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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

5156) Eita, me esqueci (24.2.2025)

 

 
Minha irmã Clotilde é escritora hiperativa e médica aposentada. Se bem que médico nunca se aposenta, principalmente se tiver família. Vai num aniversário e logo encosta um sobrinho: “Tia, aproveitei e trouxe meus exames pra senhora dar uma olhada...”  
 
No presente caso, o consulente fui eu, porque ultimamente estava me dando uma bobeira preocupante, tipo parar diante da estante, numa prateleira específica, mão erguida, gesto parado no ar, e uma pergunta: “O que foi mesmo que eu vim buscar?”. As desistências da memória. 
 
Liguei pra ela, que mora em Natal (RN). 
 
-- Acho que estou com Alzheimer – anunciei, porque sou da escola jornalística “conclusões primeiro, explicações depois”. E há precedentes. Meu pai, que morreu com 86, passou seus últimos anos num limbo, cercado de desconhecidos que forcejavam para dar-lhe banho ou comida, e por âncoras de TV que nunca respondiam suas provocações. Só que naquela época o diagnóstico era: “Papai está esclerosado”. 
 
Enfim: não custa nada consultar um médico, principalmente quando é de graça. E ligo eu para o 084. 
 
Ela escutou os sintomas, e mandou “na lata”: 
 
-- Tenho boas e más notícias. A boa é que não é Alzheimer. A má é que é velhice, e não tem cura. Quando chegar na cozinha e não se lembrar do que foi fazer, beba água. 
 
É velhice, é um carro rodado, como o fusca de Zé Fernandes, que tinha mais de 600.000 km no velocímetro e ele dizia: “Meu carro já foi na Lua e voltou”. O cérebro se desgasta, os neurônios, as sinapses, as conexões. 
 
E tem um agravante. À medida que a gente vive mais, o organismo sofre o desgaste natural, mas o nosso universo mental não cessa de se ampliar, com novas vivências, novas tarefas, novas leituras, novas experiências. O prédio da Biblioteca encolhe, mas livros novos não param de chegar. 
 
Esquecer o nome de um escritor ou de um centroavante não é um problema dos mais sérios, o problema é esquecer a data de uma palestra ou a hora de tomar um remédio. Quando isso acontece (“eita, meu voo não é semana que vem, é hoje”) fico me sentindo como o personagem daquele conto: “Sábio Com Um Buraco Na Memória”, daquele escritor argentino – ele não... o outro... o altão... o que morava na França, gostava de jazz... está na ponta da língua. 
 
Por isso mesmo quero aproveitar cada momento de lucidez e de capacidade escriturária.  Há quem me pergunte por que escrevo tanto. Quando eu tinha trinta anos, pensava: “Serei lido daqui a mais trinta!”. De que me adianta continuar pensando assim agora? Escrevo pelo prazer de escrever, que é um prazer semelhante ao de ser capaz de subir sozinho uma escada de aeroporto ou rodoviária, mochila pesada às costas, sem a ajuda de ninguém. Vocês não sabem o quanto isto é prazeroso. 




Fiz um mergulho muitas vezes agradável, e muitíssimo útil, nesses incômodos assuntos quando colaborei numa série de TV dirigida por Paola Vieira (produção da Luni/Recife), para o Canal Curta, A Persistência da Memória. Perguntamos sobre “memória” a pessoas como Sidarta Ribeiro, Ailton Krenak, Mary Del Priore, Luiz Antonio Simas, Eliana Alves Cruz, Hernane Heffner (Cinemateca do MAM), Antonio Marinho, Aluf Alba (Arquivo Nacional), Karen Worcman (Museu da Pessoa), Paulo Lins, Sílvio Meira (Porto Digital)... 
 
Procurem aqui:
https://www.curtaon.com.br/series/serie.aspx?serieId=1327
 



Ter que assistir e editar dezenas de entrevistas de especialistas sobre o tema não melhorou minha capacidade mnemônica, mas me ajudou a aceitar a existência dos buracos, das bobeiras, dos “brancos”. A mente é uma rua de terra. Tem buracos? Paciência. Se a gente não pode passar ali a 120 por hora, como passava aos trinta anos, vai devagarinho, e segue em frente. Buraco de estrada também é chão. 
 
Quando me pedem entrevista, sempre prefiro fazer por escrito. Entre outras vantagens (poder responder na hora que preferir – de madrugada, por exemplo) existe a de poder consultar na estante ou no Google algum nome, título, data, seja lá o que for. 




Não quero ficar, ao vivo, numa TV ou rádio-por-telefone, como algum locutor esportivo idoso que diz: “Parte o Flamengo para o contra-ataque, defesa está aberta, Gerson estica para Bruno Henrique, ele disputa a bola com o zagueiro do Fluminense, o... o nosso amigo... o da camisa tricolor, o número 20 do tricolor das Laranjeiras, disputando a bola com o atacante rubronegro...” e enquanto ele lembra dos nomes a bola já foi gol e alguém já deu nova saída. 
 
O que atrapalha pra valer é esquecer de pagar o boleto no vencimento, esquecer de mandar a documentação, de assinar a autorização ou a carta de anuência, de cobrir a conta na véspera do débito automático, de comprar o remédio antes do fim da caixa... 
 
Atrapalha também, mas sem consequência graves, esquecer de responder as dezenas de emails ou zaps com perguntas, comentários, alôs, olás... Ou até responder duas vezes por esquecer que já tinha respondido (tomara que as duas respostas sejam parecidas). 
 
Tudo isto faz parte do varejo da memória, dos lembramentos e esquecimentos diários, miúdos, cotidianos. Temos que nos conformar com isto sem fazer um exagero em torno.  




Quando a gente tem 15 anos, esquece do dia da prova, esquece de devolver uma grana emprestada, esquece de botar a camisa pra lavar antes do jogo de domingo... É problema mental? Não, é fuzuê mental. A cabeça de um adolescente é um salão cheio de pessoas falando ao mesmo tempo. 
 
