quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

3114) "Persona" (20.2.2013)












Revi este clássico de Ingmar Bergman, um dos mais meticulosamente belos que ele executou. É a história de uma atriz que teve um esgotamento nervoso e ficou muda (Liv Ullmann) e a enfermeira encarregada de cuidar dela (Bibi Andersson). O filme todo é um “pas-de-deux” entre elas. Logo no início do tratamento, vão para uma casa na praia, e lá ocorre o filme quase todo. A expressão “uma casa na praia” é uma das mais vulneráveis à geografia. A praia sueca de Bergman é pouco mais que um sertão: uma região em preto-e-branco coberta de rochedos, pedregulhos, lajedos partidos cheios de arestas e quinas agudas, um mar cinzento que fustiga sem cessar essa superfície árida, estéril. Uma praia que reaparece em outros filmes do diretor, como O sétimo selo, A hora do lobo, etc. Uma praia inóspita, cruel, sofredora. Depois não digam que eu não avisei.


Elizabeth (a atriz) não diz uma palavra; Alma (a enfermeira), fala compulsivamente, sem parar. E então, na convivência solitária das duas, algo começa a acontecer. Ao invés da enfermeira tratar da doente, é a doente que parece tratar da enfermeira, impondo sobre ela aquele terrível e pressionante silêncio do psicanalista sobre o falante indefeso que dá com a língua nos dentes no divã. Alma fala o tempo inteiro, sobre seus planos, seus projetos de vida, seu passado. Há uma cena famosa (que Godard confessa ter imitado em Week-end à francesa) em que ela conta ao longo de infinitos minutos uma experiência sexual que teve na praia, com uma amiga e dois rapazes desconhecidos. Alma se abre, se derrama sobre a sua suposta paciente, e esta, pacientemente, mantém seu silêncio. Como se as duas fossem vasos comunicantes e Elizabeth, num plano mais abaixo, sugasse para si tudo que há na outra.

E elas começam a se fundir, como duas partículas subatômicas que, submetidas a uma experiência, permanecem ligadas, mesmo distantes. Como se uma soubesse o que se passa na mente da outra. Há uma cena com dois monólogos sucessivos em que Alma, parecendo ler a memória de Elizabeth, descreve de maneira impiedosa os comos e os porquês de sua repulsa emocional pelo único filho. Ou na cena (de sonho?) em que o marido de Elizabeth confunde Alma com a esposa e Elizabeth, ao lado, aparentemente sem ser vista por ele, força a enfermeira a abraçar-se com ele, dialogar com ele em seu nome.

Bergman fazia um cinema de prospecção de camadas profundas da mente e da memória, que não se pode alcançar sem altos custos e sem altos sacrifícios. Tirando este aspecto, o filme é de uma linearidade e uma limpidez espantosas, graças às atrizes, à fotografia de Sven Nykvist e à música de Lars Johan Werle.



terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

3113) "Literatura Nazista" (19.2.2013)





Não sei se foi Jorge Luís Borges quem inventou a biografia literária como gênero da ficção (Pierre Menard, Herbert Quain, etc.), mas o chileno Roberto Bolaño produziu um dos mais saborosos e intrigantes títulos desse gênero: A Literatura Nazista nas Américas (1996). Não sei se já saiu no Brasil. 

[ Saiu agora, pela Companhia das Letras, em tradução de Rosa Freire d'Aguiar. ]

É uma coletânea de biografias curtas de 30 escritores de variadas tendências direitistas. Os capítulos variam entre duas e trinta páginas. A imaginação de Bolaño é notável, mas mais notável ainda é seu olho jornalístico: os personagens que ele descreve são caricaturas ou esboços descritivos de escritores em que a gente esbarra em qualquer esquina.

Há por exemplo os irmãos Ítalo e Argentino Schiaffino, chefes da torcida organizada do Boca Juniors, envolvidos com gangsters, celebrantes da violência física e da briga de rua, e colocando a culpa de todos os problemas do país na burguesia judaica e nos intelectuais comunistas. 

Há o plagiador inveterado Max Mirebalais, haitiano, cuja obra é uma gigantesca antologia de autores obscuros cujos poemas ele copia e assina. 

