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segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

4778) O ser e o seu contrário (27.12.2021)



(Ursula LeGuin, por Camila Fernandes: Instagram @mila.f.arte)
 
Na década de 1960, Ursula LeGuin deu início à série de livros de fantasia conhecida como “Earthsea” (“Terramar”). Era para ser uma trilogia apenas, mas novas idéias foram surgindo, e a série foi aumentando. Interrompeu-se com a morte da autora, com um total de seis livros, sendo cinco romances e uma coletânea de contos. Talvez haja mais alguma coisa, que desconheço.
 
As histórias de Earthsea ocorrem num planeta imaginário e num arquipélago com dezenas (talvez centenas) de ilhas de todos os tamanhos. Algo como o Havaí ou o Japão, por exemplo, só que em escala maior. Um mundo composto de uma parte fixa, as ilhas, e uma parte móvel, o mar, por onde todos se deslocam continuamente. Uma civilização de canoeiros e navegadores.
 
Esse nome composto, Terramar, me chamava a atenção porque revelava ser um paradoxo assimilado. Terra e Mar são tidos como antônimos, como contrários, mas na verdade são espaços que se complementam para formar uma terceira coisa que necessariamente inclui eles dois, e que poderíamos chamar de o(a) Terramar ou a(o) Marterra.


O mesmo poderia ser aplicado ao nosso planeta, não é verdade?  Ele é chamado de Terra mas cerca de três quintos dele, quase dois terços, são cobertos pelo mar. E por baixo do mar existe mais terra. E nas superfícies de terra existem rios, lagos, e outras coisas que valem como infiltrações do mar, ou do elemento líquido. Nosso planeta bem poderia ter o nome de Terramar.
 
Tudo isso tem a ver com a visão de LeGuin, uma escritora que traduziu para o inglês o Tao Te King (“O Livro do Caminho Perfeito”, de Lao Tse), e para a qual os polos opostos existem, mas cada extremidade de um oposto está permeada, invadida, impregnada pelo outro. É dentro do Yang que cresce o Yin, é dentro do Yin que cresce o Yang. O mar está cheio de terras, a terra está cheia de mares. A Terra é composta de terra e mar.
 
Isto e mais uma série de exemplos me levou a formular o seguinte postulado:
 
Em nossa cultura, temos o hábito, ao tratar de uma entidade composta por dois elementos distintos e aparentemente contrários, de dar a esse conjunto o nome do mais visível desses elementos, o elemento predominante, o mais imediatamente perceptível. É ele quem “batiza”, “registra” e denomina essa dualidade.
 
Poderíamos chamar nosso planeta de Mar, porque nele os oceanos predominam; mas escolhemos chamá-lo de Terra, porque é onde vivemos, e portanto consideramos egoisticamente a terra mais importante do que o mar.


(Yin-Yang, por Aimará Decor)
 
Ocorreu-me que tratamos do mesmo jeito o dia e a noite. Um dia é um espaço de 24 horas, o tempo de uma volta completa do planeta em torno de si mesmo.  Ora, acontece que em cada momento desse giro uma parte do planeta está voltada para a luz e outra parte para a sombra. Chamamos aos momentos de luz “Dia” e aos momentos de sombra “Noite”.
 
O Dia, portanto, é algo composto de duas metades: o Dia e a Noite.
 
Essa analogia pode ser ampliada para um terceiro exemplo? Talvez.  Estive pensando na questão da memória, por exemplo. Andei vendo entrevistas de alguns psicólogos e neurocientistas, e me chamou a atenção o modo como eles se referem à memória como um processo que envolve tanto o lembrar quanto o esquecer. A memória não é apenas a atividade de lembrar, é também a de esquecer, de deletar, de descartar, de substituir, de “gravar por cima” das coisas anteriormente gravadas.
 
A Memória é um processo complexo que envolve a memória e o esquecimento. Ou, para ser mais preciso, a Lembrança e o Esquecimento.
 
Penso também na dualidade entre o nosso corpo e a nossa mente. Tudo em nossa cultura nos induz a ver as duas coisas não apenas como diferentes, mas como antagônicas. Não são! A mente faz parte do corpo, do ponto de vista físico: ela depende do cérebro, da medula espinhal, dos nervos que comandam nossos movimentos etc. 
 
A mente é um fenômeno provocado no cérebro pelos sentidos, mas que ganhou um grau espantoso de autonomia e de auto-referencialidade (eita!), tornando-se capaz de administrar a si mesma, num processo constante de retro-alimentação. Mas ela é parte do corpo e não existe sem o corpo. A chama faz parte da vela.
 
O Corpo, portanto, é um processo complexo que inclui o Corpo e a Mente.


(Luiz Antonio Simas e "O Corpo Encantado das Ruas")
 
Vendo há algum tempo uma entrevista de Luiz Antonio Simas, o autor do Dicionário Social do Samba (com Nei Lopes), O Corpo Encantado das Ruas e outros livros, grande pesquisador da cultura popular, registrei este comentário dele:
 
Eu sou um sujeito que trabalho muito com a dimensão do cruzamento. Trabalho muito com a dimensão do “cruzo”, a dimensão do encontro. Tem um princípio da cosmopercepção de mundo que é Bantu, que é Bakongo, os povos que vieram ali do norte de Angola, do antigo Império do Congo e tal...  E o Bakongo diz sempre uma coisa que eu acho muito interessante: “O ser não é ele ou o outro. O ser é ele e o outro”. E o campo da cultura é um campo de circularidade né?
 
Não sei se estou entendendo certo, mas acho que isso bate um pouco com a minha idéia de que a noção do dia como “o contrário da noite” é útil em vários aspectos, mas a noção de dia como a soma entre o que chamamos dia e o que chamamos noite é mais completa. E assim por diante.





quinta-feira, 30 de setembro de 2021

4749) Cinco lições para dirigir melhor (30.9.2021)



Dizem que a terceira idade é a época mais adequada para a gente passar adiante os próprios conhecimentos. Em primeiro lugar, porque a essa altura já acumulamos uma boa quantidade deles. Em segundo, porque vivemos cercados de gente que estão encarando pela primeira vez um problema com o qual a gente convive há décadas. Em terceiro, porque ao transferir conhecimentos vamos ficando mais leves; asas de anjo são frágeis, não conseguem elevar muito peso.
 
Resolvi, portanto, transferir alguns conhecimentos que adquiri, ao longo da vida, sobre a arte incompreendida de dirigir carro.
 
1) Escute o carro.
 
