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domingo, 6 de abril de 2025
5169) "Flow" e a arte de narrar (6.4.2025)
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024
5034) As minhas vacas (21.2.2024)
Quando eu tinha doze ou treze anos, na casa em frente à
nossa morava um homem que criava duas vacas leiteiras. A casa dele não existe
mais, ou melhor, existe no mesmo sentido em que o Maracanã continua existindo
no Rio de Janeiro. A estrutura original foi removida, e em seu lugar aplicou-se
uma jaqueta arquitetônica, um dente artificial que aproveita a raiz do dente anterior.
Era uma casa larga, de frente para a nossa, mas num nível
levemente inferior, porque o Alto Branco é uma colina de inclinação suave, onde
tudo desce na direção da Avenida Canal, antes de se reerguer novamente rumo ao
centro da cidade.
A poeira do sótão das lembranças me faz às vezes misturar
os nomes das famílias que moraram ali, mas ao enfiar a mão no baú da memória o
nome que me vem é o de Seu Rodoval. A casa tinha um espaço largo na parte
lateral, um beco-coberto, por onde eu e os filhos dele entrávamos para chegar à
vacaria, nos fundos.
Ali, tinha um quintal com algumas árvores, com muros
baixos e um matagal brabo do lado de fora. E nos fundos da casa havia dois
cochos não muito largos onde as duas vacas passavam a maior parte do tempo. Foram
poucas as vezes em que me aproximei daqueles seres desmedidos, alienígenas, de
corpo maciço e quente, e olhos negros, líquidos, com toda a tristeza e a
resignação do mundo.
Eram mansas, e eu ficava brincando com os outros garotos,
enquanto algum dos mais velhos pegava a foice, afiava na aresta do degrau de
pedra e começava a cortar palma para dar de comer às bichinhas. A palma é um
cactáceo (vejam só, eu nessa época já sabia o que era um cactáceo), uma planta
achatada e arredondada que serve de alimento ao gado. Como todos os cactos, tem
muita fibra, e guarda líquido nos seus internos. A superfície externa tem
alguns espinhos pequenos, coisa que a boca da vaca tira de letra.
Zé de Seu Rodoval pegava a foice e ficava fatiando a
palma, jogando dentro do cocho ou então estendendo para que a vaca comesse na
mão dele. Eu também cheguei a me atrever, peguei um desses pedaços e estendi
para a comensal mais próxima. Ela refugou com a cabeça; mas foi para espantar
alguma mosca, e então esticou o pescoço e abocanhou prudentemente o pedaço de
palma que eu lhe estendia, deixando bem claro que não tinha intenção de
arrancar a minha mão resoluta e trêmula.
As vacas eram personagens importantes na economia
doméstica da rua, mas não figuravam muito nos meus planos, nem nos planos dos
outros meninos, Zé, Boaventura e os mais novos. Nosso negócio era jogar pelada
na própria rua, que na época tinha uma extensão de oito ou dez casas e era de
terra batida. (Nossa rua só veio a ser calçada pela Prefeitura quando eu já
morava fora de Campina, já estava casado e pai.)
Quero render minha homenagem (talvez até póstuma) a Zé de Seu Rodoval, que era um cara troncudo, alourado, sardento, com físico de estivador, apesar de naquela época ter menos de vinte anos. Zé não era um craque, mas fez um gol, ali mesmo, em frente às nossas casas, que não esqueci até hoje.
https://www.youtube.com/watch?v=shoYZ26Nr6o
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022
4792) Um cachorro doido (9.2.2022)
Era uma roda de chat, online, via zum. (Não reclamem do “zum”; é uma tentativa de abrasileirar nosso idioma atual.) Eu estava com alguns amigos, nordestinos, conversando miolo de pote, e alguém contou um episódio bizarro acontecido há pouco tempo.
– Não é possível – disse alguém. – Quem foi que contou essa história?
– Fulano.
– Ah, esquece. Fulano mente mais do que cachorro doido.
Houve uma risada geral, porque esse amigo, cujo nome omito por cautela, é um notório inventor de mirabolâncias. Mas a comparação, que é familiar no idioma nordestinense, acendeu uma luzinha na minha memória.
“Fulano mente mais do que cachorro doido.” Cachorro doido mente?
