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sábado, 8 de junho de 2019

4474) Com mulher não se brinca (8.6.2019)




Eu estava de passagem por uma cidade paraibana, que chamarei, ao estilo Monteiro Lobato, de Três Estrelinhas. Ia a trabalho e fiquei num hotelzinho acolhedor. Na primeira tarde percebi que tinha deixado no Rio meu caderno de anotações.

Eu dou preferência a caderno tamanho livro, capa dura, pode ser espiral ou encadernado, mas prefiro com pauta estreita, porque minha letra é miúda. Saí do hotel em busca de uma papelaria, num sol de duas-da-tarde capaz de torrar um pão-com-manteiga no peitoril da janela.

Achei a papelaria e entrei. A súbita transição daquele forno abrasador para a sombra fresca cheirando a papel foi como o acesso a uma zona crepuscular fora do tempo e do espaço. A loja era do tipo estreita e comprida, tendo de um lado prateleiras do chão ao teto, e do outro um balcão longo com tampo de vidro.

Ninguém no Caixa, que ficava logo à entrada; lá no fundo, apenas duas atendentes arrumando coisas. Fui para lá, refrescado, leve, sem pressa nenhuma.

As duas estavam conversando, conversando permaneceram, como se eu fosse transparente. Parei junto da prateleira, peguei numa coisa e noutra, porque gosto de fazer o senhor educado e esperar que alguém se dirija a mim primeiro.

Ilusão trêda, diria Augusto dos Anjos, porque a conversa ali estava com mais de mil na buraqueira. A morena estava de pé junto à parede: rabo de cavalo, bonitinha, vinte e poucos anos, uns olhos líquidos cheios de paciência atávica. Recebia e colocava na prateleira mercadorias que a loura, agachada, retirava de uma caixa onde caberia a papelaria inteira.

– Eu tou com um ódio tão grande, tão grande – estava dizendo a loura, que era bronzeada, saradona, teria seus trinta-e-bote-força, rosto sardento, queixo resoluto – que a vontade que eu tenho é de dar um tiro naquele corno.

- Vige, mulher – disse a morena, recebendo uma pilha de caixas de lápis de cor e arrumando na prateleira, bem metodicazinha. – Teu marido, e tu chama de corno.

– Deus é testemunha que eu nunca botei chifre nele, mas com a raiva que eu tou vou acabar botando com o primeiro que aparecer.

Fiquei por ali, como quem não quer nada. Ela prosseguiu:

– Um safado daquele, um nojento. Eu não sei como é que eu não fiz uma besteira.

– Pois é, mulher. Na tua casa?! O homem ter a coragem de trazer uma mulher pra dentro da tua casa, botar em cima da tua cama? Eu fico passada com Válter, nunca pensei.

- Pois eu vou dizer uma coisa – disse ela, estendendo uns pacotes de papel A-4, um por um. – Nunca chegue em casa fora de hora, minha filha. Principalmente se você for casada com um folgado, que só trabalha quando quer. Chega me dá um abuso quando eu tou trocando de roupa pra vir trabalhar e ele fica deitado, abrindo a boca, com sono, dizendo que vai ter que levar a picape na oficina, mas só mais tarde, e vai dar mais um cochilo porque está cansado. Só vive cansado, nem sei do quê.

A outra riu, arrumando os pacotes.

– Eu sei do quê... Quando você tá de lua boa, só chega aqui contando vantagem e dizendo que o serviço é bom.

A outra limpou as mãos nos jeans, pegou umas caixas de alguma coisa e ficou checando uma nota fiscal cheia de vias.

- O serviço dele tá com os dias contados – disse por fim, dobrando a papelada e recomeçando. – Remédio pra dormir, e uma serra-de-pão.

A morena riu, curvando o corpo.

- Pára com isso, Dete, tu sabe que não é capaz.

- De capar um safado daquele? Sou capaz sim. – Deu de ombros. – Depois costura de novo no lugar e ele fica com a lição.

A conversa estava ficando punk demais e eu resolvi intervir.

- Hrrrm-hrrrmm – pigarreei.

A morena me olhou de frente. Dete girou o corpo e me checou de cima a baixo. Nunca me senti tão nu.

- Boa tarde – disse eu. – Não quero interromper.

- O senhor tá procurando alguma coisa? – disse a moreninha.

- Caderno pautado, capa dura, assim desse tamanho – respondi, fazendo com as mãos um gesto que no mesmo instante me pareceu totalmente inapropriado, descabido.

