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terça-feira, 3 de março de 2026

5224) O Flamengo está bêbado (3.3.2026)




O dinheiro é talvez a mais perigosa das drogas, porque não tem sintomas aparentes. O indivíduo bêbado-de-dinheiro parece normal, mas está sujeito, ou mais que isto, está condenado a praticar todo tipo de insensatez. 
 
O dinheiro produz sensações combinadas de invulnerabilidade, de impunidade, de onipotência, de estar-com-a-razão. Produz até mesmo a ilusão de ser amado, pela quantidade de gente sorridente que atrai. 
 
Já fiquei bêbado algumas vezes, mas, mais do que isso, já pastorei muito bêbo chato. Aquele amigo que se embebeda e não quer ir para casa, quer tomar a saideira, nem que seja na lata de lixo onde acabou de vomitar. 
 
Uma vez era um amigo que tinha acabado de assinar um contrato absurdamente desproporcional com sua vida financeira até então, e recebeu umas “luvas” astronômicas. Pegou o telefone, convocou todo mundo, patrocinou uma mesa de vinte pessoas num restaurante cujo nome não vem ao caso, insistiu em trazer três litros de uísque para uma mesa em que todo mundo só queria chope. (Era verão carioca. Verão é outra droga embriagadora, merece um capítulo à parte.) 



 
Ele não permitiu que ninguém puxasse a carteira. A noite desceu pelo ralo, todo mundo foi embora e fiquei eu, de olho nele, visto que morávamos no mesmo bairro e nenhum dos dois tinha carro, então sobrou pra mim. 
 
Um garçom, já à paisana, nos conduziu amável mas firmemente à porta; saímos para a rua nos primeiros rubores da aurora. Meu amigo cambaleou, abriu os braços para o mar, para a possibilidade do sol, eu com a mão no ombro dele para navegá-lo. Paramos num dogão da madruga. Ele apontou: 
 
-- Eu adoro essas coisas. Já teve noite que eu queria comer um desse e não podia pagar. 
 
-- Eu também – concordei, e era verdade. – Mas a gente acabou de comer uma bacalhoada. 
 
-- Dois, completos! – berrou ele, de dedo em riste, para a moça de olhos redondos e sonolentos. – Com tudo que tiver direito! Milho, maionese, ervilha, bacon, coentro... Tem coentro? 
 
-- Eu não quero – avisei. – E você não precisa. Olha, lá vem um táxi. Bora pegar esse. 
 
-- Pra viagem! – insistiu ele. – Come amanhã. 
 
Perdemos três táxis que passaram devagar, se oferecendo, até que recebemos os dois pacotes (nessas horas, concordar é mais simples). Ele puxou do bolso uma nota de cem reais, botou no balcão. 
 
-- Senhor, o seu troco. 
 
-- Não precisa! 
 
Semana passada, muitos anos depois, estávamos eu e ele na calçada de outro boteco, conversando abobrinhas, chorando pitangas, desdenhando as uvas verdes do sucesso alheio, e eu lembrei esse episódio. Ele passou a mão pelo cabelo agora branco, e disse: 
 
-- Rapaz, aquele foi um período muito maluco. Eu vi tanto dinheiro que pensei que estava vendo o dobro. 
 
Mudamos de assunto. Águas passadas. Sobrevivemos, não é verdade? Estamos aqui. Vamos pedir mais um chope e ficar de olho na pilhazinha de cartões. Vamos descontrair, vamos falar de futebol. 




Vamos falar do Flamengo, e seus 144 milhões de reais para contar com o ponta-esquerda Samuel Lino, e seus 58 milhões de reais pelo lateral-direito Emerson Royal, e seus 263 milhões de reais pelo meia-atacante Lucas Paquetá. 
 
(Não venham me corrigir as cifras, peguei no Google, e os valores são meramente ilustrativos.) 
 
Existe uma enorme semelhança entre o futebol e as altas finanças. São dois universos que se fundamentam na competição: as chances são poucas, os concorrentes muitos. Tudo é concorrência, é disputa, é antagonismo, tudo são desfechos onde alguém vai ganhar e alguém vai perder. E quem decide isso é o deus que preside esse dois universos: o Número. 
 
O futebol (os esportes, por extensão) se baseia no Número. É bem verdade que mil interpretações subjetivas podem ser aplicadas a um confronto, flutuação de critérios, sutilezas qualitativas, o escambau. Mas um a zero é um a zero, sete a um é sete a um. No mundo mental e emocional dessas pessoas, o Número é a última e definitiva instância que determina a realidade dos fatos, a direção da História. Os números são estes. Eu ganhei. Você perdeu. 
 
Eu ganhei mais vezes, eu perdi menos vezes, minha percentagem é maior, minha margem de erro é menor, minha média está subindo. Eu e você queríamos comprar algo, você ofereceu 5, eu ofereci 6 e levei. Eu sou o primeiro desta lista. Eu consegui isto mais vezes do que qualquer um. 
 
E nada disto é “opinião”: tudo é Número, a única coisa indiscutível do universo. 



 
O Brasil tem cerca de 300 bilionários. Vinte anos atrás, eram dois ou três. Não é exagero dizer que metade desses indivíduos vivem mais transtornados do que um inquilino da cracolândia. 
 
E milionários? São (é o que me traz a pesquisa de dois cliques) 572 mil no país, e entre estes pode incluir jogadores dos grandes times do mundo. Adivinhem quem está entre os grandes times do mundo. 
 
Não nos enganemos, quem manda no mundo é o conceito de Número, muito mais do que o conceito de Deus, que aceita diferentes versões, ou o de Democracia, que aparentemente ninguém leva a sério. 
 
O futebol é o universo dos empurrões, cabeçadas, quedas, cotoveladas, dribles, matadas no peito, embaixadinhas, folhas secas, lençóis, bola na trave, bola na bochecha da rede, gol de placa, chute na orelha da bola, cama-de-gato, corta-luz, drible da vaca... Mas tudo isto em função de um número. 
 
As altas finanças são compostas de ativos, passivos, debêntures, papéis da dívida, ações preferenciais, mercados futuros, helicópteros, jatinhos, carpetes, limos, charutos... Mas tudo isto, também, em função dos números. 
 
E a sensação numérica da fortuna financeira é mais grave do que “café espresso” ou outras drogas excitantes. 



 
Num dos seus contos de Dublinenses (1914), “Depois da Corrida”, James Joyce diagnosticava: “O deslocamento muito rápido pelo espaço nos deixa inebriados; o mesmo se dá com a fama; o mesmo se dá com a posse de dinheiro”. 
 
Joyce se referia às corridas de automóveis do começo do século passado. No conto, um rapaz irlandês, classe mediazinha, aficionado das corridas, faz uma farra-de-amanhecer-o-dia junto com amigos bem mais ricos do que ele, todos eles europeus do continente. Acaba torrando um dinheiro que não tem. 

