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sexta-feira, 15 de abril de 2022

4813) "The Batman": o Homem que Bate (15.4.2022)

 

 
Tenho boas lembranças de ler gibis do Batman em nossa antiga casa na Rua Miguel Couto. Mudamos dali em 1960, de modo que posso contar umas seis décadas de convivência com o Cruzado De Capuz. Li os gibis; assisti fartamente a série de TV com Adam West; voltei anos mais tarde pelas mãos de Frank Miller; vi alguns dos filmes (numerosos e desiguais) feitos dos anos 1990 para cá; li algumas graphic novels.
 
O filme recente de Matt Reeves tem suas ênfases neste ou naquele aspecto da lenda ou do lore do personagem. É o que se espera de cada nova abordagem. Uma coisa que ele mantém, em relação aos filmes recentes de Christopher Nolan, é o aspecto trevoso, a pirotecnia nas perseguições e nas catástrofes, o impacto sonoro das porradas.
 
E isto é o que acaba fazendo emergir em mim uma lembrança difusa de infância, de quando eu lia alternadamente gibis do Batman e do Superman, e raciocinava que Superman não tinha o direito de dar socos de verdade nos bandidos, porque ele tem superpoderes, supermúsculos e supernós-dos-dedos, e poderia desintegrar o crânio de alguém; mas o Batman pode, porque ele não passa de um ser humano, fisicamente normal.
 
E não está no gibi o que o Batman soca, esmurra, cotovela, chuta e espanca nesses filmes. Não são só os filmes dele, é claro. Poderíamos até diagnosticar a existência de um gênero chamado “Testosterona Thrillers”, onde história, tema e personagens são irrelevantes, por serem meros pretextos para tiroteios, explosões, perseguições de carro... e socos, muitos socos. Como bate esse pessoal.
 
“Bater era um prazer. Havia um prazer especial em sentir as coisas se partindo, em sentir as coisas afundando-se e cedendo. Com o soco-inglês metálico encaixado nas falanges, com os poderosos músculos contraídos no braço que parecia uma jibóia, o sangue latejando nas têmporas, as mãos dele eram como dois aríetes poderosos esboroando, rachando, botando abaixo as muralhas obtusas da História.” 
 
Há todo um Fahrenheit 451 a ser escrito sobre esse prazer profano dos homens jovens (principalmente), um prazer mais legalizado do que o de queimar.


Bater é um descarrego físico que cumpre alguma função terapêutica inconsciente. Muitos homens deveriam ter em casa um daqueles sacos de areia dos boxeadores, pendurados no teto, para poderem descarregar suas raivas e voltar a si. A criminalidade cairia. É um impulso primitivo, como o de cravar dentes ferozes num naco de picanha ensanguentada.
 
Uma vez um cara me disse: “Estou com vontade de aprender a tocar bateria.”  Eu disse: “Acho uma boa idéia, desde que você entenda que a bateria é um instrumento musical, e não um veículo para descarregar as frustrações da vida.” Ele disse: “O que eu quero é descarregar as frustrações da vida.” Tenho o direito de dizer que ele estava errado?...
 
“Bateria” é um nome curioso de instrumento, porque vem do verbo bater; no caso, espancar com bastões. Tocar tambores cumpre uma função parecida com a de esmurrar sacos de areia acolchoados. Cumpre uma função parecida com a daqueles estabelecimentos suíços onde o sujeito entrava, pagava algo como dez dólares, e podia ficar meia hora lá dentro, por entre milhares de pratos e utensílios de louça barata, arrebentando o que bem entendesse.
 
Alguém vai ponderar que a maioria das pessoas não sente esse impulso, e eu concordo, mas acho que um dos problemas do mundo está nas pessoas que o sentem.
 
Tudo isto parece estar na raiz do visível tormento existencial do Bruce Wayne interpretado neste filme por Robert Pattinson. Diferentemente da empáfia autossuficiente do Bruce Wayne de, por exemplo, Christian Bale, Pattinson evoca (o diretor-roteirista o confirma) o sofrimento passivo de um Kurt Cobain do “Nirvana”, um indivíduo arredio, introvertido, dono de um poder que não controla e de uma inteligência que não consegue apaziguar.
 
