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sábado, 16 de agosto de 2014

3579) Singularidade Absurda (16.8.2014)




A Singularidade, segundo os cientistas e os escritores de FC, será aquele momento em que todos os processos de inteligência artificial que estamos criando irão convergir para a formação de um estado supra-biológico de consciência humana/cibernética.  Como um piloto automático que se apossasse do avião e impedisse os pilotos humanos de entrar na cabine. 

O que acontecerá então?

Temos a tendência de projetar um perfil antropomórfico, ou uma essência semelhante à humana, em todo fenômeno que nos transcende, sem atentar para essa contradição. Se nos transcende, não é como nós. Não parece conosco. Não pode ser descrito em nossos termos. Deus não é um homem de barbas brancas sentado num trono. 

A Super Inteligência Artificial do futuro não será um cientista (benigno ou psicótico) dando ordens que não conseguiremos desobedecer.

É bastante possível que estejamos criando não uma, mas uma série de Semi-Inteligências Artificiais, e que a Singularidade, o momento irreversível em que esse processo escapará das nossas mãos, não tenha uma consciência central. Não será um computador gigantesco dizendo: “Agora, vocês vão ter que me obedecer”. 

Fico até incomodado quando penso nisto, mas acho que a Singularidade não vai parecer nem com uma Divindade nem com um Super-Cérebro, vai parecer com um Doido.

Milhares, milhões de processos eletrônico-digitais controlando nossas finanças, nossas identidades sociais (documentos, senhas, acesso a tudo), nossos bancos, nossos meios de transporte, nossas formas de comunicação. Quem me garante que a Singularidade não será capaz de produzir pastiches perfeitos do meu texto e do meu estilo, postar em redes sociais, mandar emails para minha família dizendo o que bem entender – e fazer-se acreditar?

Isso, no entanto, não acontecerá com intenções malévolas, pois não há uma personalidade humana por trás. Será a combinação multiplicada de processos automáticos que se somarão uns aos outros para produzir efeitos aleatórios, não projetados por ninguém (e não desejados por ninguém, inclusive pelas “máquinas”). 

A Singularidade será um universo beckettiano ou douglasadamsiano. A vida no planeta correrá o risco de ser destruída justamente pela falta de um ditador antropomórfico em busca do poder. Serão mil ditadores algorítmicos, conflitantes, contraditórios, tentando se sobrepujar por mero determinismo de programação. 

E o mundo se transformará num pesadelo surreal-cubista, numa peça de Ionesco montada pelos loucos do Asilo de Charenton, e a vida humana se tornará finalmente um conto contado por um louco, cheio de som e de fúria e significando rigorosamente nada.


quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

3078) Checkpoints (9.1.2013)





O conceito de checkpoint é típico da informática e pode ser decisivo para a trans-humanidade do futuro, quando formos capazes de transferir nossas mentes para um suporte eletrônico (“copiar meu cérebro inteiro num pen-draive”). Nos games de ação, o checkpoint é aquele ponto ao qual você retorna toda vez que morre.

Digamos que é um jogo de II Guerra Mundial. Você está oculto no mato, numa colina, vendo lá embaixo uma ponte que precisa atravessar. Na cabeça de cá da ponte há uma pequena casamata de proteção, ocupada por inimigos. Você desce a colina atirando granadas, disparando a metralhadora. Os soldados da casamata respondem ao seu fogo. Ao chegar perto, você é atingido e morre. Black-out. Quando você recomeça, está de volta ao checkpoint, que é no mato, sobre a colina.

Mas digamos que você desce atirando, mata os inimigos e se refugia dentro da casamata. Você conquistou este ponto, e ele é agora o seu checkpoint. Sua tarefa passa s ser cruzar a ponte sob fogo inimigo e chegar ao lado oposto, onde há um jipe abandonado que pode ser útil para fugir. Você corre pela ponte, atirando. Se for atingido e morrer, você já não volta para o mato, na colina; volta para a casamata, um checkpoint mais avançado. Desse modo, cada posição conquistada faz com que você não precise recomeçar o jogo do zero, e assim você vai avançando.