A cabeça de um velho é o mesmo salão, ampliado pelos muitos anos de vida. O velho, porém, descobriu o botão do volume. Quando fica muito alta a gritaria dos compromissos, dos trabalhos, dos lembretes, das agendas, das conversas pessoais, das discussões práticas... ele simplesmente abaixa o volume. Fica todo mundo mexendo a boca, e ele pode fechar os olhos em paz por meia hora. 
 
Só que não há botões individualizados – ou aumenta tudo, ou abaixa tudo. 




O que nos dizem os especialistas em memória é que esquecer é tão importante quanto lembrar, porque a capacidade de processamento do cérebro é finita (e, em muitos casos, declinante com a idade) e é mais útil poder manter um fluxo normal e incessante de idéias do que ficar sujeito a um “engarrafamento de trânsito” em que memórias irrelevantes ficam bloqueando o caminho de coisas mais urgentes ou mais significativas. 
 
O segredo de lidar com a memória é desapegar, priorizar, maximizar isto, minimizar aquilo, poder pegar uma transversal e continuar sabendo em que direção fica a via principal, saber administrar um combustível na-reserva sem rodeios inúteis... 
 
Como dizia Walter Franco: “O que é que faz com essa cabeça, irmão?... Saiba que ela explode... Olha que ela pode...”. 


https://www.youtube.com/watch?v=rXoLe-EBUgc



 
 












terça-feira, 22 de dezembro de 2020

4655) Leituras de 2020 -- parte 2 (22.12.2020)



Alguns livros de autores brasileiros eu acabei lendo quase em primeira mão, por uma questão de vizinhança. Foi o caso do romance de minha irmã Clotilde Tavares, De repente a vida acaba (Natal: M3, 2019), com quem tive o primeiro contato quando ele não passava de cadernos cheios de anotações manuscritas e laudas impressas. É a história de duas mulheres muito parecidas e muito diferentes, uma toda professoral e séria, a outra toda farrista e aprontadora. No meio das duas, um manuscrito que pode ter sido e pode não ter sido escrito por uma ou pela outra; mas o que cativa mesmo é a maneira largada de escrever, a profusão de detalhes ora hilários ora arrepiantes.
 
Nesta postagem de abril, falo mais a miúdo sobre o livro:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2020/04/4571-de-repente-vida-acaba-1842020.html



Da Paraíba me chegou às mãos Os Sonhos do Cão Bravio de João Matias, que pelo que me consta ainda não chegou da gráfica. O autor já havia publicado os contos de O Vermelho das Hóstias Brancas (Campina Grande: Ed. do Autor, 2009). Esta coletânea traz contos sobre uma Campina Grande tenuemente disfarçada por trás de um pseudônimo, narrando a evolução de um centro urbano desde um povoado até um centro comercial com grande feira e grande número de trabalhadores chineses.
 
Os contos têm uma crueza realista que não os impede de triscar de vez em quando na fronteira do fantástico ou pelo menos do insólito. Há uma violência latente nessas histórias onde os conflitos, longe de serem apaziguados, são exacerbados até o fim, meio que naquela filosofia “vamos aumentar isso até explodir tudo, e pronto”.


Essa perspectiva temporal tem uma fisionomia diferente em O Espelho dos Girassóis (Uauá: JM Gráfica e Editora, 2020) de Maviael Melo, onde o poeta e compositor lança mão de uma viagem mental da protagonista ao fundo de sua memória, onde episódios do passado vão sendo reconstituídos e revividos de forma diferente a cada vez que são acessados. Nas andanças de uma mulher (simbolicamente projetadas na imagem do espelho) por sua cidade, emergem os fatos do passado, aventuras de uma infância vivida entre o medo e a violência.



Muito parecido, e muito diferente, é o Amália atrás de Amália (São Paulo: Patuá, ) de Marco Aqueiva. Conversei com o autor em São Paulo (pela primeira vez) e trocamos nossos livros, três dias antes da morte dele, o que me impressionou e certamente tingiu a leitura. É uma novela intensa, de prosa eletrificada, ambientada num futuro próximo com traços cyberpunk mas sem o arcabouço realista da FC comum. Tem uns traços absurdistas que o aproximam (sem o viés do humor satírico) de outro livro da mesma coleção “Futuro Infinito”, o Back in the USSR de Fábio Fernandes, que li e comentei ano passado. É um mergulho vertiginoso de personagens entrevistos rapidamente, por situações recorrentes e ambientes de pesadelo. A prosa de Marco Aqueiva é segura, implacável, o que reforça a melancolia da perda de uma voz nova na nossa literatura fantástica.




Essa sombra da perda pairou também durante a leitura (no mais, muito agradável) de Geneton: Viver de Ver o Verde Mar (Recife: CEPE, 2019) de Ana Farache e Paulo Cunha, a biografia do jornalista Geneton Mores Neto (1956-2016). Livro de amigos falando de um amigo falecido é sempre uma cilada para a objetividade de qualquer leitor. Conheci esse trio quando eram todos jovens jornalistas (e superoitistas) no Recife, e cheguei a eles através do idem-idem Amin Stepple, que também “já nos deixou” um ano atrás. Acompanhei seus sonhos à distância, como quem vê um filme 16 projetado numa tela 35.
 
Como diz Rômulo Azevedo, que é da mesma tribo, chega uma época na vida em que a gente encontra os amigos com mais frequência nos corredores de hospital do que nos restaurantes. É bom ligar o sinal de alerta também quando a gente começa a ler biografias póstumas de caras que eram mais novos do que a gente.
 
Geneton teve, no meio de toda aquela geração talentosa (à qual associo também Marcos Cirano, Juliana Coentro, Beth Salgueiro, Ricardo Carvalho, Lula Falcão, tantos e tantos outros), a chance de adquirir um poder que jamais imaginaríamos naqueles anos distantes. Foi editor do Fantástico, da GloboNews, entrevistou celebridades internacionais e presidentes da República. Tinha o dom da pergunta direta, incômoda, feita de cara limpa, objetivamente, e que sempre extraía do entrevistado, fosse quem fosse, uma tentativa de responder no mesmo tom. (E muitas vezes, boto minha mão no fogo, era a primeira vez que alguém fazia aquela pergunta ao figurão diante de uma câmera ligada.)
 
