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quarta-feira, 30 de julho de 2025

5192) O trabalho que enlouquece (30.7.2025)




 
Trabalho é uma coisa boa, ou uma coisa ruim? 
 
Nós crescemos num ambiente de feroz dualidade. Na vida informal, todo mundo reclama do trabalho e elogia a diversão. Todo mundo odeia a segunda-feira. Todo mundo celebra o fim-de-tarde da sexta (é a cultura do SEXTOU!), porque vem por aí o fim de semana que implica em descanso ou divertimento. 
 
Por outro lado, o discurso ideológico no diz que “o trabalho enobrece”, “o trabalho dignifica”, e quando esse argumento de índole moral não é o bastante, nos dizem que “sem trabalho ninguém sobrevive”, “sem trabalho você não vai ter como financiar o seu lazer, nem os seus prazeres, nem sequer os seus vícios”. 
 
Há divergências, é claro, mas todos nós ouvimos variações desse discurso. O trabalho é ruim, mas é necessário. Quer dizer então que não existe trabalho bom? 
 
Curiosamente, há pelo menos duas categorias profissionais em que já ouvi dezenas de vezes algo assim: “Sou um cara de sorte, porque me pagam uma boa grana para fazer a coisa que eu mais gosto no mundo!” Esses profissionais são os músicos e os jogadores de futebol. Mesmo quando o cara ganha apenas o suficiente para sobreviver sem sustos ele se acha um cara de sorte. Porque gosta muito do que faz. 
 
Há muitos outros, sem dúvida. Deve haver mais gente nessa faixa do que imaginamos. Publicitários. Professores (sim, alguns ganham bem). Motoristas. (Conheci motoristas profissionais que diziam: “A única coisa que eu gosto é dirigir.”) 



 
Quero falar, porém, do extremo oposto. Dos trabalhos que ninguém quer executar, e só executa porque está MUITO precisado de dinheiro. Já tive um professor de Economia que usava sempre o “limpador de fossas sanitárias” como exemplo do trabalho detestável, mas socialmente imprescindível. (Como dizem nos filmes norte-americanos: “It’s a dirty job, but someone has to do it”.) 
 
Trabalho de estivadores, carregando peso na cabeça. Cassacos de engenho, cortando cana num sol de 40 graus. Empregadas domésticas esfregando diariamente cada centímetro de uma casa enorme. 



Alguém executaria esses trabalhos, se não fosse pago? Somente por diversão, por exercício? Ou (como tantas vezes dizemos) “para adquirir experiência de vida”? Talvez – se for o caso daquela pessoa que, depois de adquirida a experiência de vida, volta para seu apartamento com ar condicionado, manda trazer cervejas e conta para os amigos: “Eu tive duas semanas que me ensinaram muitas coisas importantes”. Vida que segue. 
 
É diferente a situação de quem está preso a uma classe social e não tem nenhuma rota de fuga, provavelmente vai ter que pegar-no-pesado pelo resto da vida. Alguém pode até tentar se consolar, pensando que é melhor uma mercadoria entregue do que uma mercadoria parada, ou uma casa limpa do que uma casa suja. Existe algum propósito no que está fazendo, existe alguma utilidade. “Eu estou aqui me matando, dirigindo esse ônibus no sol do verão, mas as pessoas vão chegar em casa com segurança.” 
 
O problema é que na maioria desses empregos brutais a relação patrão-empregado é mais brutal ainda. O patrão, em vez de atenuar os desconfortos, procura torná-los ainda mais cruéis, para que o trabalhador não esteja ali defendendo a feira da semana, e sim a própria vida. 
 
Já vi patrão, em momento descontraído à mesa de um bom restaurante, comentar: “Eu podia pagar ao meu pessoal o dobro do que pago, não ia abalar um fio de cabelo nas minhas finanças. Mas aí eles iam começar a gastar dinheiro, a se inchirir, a arranjar distrações, a querer melhorar de vida... Comigo não!...” 




Há uma pequena parábola, que li na infância, provavelmente na revista Sesinho, editada por Vicente Guimarães (o tio de Guimarães Rosa, vejam só). Era a revista recreativa do Serviço Social da Indústria (Sesi), que meu pai recebia todo mês. 
 
O autor da parábola contava ter chegado a um canteiro de obras onde estava sendo erguida uma catedral. Perguntava ao primeiro operário: “O que você está fazendo?” O homem respondia, secamente: “Quebrando pedras.” Ele perguntava o mesmo ao segundo, que respondia, resignado: “Estou ganhando o sustento da minha família.”  E depois a um terceiro, quase eufórico, que explicava: “Você não vê? Estou construindo uma catedral!”. 
 
São níveis diferentes de envolvimento, mas em todos eles existe um mínimo de sentido. De projeto pessoal. Mesmo o cara que está quebrando pedras pode extrair certo prazer do ato de quebrar uma pedra bem certinha. Ou então de visualizar na pedra a carantonha do capataz, e descer-lhe a marreta. Algum prazer a gente sempre encontra. 
 
Existe um outro tipo de trabalho, no entanto, que é a versão grotesca do trabalho desagradável. É o trabalho propositalmente absurdo, que não resulta em nada, não beneficia ninguém, e é imposto a uma pessoa como castigo, ou como processo de enlouquecimento deliberado. 
 
Prisioneiros são muitas vezes obrigados a tarefas sem sentido – passar a manhã inteira cavando um buraco, e a tarde inteira recolocando a terra no lugar, todos os dias, no mesmo local, sob vigilância. (Me pergunto às vezes se a vigilância disso não será, também, uma forma de punição.) 



(Van Gogh, "Prisoners", 1890)

 
Algumas cadeias obrigam os prisioneiros a marchar sem parar, em círculo, para se desgastarem fisicamente, e também para facilitar a vigilância. Van Gogh pintou um quadro famoso sobre esse tema, que aparece também em filmes como Irma La Douce de Billy Wilder e Laranja Mecânica de Stanley Kubrick. 



(Stanley Kubrick, Laranja Mecânica, 1971)


São atividades desgastantes, sem sentido, sem resultado. Uma forma de cansar o corpo e de embotar a mente através da repetição sem propósito. 
 
A revista eletrônica Jacobina publica uma entrevista do antropólogo norte-americano David Graeber, em que ele comenta os diferentes graus de necessidade ou de absurdo no trabalho. Destaco aqui alguns trechos (trad. Fábio Fernandes). 
 
https://jacobin.com.br/2020/09/a-ascensao-dos-empregos-de-merda/
 
 “Você pergunta a qualquer marxista sobre trabalho e valor-trabalho, eles sempre vão imediatamente para a produção. Bem, aqui está uma xícara. Alguém tem que fazer a xícara, é verdade. Mas fazemos um copo uma vez e lavamos dez mil vezes, certo? Esse trabalho simplesmente desaparece por completo na maioria desses relatos. A maior parte do trabalho não é produzir coisas, é mantê-las iguais, é mantê-las, cuidar delas, mas também cuidar de pessoas, cuidar de plantas e animais. (...) 



