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domingo, 22 de dezembro de 2024

5135) O orgulho do artesão (22.12.2024)



 
“Qual a diferença entre um artesão e um artista?”, pergunta uma piada antiga. E responde: “É que o artesão trabalha por dinheiro, e o artista trabalha por tesão.” 
 
Existe um prazer específico em produzir qualquer uma dessas coisas que chamamos de “obra de arte” – um livro, um filme, uma pintura, uma música... Mas esse mesmo prazer, ou algo equivalente a ele, pode ser obtido ao produzir objetos artesanais em série – bonecos de barro, de madeira, etc. 
 
Esse prazer não é exclusivo da arte, por certo. Um pedreiro tem prazer em contemplar uma parede perfeita, uma médica vê o resultado da cirurgia que fez e se orgulha, um “chef” vai às nuvens quando seu prato recebe um elogio especial... 
 
É um prazer que está ao alcance de muita gente, e por isso me surpreendo ao ver, de vez em quando, esse pedreiro, essa médica ou esse “chef” desdenharem a importância da obra de arte bem realizada. 




Uma das melhores narrativas sobre a criação artística é uma narrativa sobre culinária: A Festa de Babette (conto de Karen Blixen, ou “Isak Dinesen”, e filme de Gabriel Axel). Depois de oferecer um jantar extraordinário a um grupo de pessoas de gostos simples, Babette diz: “No mundo inteiro soa um grito que sai do coração de cada artista: Me deem a chance de fazer o melhor possível!...” 
 
Em outra obra, Contos de Inverno (Ed. 34, trad. Anna Olga de Barros Barreto), Karen Blixen amplia este exemplo, dizendo: 
 
“Vamos supor (...) que um fabricante de flautas faça uma flauta que nunca seja tocada por ninguém. Não seria uma vergonha e uma pena? Então, de repente, alguém pega e toca a flauta, e o fabricante ouve, e diz: “é a minha flauta”. (pág. 173)
 
O criador reconhece a sua criação (ou a sua criatura), porque ali existe algo de si próprio. A criação é ao mesmo tempo coletiva (é a ponta de uma longa linha de outras criações, que vem há gerações, há séculos) e individual, porque foi uma pessoa que, naquele exemplo específico, produziu algo de novo e pessoal numa linhagem de obras. 



Fazer bem feito, pouco importa o quê. Ítalo Calvino, com seu olho perceptivo para as contradições da vida, conta, na sua trilogia Nossos Antepassados
 
Em virtude de todos esses trágicos acontecimentos, o Mestre Pietrochiodo estava produzindo forcas cada vez mais engenhosas.Elas agora eram verdadeiras obras-primas de carpintaria e mecânica, assim como os cavaletes, os molinetes e outros instrumentos de tortura com os quais o Visconde Medrado extraía confissões dos prisioneiros. Eu ia com frequência à oficina de Pietrochiodo, porque era um bom espetáculo vê-lo a trabalhar com tanto afinco e entusiasmo. Mas pesava sempre uma tristeza no coração do velho carpinteiro. Os cadafalsos que ele produzia eram destinados a homens inocentes. “Como faço para conseguir encomendas de trabalhos assim, delicados, mas com outra função?! Que outros mecanismos poderiam me dar o mesmo prazer de construir?” Mas vendo que tais perguntas ficavam sem resposta, ele as afastava da mente e dedicava-se a construir seus instrumentos da maneira mais perfeita e engenhosa que podia.
 
-- Basta esquecer a finalidade a que se destinam – dizia-me, -- e olhar para eles como peças de mecanismo. Não são uma beleza?
 
Eu olhava para aquela arquitetura de traves, aquelas cordas entrecruzadas, cabrestantes conectados a roldanas, e tentava não ver corpos torturados presos àquilo, mas quando mais eu tentava mais me via pensando neles, e dizia a Pietrochiodo:
 
-- Como posso esquecer?
 
-- Pois é, meu rapaz – dizia ele. – Imagine eu.
 
(Italo Calvino: “The Cloven Viscount”, in Our Ancestors, Picador, trad. Archibald Colquhoun; pág. 22; edição original, 1951). (trad. BT)
 
Um orgulho contraditório, problemático, que me traz à lembrança o orgulho do protagonista da série Breaking Bad, Walter White, que se orgulha de produzir a metanfetamina mais pura e mais rigorosamente fabricada de todo o mercado das drogas do Novo México. 
 
“Fazer bem feito” é um critério que vai além da arte, mas tem tudo a ver com ela. Tem a ver também com o grau de humanização impregnado em qualquer matéria que tenha sido usada, modificada, trabalhada, desgastada pelo contato humano. 
 
Um livro muito lido, manuseado, meio amassado, cheio de frases sublinhadas e de anotações. Uma mesa de madeira exibindo círculos deixados por canecas de café e copos de bebida, riscos de facas, marcas de pancadas. Uma escada de pedra, desgastada por milhares de pés que por ali subiram ou desceram. 
 
São duas fases dessa relação amorosa entre a mão humana e os materiais da vida. A mão que pega o material bruto, sem forma, sem sentido, e lhe dá uma forma que pode ser para contemplação (uma escultura) ou para uso (uma cadeira), mas em todos os casos uma destinação que integra aquele material à vida humana. 
 
E, num segundo momento, a mão que usa, o corpo que usa e que desgasta o que outra mão criou. 



(Bertolt Brecht)

 
É o que fez Bertolt Brecht escrever, em “De Todas as Obras do Homem”:
 
De todas as obras do homem eu prefiro
as que têm marcas de uso.
As panelas de cobre com arranhões e bordas amassadas,
as facas e os garfos cujos cabos de madeira
foram desgastados por tantas mãos: formas assim
me parecem as mais nobres. Como as lajes em volta das casas antigas
pisadas por tantos pés, afundadas no solo,
e com tufos de grama brotando entre elas: sim,
essas são obras felizes. (...)



 
Primo Levi tem um livro inteiro dedicado ao ofício de produzir coisas materiais: A Chave Estrela (“La Chiave a Stella”, 1978). É uma série de capítulos quase independentes narrando sua convivência com Fausone, um operário que trabalha supervisionando (e pondo mãos à massa) a construção de pontes, viadutos, represas – obras em grande escala e que envolvem riscos de acidentes graves.
 
Em cada capítulo do livro Faussone conta para o narrador (um químico, que se presume ser o próprio Levi) algum trabalho complicado em que se meteu, os problemas que surgiram, as soluções encontradas, ou os prejuízos resultantes.
 