O livro de Ana e Paulo reconstitui a vida pessoal de um amigo, os sonhos em comum, as dúvidas profissionais, a ralação incansável de quem sobe a ladeira da primeira metade da vida. Registra os baques, celebra as pequenas vitórias, as preciosas alegrias.



Também do Recife, mas em outra frequência modulada da memória, vem Meu Peito é Feito de Festa (Recife: Zoludesign, 2019) de Paulo Braz, um campinense adotivo que ao se radicar no Recife virou promotor de festas, o que de repente é muito mais interessante do que ser promotor de justiça. Dono de bar e restaurante, organizador de carnavais, reveillons e festas temáticas, Paulo Braz é um dos muitos que fizeram de Recife uma cidade cheia de música e alegria. Como nunca morei lá, coube ao Acaso me pegar nas pontas dos dedos e de vez em quando me depositar no meio de alguma das suas “Noites Olindenses” ou madrugadas do Calypso Club.
 
Pensando naqueles tempos de vinte ou trinta anos atrás, sinto a tentação pueril e pouco generosa de afirmar que nenhuma geração foi mais alegre do que a nossa. É mentira. Alegria é como água corrente, sempre encontrará caminho; ela sempre se infiltra, sempre brota e fertiliza. Mas talvez poucas gerações tenham confiado, tanto quanto a nossa, que o futuro viria espontaneamente. O resto é História.


 
(continua nos próximos dias)
 
 
 
 
 
 







domingo, 23 de agosto de 2020

4613) Eu Me Lembro -- 19 (23.8.2020)



(Colégio Estadual da Prata, anos 2000)

1
Eu me lembro de Professor Almeida, que ensinava Ciências Naturais no Estadual da Prata. Ele era pai de D. Nora, uma professora que tive no primário, no Colégio Alfredo Dantas, que era muito apegada a mim, e eu a ela. Prof. Almeida tinha a didática tradicional: descrevia uma experiência científica (p. ex., como um alambique destila água) num texto decorado, para a gente copiar, enquanto fazia desenhos e diagramas no quadro. Depois, pedia para a gente repetir. Uma vez ele me escolheu: “Venha ao quadro!” Lá fui eu, apontando o desenho e explicando. Nessa vez, era alguma experiência de laboratório, eu expliquei: “Coloca-se ambas as substâncias no mesmo tubo de ensaio”. Ele: “E depois?”. Eu: “Depois, precisa misturar bem, então a gente sacode o tubo.” Ele, com cara de espanto, apontando: “Sacode o tubo lá na porta, e manda um moleque buscar, é isso?”.
 
2
Quando a gente tem uma irmã mais velha, como ocorria comigo e Tide (Clotilde) a gente assimila coisas que fazem parte da cultura de garotas adolescentes, por mero efeito de proximidade e espírito de imitação. Eu me lembro que ela e as amigas (elas teriam 12 ou 13 anos, eu teria uns 9 ou 10) usavam uma “simpatia” (não sei se é esse o nome adequado) que consistia em contar quantos urubus a gente via pousados numa casa, num muro, árvore, etc.  Havia uma correspondência numérica que era: 1-gosto, 2-desgosto, 3-carta, 4-convite, 5-casamento (de seis em diante voltava ao início: 6-gosto, 7-desgosto, etc.).  Com isso as garotas adivinhavam “o que estava para acontecer”. Eu ouvia a conversa delas e aderia silenciosamente à brincadeira, que para mim só tinha sentido nos dois primeiros: gosto e desgosto são eventos comuns, ninguém me escrevia cartas, ninguém me fazia convites, e eu não tinha propriamente planos de me casar. Mas ainda hoje vejo às vezes um urubu solitário, ou uma parelha, em cima de um muro, e penso automaticamente: “Gosto... Desgosto...”.
 
3
Eu me lembro que minha mãe fez uma vez um curso de bordado no SESI, era bordado feito com a máquina de costura. Eu ficava brincando no chão e vendo ela costurar, e evidentemente nas horas vagas em sentava no pedal grande da máquina e usava a roda de metal como se fosse volante de um carro. Toda criança faz isso. Eu ficava curioso com os carretéis de linha “mesclada”, que eram de uma cor apenas mas variando a intensidade (verde claro, verde escuro, verde muito escuro, etc.) e depois eu ia checar no bordado se isso fazia diferença no desenho final. Uma vez ela fez uma toalha de mesa copiando um molde com papel carbono, mas copiou invertido; eram desenhos de rapazes e moças vestidos de portugueses, e embaixo tinha uma faixa dizendo: O VIRA (o nome da dança), mas ela tinha copiado invertido e ficou ARIV O. Mesmo assim a toalha ficou ótima e usou-se por muito tempo nos dias de festa.
 
4
Quando a gente morava na Rua Miguel Couto (entre os meus 6 e 10 anos, mais ou menos) eu gostava de brincar embaixo da mesa da sala, meu esconderijo preferido, juntamente com o birô onde Seu Nilo escrevia. Ali eu me entrincheirava com meu armamento e dali fuzilava sem piedade soldados alemães, índios apaches e granadeiros prussianos (eu era pró-Napoleão). A mesa da sala era uma mesa simples, de madeira pintada de escuro, e na face inferior, virada para o chão, as tábuas eram quase brancas. Ali eu escrevia bobagem com carvão ou giz de cera, fazia desenhos, etc., como se pintasse o teto de uma caverna. Quando a gente se mudou por volta de 1960 ou 1961 para a Vila dos Motoristas (atrás do campo do Treze), a mesa foi desmontada, e chegando na casa nova foi montada de novo. Qual não foi minha surpresa ao perceber que as pessoas que a remontaram não deram nenhuma atenção às obras de arte pintadas na face mais clara das tábuas. Para eles, o que contava era a face virada para cima, que era escura, lisa. Isso fez com que meus desenhos, meus mapas e meus escritos ficassem todos fora de ordem, porque a posição das tábuas foi trocada. Reencontrei essa sensação de aparvalhamento momentâneo quando conheci os cut-ups de William Burroughs.
 