A loura me desfechou um olhar que equivalia ao raio-cristalizador daquelas séries de ficção, capaz de transformar em gelo uma fogueira de mil graus.

A morena me salvou.

– Tem não.

– ‘Brigado – disse eu, e bati miseravelmente em retirada, rumo ao bendito calor que reinava do lado de fora da caverna ártica, siberiana, silenciosa, que deixei às pressas para trás, quando emergi na canícula com suor na testa e uma crônica engatilhada.












sexta-feira, 9 de setembro de 2011

2657) Você que tinha razão (9.9.2011)



Uma das desvantagens de ter dez anos é que ninguém nos dá ouvidos. Uma das vantagens é que não passa pela cabeça de um adulto que nós, pirralhos, somos capazes de ver e ouvir.

Meu pai e minha mãe conversam um repertório espantoso de assuntos (que – se lhes fosse perguntado – eles garantiriam que “não era assunto para crianças”) na minha frente e da frente da minha irmã, de oito anos. Imagino que já se acostumaram tanto à nossa presença que é como se a gente nem estivesse ali. E que se acostumaram tanto com a nossa fase de bebezinhos (fraldas, mamadeiras) que na cabeça deles continuamos nessa fase, incapazes de focar o olho ou de apurar o ouvido.

Vai daí que discutem sem parar na nossa frente, e mostram o quanto os adultos são contraditórios. Todo dia a discussão obedece o mesmo padrão, só muda o assunto.

Digamos que o assunto é dinheiro. Minha mãe diz: “Você não tem jeito mesmo, a gente precisando das coisas e você torrando o dinheiro com besteira”.

Meu pai: “Eu só gasto com coisa necessária”.

Ela: “Duzentos reais num litro de uísque, isso é coisa necessária?”.

Ele: “Era uma promoção! Esse uísque não sai por menos de 400”.

Ela: “Homem é fogo, só homem mesmo pra raciocinar desse jeito”.

Ele: “Você não vive dizendo que eu sou gastador? Fiz 50% de economia e você ainda reclama”.

Ela: “Reclamo porque uísque não é economia, e além disso você só toma cerveja”.

Ele: “Mulher é tudo igual. Existe hora de cerveja e hora de uísque”.

Ela: “Sim, mas o ar condicionado quebrou e não apareceu dinheiro pra comprar outro. Já o uísque...”.

Ele: “Estou esperando aparecer uma promoção de ar condicionado. Não tenho culpa se a promoção do uísque apareceu primeiro”.

Ela: “Ah, chega, você parece que é imbecil, não tem diálogo”.

Ele: “Você que é idiota, parte logo pra agressão”.

Aí ficam os dois comendo em silêncio, e minha irmã pisca o olho pra mim.

Meia hora depois estão os dois nos braços um do outro.

Ele: “Desculpe. Eu sou mesmo um imbecil. Você que tinha razão”.

Ela: “Não, não, eu sou uma idiota. Quem tinha razão era você.”

Ele: “Não, meu amor, eu sou um irresponsável, vou devolver o uísque, espero que eles não percebam que está faltando uma dose”.

Ela: “Não, fique com seu uisquinho, você trabalha tanto, merece relaxar. Eu é que sou uma chata, uma egoísta.”

Ele: “Não, eu negligencio as coisas de casa, mas é tanto estresse, eu tenho que tomar uma”.

Ela: “Não, você cuida tanto, eu é que fico lhe cobrando sem necessidade, você é o melhor marido do mundo”.

Ele: “Tá certo, então eu fico com o uísque e compro um ventilador”.

Os dois se agarram aos beijos, e minha irmã pisca o olho pra mim.





sexta-feira, 3 de junho de 2011

2573) A boca e a botija (3.6.2011)



Fulano era um cara trabalhador, competente, honesto. Ele e a esposa tinham uma poupança conjunta que estavam acumulando para no futuro construir uma casa. Dois terços do dinheiro eram a herança que ela ganhou dos pais, o resto eram economias dele. Como a mulher não se interessava por finanças (era uma pessoa de temperamento artístico, adepta de religiões orientais, etc.) ele cuidava de tudo.