O amor ao próprio trabalho (infelizmente, o privilégio de uns poucos!) representa a melhor e mais concreta aproximação da felicidade na Terra. (...) Para exaltar o labor, nas cerimônias oficiais, emprega-se uma retórica insidiosa, baseada na noção de que uma louvação ou uma medalha custam menos do que um aumento de salário, e rendem mais frutos. Existe também uma retórica do extremo oposto, contudo, não propriamente cínica, mas profundamente estúpida, que tende a aviltar o trabalho, enxergando-o como algo inferior (...) como se alguém que sabe trabalhar fosse, por definição, um servo, e como se, ao contrário, alguém que não sabe executar um trabalho, ou sabe muito pouco, ou não quer aprender, fosse por essa razão um homem livre. (p. 79-80, trad. BT)
 
(The Wrench, Ed. Michael Joseph, London, 1987, trad. William Weaver)
 
O trabalho material é uma linguagem sem palavras capaz de conectar pessoas diferentes, de culturas e idiomas diferentes, de mundos diferentes. 
 
O roteirista Bo Goldman (Um Estranho no Ninho, A Rosa, Shoot the Moon, Perfume de Mulher, etc) diz que no começo de sua carreira profissional o melhor elogio que recebeu foi : “Bo, você sabe o que é uma coisa”. “You know what a thing is”. É uma maneira de dizer que o escritor nunca perde de vista o significado e a importância de tudo que temos à nossa volta. Tem um peso especial para quem escreve para o cinema – para quem é capaz de pensar em idéias universais, abstratas, e conseguir transmiti-las através de cenas onde elas se encarnam em coisas banais: um copo, um chinelo, um par de óculos. 
 
Quem sabe o que é uma coisa? Em princípio, quem é capaz de fabricar aquela coisa e disso extrair um certo prazer, um certo orgulho, uma realização profissional. E também quem é capaz de usar aquela coisa e reconhecer a quantidade de trabalho humano que foi necessário para produzi-la. 

 



quinta-feira, 30 de maio de 2024

5067) Leituras de 2024, parte 1 (30.5.2024)







Em geral faço no fim do ano estes pequenos balanços de minhas leituras, mas desta vez vou fazer diferente. Até porque quando chega dezembro tenho dificuldade para evocar detalhes de livros lidos nos primeiros meses... Enfim, vai ser desse jeito.
 
 
“Revenge (Eleven Dark Tales)” de Yoko Ogawa (trad. Stephen Snyder)

Esta autora japonesa, de quem já andei comentando outros livros, pratica aquele tipo de narrativa em que diferentes contos vão se sucedendo e volta e meia encontramos personagens e situações que reaparecem, ou são mencionados, dando-nos a revelação de que tudo aquilo está ligado, aquelas pessoas se conhecem, aquele fato extraordinário narrado num conto é mencionado em duas linhas por um personagem de outro... Romance ou histórias interligadas? Eu chamo isso às vezes “romance de contos”, e na verdade é uma estrutura narrativa antiquíssima, que tem sido remodelada em tempos recentes. As histórias de Ogawa envolvem um homem que é curador de um Museu da Tortura, uma mulher cujo marido cultiva plantas venenosas, um homem que vive com um tigre de Bengala, uma mulher que cultiva cenouras em forma de mão humana... 
 




“Acordei esta manhã ouvindo uma velha canção dos Beatles” (Recife, Ed. Bagaço, 2016) de José Teles

Para quem não está ligando o nome à pessoa, José Teles é há décadas o crítico musical do Jornal do Commercio do Recife, além de autor de livros essenciais como Do Frevo ao Manguebeat, O Frevo rumo à Modernidade, O Malungo Chico e outros. Aqui, ele dá uma folga à música brasileira e mergulha na obra dos Beatles, uma obra cheia de frases mágicas, capazes de despertar centenas de associações memorialistas, afetivas, poéticas. São contos curtos, às vezes historinhas de amor, de choques do cotidiano, fatias da vida real. Aqui, as canções dos Beatles são (perdão pela metáfora tosca) a massa da pizza, e por cima dessa massa sólida e carregada de significado, Teles distribui seus pequenos encontros e desencontros de gente perdida que não se dá por achada e continua procurando. Cada conto tem o título de uma canção, mas muitas outras estão distribuídas e polvilhadas ao longo dos textos, fazendo um contraponto curioso com o que acontece e com o que os personagens pensam, decerto porque nós, que vivemos num mundo onde música é sinônimo de vida, estamos sempre escutando um radinho que toca em algum recanto do cérebro. O livro de Teles comprova uma tese de meu amigo Rômulo Azevedo: existe um Sonoplasta do Mundo, que está sempre vigiando nossa vida e fazendo com que algum radinho-de-pilha de bodega ou altofalante de praça toque a música certa no momento certo. E é apenas uma canção do Norte.
 




“A devoração da sutileza” de Juliana Berlim (São Paulo, Patuá, 2023)

Esta é uma coletânea de contos – e de mini-contos, um gênero que eu pratico de vez em quando, e que tem suas próprias espertezas (e armadilhas). O miniconto se assemelha mais à foto ou ao cartum, porque é o flash de um instante, seja real ou rememorado, como vemos em “A mão incendiada”, “Princeps”, “O deus e o gafanhoto”. Os contos propriamente narrativos mostram com segurança, sem recorrer a enredos mais complexos, episódios que ganham em desenvolvimento, como “Risoto” (um passeio pela memória enquanto a narradora está ao fogão), “Orlando” (a viúva de um general cuidando obsessivamente da casa sob sua guarda), “Dádiva” (um pneu furado no meio da noite fazendo um casal fugir correndo na escuridão), “Espelho” (conto fantástico em que um homem acha um nariz na rua), “Ela/Elegbara” (uma travessia de deserto, na África, conduzida por uma mulher). A autora mostra que pode ousar enredos mais extensos e mais complexos, em que sua imaginação se solte ainda mais. 
 




“Espectrais: contos sombrios na terra da luz” (Eusébio (CE), Ed. do Autor, 2023) de Stelio Torquato

Contos de assombração reunidos em “fix-up”, ou seja, há uma narrativa maior que reúne dentro de si as histórias individuais. No caso, o autor narra ter sido arrebatado pelo vento até uma região remota do interior do Ceará, onde vinte espectros lhe contaram casos acontecidos com eles, e que o autor passa a narrar. São histórias de maldições, botijas enterradas, violências castigadas pela fatalidade, contadas no tom de histórias sobrenaturais realmente acontecidas. Um aspecto interessante da narrativa oral (ou da narrativa escrita que busca reconstituir o universo da narrativa oral) é o fato de que contos isolados tendem a se perder, mas têm mais chance de se fixar quando são engastados numa estrutura maior, como acontece com As Mil e Uma Noites ou com o Decameron de Boccaccio. A “história de alma” ou “história de assombração” nordestina tem uma vitalidade imensa, embora gire também em torno de um certo número de formas básicas (como aliás acontece com a “ghost story” de língua inglesa). O livro de Stélio Torquato, ao criar uma “moldura” para seus contos, mesmo uma moldura claramente ficcional, adere a esse formato de origem oral, do “rosário de histórias”. 
 