Há a socialite argentina Luz Mendiluce Thompson, cuja maior honra foi ter posado nos braços de Hitler quando era bebê e sua mãe visitou a Alemanha. 

Há o norte-americano Zach Sodenstern, autor de romances de ficção científica sobre o super-herói Gunther O’Donnell, que é acompanhado por seu cão, “um pastor alemão mutante, com poderes telepáticos e tendências nazistas”. 

Há o poeta Rory Long, que cultiva a poesia falada e funda a Igreja Carismática dos Cristãos Californianos. 

Há a poetisa mexicana Irma Carrasco, que afirmava estar “apaixonada por Deus, pela Vida, e pela Nova Aurora Mexicana, à qual se referia indiscriminadamente como ‘ressurreição’, ‘despertar’, ‘sonho’, ‘apaixonar-se’, ‘perdão’ e ‘casamento’”.

Deixo para depois o comentário sobre os dois brasileiros que entram no catálogo imaginário de Bolaño. Os autores que ele inventa (ou que recompõe das memórias de suas andanças por América Latina e Europa) não são todos propriamente nazistas. São aquela mistura informe e desorientada (que aliás não é privilégio da Direita) de vaidade, tacanhez espiritual, leituras desordenadas e cheias de lacunas, alpinismo social, idealismo egoísta, fervor missionário. 

Seus “nazistas” na verdade não passam desses indivíduos que ouvem dez galos tecendo a manhã em diferentes pontos cardeais e querem descobrir todos ao mesmo tempo. 

O único personagem realmente ameaçador é o último, Ramírez Hoffmann, que Bolaño retomou brilhantemente, com o nome de Carlos Wieder, no romance Estrela distante, já comentado aqui nesta coluna (http://bit.ly/SgYxoE). 









sábado, 16 de fevereiro de 2013

3112) O mais e o menos (17.2.2013)





(Saul Steinberg)



O que é o “mais” em arte, literatura, design, etc.? 

Em geral é um “mais” quantitativo: mais formas, mais cores, mais palavras, mais páginas. Um número maior de elementos, enfim. Pode ser também um “mais” relativo à dinâmica, no sentido musical do termo: trechos executados com maior intensidade. 

Nada disso é uma qualidade em si nem um defeito em si. E isso não vale só para a música, vale em toda expressão. É a alternância entre o forte e o suave, uma maior e uma menor concentração. Um tipo de impressão estética que a música orquestral do Ocidente refinou a um grau incomparável.

O “menos” é necessário para efeito de contraste (ou seja, para que se estabeleça essa dinâmica) mas ele pode ser um valor em si, tanto quanto o “mais”, quando há fases históricas em que um deles surge para combater os excessos do outro. 

O Modernismo no século 20 foi, em muitos campos artísticos, uma tentativa de “limpar as estrebarias” atulhadas de resíduos do Barroco, do Romantismo e de outros movimentos que, por diferentes caminhos, pregavam e praticavam a exuberância, a torrencialidade, a multiplicação e acúmulo de sensações, de efeitos. 

Quando a geração de Picasso aderiu à arte africana não foi por um simples exotismo étnico, foi em busca de uma expressão mais sintética, mais direta-ao-ponto, menos dependente de firulas, babados, aquele realismo detalhista chegando à beira do fractal.

Mario Quintana, um dos nossos sacerdotes do “menos”, refere-se no poema “Retrato” (em Apontamentos de História Sobrenatural) a um velhinho “suave como os couros gastos, as madeiras polidas pelo uso, como os seixos rolados – suave e rijo!”. 

É a essência do minimalismo. Não é a mera economia de efeitos, mas uma economia voltada para a concentração, compactação, solidez.

E a verdade é que ninguém trabalha numa única escala. Todo mundo flutua, ao longo do processo criativo, entre momentos-do-mais e momentos-do-menos, como uma orquestra tocando o “Bolero de Ravel” ou uma banda tocando “Stairway to Heaven”. 

Quando escrevemos de verdade, mergulhados no texto e só no texto, sem perceber o que acontece à nossa volta (jogo da Copa, incêndio no prédio, virose no bebê), sabemos quando o texto nos pede três páginas de catadupa verbal em parágrafo único ou um simples bloco de três linhas com cada palavra escolhida após longa deliberação (o que às vezes nos pede mais tempo do que a outra opção). 