Primeiro, uma explicação necessária. Cachorro doido, pelo menos no Nordeste, não quer dizer cachorro psicótico ou catatônico. É simplesmente o cachorro hidrófobo, o cachorro contaminado pelo vírus da raiva. O animal fica alucinado de sofrimento e sai pela rua afora disposto a morder quem se atravesse na sua frente (e quando isso acontece, inocula o vírus na vítima).
Vamos aprofundar mais um degrau nessa questão. Cachorros, em geral, mentem?
Eu diria que não, ou quase nunca. Vamos fazer uma comparação entre cachorro e gato. Durante minha infância já teve cachorro lá em casa (não pensem que me esqueci de Lunik), e dezenas de gatos (Brigitte, Iscocó, Gasolina, Rum Montilla, etc.). Não sou chegado ser dono de animais, mas sempre convivi numa boa, sempre me interessei pela psicologia deles.
Comparados aos gatos, os cachorros são os animais mais sinceros, mais ingênuos, mais espontâneos do mundo. O gato é sonso, interesseiro, seguro de si. Faz o que quer. Vive num Egito mental, onde os faraós se curvam à sua passagem. São mestres em dissimulação, em esconde-esconde, em pequenos furtos, pequenas surtidas clandestinas a espaços proibidos. O gato vive em função de suas próprias conveniências.
O cachorro não. Ele vive, em regra geral, em função das conveniências do seu dono. É um ansioso para agradar. Até aquelas abomináveis lambidas em nossa cara são feitas na ilusão de que está nos proporcionando um prazer transcendental qualquer.
Quando dizemos que o cão é o símbolo de fidelidade, queremos dizer exatamente isso, que ele não mente, ele não tem segundas intenções quanto ao dono ou à dona. Claro que cada tipo de cachorro tem seu temperamento. Existem os sisudos e meditativos; os irrequietos e frívolos; os soturnos e ameaçadores; os vaidosos e posudos; os brincalhões e saltitantes; os bamboleantes e desajeitados...
Mas todos são sinceros. Cachorro não mente.
E cachorro doido? Cão hidrófobo? Mente, ou não?
Entra aí uma questão interessante, porque o cão com hidrofobia, coitado, é ainda mais incapaz de mentir. A “raiva” afeta o sistema nervoso central, deixa o animal irritadiço, com dificuldade para engolir, hiper-sensível a qualquer estímulo... Ele sai sufocado, andando num trote inquieto, cheio de espasmos, sempre em linha reta, olhar vidrado sem enxergar direito, babando, e mordendo com fúria qualquer coisa em que venha a esbarrar.
Já vi uns dois ou três assim, e teve um episódio inesquecível nas lavanderias do Alto Branco, quando certo fim de tarde apareceu um cachorro doido que botou pra correr as lavadeiras no gramado em volta dos poços. O bicho ficou zanzando em círculos, sem rumo, sem atinar com coisa alguma, até que nosso vizinho Zé Buraco (ex-zagueiro do Treze) emergiu de casa com uma espingarda e foi um tiro só.
Um animal nesse estado é virtualmente incurável; um ser humano também.
O filme de zumbi é um gênero tão em voga, não é mesmo? Eu pelo menos acabei de rever o filme pioneiro de George Romero, Night of the Living Dead.
Muitos
críticos já ressaltaram algumas semelhanças entre os zumbis desses filmes e seres
humanos atacados de hidrofobia. Não tem retorno. Não tem cura para eles. É
preciso abatê-los, para que o mal não se propague. Não tem discussão, não tem
pedido de piedade, não tem por-favor nem jeitinho-brasileiro. O zumbi é como o
hidrófobo: já morreu, mas tem que ser abatido. Por isso o filme de zumbi é uma
grande metáfora do nosso século; consultem os borderôs.
Cachorro doido mente? Eu afirmo que não. Mentir implica num movimento do intelecto, na avaliação simultânea de dois cursos de ação e na escolha pelo curso que leva ao engano, à mensagem falsa, à intenção de enganar. Que pode até ser uma intenção benévola – quantas vezes a gente não diz uma mentira a uma criança, um idoso senil, um bêbado?
Só mente quem é capaz de pensar, e um cachorro hidrófobo não é capaz de pensar nem sequer seus pensamentozinhos caninos, seus pensamentos da cachorra Baleia, de Graciliano.