“A última noite de José Wilker” de André Balaio (Nova Lima, Caos & Letras, 2023)

Esta coletânea traz alguns contos curtos e a noveleta que dá título ao livro. André Balaio tem narrativa clara e precisa, que se lê fluindo como uma crônica, e tem o pulo-do-gato do contista, que volta e meia joga na página uma surpresa ou um choque descontínuo, fazendo o leitor exclamar consigo: “Comequié?...” e acelerar a leitura. A noveleta conta a história improvável e meio absurdista de um fã do ator José Wilker que fica terrivelmente impressionado com a morte dele (por enfarte, em casa, depois de jantar num restaurante) e resolve encená-la pessoalmente, reconstituí-la. Morador do Recife, o fã parte para o Rio de Janeiro com a intenção de reviver a última noite de Wilker – arranjar uma namorada (porque não tem, e ainda menos no Rio), ir ao mesmo restaurante, depois voltar para casa (ou para o hotel, no seu caso)... É um projeto absurdista que lembra as monomanias de alguns personagens de Georges Perec ou Paul Auster. Faz paralelo com outro conto do livro (“O Arremate”) em que um alfaiate idoso convence o cliente jovem de que foi o autor do gol do título do Botafogo num campeonato carioca, embora tudo pareça desmenti-lo. É a vida imaginária de cada um: uma conta que nunca fecha. 
 



“Contos de Inverno”, de Karen Blixen

Eu já tinha este livro em inglês, resolvi reler agora na tradução elegante de Anna Olga de Barros Barreto (Ed. 34, 1993). Karen Blixen (“Isak Dinesen”, 1885-1962) é uma contadora de histórias à maneira clássica. Suas narrativas são sólidas, bem encadeadas, com começo-meio-e-fim, mas por cima dessa estrutura de pedra existe uma rica decoração de lambris e tapeçarias e forros e estuques e ornamentos. Ela passeia invisivelmente por entre os pensamentos dos personagens, o ambiente onde eles agem, lembranças históricas ou literárias com saborosas digressões ao passado – é uma literatura feita sem pressa, com carinho pelo detalhe, como aqueles quadros dos mestres holandeses. 
 
Contos de Inverno é todo bom e reencontrei aqui, com prazer renovado, histórias como “O Grumete” (talvez o único texto fantástico do livro), “Campo de Dor” (o castigo cruel de um fidalgo sobre um servo e sua mãe idosa), “Os Invencíveis Senhores de Escravos” (uma estação de águas para gente rica, em que algumas pessoas fingem que são ricas e outras fingem que são pobres, para poderem se aproximar socialmente), “O Peixe” (uma história medieval sobre destino e fatalidade, a partir de um anel encontrado no ventre de um peixe), “A Criança Sonhadora” (um casal sem filhos resolve adotar um menino que julga lembrar-se de ter sido filho deles)... Todos os contos são bons.
 




“Sobre o Amor e Outras Traições” de Carmen Moreno (São Paulo, Patuá, 2021)

Conheço a poesia de Carmen Moreno desde que aportei no Rio há algumas décadas, e participamos de muitos recitais e agitos. Este livro é uma coletânea, dividido em vários capítulos temáticos (“O Fim”, “Mudança de Pele”, “Incêndios”, etc.), em que a poesia é emotiva e confessional, mas mantida sob controle com uma notável firmeza, e a expressão, ao invés de se curvar à emoção inicial, usa-a como matéria para atingir outro plano de intensidade. “Ouvindo Nana e Nina – Nenhum amor me deixou. / Moradores de mim, / estes mortos me abrigam / no sótão do eterno. / A cada blue tinto de vinho / dançam boleros nas taças da noite, / e salvam do chão, solidários, / as ébrias sílabas dos meus versos. / Nenhum amor me deixou, não há solidão. / Esta dor não é minha... é da canção.” 
 
Os poemas refletem sobre amor, desamor, família, e refletem o período sombrio da quarentena e suas perdas, no capítulo “Mudança de Pele”: “Ninguém sabe do último abraço / ou a última chance de abraçar, / dizer, desdizer, serenar a língua / desalinhada. / O toque último dos dedos, / no apartar das mãos, / a sílaba final da última palavra, / no átimo do último olhar, / antes de o rosto virar, e o corpo, / por último, dobrar a esquina.”  Uma poesia cada vez mais amadurecida e burilada. 
 



 
“The Wrench” (1978) de Primo Levi (Londres, Michael Joseph, 1987, trad. William Weaver)

Este livro é também aquilo que chamamos às vezes de fix-up. Uma tradução possível seria “arrumadinho”, se este já não fosse o nome de um delicioso prato da culinária nordestina – várias coisas diferentes arrumadas juntinhas, mas separadas, numa mesma travessa ou prato comprido. Em literatura, um fix-up é um conjunto de histórias completas e curtas “amarradas” por um conceito, uma narrativa mais ampla que as coloca arrumadinhas no mesmo contexto. 
 
Primo Levi sugere aqui a convivência temporária entre o Narrador (um técnico em química que está a serviço numa obra de grandes proporções) e Faussone, que é um “rigger”, operário especializado na montagem de grandes estruturas. O livro é traduzido no Brasil como A Chave-Estrela, o título do original italiano (“La chiave a stella”). Faussone é um sujeito prático, pão-pão-queijo-queijo, conhecedor do ofício, um resolvedor de problemas. São cerca de quinze histórias em que Faussone relata ao Narrador algum projeto em que trabalhou e que por algum motivo deu problema. Desde problemas pequenos (um macaco que se infiltra no canteiro de obras e tenta “ajudar”) até uma ponte que não resiste a uma enxurrada e vem abaixo de maneira hollywoodiana. O interessante no modo de narrar de Levi é que há um diálogo permanente entre Faussone e o Narrador, e um subtexto que percorre o livro inteiro é “a arte e a ciência de contar histórias”, porque o Narrador comenta o tempo inteiro os modos e os recursos de narração escolhidos por Faussone, um homem inteligente, de leituras medianas, mas sem o menor traço de academicismo ou intelectualismo. Acho que poucos livros me comunicaram, tanto quanto este, a idéia de que o trabalho de engenharia pode ser curioso e emocionante. 
 