(David Graeber)

 
“Em teoria, você está recebendo algo por nada, você está sentado aqui sendo pago para fazer quase nada, em muitos casos. Mas isso simplesmente destrói as pessoas. Há depressão, ansiedade, todas essas doenças psicossomáticas, locais de trabalho terríveis e comportamento tóxico, agravados pelo fato de que as pessoas não conseguem entender por que tem motivos justos para estar tão chateadas. 
 
“Porque, sabe, por que estou reclamando? Se eu reclamar com alguém, eles vão dizer: “Pô, você está ganhando algo por nada e ainda está reclamando?” Mas isso mostra que nossa ideia básica da natureza humana, que é inculcada em todos pela economia, por exemplo – que todos nós estamos tentando obter a maior recompensa com o mínimo de esforço – não é realmente verdade. As pessoas querem contribuir com o mundo de alguma forma. Então, isso mostra que se você dá às pessoas uma renda básica, elas não vão sentar e assistir TV, o que é uma das objeções.” 
 
 



domingo, 22 de dezembro de 2024

5135) O orgulho do artesão (22.12.2024)



 
“Qual a diferença entre um artesão e um artista?”, pergunta uma piada antiga. E responde: “É que o artesão trabalha por dinheiro, e o artista trabalha por tesão.” 
 
Existe um prazer específico em produzir qualquer uma dessas coisas que chamamos de “obra de arte” – um livro, um filme, uma pintura, uma música... Mas esse mesmo prazer, ou algo equivalente a ele, pode ser obtido ao produzir objetos artesanais em série – bonecos de barro, de madeira, etc. 
 
Esse prazer não é exclusivo da arte, por certo. Um pedreiro tem prazer em contemplar uma parede perfeita, uma médica vê o resultado da cirurgia que fez e se orgulha, um “chef” vai às nuvens quando seu prato recebe um elogio especial... 
 
É um prazer que está ao alcance de muita gente, e por isso me surpreendo ao ver, de vez em quando, esse pedreiro, essa médica ou esse “chef” desdenharem a importância da obra de arte bem realizada. 




Uma das melhores narrativas sobre a criação artística é uma narrativa sobre culinária: A Festa de Babette (conto de Karen Blixen, ou “Isak Dinesen”, e filme de Gabriel Axel). Depois de oferecer um jantar extraordinário a um grupo de pessoas de gostos simples, Babette diz: “No mundo inteiro soa um grito que sai do coração de cada artista: Me deem a chance de fazer o melhor possível!...” 
 
Em outra obra, Contos de Inverno (Ed. 34, trad. Anna Olga de Barros Barreto), Karen Blixen amplia este exemplo, dizendo: 
 
“Vamos supor (...) que um fabricante de flautas faça uma flauta que nunca seja tocada por ninguém. Não seria uma vergonha e uma pena? Então, de repente, alguém pega e toca a flauta, e o fabricante ouve, e diz: “é a minha flauta”. (pág. 173)
 
O criador reconhece a sua criação (ou a sua criatura), porque ali existe algo de si próprio. A criação é ao mesmo tempo coletiva (é a ponta de uma longa linha de outras criações, que vem há gerações, há séculos) e individual, porque foi uma pessoa que, naquele exemplo específico, produziu algo de novo e pessoal numa linhagem de obras. 



Fazer bem feito, pouco importa o quê. Ítalo Calvino, com seu olho perceptivo para as contradições da vida, conta, na sua trilogia Nossos Antepassados
 
Em virtude de todos esses trágicos acontecimentos, o Mestre Pietrochiodo estava produzindo forcas cada vez mais engenhosas.Elas agora eram verdadeiras obras-primas de carpintaria e mecânica, assim como os cavaletes, os molinetes e outros instrumentos de tortura com os quais o Visconde Medrado extraía confissões dos prisioneiros. Eu ia com frequência à oficina de Pietrochiodo, porque era um bom espetáculo vê-lo a trabalhar com tanto afinco e entusiasmo. Mas pesava sempre uma tristeza no coração do velho carpinteiro. Os cadafalsos que ele produzia eram destinados a homens inocentes. “Como faço para conseguir encomendas de trabalhos assim, delicados, mas com outra função?! Que outros mecanismos poderiam me dar o mesmo prazer de construir?” Mas vendo que tais perguntas ficavam sem resposta, ele as afastava da mente e dedicava-se a construir seus instrumentos da maneira mais perfeita e engenhosa que podia.
 
-- Basta esquecer a finalidade a que se destinam – dizia-me, -- e olhar para eles como peças de mecanismo. Não são uma beleza?
 
Eu olhava para aquela arquitetura de traves, aquelas cordas entrecruzadas, cabrestantes conectados a roldanas, e tentava não ver corpos torturados presos àquilo, mas quando mais eu tentava mais me via pensando neles, e dizia a Pietrochiodo:
 
-- Como posso esquecer?
 
-- Pois é, meu rapaz – dizia ele. – Imagine eu.
 
(Italo Calvino: “The Cloven Viscount”, in Our Ancestors, Picador, trad. Archibald Colquhoun; pág. 22; edição original, 1951). (trad. BT)
 
Um orgulho contraditório, problemático, que me traz à lembrança o orgulho do protagonista da série Breaking Bad, Walter White, que se orgulha de produzir a metanfetamina mais pura e mais rigorosamente fabricada de todo o mercado das drogas do Novo México. 
 
“Fazer bem feito” é um critério que vai além da arte, mas tem tudo a ver com ela. Tem a ver também com o grau de humanização impregnado em qualquer matéria que tenha sido usada, modificada, trabalhada, desgastada pelo contato humano. 
 
Um livro muito lido, manuseado, meio amassado, cheio de frases sublinhadas e de anotações. Uma mesa de madeira exibindo círculos deixados por canecas de café e copos de bebida, riscos de facas, marcas de pancadas. Uma escada de pedra, desgastada por milhares de pés que por ali subiram ou desceram. 
 
São duas fases dessa relação amorosa entre a mão humana e os materiais da vida. A mão que pega o material bruto, sem forma, sem sentido, e lhe dá uma forma que pode ser para contemplação (uma escultura) ou para uso (uma cadeira), mas em todos os casos uma destinação que integra aquele material à vida humana. 
 
E, num segundo momento, a mão que usa, o corpo que usa e que desgasta o que outra mão criou. 



(Bertolt Brecht)

 
É o que fez Bertolt Brecht escrever, em “De Todas as Obras do Homem”:
 
De todas as obras do homem eu prefiro
as que têm marcas de uso.
As panelas de cobre com arranhões e bordas amassadas,
as facas e os garfos cujos cabos de madeira
foram desgastados por tantas mãos: formas assim
me parecem as mais nobres. Como as lajes em volta das casas antigas
pisadas por tantos pés, afundadas no solo,
e com tufos de grama brotando entre elas: sim,
essas são obras felizes. (...)