Eu estava finalizando este artigo na madrugada de ontem para hoje, enlevado pela goleada de 8x0 que o Flamengo aplicou no time-com-10-homens do Madureira. Faltou a James Joyce completar: “Uma grande quantidade de gols nos deixa inebriados”. 
 
E nesse momento pipocaram nas redes sociais as notícias da demissão do técnico Filipe Luís e eu achei que não precisava dizer mais nada. Deixa o pessoal se divertir, antes que venha a ressaca. 









quarta-feira, 28 de maio de 2025

5181) Al Pacino, o ator e o improviso (28.5.2025)



 
Um programa que eu não perdia no antigo Canal Multishow (ou seria no antigo GNT?) era Inside the Actor’s Studio, aquele talk show comandado por James Lipton. Um papo sobre cinema e teatro, com atores, atrizes, diretores, etc., num palco, diante de uma platéia cheia de estudantes de teatro. 
 
Os melhores conselhos do teatro são os que a gente pode aplicar na literatura, assim como os melhores da pintura são os que a gente pode aplicar no cinema, e assim por diante. Isto não é uma verdade científica, é claro. É apenas uma frase-de-efeito para sugerir que a mão da gente pode até estar tocando numa árvore, mas é obrigação do olho enxergar a floresta. 
 
Al Pacino, entrevistado por Lipton (o programa hoje está no YouTube, com legendas em inglês que o algoritmo improvisa na hora), lembra seus primeiros trabalhos juvenis sob a direção de Lee Strasberg, um dos criadores do Actor's Studio.

É interessante lembrar que Strasberg aparece no Poderoso Chefão 2, encanecido, comedido, exato.



(Lee Strasberg e Al Pacino, O Poderoso Chefão 2)

 
E ele recorda alguns conselhos que recebeu do mestre.
 
PACINO – Ele me ensinou também uma coisa que nem sempre eu me lembro de por em prática... e que eu considero algo valioso, e que eu esqueço, às vezes... e eu gostaria que ele estivesse por perto para me lembrar. Ele dizia: “Às vezes, não vá o mais longe que pode.” 
 
LIPTON – Fique firme em você mesmo. 
 
PACINO (concordando) – Fique firme em você mesmo. Exatamente. 
 
O que significa esse “não vá o mais longe que pode”? Pode ser uma porção de coisas, mas no momento o que me vem à cabeça é algo como: “Não passe do ponto”. Ser criativo é ótimo, mas tem um ponto, e não passe do ponto. Ser emocionalmente intenso é ótimo, mas não passe do ponto. Ser cerebral? Beleza, mas não passe do ponto.  
 
Trago isso para a literatura porque um escritor está sujeito a duas catástrofes, a do bloqueio criativo e a da incontinência criativa, se bem me exprimo. É quando a criação verbal encontra o tom certo, o diapasão certo, o fluxo certo, mas aí o escritor se entusiasma consigo mesmo e não consegue conter o fluxo. Pelo contrário: ele se desdobra na tentativa de manter o fluxo por duas páginas, doze, vinte.  
 
E nem sempre é o que o texto está pedindo. Não há regra para isto, todo texto é diferente, e não há duas noites-de-trabalho iguais. Não tem como passar uma receita precisa. É preciso sentir onde é o ponto de dizer “chega, tá bom, vamos para o próximo”. 




Você fazer essas coisas é como fechar uma caixa de fósforos: você vai empurrando a caixinha de dentro, a que guarda os palitos, até encaixá-la na caixinha de fora... E aí pára. É esse o ponto. Se continuar empurrando, a caixa dos palitos sai pelo outro lado. 
 
Não passe do ponto. O que às vezes é pedir muito para um ator ou atriz, que trabalha com o corpo – o rosto, as mãos, os olhos, a voz, esse repertório de partes traiçoeiras que passamos a vida tentando manter sob controle, tentando evitar que nos traiam. 
 
Vale para os escritores, sim, e mesmo os melhores dentre eles passam do ponto, às vezes. Eu afirmo (polemicamente) que o ponto alto da obra de James Joyce é o Ulisses, e com Finnegans Wake ele passou do ponto. Afirmo que o ponto alto da obra de Guimarães Rosa é Grande Sertão: Veredas, e que com Tutaméia ele passou do ponto. Neste último caso, chamo ao banco das testemunhas um roseano insuspeito, o mestre Ariano Suassuna, para quem Tutaméia parecia “amaneirado”. 
 
Isso quer dizer que são livros ruins? De jeito nenhum. Tutaméia entra em qualquer lista dos melhores livros de contos da literatura brasileira. Mas é um livro onde o autor (compreensivelmente atarantado por problemas de demarcação de fronteiras, de saúde e tudo o mais) destilou tanto a si próprio que passou do ponto. 
 
O conselho de Lee Strasberg tem a ver com uma certa duplicidade de visão que o grande ator e a grande atriz conseguem manter: a capacidade de, no “quente” da cena, serem cem por cento O Personagem, e ainda terem espaço para uns 50% de si mesmos, aquele controle distanciado que não lhes permite “passar do ponto”. 



(Al Pacino em Dick Tracy)
 

Aquele sexto ou sétimo sentido que faz o ator de teatro, mesmo numa briga de faca, saber sempre em que direção está a platéia, e o ator de cinema, mesmo numa cena de sexo, saber exatamente onde estão as duas ou três câmeras presentes, e que provável enquadramento cada uma está usando. 
 
É difícil? Olhe, deve ser, por isso não quero ser ator. Mas, para mim, muito mais difícil é dirigir automóvel e conversar ao mesmo tempo, e as ruas estão cheias de gente fazendo isso. 
 
É um olho no gato e outro no peixe, como diz o ditado, e se não é assim digamos: é um olho na estrada e outro no retrovisor. Somente com esse grau de entrega e de distanciamento (cada um puxando numa direção oposta) é possível despejar um vesúvio de emoção e ao mesmo tempo impedir que a montanha se desmanche toda. 
 
Isto tem tudo a ver, também, com o improviso do ator, esse momento delicado onde ele, por mais que “saiba suas linhas” (conheça de cor suas falas), se joga no ar como um trapezista que pula sem saber se tem trapézio livre no lado oposto. 
 
Sobre O Poderoso Chefão, Lipton pergunta a Al Pacino: 
 
LIPTON – Francis [F. Coppola] é famoso pelo amor que tem ao improviso. Ele encorajava isso, nos filmes da série Godfather
 
PACINO – Sim, mas às vezes você precisa ter muita informação para improvisar. E eu não recomendaria começar pelo improviso. Eu aconselharia: faça depois de você estar conhecendo melhor o material. 
 
