachorro doido mente?
 
Primeiro, uma explicação necessária. Cachorro doido, pelo menos no Nordeste, não quer dizer cachorro psicótico ou catatônico. É simplesmente o cachorro hidrófobo, o cachorro contaminado pelo vírus da raiva. O animal fica alucinado de sofrimento e sai pela rua afora disposto a morder quem se atravesse na sua frente (e quando isso acontece, inocula o vírus na vítima).
 
Vamos aprofundar mais um degrau nessa questão. Cachorros, em geral, mentem?
 
Eu diria que não, ou quase nunca. Vamos fazer uma comparação entre cachorro e gato. Durante minha infância já teve cachorro lá em casa (não pensem que me esqueci de Lunik), e dezenas de gatos (Brigitte, Iscocó, Gasolina, Rum Montilla, etc.). Não sou chegado ser dono de animais, mas sempre convivi numa boa, sempre me interessei pela psicologia deles.
 
Comparados aos gatos, os cachorros são os animais mais sinceros, mais ingênuos, mais espontâneos do mundo. O gato é sonso, interesseiro, seguro de si. Faz o que quer. Vive num Egito mental, onde os faraós se curvam à sua passagem. São mestres em dissimulação, em esconde-esconde, em pequenos furtos, pequenas surtidas clandestinas a espaços proibidos. O gato vive em função de suas próprias conveniências.
 
O cachorro não. Ele vive, em regra geral, em função das conveniências do seu dono. É um ansioso para agradar. Até aquelas abomináveis lambidas em nossa cara são feitas na ilusão de que está nos proporcionando um prazer transcendental qualquer.
 
Quando dizemos que o cão é o símbolo de fidelidade, queremos dizer exatamente isso, que ele não mente, ele não tem segundas intenções quanto ao dono ou à dona. Claro que cada tipo de cachorro tem seu temperamento. Existem os sisudos e meditativos; os irrequietos e frívolos; os soturnos e ameaçadores; os vaidosos e posudos; os brincalhões e saltitantes; os bamboleantes e desajeitados...
 
Mas todos são sinceros. Cachorro não mente.
 
E cachorro doido? Cão hidrófobo? Mente, ou não?
 
Entra aí uma questão interessante, porque o cão com hidrofobia, coitado, é ainda mais incapaz de mentir. A “raiva” afeta o sistema nervoso central, deixa o animal irritadiço, com dificuldade para engolir, hiper-sensível a qualquer estímulo... Ele sai sufocado, andando num trote inquieto, cheio de espasmos, sempre em linha reta, olhar vidrado sem enxergar direito, babando, e mordendo com fúria qualquer coisa em que venha a esbarrar.
 
Já vi uns dois ou três assim, e teve um episódio inesquecível nas lavanderias do Alto Branco, quando certo fim de tarde apareceu um cachorro doido que botou pra correr as lavadeiras no gramado em volta dos poços. O bicho ficou zanzando em círculos, sem rumo, sem atinar com coisa alguma, até que nosso vizinho Zé Buraco (ex-zagueiro do Treze) emergiu de casa com uma espingarda e foi um tiro só.
 
Um animal nesse estado é virtualmente incurável; um ser humano também.
 
O filme de zumbi é um gênero tão em voga, não é mesmo? Eu pelo menos acabei de rever o filme pioneiro de George Romero, Night of the Living Dead.

 
Muitos críticos já ressaltaram algumas semelhanças entre os zumbis desses filmes e seres humanos atacados de hidrofobia. Não tem retorno. Não tem cura para eles. É preciso abatê-los, para que o mal não se propague. Não tem discussão, não tem pedido de piedade, não tem por-favor nem jeitinho-brasileiro. O zumbi é como o hidrófobo: já morreu, mas tem que ser abatido. Por isso o filme de zumbi é uma grande metáfora do nosso século; consultem os borderôs.
 
Cachorro doido mente? Eu afirmo que não. Mentir implica num movimento do intelecto, na avaliação simultânea de dois cursos de ação e na escolha pelo curso que leva ao engano, à mensagem falsa, à intenção de enganar. Que pode até ser uma intenção benévola – quantas vezes a gente não diz uma mentira a uma criança, um idoso senil, um bêbado?
 
Só mente quem é capaz de pensar, e um cachorro hidrófobo não é capaz de pensar nem sequer seus pensamentozinhos caninos, seus pensamentos da cachorra Baleia, de Graciliano.
 