Um cão hidrófobo é um animal possuído por uma idéia fixa, ou melhor, por um conjunto-de-sensações fixo, e essas sensações são dolorosas, produzem todas um sofrimento insuportável, que o conduz à fúria.
Um cachorro doido é como um Fanático. O Fanático não mente. Ele está possuído por uma idéia fixa, essa idéia ocupa todo o espaço raciocinador de que ele dispõe, e quanto mais aumenta seu fanatismo mais diminui sua capacidade de raciocinar até para essas funções mais simples, tipo uma mentirinha básica. O Fanatismo é uma patologia de sinceridade absoluta, que exclui o pensamento; como um “disco enganchado” repetindo eternamente a mesma fração de idéia.
Portanto...
A expressão “Fulano mente mais do que cachorro doido” precisa ser revista, porque cachorro doido não mente. Nós, todos nós, mentimos mais do que cachorro doido. Mentir implica numa avaliação, numa escolha e numa ação. Somos todos capazes de mentir, porque somos capazes de pensar e de tomar decisões.
Um cachorro doido não, coitado.
Cachorro doido mente? Eu afirmo que não. Mentir implica num movimento do intelecto, na avaliação simultânea de dois cursos de ação e na escolha pelo curso que leva ao engano, à mensagem falsa, à intenção de enganar. Que pode até ser uma intenção benévola – quantas vezes a gente não diz uma mentira a uma criança, um idoso senil, um bêbado?
Só mente quem é capaz de pensar, e um cachorro hidrófobo não é capaz de pensar nem sequer seus pensamentozinhos caninos, seus pensamentos da cachorra Baleia, de Graciliano.
Um cão hidrófobo é um animal possuído por uma idéia fixa, ou melhor, por um conjunto-de-sensações fixo, e essas sensações são dolorosas, produzem todas um sofrimento insuportável, que o conduz à fúria.
Um cachorro doido é como um Fanático. O Fanático não mente. Ele está possuído por uma idéia fixa, essa idéia ocupa todo o espaço raciocinador de que ele dispõe, e quanto mais aumenta seu fanatismo mais diminui sua capacidade de raciocinar até para essas funções mais simples, tipo uma mentirinha básica. O Fanatismo é uma patologia de sinceridade absoluta, que exclui o pensamento; como um “disco enganchado” repetindo eternamente a mesma fração de idéia.
Portanto...
A expressão “Fulano mente mais do que cachorro doido” precisa ser revista, porque cachorro doido não mente. Nós, todos nós, mentimos mais do que cachorro doido. Mentir implica numa avaliação, numa escolha e numa ação. Somos todos capazes de mentir, porque somos capazes de pensar e de tomar decisões.
Um cachorro doido não, coitado.
quarta-feira, 18 de agosto de 2021
4735) Primeiras Estórias: "Sequência" (18.8.2021)
Existem outros onde os animais aparecem
como representações arquetípicas do inconsciente pessoal ou coletivo, e cada
entrada deles na estória parece acompanhada por uma orquestra – inaudível;
afinal, estamos em um livro.
Nos livros de Rosa muitas vezes alguma coisa acontece em
torno de animais que parecem estar vivendo num mundo só deles, onde eles sabem
coisas, se relacionam de maneira complexa com coisas que só a eles dizem
respeito, e conseguem fazer isso apesar de estarem misturados a um mundo
confuso de seres humanos dos quais não conseguem se livrar.
Talvez o melhor exemplo disso seja o “burrinho pedrês” do
conto que abre Sagarana (1946). Nessa
noveleta contam-se mil estórias humanas (os vaqueiros contam uns para os
outros), mas a verdadeira estória que está sendo contada é a do burrinho que,
dentro de suas limitaçõezinhas, ajuda a levar a boiada. Ele vai, ele volta, e
ainda escapa com vida de uma enchente. E no fim a gente descobre que era a
estória dele, que estava sendo contada: os vaqueiros são mera figuração de
luxo.
https://mundofantasmo.blogspot.com/2019/02/4438-estoria-de-lelio-e-lina-2622019.html
Na estrada das Tabocas, uma vaca viajava.