 
Primo Levi tem um livro inteiro dedicado ao ofício de produzir coisas materiais: A Chave Estrela (“La Chiave a Stella”, 1978). É uma série de capítulos quase independentes narrando sua convivência com Fausone, um operário que trabalha supervisionando (e pondo mãos à massa) a construção de pontes, viadutos, represas – obras em grande escala e que envolvem riscos de acidentes graves.
 
Em cada capítulo do livro Faussone conta para o narrador (um químico, que se presume ser o próprio Levi) algum trabalho complicado em que se meteu, os problemas que surgiram, as soluções encontradas, ou os prejuízos resultantes.
 
O amor ao próprio trabalho (infelizmente, o privilégio de uns poucos!) representa a melhor e mais concreta aproximação da felicidade na Terra. (...) Para exaltar o labor, nas cerimônias oficiais, emprega-se uma retórica insidiosa, baseada na noção de que uma louvação ou uma medalha custam menos do que um aumento de salário, e rendem mais frutos. Existe também uma retórica do extremo oposto, contudo, não propriamente cínica, mas profundamente estúpida, que tende a aviltar o trabalho, enxergando-o como algo inferior (...) como se alguém que sabe trabalhar fosse, por definição, um servo, e como se, ao contrário, alguém que não sabe executar um trabalho, ou sabe muito pouco, ou não quer aprender, fosse por essa razão um homem livre. (p. 79-80, trad. BT)
 
(The Wrench, Ed. Michael Joseph, London, 1987, trad. William Weaver)
 
O trabalho material é uma linguagem sem palavras capaz de conectar pessoas diferentes, de culturas e idiomas diferentes, de mundos diferentes. 
 
O roteirista Bo Goldman (Um Estranho no Ninho, A Rosa, Shoot the Moon, Perfume de Mulher, etc) diz que no começo de sua carreira profissional o melhor elogio que recebeu foi : “Bo, você sabe o que é uma coisa”. “You know what a thing is”. É uma maneira de dizer que o escritor nunca perde de vista o significado e a importância de tudo que temos à nossa volta. Tem um peso especial para quem escreve para o cinema – para quem é capaz de pensar em idéias universais, abstratas, e conseguir transmiti-las através de cenas onde elas se encarnam em coisas banais: um copo, um chinelo, um par de óculos. 
 
Quem sabe o que é uma coisa? Em princípio, quem é capaz de fabricar aquela coisa e disso extrair um certo prazer, um certo orgulho, uma realização profissional. E também quem é capaz de usar aquela coisa e reconhecer a quantidade de trabalho humano que foi necessário para produzi-la. 

 



quinta-feira, 9 de março de 2023

4920) A arte está no detalhe (9.3.2023)



(Daniel Day-Lewis, em Lincoln)

 
Dizem que quando Steven Spielberg filmou a sua cine-biografia de Abraham Lincoln, o tique-taque de relógio que ouvimos no filme é de um relógio que de fato pertenceu a Lincoln.
 
Dizem que quando Luchino Visconti, em Morte em Veneza (1971) mostra Dirk Bogarde lendo um jornal, trata-se de um exemplar autêntico de um jornal local, da época em que transcorre o filme (1911). 
 
Esses detalhes têm importância? Um espectador comum jamais vai perceber a diferença. Mesmo um crítico de cinema ou um historiador precisariam de alguma informação prévia para reparar em tais detalhes. 
 
Na verdade, esse exibicionismo de perfeição acontece para as pessoas que fazem o filme, não para as que o assistem. Não faz parte do filme (ou só o faz muito pouco): faz parte da vida deles, da semana de trabalho deles. 
 
Para conseguir o tal relógio e o tal jornal foi preciso que pessoas da equipe de produção entrassem em contato com a instituição (museu, biblioteca, etc.) que tinha a guarda dos objetos, enviasse um pedido formal, negociasse a abertura de um seguro contra perdas e danos, etc.
 
O objeto provavelmente foi conduzido, vigiado e levado de volta por pessoas com essa única tarefa para executar.
 
Inumeras vezes alguém perguntou no set: “Quem é esse pessoal de fora? O que estão fazendo aqui?”, e alguém respondeu: “É o pessoal que está cuidando do relógio raro”, ou algo assim.
 
Claro que nem sempre tudo corre bem. No filme de Quentin Tarantino Os Oito Odiados (2015), o ator Kurt Russell despedaçou um violão de 1870, uma raridade insubstituível, cedido pelo Martin Museum. Havia réplicas, feitas com essa finalidade, mas na hora da cena alguém não fez a troca, e o ator pensou que estava tudo pronto. O violão de 145 anos virou estilhaços.
 
“Coisas da vida; paciência,” diria Alec Baldwin com estoicismo.


 
(O Martin Museum)

A primeira crítica que se faz é, inevitavelmente: “Pra que usar um instrumento tão raro e correr esse risco? Por que não fizeram simplesmente uma imitação bem feita, ou mais de uma, e devolveram logo o original?”. 
 
E mais uma vez volta a possível explicação: porque quando o elenco e a equipe sabem que estão lidando com material raro e verdadeiro, aquilo impõe um pouco de respeito no espírito desses profissionais que precisam lidar diariamente, na sua profissão, com a encenação, a rua “cenográfica”, o figurino fake
 
Conta-se que um diretor de Hollywood, antes de filmar a cena da atriz principal descendo uma escadaria para um baile, exigiu um colar de diamantes verdadeiros, coisa para mais de 100 mil dólares. O assistente propôs uma imitação de 200 dólares. O diretor disse: “Uma mulher tem outra postura quado ela sabe que está trazendo cem mil dólares ao pescoço.”



( John Wayne, em Red River
 
Não é muito diferente da lenda que se conta sobre John Wayne. Quando ele filmou Rio Vermelho, uma das suas melhores atuações da vida inteira, o diretor Howard Hawks mandou confeccionar presentes para pessoas especiais da equipe: cinturões com fivela de prata e as iniciais do dono gravadas. Hawks e Wayne trocaram, depois, os respectivos cinturões, e Wayne usou o cinto com as iniciais de Hawks em vários clássicos que filmou nos anos seguintes, como Eldorado, Hatari, O Homem que Matou o Facínora e Rio Bravo. Como um talismã de qualidade. 
 
Não é ao público que esses detalhes se destinam, é à equipe. É para a fantasia íntima de quem está filmando, e não é só das estrelas. É também de gente que chega no set às 4 da manhã para começar a preparar o equipamento dos que chegarão às 6.
 