Um cão hidrófobo é um animal possuído por uma idéia fixa, ou melhor, por um conjunto-de-sensações fixo, e essas sensações são dolorosas, produzem todas um sofrimento insuportável, que o conduz à fúria.
 
Um cachorro doido é como um Fanático. O Fanático não mente. Ele está possuído por uma idéia fixa, essa idéia ocupa todo o espaço raciocinador de que ele dispõe, e quanto mais aumenta seu fanatismo mais diminui sua capacidade de raciocinar até para essas funções mais simples, tipo uma mentirinha básica. O Fanatismo é uma patologia de sinceridade absoluta, que exclui o pensamento; como um “disco enganchado” repetindo eternamente a mesma fração de idéia.
 
Portanto...
 
A expressão “Fulano mente mais do que cachorro doido” precisa ser revista, porque cachorro doido não mente.  Nós, todos nós, mentimos mais do que cachorro doido. Mentir implica numa avaliação, numa escolha e numa ação. Somos todos capazes de mentir, porque somos capazes de pensar e de tomar decisões.
 
Um cachorro doido não, coitado.



 




quarta-feira, 18 de agosto de 2021

4735) Primeiras Estórias: "Sequência" (18.8.2021)



Na obra de Guimarães Rosa os animais aparecem de maneira curiosa.
 
Existem fabuladores contemporâneos que não se pejam de fazer um bicho falar, mesmo numa estória que transcorre nos dias de hoje, povoados por automóveis e televisores. 

Existem outros onde os animais aparecem como representações arquetípicas do inconsciente pessoal ou coletivo, e cada entrada deles na estória parece acompanhada por uma orquestra – inaudível; afinal, estamos em um livro.
 
Nos livros de Rosa muitas vezes alguma coisa acontece em torno de animais que parecem estar vivendo num mundo só deles, onde eles sabem coisas, se relacionam de maneira complexa com coisas que só a eles dizem respeito, e conseguem fazer isso apesar de estarem misturados a um mundo confuso de seres humanos dos quais não conseguem se livrar.
 
Talvez o melhor exemplo disso seja o “burrinho pedrês” do conto que abre Sagarana (1946). Nessa noveleta contam-se mil estórias humanas (os vaqueiros contam uns para os outros), mas a verdadeira estória que está sendo contada é a do burrinho que, dentro de suas limitaçõezinhas, ajuda a levar a boiada. Ele vai, ele volta, e ainda escapa com vida de uma enchente. E no fim a gente descobre que era a estória dele, que estava sendo contada: os vaqueiros são mera figuração de luxo.

(ilustração de Poty para "O burrinho pedrês")


Não vou nem falar na “Conversa de Bois”, no mesmo livro, onde temos acesso até a um diálogo telepático, mediúnico, entre os bois-de-carro que estão trasladando um defunto rumo a seu ponto final.
 
O que quero mesmo usar para comparação é “A estória de Lélio e Lina” (em Corpo de Baile, 1956), onde um vaqueiro larga um emprego, sai sem rumo, encontra no caminho um cachorro perdido e começa a segui-lo. Tal como Augusto Matraga, viajando igualmente sem rumo, seguiu o voo das maritacas, e acabou encontrando lá na ponta do trajeto a sua hora, a sua vez, e o facão de Joãozinho Bem-Bem.
 
O vaqueiro Lélio é levado pelo cachorro para aquela fazenda, à qual o cachorro pertencia. E a dona do cachorro é Dona Rosalina, uma senhora idosa e bonita, acolhedora e amiga, a quem Lélio acaba se apegando mais do que às moças de sua idade; e o resto está na estória.
 
Aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2019/02/4438-estoria-de-lelio-e-lina-2622019.html
 
Assim começa “Sequência”:
 
Na estrada das Tabocas, uma vaca viajava.
 
Vacas não viajam, não é mesmo? Viajar é um verbo humano. Pressupõe intenção, planejamento, destinação, chegada.
 
A vaca é “uma rês fujã”, que fazia parte de uma boiada oriunda “do Pãodolhão”. Rebelde, ela se desgarra da boiada e começa a refazer o trabalhoso trajeto de volta, em busca do seu lugar de origem. Dada a noticia de que a vaca fugiu, Seu Rigério, o destinatário da boiada, fica meio enfarruscado, o que faz um dos seus filhos, “o rapaz”, não nomeado, montar no cavalo e partir em busca da desgarrada.
 