Parece a minha conversa, meio século atrás, com um dos repentistas do programa “Retalhos do Sertão” na Rádio Borborema. Eu perguntei (hoje não lembro se foi a Santino Luís ou a José Gonçalves): “Qual é a primeira coisa que um repentista precisa ter?”. Eu pensava que a resposta seria algo tipo “rapidez de raciocínio”, etc. Ele respondeu: “Boa memória”. E questionei: “Mas a boa memória não serve para criar de improviso, serve para repetir”, e ele disse: “Não, a memória serve para você ter onde buscar”. 
 
Para você ter onde buscar, você tem que se impregnar de todo tipo de material relativo ao personagem e à história. Pacino diz que quando foi fazer o personagem de Satã em O Advogado do Diabo (Taylor Hackford, 1997) passou a devorar tudo a respeito. Inclusive ler o Paraíso Perdido de John Milton (1667). Isso serviu ao filme? Diretamente, não, mas indiretamente, quem sabe? 
 
PACINO – É isso que eu digo: osmose. Você penetra numa certa coisa e começa a acumular todo o material daquilo para dentro de você. Eu sempre recomendo aos atores: absorvam a maior quantidade possível de material, porque assim você vai ficando cada vez mais distante das palavras, e mergulhando no comportamento e em tudo o mais, e isso penetra em você, e é absorvido pelo seu inconsciente... E se tudo corre bem, isso encontra um canal de saída, e pode resultar em todo tipo de momentos interessantes. 

 




Lipton evoca o filme Sea of Love, onde Pacino contracena com Ellen Barkin, e pergunta se os dois ensaiaram por conta própria para as cenas em conjunto. 
 
PACINO – Sim, nós chegamos mesmo a improvisar em algumas cenas. Essa é uma coisa boa que os filmes têm, e pode significar muito para alguém. Se você improvisa numa cena, e grava isso em fita, e aquilo é transcrito... E se você tem conhecimento dos personagens que vocês estão interpretando, e você improvisa, honestamente, numa situação particular... põe os dois personagens naquela situação e simplesmente improvisa. 
 
É bom ter em mente, ouvindo essa menção a “gravar em fita”, que Sea of Love é de 1989, quando os filmes ainda eram rodados no caríssimo celulóide. Para que servia a fita magnética? Para gastá-la com improvisos que muitas vezes demoram horas inteiras e não levam a lugar nenhum, vão direto para o lixo, mas outras vezes descobrem, no calor da improvisação, caminhos (de texto, inclusive) que não teriam ocorrido nem ao dramaturgo nem ao diretor. 
 
O improviso, no ensaio de teatro ou de cinema, é regido por esta mandamento: “Anote, e incorpore”. Mil bobagens serão ditas e serão feitas, mas sempre que alguma coisa realmente boa aparecer, anote na memória (ou no papel) e incorpore à cena. 
 
Não é muito diferente a reflexão do nonagenário Zé de Cazuza, o homem-gravador das cantorias do Vale do Pajeú. Zé de Cazuza diz, sensatamente: 
 
“Todo mundo improvisa. O poeta, o que escreve no papel, muitas vezes está também inventando na hora, está criando em questão de segundos, no calor do improviso. Qual é a diferença dele para o cantador de viola? É que ele pode voltar atrás e corrigir o que não gostou. E o cantador não pode.” 


 


(Al Pacino, "Shylock", em O Mercador de Veneza
 
 
 
 



segunda-feira, 31 de março de 2025

5167) James Joyce, os vivos e os mortos (31.3.2025)





Os Vivos e os Mortos (“The Dead”, 1987) é um filme de John Huston, baseado no conto “The Dead” de James Joyce, em seu livro Dublinenses (1914; minha edição é Dubliners, Penguin Popular Classics, 1996). 
 
É a história de um jantar tipicamente irlandês, na Noite de Reis, na Dublin de 1904, entre família e amigos. Um jantar com música ao piano, dança, bebida (sem exagero), risadas, breves momentos de tensão (todo mundo querendo se comportar bem, e se esforçando para que ninguém estrague a festa). E, no final, um casal que sai da festa para um quarto de hotel, onde a esposa conta ao marido um episódio romântico e triste de sua juventude. 
 
É basicamente isto, mas é o suficiente para que muitos escritores e críticos considerem o conto “um dos melhores da literatura inglesa”, e o filme “um dos melhores da carreira de John Huston” (que fez o filme com 80 anos, e morreu antes da estréia). 
 
O filme é também um excelente exemplo de roteiro (por Tony Huston, filho do diretor) fidelíssimo ao texto literário original. 
 
A festa de Reis é chamada de “Epifania”, e o uso comum da palavra equivale a “revelação”, aquele instante em que alguém tem a percepção súbita de uma verdade oculta ou transcendental. Vai ser difícil encontrar alguma análise do conto de Joyce que não refira esta palavra. 



(Cathleen Delany, "Tia Julia"; Helena Carroll, "Tia Kate" e Anjelica Huston, "Gretta Conroy")
 

O personagem principal do conto é Gabriel Conroy, que vai com a esposa Gretta a essa festa anual de suas tias solteiras Kate e Julia Morkan, que vivem com outra sobrinha, Mary Jane. As três são instrumentistas, professoras de música, e as mais velhas formaram gerações de músicos, que as tratam com carinho e respeito. Nesse jantar anual, parentes, amigos e colegas se reencontram. 
 
Gabriel Conroy é um personagem movediço, cheio de boas intenções e de gestos impensados. Trata as pessoas de quem gosta com uma rudeza que parece não lhe pertencer, alimenta vaidades tolas, certezas reconfortantes, e medos sem razão. Toda a história do conto/filme é uma sucessão de equívocos seus com relação às mulheres que o cercam. 
 
Estes equívocos são breves interações que Conroy inicia com o melhor sorriso e a frase mais pronta, e das quais se retira minutos depois com o rosto ruborizado, a respiração opressa, perplexo ao perceber que está enraivecido e não sabe por quê. 
 
Conroy é um homem culto (resenha livros para um jornal de Dublin, onde o próprio Joyce colaborava), cosmopolita (gosta de viajar pela Europa), sincero (no conto, seus pensamentos de ternura e admiração pela esposa chegam a ser comoventes em alguns trechos). 
 
Ao mesmo tempo, é esnobe: desiste de fazer citações literárias em seu discurso-após-a-ceia porque acha que aquele pessoal não vai entendê-las, e envergonha-se da origem regional da esposa Gretta. 




Conroy é o típico “tiozão” simpático, adepto da conversa superficial e da repetição de clichês. Logo ao chegar na casa, ele troca breves frases com Lily, a criada, que ele conhece desde que era uma garotinha. 
 