Um automóvel é um conjunto de partes físicas, feitas de ferro, alumínio, plástico, madeira, cobre, etc. Esses materiais são vítimas de desgaste permanente durante o uso. Um carro não é feito de pixels luminosos numa tela. Carro é um bicho analógico. Todo motorista diz a certa altura: “Tou ouvindo um clac-clac esquisito aqui do lado esquerdo, embaixo...”  Um carro não é virtual, ele é “de carne e osso”, como você.
 
Ouvir o carro é como encostar um estetoscópio e pedir: “Diga 33.”  Um carro é como um corpo, é cheio de ressonâncias; de vibrações; de atritos; da expansões e contrações controladas; de partes encaixadas que não podem ficar chacoalhando impunemente; de explosões de gases que soam de um jeito quando tudo está bem e de outro quando alguma coisa vai mal.
 
Lembre do filme Um homem... uma mulher... Um piloto de corrida está azarando uma mulher bonita (Anouk Aimée, linda). Ela lhe pergunta durante um jantar romântico: “Qual a coisa mais importante, ao pilotar?”  E ele: “O ruído do motor. Houve um cara que mandou instalar tubos de órgão no escapamento, para sentir melhor como o carro estava respondendo”.
 
Claude Lelouch, o diretor, não colocou isso de graça. O cara estava tentando seduzir a mulher, e isto era uma forma velada de dizer a ela: “Eu sou capaz de ouvir. Eu estou disposto a ouvir você, para saber se está tudo bem. Ouvir faz parte da minha vida. Eu gosto.”
 
Ouça o carro como se ele fosse uma pessoa, ou como se fosse seu gato, ou seu cachorro, um ser que não fala a linguagem humana, mas que tem sua maneira própria, seus barulhinhos próprios para dizer a você: “Ei, eu tou bem, tá tudo legal”, ou então, “Ai, tou com um problema”.
 
 
2) Como fazer baliza.
 
Muita gente tem dificuldade de fazer baliza para estacionar o carro, possivelmente, porque é uma combinação anti-intuitiva de movimentos, ou pelo menos é o contrário do próprio ato de dirigir. Quando dirigimos normalmente, nossa visão e nossos movimentos (mãos e pés) convergem todos para a frente; na baliza, estamos virados para trás e precisamos reconfigurar as reações imediatas, porque estamos fazendo ao contrário uma parte dos procedimentos.
 
A prática da baliza deve ser treinada num espaço aberto, um descampado, com alguns objetos (caixotes, latas de lixo, etc.) servindo de pontos de referência. O principal é se habituar à nova relação entre, p. ex., girar o volante para a direita e ver o carro fazer algo diferente (quando em ré) do que faz normalmente.
 
É preciso encontrar uma sincronia passável entre os giros do volante, o pisar nos pedais e a avaliação visual de distância e posição. Esta parte física tem que ser muito treinada antes do indivíduo se meter a estacionar a cobaia mecânica da Auto Escola no meio-fio de uma rua no mundo real. 
 
Já que são três sistemas simultâneos (mãos, pés, olhos) agindo de maneira contraintuitiva, é preciso ver em qual dos três está a principal dificuldade. Há pessoas que fazem bem o jogo de volante e pedais, mas tem péssimo golpe de vista para calcular distâncias e deslocamentos. Há outras que até percebem isso bem, mas na hora de debrear aceleram, ou vice-versa... Enfim: é um pouco como jogar malabares. Comece aos poucos. Você não pode começar logo com meia dúzia.
 
 
3) Aprenda a se relacionar
 
Dirigir no trânsito é relacionar-se o tempo inteiro: com os outros carros; com pedestres; com motoqueiros e ciclistas; e assim por diante. Quando dirigimos na estrada, principalmente numa rodovia com pouco tráfego, é como se o carro fosse um instrumento musical fazendo um solo, onde depende só de si, tem liberdade e latitude para experimentar, e pode experimentar aquela breve euforia de um pássaro no espaço.
 
Na cidade, contudo, é diferente. Estamos cercados por todos os lados, tendo que vigiar os quatro pontos cardeais sem poder sequer piscar o olho. Tinha toda razão aquele professor que disse ao aluno: “Dirija como se todos os outros estivessem bêbados”. Ensinar direção nunca é o suficiente, ou seja, ensinar a relação do motorista com o carro não basta. Todo ensino de direção precisa ser o ensino da direção defensiva, das mil maneiras de evitar choque, colisões, arranhões, fechadas, etc.
 
Outra coisa: se você dirige automóvel, o que é o mais provável, não trate os motoqueiros do jeito que os motoristas de ônibus tratam você. Dê o bom exemplo.
 
 
4) Pratique muito
 
Se você perguntar a um motorista profissional quais são os tipos mais perigosos de motorista, ele provavelmente mais responder: os agressivos, os bêbados, e os motoristas de fim de semana.
 
Os dois primeiros são auto-explicativos, mas, e o terceiro? O motorista de fim de semana é aquele cara que comprou um carrinho mas durante a semana vai pro trabalho e volta usando o ônibus ou o metrô. No fim de semana ele pega o carro pra dar uma volta com a família, e aí começa o problema.
 
Muitos desses motoristas nunca chegam a se sentir completamente à vontade dirigindo. A falta de traquejo os deixa hesitantes, inseguros. É aquele cara que faz que vai mas não vai, e quando acaba indo deflagra um coro de buzinas e impropérios. É o que liga a sinaleira e se esquece, percorre quatro bairros e dezenas de quilômetros piscando sem perceber. É o que tem dificuldade para dirigir e ler placas ao mesmo tempo, e cada placa que aparece ele precisa reduzir a velocidade e soletrar os avisos em voz alta. É o que passa mal uma marcha, dá aquela “rasgada” de cortar o coração e fica meio minuto olhando para a alavanca de câmbio como se a culpa fosse dela (e esquece de olhar para a frente).
 
O mito de que as mulheres dirigem mal foi construído em cima de mulheres que dirigem pouco. Geralmente dirigem pouco porque o marido lhes repete o tempo inteiro que elas dirigem mal. E acabam dirigindo mal mesmo, por nervosismo e, mais uma vez, por falta de prática constante.
 
O motorista de fim de semana tem medo de ir muito depressa e causar algum desastre, e muitas vezes acaba por causá-los pelo simples fato de que numa rodovia de mão dupla insiste em avançar a 60 km por hora, retendo uma fila de veículos impacientes, até que alguém, desesperado para ultrapassá-lo, acaba fazendo uma besteira grande.
 