Tanto ele era o bem-chegado!A uma rede de pessoas. As quatro moças da casa. A uma delas, a segunda. Era alta, alva, amável. Ela se desescondia dele. Inesperavam-se? O moço compreendeu-se. Aquilo mudava o acontecido. Da vaca, ele a ela diria: “É sua”. Suas duas almas se transformavam? E tudo à sazão do ser. No mundo nem há parvoíces: o mel do maravilhoso, vindo a tais horas de estórias, o anel dos maravilhados. Amavam-se.E a vaca-vitória, em seus ondes, por seus passos.
Passo extremo! Pegou a descalçar as botas. E entrou – de peito feito. Àquelas quilas águas trans – às braças. Era um rio e seu além. Estava, já, do outro lado.
terça-feira, 12 de janeiro de 2021
4663) A macaca minha irmã (12.1.2021)
É impossível falar sobre este livro sem dar um spoiler, sem revelar um detalhe essencial da trama. Um detalhe que surge de surpresa, a certa altura.
Então: o meio da minha história acontece no verão de 1996. Nessa época, nossa família já havia minguado até atingir o formato sugerido em nossos velhos filmezinhos com câmeras domésticas: eu, minha mãe, e, fora da imagem mas evidentemente presente, meu pai. Em 1996, haviam se passado dez anos desde que eu vira meu irmão pela última vez, e dezessete desde que minha irmã desapareceu.
(pag. 5, trad. BT)
Karen Joy Fowler é conhecida do grande público pelo
grande sucesso que teve O Clube de
Leitura Jane Austen (2004). Eu cheguei a ela por vias transversas. Fui seu
aluno na Clarion Workshop em 1991, em Michigan, onde durante uma semana ela
orientou a turma e criticou nossos contos. Quando alguns colegas me disseram
que meu conto “Stuntmind” não tinha enredo, ela me disse que sim, e que o nome
daquilo era “enredo revelatório” (“revelatory plot”) – o que me consolou
bastante.
We Are All... tem
também um enredo revelatório, pois embora aconteçam mil peripécias (bebedeiras,
mortes, fugas, prisões, atentados terroristas) o cerne da história é a
revelação gradual do passado da narradora. O que aconteceu com sua irmã Fern é,
num certo sentido, de cortar o coração.
A sensação mais forte deixada nesse livro, contudo, é que
com ou sem spoiler, com ou sem revelação bombástica, Rosemary considera Fern
sua irmã real, da primeira à última página do livro. Foram criadas juntas,
cresceram juntas, dividindo mil coisas. Há páginas e páginas com relatos de
travessuras, de problemas, de brincadeiras, de birras, de exercícios, de
compartilhamento de experiências, de momento em que duas “pessoas” sentem-se
como se estivessem lendo o pensamento uma da outra, e isso cria entre elas um
vínculo difícil de desmanchar futuramente.
Fern vive dentro da casa, sempre supervisionada pelo
Professor e pelos alunos de graduação em Psicologia, que vêm a residência deles
todos os dias, tomando notas sobre Rosemary e Fern. A garota cresce dentro
disso. Ter pai cientista é normal. Ter estudantes dentro de casa é normal. Ter
um irmão menino e uma irmã macaca é normal. Os laços de empatia que se criam
entre ela e a irmã desencadeiam toda a transformação porque passa a vida de
Rosemary (e de seu irmão Lowell, o sumido, que reaparece na segunda metade do
livro).
O romance recebeu o Pen/Faulkner Award, foi finalista do
Booker Prize e foi indicado para o Prêmio Nebula de Ficção Científica. Isto
levanta a última questão que proponho aqui: é um livro de ficção científica? O
livro conta uma experiência científica um tanto ousada (embora não imaginária:
um apêndice comenta os vários casos semelhantes já ocorridos), e que produz
consequências inesperadas na vida dos envolvidos. Questões científicas são
discutidas várias vezes, a sério, no transcorrer da história.
Para mim, o que falta ao livro para que eu o considere FC
(caso isto seja importante) é a ausência de elementos fantásticos e
especulativos. É uma ficção realista sobre procedimentos científicos, e suas consequências
sobre os humanos que deles participam; mas falta o estranho, o bizarro, o
sobrenatural, o impossível. O livro vai até um limite, e não o transpõe.
Deveria transpô-lo? Para mim, não: é um excelente livro do jeito que já é, e
não sinto a menor necessidade de que alguém mexesse nele para poder chamá-lo de
FC.
Não pertence ao gênero popular chamado “ficção científica”,
mas é um excelente livro de ficção sobre a ciência.