Trabalho profissional em equipe exige disposição, seriedade, profissionalismo, todo esse vocabulário motivatório que os coaches usam à mancheia. Mas exige também dois dedos de fantasia, três dedos de simbolismo e quatro de fetiche, para que todos acreditem que estão criando juntos uma coisa de verdade, uma coisa importante, e que essa coisa faz parte da vida deles, de segunda a sexta-feira. 
 
Se contarem a algum desses profissionais o detalhe do relógio, do jornal ou do colar, ele vai assentir, e dizer (lá com suas palavras) que sente orgulho de estar participando de uma coisa bem feita. Ele sabe que o público não vai saber disso, e de certa forma esse detalhe torna ainda mais valiosa a presença desse objeto. Ele sabe que a equipe teve em mãos algo precioso.
 
Porque esta é uma condição peculiar dos artistas, e quando digo artistas me refiro a todo mundo que trabalha na criação de uma obra de arte: eletricistas, marceneiros, maquiadoras, cantoras, roteiristas, assistentes, cenógrafas, diretores de fotografia...  “Um filme”, “uma peça de teatro”, “um balé”, tudo isto tem dentro de si duas coisas. Uma, é o produto que o público vê. Outra, é a aventura de fazê-lo, e isso o público não fica sabendo. 
 
A criação do mercado de filmes em DVD, com sua abundância de “extras” e “bônus”, gerou alguns sub-produtos interessantes.
 
O “Making Of” (com um F só, revisor) dá ao público uma vaga idéia do trabalho insano que é a realização de um filme, a ralação diária de centenas de pessoas para colocar na tela uma história que foi imaginada por meia dúzia. 
 
Outro bônus da era DVD são as “versões comentadas” do filme. Alguém, geralmente o diretor, vai assistindo o filme em tempo real e fazendo comentários sobre cada coisa que aparece. Explica detalhes técnicos, compara uma cena com outra, relata episódios pitorescos ou assustadores, chama a atenção para um objeto... Num mundo ideal, todo filme teria uma versão assim. Os bons filmes ganhariam em riqueza psicológica, em verossimilhança, teriam quem sabe algumas surpresas para o público. Até os maus filmes ficariam mais interessantes. 
 




quinta-feira, 3 de novembro de 2022

4879) As vocações frustradas (3.11.2022)



(Amedeo Modigliani, "Auto Retrato")


Uma coisa muito enganosa que a gente vê nos livros de auto-ajuda literária (os famosos manuais de “Como Escrever Bem”, “Como Ser Um Escritor De Sucesso”, “Dicas Para um Aspirante a Escritor”, etc.) é o famoso conselho de “Nunca Desistir!”. 
 
Eu já fiz várias oficinas literárias, como aluno e como instrutor, e vejo esse conselho ser repisado de forma quase hipnótica. É bonito, mas é enganoso.
 
Tem horas em que a pessoa deve desistir, sim. É quando ela própria percebe que o que está fazendo não é bem o que ela achava que era capaz de fazer, o que valia a pena se esfalfar de trabalho para conseguir fazer.
 
Nem todo mundo tem qualidades para ser escritor. Isto não é uma lei elitista, é uma questão de bom senso. Nem todo mundo tem qualidades para ser médico, ou piloto de avião, ou comerciante, ou cantor, ou administrador de fazenda... A gente pode achar aquilo bonito, e ter vontade de ser assim. Mas a vontade não basta.

Teoricamente, idealmente, todo mundo deveria ser capaz de tudo, ao nascer. Deveria ter um potencial aberto a todas as possibilidades. Mas a cada ano de vida essas possibilidades vão se afunilando, porque umas habilidades se desenvolvem mais, e outras menos.
 
Escrever não é fácil. Também não é uma coisa astronomicamente difícil, e uma de suas belezas é sua acessibilidade. Alfabetização, estudo, muita leitura, muita discussão, muita prática... e a pessoa vai desenvolvendo sua escrita. Até que ponto? Ninguém sabe.
 
Sempre digo, a quem me pede orientação: escreva coisas pessoais, e mostre. Escreva cartas, blogs, diários. Não pense em se profissionalizar tão cedo. A profissionalização é possível – mas não para todos. Cabem 7 bilhões de escritores no mundo? Cabem 7 bilhões de pintores, de maestros, de filósofos?
 
Ser escritor é como ser músico (instrumentista). Todo mundo pode ser músico? Em princípio (no instante do nascimento), sim, todos somos iguais. No entanto, uns irão desenvolver mais capacidade do que outros.
 
O engano mais grave não é o de inculcar na cabeça de uma pessoa que ela pode se tornar escritora, pianista, poeta, ator, atriz, artista... Cada uma que vá à luta e descubra do que é capaz. Engano é tentar convencê-la de que basta se esforçar para conseguir fazer profissionalmente qualquer uma dessas coisas.
 
Os manuais de auto-ajuda estão cheios daqueles exemplos clássicos da obra literária genial que foi recusada por 20 editores e tornou milionário o vigésimo-primeiro. Na cabeça de um jovem ansioso, isso deixa de ser um fator de desalento para se transformar magicamente numa garantia de que quanto mais recusado for um manuscrito mais genial ele deve ser.  Não é.
 
Nem sempre temos talento para o que sonhamos. Uma garota pode sonhar em ser atriz, quando o seu talento é para escrever – mas ela não quer escrever, porque no meio social onde convive isso não tem valor, e ser atriz de cinema tem. Um rapaz pode sonhar em se tornar escritor, porque isso pode lhe dar dinheiro e respeito intelectual, mas não escreve tão bem assim, ou não sabe o que escrever; talvez pudesse se tornar um ótimo editor, ou tradutor, alguém ligado à criação literária.
 
Às vezes o próprio indivíduo tem uma noção meio vaga de suas qualidades e fica anos insistindo em explorar uma qualidade que não possui, em vez de investir em talentos paralelos que são igualmente importantes.
 
Saber desistir e optar por outra carreira é tão importante quanto saber persistir diante das dificuldades.


O argentino Manuel Puig queria ser diretor de cinema, mas logo percebeu que, sendo tímido e introspectivo, jamais poderia comandar de megafone em punho uma equipe de cem pessoas. Dedicou-se a escrever:
O Beijo da Mulher Aranha, A Traição de Rita Rayworth, Boquinhas Pintadas... Valeu a pena? Para mim, valeu. 
 
Dizem que Amedeo Modigliani queria ser escultor, sonhava com isso, mas nada dava certo, e ele resignou-se, meio frustrado, a ser um dos maiores pintores de sua geração. Menos mal. Modigliani era o protótipo do artista faminto, meio drogado, dependendo de vender uma tela para comer por uma semana. Podemos ter perdido o maior escultor do mundo? Talvez. Mas ganhamos Modigliani.
 