Os anos se passaram. Houve alguma catástrofe familiar pelo lado dela e ela precisou do dinheiro. Pediu para o marido tirar metade, ele fez finca-pé. Depois de muito pressionado, ele confessou. Tinha perdido a grana, quase 1 milhão de reais, em especulações financeiras. Um amigo lhe acenara com a possibilidade de duplicar o capital em curtíssimo tempo. Ele começou a visualizar a cena. Convidaria Sicrana para um jantar à luz de velas, e entre duas taças de vinho daria a notícia: já podiam chamar o arquiteto e contratar o projeto, porque tinham os 2 milhões necessários para a casa! A mulher não acreditava no que estava ouvindo. Mas não sobrou nada?... Nada, nadinha, confessava ele, aos prantos. A crise das imobiliárias dos EUA derrubou inúmeros bancos e financeiras, e o dinheiro dele (e de mais alguns milhões de aplicadores) tinha descido pelo ralo. Não teve Obama que desse jeito, e dos 4 trilhões que os governos do Ocidente destinaram à salvação da economia mundial não lhe coubera sequer um centavo.

É duro uma mulher de 45 anos escutar isso. Ainda mais uma pessoa que jogava I-Ching e Tarô uma vez por mês, em quinzenas alternadas, e nunca recebeu a menor dica de que sua herança estava virando fumaça, ao fim de intrincadas tubulações financeiras, na fornalha que consumiu a credibilidade de Wall Street. Talvez as entidades espirituais não queiram perder tempo com alertas dessa natureza – a César o que é de César, etc. – e no fim das contas talvez a culpa fosse dela própria, que não interpretara corretamente as mensagens tipo “A viga-mestra cede a ponto de se partir. Infortúnio.”

Se o episódio tem alguma utilidade prática para nós, da plateia, talvez seja a seguinte. Geralmente identificamos desonestidade com má intenção, com o dolo, com o propósito malévolo de prejudicar alguém. Um roubo, um furto, um assalto à mão armada. Mas a desonestidade pode vir associada, também, a uma boa intenção que tenta se concretizar por meios questionáveis. Imagino que jamais passaria pela cabeça de Fulano pegar os caraminguás da patroa e gastá-los com coristas de Las Vegas. O que ele queria mesmo era fazê-la feliz a curto prazo. “Nunca menti para ela”, disse certa vez, “apenas não contei tudo que estava fazendo”, desculpa escorregadia de colegial pêgo-no-flagra. A fantasia pueril de produzir um grande efeito, uma grande surpresa, acabou sendo mais forte do que a lealdade, o jogo de equipe, a necessidade de tomar decisões conjuntas sobre o que implica em riscos conjuntos.

terça-feira, 31 de maio de 2011

2570) O romance de adultério (31.5.2011)



A crítica chama de “literatura mainstream” a corrente principal da literatura, ou seja, o romance realista em geral, que descreve a vida como ela é, os costumes das classes sociais, a existência cotidiana, etc. Em geral, esse conceito é contraposto à literatura dita “de gênero”: o romance policial, de terror, de ficção científica, de faroeste, de humor, etc. Estes seriam gêneros especializadíssimos e que, talvez por isto mesmo, são incapazes de reproduzir toda a complexidade do mundo de hoje.

Mas podemos considerar também que um gênero literário é uma espécie de repetição ritual de temas e situações que por variados motivos nunca deixam de encontrar leitores. O que é o romance de detetive? A história de um crime violento que ninguém sabe como e por quem foi cometido; e de um homem (o Detetive) que consegue interpretar da única maneira correta uma porção de indícios que os outros viram e não compreenderam e prender o criminoso. É a Razão servindo de instrumento para punir a Transgressão. Por motivos variados esse tipo de história nunca deixa de ter leitores. Uns são atraídos pela fascinação da Violência, outros pela conquista do reequilíbrio pela Sociedade, e outros (eu, p. ex.) pelas inesgotáveis manifestações da Inteligência.

Dentro do romance social e psicológico há um subgênero importantíssimo, mas que a crítica não costuma identificar como tal. Eu o chamo o Romance de Adultério: aquele em que uma instituição crucial da sociedade, o casamento patriarcal e monogâmico, é ameaçado pelo comportamento individualista e transgressor de uma ou mais pessoas. Dentro desta rubrica caberiam clássicos como Anna Karenina de Tolstoi, Madame Bovary de Flaubert, O Amante de Lady Chatterley de D. H. Lawrence, Dom Casmurro de Machado de Assis, O Amor Conjugal de Alberto Moravia e milhares de outros. Estes livros são considerados “mainstream” porque ninguém até hoje se mobilizou para defender a criação de um gênero que os abarcasse e que se certa forma “chamasse” a criação de novas obras baseadas neles. Essa criação se dá invisivelmente, dentro do mercado literário que já existe.