Um carro é um instrumento, e só funciona direito quando a gente adquire familiaridade com ele. Paul MacCartney dormia com a guitarra na cama, Pelé dormia com a bola, e mesmo que você não possa dormir com o carro, aproveite seu tempo acordado para ganhar mais e mais intimidade com ele.
 
 
5) Obedeça ao carro
 
Dirigir um carro não é comandá-lo como se ele fosse um mero agregado de matéria morta. É perceber que embora seja uma simples tonelada de ferro, plástico, etc., ele gera sua própria energia e depois de ligado comporta-se quase como um animal, meio burrinho mas voluntarioso.
 
Trate o carro como se fosse um cavalo. Entenda como funciona. Saiba para que servem aquelas engrizias e aqueles parangolés que tem embaixo do capô. Servem para alguma coisa, sim, não foram botados ali simplesmente para boquiabrir os incautos.
 
É espantosa a quantidade de gente, Brasil afora, que dirige o próprio carro sem fazer a menor idéia do que acontece no motor, nos eixos, nos pneus, no sistema elétrico, quando o carro está em movimento. Em geral a gente ironiza mulher que não sabe trocar um pneu; a maioria desses engraçadinhos não sabe trocar uma bateria nem desentupir um carburador.
 
Sinta o peso do carro em movimento como se fosse o do seu próprio corpo. Deixe o carro se projetar. Ele pesa uma tonelada, e a maneira de deixá-lo mais leve é colocá-lo em movimento. Há motoristas que têm medo de dar liberdade ao carro, mesmo numa rodovia desimpedida e sem curvas. Em vez de acelerá-lo, em vez de passar uma segunda, uma terceira, e deixar que o carro respire sozinho, ficam dando pequenas pisadas no acelerador jogando o carro em pulinhos sucessivos para a frente, como se ele estivesse com soluços. Não faça isso. Sinta quando o peso do carro se projeta por conta própria, e fique apenas administrando.
 
O carro é seu corpo, na pista de asfalto. Você é o cérebro do carro. Dê ao seu carro um cérebro inteligente.





 
 







sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

4659) Leituras de 2020 - parte 3 (1.1.2021)




Jorge Luis Borges dizia que só devemos ler por prazer, e se a leitura de um livro, mesmo o mais respeitável clássico, nos entedia, devemos largá-lo e pegar outro. Isso serve para o que chamo de leituras pessoais. Existem também as leituras de trabalho, os livros que preciso ler, goste ou não. Quando estou pesquisando algum tema especificamente literário, não me basta ler sobre o autor, preciso ler o que ele escreveu, por pior que seja.
 
Existem livros cuja leitura flui, e outros que não. Há livros que já peguei para ler mais de dez vezes, ao longo dos anos, e não consegui. São ruins? Não, muitos deles são clássicos da literatura, obras-primas indiscutíveis. Outros são de meus autores preferidos, mas cuja escrita, nesse título especificamente, não conseguiu me arrastar.
 
Outros são de amigos, e nada nos deixa com mais remorsos do que tentar ler o livro de um amigo e não conseguir. (Imagino que meus próprios livros já proporcionaram a alguém essa frustração; peço desculpas, e compreendo.)
 
Abaixo, comento alguns dos livros lidos em 2020 cuja leitura fluiu sem problemas. Outra coisa: nas minhas anotações, computo apenas os livros que li do começo ao fim. Mesmo livro de contos, artigos, poemas, etc., se só li uma parte, não anoto.


Peguei, apenas para consultar, as Memories and Adventures (1924) de Sir Arthur Conan Doyle. Um dos meus autores preferidos, e um livro que eu tinha há mais de vinte anos e até agora tinha achado a leitura chata. Desta vez, durante a consulta, acabei voltando ao início e não parei mais. Doyle é um inglesão à moda antiga, sólido, prático, patriota, tradicional. No livro, comenta várias de suas obras; repito que seus romances históricos e de FC são literariamente superiores aos livros de Sherlock Holmes.
 
Doyle comenta a certa altura que havia o hábito de serializar romances nas revistas semanais ou mensais, mas o lado negativo disso era que quando o leitor perdia um número ficava com uma lacuna na leitura. Ele considera ter sido o primeiro autor (e The Strand o primeiro periódico) a utilizar de forma deliberada o formato da série de aventuras semelhantes com um mesmo personagem, onde cada publicação contém uma história completa em si – o que ele e a revista puseram em prática a partir de 1887, com as aventuras de Sherlock e Watson.


Outra autora favorita é Ursula Le Guin, de quem li este ano dois títulos. The Other Wind (2001) é o quinto volume da série “Earthsea” a respeito deste arquipélago e da escola de magos de Roke Island. É um romance crepuscular, o último da série, pelo que entendo, em que os Magos e os Dragões de Terramar têm que firmar um pacto que envolve a aceitação da morte. Tales of Earthsea (2001) contém cinco histórias com episódios variados do ciclo, abrindo com “The Finder”, uma notável noveleta descrevendo como foi fundada a escola dos Magos, em Roke.


De outro autor que admiro muito, Stanislaw Lem, li o livro de memórias Highcastle: a Remembrance (1966), centrado na sua infância. Lem é um dos autores mais intelectuais da FC e está para a Polônia assim como Borges está para a Argentina. Sua obra gigantesca é parcialmente traduzida em inglês, e só uma dúzia de romances em português. Highcastle mostra a vidinha comum de um garoto de classe média em Lvov. São especialmente ácidos os seus comentários sobre as preparações militares dos adolescentes poloneses, ensaiando ordem-unida e exercícios militares com bastões em vez de rifles, até a invasão nazista em 1939.
 
Lem fala pouco sobre ficção científica (sobre a qual ele discorre longamente em coletâneas de ensaios como Microworlds (1984). Seu retrato de infância e adolescência entre-guerras é cheio de percepções sagazes e mostram como funciona sua mente observadora, metódica, ousada, ao mesmo tempo de grande objetividade e grande imaginação.



Por falar em ciência, uma leitura importante foi a de Sapiens (2012) de Yuval Harari, um best-seller recente que vem na linha dos grandes livros de Carl Sagan, Arthur C. Clarke ou Fritz Kahn (cujo O Livro da Natureza iluminou meus verdes anos). Harari dá uma geral na evolução da humanidade, e é muito importante a Parte 1, sobre a Revolução Cognitiva. O modo como a espécie humana criou os softwares de interpretação e modelagem da realidade, acompanhado pela linguagem, é uma coisa espantosa. A gente fala no Fogo, na Roda, etc., mas essa revolução que não deixou rastros físicos diretos foi a coisa mais fascinante.
 