O melhor livro que li de Karen Joy Fowler, inédito no
Brasil, é Sarah Canary (1991),
história ambientada por volta de 1860, no interior dos EUA, onde surge uma
mulher misteriosa que não entende inglês e parece não saber falar, mas ao mesmo
tempo uma intuição misteriosa a conduz numa jornada através da América. O
crítico John Clute o considera “uma das melhores histórias de primeiro contato
com alienígenas”. É uma história bastante próxima ao conto “Um Moço Muito
Branco” (1962), de Guimarães Rosa.
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
3896) O leão sorridente (19.8.2015)
Por volta de 1731, o rei Frederico da Suécia recebeu um presente enviado pelo Rei de Argel: um leão, coisa rara na Suécia, algo que pouquíssimos habitantes do país nórdico tinham visto a não ser nas ilustrações pouco confiáveis da época, nos brasões heráldicos, nas pinturas.
Presentear animais selvagens era um costume dos nobres daquele tempo. Podemos lembrar do romance de José Saramago,
No caso do leão, o rei sueco se afeiçoou ao animal e o
manteve em cativeiro e em exibição enquanto o animal durou. Após sua morte, decidiu
que ele continuaria sendo visto pelo público, e enviou seus restos mortais para
um taxidermista, a quem caberia empalhar o animal. Só que o artista não
conhecia leões, e recebeu apenas os ossos e a pele do bicho.
O resultado foi uma criatura que não parece leão nem aqui
nem em Estocolmo; lembra mais um cachorro sorridente, com dentes humanos e
língua de fora. Sua imagem tem sido usada satiricamente na Internet (ver aqui: http://tinyurl.com/p5byrym).
O caso do Leão do Castelo de Gripsholm, como é chamado, lembra outro presente real famoso, o rinoceronte que Dom Manuel I de Portugal recebeu e que foi imortalizado numa célebre gravura de Albrecht Durer. É um animal mais ornamental do que zoológico, sobre o qual já escrevi aqui: http://tinyurl.com/pu8hj4a).
O caso do Leão do Castelo de Gripsholm, como é chamado, lembra outro presente real famoso, o rinoceronte que Dom Manuel I de Portugal recebeu e que foi imortalizado numa célebre gravura de Albrecht Durer. É um animal mais ornamental do que zoológico, sobre o qual já escrevi aqui: http://tinyurl.com/pu8hj4a).
Não se trata apenas de que os artistas envolvidos são incompetentes ou maus observadores. Eu diria, pra resumir, que o contato com o Extraordinário estimula mais a imaginação do que a observação. Ao enxergar uma criatura que não corresponde aos seus parâmetros, ao seu repertório de referências, o artista interpreta detalhes erradamente; faz associações de idéias que não se aplicam ao caso; preenche lacunas coma primeira coisa ou a coisa mais vistosa) que lhe vem à mente.
Sua imaginação é despertada por aquele objeto exótico ou bizarro que parece menos uma coisa real do que um produto da imaginação de outro artista.
Neles convivem, num mesmo plano, a realidade observada e os complementos arbitrariamente fantasiados pelo artista.
É a mesma receita da ficção científica – só que neste caso a mistura é consciente, proposital e faz parte de uma convenção cultural da época. São objetos literários estimuladores da imaginação, mesmo que aparentados da observação científica.
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
3348) Crimes da ciência (20.11.2013)
(Ming)
A Ciência é admirável e terrível. Algo como um espetáculo
que nos atrai, do qual não conseguimos afastar os olhos, mas se chegarmos muito
perto corremos o risco de ser destruídos.
Ela se baseia na busca de fatos e de constantes (as chamadas “leis da natureza”) objetivas, que existem no mundo. “Objetivos” quer dizer coisas que existem fora da nossa consciência, algo que não depende de nossa consciência para existir.
Como dizia Philip K. Dick, "realidade" são todas as coisas que não desaparecem quando a gente deixa de acreditar na existência delas.
Ela se baseia na busca de fatos e de constantes (as chamadas “leis da natureza”) objetivas, que existem no mundo. “Objetivos” quer dizer coisas que existem fora da nossa consciência, algo que não depende de nossa consciência para existir.
Como dizia Philip K. Dick, "realidade" são todas as coisas que não desaparecem quando a gente deixa de acreditar na existência delas.