É curioso que este tema não tenha sido cristalizado em gênero, como foi o assassinato (através do romance policial). A dualidade casamento/adultério, segurança/aventura, respeitabilidade/transgressão tem sido uma inspiração constante da literatura nos últimos séculos, e gerou obras magníficas como estas que citei acima e muitíssimas outras. Alguns autores retornaram de maneira quase obsessiva ao tema. Machado de Assis, talvez pelo fato de publicar muitos dos seus contos em jornais e revistas voltadas para o público feminino, falou do assunto sob todos os ângulos possíveis. E no entanto a crítica planta firmemente esses romances dentro do território indiferenciado do “romance realista psicológico urbano” ou coisa parecida, quando, para transformá-lo em gênero, bastaria criar uma coleção e formalizar uma teoria.

terça-feira, 8 de junho de 2010

2117) Os políticos e os maridos (20.12.2009)



Por que motivo tantos políticos desviam verbas públicas, cobram propinas para cumprir suas obrigações, usam o poder conferido pelos seus mandatos para tornar-se milionários em poucos anos de atividade? (Nunca esquecerei a frase que li uma vez: “Eu só tenho quatro anos para ficar rico, talvez nunca mais tenha outra chance!”). Muitos fazem isso porque são (como a imprensa e a população não cansa de chamá-los) canalhas, calhordas, larápios, etc. Mas no meio dos políticos desonestos deve existir um contingente de sujeitos que não são tão maus assim. São bons administradores, são amigos leais dos seus amigos, são pais de família exemplares... Por que roubam, então? Resposta: roubam porque lhes foi dito que todo mundo rouba, e nenhum deles quer ser o primeiro a abrir mão de um direito adquirido há séculos.

Nesse aspecto, não diferem muito de outro tipo de cidadão: o marido que trai a esposa. Um marido, no mundo ocidental (não faço uma idéia muito clara de como se comportam os maridos em culturas como a da China, a do Irã, a da Índia, etc.), assume compromissos civis e religiosos quando se casa. Entre estes, está (se não me falha a memória) o de ser fiel à esposa. Claro que um tal compromisso é apenas “pro forma”, da boca pra fora, porque em grande parte dos casos todo mundo sabe (ele, a esposa, o padre, o sacristão, as testemunhas, os garçons e os manobristas da festa do casamento) que, na primeira chance que tiver, ele a trairá de coração alegre e consciência tranquila. Por que não o faria? Todo mundo faz. Claro que se for a esposa a traí-lo ele invocará prontamente o Código Civil, a Bíblia, e qualquer legislação que lhe dê o direito de se sentir prejudicado. Mas todo mundo sabe (eita frasezinha fatal) todo mundo sabe que essas coisas só valem para a mulher, não valem para o homem. Esses maridos traem porque nenhum deles quer ser o primeiro a abrir mão de um direito adquirido há séculos.

Com o erário público é a mesma coisa. O dinheiro público (e o dinheiro das propinas, das percentagens por-baixo-do-pano, etc.) oferece-se a um político com todo o coquetismo e todos os decotes de quem nasceu para se oferecer, de quem nasceu para se dar. Pegue uma nota qualquer de dinheiro público, e olhe atentamente. Você vai ver que em alguns segundos a efígie daquele vulto histórico barbudo se metamorfoseia na imagem de uma mulher linda, provocante, que pisca o olho em câmara lenta e sussurra: “Leve-me. Posso ser sua. Você tem direito a mim, é só querer. Todo mundo já me levou.” Noventa por cento dos políticos, noventa por cento dos maridos (não tabulei pesquisas; esta percentagem é meramente metafórica) levam.

Um antigo provérbio anarquista dizia que só existirá justiça social no mundo quando o último burguês for enforcado com as tripas do último padre. Eu afirmo que em nosso mundo os políticos só deixarão de roubar quando os maridos deixarem de trair. Pra vocês verem o tamanho do problema.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

1914) O celibato dos padres (28.4.2009)



Duas notícias nos jornais. Uma delas diz que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que está acontecendo por estes dias, pretende, entre outras questões, discutir a criação de assistência psicológica para os religiosos. A outra notícia é que no Paraguai já surgiu uma terceira mulher alegando ser mãe de um filho do Presidente Lugo, que até pouco tempo era bispo.