O livro poderia se chamar “História da Inteligência Humana”, porque Harari expõe, com linguagem clara e simples, o quanto a civilização é uma ficção coletiva. Ele fala nas ficções jurídicas, nas ficções financeiras, nas ficções ideológicas, nas ficções empresariais. Nada disso tem existência concreta além das ações das pessoas que acreditam nelas. A civilização é um simples conjunto de narrativas (o termo está meio batido hoje; quem tiver um melhor, traga).
 
Na verdade, vivemos numa Matrix que não tem existência física, mas cuja existência abstrata é consenso de bilhões de pessoas que acreditam em Deus, em democracia, em dólar, em amor, em arte, em indivíduo... Alucinações coletivas (diria Philip K. Dick); Harari louva a capacidade do ser humano em “transmitir grandes quantidades de informação sobre coisas que não existem de fato, tais como espíritos tribais, nações, companhias de responsabilidade limitada e direitos humanos”.


Um romance de ficção científica que me impressionou foi Triton (1976) de Samuel R. Delany, um dos meus autores favoritos. Ele tem o subtítulo “Uma Heterotopia Ambígua”, e a ação transcorre quase toda numa lua de Júpiter, colonizada artificialmente, durante uma época de guerra.
 
Bron Hellstrom, o protagonista, é um funcionário mediano na administração local e se envolve com um grupo vanguardista de teatro-de-rua comandado por Spike, uma jovem atriz e dramaturga. Do encontro dos dois começam a sair fagulhas, porque acompanhando as ações de Bron durante as quase 400 páginas do livro vemos o delineamento da personalidade de um sujeito egocêntrico, determinado, inseguro, ousado, bem intencionado, catastroficamente desastroso em seus relacionamentos interpessoais.
 
Delany descreve com a riqueza de detalhes habitual a vida nessa ambiente high-tech, os hábitos, as roupas, as comidas, as práticas cotidianas: seus livros têm uma atenção sociológica constante ao recriar um mundo onde, aliás, as pessoas fazem cirurgias transexuais como nós aqui fazemos uma tatuagem.



Li alguns romances policiais importantes neste ano. Entre eles, um clássico que há anos eu tinha na fila: Death From a Top Hat (1938) de Clayton Rawson, um dos mestres do “crime impossível”. É o romance de estréia de Rawson e tornou-se um clássico, por ser o livro que explorou de maneira mais complexa (e cheia de reviravoltas inesperadas) a proximidade entre o romance policial e a magia de palco, com seus truques mecânicos e suas ilusões perceptivas.
 
Rawson introduziu neste livro O Grande Merlini, um mágico novaiorquino que se torna detetive para competir com criminosos que – no presente caso – estão assassinando os participantes de uma “grande noite” promovida pela Society of American Magicians. Não preciso dizer que cada um dos crimes é cometido da maneira mais complexa possível, bem ao estilo de Ellery Queen, John Dickson Carr e outros clássicos daquela época. O romance é uma antologia de efeitos e de truques; literariamente, talvez Rawson funcione melhor no âmbito do conto, onde suas idéias espantosamente simples e originais têm um impacto mais nítido, numa trama única e compacta que o leitor tem condições de visualizar.
 
Matei este ano a saudade de um dos escritores que mais gosto, Fredric Brown, que hoje parece ser mais conhecido pela sua ficção científica (sempre rápida, satírica, cheia de sacadas leves mas brilhantes) do que pelos seus romances policiais sempre ótimos.


É o caso de The Screaming Mimi (1949), um belo passeio pelo submundo de Chicago, por onde o repórter William Sweeney vagueia procurando um serial killer. A pista principal é uma estatueta de uma mulher gritando de terror, a “Mimi” do título. Sweeney é um desses detetives por conta própria capazes de se meter em confusões que um policial de uniforme evitaria a todo custo. O melhor, aqui, é o realismo sem-nonsense com que Brown descreve todas as peripécias e todos os ambientes da investigação, mesmo que pareçam absurdos às vezes. O clímax tem uma reviravolta de enredo típica de Brown, e um desfecho notável em que Sweeney, desarmado, precisa ficar falando durante horas diante do assassino para evitar ser morto.


Ainda melhor do que este é Madball (1953), onde Fredric Brown volta ao ambiente dos carnivals, aquele misto de circo e de parque-de-diversões ambulante tipicamente norte-americano. Numa narrativa em que cada capítulo salta para o ponto de vista de um personagem diferente, vemos os crimes violentos e os conflitos de interesse entre artistas, técnicos, agregados, cartomantes, dançarinas e toda a fauna humana de um carnival. O enredo: antes do início da narrativa, dois membros do carnival praticaram um roubo enorme e esconderam o dinheiro nas instalações do parque ambulante; logo em seguida, sofreram um acidente de carro em que um deles morre e o outro escapa, mas logo é assassinado. Começa então a caça ao tesouro: em que local do parque eles esconderam a grana?
 
Num livrinho de 192 páginas, Brown comprime uma narrativa rápida, vívida, cheia de personagens banais e marcantes. As cenas de sexo são indiretas mas com sensualidade e malícia. O desenho dos personagens é de uma riqueza inesperada nesse tipo de pulp fiction, que oscila sempre na corda-bamba entre melodrama criminal exagerado e realismo psicológico.


(continua nas próximas postagens)
 
 
 
 
 







segunda-feira, 17 de agosto de 2020

4611) O consertador de potes (17.8.2020)



Existe uma tradição no artesanato japonês de barro chamada “kintsugi” ou "kinsukuroi". É a arte e a ciência de pegar um vaso de barro que se quebrou e consertá-lo, emendando de volta os cacos, reconstituindo o formato original do vaso. Acontece que as rachaduras não podem ser escondidas, pois o barro cozido e endurecido não pode mais ser moldado. O que fazem os artesãos? Eles preenchem as rachaduras com outros materiais, até mesmo com ouro, tornando-as ainda mais visíveis. Assumindo a história, sem disfarçá-la. O vaso quebrou, sim, quebrou mas foi consertado.

 

Existe uma lição nesse processo: a de reconhecer defeitos e incorporá-los à personalidade, depois de remediar a situação. Um pote de guardar água foi quebrado. Alguém juntou os cacos. Recompôs a forma. Preencheu as rachaduras com uma porcelana qualquer, um metal qualquer. As rachaduras continuam lá mas agora são inofensivas: o pote pode voltar a guardar água dentro de si. E o desenho do quebrado alerta as pessoas. Cuidado. Isso quebra.

