Mostrando postagens com marcador Ataulfo Alves. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ataulfo Alves. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 13 de abril de 2017

4225) Curiosidades da música popular (13.4.2017)



Na gravação de “Bob Dylan’s 115th Dream”, do álbum Bringing it all back home (1965), a música começa com Dylan rasqueando o violão e começando a cantar o primeiro verso da letra: “I was riding on the Mayflower, when I thought I spied some land...”   

Então ele se interrompe e dá uma gargalhada, porque tinha começado a cantar sem fazer a contagem prévia e os músicos ainda não estavam prontos. Dylan dá várias risadas, e depois avisa: “Oh, yeah, take two!”. E desta vez, no segundo take, entram todos juntos.

Aqui:

Depois, certamente ele e o produtor acharam divertido o detalhe e resolveram deixá-lo aparecer no disco. Na época, isso deu um certo susto nos ouvintes, o fato de um “erro” ser mantido na versão final.

Acho que na verdade a gente nem imaginava que pudesse haver um erro ao se gravar uma música. Eu pensava que os músicos se posicionavam no estúdio, a fita começava a rodar e eles tocavam a música inteira até o fim, do jeito que a gente iria escutar depois.

É ingênuo, pensar assim? Talvez seja, mas não é mais ingênuo do que o cara que pegou um ovo de galinha e disse: “Olha que design impressionante, deve dar um trabalho enorme fazer uma coisa tão perfeita”.

Uma música só fica pronta mesmo depois de gravada, ou melhor, depois do disco estar sendo vendido na loja.  E mesmo assim há muitos casos de canções que por mil motivos acabam sendo remixadas ou interferidas, e aparecem diferentes nas prensagens seguintes do disco, semanas ou até meses após o lançamento.

Muitas decisões cruciais sobre a forma final de uma canção são tomadas após a gravação, exigindo que ela seja refeita ou emendada de alguma forma. Reza a lenda que isso ocorreu uma das gravações mais belas e mais famosas de Clara Nunes, o Canto das Três Raças, de Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte:

Ninguém ouviu
um soluçar de dor no canto do Brasil...
Um lamento triste sempre ecoou
desde que o índio guerreiro foi pro cativeiro
e de lá cantou...

A versão de Clara Nunes:

Ao fim de cada estrofe, vem um coro de vozes masculinas: “ô-ô-ô, ôôô...”  Esse coro, ao que se diz, não fazia parte da composição original, mas foi incluído pelo maestro arranjador, que, como convém a um bom arranjador, sentiu que “faltava alguma coisa ali”.

Interferências assim, não previstas na forma original da canção, acabam se transformando em algo que é “a cara dela”.

Meu parceiro-ilustrador Mário Bag conta, numa postagem recente no Facebook, este episódio sobre uma das canções mais famosas de Paulinho da Viola, “Foi um rio que passou em minha via”. Todo mundo lembra o trecho que abre a segunda parte, e diz: 

Porém
há um caso diferente
que marcou num breve tempo
meu coração para sempre...

Diz Mario Bag:

Em 1970, enquanto o Paulinho da Viola gravava o samba "Foi um rio que passou em minha vida", um dos membros dos "vocais de apoio" se empolgou depois que o autor cantou o 'porém' ANTES do verso que seguiria: "que marcou num breve tempo", e mandou um contraponto: "Ai, porém!..."

Se tirarmos o "ai, porém" que o cara enfiou no meio da letra, fica um intervalo meio incômodo entre os versos tanto que o "ai, porém!" já faz parte da letra - já está transcrito na letra OFICIAL da canção. E o criador da "chamada" ficou conhecido como "Jorge Porém".

Ou seja, o merecidamente imortalizado Jorge Porém sentiu, como um bom arranjador, mesmo não-oficial, que “faltava alguma coisa ali”. Havia um buraco. Buraco, em música, é muitas vezes um tempo de espera até que se complete um compasso e a melodia + letra possa ser retomada no ponto mais conveniente.

É mais ou menos como você querer subir num carrossel, mas tem que ser no cavalo “X”, aí você precisa esperar terminar a volta e o cavalo passar de novo.

É o que contam Zuza Homem de Mello e Jairo Severiano em seu precioso livro A Canção no Tempo (Editora 34, vol. 1, págs. 188-189), a respeito da canção “Ó Seu Oscar”, de Wilson Batista e Ataulfo Alves, gravada por Ciro Monteiro:

“Se pertence a Ataulfo o título e a segunda parte, é de Wilson Batista a idéia e o estribilho original da composição:

Cheguei cansado do trabalho
logo a vizinha me falou:
(ó seu Oscar,)
tá fazendo meia hora
que a sua mulher foi embora
e um bilhete deixou...
O bilhete assim dizia:
“Não posso mais, eu quero é viver na orgia!”