 





terça-feira, 9 de janeiro de 2024

5020) Algumas leituras de 2023 - 2 (9.1.2024)


(Algumas leituras do ano passado, alguns dos livros que achei marcantes por variados motivos; livros sem nenhuma ordem especial. Como sempre, incluo apenas livros que li do começo ao fim. )


Sombras na Relva (1960), de Karen Blixen (“Isak Dinesen”), trad. Maria Luiza Newlands (Ed. 34, 1992)
Estou dando-uma-geral na obra da escritora dinamarquesa cuja carreira tem um perfil único e invulgar. No ano passado, comentei a obra de estréia, que lhe deu fama, Sete Contos Góticos. Este ano li esta pequena coletânea de quatro textos memorialísticos, uma espécie de expansão de seu livro mais famoso, A Fazenda Africana. Blixen teve uma fazenda de café no Quênia, e é impressionante a visão dessa baronesa da Dinamarca andando de jipe, calçando botas, atirando em leões, contando histórias e, principalmente, convivendo com os quenianos de diversas nações. Principalmente os somalis, que ela descreve como “altivos e ingovernáveis”. No primeiro capítulo ela lembra do somali Farah, que foi uma espécie de mordomo em sua fazenda – um homem inescrutável, elegante, que falava inglês e francês, e administrava tudo com delicadeza e mão de ferro. Em “Barua Soldani” ela fala de uma carta que recebeu do rei da Dinamarca, e que depois de mostrá-la aos nativos estes começaram a atribuir poderes mágicos à folha de papel. Em “O Grande Gesto” ela comenta o esforço de cuidar da saúde dos “kikuyu”, que têm hábitos peculiares, e diz: “Cometi alguns erros muito graves, em que ainda hoje não consigo pensar sem consternação, mas estes aparentemente não abalaram meu prestígio; às vezes, acho que as pessoas gostavam mais de mim por eu não ser infalível. Essa peculiaridade dos africanos aparece em outros aspectos de suas relações com os europeus.” E em “Ecos das Colinas” ela reflete sobre os sonhos, e conta os longos anos de correspondência postal que manteve com seus ex-criados. Tudo que ela escreve vale a pena ler.





The Cement Garden (1978), de Ian McEwan
Há um sub-gênero do insólito que podia ser chamado ”Histórias de crianças ou pré-adolescentes que após a morte ou desaparecimento dos pais tenta continuar vivendo por conta própria, sem que o mundo perceba”. Muito longo este rótulo, então talvez caiba “Os Órfãos Independentes”. É o tema de A Menina no Fim da Rua (livro de Laird Koenig, filme de Nicolas Gessner), Todas as noites às 9 (livro de Julian Gloag, filme de Jack Clayton) e deste romance arrepiante de McEwan, que começa com a frase: “Eu não matei meu pai, mas às vezes tenho a impressão de que lhe dei um pouco de ajuda.” Jack, Sue e Julie são três adolescentes que após a morte do pai ficam cuidando da mãe doente e do irmão menor, Tom. São uma família isolada, sem amigos, que não se dá com os vizinhos. Julie, a mais velha, tem independência bastante para ir ao banco receber a pensão, fazer compras. Os três mais velhos vivem infernizando uns aos outros com brigas constantes e com jogos eróticos. A mãe morre, e agora a casa é deles.
McEwan é um escritor de enorme precisão narrativa, e coloca em cerca de 150 páginas uma história de sadismo infantil, fuga da realidade, estagnação social, naqueles bairros meio pobres onde não há vida comunitária, não há futuro, e as pessoas acabam inventando fantasias necrófilas para se distrair.




Pecúlio (2023), de Jorge Filó (Recife, Ed. do Autor)
No departamento da poesia popular, registro este livro onde Jorge Filó dá uma amostra da convergência tradicional, mas que não é visível a todo mundo, entre o repente e o cordel nordestino, por um lado, e formas tradicionais, como o soneto. Para muitos críticos literários, repente e soneto são antípodas, porque instintivamente pensamos no primeiro como uma poesia oral cultivada nos pés-de-parede do Sertão, e no segundo como uma poesia refinada cultivada nos cafés da Rua do Ouvidor. Ledo engano, como comprova a obra do sonetista maior do Pajeú, João Batista de Siqueira, “Cancão” (1912-1982). Em Pecúlio, Jorge Filó traz uma caixa sortida de investidas poéticas onde tem décima, soneto, sextilha, poema longo e curto, poema irreverente e poema filosófico. Este último gênero tem raízes visivelmente filogênicas, pois o autor, que já conquistou brilho próprio, é herdeiro da linhagem do mestre Manoel Filó, de São José do Egito. Portanto... sai do meio que lá vêm os Filós: “O repente acelera o pensamento / cada verso retrata um sentimento / que nenhum outro ser, por si, revela. / A não ser um poeta improvisando / as belezas do mundo vislumbrando / do batente que Deus tem na janela.” 


 
Cuentos (Llamadas Telefónicas, 1997; Putas asesinas, 2001; El gaucho insufrible, 2003), de Roberto Bolaño
Este ano dei cabo desta excelente coletânea de três livros de contos de Bolaño, pela Ed. Anagrama (Barcelona). Bolaño é um escritor de prosa enganosamente descomplicada, que nos leva a participar de uma história a princípio totalmente comum e previsível mas aos poucos tudo vai se distorcendo numa direção ou noutra, e logo estamos dentro do insólito. Não o sobrenatural (raro nos contos dele), mas num universo de gangsters, mulheres fatais, atrizes de cinema pornô, colecionadores, adolescentes carrancudos, escritores na pindaíba, acadêmicos emproados, gente que reconhecemos no primeiro parágrafo em que surgem, mas que nos surpreendem poucas linhas depois. 
Bolaño abre o livro com uma série de “Conselhos Sobre a Arte de Escrever Contos”, onde diz: “Nunca aborde os contos de um em um. Se alguém aborda os contos de um em um, honestamente, pode estar escrevendo o mesmo conto até o dia de sua morte. O melhor é escrever os contos de três em três, ou de cinco em cinco. Se se acha com energia suficiente, escreva-os de nove em nove, ou de quinze em quinze.”
Leia mais aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/04/4937-as-chamadas-telefonicas-de-roberto.html
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/10/4996-os-segmentos-de-estoria-de-roberto.html




O corpo e o caleidoscópio (2023), de Thays Albuquerque (Recife, Ed. Castanha Mecânica)
Uma narrativa que mistura memorialismo e imaginação, um desses relatos em que a gente encontra a cada passo um pequeno marco confirmatório batendo com as informações biográficas sobre quem escreveu; mas basta isso para cancelar todo o restante, cancelar toda a parte textual baseada em improvisos, lembranças recauchutadas, memórias fugidias, reinterpretações, invenções por descuido ou por deliberação? A narradora está pesquisando a história das ditaduras militares na América Latina: Chile, Argentina, Brasil... É quando chega no Brasil que a trava emperra, porque aqui é mais fácil saber do tempo da ditadura através de obras literárias do que de obras escolares: “em 70 eu ainda nem tinha nascido, minha mãe e meu pai tinham onze anos, em muitas das nossas conversas, eu perguntava sobre a ditadura. mainha diz que era muito pequena e não lembra de nada. durou até 85, duas décadas, você se tornou adulta durante a ditadura. como não consegue lembrar? ela me olha sem entender. não diz uma palavra”. Acho que existe toda uma literatura hoje em dia, de jovens com a idade dos meus filhos, perguntando isso, como quem diz: Tudo bem, mas me fala: pra baixo de qual tapete isto foi varrido? 