 

Uma cicatriz, numa pessoa, conta uma história. O que aconteceu aqui? Ah, foi um acidente, foi isso, foi aquilo... Muita gente se esforça para camuflar cicatrizes, e é claro que algumas são desagradáveis de ver. Mas uma cicatriz pode ser transformada em elemento estético, numa tatuagem, por exemplo. Kintsugi.

 

Philip K. Dick tem um curioso livro de FC, Galactic Pot-Healer (1969), um dos menos comentados pelos críticos, mas que me parece um dos mais encantadores. Não é um livro que pudesse ser filmado por Steven Spielberg ou por Ridley Scott, mas eu gostaria de vê-lo adaptado pelos Estúdios Ghibli.


É um livro quase intraduzível, aliás, porque no mundo futuro que ele descreve as pessoas participam de um jogo (“The Game”) todo baseado em trocadilhos e naquilo que a gente chamada de “charadas infames”, charadas absurdas que só fazem sentido (ou um arremedo dele) na língua original.

 

Joe Fernwright é um “pot-healer”, um consertador de potes, de vasilhas de barro. Num mundo onde tudo é de plástico, artigos de barro são raros e preciosos, mas pouca gente lhes dá atenção. E Joe se dedica a consertar coisas de barro quebradas. Não se trata apenas de um artesanato visando uma função utilitária. Há toda uma filosofia.

 

Força. A força de ser, pensou ele, e em oposição a ela a paz do não-ser. Qual era melhor? A força acaba se gastando toda no fim, todas as vezes; então talvez a resposta fosse essa, e nada mais fosse preciso. A força – o ser – era temporária. E a paz – o não-ser – era eterna. Ela já existia antes do seu nascimento e recomeçaria depois de sua morte. O período entre esses dois pontos, o período da força, era apenas um episódio, o rápido flexionar de músculos recebidos de empréstimo, de um corpo que teria que ser devolvido... ao verdadeiro dono.

(p. 43, trad. BT)

 

Lembrei desse livro durante a leitura do quinto romance da série “Earthsea”, de Ursula LeGuin, The Other Wind (2001). Nele reaparece o mago Ged, conhecido como Sparrowhawk. Ele é o protagonista da série, que o acompanha desde o seu nascimento e o despertar da magia (A Wizard of Earthsea, 1968), uma aventura de sua entrada na vida adulta (The Tombs of Atuan, 1971), sua grande batalha na maturidade (The Farthest Shore, 1972), o surgimento de uma protagonista feminina (Tehanu, 1990) e finalmente sua velhice neste quinto livro.


Nele, Sparrowhawk, já com setenta anos, recebe no começo do livro a visita de Alder, um mago jovem, que está passando por um período atribulado e vem se consultar com ele. Aqui não interessa tocar no enredo central do livro, mas na figura de Alder. Ele é apresentado como um “consertador” (=”mender”), alguém com o talento especial de consertar coisas com o uso da magia.

 

Alder era um consertador. Ele era capaz de recompor. De tornar algo inteiro de novo. Uma ferramenta partida, uma lâmina de faca ou de machado que trincou, um pote de barro despedaçado: ele podia juntar de novo os fragmentos sem deixar fendas ou junturas ou pontos fracos. Seu mestre o mandou sair em busca das várias fórmulas de encantamento para consertar coisas, e ele as encontrou quase todas entre as bruxas da sua ilha, e começou a trabalhar com elas até aprender a consertar.

– Consertar é um pouco como curar – disse Sparrowhawk. – Não é um dom menor. Não é um ofício fácil.

(p. 15, trad. BT)

 

LeGuin surgiu na década de 1960 na fantasia norte-americana como um necessário contraponto a uma Fantasia Heróica em que os poderes mágicos ou tinham função militaresca (alvejar com raios, desmoronar muralhas, incendiar tropas) ou eram um instrumento de “wish fulfillment”, realização gratuita de desejos, final-feliz a custo zero: ressuscitar pessoas amadas, transformar qualquer-coisa em ouro, deletar inimigos, etc.

 

É inevitável que sua fantasia seja descrita como “feminina”, porque ela volta conscientemente sua atenção para o universo feminino, sua cultura, suas atividades. Num dos ensaios de Dancing at the Edge of the World, ela questiona com bom humor a visão masculina (ilustrada em 2001, uma Odisséia no Espaço) de que o primeiro instrumento usado pelos antropóides que deram origem ao homem tenha sido o bastão, a clava, o instrumento de bater e de matar. “Por que não teria sido alguma coisa côncava?”, pergunta ela. “Para guardar água, para guardar sementes?...”




A discussão pode ser ociosa para antropólogos ou historiadores, mas para ficcionistas, capazes de impor suas próprias regras, desde que sua ficção as sustente, é essencial.

 

E nessa de ter potes para água e sementes eu acho que não teria passado despercebido a LeGuin um título como o do livro de Philip K. Dick: O Consertador de Potes da Galáxia. Ela admirava demais Dick, a quem chamou “o nosso Jorge Luís Borges, cria de casa”. E o personagem de Alder em The Other Wind é uma versão mágica do Joe Fernwright do autor californiano.

 

Em certo momento, Sparrowhawk, que está hospedando Alder em sua choupana (é um Mago humilde, estóico) pede-lhe que conserte um vaso de barro que pertenceu a sua esposa.

 

Pouco tempo atrás ele lhe escapara das mãos, ao tirá-lo da prateleira. Ele recolheu os dois pedaços maiores e todos os fragmentos miúdos, com a intenção de colá-los de volta para que o vaso pudesse pelo menos ser visto de novo, mesmo que ficasse sem uso. Cada vez que olhava os cacos guardados num cesto ele se irritava com sua própria falta de jeito.

                Agora, fascinado, ele observou as mãos de Alder. Esguias, fortes, hábeis, sem pressa, elas rodeavam a forma do vaso, alisando, ajeitando, encaixando os pedacinhos de barro, instigando e acariciando, os polegares forçando e dirigindo os pedaços menores até o ponto certo, rejuntando todos, tranquilizando-os.

(p. 45, trad. BT)

 

É uma magia simpática, empática, que trata os objetos insensíveis como se fossem sentientes, que junta os cacos de um vaso como se fosse a patinha de um cão. Para mim o “pot-mender” de LeGuin foi inspirado, salvo melhor idéia, pelo “pot-healer” de P. K. Dick.