Nessa busca do que é objetivo, do que é coletivo, geral,
universal, as ciências precisam muitas vezes considerar secundário todo
indivíduo, todo caso isolado, toda pessoa.
O que buscam, em princípio (tenhamos sempre cuidado com as generalizações – cada ciência tem métodos e objetivos diferentes), é o que há em comum entre todos os indivíduos. Nessa busca de constantes universais, os indivíduos às vezes saem perdendo.
O que buscam, em princípio (tenhamos sempre cuidado com as generalizações – cada ciência tem métodos e objetivos diferentes), é o que há em comum entre todos os indivíduos. Nessa busca de constantes universais, os indivíduos às vezes saem perdendo.
Foi o caso que a imprensa noticiou assim: “Cientistas Matam
Acidentalmente o Animal Mais Velho do Mundo”.
Era um molusco oceânico descoberto perto da Islândia em 2006. Os cientistas calculam a idade deles contando os anéis em sua concha, por dentro e por fora. A avaliação era de que o molusco tinha 507 anos quando foi descoberto, mas a contagem era imprecisa. Para chegar ao número certo, seria preciso abrir a concha e olhar dentro.
Foi o que eles fizeram, certamente tomando o máximo de cuidado. Nem sempre o máximo é o bastante, e durante o processo o bicho morreu.
O que lembra aquela piada, em que o doente diz: “Doutor, o que é que eu tenho?”, e o médico: “Fique tranquilo, saberemos na autópsia”.
Era um molusco oceânico descoberto perto da Islândia em 2006. Os cientistas calculam a idade deles contando os anéis em sua concha, por dentro e por fora. A avaliação era de que o molusco tinha 507 anos quando foi descoberto, mas a contagem era imprecisa. Para chegar ao número certo, seria preciso abrir a concha e olhar dentro.
Foi o que eles fizeram, certamente tomando o máximo de cuidado. Nem sempre o máximo é o bastante, e durante o processo o bicho morreu.
O que lembra aquela piada, em que o doente diz: “Doutor, o que é que eu tenho?”, e o médico: “Fique tranquilo, saberemos na autópsia”.
Temos o direito de sacrificar um ser vivo só para saber com
“certeza científica” a idade que ele tem? Os cientistas provavelmente não
teriam feito o que fizeram se tivessem certeza de que isso mataria Ming (até
nome o molusco recebeu!).
Não é o mesmo caso daquele lenhador norte-americano que meteu a motosserra numa árvore (há poucos anos) para ver que idade tinha, e descobriu que era A Árvore Mais Velha do Mundo. Neste caso, os anéis internos do tronco não poderiam ser cortados sem matar a árvore; no do molusco, acho que os cientistas tinham alguma chance de poupar o espécime.
Não é o mesmo caso daquele lenhador norte-americano que meteu a motosserra numa árvore (há poucos anos) para ver que idade tinha, e descobriu que era A Árvore Mais Velha do Mundo. Neste caso, os anéis internos do tronco não poderiam ser cortados sem matar a árvore; no do molusco, acho que os cientistas tinham alguma chance de poupar o espécime.
“Dê uma pancada num vidro, e ele não durará um instante; deixe-o em paz, e ele vai durar mil anos. (...) A felicidade depende de não fazermos algo que podemos fazer a qualquer instante, e que, muitas vezes, não é muito claro para nós que não devemos fazê-lo.”
Quando sabemos, é tarde demais.
terça-feira, 19 de julho de 2011
2612) O melhor amigo do homem (19.7.2011)
Rex, abre a janela e se estiver fazendo um dia bonito dá três latidos. Beleza.
Rex, vai na cozinha. Tem uma chaleira com água, em cima do fogão. Torce o botão com a boca, aperta o acendedor com o focinho. Deixa que o resto em mesmo faço.
Uaaaaah. Agora vou tomar meu banho. Rex, depois vai no meu quarto e forra a cama, visse?
Rex, vê só as ironias da história. Pacote de biscoito? Obrigado. A humanidade desperdiçou bilhões de dólares tentando fabricar robôs de metal, com juntas articuladas, circuitos eletrônicos, garras preênseis de alumínio e titânio, na esperança boba de que essas catrevagens conseguissem nos ajudar nas tarefas cotidianas. Quebraram a cara, não foi?