Este Bruce Wayne é um guerreiro gótico com vibe de emo, um personagem tragicamente híbrido. Uma mente criptográfica, introspectiva, hospedada a contragosto num corpo que quer inflar-se, quer explodir, quer pilotar a 300 km por hora, quer voar, quer bater, bater.
 
Quando ele está de terno ou de roupas comuns, parece magro. Tem aquela aparência insalubre de quem não vê o sol há séculos, é um tipinho nosferal, caligaresco. Em alguns momentos, quando as mechas rebeldes de cabelo escuro lhe caíam sobre a testa larga, imaginei estar vendo na tela John Cazale, aquele emblema da neurose humana.



Quando ele enverga a armadura de Batman... Aí sim, ele é só músculos, triunfal como um The Rock, maciço como um Everest, rápido como uma Lucas-ship fazendo manobras em "V" no vácuo. Um Mr. Hyde desabrochando em plena maldade, finalmente livre, sentindo-se, como diz a canção de Caetano Veloso, “feliz e mau como um pau duro”. Do Bruce Wayne agora escravizado restam sob a máscara apenas os olhos, dois botões de angústia, e a boca lacônica e crispada.  
 
O desespero de Wayne é perceber que sua atividade de “vigilante” gerou um copycat como o Charada, um imitador psicótico que, como todo psicótico, interpreta seu ídolo como uma versão não-censurada de si mesmo.
 
Quem combate a violência com violência gera um loop do qual não se foge. Ele tenta fugir quando, por pelo menos duas vezes, no filme, evita que a Mulher Gato mate um vilão. Quando os dois estão juntos, ela o chama de “bat boy”, trocadilho com “bad boy” que a legenda traduz como “morcegão”. (Talvez uma alternativa fosse: “É você de novo, amorcego?...”)
 
O Wayne de Reeve/Pattinson ganha um pouco daquela aura de herói trágico que tem o Paul Atreides de Duna (refiro-me ao livro original de Frank Herbert). O herói a contragosto, um dom-sebastião messiânico que se sente desconfortável na missão que lhe cobram, o jagunço-sniper que não quer ser chefe do bando... O cara de boa índole que aceita liderar uma guerra por temer que talvez ponham no lugar dele alguém que não tem os seus escrúpulos, os seus valores, o seu equilíbrio... E lá vai ele, o pacifista frustrado, começar mais uma guerra.
 
Não é muito diferente do drama de T. E. Lawrence, o da Arábia, que a certa altura das guerras no Saara tem que matar alguns inimigos... e descobre, horrorizado, que gostou.


(T. E. Lawrence)

Todos esses indivíduos experimentam em si (porque são, teoricamente, personagens com uma inteligência e uma sensibilidade superior à média) essa contradição entre primitivismo e civilização, ou entre os prazeres puros e não-censurados do primitivismo... e o mal-estar da civilização.
 
Bater, bater, bater... Uma vez primitivos, primitivos até morrer. O ser humano não é um fantasma dentro de uma máquina, é um vidente montado num tigre.
 
O Homem Que Bate, mesmo quando se ilude com o discurso de que está castigando malfeitores ou defendendo a ideologia correta, não consegue ocultar de si mesmo (e muito menos das câmeras de cinema, essas deusas mitológicas que tudo veem e tudo revelam) o prazer que sente ao esmigalhar cartilagens.
 
Qual a solução? Ninguém sabe. Mas vale lembrar que o verbo bater em inglês pode ser “to beat”, no que se aplica surras, socos, etc.; mas que a palavra “beat” pode significar “batida” no sentido musical. Pancada, mas pancada rítmica. Bateria, mas bateria de tambores.
 
E que o verbo imperativo “beat it” significa “cai fora, sai dessa, te manda”.
 
https://www.youtube.com/watch?v=oRdxUFDoQe0
 
Beat It (1983), um videoclip famoso de Michael Jackson (escrito e dirigido por Bob Giraldi), mostra Jackson interferindo numa briga de gangs e pondo os brigões para dançar.
 
Nem todas as formas de violência podem ser sublimadas em música, mas algumas podem. Nada impede que alguém faça um spin-off da saga de Gotham City e introduza um novo personagem, The Beatman. 



