Mostrando postagens com marcador Frank Miller. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Frank Miller. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

2729) Os Bretons e os Dalis (2.12.2011)




Recentemente, o quadrinista Frank Miller (O Cavaleiro das Trevas, Sin City, 300) soltou o verbo em seu blog, num acesso de mau humor que ecoou por toda a websfera, descendo o cacete nos jovens do movimento “Ocupem Wall Street” e chamando-os de filhinhos-do-papai mimados, ignorantes em política e “trabalhando sem saber em nome dos inimigos da América, que são a Al-Qaeda e o Islamismo”. 

Que Miller é um reacionário ranzinza todo mundo já sabe. Basta ler suas graphic novels, que são retratos vívidos, realistas e cruéis de uma certa mentalidade norte-americana de hoje. Esperar que ele apoiasse o “Ocupem Wall Street” seria tão inútil quanto imaginar que Nelson Rodrigues pudesse ter sido a favor das passeatas estudantis de 1968. 

Num artigo a respeito (http://acheiusa-octavio.blogspot.com/), o escritor e artista de HQ Octavio Aragão comenta outro ângulo da questão o da efemeridade dos movimentos em si. Diz ele: 

“Será que os manifestos, as revoluções ideológicas e movimentos de caráter modernista ainda têm as mesmas características daqueles que reformataram o mundo nos séculos 18, 19 e 20? Ou funcionam apenas como interregnos entre duas fases de aperfeiçoamento do mesmo sistema contra o qual os manifestantes se rebelam? Há muito que movimentos de contracultura pop são absorvidos com a mesma velocidade com a qual surgem – hippie, mod, rocker, punk, new wave, new romantics, hip-hop, rap, funk... – e seus discursos, por mais contundentes que sejam a princípio, são fagocitados pela moda, pelos meios de comunicação, pelos inimigos contra os quais surgiram a princípio, contribuindo para o aperfeiçoamento dos adversários, que saem cada vez mais fortes de cada confronto, cada “revolução”. 

Eu faria uma comparação desses movimentos com o Movimento Surrealista parisiense dos anos 1920. Há duas figuras emblemáticas desse movimento: seu fundador, André Breton, e seu participante mais famoso, Salvador Dali. 

Breton tinha qualidades (era grande poeta, tinha um enorme carisma, era um desses delirantes que acham que estão mudando o mundo) e defeitos (era autoritário, egocêntrico, como todo fundador-de-movimento-cultural). Mas tinha um viés esquerdista que o fez apoiar a Revolução Russa e o tornou para sempre “persona non grata” na mídia dos EUA. 

A qual num passe de mágica fez a palavra “surrealismo” se colar à figura apolítica, clownesca e “ávida por dólares” de Salvador Dali. 

Todo movimento tem um lado radical e um lado festivo, tem o seu Breton e o seu Dali. O Sistema rapidamente identifica os dois, sepulta o primeiro através de listas negras e chás-de-silêncio; e promove o outro. Simples assim.






segunda-feira, 21 de setembro de 2009

1274) “300” (13.4.2007)



O filme de Zack Snyder, baseado na história do quadrinhos de Frank Miller, é uma dessas experiências em que todos os esforços se destinam à reconstituição do visual que lembre as “graphic novels”. Pelo que li, o filme foi rodado em um mês e meio, e depois passou por mais de um ano de pós-produção, em que cada tomada foi submetida a sucessivos tratamentos de software para ganhar aquele visual meio granulado, meio descolorido, que é o seu principal trunfo estético.

Em termos de roteiro, é uma defesa do militarismo, com alusões à política americana atual, que não sei até que ponto são voluntárias ou inadvertidas. Claro que o lado pró-americano é o mais visível. O filme defende a importância de se manter uma elite de guerreiros super-treinados, que podem facilmente, em inferioridade numérica, derrotar uma tropa de soldados amadorísticos, desorganizados. Esparta é até hoje, merecidamente, o símbolo de uma civilização de soldados, coisa em que muitos norte-americanos gostariam de ver transformado seu país.

Por outro lado, os espartanos são os invadidos, não os invasores. Se fôssemos comparar o filme à situação do Oriente Médio, eles poderiam ser comparados aos afegãos ou aos iraquianos que se sacrificam tentando repelir um exército muito superior. Analogia reforçada pelo fato do rei Leônidas ser a cara de Osama Bin Laden. Rodrigo Santoro, concordo, não lembra muito George W. Bush; mas o estilo afetado, efeminado e sibarita do Rei Xerxes lembra muito mais o lado decadente da civilização norte-americana do que a cultura talibã. Pode-se ver no filme uma alegoria de um país menor e mais pobre, porém digno e ascético, sendo invadido por uma potência riquíssima e pervertida.

A imprensa caiu de pau (o “Globo” publicou um artigo histérico e divertido de Arnaldo Jabor) na violência do filme: decapitações, mutilações, estripamentos, etc. Esse tipo de violência explícita descrita em câmera-lenta começou com Sam Peckinpah, e hoje se beneficia das tecnologias de animação que aceleram os movimentos intermediários e retardam o instante do orgasmo sádico em que um guerreiro traspassa o outro com a lança, mandando borrões de tinta vermelha em todas as direções.

Jabor tem razão em vários aspectos. A violência do cinema norte-americano atual parece ter a função de nos anestesiar, de nos embrutecer, de nos tornar cada vez menos sensíveis à violência, a fim de permitirmos que ela se propague. Qualquer coisa que aconteça, o sujeito dá de ombros e diz: “Ah, no cinema eu já vi coisa muito pior do que isso”. Existe no gênero do filme-de-guerra um limite muito fluido entre glorificar a coragem e glorificar a crueldade, entre mostrar a bravura e mostrar o sadismo. A proibição do sexo gerou a pornografia, um sub-gênero onde mostra-se apenas sexo o tempo todo, sob as formas mais mirabolantes. A violência, menos reprimida, está cada vez mais ganhando uma pornografia própria.