The case of Erle Stanley Gardner (1946), de Alva Johnston
Este ano pude ver pela primeira vez alguns episódios da famosa série de TV “Perry Mason”, onde o advogado-detetive é interpretado por Raymond Burr (o ator que faz o assassino em Janela Indiscreta de Hitchcock). A série é divertida, com episódios curtos de ritmo frenético para a época (1957-66). Isto me motivou a ler esta curta biografia do autor, que eu tinha há anos. Gardner era uma máquina de escrever. No seu rancho na Califórnia, ele mantinha secretárias para quem ditava seus romances palavra por palavra. No início da carreira (diz Johnston) ele escrevia um romance por semana. Depois que ficou rico, tirou o pé do acelerador e passou a produzir um romance por mês. Seus livros policiais repousam no seu extenso conhecimento de filigranas jurídicas e de casos reais improváveis, que ele usava como ponto de referência para imaginar crimes onde uma pessoa inocente é acusada, recorre a Perry Mason para salvá-la, e ele o faz, descobrindo durante o processo quem foi o verdadeiro criminoso. Já li uns 30 ou 40 romances dele. A fórmula nunca falhou. 




A febre (2023), de Marcelo Ferroni
Tzvetan Todorov dizia que uma narrativa é fantástica quando, durante e após a leitura, somos incapazes de decidir se tudo aquilo foi uma interferência do sobrenatural ou foi apenas (por exemplo) uma alucinação do personagem. Este romance de Marcelo Ferroni narra uma daquelas claustrofóbicas histórias que transcorrem quase totalmente durante uma noite de medo e sofrimento, uma noite que o personagem pensa que nunca vai acabar. É uma “longa jornada noite adentro” de dois irmãos rivais e hostis cuidando do pai senil, no apartamento em que este vive, repleto de recordações do seu tempo de homem poderoso durante a ditadura. Pense numa noite em que tudo dá errado, a ponto do protagonista, Marco, começar a imaginar que seres do além estão interferindo para vingar-se da família. Marcelo Ferroni (disclaimer: Marcelo é meu editor na Alfaguara, e graças a ele traduzi H. G. Wells e Raymond Chandler) já fez incursões bem sucedidas pelo romance policial (Das paredes, meu amor, os escravos nos contemplam, 2014) e pela ficção científica (As maiores novidades, 2021, uma curiosa história de viagem no tempo ambientada no mundo corporativo). Este novo livro é a narrativa de um pesadelo cruel que aflige gente cruel e gente fraca. 


 
Regarde les lumières, mon amour (2014), de Annie Ernaux
Fiquei gostando do estilo despojado de auto-ficção praticado pela ganhadora do Prêmio Nobel do ano retrasado. Este livrinho, em forma de diário, descreve sua experiências de frequentadora do supermercado Auchan. Os franceses são catalogadores e classificadores até a medula, sentem-se na obrigação de tudo classificar, tudo descrever, tudo interpretar. O livro de Annie Ernaux parece um olhar apolíneo e distanciado avaliando e julgando a experiência do consumo, a ética e a estética das gôndolas e dos caixas, a psicologia dos frequentadores. Entretanto, a certa altura ela começa a relacionar certas catástrofes ocorridas em Bangladesh, com milhares de mortos, e a empresa dona do supermercado.
Mais comentários aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/03/4919-o-supermercado-de-annie-ernaux.html




Contos Encantados do Brasil (2023), de Marco Haurélio
Marco Haurélio é neste momento um dos pesquisadores mais dedicados e mais confiáveis da nossa literatura oral. O fato de ser poeta e cordelista com obra própria (e muito pessoal) não interfere nessa atividade; antes o ajuda a perceber e preservar a riqueza de sonoridades, coloquialismos e variantes dialetais de que essa literatura é tão rica. Riqueza que às vezes se perde quando o estudioso e transcritor sente-se levado a traduzi-la para o linguajar do relato jornalístico ou para o do ensaio acadêmico, que muitas vezes tendem a ser pálidos e uniformes. Estes contos, colhidos em fontes primárias e cuidadosamente anotados, deverão agradar a leitores de Ítalo Calvino (Fábulas Italianas), Angela Carter (103 Contos de Fadas) e da obra inesgotável de Altimar Pimentel, Câmara Cascudo, Sílvio Romero e muitos outros. 



A Tabela Periódica (1975), de Primo Levi (Relume-Dumará, 1994, trad. Luiz Sérgio Henriques)
Primo Levi declarava repetidamente que não era cientista e que não era escritor: era um técnico com formação em química. Não chamo a isto modéstia, a qual no mais das vezes não passa de auto-defesa de um Ego vulnerável; chamo auto-conhecimento, que em geral é uma conquista cara e sofrida. Vi há pouco o filme A Trégua (Francesco Rosi, 1997) que narra como Levi (1919-1987) sobreviveu a Auschwitz, e reconstitui sua tortuosa volta a sua Ítaca natal, Turim, após o fim da guerra. A Tabela Periódica se detém em outros episódios de sua vida, com a precisão verbal de um escritor e a imaginação meticulosa de um cientista.
Leia mais:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/07/4966-tabela-periodica-de-primo-levi.html



Martina no Vale do Germânio (2023), de Eduardo Souza Lima
Vivo matutando sobre os caminhos até agora abertos pela ficção científica brasileira, e sobre as atitudes possíveis a um escritor brasileiro diante de um gênero dominado, quantitativa e qualitativamente, pelos autores de língua inglesa. (Spoiler: ainda não vejo solução.) Eduardo Souza Lima é crítico de cinema desde o tempo em que as barbas eram pretas, e neste seu romance de estreia adota o absurdismo fragmentário presente em outras obras nacionais recentes, com o Back in the URSS, de Fábio Fernandes. Um absurdismo com algo da sátira dos cineastas brasileiros que ao sucesso do seríssimo Tubarão respondiam com o escrachado Bacalhau. Ou o absurdismo com que os cineastas da Boca do Lixo paulistana canibalizavam cinema de Hollywood, cultura pop, marxismo de botequim, dramalhão latino-americano. Uma espécie de escracho reverente com que os artistas da indústria mais fraca homenageiam os da mais forte, enquanto lhes batem a carteira. Em suma: é uma ficção científica udigrudi. (Nem sei se o autor concordaria, mas eu sou como ele, não peço licença a ninguém.) 
 