Já toquei nesta coluna no assunto do celibato obrigatório para os padres, que considero ter sido um grande erro estratégico da Igreja Católica. E um erro, infelizmente, difícil de desfazer, porque não creio que a Igreja derrube, no futuro visível, esse muro milenar. Dizem que a intenção da Igreja era evitar que os padres constituíssem famílias e deixassem para viúva e filhos o patrimônio gerado pelas suas atividades. Entendo a razão, mas acho-a insuficiente. Os pastores protestantes casam, os rabinos judeus casam, os sacerdotes da miríade de religiões modernas (nascidas nos últimos 200 anos) casam, e todas essas igrejas dispõem de mecanismos anti-empobrecimento. Seria mais complicado, porém mais sensato e mais útil, criar mecanismos jurídicos governando o acúmulo e transmissão dos bens dos sacerdotes do que simplesmente dizer “não casa”. Dá no que dá. Preciso falar nos milhões de “filhos de padres” que existem por aí?

Também não proponho que o casamento fosse obrigatório! Acho mesmo que apenas uma minoria, talvez uns 30%, fosse reivindicar esse direito. A maioria dos religiosos que conheço consiste de intelectuais, sujeitos fascinados pelo pensamento, pela metafísica, pela elucubração filosófica. Prefeririam uma noite na poltrona com um livro de São Tomás de Aquino a uma noite no leito com uma dama atenciosa. Existe, contudo, um grupo para quem seria possível, e necessário, conciliar as duas coisas. Um ex-padre (que largou a batina para casar) me disse uma vez: “Pensam que nós somos tarados, sátiros, que só pensamos em sexo. Estão errados. Gostamos do carinho, do companheirismo, da presença física e terna de uma mulher. Queremos a alegria e o drama de criar um filho. O sexo é um meio para isto. Tive que escolher entre minha igreja e minhas convicções, e Deus decidirá se errei ou não”.

Que drama o do Vaticano. Tenho certeza de que os indivíduos que estão lá sabem perfeitamente a sinuca histórica em que estão metidos há mil anos. Pela vontade deles, talvez, fariam uma “distensão lenta e gradual”, criando um sistema de exceções, de liberações em casos especiais, etc. Mas eles sabem que qualquer passo nesse sentido seria interpretado como uma concessão da Igreja ao acanalhamento moral, ao hedonismo despudorado, à sexualização comercializada e compulsória de todas as atividades humanas, que é o que o Neocapitalismo Freudiano estimula, para faturar às custas de nossas pulsões incontroláveis. “Não”, murmura a Igreja, “nós somos O Centro, e quando O Centro não mais se sustentar, o edifício inteiro virá abaixo”.

domingo, 21 de março de 2010

1805) Nem patrimônio nem matrimônio (21.12.2008)



(resultado da busca no Google por "toxic wife")

A crise financeira mundial não está apenas evaporando o patrimônio de muitos milionários mundo afora: está fazendo o mesmo com seus matrimônios. Fico compadecido ao ver esses altos executivos, gente que embolsa centenas de milhões de dólares por ano em salários e mordomias, sendo abandonados pelas esculturais esposas que exibiam nas festas. Uma matéria sardônica de Tara Winter Wilson, no The Telegraph, faz um raio-X impiedoso de alguns divórcios que têm pipocado às centenas nos altos escalões do empresariado.

Ela fala do caso de Sasha, cujo marido perdeu o emprego no centro financeiro de Londres e cancelou a compra de um chalé de 3,4 milhões de libras, cuja decoração ela já estava encomendando. O que fez Sasha? Separou-se do marido e o processou por “crueldade mental”. Outro casal, Jack e Katie, que vivem numa mansão de um milhão de libras, foi às vias de fato quanto ele lhe comunicou a necessidade de um corte nos gastos. Não apenas as 53 mil libras anuais pelo colégio dos dois filhos, mas a redução das despesas com salão de beleza, um corte no cartão de crédito, e a redução do “staff” de empregados do Leste Europeu que a seguia por toda parte. A polícia (chamada pela filha pequena) veio em socorro de Jack, com o rosto partido por um vaso caríssimo.

Tara Wilson criou a expressão “Toxic Wife” (Esposa Veneno) para designar essas beldades que casam com tubarões-da-grana de olho no seu dinheiro, e batem em retirada quando o dinheiro desaparece, para fisgar em seguida outro milionário desatento. Ela a define como “a mulher que larga o trabalho assim que se casa, em princípio para criar um lar estável para os filhos que virão, mas que logo em seguida aluga um exército de criados para cuidar das tarefas domésticas, ficando com todo o tempo livre para fazer compras, ir aos restaurantes e desfrutar do luxo”.