 







sexta-feira, 30 de abril de 2010

1977) Michael Jackson (10.7.2009)



Me deixem correr aqui o restinho de tinta que sobrou para falar desse personagem. MJ surgiu para mim como um neguinho de cabelo bombril, cantando, no Jackson Five, uma açucarada canção de amor, “Ben”, que fez sucesso enorme nos anos 1970 e foi sua primeira música a atingir o #1 da “Billboard”. O que ninguém sabe é quem era Ben. Não, não era um menininho impúbere. Ben era um rato inteligente. Ele se comunicava meio telepaticamente com Willard, um garoto esquisitão cuja mãe viúva era maltratada pelo dono da casa onde viviam, a tal ponto que o garoto e o rato, agora comandando um exército deles, desencadeiam uma horripilante vingança sobre o vilão, interpretado por Ernest Borgnine.

Willard (1971), dirigido por Daniel Mann, foi um sucesso de bilheteria tão estrondoso que logo veio uma continuação, Ben (1972), dirigido por Phil Karlson. Este segundo filme lançou a canção interpretada por Jackson (composta por Walter Scharf e Don Black). Vejam só: um menino antissocial e vingativo, cujo melhor amigo (ousarei dizer “cujo único amor”?) é um rato assassino, a quem ele dedica essa canção... Fico imaginando as dezenas de vezes em que Jackson, com 14 anos, viu e reviu os filmes que lhe deram seu primeiro grande sucesso, e as cenas em que os ratos, comandados por Willard & Ben, devoravam vivo o adulto cruel que os perseguia.

A vida de Jackson foi uma mistura de tudo isso: filme B de terror, palco de megashow, barraco-de-família-pobre. Ele era frágil, temperamental e histérico, como aqueles “castrati” de ópera do século 18, produzidos pela indústria do sucesso a qualquer custo. Virou um perverso polimorfo, que menos explorou do que foi explorado. Era tão pouco pedófilo quanto Lewis Carroll.

Sentia-se um Deus e um Monstro. A imprensa diz que ele comprou o esqueleto de J. Merrick, o “Homem Elefante”, por um milhão de dólares. Jackson negava, mas dizia: “Eu gosto da história do Homem Elefante. Ele parece muito comigo, e eu consigo entendê-lo. Essa história me fez chorar, porque eu me vi refletido nela, mas não, nunca tentei comprar nada... Onde iria pôr aqueles ossos? E para quê iria querer ossos?”.

Jackson tentou fazer em seu próprio rosto aquele “morph” que transformava umas pessoas em outras no seu clip “Black and White”. Foi um dos primeiros a tentar manipular a própria carne e o próprio osso como se fossem pixels, grãos de luz digital. Devia considerar sua imagem mais real do que seu corpo. Era um ser artificial num corpo biológico, algo que os EUA têm produzido em série, como seu contemporâneo Ronald Reagan, um canastrão obtuso que exerceu a Presidência dos EUA como se interpretasse um papel a mais em mais um filme, decorando textos e obedecendo instruções da equipe. Jackson fazia o mesmo, só que era um menino violentado, ressentido, afetado e talentoso, capaz de se apaixonar por um rato. Parecia-se mais com sua estátua no Museu de Cera de Madame Tussaud do que com uma pessoa.

domingo, 18 de janeiro de 2009

0761) A fábrica de chocolate (26.8.2005)




Não gostei tanto quanto esperava de A Fantástica Fábrica de Chocolate, em cartaz na Paraíba. Acho que me acostumei a esperar sempre de Tim Burton aquela mistura típica de terror “light”, inventividade visual, comédia, e ritmo alucinado. Está quase tudo presente neste filme, mas o que faz falta é o ritmo alucinado. É o filme mais lento do diretor, muito distante da narrativa febril de Beetlejuice, das surpresas incessantes de A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça. E é uma lentidão que não parece opção narrativa, e sim um desacordo de tom entre roteiro, direção e atores. Nas cenas em que a câmara e a montagem tomam as rédeas, o filme cresce. Quando as pessoas começam a interagir umas com as outras, o filme pára de acontecer.