Maria Amélia Mello (2023), de Marisa Midori Deaecto e Carolina Bednarek Sobral
Este perfil biográfico pertence à coleção “Editando o Editor”, da EdUsp, e traça o perfil da minha amiga e editora Maria Amélia Mello. Além do relato saboroso de suas leituras, estudos, viagens, idéias editoriais brilhantes, o livro coloca esta questão tão interessante do olhar feminino sobre a atividade editorial. Discussão que não se esgota. Na ficção científica, por exemplo, existe uma copiosa bibliografia de artigos e ensaios a respeito de John W. Campbell (1910-1971), um editor que formatou a “Golden Age” da FC com suas qualidades, mas também com suas limitações e seu conservadorismo. E pouco se escreve sobre uma editora como Judith Merrill (1923-1997) e sua esplêndida série de antologias anuais (de 1956 a 1968) onde ela, com total conhecimento de causa, misturava ficção científica, fantasia, poesia e literatura mainstream. Os caminhos são sempre abertos por pessoas, cada qual com uma visão única, irrepetível, preciosa.
Leia mais aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/05/4947-editando-editora-maria-amelia.html
 



quinta-feira, 27 de julho de 2023

4966) A tabela periódica de Primo Levi (27.7.2023)



 
Estou lendo A Tabela Periódica (1975) de Primo Levi, na ótima tradução de Luiz Sérgio Henriques (Ed. Relume Dumará, 1994). Levi é conhecido por obras em que contou sua passagem pelos campos de concentração nazistas, como Isto é um Homem? (1947). 
 
A Tabela Periódica não tem muito a ver com o gênero conhecido como “ficção científica”, mas é sempre mencionado quando se fala em “literatura baseada na Ciência”. E ele é exatamente isto, e brilhantemente isto. 
 
É um livro de memórias, em que o autor conta episódios variados de sua vida. Conta o que lhe aconteceu, reflete sobre o que conta. Inventa pouco (acredito eu). Mas tem o dom da escrita, o dom da contação de histórias, e curiosamente talvez o tenha por ser um cientista, não um literato. Tem a mente clara do cientista, a percepção-de-sutilezas do cientista, a disciplina organizadora do cientista, a consciência permanente dos limites de seu conhecimento – do cientista.
 
Levi é um químico, e adotou aqui uma curiosa “contrainte”. A história é narrada por ordem cronológica, e ele atribui a cada capítulo o nome de um elemento químico, o qual aparece ali ora como fator essencial, ora como metáfora, ora como detalhe secundário mas presente. Não há forçação de barra, não há trapaça. Eu acredito piamente que na vida de um químico os elementos aparecem de forma tão constante e tão variada que dificilmente se encontraria um episódio significativo em sua vida sem que houvesse a menção necessária a um deles. 




No primeiro capítulo, “Argônio”, Levi fala dos chamados gases chamados “nobres”, ou “inertes”, porque não se combinam com nenhum outro elemento e não interferem nas reações químicas. Ele usa essa metáfora para falar de seus antepassados, “inclinados à especulação desinteressada, ao discurso arguto, à discussão elegante, sofística e gratuita”. 
 
No capítulo dois, “Hidrogênio”, ele já está com dezesseis anos, e conta suas primeiras atividades de laboratório, bem desajeitadas, ao lado de um colega. Encerra o capítulo contando como uma experiência resultou numa pequena explosão, por sorte sem maior gravidade: 
 
A mim tremiam-se um pouco as pernas, sentia medo retrospectivo e, ao mesmo tempo, um orgulho tolo por haver confirmado uma hipótese e por haver desencadeado uma força da natureza. Então, era mesmo hidrogênio: o mesmo que queima no sol e nas estrelas e de cuja condensação, em eterno silêncio, se formam os universos. 
 
Todos descrevemos o mundo através de comparações, extraídas de um glossário de idéias e de situações que nos são familiares. No capítulo três, “Zinco”, Levi narra suas experiências com este metal, já na era fascista, e num laboratório burocrático e pedante. O zinco “não é um elemento que puxe muito pela imaginação, (...) é um metal aborrecido.”  O trabalho é tedioso, e Levi aproveita para fazer comparações químicas, ao descrever um diretor do laboratório: 
 
 Como todos aqueles que exercem funções vicárias, constituía um exemplar humano interessante: quero dizer, como aqueles que representam a Autoridade sem possuí-la em si mesmos, como, por exemplo, os sacristães, os guias de museu, os bedéis, os enfermeiros, os “assistentes” dos advogados e dos tabeliães, os representantes comerciais. Todos eles, em maior ou menor medida, tendem a transfundir a substância humana de seu Principal na própria figura, como ocorre com os cristais pseudomórficos.
 
O judeu Levi passa o período entreguerras dando dribles no governo fascista, adere brevemente à Resistência, é preso. A Tabela Periódica toca apenas de leve no seu período em Auschwitz, já dissecado com detalhes no seu livro de maior sucesso, Isto É Um Homem?.




Um dos capítulos mais amargos é “Vanádio”, no qual ele reencontra por acaso, via correspondência profissional, um alemão, seu ex-chefe na fábrica nazista de borracha em que foi forçado a trabalhar. Levi o reconhece pelo sobrenome e pela grafia peculiar de um termo químico. 
 
Começa uma troca de cartas entre os dois, agora ambos cidadãos livres. O ex-nazista lembra-se dele, sim. Reconhece sua parcela de culpa, alega que poderia ter se comportado de maneira muito pior; e Levi reflete: 
 
Quase simultaneamente me chegou em casa a carta que esperava, mas não era como a esperava. Não era uma carta modelo, paradigmática: neste ponto, se esta história fosse inventada, poderia referir somente dois tipos de carta: uma carta humilde, calorosa, cristã, de alemão redimido; ou então altiva, soberba, glacial, de nazista impenitente. Ora, esta história não é inventada, e a realidade é sempre mais complexa que a invenção: menos arrumada, mais áspera, menos arredondada. Raramente está contida num só plano. 
 