Quando o artista tem dinheiro, contudo, ele pode alimentar indefinidamente sua fantasia. Era o caso de Robert Coates (1772-1848), que recebeu o apelido de “O Pior Ator do Mundo”. Filho de um comerciante rico das Índias Ocidentais, ele patrocinava a montagem das suas peças preferidas (inclusive Shakespeare), onde ele mandava em tudo: cenários, figurinos, elenco, além de mexer no texto para favorecer a si próprio. Era uma figura folclórica da cena teatral londrina, enchendo os teatros de gente disposta a se divertir. Era péssimo. Era rico. Nunca desistiu.
 
Em geral, a gente só toma conhecimento das carreiras artísticas quando elas dão certo. As que naufragam no anonimato não chegam aos nossos ouvidos, por motivos óbvios.
 
Se olharmos com cuidado as carreiras vitoriosas, no entanto, vamos encontrar muitos casos de pessoas que tinham um sonho diferente a respeito de si mesmas, mas era um sonho de quem não tinha talento real, vocação, ou, como diz o pessoal por aí, “o cacoete da coisa”.
 
Rapazes que queriam ser jogadores de futebol, jogavam mal, tornaram-se técnicos vitoriosos. Narradores que tentaram em vão ser romancistas, e viraram autores de telenovela na hora certa. Compositores sem brilho que acabaram se tornando excelentes arranjadores. Isto é fracasso? Não acho.
 
A maldição do NUNCA DESISTA já destruiu muitos talentos que podiam perfeitamente ser direcionados rumo a outros trabalhos, se o indivíduo fosse capaz de avaliar com mais clareza e menos emoção suas próprias habilidades. Se não estivesse mergulhado, como todos sempre estamos, no “espírito do tempo” para quem o Desejo é soberano, a Vontade resolve tudo. Não é assim que o mundo funciona.


(Robert Coates)




sábado, 17 de outubro de 2015

3948) "A rotina e a quimera" (18.10.2015)




(Carlos Drummond)


Sob este melancólico título Carlos Drummond publicou uma crônica no Correio da Manhã, recolhida depois no livro Passeios na Ilha (1952), e nela meditava sobre o destino do escritor brasileiro que tem um emprego público. 

Como se sabe, dois terços do nosso cânone na poesia, no romance e no conto foram produzidos por indivíduos que ganhavam a vida como: 

1) funcionários públicos; 
2) professores; 
3) jornalistas. 

Em tempos mais recentes, 

4) publicitários; 
5) advogados. 

A fatia mais estreita corresponde a todas as outras profissões, inclusive a fugidia espécie do “escritor em tempo integral”.

Há medidas modernizadoras (diz o poeta) para evitar que funcionários desviem seu tempo de expediente para atividades menos confessáveis (ele lembra que Lima Barreto “escrevia romances nas costas do papel almaço, usado, da repartição”). O escritor-funcionário, porém, não deixará de escrever por isto: “escreverá na hora do sono ou da comida, escreverá debaixo do chuveiro, na fila, ao sol, escreverá até sem papel”.

Drummond falava de cátedra, e para ele o escritor-funcionário tem que estar equidistante do miserê e do pleiboísmo: 

“O emprego do Estado concede com que viver, de ordinário sem folga, e essa é condição ideal para bom número de espíritos: certa mediania que elimina os cuidados imediatos, porém não abre perspectiva de ócio absoluto. O indivíduo tem apenas a calma necessária para refletir na mediocridade de uma vida que não conhece a fome nem o fausto.”

O poeta reconhece a floração do talento em outros temperamentos, como o boêmio ou o escritor faminto de mansarda, mas adverte: 

“aqui se trata de certo tipo de criador literário, aquele que não ama velejar pelos mares lendários nem ancorar à sombra do botequim: o escritor-homem comum, despido de qualquer romantismo, sujeito a distúrbios abdominais, no geral preso à vida civil pelos laços do matrimônio, cauteloso, tímido, delicado. A organização burocrática situa-o, protege-o, melancoliza-o e inspira-o”.

O poeta parece estar opondo o andarilho Rimbaud ao sedentário Drummond, mas logo abaixo ele se dá o trabalho de nomear (contei agora mesmo) trinta e três colegas do nosso Olimpo literário, e seus respectivos cargos. O poeta ainda adverte: 

“Mas seriam páginas e páginas de nomes, atestando o que as letras devem à burocracia, e como esta se engrandece com as letras.”  

A primeira grande decisão na carreira de um escritor não é estética nem ideológica, é a sua resposta à pergunta: “Como vou ganhar a vida enquanto escrevo? Um emprego confortável e seguro, que dure a vida toda, ou viver de aventuras? Qual das duas vidas me transformará num escritor melhor?”.






sexta-feira, 15 de maio de 2015

3814) Ser professor (15.5.2015)



Uma lojinha estreita, de uma porta só; uma tenda. Não a tenda “barraca de acampamento”, mas a tenda que é um quartinho instalado no rés-do-chão de um sobrado ou de um edifício de poucos andares sem elevador. Um pé-de-escada espaçoso e com pouca circulação de gente.  Em certa década, um rapaz de bigode preto começou a usar aquele espaço para prestar pequenos serviços de consertador de alguma coisa: sapatos, relógios, motocicletas, tudo que na vida humana precisa de manutenção e reparos. O mundo pisca um olho, e anos depois quem atende ali já é um velho de barba branca.

Ser professor é um pouco assim. (Claro que tem o outro lado, o rosto solar, a faceta operística, o viés peroratório do magistério. Quem não gosta de auditório cheio? Duzentos clientes, todos precisando de pelo menos meio ponto!) Mas tem o lado lunar do professorado, que é justamente o que na minha utopia (este é um conto de ficção especulativa) eu chamo o “professor de tenda”.

A tenda pode ser em qualquer canto. Centro da cidade, ou transversal da avenida principal do bairro. Ele está ali sentado, às três da tarde, botando meia sola num calçado qualquer, quando chega um casal de alunos, ele indica uns tamboretes, os dois sentam. Precisam fazer um trabalho, o assunto é tal e tal. O mestre escuta, a boca segurando os pregos que os dedos recolhem de um em um, enquanto ele martela a sandália feminina em decúbito. No último prego ele pigarreia, manda gravar, pronuncia meia dúzia de títulos, números especiais de revistas, edições específicas. Dá o email para acompanhamento da consulta. Erguem-se todos, ele busca a maquininha, a moça passa o cartão, guarda o recibo – hesita – sorri – tira um livro da bolsa: “O senhor podia assinar pra mim?”.  “Claro,” diz ele, abre o livro devagar, dá uma risada: “Você é como eu, não é? Lê sublinhando.”