 

A magia literária fascina os leitores por causa desse substrato humano, que aliás muitas tradições da magia ritual clássica enfatizam. A necessidade da convivência longa e profunda com os materiais do rito (basta lembrar dos milhares de operações longas, enfadonhas, dos alquimistas com seus fornos e retortas). A familiaridade também – a antiga recomendação de que o recinto de práticas mágicas seja construído pelo próprio Mago, suas mãos abrindo o solo, misturando o cimento, assentando os tijolos.

 

A magia pode não funcionar no mundo real, concordo, mas para que funcione na literatura precisa de argumentos em que o leitor perceba um peso humano.  Não basta um abracadabra, um abre-te-sésamo.


Lord Darcy é um mago-detetive criado por Randall Garret, com interessantes histórias de um universo paralelo onde a magia funciona. Numa dessas histórias, o mago é capaz de recuperar um documento manuscrito com pena e tinta, sobre o qual alguém derramou por acidente o tinteiro. Ele pega aquela folha de pergaminho ensopada de tinta preta, e com uma fórmula pacientemente repetida retira dela toda a tinta indesejada, e deixa apenas o documento redigido e assinado, como era antes.

 

Como é possível? – pergunta alguém. E ele responde: Porque as linhas do documento e da assinatura são linhas traçadas por uma vontade humana, com uma concentração de propósito tipicamente humana; têm peso; têm força. A tinta derramada passou ali por acaso, era algo superficial, descartável, que uma fórmula mágica simples consegue remover, sem alterar o que, num certo sentido, foi gravado na pedra.



(Ursula LeGuin, foto de Dana Gluckstein)  







quarta-feira, 6 de março de 2019

4442) Como desperdiçar o Poder (6.3.2019)


(general Tom Thumb, 1838-1883)

O Poder é uma coisa engraçada. Quando a gente está por baixo, lascado, sem soluções, sem alternativas, a gente costuma se lamentar: “Ah, se eu ganhasse a Mega-Sena!...”

Não peça isso. Seria a pior coisa que poderia lhe acontecer. Não existe coisa mais perigosa do que o Poder nas mãos de quem não sabe usá-lo.

Uma vez, quando eu era redator de humor, escrevi um quadro com um personagem pobre chegando para um amigo rico e mostrando os volantes da Mega-Sena, em que tinha acabado de apostar. Quando ele se afasta, o amigo comenta: “Não sei pra quê pobre joga tanto na loteria. Se pobre tivesse sorte, nascia rico.”

É cruel, mas é psicologicamente verdadeiro. As pessoas pensam assim.

O Poder (dizem os Poderosos, os Capitanistas Hereditários) é pra quem está pronto para exercê-lo em sua plenitude.  Pra quem é preparado. Pra quem estudou. Pra quem tem “berço”. Pra quem foi criado num ambiente em que os meandros do Poder eram discutidos de modo até casual no café da manhã, no almoço, no jantar.

E de certa forma estão certos, porque o aprendizado do Poder é longo e espinhoso, é sempre feito às custas do pobre estudante. Não é pra quem quer, é pra quem pode.


Que o diga o mago Ged, da Trilogia de Terramar, de Ursula Le Guin, que teve de carregar pelo resto da vida uma cicatriz enorme no rosto, resultado de uma bazófia imprudente na adolescência. Ele quis mostrar que era o poderosão e desencadeou uma magia sinistra que quase o leva embora. (Pagou um preço alto. Não morreu; quem morreu foi o mago, seu professor, que conseguiu salvar-lhe a vida.)

O Poder nas mãos de um despreparado é sempre um desperdício. É exatamente por isso que os Poderosos: 1) tentam manter os despreparados longe do Poder; 2) tentam evitar que alguém se prepare e possa concorrer com eles próprios.

Uma pessoa despreparada não sabe o que fazer com uma bomba atômica, com um milhão de dólares, com uma Ferrari novinha em folha, com uma Miss Universo, com uma mansão de 99 quartos.

Todos sonham com isso, ou afirmam sonhar. No dia que conseguem, botam tudo a perder, porque não conseguem enxergar muito longe do próprio nariz.

É como aquela história do cara que se perde no bosque, descalço. A certa altura ele enterra o calcanhar num espinho e o espinho tora dentro. Ele sai mancando e chorando pelo mato afora. Dias depois, acha a Lâmpada de Aladim jogada por entre as moitas. Esfrega, o Gênio aparece e lhe diz: “Você tem direito a três pedidos.” E ele grita: “Tira esse espim do meu pé! Tira esse espim do meu pé! Tira esse espim do meu pé!”.

O Poder é patético quando colocado em mãos aflitas, impacientes, despreparadas. É o bêbado ao volante, a criança com um 38 carregado, o craque sub-20 comandando uma mesa de 20 pessoas na boate. Pode até não resultar em desastre, mas quando resulta ninguém se admira.

Por falar em nariz, isso me lembra uma cena de um dos filmes da minha infância, o musical O Pequeno Polegar (“Tom Thumb”, George Pal, 1958, com Russ Tamblyn, Peter Sellers e Terry Thomas).


Um casal de lenhadores encontra na floresta a Rainha das Fadas, que lhes concede três desejos. Eles voltam para casa e começam a discutir. Vamos pedir isso, vamos pedir aquilo; vamos pedir uma casa nova, dinheiro, um castelo...

– Você não sabe o que pedir – diz o marido.

– Você vai estragar tudo – diz a mulher.

– Vamos fazer assim – diz ele. – Eu faço um pedido, você faz outro.

– Comece – diz ela.

– Eu quero uma salsicha DESSE tamanho – diz ele.

Tóinnnnn...  Uma salsicha enorme aparece em cima da mesa, e a esposa se desespera.

– Como você é burro ! Estragou o primeiro pedido! Podia ter pedido uma casa nova, tanta coisa... Ai, eu casei com idiota. Só queria que essa salsicha ficasse pendurada no seu nariz, seu bobão!

Tóinnnnn... A salsicha magicamente substitui o nariz do sujeito. Aí são os dois que se desesperam, se acusam mutuamente, se ofendem... Mas não tem jeito: o terceiro pedido é para que a salsicha desapareça e o nariz dele volte ao normal. E assim os três pedidos são jogados pela janela.


A cena não foi inventada pelo filme, claro. É uma função narrativa Proppiana ou Stith-Thompsoniana, que vem há séculos adquirindo novas formas. Sua estrutura é basicamente essa:

1)      Alguém conquista um poder imenso, mas de uso limitado.
2)      Usa esse poder, num primeiro arranco, para realizar as próprias fantasias, o que resulta numa situação de caos, colocando o próprio indivíduo em risco.
3)      O que resta do poder é consumido para “apagar incêndios”, ao invés de produzir qualquer melhora na situação anterior.