5
Eu me lembro que outro professor de Ciências Naturais nessa época foi Zé Lucas, conhecido como Zé do Bode, cuja mãe era amiga de minha mãe, e que depois que fiquei adulto ficamos amigos e chegamos a tomar algumas cervejas juntos. Ele distribuiu com a classe uma apostila maciça, super organizada, com os assuntos de física, biologia, etc., tudo bem dividido e explicado, e olha que era ainda o curso ginasial. Houve uma polêmica acalorada entre os alunos quando alguém descobriu um erro na apostila, mas ninguém tinha coragem de questionar o professor cara a cara. Na parte relativa a Ótica, ele falava que “um raio de luz era refletido quando atingia uma superfície sólida, p. ex., um espelho, um líquido...”  O pessoal dizia: “Oi, e como um líquido pode ser sólido?” Eu embatucava, mas sentia que mesmo assim a apostila estava certa. Hoje acho que ele deveria ter escrito: “quando atingia um objeto material”.
 
6
Outra brincadeira de infância era uma parlenda que se dizia enquanto se jogava uma bola de encontro a um muro e pegava de volta. Joguinhos que ajudam a coordenação motora (no meu caso, sem grandes resultados). Ao jogar a bola na parede a gente dizia em voz alta os comandos, e os obedecia antes que a bola voltasse. A lista que guardo de memória (varia muitíssimo de pessoa pra pessoa – já conferi) era: “Ordem... Seu lugar... Sem rir... Sem falar... Com um pé... Com o outro... Com uma mão... Com a outra... Bate palma... Pirueta... Trás adiante... Queda...” As ações estão mais ou menos explicadas; “trás adiante” era jogar a bola, bater palmas com as mãos às costas, depois à frente, e pegar a bola de volta. A única coisa que isso me rendeu foi que aprendi a jogar a bola na parede (era sempre de baixo pra cima, num ângulo de uns 45 graus) dando um efeito adicional com a ponta dos dedos, que fazia a bola bater no muro e subir pegando efeito, demorando um ou dois segundos a mais para cair, e aí dava tempo de executar o comando.
 






sábado, 18 de abril de 2020

4571) De Repente a Vida Acaba (18.4.2020)




Já comentei aqui no blog um ou outro livro de minha irmã Clotilde Tavares, “a Doutora”, se bem que para comentar os escritos dela eu fico na dúbia posição de não poder elogiar, porque alguém vai falar de panelinhas e de nepotismo cultural, e não poder criticar, senão ela me mata.

Não é bem assim, claro. Estou fazendo graçola porque o problema é de outra natureza – o fato de que temos um background literário muitíssimo semelhante, passamos a vida lendo e escutando as mesmas coisas, de modo que tudo que ela escreve me parece tão bem feito quanto uma toalha de renda e tão natural quanto água de moringa.

De Repente a Vida Acaba (Natal: M3, 2019) é o que ela chama de “primeiro romance”, embora eu também considere romances suas outras narrativas de ficção como A Botija (São Paulo: 34, 2003) e O Monstro de Sete Bocas (Natal: Jovens Escribas, 2015); mas isto são picuinhas de nomenclatura. Eu entendo: é porque os anteriores são fininhos, e este livro novo é do tipo que se você botar em pé numa mesa, ele fica.

Ver aqui:

Este livro de agora é a história em-paralelo de duas mulheres, duas amigas meio próximas, meio afastadas. A primeira narradora, Maria Eulina, é uma senhora com seus 60-e-bote-força, meio aposentada, que vive sozinha, e curte a dor-de-cotovelo de querer ser escritora e não saber como, apesar de ser uma mulher culta, lida, preparada.  E de repente (em circunstâncias folhetinescas que não revelarei aqui) chega-lhe às mãos um livro escrito por essa amiga, que gosta de se apresentar pelo cognome de Lady Midnight, uma figura mais jovem, doidona, biriteira, rapazeira, solta-na-buraqueira...

E a narrativa vai em paralelo acompanhando essas duas figuras, uma dando nota na vida da outra. É como se fosse a Perpétua (Joana Fomm) da novela Tieta lendo a autobiografia de Rita Lee e de parágrafo em parágrafo fazendo: “Humpf!...”

Existe uma longa discussão mundo-afora sobre essa coisa do ângulo feminino, o olhar feminino, a escrita feminina, etc., mas não sou doido de me meter nela. No livro, tem dois olhares femininos esgrimindo um com o outro o tempo todo, e a primeira impressão que tenho é o de ninguém ali estar se preocupando em ser feminina ou em feminizar coisa nenhuma.

Talvez por conhecer a autora eu ache isso muito natural: mas não vejo ali nenhuma preocupação em “contar uma narrativa feminina”, como não vejo em “contar uma narrativa urbano-nordestina”, e aliás o livro é as duas coisas o tempo todo. Quem conheceu Natal dos velhos tempos me desminta. (Me refiro à capital do Rio Grande do Norte, onde vive há décadas a renomada beletrista.)

Pra mim o mais bem realizado é a linguagem ou as linguagens, porque há duas narradoras. Lá na nossa casa – e agora dou um salto de pelo menos 50 anos no passado – lia-se e conversava-se sobre livros. Eu e a Doutora, que somos os mais velhos dos quatro irmãos, acabamos assimilando uma quantidade muito grande de leitura precoce, porque lemos Conan Doyle e Maurice Leblanc e Monteiro Lobato e Michel Zevaco e Shell Scott e Machado de Assis e Agatha Christie e Coelho Neto e Raquel de Queiroz...

Vai daí que a gente assimilou, precocemente, uma certa prosa antiquada, vitoriana (bote aí Doyle e Coelho Neto) misturada a uma prosa mais solta e “acanalhada” (bote aí Lobato e Shell Scott), sem atribuir valor transcendental nem a uma nem a outra.

Me lembro uma vez em que peguei uma carta de minha irmã para mostrar a alguém, alguma informação tipo endereço ou telefone a ser copiado. A pessoa observou que no fim ela se despedia dizendo: “Outrossim, saúde e fraternidade”, e disse: “Sua irmã é uma pessoa muito formal, hein?!...”  Não sabia que é uma piada-interna nossa, tirada do Tratado Geral dos Chatos de Guilherme de Figueiredo.