Me passa aqui a geléia. Valeu. Pois é, podem servir para montar carcaças de automóveis em Detroit ou Betim, mas eu mesmo é que não queria uma daquelas aranhas niqueladas tilintando por dentro da minha casa. Não tenho empatia com máquinas. Máquina não sente a dor de uma topada, e por isso é indiferente às nossas. Máquina pensa como inseto.
O ser humano precisa de um ambiente mamífero à sua volta. Pega aqui o jornal, bota no balde de lixo, o de lixo de papel pra reciclar. Obrigado.
Rex, leva os pratos pra pia e liga meu notebook enquanto eu escovo os dentes. Acho que o ser humano se encantou demais com essa besteira de instrumentos. Acha que todo o trajeto evolutivo do ser humano tem que ser por aí. Besteira.
O antropóide primitivo usou um pedaço de pau ou de osso pra quebrar algum galho, deu certo, e daí em diante ele só conseguiu enxergar a evolução social em termos de pedaços-de-osso-artificiais. Feito aquele macaco de 2001, Rex, aquele que você late sempre que vê na tela. Do osso para a espaçonave. Um milhão de anos de equívocos. Pega ali meu celular na mesinha de cabeceira.
Bem, como eu ia dizendo, não era por aí. Desprezamos a convivência das criaturas biológicas para perseguir essa devaneio bobo de fabricar criaturas de metal. Rex, se ao invés de construir o primeiro simulacro humano tivéssemos feito o primeiro upgrade num cachorro, teríamos queimado um milhão de etapas.
Tocaram a campainha, vai lá. Se for o síndico bota pra correr.
Foi preciso uma crise econômica mundial para que esquecêssemos esse delírio de produzir engenhocas. Para que investíssemos em escolas de humanização de animais domésticos, de interfaces semióticas, de socialização em nosso benefício mútuo.
Era o Sedex? Põe na escrivaninha. Descobrimos que cães, chimpanzés, golfinhos, corvos e muitos outros são um exército-reserva de bilhões de operários, secretários, mordomos em potencial, bastando apenas que lhes sejam dados os benefícios da bio-graduação e da escolarização especializada. OK, vou trabalhar, pode ligar a TV e assistir Os Simpsons.
Não troco você pelo R. Daneel Olivaw de Asimov nem pela Rose dos Jetsons. Melhor do que você, Rex, só mesmo Gisele Bundchen de avental, mas machismo hoje é proibido por lei.
sábado, 12 de junho de 2010
2140) Mundo Clone (16.1.2010)

O cidadão comum tem uma idéia um pouco utópica do que é uma invenção científica. Ele pensa que um belo dia Galileu teve a idéia do telescópio, construiu um, exibiu-o aos amigos e aos colegas de Universidade, e meses depois já havia em Florença ou Pisa fábricas trabalhando dia e noite e exportando telescópios para a Europa inteira. Na verdade, leva muito tempo uma invenção ser aceita pela comunidade científica, e mais tempo ainda para se tornar um produto industrial viável. Portanto, ninguém imagine que em 2010 vai encontrar no Shopping algumas destas novidades recentes.
Por exemplo: clonar animais domésticos é um sonho antigo de muita gente, que aos poucos vai se tornando uma prática. Desde que a ovelha Dolly foi clonada em 1997, milhões de pessoas deram o passo mental seguinte e pensaram: “E se em vez de clonarem um bicho estúpido qualquer clonassem o MEU animal de estimação?” De repente, pessoas que têm um cachorro com dez anos (que para uma idade de cachorro corresponde a 70) imaginaram a possibilidade de superar a futura dor da perda com a futura alegria do reencontro. O companheiro de tantos anos iria sumir, mas apenas para ser substituído por um filhotinho idêntico ao que ele era quando tinha poucos dias de idade. Com sorte, os dois chegariam a conviver e a comer juntos da mesma raçãozinha!
Foi o que ocorreu com Lou Hawthorne, que criou em 1997 o Missyplicity Project, o primeiro projeto em larga escala de clonagem de cães e gatos, que em 2001 produziu o primeiro gato clonado do mundo. O nome do projeto é uma homenagem a Missy, o cachorro de estimação da mãe de Hawthorne. Durante alguns anos, Lou clonou gatos e cachorros, literalmente, mas este ano anunciou a interrupção do projeto, citando alguns motivos.