Aqui, a gravação de Ciro Monteiro:

“Foi com esses versos, já musicados, que Wilson convidou Ataulfo para fazer a segunda parte. Conta Bruno Ferreira Gomes (no livro Wilson Batista e sua época) que Ataulfo, notando um “buraco” entre o segundo e o terceiro verso, sugeriu a inclusão desse “Ó Seu Oscar” que, além de preencher o claro, acabou substituindo o título, que deveria ser “Está Fazendo Meia Hora”.

Os autores lembram também que na época (1940) o nome “Oscar” era atribuído a qualquer indivíduo bobalhão, mais ou menos como hoje se usa “Mané”.

Tempos de espera como esse são geralmente preenchidos por um tralalá instrumental qualquer. Outras vezes, o compositor, ou o maestro, ou o próprio intérprete, encaixa ali um pedacinho e a música fica completa, sem parecer uma dentadura onde falta um dente no meio.










sábado, 17 de janeiro de 2009

0758) Eu era feliz e não sabia (23.8.2005)




Quando eu era pequeno, Ataulfo Alves era um dos compositores mais conhecidos no país, algo como Martinho da Vila hoje em dia. Suas músicas tocavam o tempo todo, todo mundo queria gravá-las. 

Uma das mais conhecidas é a canção nostálgica em que ele relembra sua cidade natal, Miraí (MG), com versos simples e emotivos: “Eu daria tudo que tivesse pra voltar ao tempo de criança... Eu não sei por quê que a gente cresce, se não sai da mente essa lembrança”. 

Ele recorda o ambiente da cidadezinha, as pessoas que sumiram no tempo: “Que saudade da professorinha que me ensinou o b-a-ba... Onde andará Mariazinha? Meu primeiro amor, onde andará?” E termina: “Eu igual a toda meninada, tanta travessura que eu fazia! Jogo de botão sobre a calçada... Eu era feliz e não sabia!”

Este verso final incorporou-se à nossa linguagem cotidiana, virou uma parte do falar brasileiro, e não sei de honra maior para um verso escrito por um indivíduo. Dizemos isto a propósito de tudo, a propósito de qualquer situação passada que na hora não parecia grande coisa mas que, quando a vemos em retrospecto, a gente sente uma falta danada. 

Certa vez, quando participei da criação de motes para o Congresso de Violeiros de Campina Grande, propus o mote: “A gente só é feliz / quando não sabe que é”. Era no tempo em que o Congresso lotava o Ginásio da AABB com milhares de estudantes. Éramos felizes, e não sabíamos.

Ataulfo parece sugerir que existe um certo conflito entre a felicidade e a consciência desta felicidade. Quando estamos totalmente absorvidos por êxtases ou epifanias, não sobra muito tempo para botarmos as mãos nos bolsos e pensarmos, “puxa vida, que momento legal este!” 

Parece sugerir também que esse tipo de felicidade só existe na infância, naquele momento em que já somos grandes o bastante para fruir com intensidade as coisas boas da vida (Mariazinha, o jogo de botão, etc.), mas não sabemos ainda das desilusões e dos sofrimentos que nos aguardam mais adiante.

Basta pegarmos a máquina-do-tempo, no entanto, para percebermos que não é bem assim. Lá está Ataulfinho, de calção, sentado na calçada, jogando botão em cima de uma tábua e vendo Mariazinha pular corda ali perto: a saia subindo e descendo... 

Esta é a imagem que lhe ficará na memória meio século depois, mas ao retornar àquele instante específico ele sente virem à tona uma horda de coisas ruins que já esquecera. A prova de Geografia amanhã, para a qual não estudou nada. A ameaça feita por Zezim da esquina de dar-lhe uns cascudos por causa de uma guerra aérea de corujas. O pai, que vive adoentado, gemendo, recusando-se a tomar remédio e dizendo que “não é nada”. Os dez tostões a mais que pegou do troco da bodega e que a mãe anda procurando em altas vozes por dentro de casa. 

Felicidade? Claro. A felicidade é a memória passada a limpo, expurgada dos “quatrocentos golpes” que nos ferem e nos magoam a cada dia. Só se é feliz hoje muito tempo depois.