Esse uso tongue-in-cheek de qualquer voz narrativa ao alcance da mão é uma coisa que a pessoa faz instintivamente mas às vezes bate na trave de quem lê – e não entra. Paciência. Eu gosto quando vejo Lady Midnight narrando suas aventuras etílicas e notívagas, e sua via-crucis maternal, numa prosa tipo:

Despenco no sofá, atiro longe os sapatos, pés em chama, tudo em brasa, faz calor e esse jeans está tinindo de apertado, engordei. As crianças chegam da escola e me contam as novidades, domingo é dia do papai, a gente faz o cartão pra quem, pra o pai da gente mesmo ou pro Carlos? Quem é o pai de vocês, é o Carlos ou é o outro? É o outro. Então mandem o cartão para o outro e não me falem mais do Carlos, que eu não quero nunca mais ouvir falar no nome desse homem. Mas mamãe, e ele não é seu namorado? Era, era, de hoje em diante não é mais, entenderam, mamãe acabou o namoro, vão tomar banho, dê cá um beijo, vistam um short limpo e vão andar de bicicleta. (p. 110-111)

É prosa falada, mas um falado telegráfico, sob tensão, onde tudo é coloquial, mas não cede à tentação, poderosíssima em nossa pátria, de descambar para a oratória, a peroração, o bem-escrito; nããã, tem que ser assim, cortes telegráficos, o essencial vai sendo dito, e quem não entender uma coisa assim tenha paciência, desista de ser leitor e vá andar de bicicleta.

Ou então Maria Eulina, muito doutoralmente acadêmica, comentando com sobrancelha arqueada o livro da “amiga”:

Esse texto de Aline me traz de volta aquele tempo em que a gente se encontrava tanto, trabalhando juntas e trocando aqui e acolá uma idéia, um segredo, mas eu nunca consegui acompanhar o ritmo daquela doida. A vida era uma festa e o mundo era muito mais animado do que hoje, com essas festas sem graça, sem noção, tudo junto e misturado, ninguém sabe mais quem é homem ou mulher, e se a festa for de gente mais velha é uma pieguice sem tamanho, ainda dá para aguentar Abba, os Carpenters, ou Djavan, ou o Chico dos velhos tempos mas pelo amor de Deus, Emilio Santiago e Guilherme Arantes são demais para mim, (...) Parece que estou com ela de novo. Faz tanto tempo. Lembro dela de microssaia jeans, botinhas, uma camiseta linda, amarela, com a foto da Marilyn, o cigarro sempre aceso, o batom vermelho, o furor. Aline escreve como quem fala, escreve um texto vivo mas escreve mal. Muito advérbio, muito adjetivo, se cada um fosse um tijolo dava para calçar uma cidade inteira de principalmentes, exatamentes, completamentes... (p. 58-59)

Falei em Perpétua de Tieta mas foi mera maldade com a personagem. Maria Eulina, na verdade, ao ler as confissões sexuais da outra, parece mais é com a Rainha Elizabeth II tomando o chá das cinco com Madonna e pensando: “Vejam só, uma moça tão inteligente, tão cheia de energia, desperdiçando a vida dessa forma...”

As duas são parecidas e diferentes, e a curiosa relação entre elas, na narrativa, não é a de uma troca, um confronto, um conflito: é uma espécie de voyeurismo em mão única, porque Aline a Doida em momento nenhum de seus escritos se refere à existência de Maria Eulina a Séria, que podemos supor uma coadjuvante, com poucas falas, em sua vida de Rê Bordosa. O livro é contado do ponto de vista da "séria", é através desta e de seus comentários que acessamos, em mão única, a vida da outra – que está só vivendo, e cagando-e-andando (como ela diria) para quem esteja dando nota em sua vida.

Existem escritores homens capazes de “psicografar” personagens femininos (Machado de Assis, o contista, era um deles), mulheres idem com os masculinos (Ursula LeGuin é um bom exemplo), mas me parece que o segredo é não forçar a barra da caracterização, porque aí se cai no clichê. Pensar numa pessoa, e não num cabide de convenções. Às vezes o cara quer escrever uma cena sobre uma mulher – e bota ela bordando – ou amamentando – e não entende dessas mecânicas. Custava nada botar a moça dirigindo num trânsito ruim, consertando uma prateleira, chegando numa festa sem conhecer ninguém, escolhendo um presente? Mulher também faz isso.

O livro é da Editora M3 (Natal, RN) e maiores informações podem ser obtidas com a preclara escritora: clotilde.sc.tavares@gmail.com   










segunda-feira, 23 de abril de 2018

4339) Dez álbuns: 2 - "Samba Esquema Novo" (23.4.2018)




Vou dar continuidade ao desafio que me foi feito via Facebook por Toinho Castro e Mario Bag: postar dez discos que a gente ouviu até a agulha furar o vinil, e continua ouvindo até hoje.

Como já falei nesta coluna, o Facebook é hoje em dia nosso mais sofisticado instrumento de cadastro: de hábitos de consumo (para o Mercado) e de detalhes biográficos, políticos e psicológicos de cada usuário (para o Estado). A briga entre o Mercado e o Estado é uma briga entre Godzilla e King Kong. A briga é entre eles. Nós somos a população de Tóquio, aquele formigueirozinho atarantado por cima do qual desabam os prédios.

Portanto, se o Mercado quiser me empanturrar de ofertas de discos de Jorge Ben, e o Estado quiser me botar na cadeia por gostar deles, sintam-se à vontade, sou réu confesso.

Samba Esquema Novo é o disco de estréia de Jorge em 1963, mas eu provavelmente só vim a ouvi-lo no ano seguinte, quando ele tocava direto na rádio.