É um ponto de vista de cientista, mas também de escritor. De um homem capaz de ver o quanto a ficção romanesca, aparentemente tão libertária em termos de imaginação, obedece tanto a fórmulas quanto a fabricação de vernizes. E onde é sempre mais prudente fazer as coisas conforme se faz há cem anos e há cem anos que dá certo. 
 
Não que falte imaginação ao autor. Alguns capítulos são contos. “Chumbo” é a história de uma terra meio imaginária chamada Thiuda, e uma família de homens que sabem extrair o chumbo das pedras e ganhar dinheiro com seu comércio. “Mercúrio” conta de um capitão de navio semi-exilado com a esposa numa ilha quase deserta onde começam a chegar náufragos misteriosos, inclusive um pretendente a alquimista. Tensões e disputas levam a pequena população a arranjos inesperados, em virtude da descoberta de jazidas de mercúrio: 
 
Quanto a encontrar o mercúrio em estado bruto, não nos custava nada: na caverna, chapinhávamos no mercúrio, que nos gotejava na cabeça e nas costas, e ao voltar para casa tínhamos mercúrio nos bolsos, nas botas e até nas camas; subia-nos à cabeça um pouco a todos nós, tanto que começava a parecer-nos natural trocá-lo pelas mulheres. É verdadeiramente uma substância esquisita: é frio e fugidio, sempre inquieto, mas quando pára é possível nele espelhar-se melhor do que num espelho. Se o fazemos girar num recipiente, continua a girar por quase meia hora. Nele não somente flutua o crucifixo sacrílego de Hendrik, mas também as pedras e até o chumbo. O ouro, não: Maggie fez a experiência com seu anel, mas ele logo submergiu e, quando o repescamos, se fizera de estanho. Em suma, é uma matéria que não me agrada, e eu tinha pressa de concluir o assunto e livrar-me dele. 
 
Também parece ser um conto a pequena narrativa de suspense “Titânio”, sobre a madrugada insone do técnico que faz o possível para controlar uma caldeira prestes a explodir, experimentando este ou aquele procedimento, e sempre com a sensação de que a qualquer momento aquilo tudo voa pelos ares. 



O último capítulo, “Carbono”, é um clássico várias vezes antologizado: a história de um átomo de carbono, cuja importância ele resume com simplicidade: 
 
O carbono é um elemento singular: é o único que sabe ligar-se a si mesmo em longas cadeias estáveis sem grande dispêndio de energia, e para a vida na Terra (a única que até agora conhecemos) se necessita justamente de longas cadeias.
 
Levi passa a descrever toda a trajetória randômica desse átomo, ligando-se a isto e àquilo, passando milhares de anos num lugar, milhões em outro, transferindo-se da terra para um ser vivo e daí à terra novamente... Faz lembrar aquela imagem de Jorge Luís Borges de que ele talvez já tenha respirado um átomo de oxigênio que Shakespeare também respirou, visto que átomos não se desfazem com muita facilidade. 
 
Levi insiste em dizer que não é cientista, pois não completou estudos superiores. Considera-se um técnico (e ganhou a vida como diretor técnico de várias indústrias químicas), mas sua paixão pela ciência e sua honestidade intelectual aparecem em cada frase. Um dos aspectos curiosos do seu estilo é o seu modo criativo de usar a figura de linguagem chamada de “Falácia Patética”, e que consiste em atribuir emoções a seres inanimados, com o fito de emocionar o leitor. 
 
É um recursos que tende facilmente para o melodramático ou o piegas: “As estrelas surgiram timidamente no céu”, “a Natureza está chorando pela tua morte”, “adormeceu embalado pelas carícias amorosas da brisa”... Um antropomorfismo kitsch que Alain Robbe-Grillet demoliu em seu famoso ensaio Por Um Novo Romance (1963).
 
Levi atribui aos seus elementos químicos toda uma gama de desejos, preconceitos, simpatias, intenções. Faz isto com o didatismo de um professor que quer descrever com clareza para os alunos o processo das reações químicas, combinações, etc. E ao mesmo tempo o faz com autoridade de ficcionista, capaz de transformar qualquer coisa, até um átomo, num personagem cuja existência e cujo destino são capazes de nos interessar. 
 





segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

4908) O realismo e a imaginação (30.1.2023)

 

(Juan Gris, “The Open Book”, 1925)

 
Por que motivo a literatura de gênero (fantástico, policial, aventura, etc.) é vista como uma frivolidade de gente imatura, e a dita literatura realista seria (por esta mesma ótica) um privilégio dos adultos?
 
A questão parece bem formulada, mas seria possível empregar a mesma equação, com um enfoque diferente, e dizer: “Por que motivo a literatura de gênero é um prazer reservado às pessoas de mente jovem, e a dita literatura realista seria (por esta mesma ótica) um penoso estudo utilitário imposto aos adultos?”.
 
Tudo depende do modo de qualificar os elementos da pergunta. Mas por todo lado vigora o conceito difuso de que existem dois tipos de literatura – um que serve aos garotos, aos adolescentes, aos que só são capazes de absorver coisas simplórias, e outro que é mais elevado, ou mais profundo (o ângulo varia muito), e que é reservado aos adultos, que têm maior capacidade mental, maior cultura, maior envergadura moral para enfrentar os grandes problemas contidos nesses livros.
 
Uma experiência curiosa que tive por volta dos dez ou doze anos foi ao ler um dos meus primeiros livros de ficção científica de autor brasileiro, que foi A Desintegração da Morte, de Orígenes Lessa, uma coletânea de contos encabeçada pela noveleta-título, que aliás é a única história de FC em todo o volume.
 
Tenho hoje a primeira edição (Rio, Empresa Gráfica “O Cruzeiro”, 1948), com onze histórias no total; mas a que li naquela época foi uma versão reduzida (quatro contos apenas) publicada na saudosa “Coleção Futurâmica”, das Edições de Ouro, no início dos anos 1960.


O último conto deste volume, “Reencontro”, trata justamente do reencontro do narrador com um dos seus amigos de infância, um garoto chamado Julinho que no internato era conhecido como “o chorão”. Era bom atleta, inteligente, esperto, mas chorava com facilidade. Os dois se reencontram em São Paulo, como soldados, na Revolução Constitucionalista de 1932.
 
O narrador começa a lembrar os tempos de escola, e recorda um dia em que ele próprio tentou “fazer  bullying” com o colega (este termo não aparece no livro, é claro) para que chore, mas acaba desistindo, porque no fundo são amigos.
 