Um deles: o mercado é pequeno. Lou fez um concurso (para efeito publicitário) em que o prêmio seria a clonagem gratuita de um animal. Esperava centenas de milhares de concorrentes: conseguiu apenas 237. Não precisa dizer que é muito menor o número dos clientes dispostos a pagar 140 mil dólares, preço de mercado de um clone animal. Em segundo lugar, ele alega que há outras empresas fazendo guerra de preços (com a qual ele não consegue competir), que as patentes científicas dão problemas jurídicos constantes, que é muito trabalhoso cuidar de um grande número de clones.
Principalmente, ele alega que a clonagem não é tão simples quanto parece. Não é como copiar um arquivo ou xerocar um documento. Um clone que deveria ter pelo branco nasceu com pelo amarelado. Outros nasceram com malformações do esqueleto, que, mesmo não os deixando inválidos, causaram-lhes problemas permanentes. E finalmente houve um caso de um animal macho cujo clone nasceu fêmea! Eu diria que basta esta última notícia no jornal para esvaziar na hora a fila de candidatos à porta da empresa. Se uma clonagem não consegue reproduzir o sexo do animal clonado, corre o risco até de você clonar um gato e ganhar um cachorro.
sábado, 20 de fevereiro de 2010
1679) O pensamento animal (30.7.2008)

(Sue Savage-Rumbaugh)
Cientistas vivem pesquisando (com verbas minguadas e pouco interesse da imprensa) a comunicação entre seres humanos e animais. É sintomático que a gente seja capaz de acreditar em “inteligência artificial”, algo produzido em laboratório com chips e fiação elétrica, e não se interessa pela inteligência de criaturas que convivem conosco há milhões de anos. Já defendi a necessidade de pesquisas para que pudéssemos nos comunicar com os macacos (http://mundofantasmo.blogspot.com/search?q=0095). Arrependo-me do modo impudente com que tratei nossos semelhantes, e temo que em poucas décadas, já alfabetizados, eles leiam aquela coluna e cuspam no meu túmulo.
Leio agora na New Scientist de 24 de maio que cientistas como Sue Savage-Rumbaugh, da Georgia State University (Atlanta) têm feito progressos notáveis na comunicação com os chimpanzés, principalmente os chamados chimpanzés-anões (“bonobos”). Os macacos já são capazes de entender centenas de palavras inglesas e mesmo frases de construção complexa. Não as repetem, porque seu aparelho fonador é diferente do nosso; mas entendem instruções, cumprem ordens. Diz a revista que “usando quadros com figuras, eles participam de conversas entre dois, três ou quatro interlocutores, entre humanos e macacos, falando sobre objetos, intenções, ações e estados de espírito”.
Os chimpanzés-anões são capazes de entender frases que contenham um verbo e três substantivos: “Pode levar o chocolate para a sala do meio?” Bonobos chegaram a inventar palavras compostas, reunindo “água” e “ave” para designar “pato”. Há um animal chamado Kanzi que é capaz de entender centenas de frases, como “mostre-me a bola”, “traga a figura com a cobra” ou “posso beliscar seu bumbum?”. A Dra. Savage-Rumbaugh cita uma ocasião em que ela entregou a Kanzi uma cenoura, pedindo-lhe que a colocasse na água. O chimpanzé jogou a cenoura pela janela. Ela achou que ele não tinha entendido, e repetiu o pedido. O chimpanzé apontou para fora: estava chovendo.
E não só chimpanzés. O mesmo artigo cita um papagaio chamado Alex, que foi estudado durante 20 anos numa universidade em Massachusetts. Alex conhecia as palavras que designavam mais de 50 objetos, sete cores e cinco formas geométricas. Entendia os números de 1 a 10, embora não soubesse contar em seqüência; e (o artigo afirma, mas não explica como) compreendia o conceito do zero, que mesmo para a humanidade demorou milhares de anos para surgir. Infelizmente, Alex morreu no ano passado.
Se dedicássemos a isto meros 10% do que dedicamos à informática (não que eu tenha nada contra ela!) talvez chegássemos a resultados surpreendentes. Dizemos que os animais não são inteligentes apenas porque eles não são inteligentes como nós, e nos maravilhamos com eles quando aprendem formas rudimentares de nossa apreensão do mundo. Não custaria nada tentarmos aprender um pouco o modo como eles próprios pensam, lembram, sentem, se comunicam.
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