Na parede desse professor há um quadro-negro tipo tabela, com a lista dos serviços, e a lista dos preços, que nunca sobem mais do que o necessário. Um metalinguístico calendário-de-oficina com Rose di Primo no auge. Um cartaz (original) de filme, renovado toda segunda-feira. Há um espelho com uma foto recente dele pregada bem no centro. Um alvará caligrafado por Steinberg. Um termômetro e um barômetro solidariamente lado a lado. Uma vitrine (o casal quase não se desgruda dali) com alguns manuscritos dele, e primeiras edições.  Uma telona digital, ladrilhada em quatro: noticiário via cabo, browser, canal Classimovies e uma fractal em loop, bem repousante. Um assum preto digital cantando preso noutra telinha. O diploma de professor emoldurado. A flâmula com o escudo do meu time do coração.




sexta-feira, 8 de novembro de 2013

3338) Pague o músico! (8.11.2013)




Circula pela web (recebi via Twitter do ilustrador Renato Alarcão) um email assinado pelo músico N. J. White, endereçado a uma tal “Zoe”, de um canal de TV britânico, que, aparentemente, escreveu para ele pedindo a liberação, sem pagamento, de alguma música ou trecho de música de autoria dele, para inclusão em algum tipo de trabalho. Esses detalhes não ficam muito claros, mas não importa. Importa a resposta do músico e seus argumentos. Faço pequenos cortes na mensagem original, que é bem mais extensa, mas o essencial vai aí abaixo.

“Prezada Zoe: (...) Estou de saco cheio desse papo furado, dessa inevitável frase: ‘Infelizmente não temos verba para a música’, como se alguma permanente Lei do Universo tivesse proferido um triste e imutável veredito impedindo você de destinar verba para a música. É a SUA empresa quem determina as verbas. Foram vocês que decidiram não destinar verba para a música. Vivo recebendo mensagens desse tipo, toda semana, enviadas por uma indústria de mídia rica, globalizada.

“Por que é assim? Vamos dar uma olhada em quem somos, eu e você. Eu sou um músico profissional, vivo da minha música. Levei metade da vida para aprender minha técnica, e anos para subir na estrutura da profissão até chegar a um ponto de receber mensagens de estranhos como você. Minha música é uma propriedade conquistada com muito esforço. Já licenciei música minha para alguns dos maiores programas, marcas, games e produções de TV, desde Breaking Bad até Os Sopranos, da Coca-Cola a Visa, da HBO até Rockstar Games. Você teria coragem de abordar um Diretor com um currículo assim, e, com uma simples frase cínica, pedir-lhe que trabalhasse de graça?

“É o menosprezo pela música, culturalmente impregnado na SUA profissão, que leva vocês a desdenhar o quesito ‘música’ sempre que possível. Vocês pagarão, sem questionar, a qualquer pessoa envolvida numa filmagem, (...). O músico? Ele que trabalhe de graça. (...) Você trabalha numa empresa financeiramente próspera, bem sucedida, reconhecida no mundo inteiro, com um portfólio cheio de sucessos. (...) Vocês têm dinheiro, sim, e fingir o contrário chega a ser um desaforo. E me manda esse pedido esfarrapado, “dê-me seu trabalho de graça”. (...) A resposta é um sonoro e definitivo NÃO”.

White termina a carta dizendo que está remetendo cópias para vários websaites e blogs voltados para a música, e encorajando os colegas a fazerem o mesmo. É o que estou fazendo. Dona TV (etc.), pague o músico! Pague o poeta, o escritor, o ilustrador, o fotógrafo, o ator... Nenhum email dizendo “Não temos verba para roteiro” já foi enviado por uma pessoa que estava trabalhando de graça.


sábado, 23 de março de 2013

3141) Dez anos (23.3.2013)





Não sou de comemorar datas. Nem mesmo meu aniversário eu comemoro. Prefiro comemorar façanhas: o lançamento de um livro, por exemplo. Aí, sim tenho a sensação de estar celebrando uma coisa concreta, real, e não uma simples coincidência aritmética. No presente caso, entretanto, acho que vale comemorar, porque as duas coisas estão juntas.

Hoje, 23 de março de 2013, completo dez anos como titular desta coluna no “Jornal da Paraíba”, para onde fui trazido, pela ordem de conversa, por Rômulo Azevedo, Luiz Carlos de Souza e Guilherme Lima. Orgulho-me de afirmar que, como bom jornalista, não faltei um dia sequer, e este é o artigo de número 3.141 (tenho todos devidamente salvos e com back-up). Além do mais, todos estão disponíveis no meu blog Mundo Fantasmo (http://mundofantasmo.blogspot.com), onde procuro postá-los diariamente, para quem se interessar. Duas coletâneas deles já foram publicadas: “A Nuvem de Hoje” (Editora Latus/UEPB, Campina Grande, 2011) e “A Arte de Olhar Diferente” (Ed. Hedra, São Paulo 2012).

Ao longo deste tempo o jornal passou por algumas reformas gráficas, e a partir de setembro de 2011 o tamanho máximo da coluna, que era de 3.000 caracteres com espaços, foi reduzido para 2.680.  De início chiei, porque para mim é mais fácil escrever muito do que escrever pouco; mas a gente se acostuma, quando tem que fazer algo todo dia. O que mais me incomodou foi o limite máximo de 21 caracteres para o título, porque muitas vezes não cabe o nome inteiro do filme ou do livro que a gente está comentando.

Me perguntam sempre: Como é que você consegue escrever um artigo por dia? Respondo dizendo que jornal é assim, tem que escrever, esteja inspirado ou não, esteja com boas idéias ou não. Às vezes a gente passa uma semana sem idéias, mas escreve. Às vezes tem seis idéias geniais antes do café da manhã, e nesse caso o melhor que faz é escrever logo todas seis e ficar com a semana pronta.

Agradeço aos leitores fiéis que acompanham esta coluna desde que ela começou, e aos outros que ganhei através do blog. Nem tudo que escrevo interessa ou agrada a todo mundo, e é bom que seja assim, para a gente não ficar esperando somente a aprovação, a concordância, o elogio. Quando eles vêm, são bem vindos e preciosos. Mas a gente não escreve para agradar, escreve para interferir, para provocar, para compartilhar, para prevenir. Escreve para deixar registrada uma informação que será importante daqui a mais dez ou vinte anos. Alguns escritores passam a vida redigindo um “Diário Íntimo”. Eu acho que vale mais a pena escrever um “Diário Público”, discutindo o que interessa a muita gente – ou pelo menos a intenção é esta.



terça-feira, 25 de setembro de 2012

2985) Quero morar na Suécia (25.9.2012)


As autoridades da Suécia estão inaugurando uma experiência de engenharia social (existe este termo?) para organizar certos setores de estudo, trabalho, etc. em função dos nossos diferentes ciclos de atividade biológica.  Há pessoas que acordam a mil por hora, com a corda toda, e às 10 da noite já estão cabeceando de sono; e pessoas que se arrastam para fora da cama, de manhã, como trapos embrutecidos, mas vão ganhando forças ao longo do dia, e depois da meia-noite são capazes de qualquer façanha intelectual (sem falar nas outras). Por que isto?  Dizem os cientistas (não só os suecos) que existem dois tipos de pessoas a que eles chamam “A” e “B”.  A pessoa tipo “A” tem um ciclo biológico de 23 horas; a pessoa “B” tem um ciclo de 25 a 27 horas.  São estas pessoas “B” que são mais produtivas no final do dia e acordam com sacrifício.