E o conto é isso, a vaca voltando, esquipando de campos afora, atravessando rios, acompanhando cercas até descobrir uma brecha, mas seguindo o GPS milenar dos bichos, “fronteando o nascente” enquanto o rapaz a busca “indo de oeste para leste”. Nestas indicações, aliás, veja-se a adequação da terminologia ao personagem. Porque uma vaca não está indo do oeste para o leste, mesmo que siga nessa direção; ela se guia pelo sol que vê ou pelo que lembra.
 
E este continho inteiro é a descrição dos variados ambientes por onde passa a vaca fugindo a trote lento e o rapaz teimoso que a persegue “à espora leve”, sem perder de pista.
 
O conto se deslinda nos últimos parágrafos, quando a vaca por fim irrompe na fazenda do seu dono anterior, o Major Quitério, do Pãodolhão, seguida já de perto pelo rapaz.
 
Tanto ele era o bem-chegado!
A uma rede de pessoas. As quatro moças da casa. A uma delas, a segunda. Era alta, alva, amável. Ela se desescondia dele. Inesperavam-se? O moço compreendeu-se. Aquilo mudava o acontecido. Da vaca, ele a ela diria: “É sua”. Suas duas almas se transformavam? E tudo à sazão do ser. No mundo nem há parvoíces: o mel do maravilhoso, vindo a tais horas de estórias, o anel dos maravilhados. Amavam-se.
E a vaca-vitória, em seus ondes, por seus passos.
 
Ou seja: toda essa fuga da vaca teve como consequência (teria tido como intenção?!) arrastar o rapaz até a outra fazenda, onde ele conhece a moça, apaixonam-se e casam.
 
Tal como o cachorrinho conduziu Lélio até a fazenda onde morava Lina, o que resultou noutro tipo de desfecho.
 
No meio disso tudo, os analisadores de detalhe não deixarão de perceber pistas de que para Guimarães Rosa seguir um animal é seguir o inconsciente humano. Não porque o inconsciente seja superior ao consciente, mas porque é sua metade. Vamos reconhecer que o inconsciente também se emociona e se confunde, a intuição muitas vezes nos faz dar com os burros nágua, o instinto de vez em quando nos faz cometer ruindades. O mesmo vale para a consciência, a racionalidade, o raciocínio.
 
O recado que essas estórias nos dão não é a mensagem simplória de: “Siga o inconsciente, ele é mais sábio do que sua mente raciocinadora”, é algo simples como: “Alterne seu raciocínio e sua intuição do mesmo jeito como alterna sua perna direita e sua perna esquerda, ao caminhar.” E pronto!
 
Seguindo a vaca, o rapaz cumpre um percurso simbólico que não deixa de ter um clima de cerimônia de iniciação, como quando ele se descalça e atravessa um rio, “liso e brilhante, de movimentos invisíveis”.
 
Passo extremo! Pegou a descalçar as botas. E entrou – de peito feito. Àquelas quilas águas trans – às braças. Era um rio e seu além. Estava, já, do outro lado.
 
O rio aparece de variadas formas na obra de Guimarães Rosa, mas muitas vezes como uma fronteira, um limite, um portal que dá acesso a outro mundo. E nesse trecho vê-se também o gosto lúdico do autor, brincando com as palavras – partindo e invertendo a palavra “tranquilas”, talvez para sugerir os movimentos alternados de idas e vindas dos braços de quem nada.
 
No encerramento do conto, ele pisca o olho para a tradição oral, referindo-se à “vaca-vitória”. Minha mãe e minha tia contavam estórias à gente, na infância, e terminavam às vezes dizendo: “Era uma vez uma vaca Vitória, soltou um peido e acabou-se a estória”. E a gente ia dormir com uma gargalhada sumindo no ar.
 

(Guimarães Rosa com seus pais, D. Chiquinha e Seu Florduardo)
 
 
 
 
 
 








terça-feira, 12 de janeiro de 2021

4663) A macaca minha irmã (12.1.2021)



É impossível falar sobre este livro sem dar um spoiler, sem revelar um detalhe essencial da trama. Um detalhe que surge de surpresa, a certa altura.
 
Me consolo ao verificar que a revelação inesperada aparece na página 77, de um total de 308, portanto não estamos falando da revelação do clímax do livro. Ademais, no livro há mistérios, há perguntas não respondidas, mas estão dispostas como camadas numa cebola. O livro termina com muitos enigmas solucionados, e outros que ficarão por resolver.
 
O livro, de Karen Joy Fowler, é We Are All Completely Beside Ourselves (2013), que eu traduziria por “Nós Estamos Que Não Cabemos Em Nós Mesmas”. Saiu em 2018 pela Rocco, com o título Estamos Todos Completamente Transtornados (trad. Geni Hirata).
 