-- Diga-me, Lily – disse ele num tom amistoso. – ainda está na escola? 
-- Oh, não, senhor – respondeu ela. – Terminei há mais de um ano. 
-- Oh! Então... – disse Gabriel alegremente – imagino que um belo dia estaremos indo ao seu casamento com um rapaz, hein? 
A garota olhou para ele por cima do ombro e disse com grande amargura: 
-- Os homens de agora só querem saber de conversa e do que podem conseguir com a gente. 
(p. 202, trad. BT)
 
A resposta inesperada da garota deixa Conroy desconfortável; ele volta a lembrar dela durante a noite. 
 
Logo a seguir, quando estão dançando quadrilha, ele faz par com uma antiga colega de faculdade, Miss Ivors. Ela é uma mulher desinibida, desenvolta, politizada, e começa a lhe dar alfinetadas, deixando-o silenciosamente amedrontado. Ela o critica por escrever resenhas literárias para um jornal que ela considera politicamente reacionário (simpatizante da Inglaterra, em detrimento da independência da Irlanda). 
 
Ele não sabia como reagir àquela acusação. Pensou em dizer que a literatura estava acima da política. Mas eles eram amigos há mitos anos, suas carreiras tinham corrido em paralelo, primeiro na Universidade, e depois como professores: ele não podia se arriscar a dar-lhe uma resposta presunçosa. Continuou piscando os olhos e tentando sorrir, e murmurou frouxamente que não via nada de político em resenhar livros. (pag. 214, trad. BT) 
 
Miss Ivors é diferente da esposa dele, Gretta, cuja família vem de uma província meio desvalorizada. (Quando alguém lhe pergunta se Gretta é de lá, ele responde defensivamente: “Os parentes dela são.”) O diálogo entre Conroy e Miss Ivors começa durante uma dança de quadrilhas, onde há troca de pares, e essa alternância de alfinetadas e interrupções é bem costurada tanto no texto quanto no filme. 
 
Miss Ivors inquieta Conroy com seu comportamento anti-convencional. A certa altura, ele está conversando com outra conviva e pensando nela: 
 
Enquanto sua língua tagarelava, Gabriel tentou banir da mente qualquer lembrança do desagradável incidente com Miss Ivors. Claro que a moça, ou a mulher, ou seja lá o que ela fosse, era uma entusiasta, mas existe hora para tudo. (pág. 217) 



Gabriel é tradicionalmente encarregado do discurso principal dessa Noite de Reis, e ele já chega à festa nervoso, consultando discretamente as anotações que traz no bolso, tenso pela obrigação de ser o mais brilhante. 
 
Miss Ivors tinha elogiado sua resenha. Estava sendo sincera? Será que ela tinha mesmo alguma vida pessoal além de seu propagandismo? Nunca tinha havido um clima negativo entre os dois até aquela noite. Ele ficava nervoso ao pensar que ela estaria sentada à mesa da ceia, olhando-o enquanto ele falava, com aqueles olhos inquiridores.  (pág. 219) 
 
Um dos poucos detalhes que o filme insere e que não estão no conto é na saída de Miss Ivors: ela se despede de todos, tem um compromisso – e o filme deixa claro que é uma reunião política. Uma mulher sozinha sai de uma ceia para uma reunião política! 
 
No conto, Gabriel Conroy tenta acomodar na vida real este fato estranho. 
 
-- Mas como vai para casa? – perguntou Mrs. Conroy.
-- Oh, daqui até o cais é um pulo.
Gabriel hesitou um momento e disse:
-- Se me permite, Miss Ivors, posso ir deixá-la em casa, se precisa mesmo sair.
Mas Miss Ivors desvencilhou-se dos dois. 
-- Não me falem mais nisso. Pelo amor de Deus, vão logo para sua ceia, e não se incomodem comigo. Sou bem capaz de cuidar de mim mesma. (pág. 223)
 
Logo em seguida vem a ceia, onde Gabriel, o “sobrinho preferido” das donas da casa, tem um duplo papel de estrela. Cabe a ele não só fazer o discurso, como a tarefa de cortar e servir as fatias do ganso. 
 
Gabriel sentou-se com autoridade à cabeceira da mesa e, tendo conferido o gume do facão, enterrou firmemente o garfo no corpo do ganso. Sentia-se totalmente à vontade agora, porque era um especialista no corte da ave, e nada lhe dava mais prazer do que ver-se à cabeceira de uma mesa bem servida. (pág. 225) 
 
A ceia, a reunião dessas pessoas, ocupa três quartos da narrativa, mas sua parte mais tocante é a volta de Gabriel e Gretta Conroy para o quarto do hotel (eles não moram mais em Dublin), e ali, quando Gabriel começa a se despir e a abraçar a esposa, cheio de expectativa por aquela noite a sós, livres da casa e das crianças, vê que ela está melancólica, distante, olhando a neve que cai lá fora. 
 
É então que ele, compreensivo, carinhoso, pede para saber o que se passa na cabeça dela. Ela está tão absorta que, sem negacear, começa a lembrar uma história de amor adolescente que viveu, e que nunca contara ao marido. Uma história que lhe foi despertada por uma canção cantada naquela noite, que ela escuta da escada, “The Lass of Aughrim”. 


 
É a história de um rapaz que ela conheceu quando muito jovem, um rapaz de 17 anos, chamado Michael Furey. Não foi uma paixão adulta, sensual. O rapaz, diz Gretta, era “muito delicado”, tinha “olhos escuros, imensos! E uma tal expressão neles – uma expressão!”.  Os dois, muito novos, costumavam caminhar juntos, e ele gostava de cantar “The Lass of Aughrim” para ela. 
 
Quando a família determinou que ela iria morar longe, o rapaz estava doente, mas fugiu de casa, numa noite de neve, para despedir-se dela. Ela o avista no quintal, perto de uma árvore. Ela diz: “Vá embora, você está doente, assim você vai morrer”. E o menino diz: “Eu não quero mais viver.” 
 
“Acho que ele morreu por minha causa”, diz ela. 




São as páginas finais do conto, e os minutos finais do filme, em que Anjelica Huston toma conta da cena, uma daquelas cenas intimistas e concentradas à maneira de Ingmar Bergman. Esta cena dá uma das medidas para compreender James Joyce, porque um contista de sua época seguiria a ladeira inevitável do melodrama, com cena de ciúmes, bate-boca, alguma escaramuça física por parte do marido que se sente "traído" ao descobrir que havia algum aposento na alma da esposa a que ele não tinha acesso. 
 
Joyce faz com que Gabriel Conroy, diante de mais esta perda de conexão com uma mulher que acreditava próxima, se veja, de certa forma, e pela primeira vez, pelos olhos delas. 
 