Erika Augustinsson é vice-presidente da B-Samfundet (“Sociedade B”), um movimento que pretende abrir espaços para que as pessoas com estas características (e que talvez sejam uma minoria) possam estudar e trabalhar em horários mais adaptados ao seu ciclo de atividade.  Pessoas B (como é o meu caso, aliás) são frequentemente chamadas de preguiçosas porque têm dificuldade de acordar cedo para ir à aula ou ao trabalho. (Curiosamente, quando elas estão acordadas na madruga, com todas as turbinas mentais ligadas na potência máxima, ninguém vê, porque está todo mundo dormindo.)

Diz Erika: "Nosso objetivo é acabar com as rígidas disciplinas de horário da sociedade industrial, em que todos chegam ao mesmo tempo e saem na mesma hora". A industrialização exige a uniformização, ou seja, todo mundo chegando e saindo ao mesmo tempo, todo mundo se comportando de maneira ordenada e previsível.  Exceções não são bem vindas, porque para lidar com elas é preciso criar e manter diferentes cronogramas, e isso atrapalha a Produtividade (essa deusa grega invisível, que só se deixa perceber pelas benesses que distribui aos seus sacerdotes).

O esquema vai ser inaugurado com uma escola secundária de Gotemburgo, que a partir de setembro oferecerá turnos opcionais entre as 20 e as 8:00 horas.  Eu sempre fui um aluno medíocre quando estudei de manhã, e minha melhor fase estudantil foi quando passei para o turno da noite. Ainda hoje, sair da cama é como escalar um penhasco, mas depois que anoitece a única coisa que peço é que não me atrapalhem, porque preciso recuperar o tempo perdido. Assim como muita gente já conseguiu trabalhar em casa (sem perder 3 ou 4 horas no trânsito), muita gente pode vir a conseguir essa coisa tão simples: ser aproveitado durante o seu melhor momento.


quinta-feira, 30 de agosto de 2012

2963) Ser frila (30.8.2012)




(Stefan Karpiniec)



Ser frila é ser livre, leve e solto como um náufrago à sombra do coqueiro solitário de uma ilha deserta de cartum. 

Ser frila é estar sem trabalho e sem dinheiro e passar o dia vendo TV ao lado do telefone, porque é por lá que geralmente vêm as boas notícias, mas com o computador aberto na caixa de emails, que também proporciona aleluias.

“Free-lancer” é (para os despeitados) um simples eufemismo para “desemprego reiterativo”. 

Ser frila é viver ligando para colegas, não-colegas, ex-colegas, semi-desafetos,  ex-namoradas, quase-namoradas e completos desconhecidos com a pergunta “E aí, tá rolando algum lance, algum trabalho novo?... Qualquer coisa me dá um toque!”. 

Ser frila é pisar no abstrato, nadar no sólido, respirar no vácuo, acreditar no improvável e se alimentar do possível. 

Ser frila é ter uma vida regida pelo Acaso e por decisões alheias, e se dar por satisfeito, porque tem gente que nem isso tem a seu favor.

Ser frila é pegar um trabalho em janeiro, terminá-lo em fevereiro (só receber em julho), passar março roendo as unhas e reduzindo a feira, pegar outro serviço em abril com perspectivas de um semestre, receber em junho a má notícia do cancelamento, mas meia dúzia de trampos de pouca monta já zeraram o déficit do orçamento, e ainda bem que em julho surgem dois ao mesmo tempo, aos quais é prometida dedicação exclusiva e tempo integral (porque sem essas bigamias trabalhistas ninguém escapa!), e daí até agosto é o malabarismo de cumprir prazos e pedir compreensão; em setembro caem do céu duas propostas irrecusáveis e incompatíveis, e o frila tem vontade de morrer por ser obrigado a recusar uma das duas; mas em outubro o orçamento retorna ao azul, os juros do cheque especial se evaporam, a grana vem polpuda, novembro é um mês de orgias e esbórnias (nas livrarias e sebos, bem entendido), e quando chega em dezembro é preciso raspar o fundo do tacho para a catástrofe das Festas.  

Ser frila é abrir uma cerveja diante das girândolas do reveion e pensar consigo: “No fim das contas, foi um ano produtivo!”.

Ser frila é ser amigo de funcionários que têm contracheque pingando na conta no último dia útil do mês, têm estabilidade (são concursados, o governo só pode demiti-los em caso de infração grave), vão todos os dias pelo mesmo trajeto ao mesmo edifício, sobem para o mesmo andar, sentam à mesma mesa e manuseiam os papéis da véspera; trabalham de olho na aposentadoria, quando daquela rotina sobreviverá apenas o contracheque, enquanto fazem a contagem regressiva para o dia em que se aposentarão: “Faltam 3.518 dias... faltam 3.517... faltam 3.516...”  

Ser frila (para o bem e para o mal) é o contrário disto.










quinta-feira, 7 de junho de 2012

2890) Ganhando a vida (7.6.2012)





Dias atrás fui ao cinema e na saída encontrei uns conhecidos que não via há tempos.  Fomos tomar um chope ali perto, falamos de cinema (ou melhor, de como todo filme de Woody Allen parece uma continuação do filme anterior, só que com outros personagens), de futebol (e concordamos que nossos julgamentos sobre um clube de futebol dependem mais do resultado do último domingo do que de um século inteiro de altos e baixos), de política (concordei diplomaticamente com todos os absurdos que ouvi) e finalmente de dinheiro.  Cada um se queixou das dificuldades econômicas do país, e cada um descreveu como estava se virando.

Romualdo, por exemplo, revelou que vive de ser fiador.  Como assim?, perguntei.  Ele explicou que os pais, precavidos, botaram no nome dele a casa que possuem.  Como no Rio a procura por fiadores que possuam imóvel é grande, ele virou fiador-de-aluguel para amigos e conhecidos, cobrando a “uma agenda” de gente uma quantia mensal que vai de 100 a 200 reais, conforme o valor. “Todos pagam”, disse ele, explicando ainda que para quem consegue um bom apartamento na Zona Sul tanto faz pagar 2.500 como 2.600 reais por mês.  E a inadimplência?, perguntei.  Ele deu de ombros e afirmou que tinha uma “reserva técnica” que até então não fora necessária.