É a narrativa de Rosemary, uma estudante universitária, filha de professores universitários, que de vez em quando se mete numas pequenas confusões, e que luta para entender fatos misteriosos ocorridos na sua infância.
 
Há um prólogo onde ela confessa que quando pequena falava pelos cotovelos, a ponto de seu pai sempre lhe pedir que começasse a contar as histórias pelo meio, senão não terminava nunca. E o Capítulo 1 começa assim:
 
Então: o meio da minha história acontece no verão de 1996. Nessa época, nossa família já havia minguado até atingir o formato sugerido em nossos velhos filmezinhos com câmeras domésticas: eu, minha mãe, e, fora da imagem mas evidentemente presente, meu pai. Em 1996, haviam se passado dez anos desde que eu vira meu irmão pela última vez, e dezessete desde que minha irmã desapareceu.
(pag. 5, trad. BT)
 
Conheço algumas famílias de onde um dos filhos desapareceu, e sei que não é um assunto fácil para ninguém. Alguns sumiram na época da repressão militar, nos anos da ditadura: eram militantes, eram visados... Outros sumiram de repente e sem motivo. Foram fazer uma viagenzinha de fim de semana e nunca mais se soube deles. Polícias e autoridades foram mobilizadas; em vão.
 
Rosemary vai contando seus percalços no momento presente mas volta e meia está falando da família e de como seu irmão Lowell simplesmente foi embora de casa. E muito antes disso, um trauma ainda maior: aos 7 anos, ela foi mandada para a casa dos avós, e depois de umas semanas, ao voltar para casa, descobriu que agora estavam morando numa casa completamente diferente. E que sua irmã, Fern, tinha desaparecido... e ninguém da família lhe explicava por quê.
 
A narrativa parece estar indo numa direção, e nos preocupamos com essa família meio “disfuncional” (no sentido de que todos se sentem desconfortáveis na companhia uns dos outros), onde o pai é psicólogo. É um professor, um intelectual, mas é incapaz de responder uma pergunta clara, e na verdade parece nunca sequer ouvir o que estão lhe perguntando.
 
E é a certa altura que Rosemary faz a revelação que terei de repetir agora, correndo o risco de espoliar o prazer da leitura de alguns. Fern, a irmã, é uma chimpanzé da mesma idade que Rosemary. O pai da garota criou as duas, que são da mesma idade, juntas, como se fossem irmãs, com o objetivo de analisar as influências recíprocas, e ver até que ponto a irmã chimpanzé influía no desenvolvimento da menina, e a irmã menina influía no desenvolvimento da chimpanzé.
 
São muitas as peripécias, as idas e vindas, porque Rosemary não apenas é considerada excêntrica (e sempre foi) devido a certos traços de comportamento, mas, à medida que fica adulta, mais capaz de entender o que lhe aconteceu, os pais ficam mais velhos, a mãe tem as depressões de sempre, e o irmão que botou o pé no mundo não dá nenhum sinal de vida. (E quando recebem notícias dele, seria melhor não ter recebido.)
 
Rosemary é uma narradora ao mesmo tempo inconfiável e confiável. Inconfiável porque a toda hora ela se dirige ao leitor dizendo algo tipo, “bem, acho que está na hora de revelar um detalhe importante, eu nem queria tocar no assunto mas...”. E confiável porque é sincera, e na verdade estamos acompanhando a sua jornada de auto-conhecimento, de descoberta autobiográfica. Ela compartilha essas descobertas conosco num tom narrativo ora descontraído, ora depressivo, ora irônico. Ela gosta de frases do tipo “acho que eu devia ter mencionado isto antes”.


Karen Joy Fowler é conhecida do grande público pelo grande sucesso que teve O Clube de Leitura Jane Austen (2004). Eu cheguei a ela por vias transversas. Fui seu aluno na Clarion Workshop em 1991, em Michigan, onde durante uma semana ela orientou a turma e criticou nossos contos. Quando alguns colegas me disseram que meu conto “Stuntmind” não tinha enredo, ela me disse que sim, e que o nome daquilo era “enredo revelatório” (“revelatory plot”) – o que me consolou bastante.
 
We Are All... tem também um enredo revelatório, pois embora aconteçam mil peripécias (bebedeiras, mortes, fugas, prisões, atentados terroristas) o cerne da história é a revelação gradual do passado da narradora. O que aconteceu com sua irmã Fern é, num certo sentido, de cortar o coração.
 