Tive remorso. Fingi não perceber, mudei bruscamente de interesse:
– É Sherlock Holmes?
Julinho hesitou, teve um olhar de náufrago pra o fascículo que trazia na mão.
– Não. É Nick Carter.
– É bom? É melhor do que o Sherlock?
Os olhos de Julinho se adoçaram. Confraternizamos naquele assunto inesperado. Ele já tinha lido todos os fascículos de Sherlock, já havia lido dez ou doze de Nick Carter. Mas ia acabar com aquela besteira de livro policial. Agora ia ler somente grandes escritores. Taunay, Alencar, Machado de Assis.
 
Fiquei com a crista baixa ao ler isto. Naquele tempo, era muito raro ver uma menção a Sherlock Holmes em livros alheios; mas essa referência era ao mesmo tempo simpática e desencorajadora. Por que livro policial seria “aquela besteira”? E digo isso sem partidarismo, porque naquela época eu tanto lia Conan Doyle quanto o volume dos “Contos Completos” de Machado, da Aguilar (o mesmo que tenho até hoje, todo surradinho e aconchegante).
 
Era irritante essa obrigação de chamar de “besteiras” aqueles livros de onde eu extraía tanta coisa: tanta situação nova, tanta paisagem estranha, tanto vocabulário, tanta informação prática, tantos traços reveladores da insondável psicologia dos adultos... Eu extraía isso tanto de Sherlock quanto de Machado, então por que motivo um dos dois era besteira e o outro não?!
 
Depois que fiquei velho dediquei-me a torcer o sentido dessas fórmulas questionáveis. E posso refazer aquele parágrafo inicial com outra formulação. 

A literatura de gênero (ou aquilo que em inglês se chama de “romance”) atrai o leitor jovem pela extensão e variedade dos assuntos que aborda, pagando por isto o preço de uma certa superficialidade. Mas ela apela ao senso de aventura, ao senso de deslumbramento diante do improvável (o sense of wonder), à curiosidade factual pela cultura-de-almanaque, à excitação dos perigos, mistérios, fugas e perseguições, e a todo um conjunto de experiências mentais que para esse leitor jovem, essa leitora jovem, estão entre as coisas mais importantes do mundo.
 
A literatura mainstream, realista, aquilo que em inglês se chama de “novel”, atrai o leitor adulto porque conta com uma certa atitude já definida diante do mundo. É o que os críticos chamam “a literatura burguesa”, não no sentido de uma literatura feita por gente rica, mas feita por gente que já assumiu uma posição definitiva diante do mundo, da vida, da sociedade. Gente que não tem mais interesse por idéias que não rendam resultados práticos em sua vida profissional e pessoal (familiar, sexual, financeira, etc.). O realismo tem, para esse leitor(a) uma função utilitária, aprofundadora: conhecer melhor as sutilezas da psicologia humana e da dinàmica da ascensão social. Mas, de preferência, nunca sugerir a existência de outros mundos, outros planos da realidade, outros planetas habitados, etc. etc. – outros jogos com outras regras.
 
Esta é uma simplificação extrema, como toda generalização; mas existe nela um irredutível grãozinho de verdade.


Curiosamente, no mesmo ano do conto de Orígenes Lessa, 1948, o grande T. S. Eliot emitia este juízo sobre a obra de seu conterrâneo Edgar Allan Poe:
 
Poe era dotado de um intelecto brilhante, isto não se pode negar; mas ele me parece o intelecto que tem uma pessoa jovem, altamente dotada, antes da puberdade. Sua vívida curiosidade assume formas que são os deleites típicos de uma mentalidade pré-adolescente: maravilhas da natureza, da mecânica, do sobrenatural, cifras e criptogramas, quebra-cabeças e labirintos, autômatos que jogam xadrez e voos delirantes de especulação. A variedade e o ardor da sua curiosidade nos deleitam e nos assombram, mas no final das contas a excentricidade e a falta de coerência dos seus interesses acabam nos fatigando.
(T. S. Eliot, citado em Poe Poe Poe Poe Poe Poe Poe, Daniel Hoffmann, Anchor Press, 1973, trad. BT)
 
Podem achar uma avaliação antipática, mas tudo que Eliot diz me parece bastante justo. Poe não é somente isto – mas é tudo isto, e o detalhe revelador está na frase final: o sisudo e circunspecto Eliot acaba se fatigando com a imaginação desenfreada e mórbida de outro. Eliot foi um poeta e um intelectual condenado à vida adulta, à vida burguesa, à gravata e ao cachimbo. Era norte-americano e virou inglês, era Unitário e tornou-se Anglicano; teve uma carreira pública e literária totalmente distinta da que teve Poe. (Quanto a este, talvez tenha sido um adolescente até morrer aos 40 anos, com sua fascinação pelo jogo, suas bebedeiras, suas paixões um tanto escandalosas.)
 
A literatura de gênero é extensa mas superficial; o romance mainstream é limitado mas profundo. O leitor “jovem” gosta de tentar uma grande quantidade de experiências e vivências através da literatura; o leitor “adulto” quer se concentrar nos aspectos sociais e psicológicos que podem ter um reflexo prático na sua vida já estabelecida, já focada num único caminho.
 
Tudo isto são regras fervilhantes de exceções, é claro, mas mesmo não que não sejam verdades estatísticas devem coresponder a arquétipos que flutuam, pairam, esvoaçam pelas nossas vidas, e nos identificamos ora com um, ora com o outro.



Para encerrar, uma bela imagem de Primo Levi em A Tabela Periódica (1975; Relume Dumará, 1994, trad. Luiz Sergio Henriques), no conto “Chumbo”:
 
Eu estava entusiasmado com a colaboração e veio-me à cabeça fazer espelhos até com as calotas do vidro soprado, vertendo-lhes o chumbo por dentro ou espargindo-o por fora: olhando-nos nesses espelhos, vemo-nos muito grandes ou muito pequenos, ou ainda inteiramente deformados; esses espelhos não agradam às mulheres mas todas as crianças querem comprá-los.
 
As mulheres (=os adultos) querem certezas e confirmações a respeito de uma Realidade dentro da qual labutam e pela qual se sentem parcialmente responsáveis. As crianças querem o improvável, o diferente, o estranho, o bizarro, o inesperado, porque para elas o mundo está começando e as possibilidades, como sempre, são infinitas.
 
Por mim, ficaria com este depoimento sincero de Fernando Pessoa, um temperamento que via na literatura uma forma de vida e não um tema de estudo:
 
Todo o livro que leio, seja de prosa ou de verso, de pensamento ou de emoção, seja um estudo sobre a quarta dimensão ou um romance policial, é, no momento em que o leio, a única coisa que tenho lido.  Todos eles têm uma suprema importância que passa no dia seguinte.
(Fernando Pessoa, O Eu Profundo)


(Fernando Pessoa, por Rui Pimentel)