Johnny Depp, um ator que admiro, parece estranhamente deslocado. Não gostei do modo como ele interpreta o personagem de Willy Wonka, o cientista amalucado que fabrica os melhores chocolates do mundo. Não posso comparar este filme com o anterior de 1971 (como Gene Wilder no papel principal), que não vi, nem com o livro de Roald Dahl, que nunca li. Mas fico com a impressão de mais um daqueles filmes em que toda a energia é despendida desenhando e construindo cenários, e fazendo coreografias digitais com imagens multiplicadas de um mesmo ator, e ninguém acha que valha a pena cuidar da parte “realista”.

Pelo menos quatro críticos acharam a caracterização de Johnny Depp uma citação direta a Michael Jackson (Ed Park no Village Voice, Roger Ebert no Chicago Sun Times, David Edelstein em Slate, e Peter Travers na Rolling Stone). O rosto emaciado e de cor artificial, o cabelo que parece uma peruca, os enormes óculos escuros, a voz aguda e infantilóide, tudo isto num sujeito que vive dentro de um paraíso açucarado de balas e doces, uma gigantesca isca para criancinhas... Se isto é coincidência, aquelas caracterizações de políticos que eu vejo no “Cassete & Planeta” também são.

O mais interessante é o aspecto ficcientífico dos cenários: as engrenagens que fabricam e empacotam os chocolates na abertura do filme, o teleportador que coloca uma barra de chocolate no lugar do monolito de 2001, o elevador de vidro que voa em todas as direções. Burton tem uma imaginação visual infatigável, e neste aspecto a Fábrica nada deve a Edward Mãos de Tesoura, Batman e outros filmes seus. O filme também tem marcas daquela leve crueldade física das histórias de Roald Dahl, que faz tanto sucesso entre as crianças. Elas adoram ver personagens antipáticos sendo sugados por máquinas, arremessados num triturador de lixo, encolhidos, esticados. Deve ser um processo terapêutico de exorcização do medo à dor física, e Tim Burton, ele próprio uma criança grande que mantém à tona esse sadismo (como o eram Lewis Carroll, Henfil, Jonathan Swift) mergulha de cabeça nesses ritos de brutalidade virtual. Burton e Dahl prometiam ser uma dupla ideal; se o presente filme fica devendo, quem sabe no próximo.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

0705) Michael Jackson é inocente (22.6.2005)



Na mesma semana em que Mike Tyson sofria um melancólico e humilhante nocaute em sua mais recente tentativa de retorno ao ringue, Michael Jackson foi absolvido da acusação de pedofilia. Fiquei tão surpreso com este resultado quanto a maioria das pessoas, mas me parece óbvio que Jackson é um cara de 46 anos com o intelecto e a sexualidade de um cara de dez. Não é um desses pedófilos frios e cruéis que se deleitam violando crianças: é uma criança ele próprio, encalhado num pequeno círculo de perversõezinhas de descoberta genital, mescladas com ternura infantil e narcisismo. Como diria Olavo Bilac, Jackson não é bom nem é mau: é triste e humano.

A absolvição, pelo que andei lendo na imprensa, se deu basicamente porque o promotor Thomas Sneddon foi com muita sede ao pote. Muitas das testemunhas da acusação acabaram dando depoimentos a favor de Jackson, às mãos do advogado de defesa Thomas Mesereau. E acima de tudo o garoto apontado como vítima e sua mãe foram vistos pelo júri como pessoas muito pouco confiáveis. A mãe, em especial, parece ter um longo histórico de tentativas de extorquir dinheiro de gente famosa. É uma tática muito comum no show-business e atividades parecidas: as pessoas conseguem acesso ao Famoso, paparicam, adulam, tornam-se íntimas, e daí a pouco aparecem grávidas, ou pegam uma briga e deflagram um processo por maus tratos, ou caem fora e escrevem um best-seller escandaloso revelando detalhes íntimos do Famoso. O mundo está cheio de gente que topa tudo por dinheiro.

Acontece que o promotor Sneddon pôs o carro adiante dos bois, na sua impaciência em condenar o cantor. Dele, disse Michael Walsh no saite “World Socialist”: “Na brutalidade demonstrada por Sneddon é possível ver em microcosmo todo o caráter da elite governante norte-americana: ignorante, irresponsável, rancorosa, perseguindo sem descanso qualquer pessoa que pareça encarnar a oposição ou a contracultura. Por que Jackson estava, de fato, sendo processado? Porque seu estilo de vida é diferente, e até bizarro; porque é visto como gay; e porque é negro”. Ocorreu o mesmo que no caso O. J. Simpson, um caso onde a condenação parecia certa, mas a polícia cometeu tantos absurdos na manipulação das provas materiais (na impaciência de condenar o Negro Famoso) que desmoralizou-se a si própria.