A sensação mais forte deixada nesse livro, contudo, é que com ou sem spoiler, com ou sem revelação bombástica, Rosemary considera Fern sua irmã real, da primeira à última página do livro. Foram criadas juntas, cresceram juntas, dividindo mil coisas. Há páginas e páginas com relatos de travessuras, de problemas, de brincadeiras, de birras, de exercícios, de compartilhamento de experiências, de momento em que duas “pessoas” sentem-se como se estivessem lendo o pensamento uma da outra, e isso cria entre elas um vínculo difícil de desmanchar futuramente.
 
Fern vive dentro da casa, sempre supervisionada pelo Professor e pelos alunos de graduação em Psicologia, que vêm a residência deles todos os dias, tomando notas sobre Rosemary e Fern. A garota cresce dentro disso. Ter pai cientista é normal. Ter estudantes dentro de casa é normal. Ter um irmão menino e uma irmã macaca é normal. Os laços de empatia que se criam entre ela e a irmã desencadeiam toda a transformação porque passa a vida de Rosemary (e de seu irmão Lowell, o sumido, que reaparece na segunda metade do livro).
 
O romance recebeu o Pen/Faulkner Award, foi finalista do Booker Prize e foi indicado para o Prêmio Nebula de Ficção Científica. Isto levanta a última questão que proponho aqui: é um livro de ficção científica? O livro conta uma experiência científica um tanto ousada (embora não imaginária: um apêndice comenta os vários casos semelhantes já ocorridos), e que produz consequências inesperadas na vida dos envolvidos. Questões científicas são discutidas várias vezes, a sério, no transcorrer da história.
 
Para mim, o que falta ao livro para que eu o considere FC (caso isto seja importante) é a ausência de elementos fantásticos e especulativos. É uma ficção realista sobre procedimentos científicos, e suas consequências sobre os humanos que deles participam; mas falta o estranho, o bizarro, o sobrenatural, o impossível. O livro vai até um limite, e não o transpõe. Deveria transpô-lo? Para mim, não: é um excelente livro do jeito que já é, e não sinto a menor necessidade de que alguém mexesse nele para poder chamá-lo de FC.
 
Não pertence ao gênero popular chamado “ficção científica”, mas é um excelente livro de ficção sobre a ciência.
 
O melhor livro que li de Karen Joy Fowler, inédito no Brasil, é Sarah Canary (1991), história ambientada por volta de 1860, no interior dos EUA, onde surge uma mulher misteriosa que não entende inglês e parece não saber falar, mas ao mesmo tempo uma intuição misteriosa a conduz numa jornada através da América. O crítico John Clute o considera “uma das melhores histórias de primeiro contato com alienígenas”. É uma história bastante próxima ao conto “Um Moço Muito Branco” (1962), de Guimarães Rosa.
 



 
 

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

3896) O leão sorridente (19.8.2015)




Por volta de 1731, o rei Frederico da Suécia recebeu um presente enviado pelo Rei de Argel: um leão, coisa rara na Suécia, algo que pouquíssimos habitantes do país nórdico tinham visto a não ser nas ilustrações pouco confiáveis da época, nos brasões heráldicos, nas pinturas. 

Presentear animais selvagens era um costume dos nobres daquele tempo. Podemos lembrar do romance de José Saramago, O elefante do rei A viagem do elefante (2008), que conta a odisséia do paquiderme que o rei João III de Portugal enviou de presente ao Arquiduque Maximiliano, da Áustria.

No caso do leão, o rei sueco se afeiçoou ao animal e o manteve em cativeiro e em exibição enquanto o animal durou. Após sua morte, decidiu que ele continuaria sendo visto pelo público, e enviou seus restos mortais para um taxidermista, a quem caberia empalhar o animal. Só que o artista não conhecia leões, e recebeu apenas os ossos e a pele do bicho.

O resultado foi uma criatura que não parece leão nem aqui nem em Estocolmo; lembra mais um cachorro sorridente, com dentes humanos e língua de fora. Sua imagem tem sido usada satiricamente na Internet (ver aqui: http://tinyurl.com/p5byrym). 

O caso do Leão do Castelo de Gripsholm, como é chamado, lembra outro presente real famoso, o rinoceronte que Dom Manuel I de Portugal recebeu e que foi imortalizado numa célebre gravura de Albrecht Durer. É um animal mais ornamental do que zoológico, sobre o qual já escrevi aqui: http://tinyurl.com/pu8hj4a).   