Claro que o Poder é um Fenômeno Complexo, não se resume a esse aspecto específico. Mas depois não digam que eu não avisei.











domingo, 27 de janeiro de 2019

4428) As fadas e os fados (27.1.2019)



(na foto: Ursula K. Le Guin)

A imprensa e as redes sociais andaram nos avisando que era o primeiro aniversário da morte de Ursula LeGuin. Um ano atrás, eu tinha finalmente encarado ler por inteiro a trilogia original de “Terramar”, que a celebrizou como autora de fantasia. Mais do que competente, foi inovadora em muitos aspectos.

Além da imaginação narrativa, LeGuin tinha a vantagem adicional de ser uma autora de formação clássica, numa família de professores, muito articulada, e que sabia discutir assuntos literários com uma voz literária. Nesse ponto, vejam só, eu diria que ela é parecidíssima com Harlan Ellison e com Raymond Chandler, por exemplo. Todos têm textos críticos e literários de grande valor, e cada um escreve como é, e teoriza como é, com tudo que sabe, com todos os seus recursos de escrita. Nem adotam uma “persona” pomposa, nem se escondem atrás de cortinas de miçangas factuais, nem botam pose de profetas. A voz interior do ensaio é a mesma do conto.

Da série de Terramar eu tinha lido apenas a coletânea Tales of Earthsea (2001), que tem histórias muito perceptivas, descrições tersas e precisas, e o fenômeno da magia-com-regras sendo explorado de vários ângulos.

LeGuin sabia ilustrar bem os princípios narrativos que defendia, e o seu modo pessoal de ver a fantasia. Há pelo menos duas coletâneas muito boas de seus artigos teóricos, resenhas, pequenos ensaios, discursos: The Language of the Night (1979) e Dancing at the Edge of the World (1982). Vários desses textos são disponíveis online (há links nos respectivos verbetes da Wikipedia).

Numa resenha onde comenta as Fábulas Italianas de Ítalo Calvino ela começa, como faz muitas vezes, comparando etimologias, para ver as mutações de sentido e de origem daquela idéia, quanto mais se remonta atrás no tempo.

Diz ela que a palavra inglesa para fada, fairy, em italiano se diz fata, que segundo ela vem, tal como a palavra inglesa “fate”, destino, do termo em latim fari, falar. (Eu fico o tempo inteiro com uma comichão de que fare também é algo como “fazer”, conforme o italiano.)

O dicionário online que sempre consulto (www.etymonline.com) sugere que a cronologia reversa de fairy remonta aos anos 1300 com a forma faerie e o sentido de “a pátria ou o lar de criaturas lendárias; terra-das-fadas (fantasyland)”.

O antecessor deste é o Francês Antigo faerie, “terra das fadas, encontro entre fadas; encantamentos, magia, bruxaria, feitiçaria”. E esse termo por sua vez descende de fay, do latim fae, e do latim fata, as Fadas, forma plural de fatum, “aquilo que já está escrito; destino, fado (destiny, fate).

Isso nos encaminha numa direção curiosa, porque a publicidade e a ilustração popular insistem na fada como uma criaturinha angelical e sexy, uma espécie de Barbie do além. Dentro de “Fadas” cabem, é bom lembrar, desde as rechonchudas e boazinhas fadas-madrinha de tantos contos quanto a Fada Carabossa que gosta de estragar a festa dos outros.

Há um provérbio que diz: “Lá como cá, más fadas há”.

O mais interessante deste passeio é o plural de Destino. As destinas. E tudo isso nos prepara para a revelação final: toda essa árvore genealógica está pendurada de cabeça para baixo numa raiz indo-européia, bha, que entre outros sentidos traz “falar, dizer, contar”. O que é o Destino? É algo que foi falado, dito, contado. E num certo sentido o que foi contado é porque já está escrito. São coisas que já têm um formato para acontecer.

E as fadas são o que? São subdivisões desas coisas feitas, são criadas por alguém, são também criaturas. E chamam-se “fadas” justamente (é mais ou menos por esse caminho que o nó chega ao nosso brasileiro de agora) porque foram feitas, foram “fa(zi)das”. É a mesma compactação que nos fazer dizer em vez de “eles foram pegados” “eles foram pêgos”. Elas foram fazidas, elas são fadas.

As fazidas são criaturas que já aconteceram. A história delas, como a da mulher fatal de La Invención de Morel (1940) de Bioy Casares, tem que reacontecer sempre da mesma maneira. São fadas por isso, foram feitas para encarnar a condição de quem está presa no cristal de um encantamento qualquer.

Se usarmos a forma masculina o raciocínio é parecido. Quem gosta de música sempre considera a palavra fado como uma forma de canção que a musicalidade de Portugal transformou em portuguesa, caso de fato tenha tido outra origem. Mas na ala da literatura encontramos a palavra fado em sua medula original, seu sentido primal de destino, de fatalidade, de enredo inescapável como um Maelstrom. O fado é algo maktub, está escrito nas estrelas, está dito. E feito.

As fadas e os fados. As fazidas e os fazidos. São seres que vêm interagir com os indefesos humanos, com os ainda não-feitos, ainda não-prontos, ainda na versão-beta-em-preparo, ainda sujeitos ao acaso, à sorte, ao azar, ao milagre aleatório, ao susto randômico. Comparado às fadas e aos fados, o ser humano (diria Darcy Ribeiro) está ainda em pleno fazimento.

As criaturas da Faerie, termo que continua a circular com vigor, vivem como que por trás de um vidro invisível e intransponível que nos separa de seu universo. É como se fossem criaturas dotadas de uma vaga memória, uma vaga noção de que estão há milênios revivendo aquilo, como um gramofone casualmente religado recomeçaria a tocar vezes sem conta o mesmo disco fonográfico que ali restara.

Quando dizemos que alguma coisa parece um conto de fadas estamos num terreno meio escorregadio. O conto de fadas para mim não é um conto cheio de deslumbramento, de beleza, de maravilhamento, de sense-of-wonder, nem é simplesmente uma história das dificuldades pré-casamento entre um rapaz e uma moça.

Do ponto de vista de quem escreve, o contato entre o “mundo real” e a “faerie” é o contato entre mundos contíguos, muito semelhantes, com pessoas de verdade com muita coisa em comum com os humanos, mas obedecendo a leis diferente de espaço, de tempo, de personalidade, etc.  Assim como nós humanos não podemos, por exemplo, cancelar a morte, ou ficar livres da força da gravidade, as fadas e os fados não podem evitar a própria ruína ou tragédia, quando é o caso. Estava escrito. O oráculo, anos atrás, explicou que isso ia acontecer.