Desde o colapso financeiro de setembro passado, os pedidos de divórcio na Inglaterra aumentaram 50%. Diz Wilson: “Essas caçadoras de riquezas são materialistas a um ponto tal que não têm a menor consideração por outras pessoas. Falta-lhes empatia com outros seres humanos.” Um marido abandonado descreve assim a ex-esposa: “Ela tem a personalidade de uma criança mimada, que começa a gritar no momento em que lhe tiram da mão um brinquedo”. Susie Ambrose, uma conselheira matrimonial de alto nível, diz que tais mulheres são exatamente como os homens de negócios com quem se casam: frias e implacáveis, quando se trata de dinheiro. “Não importa se o marido é gordo, velho, careca, pouco atraente: é no dinheiro que elas estão interessadas”. Susie ministra cursos (cujo preço vai de 10 mil a 60 mil libras) ensinando os homens a distinguir entre essas “esposas veneno” e as mulheres sinceras. Há alguma lógica na cobrança de uma taxa tão alta – quem não pode pagar pelo curso também não corre o risco de ser vítima delas. A natureza é sábia, amigos. Um brinde à nossa pindaíba!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

0718) Três casamentos (7.7.2005)


Três casamentos ocorridos nos últimos meses chamaram minha atenção, e não só a minha, porque a imprensa inteira não falou noutra coisa. Coluna social não é o meu forte, de modo que procurem ver aqui uma tentativa de exame antropológico dos curiosos rituais propiciatórios ao acasalamento em vigor na sociedade racionalista, cristã e ocidental.

O primeiro foi o casamento de Elias Maluco. Como? Vocês não leram nada a respeito? Pois na imprensa do Rio falou-se, e muito. Elias Maluco, que liderou o esquartejamento e carbonização do jornalista Tim Lopes, casou com alguém dias antes do seu julgamento num tribunal carioca. Poucos sujeitos aqui no Rio serão vistos com tanto desprezo quanto este patético bandido, e a defesa (ah, a imaginação dos advogados!) achou que casá-lo seria uma boa maneira de melhorar sua imagem, mostrar ao público que ele estava se regenerando... Não sei se chegaram a fotografá-lo com uma Bíblia evangélica embaixo do braço. Só o revi nas imagens pós-julgamento, quando, condenado, ele saiu dando-o-dedo para a câmara da Globo. (A Globo é um poder tão invasivo neste país que qualquer idiota sabe que basta agredi-la ou falar mal dela para angariar a simpatia de um naco substancial da população)

O segundo foi o casamento de Ronaldo & Cicarelli. No momento em que este artigo for publicado, talvez eles já estejam promovendo uma festa de reconciliação, com um regabofe para 2 mil convidados na Ilha de Caras; mas enfim, tenho que usar as informações disponíveis no momento. Poucos casais terão aceitado com tanto entusiasmo os rituais-de-fabricação da mídia. Ninguém pode questionar o futebol dele, a beleza dela, a simpatia espontânea e instintiva despertada pelos dois. Mas isto não basta. Compraram (coitados) todo o pacote de badalação, marketing, merchandising, feira-das-vaidades, consumismo, “potlatch” e perdularismo. O conto-de-fadas da mídia brasileira (e de fora) não durou três meses. (E recuso-me a ser o 328o. jornalista a usar metáforas envolvendo carruagens e abóboras)

O terceiro foi o casamento do Príncipe Charles e de Camilla Parker-Bowles, ao qual já me reportei aqui (“Pobre princesa feia”, 12 de março). Não tenho simpatia especial por nenhum dos dois. Dela sei muito pouco, e ele é uma figura patética, um cara com quase 60 anos mas que a mãe ainda não acha adulto bastante para ser rei. Paciência. Esse cara feio e bobão e essa mulher durona com cara-de-cavalo certamente gostam um do outro. Enfrentaram a antipatia e a perseguição impiedosa da imprensa, enfrentaram as leis, as convenções, enfrentaram o Império Britânico, as ameaças da Igreja, a desaprovação do povo inglês. Seguraram a barra por mais de 30 anos, e hoje estão casados. Ronaldo & Cicarelli? Michael Jackson & Lisa Presley? Tom Cruise & Katie Holmes? Não, amigos, já dei meu voto para O Casal do Século. Sou mais a Verdade do que a Beleza (“Verdade é Beleza”, 10.4.2003).