Não se trata apenas de que os artistas envolvidos são incompetentes ou maus observadores. Eu diria, pra resumir, que o contato com o Extraordinário estimula mais a imaginação do que a observação. Ao enxergar uma criatura que não corresponde aos seus parâmetros, ao seu repertório de referências, o artista interpreta detalhes erradamente; faz associações de idéias que não se aplicam ao caso; preenche lacunas coma primeira coisa ou a coisa mais vistosa) que lhe vem à mente. 

Sua imaginação é despertada por aquele objeto exótico ou bizarro que parece menos uma coisa real do que um produto da imaginação de outro artista.

O leão sorridente de Gripsholm e o rinoceronte de Durer pertencem à mesma categoria que aqueles mapas náuticos seiscentistas cheios de referências a lugares imaginários e a monstros fantásticos. 

Neles convivem, num mesmo plano, a realidade observada e os complementos arbitrariamente fantasiados pelo artista. 

É a mesma receita da ficção científica – só que neste caso a mistura é consciente, proposital e faz parte de uma convenção cultural da época. São objetos literários estimuladores da imaginação, mesmo que aparentados da observação científica.




quarta-feira, 20 de novembro de 2013

3348) Crimes da ciência (20.11.2013)





(Ming)



A Ciência é admirável e terrível. Algo como um espetáculo que nos atrai, do qual não conseguimos afastar os olhos, mas se chegarmos muito perto corremos o risco de ser destruídos. 

Ela se baseia na busca de fatos e de constantes (as chamadas “leis da natureza”) objetivas, que existem no mundo. “Objetivos” quer dizer coisas que existem fora da nossa consciência, algo que não depende de nossa consciência para existir. 

Como dizia Philip K. Dick, "realidade" são todas as coisas que não desaparecem quando a gente deixa de acreditar na existência delas.

Nessa busca do que é objetivo, do que é coletivo, geral, universal, as ciências precisam muitas vezes considerar secundário todo indivíduo, todo caso isolado, toda pessoa. 

O que buscam, em princípio (tenhamos sempre cuidado com as generalizações – cada ciência tem métodos e objetivos diferentes), é o que há em comum entre todos os indivíduos. Nessa busca de constantes universais, os indivíduos às vezes saem perdendo.

Foi o caso que a imprensa noticiou assim: “Cientistas Matam Acidentalmente o Animal Mais Velho do Mundo”

Era um molusco oceânico descoberto perto da Islândia em 2006. Os cientistas calculam a idade deles contando os anéis em sua concha, por dentro e por fora. A avaliação era de que o molusco tinha 507 anos quando foi descoberto, mas a contagem era imprecisa. Para chegar ao número certo, seria preciso abrir a concha e olhar dentro. 

Foi o que eles fizeram, certamente tomando o máximo de cuidado. Nem sempre o máximo é o bastante, e durante o processo o bicho morreu. 

O que lembra aquela piada, em que o doente diz: “Doutor, o que é que eu tenho?”, e o médico: “Fique tranquilo, saberemos na autópsia”.

Temos o direito de sacrificar um ser vivo só para saber com “certeza científica” a idade que ele tem? Os cientistas provavelmente não teriam feito o que fizeram se tivessem certeza de que isso mataria Ming (até nome o molusco recebeu!). 

Não é o mesmo caso daquele lenhador norte-americano que meteu a motosserra numa árvore (há poucos anos) para ver que idade tinha, e descobriu que era A Árvore Mais Velha do Mundo. Neste caso, os anéis internos do tronco não poderiam ser cortados sem matar a árvore; no do molusco, acho que os cientistas tinham alguma chance de poupar o espécime.

É, amigos, a vida é frágil. Como disse G. K. Chesterton em Orthodoxy

“Dê uma pancada num vidro, e ele não durará um instante; deixe-o em paz, e ele vai durar mil anos. (...) A felicidade depende de não fazermos algo que podemos fazer a qualquer instante, e que, muitas vezes, não é muito claro para nós que não devemos fazê-lo.” 

Quando sabemos, é tarde demais.










terça-feira, 19 de julho de 2011

2612) O melhor amigo do homem (19.7.2011)





Rex, abre a janela e se estiver fazendo um dia bonito dá três latidos. Beleza. 

Rex, vai na cozinha. Tem uma chaleira com água, em cima do fogão. Torce o botão com a boca, aperta o acendedor com o focinho. Deixa que o resto em mesmo faço. 

Uaaaaah. Agora vou tomar meu banho. Rex, depois vai no meu quarto e forra a cama, visse?

