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domingo, 31 de agosto de 2014

3592) A hipótese Tunguska (31.8.2014)



Foi um risco incendiário e chispante, que cruzou o céu noturno, explodiu em estilhaços de fagulhas amarelo-rubras no meio de uma floresta ou tundra nevada, e desde esse dia o mundo não foi mais o mesmo. Ninguém percebeu a princípio, porque a escala da propagação foi orçada por volta de um século. Pois bem. Já mais de um século se passou.



Até então o mundo era determinista, era o que um cientista chamaria de mecânico e newtoniano. A explosão que teve ali não era uma bomba de nêutrons, que mata os seres vivos e deixa a propriedade intacta, nem uma bomba radioativa, que fulmina venenosamente o corpo vivo. Era uma bomba probabilística.  Ia direto alterar o menu do possível. O mundo tornou-se probabilisticamente instável. Em termos macrocósmicos um nerd poderia dizer que era um patch para fazer um upgrade de dificuldade no universo.



A causalidade de tudo, que era só dividida por dois, em infinitos múltiplos pares, se viu estilhaçar em dízimas periódicas irresolvíveis, com mais dígitos do que existem quarks no universo físico. O mundo tornou-se um produto de causa-e-efeito não-simétrico, sabotando a simplicidade das tabelas periódicas. O software básico do mundo tornou-se errático, cheio de exceções, de numeradores primos, de denominadores infinitos.



O choque da semicolisão entre o artefato e a Terra foi se alastrando anos afora. Onze anos depois, Charles Fort publicava seu primeiro volume de anomalias, e Robert L. Ripley começava a colecionar o estranho, o bizarro, o inesperado. O que antes eram franjas da mais remota improbabilidade pareciam de repente tomar conta do mundo. Metaforicamente falando, as telhas estavam subindo sozinhas para o teto. Tudo que era improvável mas não cientificamente impossível começou a ser um lugar comum. Mundo mais instável.


A parafernália astronômica e cosmológica é para distrair os humanos da verdadeira natureza do Universo e da Terra (com os dados da Terra, a situação real). O Universo não está em expansão, e sim em contração. Como uma esfera cheia de gás, estreitando-se, comprimindo o frevo de movimentos brownianos das moléculas que a habitam. O polarizador de probabilidades está zunindo a mil por hora. Pós-Tunguska, o mundo ficou mais acelerado, o tempo mais rápido, os anos mais curtos. O auge do surrealismo, o surgimento da mecânica quântica, de Tesla, de James Joyce, uma procissão de sintomas, filosóficos ou estéticos, registrando esse mundo de probabilidades que se estilhaçam em infinitos. Ficou como uma HQ de Moebius. Nada é tão comum que não possa ficar extraordinário, e nada é tão improvável que não haja um fiapo de história onde ele faça sentido.


segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

0652) O estranho, o bizarro, o inesperado (21.4.2005)


(Charles Fort)

O que aconteceu no ano de 1919 para que ele se tornasse um “anno mirabilis” nos anais da História Secreta do Mundo? Se você não sabe que História é esta, caro leitor, fique tranqüilo, porque eu também não sei, mas tenho algumas pistas. A primeira delas é a existência, na Nova York daquela época, de um homenzinho atarracado, com um bigode frondoso que lhe dava a aparência de “uma foca tímida”, e óculos com aro de metal. Seu passatempo era freqüentar a Biblioteca Municipal e arquivar informações sobre fatos inacreditáveis que saíam em toda a imprensa: chuva de sapos, objetos voadores não identificados, anomalias magnéticas, meteoritos com inscrições, avistamentos de criaturas monstruosas...

O homem se chamava Charles Fort, e em 1919 publicou O Livro dos Danados, o primeiro de vários livros nos quais brandia estes fatos inclassificáveis e desafiava os cientistas a dar-lhes uma explicação convincente. Céticos empedernidos como Martin Gardner (Manias e Crendices em Nome da Ciência) descartam Fort como um mero colecionador de excentricidades, mas autores como Pauwels & Bergier (O despertar dos mágicos) o tratam como o profeta de uma nova mentalidade a que chamam de “Realismo Fantástico”.

Foi também em 1919 que um indivíduo chamado Robert L. Ripley deu início a uma das séries mais bem sucedidas na imprensa americana: Ripley’s Believe It or Not, coletânea semanal de curiosidades, coincidências espantosas, fatos bizarros da História, episódios inexplicáveis, recordes excêntricos. Conhecida no Brasil com o título Acredite... se Quiser, a série saiu dos jornais para os livros e a TV. A série antiga era apresentada pelo ator Jack Palance; a atual, apresentada por Dean Cain e Kelly Packard, é exibida aqui no Rio no Canal Multishow.

O mundo de Fort e de Ripley é o mundo das exceções, das anormalidades, de tudo que não está de acordo com os padrões estatísticos. A Ufologia e a Zoologia Fantástica (histórias de yetis, do monstro do Lago Ness, do Pé-Grande, etc.) não existiriam sem eles. É claro que num mercado tão gigantesco a picaretagem campeia: as fraudes, as falsificações, as invencionices, os logros para atrair a credulidade dos incautos. Mas nos interstícios dessa indústria da mentira vão se colhendo informações que de outra forma jamais chegariam ao conhecimento público. Pode ser uma perda de tempo, concordo, mas há maneiras mais bobas de perder o tempo do que olhando o que é noticiado nos saites do programa de Ripley (http://www.ripleys.com/welcome.html) ou da Sociedade Forteana (http://www.forteantimes.com/) ou ainda no saite de Sérgio Russo sobre Realismo Fantástico, com dezenas de links (http://www.dominiosfantasticos.hpg.ig.com.br/id21.htm). Mas se você é do time dos incrédulos, melhor ainda. O saite que passa-no-rodo essa história toda é o da revista Skeptical Inquirer (http://www.csicop.org/si/online.html).