Uma consciência envergonhada de sua própria pessoa o invadiu. Ele se viu como uma figura ridícula, agindo como um menino de mandados para suas tias, um sentimentalista nervoso e bem intencionado, perorando diante do populacho e idealizando sua própria luxúria patética, um indivíduo cheio de empáfia e digno de pena, aquele mesmo que ele tinha vislumbrado no espelho. (pág. 251) 
 
A revelação humilhante é transformada por Joyce em epifania reveladora, porque a mulher, depois de chorar e chorar, deixa-se cair na cama e adormece. Ele fica à janela, contemplando a neve que cai e pensando na vida. 
 
O ar do interior do quarto esfriou seus ombros. Ele esticou o corpo cautelosamente para baixo do lençol e deitou-se ao lado da esposa. De um em um, eles todos estavam se tornando sombras. Seria melhor passar corajosamente para o outro mundo, dentro da glória plena de uma paixão, do que definhar e apagar-se com a velhice. Ele pensou em como aquela mulher ao seu lado tinha trancado em seu coração por tantos anos a imagem dos olhos do rapaz que amara, no instante em que ele lhe disse que não queria mais viver. 
 
Lágrimas generosas encheram os olhos de Gabriel. Ele nunca se sentira daquela maneira em relação a uma mulher, mas sabia que esse sentimento devia ser amor. As lágrimas se avolumaram em seus olhos e na escuridão parcial ele imaginou estar vendo o vulto de um rapaz parado embaixo de uma árvore gotejante. Havia outras formas por perto. Sua alma estava se aproximando de uma região habitada pelas vastas multidões dos mortos. E ele tinha consciência, mesmo sem compreendê-la, da sua existência incerta e bruxuleante. (pág. 255) 
 
Conta-se que este derradeiro episódio se baseia numa confidência real, feita pela mulher de Joyce, Nora Barnacle, sobre uma paixão de adolescência. O conto seria, entre outras coisas, um relato de um processo de aceitação e entendimento da vida alheia (da autonomia e da irredutibilidade da vida alheia) por parte do escritor. 
 
Outro ângulo interessante do conto é que Gabriel Conroy parece ser um daqueles irlandeses que de certa forma acham a Irlanda constrangedora em suas limitações e seus atrasos. Ele não compreende a velha Irlanda, assim como não compreende as mulheres. Os cosmopolitas querem a Europa, mesmo que ao preço da submissão à Inglaterra. Querem “ser aceitos lá fora” – como o próprio Joyce sempre quis. Como conciliar isso com o patriotismo cego dos irlandeses? A obra de Joyce é também o relato dessa epifania, da realização de uma obra onde a Irlanda continuasse Irlanda mas acomodasse dentro de si o mundo. 

 
 
 
 
 




quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

5143) Jessier Joyce (15.1.2025)



 
As idéias também rimam, de vez em quando. Às vezes a gente está lendo um romance policial italiano, aí pega por acaso um livro de um poeta argentino do século 19, e quando menos espera vê duas frases, ou dois parágrafos, ou duas cenas que têm tudo a ver entre si, como se aqueles dois autores estivessem conversando por cima das nossas cabeças e do nosso espaçotempo. 
 
Estou lendo o livro de Frank Budgen (James Joyce and the Making of Ulysses, 1934) onde o autor, que conviveu com Joyce em Zurich, recorda suas conversas, e comenta os episódios do romance joyceano com o olhar de quem acompanhou a criação daquela obra, por assim dizer, no próprio set de filmagem. 
 
E me caiu nas mãos o livro novo de meu primo-transverso Jessier Quirino, Eu Parece que Tô Vendo (Recife, Ed. Bagaço, 2024), com o habitual tabuleiro sortido de poemas, quadrinhas, aforismos, comparações, canções, verdades enfeitadas e mentiras involuntárias. 
 
Se eu fosse um profissional rigoroso faria aqui um parêntese para explicar aos meus leitores de Joyce quem é Jessier, e aos meus leitores de Jessier quem é Joyce; mas este blog é apenas o que Antonio Houaiss chamaria “uma obra de desfastio”, então irei direto ao assunto. 
 
Uma coisa em comum entre esses dois cabocos é a volúpia quase-etílica da palavra, o prazer de curtir as palavras, de abri-las como um guri abre um Kinder-Ovo, de colecioná-las como um torcedor coleciona gols na memória. Tanto o irlandês quanto o paraibano são escritores encharcados do linguajar dos livros e das feiras-livres, das academias e das calçadas, dos botequins e das bibliotecas, das lojas de conveniência e das casas de tolerância. 
 
Quando Jessier diz “eu parece que tô vendo” ele alude certamente à “inelutável modalidade do visível” de Stephen Dedalus no Ulysses: o que se pode ver com os olhos e com a mente, ou, como diz o catacego Joyce, “feche os olhos e veja”. 
 
Jessier define o poeta como “um prestador de atenção”, e vou aproveitar um dos seus textos onde ele se põe a explicar como é possível reconhecer um sertanejo pelo seu palavreado, palavrório, palanfrório. Como fazê-lo? Vejamos na página 71: 
 
Pegar bigu na palestra 
nos franzimentos de testa 
e, cada palavra escutar. 
 
É lascança; é caixa-prego 
breado; chorumingado; 
labrojeiro; é pirangueiro 
nem deu fé; amundiçado 
bafafá; foi no migué; 
munganguento; incriquiado; 
infeliz-das-costa-oca;
chinelão espragatado,
imbeiçado; puxincói;
é toitiço; é trimilique
zoró; brebote; miado;
bateu fofo; é breu-com-cola!
Tibungão; atabacado
encangado; cocorote
xexêro; malacabado. (...)
 
Por enquanto basta. Já me serve para deixar de presente uma paginazinha da minha Work In Progress pessoal: o meu Dicionário Nordestinense (também referido como Assim Falou Trupizupe), uma compilação desopilante que pode servir como modesto adendo ao gargantuesco Dicionário do Nordeste (Recife, CEPE, 2013, 2ª. ed.) de Fred Navarro. 
 
Dito isto, vamos ao ave-palavra em pauta.
 
Lascança
É o ato isolado de se lascar, ou a condição permanente de quem vive se lascando. “Veja o exemplo do Botafogo do Rio: não vivia naquela lascança?... Então? Se ele se salvou, qualquer um pode!...” 
 
Caixa-prego
Exemplo clássico de lugar distantíssimo, também conhecido como “Caixa-bozó”. Vale lembrar: é o nome de um lugar real na ilha de Itaparica (BA), com a grafia de “Cacha Pregos”. 
 
Breado
Tecnicamente, significa “sujo de breu”, mas na prática é sujo de qualquer coisa. “Me traz uma muda de roupa, essa aqui tá toda breada de lama.” 
 