Jackson é um personagem trágico que parece criado numa parceria entre Shakespeare e Andy Warhol. Seu rosto de caveira, coberto por uma pele esticada e amarelecida, lembra o da múmia de Tutancamon, o faraó-menino. Emocionalmente arrasado, cheio de dívidas, isolado do mundo real por numa ilha-da-fantasia auto-imposta, parece rumar para uma decadência irremediável. Uma pena para quem o viu na época de “Beat it” ou “Billy Jean”. Sua absolvição neste processo foi uma simples trégua. Espero estar errado, mas acho que seus inimigos ainda o destruirão, e com munição fornecida por ele próprio.

quinta-feira, 27 de março de 2008

0307) Ariano e o rock (14.3.2004)




A imprensa paraibana andou batendo nos tapetes ultimamente, depois que Ariano Suassuna declarou que considerava Michael Jackson um débil mental. Ariano anda até se atualizando, porque a última vez que o ouvi proferir esse julgamento o débil mental era Elvis Presley. De uma hora para outra, mobilizou-se todo mundo para discutir uma falsa questão: quem é débil mental, Michael Jackson ou Ariano? É uma questão falsa, porque parte do princípio falso de que, entre dois artistas de posições estéticas inconciliáveis, um dos dois deve necessariamente estar certo e o outro deve ser um pateta.

Caso o leitor desta coluna nunca tenha percebido, sou um grande admirador da pessoa e da obra de Ariano Suassuna, mas Ariano tem lá as idéias dele e tenho eu cá as minhas. Ariano é um agitador cultural como há muito poucos no Brasil, e sabe explorar a vulnerabilidade da imprensa à frase de efeito, à declaração bombástica, ao paradoxo facilmente assimilável. Fiel a sua vocação quixotesca, Ariano investe de caneta em punho logo contra quem? – contra o mega-star do 100 milhões de discos, um moinho-de-vento que não está nem aí para o Brasil, quando mais para um dramaturgo nordestino que fala mal dos rebolados dele.

Não sou um grande fã de Michael Jackson. Era um excelente cantor e dançarino, acabou virando uma caricatura, um cabide de cacoetes. Jackson é menos importante como artista do que como sintoma, como demonstração cruel do que o show-business faz com quem mergulha nele de boca aberta e olhos fechados. Por outro lado, não creio que Ariano critique Jackson depois de ter escutado os discos, visto os clips, pesquisado a obra. Ariano não simpatiza com o show-business americano, como eu também não simpatizo. A diferença é que eu frequento e estudo o rock americano desde pequeno; sou da tribo e conheço os caboclos. Ariano tem outras prioridades. Respeito a opinião dele sobre rock como respeito a de Otto Maria Carpeaux sobre ficção científica (ele a chamava pejorativamente de “literatura de cordel”) e a de Edmund Wilson sobre literatura policial (“um desperdício de papel”). Mas quando eu quero saber o que é joio e o que é trigo no mundo do rock, não pergunto a Ariano: pergunto a Alex Madureira.

O Brasil que Ariano Suassuna visualiza e defende em sua vida-obra nasce do nosso Sertão ibérico, mouro, negro, dos folhetos de cordel, dos cantadores de viola, do circo, dos artistas populares, do messianismo religioso, um Brasil curiosamente próximo de Cervantes, de Rabelais, de Shakespeare. É uma parte essencial do Brasil em que eu, paraibano, acredito; mas não é a totalidade desse Brasil. Ariano diz, citando Machado de Assis, que existem o Brasil real e o Brasil oficial (sendo este último “burlesco e caricato”). O Brasil real, para mim, é maior e mais variado do que o Brasil de Ariano, mas, se tirarem o Brasil de Ariano de dentro dele, ele deixa de existir: vai se desunerar em ilhas de mero cosmopolitismo, de mera contemporaneidade.