Rex, vê só as ironias da história. Pacote de biscoito? Obrigado. A humanidade desperdiçou bilhões de dólares tentando fabricar robôs de metal, com juntas articuladas, circuitos eletrônicos, garras preênseis de alumínio e titânio, na esperança boba de que essas catrevagens conseguissem nos ajudar nas tarefas cotidianas. Quebraram a cara, não foi? 

Me passa aqui a geléia. Valeu. Pois é, podem servir para montar carcaças de automóveis em Detroit ou Betim, mas eu mesmo é que não queria uma daquelas aranhas niqueladas tilintando por dentro da minha casa. Não tenho empatia com máquinas. Máquina não sente a dor de uma topada, e por isso é indiferente às nossas. Máquina pensa como inseto. 

O ser humano precisa de um ambiente mamífero à sua volta. Pega aqui o jornal, bota no balde de lixo, o de lixo de papel pra reciclar. Obrigado.

Rex, leva os pratos pra pia e liga meu notebook enquanto eu escovo os dentes. Acho que o ser humano se encantou demais com essa besteira de instrumentos. Acha que todo o trajeto evolutivo do ser humano tem que ser por aí. Besteira. 

O antropóide primitivo usou um pedaço de pau ou de osso pra quebrar algum galho, deu certo, e daí em diante ele só conseguiu enxergar a evolução social em termos de pedaços-de-osso-artificiais. Feito aquele macaco de 2001, Rex, aquele que você late sempre que vê na tela. Do osso para a espaçonave. Um milhão de anos de equívocos. Pega ali meu celular na mesinha de cabeceira.

Bem, como eu ia dizendo, não era por aí. Desprezamos a convivência das criaturas biológicas para perseguir essa devaneio bobo de fabricar criaturas de metal. Rex, se ao invés de construir o primeiro simulacro humano tivéssemos feito o primeiro upgrade num cachorro, teríamos queimado um milhão de etapas. 

Tocaram a campainha, vai lá. Se for o síndico bota pra correr. 

Foi preciso uma crise econômica mundial para que esquecêssemos esse delírio de produzir engenhocas. Para que investíssemos em escolas de humanização de animais domésticos, de interfaces semióticas, de socialização em nosso benefício mútuo. 

Era o Sedex? Põe na escrivaninha. Descobrimos que cães, chimpanzés, golfinhos, corvos e muitos outros são um exército-reserva de bilhões de operários, secretários, mordomos em potencial, bastando apenas que lhes sejam dados os benefícios da bio-graduação e da escolarização especializada. OK, vou trabalhar, pode ligar a TV e assistir Os Simpsons

Não troco você pelo R. Daneel Olivaw de Asimov nem pela Rose dos Jetsons. Melhor do que você, Rex, só mesmo Gisele Bundchen de avental, mas machismo hoje é proibido por lei.




sábado, 12 de junho de 2010

2140) Mundo Clone (16.1.2010)



O cidadão comum tem uma idéia um pouco utópica do que é uma invenção científica. Ele pensa que um belo dia Galileu teve a idéia do telescópio, construiu um, exibiu-o aos amigos e aos colegas de Universidade, e meses depois já havia em Florença ou Pisa fábricas trabalhando dia e noite e exportando telescópios para a Europa inteira. Na verdade, leva muito tempo uma invenção ser aceita pela comunidade científica, e mais tempo ainda para se tornar um produto industrial viável. Portanto, ninguém imagine que em 2010 vai encontrar no Shopping algumas destas novidades recentes.

Por exemplo: clonar animais domésticos é um sonho antigo de muita gente, que aos poucos vai se tornando uma prática. Desde que a ovelha Dolly foi clonada em 1997, milhões de pessoas deram o passo mental seguinte e pensaram: “E se em vez de clonarem um bicho estúpido qualquer clonassem o MEU animal de estimação?” De repente, pessoas que têm um cachorro com dez anos (que para uma idade de cachorro corresponde a 70) imaginaram a possibilidade de superar a futura dor da perda com a futura alegria do reencontro. O companheiro de tantos anos iria sumir, mas apenas para ser substituído por um filhotinho idêntico ao que ele era quando tinha poucos dias de idade. Com sorte, os dois chegariam a conviver e a comer juntos da mesma raçãozinha!

Foi o que ocorreu com Lou Hawthorne, que criou em 1997 o Missyplicity Project, o primeiro projeto em larga escala de clonagem de cães e gatos, que em 2001 produziu o primeiro gato clonado do mundo. O nome do projeto é uma homenagem a Missy, o cachorro de estimação da mãe de Hawthorne. Durante alguns anos, Lou clonou gatos e cachorros, literalmente, mas este ano anunciou a interrupção do projeto, citando alguns motivos.