Chorumingado
A ação de “choramingar”. “Você pare com esse chorumingado aí, não tá doente coisa nenhuma, vai pra aula nem que seja debaixo de cacete.” 
 
Labrojeiro
Mal-amanhado, mal-feito, mal-arrumado; uma coisa de mau gosto, de má qualidade. “Meu marido inventou de me dar um presente, mas me deu um relógio tão labrojeiro que quando eu vou pra rua eu tiro do braço”. 
 
Pirangueiro
Uma combinação de malandro, desocupado, filador-de-cigarro, pedidor-de-dinheiro-emprestado. “Não quero você andando com esse sujeito, é um pirangueiro de porta de bodega, não tem o menor futuro.” 
 
Nem deu fé
Dar fé é perceber, notar, reparar em alguma coisa. “Levaram meu celular e eu só dei fé quando cheguei em casa”. 
 
Amundiçado
“Mundiça” (ao pé da letra, “imundície”) designa tudo que não presta, principalmente algum conjunto de gente vulgar, de maus costumes. “Não se misture com aquela mundiça daquele bar.” “Você de uns tempos pra cá está todo amundiçado, são esses seus amigos da sinuca.” 
 
Bafafá
Briga, confusão, altercação violenta. Para alguns teóricos mais sofisticados, o mesmo que “rififi”. Ou “sururu”. 
 
Foi no migué
Curiosamente, esta gíria me parece mais carioca do que nordestina, e se for mesmo é mais um desses contrabandos verbais incentivados em mão dupla pela televisão. O “migué”, como o entendo, é truque, é finta, é negaceio, seja físico ou mental. “Cheguei atrasado no trabalho, mas quando me viram dei um migué e falei que tinha saído de novo, pra comprar cigarro”. 
 
Munganguento
Adjetivo, derivado do substantivo “munganga” (=trejeito, careta, gatimônia). “Eu sou fã de Tom Waits, mas depois de velho ele está cada vez mais munganguento”. 
 
Incriquiado
É uma versão-tremida de “encarquilhado”, cheio de pregas, de rugas. “Fiquei meia hora na pia lavando prato, vê só as pontas dos meus dedos, tá tudo incriquiado”. 
 
Infeliz-das-costa-oca
Um insulto pesado cuja origem se perde na noite dos tempos e na madrugada das discussões de mesa-de-bar. Não sei o significado, no contexto, dessas “costas ocas”. Talvez tenha relação com o termo “santinho do pau oco” (=hipócrita), em alusão àquelas imagens de santo, feitas de madeira, que eram ocas e serviam para esconder dinheiro. 
 
Chinelão espragatado
É o chinelo que, de tanto uso, espragatou-se todinho. Amassou-se, deformou-se. Termo parecido é “achinchelado”, mas usa-se com sapato: é quando a gente enfia apenas a parte dianteira do pé dentro do sapato, e fica pisando na borda traseira com o calcanhar: isso é “achinchelar” o sapato (“achinelar”). Atrai puxões de orelha maternos. 
 
Imbeiçado
Ou “embeiçado”: é estar em vias de apaixonamento por outra pessoa, arrastando-a-asa, arriado-dos-quatro-pneus. Em inglês, “infatuated”. 
 
Puxincói
“Puxa-encolhe”: qualquer processo repetitivo, que não avança, que não resulta, que é preciso ficar insistindo nele, mesmo sem muita esperança de resultado. Nas últimas décadas, tem dado lugar ao equivalente “muído”. 
 
Toitiço
A parte frontal do tórax; o peito, o peitoral. “Ele nem bem terminou de falar e eu dei-lhe uma cabeçada no toitiço que ele caiu de bunda na poça do meio-fio.” 
 
Trimilique
Estremecimento generalizado, talvez com causa física, mas geralmente por medo, paúra, choque de covardia, afrouxamento-das-pernas. Existe a variante “estrimilique”. 
 
Zoró
Tonto, desnorteado, desorientado, sem conseguir fixar a vista numa coisa nem a cabeça numa idéia. “Rapaz, quando ela vem falar comigo eu fico zoró, só acerto a dizer besteira, e quando-é-depois a vontade de morrer é grande”. 
 
Brebote
A pronúncia é “brê-BÔ-te”. Conversa fiada, miolo-de-pote, cordão-de-besteira, de nonada, de tutaméia... “Vamos comprar uma cerveja e ficar conversando brebôte na calçada!. 
 
Miado
Adjetivo: mixuruca, fraquim-fraquim, sem graça, sem valor, sem interesse. “Achei muito miada a festa de casamento deles – pra o tanto que ele diz ter gasto...” 
 
Bateu fofo
“Bater fofo” significa ficar muito aquém da expectativa criada. A analogia é com um tambor;  alguém se prepara pra percutir, com muita mizancene, e quando desfere a pancada vê-se que o couro do tambor está mole, frouxo, meh. Lenine usou isso em “Que Baque é Esse”: “E o maracatu passou já com o bombo batendo fofo...” 
 
Breu-com-cola
Breu é mais uma palavra multiuso. Na minha infância, usava-se para negar algo com veemência: “ – Domingo o Campinense vai ganhar do Treze!... – Vai ganhar, breu!  Treze cinco a zero!...”   Essas negações iam se enfeitando e ficando mais barrocas, quando eu tinha uns 12 ou 13 anos já se dizia: “É breu com cola, macaco na escola, tomando Coca-Cola!...” – pra dizer: “de jeito nenhum”, “nem que a vaca tussa”. 
 
Tibungão
O verbo é “tibungar”, onomatopéia derivada de “tchibum”. Ou seja: mergulhar na água com barulho, com espalhafato. “Bora tibungar no açude!” “Tibungão” pode ser um mergulho mais ruidoso. 
 
Atabacado
“Tabaco” é outra palavra multiuso. Um sujeito abobalhado, bundão, é “um tabaco-leso”. Quando uma pessoa cai de maneira desengonçada, barulhenta, ela “se estabacou”. “Atabacado” (ou “entabacado”) deve ser quando o sujeito está furioso, botando fumaça pelas ventas. 
 
Encangado
Preso a uma canga, aquela peça de madeira que mantém juntos os bois de carro. Por extensão, tudo que está sempre junto. “Ele e aquele amigo dele vivem encangados, pra onde vai um o outro vai atrás” Aparece também na expressão “Ah, Fulano, vai encangar grilo!...” – expressão de impaciência equivalente a “vai pentear macaco, vai catar minhoca no asfalto!...” 
 
Cocorote
Pancada na cabeça de alguém com os nós dos dedos. Primo-carnal do “cascudo”, com a diferença de que o “cascudo” é uma pancada seca e rápida no quengo da vítima, e no “cocorote” a gente fecha a mão, pressiona os nós dos dedos no quengo e depois os desliza com toda força, “riscando” o crânio do infelicitado. 
 