Tenho muito clara na lembrança uma noite de meio de semana em 1964, quando fui ao Estádio Presidente Vargas ver um jogo do Treze com o Estivadores, de Alagoas. Nessa noite, sentado na chamada “arquibancada principal” por trás do gol (e não nas cadeiras cativas, onde ia com meu pai) passei o jogo todo com o radinho ao ouvido escutando música, porque o jogo (que acabou 1x1) estava ruim demais. E deve ter tocado “Mas Que Nada” uma dez vezes durante aquela hora e meia.

Um problema auditivo que eu tenho até hoje é a dificuldade em distinguir sons específicos no meio de uma massa sonora. “Olha o que o trumpete está fazendo!”  “Trumpete?! Tem trumpete aí?!”  É como se eu ouvisse tudo fora de foco. Como se visse ao longe a massa de uma floresta, as cores, o formato geral, mas não percebesse que aquilo é formado por árvores individuais.

Daí que ouvindo música erudita, por exemplo, sempre gostei de obras para piano ou cravo, ou, no máximo, de quartetos. Obra orquestral eu também gosto, gosto do resultado geral, mas não percebo – como meus amigos músicos percebem – o que cada instrumento está fazendo ali.

A vantagem que eu via nos discos da Bossa Nova era que o cara era capaz de escutar o violão de João Gilberto sem o diabo duma orquestra atrapalhando. E Samba Esquema Novo, por algum mistério insondável de arranjo & estúdio, permitia ouvir ao mesmo tempo a voz cantando a música, o piano salpicando comentários melódicos, os metais crescendo e reduzindo interferências harmônicas em paralelo, a bateria percutindo seca e precisa ao fundo, e o violão-locomotiva arrastando o resto.

Até aquele momento, meu samba se resumia a Elza Soares, Miltinho, Roberto Silva, Demônios da Garoa. O samba de Jorge Ben coincidiu com o momento em que comecei a aprender violão, porque minha irmã Clotilde já tocava o dela, ao seu estilo Nara Leão; e eu começava a arranhar meus dós maiores, guiado pelo Método Prático de Violão, de Paraguassu, que sigo até hoje (risos).

Jorge Ben era diferente de tudo. Tinha os falsetes ousados; num tempo machista como aquele, provocaram alguns comentários desdenhosos que se evaporaram depressa. Tinha o jeito de dizer “voxê” (todo mundo que escrevia sobre o disco tinha a obrigação de se referir a isso, e lá vou eu entrando na roda de novo).

E tinha algo que sempre me seduziu na música popular, a espontaneidade de criar onomatopéias próprias, sílabas soltas de validade exclusivamente melódica, um canto de garganta-e-língua que não precisava de dicionário. Saiubá, saiubá... Sacundim, sacundém, imboró congá... Uala, ualalá... Tin-don-don... Como se a voz fosse um instrumento intraduzível, que nenhum outro fosse capaz de emular.

O violão de Jorge tinha aspectos que eu, leigo-zero-quilômetro naquele tempo, só vim perceber depois. E me socorro das notas de Armando Pittigliani na contracapa do disco, textos de um tempo mais alfabetizado do que o nosso, em que os discos traziam comentários de si próprios. (É até bom que isso não exista hoje. Dou por visto o nível das sandices que seriam ditas.)

Dizia Pittigliani:

O violão – que Jorge aprendeu sem professor, apenas com um “método” desses que por aí existem e muita força de vontade – é uma das chaves do seu êxito. Seu inato talento musical proporcionou-lhe descobrir uma nova “puxada” para o nosso samba – fazendo do violão um instrumento, sobretudo, de ritmo. Na sua “batida” tanto se destaca o “baixo” como o desenho rítmico da sua pontuação na maneira toda sua de tocar. Um exemplo disso é o fato de várias faixas deste disco não contarem com o contra-baixo na orquestração. Somente o violão de Jorge já dá a necessária marcação, dispensando portanto aquele instrumento de ritmo. O “balanço” do acompanhamento repousa quase sempre no seu violão.

Muitos anos depois, num dos retornos triunfais de Jorge às paradas de sucesso, na época de “W-Brasil”, vi uma entrevista em que perguntaram o segredo de sua “levada” com a banda de Zé Pretinho, e ele disse: “Todo mundo usa só um baixo na banda, eu uso dois.” Parece uma contradição com o que vem transcrito acima, mas não é. A música de Jorge se baseia num ritmo tão fortemente marcado que é capaz de acolher tanto os improvisos dadaístas daquela canção quanto as letras longas, serpenteantes, quase em canto-falado, de “Fio Maravilha” ou “Taj Mahal”.

E aquele romantismo sensual nas letras: “olha, lá vem ela... estou de olho nela...”, “você passa e não me olha, mas eu olho pra você...”, acomodando o fervilhar dos hormônios adolescentes, seduzidos pelo olhar provocante da garota, um jeitinho de ombro, uma leveza no passo, tudo transformando o poeta num predador benigno cheio de amor pra dar. Em “Balança Pema”, o fetichismo inocente da imaginar o pezinho moreno numa sandália prateada.  A presença da chuva (“Chove, Chuva”) molhando o corpo vestido da mulher desejada, imagem que ele retomaria depois em outras músicas, principalmente na irretocável “Que Maravilha” (com Toquinho).

Eu sempre julguei um compositor, em primeiro lugar, por suas letras; mas em alguns casos, como o de Jorge, sempre dei de ombros para versos como “é puro e belo e inocente como a flor”. Não são frases poéticas: são as açafatas da Princesa Melodia, servindo-a, ajudando-a a surgir e a brilhar. Nem tudo que faz parte de uma canção precisa estar o tempo todo à frente do resto. Palco não tem só proscênio.

Quase meio século depois daquela noite do jogo do Treze, eu estava na praia de Tambaú, em João Pessoa, numa noite de céu carregado, no meio de uma turma de amigos que se deslocou para ver Jorge Ben e sua enorme banda. E no auge do show, quando o toró ameaçado finalmente desabou “di cum força”, Jorge atacou o “Chove Chuva”, que todo mundo entoou junto, com o pulmão inteiro.