Quem usa computador, quando precisa dar uma mexida mais profunda, dispõe de um recurso de salvar as configurações do sistema no momento atual, antes de começar a fazer alterações. Se der uma zebra, é para esses estado de coisas que você volta, quando botar ele para funcionar de novo. O mesmo quando a gente aperta “Ctrl + B” para salvar um arquivo. Se o computador apagar de repente, está tudo salvo até aquele ponto.

Uma utilização clássica desse conceito na FC é uma série de contos de John Varley, dos quais o mais famoso é “The Phantom of Kansas” (1976), em que a memória humana é salva em bancos e transferida para um novo corpo, quando a pessoa morre. Digamos que o cara salvou sua memória em 1 de janeiro pela última vez; se ele morrer no dia 15, ao despertar está de volta ao estágio anterior, e só perde o que lhe aconteceu nestes últimos quinze dias. A solução seria salvar de minuto em minuto – o que seria impraticável. Essa diferença (memórias recentes não recuperáveis) dá origem a tramas policiais, de mistério, etc., porque o personagem é capaz de “ressuscitar” mas está com “amnésia” quanto aos dias mais recentes. Ele só lembra o que lhe aconteceu até o checkpoint, ou seja, a última vez em que salvou sua própria personalidade no Banco. É um retrato literariamente plausível de um cenário futuro.



sábado, 5 de janeiro de 2013

3075) O corpo (5.1.2013)






Tudo que a gente deseja é a certeza de que está vivo. Porque somos bichos, somos criaturas de carne, osso e sangue. Só se tem essa certeza através do corpo, pois a mente engana muito. 

Gente que come demais, que faz sexo demais, gente que malha demais, que corre, que sua... Todos fazem isto porque naquele instante privilegiado têm a certeza de que estão vivos, de uma maneira que um sujeito mais mental não tem. O corpo não mente.

A mente mente, pois basta-me ler Dostoiévski para me imaginar em Moscou, basta sonhar para estar noutro mundo, e nada me prova que não sou um mero avatar, um “carinha” manipulado por um jogador ultradimensional que neste instante deve estar dando uma boa gargalhada ao ler esta frase que digitei. 

A mente engana porque se recria muito bem, é capaz de superpor à realidade física uma realidade subjetiva, projetada.  E aliás é pra isso que a mente serve, não é mesmo? Se fosse só para enxergar o que temos diante do nariz, nem precisava.

Já o corpo, é uma coisa só, o tempo todo, sem esbarrar, apenas sentindo seus calores e frios, suas fomes e empanturramentos, sua dor e seus deleites. O corpo é apenas ele mesmo, bruto, concreto, descomedido. O corpo não sonha.  Para ele existe apenas o aqui-e-agora.

A tragédia de quem vive em coma profundo é ter-se tornado mente, somente.  É estar preso na própria mente sem sentir o próprio corpo, sem o contato com a vida que só se tem através do corpo. 

É por isso que a idéia Trans-humanista de que um dia poderemos fazer “upload” de nossas consciências para um Hiper-Ultra HD me parece fascinante mas impraticável. Supondo que eu pudesse tirar uma cópia instantânea, agora mesmo, de tudo que guardo nos meus vários níveis de (in)consciência e depois cremar meu corpo, como essa minha mente existiria a partir de então?  Como, sem esse espantoso instrumento de input sensorial que é o corpo? 

Pensem na nossa pele, nos milhões de nervos, nos sistemas nervosos autônomos, nos processos circulatórios, digestivos, respiratórios e musculares que ocorrem o tempo todo e que nossa mente monitora o tempo todo, só nos deixando lembrar dessas coisas quando uma delas começa a doer ou dá um piripaque. 

Mente digital sem corpo? Duvido. Ela se dissolveria em entropia de signos, de memórias desenraizadas, de imaginações sem bússola, uma ventania de pensamentos em todas as direções, sem a vida pulsando no corpo para lhes dar lastro, presença, um centro de gravidade.  

Sem corpo nossa mente se dispersaria em sub-rotinas cíclicas em círculo vicioso. O corpo é nossa interface com o mundo, e sem ele nossa mente seria a lixeira da biblioteca de Babel, sem função e sem sentido.