Xexêro
Ou “xexeiro”: o indivíduo que “passa xêxo”, ou seja, deixa de pagar uma despesa, uma dívida, etc., e escafede-se da maneira mais discreta (ou mais cara-lisa) possível. 
 
Malacabado
Pode trocar na balança por “labrojeiro”, e só um especialista toca o alarme. 
 
***
 
E para encerrar, preciso dar um alerta: a lista acima não é de invenções jessierianas. Tudo isto é linguagem coletiva, da rua-de-cima e da rua-de-baixo, das-antigas: é um vovocabulário, que gerações atrás já era dito e entendido sem catabís. 
 
Ao mesmo tempo, Jessier é também um palavrista consumado, e no mesmo livro eu cato ao Acaso invenções miúdas, desprovidas da prosopopéia impoluta de quem quer invadir dicionários – é apenas a palavra-nova brotando como um drible-de-corpo necessário para resolver um momento específico. 
 
E assim brotam “esperando de tocaia que ela me lararasse”, “versejador tutanudo”, “ele tava pensaroso”, “jumentice desgovernou sua vida”, “cuscuz cortado aos pedaços e cuscuz esfarofado”, “sofreu uma incinerança no peito”... 
 
Uma palavra nova é um prego-e-tábua onde pregar uma idéia para que ela não fuja, e às vezes a dita-cuja cai no gôto, cai no gôsto, ganha nome, rosto e verbete. 



 
 




segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

5140) O "Ulysses" e suas odisséias (6.1.2025)




 
The book, pra variar, is on the table. 
 
Por variados motivos andei catando milho nas páginas do Ulisses de James Joyce, que infelizmente não tenho em papelivro – tenho cópia eletrônica (PDF) da edição em inglês, e também da tradução de Caetano W. Galindo, de quem já acompanhei com proveito palestras e entrevistas. Gosto do formato literatrônico, que tem a grande vantagem de buscar trechos específicos com velocidade Aladínica. 
 
Ulisses é um livro onde se aprende muito, se a gente abre mão da obrigação de entender tudo. Ou de lê-lo por inteiro. Alguém já viu o Louvre por inteiro? Já viu o MoMa por inteiro, ou até mesmo nosso querido MAM carioca por inteiro? Não. Esses lugares são para visitas frequentes e descobertas-de-surpresa. Em cada chegada-ali a gente aprende e decifra alguma coisa, e volta para casa com uma vitoriazinha nova na algibeira do espírito. 
 
Uma das dificuldades que sempre tive com o Ulisses foi o fato de que sou um leitor tradicionalista, quase caretão. Sou da escola de Conan Doyle, Maupassant e Erico Verissimo.  Gosto de textos onde os ambientes e personagens são visualmente descritos de forma até didática, onde quando há um diálogo sabemos quem foi que falou, e temos sempre uma noção clara do tempo e do espaço onde acontece a cena que estamos lendo. 
 
É justamente para não ficar atolado nesse formato que frequento a literatura de vanguarda, assim como quem durante a semana está no feijão-com-arroz caseiro, e no domingo vai a um restaurante tailandês ou baiano. Temos que empurrar o horizonte com a testa. 
 
E nessas fugidas ocasionais para conhecer o Ulisses acabei descobrindo uma série de filmes que me trazem o mundo visual da história, esse mundo que a descrição faiscadora e ziguezagueante de Joyce me negaceia o tempo todo. E aqui vão algumas dicas; todos podem ser encontrados no YouTube ou em serviços de “streaming”. 
 
1
James Joyce’s Ulysses (Channel 4)
https://www.youtube.com/watch?v=Ob3NWUtCCJI&t=1123s
 
Um desses documentários é James Joyce’s Ulysses, uma produção do Channel 4, da série “Ten Great Writers of the Modern World”. A direção e adaptação são de Nigel Watts e Gillian Greenwood. Este filme de uma hora de duração alterna imagens de arquivo da vida de Joyce, depoimentos de Anthony Burgess e Clive Hart, e cenas produzidas com atores reconstituindo episódios da vida de Joyce e do romance. 
 


(James Aubrey, como “Frank Budgen”, e Brian Murray como “James Joyce”)
 
 
Durante seus anos em Zurique, Joyce criou uma amizade com o artista plástico (e funcionário do governo britânico) Frank Budgen. Os dois tinham gostos e temperamentos parecidos, viram-se com frequência durante anos.  Essa amizade resultou num dos livros mais legíveis sobre a obra joyceana: James Joyce and the Making of Ulysses (1934), onde ele alterna reconstituições de conversas entre os dois, e interpretações próprias sobre o romance. 
 
Budgen era um homem culto, bem-humorado, sem frescura. Alguns diálogos entre ele e Joyce são encenados no filme, com atores. 



(David Suchet, como “Leopold Bloom”)

 
Mais interessantes são as encenações de trechos do Ulysses, tendo David Suchet (o conhecido “Hercule Poirot” de dezenas de filmes) no papel de Leopold Bloom, John Lynch no de Stephen Dedalus, e Sorche Cusack como Molly Bloom. E não deixa de ser divertido ver os depoimentos de Anthony Burgess (Laranja Mecânica, etc.), um escritor que admiro, com seu terno xadrezado, sua cara rubicunda, sua voz de barítono encatarrado, parecendo um irmão mais velho de Van Morrison. 
 
2
O Ulisses de Joseph Strick
https://www.youtube.com/watch?v=h7xAM_eXuuk&t=5044s



(Maurice Roëves, como “Stephen Dedalus”, e Milo O’Shea, como “Leopold Bloom”)
 
 
A mais corajosa adaptação do romance foi dirigida em 1967 por Joseph Strick (1923-2010), documentarista, engenheiro, inventor. Dizem que ele era o dono da única residência nos EUA com projeto de Oscar Niemeyer. Ganhou um Oscar de “Melhor Documentário” (Interviews  with My Lai Veterans, 1970) e em Londres foi diretor da Royal Shakespeare Company. 
 
Sua adaptação do Ulisses, filmada em preto-e-branco, está no YouTube. Não tem legendas em português, mas é possível acompanhar os diálogos nas legendas “Closed Captions”, que transcrevem o áudio. Essas legendas são dos primórdios da Inteligência Artificial, e são uma diversão à parte, porque a interpretação dos áudios é deficiente e o que aparece nas legendas, de vez em quando, é Zé Limeira puro, é algo que “out-Joyces Joyce”. 
 