Pois é... tantas vezes vai o cântaro à fonte que um dia volta cantando. Salve Jorge!













terça-feira, 5 de janeiro de 2016

4015) Livros do ano 5 (5.1.2016)



Eu não vivo pesquisando a literatura sobre o Sertão e suas variantes (Cariri, Pajeú, etc.), mas ela não para de me chegar de todos os lados. Fala-se que basta ler Euclides da Cunha ou Guimarães Rosa para saber o que é o Sertão. Não basta. O ponto de vista de um autor é só o dele, por mais rica que seja sua experiência. Nenhum grande autor esgota um assunto; seus livros são o que se chama de “condições necessárias mas não suficientes”. O Sertão (qualquer tema, aliás) é um bufê self-service. Não adianta ficar se servindo de um prato só, por mais bem feito que seja.

Dou o exemplo curioso de dois irmãos escritores com a mesma origem e vivências semelhantes, com dois livros diferentíssimos e complementares que li este ano. Cariris Velhos (2008, http://tinyurl.com/n3sjqlm), de Pedro Nunes Filho, é uma obra de história cultural onde a memória da terra ganha discernimento e foco por meio da pesquisa sobre a colonização desta região da Paraíba. Já No Sertão Onde Eu Vivia (2014, http://tinyurl.com/lf8kguo) de Zelito Nunes é uma recolha de anedotas e episódios pitorescos onde brota o jeito de pensar sertanejo – caririzeiro, pajeuzeiro, etc., porque são tudo cores da mesma luz.

O Sertão, para um urbanóide como eu, é precedido pelas histórias que se contam sobre ele, e que são as roupas com que ele se traja para ser visto em público. Histórias como as assombrações de Maldito Sertão (2012, http://tinyurl.com/ntbp8nv) de Márcio Benjamin, as histórias de fantasmas, coisas ruins, feitiços, criaturas da noite. Ou como os encantamentos de O Monstro das Sete Bocas (2015, http://tinyurl.com/mefb9x7) de minha irmã Clotilde Tavares, onde se misturam lendas orais, enredos de cordel ou de Trancoso, numa cadeia de narrativas-dentro-de-narrativas, com personagens que viram narradores.

O lado cruel do Sertão se revela em livros como O Dragão (reedição de 1999, http://tinyurl.com/pgfeadc) de José Alcides Pinto, um apocalipse a prestação, contando a vida de um povoado lá no calcanhar das botas de Judas, fustigado pela seca, pelas enchentes, pelas epidemias, pela violência onipresente entre pessoas crestadas por um sol indiferente e alucinógeno. É o Sertão mitológico de Euclides e de Rosa, aquele onde “a luz assassinava demais”.

Para entendê-lo, pode ser útil a leitura da obra e da vida do inventor do cordel nordestino, em Leandro Gomes de Barros - Vida e Obra (2015, http://tinyurl.com/kpbag9b) de Arievaldo Vianna. Os cordéis de Leandro são o Sertão, mesmo quando ele fala dos Pares de França ou da carestia recifense. Para ver o Sertão é preciso ser capaz de olhar para a cidade com os olhos do Sertão, e vice-versa. (Continua)




quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

3433) Quando eu era criança (27.2.2014)


(Eu e Tide no carnaval)

Tem um blog impagável (http://coisasqueeuachavaqdoeracrianca.tumblr.com/) onde as pessoas contribuem com suas lembranças de infância, aqueles pequenos equívocos meio absurdos que toda criança comete por não entender direito o mundo dos adultos. Exemplos do blog: “Eu pensava que em hotéis só entravam homens, e em motéis, mulheres”; “Eu pensava que uísque 12 anos era para crianças de 12 anos tomarem”; “Eu achava que sexo oral era de hora em hora e sexo anal de ano em ano”, etc.

Bem... Eu me lembro que eu achava que a Terra boiava solta no espaço, junto com planetas e estrelas, e que por baixo de tudo havia o Oceano Atlântico, que se expandia até o infinito em todas as direções.  Outra: meus pais mandavam ter cuidado com giletes, dizendo que havia perigo de alguém se cortar, etc., de modo que sempre que eu via uma gilete de bobeira eu a pegava, me trancava no banheiro, quebrava-a em pedacinhos, jogava na privada e dava descarga. Quando pequeno, eu ouvira dizer que o Inferno era embaixo do chão, então quando eu via um buraco qualquer na terra eu me agachava para espiar, para ver como era o inferno.

Uma vez perguntei a minha mãe o que tinha dentro do corpo da gente, eu ficava apontando: “E aqui?”, e ela dizia: “O fígado”, etc., até que a outra pergunta ela respondeu distraída “o ovário”, e dias depois eu disse: “Não posso ir pra aula, estou com dor no ovário”. Ainda nos mistérios sexuais, eu lia nos contos da época coisas como “e daquele beijo apaixonado nasceu um dia nosso filhinho...” e imaginava que as mulheres engravidavam com um beijo, o que trouxe um suspense adicional a qualquer filme, pois bastava haver um beijo e eu ficava imaginando que a mocinha ia ser botada de-casa-pra-fora.

Uma vez, ouvindo uma novela de rádio, eu lamentei que não fosse TV para a gente ver as aventuras dos heróis na selva, e minha irmã Clotilde disse: “Não, se fosse TV a gente ia ver uma sala cheia de microfones e as pessoas lendo o texto em folhas de papel”, e eu achei a TV uma decepção. Minha Tia Adiza, que era solteira, morou conosco muitos anos, e como ela todo dia trocava de roupa e ia para o trabalho, tal como meu pai, eu perguntei a minha mãe se Tia Adiza era mulher ou homem.