Um deles: o mercado é pequeno. Lou fez um concurso (para efeito publicitário) em que o prêmio seria a clonagem gratuita de um animal. Esperava centenas de milhares de concorrentes: conseguiu apenas 237. Não precisa dizer que é muito menor o número dos clientes dispostos a pagar 140 mil dólares, preço de mercado de um clone animal. Em segundo lugar, ele alega que há outras empresas fazendo guerra de preços (com a qual ele não consegue competir), que as patentes científicas dão problemas jurídicos constantes, que é muito trabalhoso cuidar de um grande número de clones.

Principalmente, ele alega que a clonagem não é tão simples quanto parece. Não é como copiar um arquivo ou xerocar um documento. Um clone que deveria ter pelo branco nasceu com pelo amarelado. Outros nasceram com malformações do esqueleto, que, mesmo não os deixando inválidos, causaram-lhes problemas permanentes. E finalmente houve um caso de um animal macho cujo clone nasceu fêmea! Eu diria que basta esta última notícia no jornal para esvaziar na hora a fila de candidatos à porta da empresa. Se uma clonagem não consegue reproduzir o sexo do animal clonado, corre o risco até de você clonar um gato e ganhar um cachorro.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

1679) O pensamento animal (30.7.2008)



(Sue Savage-Rumbaugh)

Cientistas vivem pesquisando (com verbas minguadas e pouco interesse da imprensa) a comunicação entre seres humanos e animais. É sintomático que a gente seja capaz de acreditar em “inteligência artificial”, algo produzido em laboratório com chips e fiação elétrica, e não se interessa pela inteligência de criaturas que convivem conosco há milhões de anos. Já defendi a necessidade de pesquisas para que pudéssemos nos comunicar com os macacos (http://mundofantasmo.blogspot.com/search?q=0095). Arrependo-me do modo impudente com que tratei nossos semelhantes, e temo que em poucas décadas, já alfabetizados, eles leiam aquela coluna e cuspam no meu túmulo.

Leio agora na New Scientist de 24 de maio que cientistas como Sue Savage-Rumbaugh, da Georgia State University (Atlanta) têm feito progressos notáveis na comunicação com os chimpanzés, principalmente os chamados chimpanzés-anões (“bonobos”). Os macacos já são capazes de entender centenas de palavras inglesas e mesmo frases de construção complexa. Não as repetem, porque seu aparelho fonador é diferente do nosso; mas entendem instruções, cumprem ordens. Diz a revista que “usando quadros com figuras, eles participam de conversas entre dois, três ou quatro interlocutores, entre humanos e macacos, falando sobre objetos, intenções, ações e estados de espírito”.

Os chimpanzés-anões são capazes de entender frases que contenham um verbo e três substantivos: “Pode levar o chocolate para a sala do meio?” Bonobos chegaram a inventar palavras compostas, reunindo “água” e “ave” para designar “pato”. Há um animal chamado Kanzi que é capaz de entender centenas de frases, como “mostre-me a bola”, “traga a figura com a cobra” ou “posso beliscar seu bumbum?”. A Dra. Savage-Rumbaugh cita uma ocasião em que ela entregou a Kanzi uma cenoura, pedindo-lhe que a colocasse na água. O chimpanzé jogou a cenoura pela janela. Ela achou que ele não tinha entendido, e repetiu o pedido. O chimpanzé apontou para fora: estava chovendo.

E não só chimpanzés. O mesmo artigo cita um papagaio chamado Alex, que foi estudado durante 20 anos numa universidade em Massachusetts. Alex conhecia as palavras que designavam mais de 50 objetos, sete cores e cinco formas geométricas. Entendia os números de 1 a 10, embora não soubesse contar em seqüência; e (o artigo afirma, mas não explica como) compreendia o conceito do zero, que mesmo para a humanidade demorou milhares de anos para surgir. Infelizmente, Alex morreu no ano passado.

Se dedicássemos a isto meros 10% do que dedicamos à informática (não que eu tenha nada contra ela!) talvez chegássemos a resultados surpreendentes. Dizemos que os animais não são inteligentes apenas porque eles não são inteligentes como nós, e nos maravilhamos com eles quando aprendem formas rudimentares de nossa apreensão do mundo. Não custaria nada tentarmos aprender um pouco o modo como eles próprios pensam, lembram, sentem, se comunicam.