Diversão à parte, é um filme útil para quem tem à mão (e na memória) uma descrição explicativa de cada episódio do romance. Ulisses não é um livro onde você entra a toda velocidade, ao volante de uma Ferrari. É um livro para ler sobre, estudar a respeito, consultar resumos e sinopses, ver filmes (mesmo sem entender o inglês)... Ir chegando aos poucos, dando voltas em torno da cidade sitiada, como fez Josué circundando Jericó, até ser capaz de derrubar suas muralhas com o mero soar das trombetas. Boa sorte. 
 
 
3
James Joyce’s Women, de Fionnula Flanagan (1985)
https://www.youtube.com/watch?v=ivhmaIjmXBw&t=3179s


(Fionnula Flanagan, como "Nora Barnacle")

Também no providencial YouTube encontra-se a versão cinematográfica de James Joyce’s Women, uma peça teatral concebida e interpretada pela atriz irlandesa Fionnula Flanagan. É um projeto ambicioso e, pela parte que me toca, extremamente bem sucedido. Fionnula concebeu a peça (e depois o filme) em torno das personagens femininas da vida de James Joyce (sua esposa Nora Barnacle, sua mecenas Harriet Shaw Weaver, sua editora Sylvia Beach), bem como personagens dos seus romances (Molly Bloom, Gertie MacDowell, etc.). 

 


(Fionnula Flanagan, como "Gertie Mac Dowell")

O projeto de Ms. Flanagan é atemorizante (produzir, escrever e interpretar um texto assim), mas o fato é que ela consegue costurar todas essas figuras femininas numa colcha-de-retalhos em que cada pedaço revela coisas novas dos livros, do escritor, do papel que essas mulheres tiveram em sua vida. Principalmente Nora, a mulher com quem Joyce manteve um casamento tumultuado mas leal até o dia em que morreu, uma mulher não-intelectual, pragmática, irônica, que não lia os livros do marido mas o defendia na-porrada se preciso fosse. 
 
De Nora Barnacle, dizia o amigo de Joyce, Frank Budgen (James Joyce and the Making of Ulysses, Indiana University Press, 1960) 
 
Mrs. Joyce tem uma presença impositiva, mas o que mais impressiona as pessoas de suas relações é a sua absoluta independência. Seus julgamentos a respeito das pessoas e das coisas são sempre rápidos e diretos, e procedem de uma escala de valores inteiramente pessoal, que não imita nem se dobra a ninguém. (Cap. II, trad. BT) 



(Fionnula Flanagan, como "Molly Bloom")


Fionnula Flanagan é uma camaleoa diante da câmera, pulando de personagem em personagem com metamorfoses e coerência. E nos deixa imaginando como seria (im)possível fazer no palco, em tempo real, essa gincana de reencarnações. O filme tem como subtítulo “An Erotic Masterpiece”, e teve problemas com a censura (tal como o livro), até porque reconstitui as cenas de masturbação, do urinol, etc. 
 
 
4
Bloom, de Sean Walsh (2003)
https://www.ulysses.ie/watch
 

Também pode ser vista em streaming esta adaptação do romance dirigida por Sean Walsh. É interessante ver esse filme em paralelo com a adaptação de Joseph Strick, porque cada diretor visualiza as cenas à sua maneira, mas ainda assim vê-se uma convergência que resulta da leitura atenta do livro, em ambos os casos. 
 
Walsh é um diretor mais pragmático, menos conceitual do que Joseph Strick. Seu objetivo declarado não é fazer uma obra-prima a partir de outra obra-prima, mas transformar um livro tido como inacessível numa história audio-visual que qualquer um pode acompanhar. 
 
Esta matéria do The Guardian mostra algumas qualidades e limitações do filme, e transcreve as declarações de Sean Walsh a respeito: 
https://www.theguardian.com/film/2003/nov/23/classics.books
 
 
***
 
“Precisamos mesmo disso tudo para ler um simples livro?”, pergunta alguém. Eu diria que sim, precisamos (ou pelo menos EU preciso), porque não se trata de cumprir a tarefa de ler um romance, dar um suspiro de alívio, e riscar aquele título na lista das obrigações. Um grande livro é para ser frequentado. 
 
“O Ulisses é para todo mundo?” Não, não é. Nenhum livro é para todo mundo. Isso vale tanto para o Ulisses quanto para Brás Cubas, O Pequeno Príncipe, as Memórias de Sherlock Holmes, A Rosa do Povo, Catatau, Meu Pé de Laranja Lima. Cada livro tem seu público. Escolha seus livros, e deixe o resto em paz. 
 
Entre outras coisas, Ulisses é feito (penso eu) para quem tem paixão pela palavra, mania, doença pela palavra. É curioso perceber que nem todo mundo tem isso, e mesmo muitos grandes intelectuais, escritores, poetas, cientistas sociais, não têm. Gostam das idéias, de preferências as idéias grandiosas, vastas, importantes. Usam a palavra como usam o dinheiro: por uma mera convenção social. 
 
Joyce tinha adicção pela palavra. Edmund Wilson observa com agudeza (O Castelo de Axel, trad. José Paulo Paes): 
 
O livro se torna muito mais compreensível a literatos do que a pessoas desprovidas de “mentalidade verbal”, pessoas cujas mentes não engendram palavras em resposta a sensações, emoções e pensamentos. 
 
Já acompanhei nas redes sociais discussões curiosas entre pessoas que “têm uma vozinha (ou várias) falando na cabeça o tempo todo” e pessoas que confessam só recorrer à verbalização quando precisam falar ou escrever algo. Bem – eu sou do primeiro tipo, e aposto meu Dicionário Houaiss que James Joyce também era assim; e não só ele, como Guimarães Rosa, Lewis Carroll, Jessier Quirino e Jacques Lacan. 

Não se trata de erudição, embora em alguns casos a erudição nos venha em socorro. Trata-se de experimentar um prazer sinestésico, quase físico, no ato de desmontar e remontar uma palavra nova, de fazer, desfazer e refazer uma frase besta para dizer que “o livre está na mesma”.  
 
Joyce divertia-se muito com a própria escrita. Costumava presentear o Ulisses a garçons e a porteiros de hotel, acreditando que estes seriam capazes de captar sua usina de gírias, suas alusões fesceninas, seu humor de cabaré. 
 
Dizia seu amigo Frank Budgen:
 
Joyce tem uma gargalhada longa, clara, cheia de divertimento diante dos próprios enganos. Uma gargalhada é um ato significativo. A gargalhada de Joyce é livre e espontânea. É o tipo de risada provocada pelas incongruências solenes, as trapaças malandras e as atrapalhações inesperadas da vida social, mas nela não há nenhuma malícia nem Schadenfreude, a alegria com a desgraça alheia. A risada dele é do tipo que a gente esperaria ouvir caso o presidente da república botasse na cabeça o chapéu errado, mas não se uma rajada de vento jogasse o chapéu de um homem pobre na sarjeta. (Cap. I, trad. BT)