Durante algum tempo acreditei que quando alguém era condenado a prisão perpétua ele ia para a cadeia e nunca mais morria. Uma vez discuti com Tide sobre a pronúncia do nome Washington, que eu dizia que era Uachínton e ela dizia que era Vasguitón.  Vendo filmes de guerra, eu cheguei à conclusão de que quando dois países entravam em guerra eles mandavam os respectivos exércitos brigar na África, que era uma espécie de continente baldio.


terça-feira, 13 de janeiro de 2009

0751) A ida e a volta (14.8.2005)


Era uma vez um jovem pastor espanhol, que vivia apascentando seu rebanho de cabras ou de ovelhas. Dormia numa velha igreja abandonada, ao pé de um enorme sicômoro que crescera por entre as ruínas. Uma noite sonhou com um tesouro, enterrado junto às pirâmides do Egito. Juntou tudo que tinha e saiu de mundo afora. Muitas peripécias e duzentas páginas depois, chegou ao pé da pirâmide, e foi cercado por tuaregues desconfiados. Quando explicou o que o trouxera até ali, o chefe do bando riu na cara dele. “És muito leso, ó jovem pastor que acreditas em tesouros. Eu sonho há anos com um tesouro que está escondido numa igreja em ruínas, nas raízes de um velho sicômoro. Mas tu acha que eu sou besta de perder meu tempo indo atrás disso?” O pastor pegou o caminho de volta, cavou nas ruínas da árvore, encontrou o tesouro e ficou rico, embora não tão rico quanto Paulo Coelho, autor de O Alquimista, onde esta história é contada.

Eu conheço essa história desde pequeno. Meu pai a contava como tendo acontecido com um rapaz que morava numa fazenda em Minas Gerais, que sonhou com um tesouro enterrado numa ponte do Recife, foi até lá, e um soldado de polícia lhe disse que sonhara com um tesouro enterrado numa fazenda assim-assim-assim, foi só voltar, tirar o tesouro e correr pro abraço. Minha irmã Clotilde usou essa história como uma das narrativas em seu livro A Botija. Aliás ela e Paulo Coelho estão em muito boa companhia, porque Jorge Luís Borges fez a mesma coisa em sua História Universal da Infâmia, no conto intitulado “História dos Dois que Sonharam” (que ele alega ter pegado das Mil e Uma Noites, noite 351): um sujeito no Cairo sonha com um tesouro em Isfahan, na Pérsia, vai até lá, encontra com um cara que sonhou com um tesouro no Cairo, bibibi, bobobó.

Plágio? Imitação? Inconsciente coletivo? Prefiro pensar que essas histórias tão diferentes, mas todas baseadas numa mesma mecânica estrutural, exprimem uma verdade profunda, através dessa estrutura mítica comum a todas. Existe uma sabedoria cósmica por trás de todo esse trajeto que, à primeira vista, é percorrido em vão. Uma pessoa simplória vai comentar; “Coitado! Morava em cima do tesouro, e teve que passar tanto sacrifício! Por que não sonhou logo com o tesouro no lugar onde estava?” A resposta para isso é (eita, meu destino é ser escritor de auto-ajuda!) que mais importante do que achar o tesouro é ter a experiência e a maturidade para administrá-lo, e isso o camarada só adquire fazendo a tal viagem aparentemente inútil.

E é a mesma verdade profunda expressa por T. S. Eliot nos Quatro Quartetos: “We shall not cease from exploration / And the end of all our exploring / Will be to arrive where we started / And know the place for the first time”. Ou seja: “Nossa exploração nunca vai cessar / e o fim de todas as buscas / será voltarmos ao ponto de partida / e conhecermos aquele lugar pela primeira vez”.

sábado, 23 de agosto de 2008

0520) O protagonista invisível (18.11.2004)




(René Magritte)


Algum tempo atrás comentei aqui (“O inimigo oculto”, 18 de julho) o recurso narrativo de se manter fora do texto o seu personagem principal, que existe de forma indireta, visto pelos demais personagens. Dei como modelo algumas canções de Chico Buarque, mas a dramaturgia em geral é farta em exemplos. 

Minha irmã Clotilde Tavares acaba de estrear uma peça, que escreveu e dirigiu: Alguém lá fora, a história de três mulheres que moram num lugar afastado. Uma noite, um homem chega lá e é hospedado pelas três, fica dormindo num quarto fora da casa; e a presença desse estranho começa a alterar o comportamento delas. O detalhe é que o personagem masculino nunca é visto, não há um ator para interpretá-lo. Ele existe apenas através das reações das mulheres, que vão “lá fora”, conversam com ele, voltam, etc.

O que me lembra um pouco Rebecca, o romance de Daphne du Maurier filmado por Hitchcock. Quando o filme começa, Rebecca já morreu, e o que acompanhamos é o casamento de seu viúvo, Max de Winter, com uma jovem que aos poucos começa a perceber a presença opressiva dessa ex-esposa que exercia um domínio inexplicável sobre todo mundo. 

Morta e invisível, Rebecca é o “motor” de tudo que acontece no filme, e um dos grandes personagens de todos os tempos, mesmo sem aparecer sequer numa cena de “flash-back”. Uma colcha-de-retalhos de depoimentos e memórias de pessoas que a odiaram ou que eram apaixonadas por ela.

Há casos de personagens menos centrais mas igualmente interessantes, como o espião Kaplan em Intriga Internacional de Hitchcock, que no final ficamos sabendo tratar-se de um personagem fictício, cujas bagagens são enviadas de avião e remetidas para hotéis sem que ninguém jamais o veja. Ele serve somente para despistar os espiões inimigos. 

E há os personagens parcialmente visíveis (há um ator que os interpreta), mas ainda assim misteriosos, como o motorista do caminhão que em Encurralado, filme de estréia de Spielberg, persegue um pobre coitado ao longo de uma rodovia.

Em todos estes casos, o personagem “em si” não aparece, e tudo que sabemos dele é a reação que as pessoas têm à simples menção de seu nome, ou as histórias que contam ao seu respeito. 

Criar um personagem assim é um bom desafio pra um autor, porque ele pode explorar ao máximo as nossas diferentes maneiras de reagir a uma mesma coisa. 

Em seu conto “A aproximação a Almotásim”, Jorge Luís Borges conta a história de um estudante que ouve falar num tal de Almotásim, indivíduo de muitas virtudes, e dedica sua vida a tentar encontrá-lo, sem o conseguir. É a história, diz Borges, da “busca insaciável de uma alma através dos tênues reflexos que esta deixou em outras”. 

Rastrear esses reflexos, dar-lhes substância narrativa, jogar com as contradições e os paradoxos que irão se formando entre eles, é um teste para o bom narrador, e um prazer para o leitor que gosta de saborear sutilezas.