Tenho boas lembranças de ler gibis do Batman em nossa antiga casa na Rua Miguel Couto. Mudamos dali em 1960, de modo que posso contar umas seis décadas de convivência com o Cruzado De Capuz. Li os gibis; assisti fartamente a série de TV com Adam West; voltei anos mais tarde pelas mãos de Frank Miller; vi alguns dos filmes (numerosos e desiguais) feitos dos anos 1990 para cá; li algumas graphic novels.
“Bater era um prazer. Havia um prazer especial em sentir as coisas se partindo, em sentir as coisas afundando-se e cedendo. Com o soco-inglês metálico encaixado nas falanges, com os poderosos músculos contraídos no braço que parecia uma jibóia, o sangue latejando nas têmporas, as mãos dele eram como dois aríetes poderosos esboroando, rachando, botando abaixo as muralhas obtusas da História.”
Há todo um Fahrenheit 451 a ser escrito sobre esse prazer profano dos homens jovens (principalmente), um prazer mais legalizado do que o de queimar.
Todos esses indivíduos experimentam em si (porque são,
teoricamente, personagens com uma inteligência e uma sensibilidade superior à
média) essa contradição entre primitivismo e civilização, ou entre os prazeres
puros e não-censurados do primitivismo... e o mal-estar da civilização.
Bater, bater, bater... Uma vez primitivos, primitivos até
morrer. O ser humano não é um fantasma dentro de uma máquina, é um vidente
montado num tigre.
O Homem Que Bate, mesmo quando se ilude com o discurso de
que está castigando malfeitores ou defendendo a ideologia correta, não consegue ocultar de si mesmo (e muito menos das câmeras de cinema, essas
deusas mitológicas que tudo veem e tudo revelam) o prazer que sente ao esmigalhar
cartilagens.
Qual a solução? Ninguém sabe. Mas vale lembrar que o
verbo bater em inglês pode ser “to beat”, no que se aplica surras, socos, etc.;
mas que a palavra “beat” pode significar “batida” no sentido musical. Pancada,
mas pancada rítmica. Bateria, mas bateria de tambores.
E que o verbo imperativo “beat it” significa “cai fora,
sai dessa, te manda”.
https://www.youtube.com/watch?v=oRdxUFDoQe0
Beat It (1983),
um videoclip famoso de Michael Jackson (escrito e dirigido por Bob Giraldi),
mostra Jackson interferindo numa briga de gangs e pondo os brigões para dançar.
Nem todas as formas de violência podem ser sublimadas em
música, mas algumas podem. Nada impede que alguém faça um spin-off da saga de
Gotham City e introduza um novo personagem, The Beatman.