Valdir, que tem vinte e poucos anos, ganha a vida como ressuscitador de dados.  Como assim?, perguntei.  Ele explicou que uma das coisas mais comuns hoje em dia é gente que tem arquivos importantes (orçamentos familiares, diários, relatos de viagens, TCCs e teses de mestrado, etc.) gravados em mídias que a maioria dos computadores de hoje não lê mais, como os famosos “floppy disks”, os disquetes de 3.5”, CDs gravados com softwares meio defasados (Wordstar... WordPerfect...) e assim por diante.  Como o sogro dele trabalha na “oficina digital” (setor de consertos) de uma grande empresa, ele tem acesso a variados de tipos de computadores 286, 486 e outras mídias jurássicas.  E na maior parte dos casos consegue recuperar os dados perdidos, atualizar seu formato e transferi-los para um pendraive ou outra engenhoca moderníssima.  “Tendo a certeza absoluta”, diz ele, “que daqui a 10 anos a mesma pessoa me virá com o pendraive pedindo-me que transfira os dados para a interface bioquântica que ela mandou implantar no cérebro”.

Um grande financista disse uma vez que onde existir uma necessidade humana existirá uma oportunidade para se ganhar dinheiro. Uma sociedade cada vez mais complexa aumenta exponencialmente essas oportunidades. Por que me maravilho com isto?  Talvez porque eu ganho a vida exatamente como milhões de pessoas ganhavam cem, duzentos anos atrás.

domingo, 25 de março de 2012

2827) O Princípio Peter (25.3.2012)




A Lei de Murphy diz que “o pão com manteiga sempre cai com a manteiga pra baixo”, ou, mais genericamente, que “se uma coisa tem alguma possibilidade de dar errado, dará; e se puder dar mais errado ainda, pode contar com isto”. Há muitas “leis” assim, informalmente criadas, e que guardam o nome dos seus criadores. E no meio delas fala-se muito num tal de “Princípio Peter”, que não é tão conhecido e precisa sempre ser explicado.

De tanto ouvir falar nele sem entendê-lo por completo fui consultar a mãe-dos-burros. (Se o pai-dos-burros é o dicionário, a mãe é a Wikipedia.) O “Peter Principle” foi formulado por um canadense chamado Laurence J. Peter e diz apenas: “Numa hierarquia, cada empregado tende a subir até alcançar o nível de sua incompetência”. O livro com o nome desse princípio foi lançado em 1969 e tornou-se um best-seller.

O que Peter afirma é simples. Quando um sujeito se destaca em seu trabalho ele é promovido, porque seus chefes veem suas qualidades e querem aproveitá-las num nível mais alto. Se ele se destaca de novo, torna a ser promovido e vai subindo. (“Promoção”, num trabalho sério, é um pouco como subir de nível num videogame: seu prêmio é ir recebendo incumbências cada vez mais difíceis.) Chega então um momento em que o sujeito começa a não corresponder, a não se desempenhar tão bem quanto fazia nas funções inferiores. Ele atingiu (nas palavras de Peter) seu nível de incompetência. E ali ele fica.

A sutileza é que na vida profissional há outros fatores envolvidos além da mera apreciação e avaliação da competência. Quando um sujeito passa por promoções sucessivas, ele vai acumulando tempo de serviço, respeito, admiração dos colegas, temos dos subalternos, força política. Se só contasse a qualidade do desempenho, ao atingir seu nível de incompetência ele seria rebaixado para o posto anterior, onde chegou a se destacar. Mas não é isso que acontece. O sujeito, que lutava para ser promovido, percebe que está meio perdidão e faz o possível agora para não ser rebaixado. E geralmente consegue. Há uma quantidade imensa, em qualquer empresa, de funcionários que estariam se saindo muito melhor num cargo inferior ao que efetivamente ocupam; mas para descobrir seu nível de incompetência foi preciso promovê-los para uma função de onde agora é difícil tirá-los.

Claro que todo mundo acha uma saída. Exércitos, bancos, multinacionais dão um jeito de “premiar” o cara com um cargo bem remunerado em Singapura ou Cabrobó. Num artigo na revista “Edge”, Nicholas G. Carr diz: “A viga mestra do sonho americano, o desejo de subir a escadaria do sucesso, tornou-se uma receita para a mediocridade em massa”.

domingo, 6 de novembro de 2011

2706) Trabalhar de graça (5.11.2011)




(FunkyPix2)

Existe em alguns artistas um pudor de cobrar pelo próprio trabalho. De certa forma eles se acham privilegiados por serem convidados a fazer algo que lhes dá prazer. Cobrar por aquilo é introduzir no processo um elemento de comércio, frieza, cálculo. Como se alguém dissesse: “Teu prazer é insuficiente, é sem substância, talvez seja falso. Precisas lastreá-lo com dinheiro para que ele não se desmanche no ar”. Ele se julga pago pela mera alegria de ser lido, de ser escutado, de produzir no rosto alheio aquela expressão de deslumbramento e respeito.

Há quem se envergonhe de cobrar porque o “trabalho” em questão não é trabalho nenhum, esforço nenhum. No seu modo de ver as coisas, o pagamento de um trabalho não é a aquisição do produto final, é um ressarcimento pelo esforço e pelo sofrimento de quem produz. E ele se acha “um aproveitador” se tiver de cobrar para tocar mais uma vez as músicas que já tocou milhares de vezes, ou colocar por escrito idéias que de certo modo já estão prontas e arrumadas em sua mente. Não há esforço algum envolvido, nada que justifique uma remuneração por um “trabalho”.

Outros não cobram por uma questão de altivez aristocrática. Até acham que mereceriam receber; até precisam da grana. Mas cobrar os empobrece aos seus próprios olhos: “Sou alguém que precisa de dinheiro”. Trabalhar de graça, por outro lado, os transforma em generosos doadores de si mesmos, em alguém que tem tanto que não se furta a distribuir. São como aquelas tribos que, não satisfeitas de oferecerem banquetes, sentem-na na obrigação de destruir comida, para provarem que não são uns mortos-de-fome.

Há os que não cobram por mera desinformação. Cresceram num meio onde a idéia do trabalho artístico gratuito foi vigorosamente implantada. A arte é sagrada, é pura, não se suja com dinheiro. Viraram artistas por uma vocação sincera, mas sempre à sombra de outra ocupação. Quando ouvem alguém dizer que cobra para dar uma palestra, ficam constrangidos e sem parâmetros. É como o sujeito estar azarando uma garota numa festa e ela dizer: “Quer ir pra cama comigo? É tanto.”

Alguns não cobram por esperteza e tática de sobrevivência, porque dando-se de graça tornam-se credores, e já sabem exatamente como cobrarão a contrapartida num momento futuro. Seu comércio não é o do dinheiro, é o da cortesia, mas é de uma contabilidade implacável. Uma dívida não saldada fará o devedor desprevenido pagar em dobro o que não imaginava estar devendo. Generosidade e gratidão são transformadas nas regras de um câmbio que lida com sentimentos em vez de cifras, mas cuja execução contábil é igualmente precisa e sem perdão.