Explorar um repertório inesgotável (e sempre novo) de “confronto de proibições” pode ser uma boa diversão para quem escreve sobre fadas. Sempre é possível imaginar uma “lei” ou “maldição” diferente sobre elas, e que produza bons resultados na trama.









quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

4420) Algumas leituras de 2018 - II (2.1.2019)




(continuação)


FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTASIA

Foi um ano em que também li pouca FC, por variadas razões, mas teve muita coisa boa.

A Trilogia de Terramar, de Ursula LeGuin (A Wizard of Earthsea, The Tombs of Atuan e The Farthest Shore) era uma leitura que eu vinha procrastinando há anos. Iniciada em 1968, a trilogia foi uma contribuição essencial de LeGuin à formação da literatura de fantasia nos EUA, registrando três fases sucessivas da vida do mago Ged. Uma das contribuições principais de LeGuin foi cristalizar a noção da magia como uma espécie de energia, onde nada se cria, tudo se transforma, cada prodígio tem um custo, e os riscos são proporcionais aos prêmios. Sem falar na prosa da escritora, um inglês límpido e clássico que evita os excessos retóricos de outros bons fantasistas.

Where Late the Sweet Birds Sang, de Kate Wilhelm. A morte de minha ex-professora na Clarion Workshop me levou a pegar de novo e desta vez ler até o fim este romance que já foi chamado, na época, de “o melhor livro sobre clones”. Num cenário pós-apocalipse, Kate imagina uma fazenda de uma família com dinheiro, tecnologia e coragem, onde os humanos-como-nós vão sendo substituídos por clones de si mesmos, a quem cabe viajar para longe do seu vale de origem e examinar o que restou da civilização. Um romance onde se contrapõem, em novas circunstâncias, a Sociedade Racional Antiemotiva e o Selvagem Instintivo-Individualista.

Mnemomáquina de Ronaldo Bressane (São Paulo, Ed. Demônio Negro). Bressane usa a prosa eletrificada, pop e intensa de autores como Thomas Pynchon e D. F. Wallace para falar de uma São Paulo pós-apocalipse, cibernética, delirante, numa cachoeira de pequenos detalhes que vão desde o surrealismo da FC new-wave até o hiperrealismo dos quadrinhos contemporâneos. Aquilo que os críticos chamam de trapézio sem rede, num ritmo de entontecer.

The Magic Toyshop de Angela Carter é o tipo de história que só essa autora seria capaz de levar a cabo: o rito de passagem de uma adolescente que a morte dos pais obriga a viver na loja de artigos mágicos de um tio tirânico e brutal, na companhia de primos que ele acha ameaçadores e fascinantes. Uma mistura de Charles Dickens com Neil Gaiman, com um ponto de vista feminino.

Nova de Samuel R. Delany. Uma space-opera com narrativa intrincada mas coerente, idéias ousadas de física e de astronáutica, prosa brilhante. É o que toda space-opera deveria ser, com personagens “maiores que a vida” mas verossímeis, lances teatrais, perseguições e vinganças ferozes, civilização galáctica bem imaginada. Um romance da mesma estatura de Duna de Frank Herbert ou de The Stars My Destination de Alfred Bester.

Piquenique na Estrada (Ed. Aleph, São Paulo) de Arkády e Bóris Strugátski. Um romance muito bom e que me pareceu uma fanfic de Stalker, de Andrei Tarkóvski, porque compartilha o ambiente e a premissa, mas se prende a outros episódios. (O livro, é claro, é bem anterior ao filme.) Alguns lugares da Terra receberam uma visita breve de alienígenas que nem se deram conta da presença da humanidade e foram logo embora, deixando atrás de si as Zonas, que são verdadeiros campos minados onde acontecem alterações bizarras da realidade.

peixes coloridos de alto-mar (Ed. Kafka, Curitiba) de Paulo Sandrini, é outro romance pós-apocalíptico, num vago Brasil futuro corroído pela chuva ácida e vítima de mutações bizarras. Um pai tenta criar a filha num ambiente brutal e decadente, em meio ao escambo constante de produtos essenciais, ao saque e à sujeira.

Clans of the Alphane Moon de Philip K. Dick é mais um que traduzi para a Suma de Letras. É a história de uma colônia manicomial terrestre, numa lua distante, onde os clãs se dividem pela doença mental de cada um: os esquizofrênicos, os paranóicos, os maníacos obsessivos, etc. As habituais quebras de realidade de Dick aparecem a todo instante, bem como sua mistura da filosofia existencial e a pulp fiction mais escancarada: boa parte das reflexões filosóficas vem de um “lodo viscoso de Ganimede”, uma gosma amarela que se esgueira por baixo das portas e se comunica por telepatia.


AUTORES PARAIBANOS

Se eu fosse botar aqui os cordéis que tenho lido ou relido, ia faltar espaço. Deixando os cordéis de lado, registro estes três títulos, para quem se interessar:

Memórias tristes do Rói-Couro de Pombal, de Jerdivan Nóbrega de Araújo. São as memórias de um freqüentador da zona boêmia de Pombal, contadas na velhice. Tem um viés nostálgico, mas sem embelezamento, e sem condenações morais. A vida de puteiro rememorada com carinho e dor por quem freqüentou puteiros sem culpa. O autor se inspirou em Garcia Márquez e suas Memórias de Minhas Putas Tristes.

Viajantes do Purgatório de Eilzo Matos. Uma cidadezinha do interior, suas fofocas, seu “muído” permanente de sexo e dinheiro, brigas por terras. Um cotidiano bem vivido, bem observado e bem descrito, cheio de detalhes verossímeis e observação de ambientes concretos. Alguém já disse que certas cidades interioranas são como um avião que roda, roda, e não levanta vôo. O mundo descrito por Eilzo Matos é exatamente isso.

As Conchambranças de Quaderna (Ed. Nova Fronteira, “Teatro Completo”) de Ariano Suassuna. A última peça de Ariano reúne três aventuras do anti-herói do Romance da Pedra do Reino, onde Quaderna deixa de lado sua face mística e cósmica e age como um autêntico trambiqueiro, enganador, costurador de intrigas, mentiroso, sedutor de moças entediadas... Mais uma vez é o cotidiano mesquinho e sem horizontes das cidades regidas com mão de ferro pela política, o poder e a corrupção.



(continua)