Escrever prosa de ficção exige talentos de maestro – o conhecimento dos naipes disponíveis, o saber intuitivamente onde empregar o quê, e principalmente a dinâmica entre o poderoso e o delicado, o transbordante e o contido, a holoilustração em 3D e a foto 3x4.










3111) Ser escritor (16.2.2013)






Volto a lembrar a frase famosa de Ferreira Gullar: “A pior coisa de ser poeta é convencer sua mulher de que, quando você está sem camisa, debruçado na janela, fumando um cigarro e olhando lá pra fora, você está trabalhando”. O lado positivo é que qualquer vagabundo pode adotar essa atitude e defender-se dizendo: “Não me atrapalhe, estou escrevendo um poema”. Corolário: na dúvida, julga-se um poeta não pelo seu comportamento pessoal, mas pelos textos que produz. Ponto final.

Para romancistas ou redatores de obras de maior espessura o debruçar-se à janela não adianta muito. É possível conceber um poema apenas pensando, mas um romance de 300 páginas eu duvido. Em todo caso, não há muita diferença (do ponto de vista da família de um cidadão) entre um marido-e-pai que passa o dia fumando na janela e um marido-e-pai que passa o dia trancado num gabinete, digitando sem parar. São dois indivíduos ausentes, e um processo por abandono do lar pende como espada de Dâmocles sobre suas cabeças, eternamente, porque não basta a presença física. Família que interagir, crianças querem brincar, filhos maiores querem um dedo de prosa, a esposa quer aconchegos e afagos. E o sujeito se obstina em trancar a porta e passar o ferrolho por dentro, dizendo: “Não atrapalhem, estou criando uma obra-prima”. Muita pretensão.

Conversei uma vez num lançamento com a esposa do autor, que ao meu ver elogiar profusamente a obra do marido me agradeceu mais profusamente ainda. Era uma senhora com pés na terra, pão pão, queijo queijo, e me disse: “Eu não entendo nada do que ele escreve, e sou muito sincera, só percebi que ele era importante quando vi o que vocês jornalistas escreviam sobre os livros dele”. É aquela situação meio melancólica da mulher surda que casa com um pianista de concerto. Por mais que ele conquiste prêmios e viaje para tocar com a Sinfônica de Moscou, ela vai sempre ficar roendo um grão de dúvida. “Por que será que o valorizam tanto?...”

O escritor alcança seus maiores triunfos na solidão um escritório. Ele finaliza, de madrugada, o melhor conto que escreveu nos últimos dez anos, e não tem a quem mostrar. A casa está silenciosa. A família dorme; mesmo que seja acordada para participar dirá “Hum-hum, maravilha, boa noite”, e virará pro outro lado. Resta ao escritor ir à geladeira, pegar uma cerveja, debruçar-se na janela e comemorar a façanha ouvindo estrelas. Menos mal, não é mesmo? Existem vocações piores. A certeza do dever cumprido e da “Última Ceia” com tinta ainda fresca deve bastar para reconfortá-lo; e se tem uma coisa no mundo que nunca vai faltar é cerveja na geladeira e estrela no céu.



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

3110) O vírus de McAfee (15.2.2013)



(John McAfee, em foto de Brian Finke)

Desde o ano passado leio notícias sobre as tribulações de John McAfee. Para quem não está ligando o nome à pessoa, ele é o criador do antivírus McAfee, que a maioria de nós já teve ou tem em seu computador. 

De tanto ver seu nome no noticiário (envolvido em crimes, drogas, tiroteios, perseguições, etc.) foi com curiosidade um ponto acima do normal que fui ler a matéria sobre ele na revista Wired de dezembro (http://bit.ly/WBS2dm).

McAfee é o que em Campina a gente chama “um pertubado” (atenção, revisão, é com um R a menos). 

Um “pertubado” é um sujeito que não consegue parar quieto num canto, que parece ter um pequenino alien roendo suas entranhas. Um cara que faz tudo certo e de repente bota tudo a perder com uma gigantesca mancada, que se mete em complicações todos os dias, que faz besteira, que às vezes é agressivo, violento ou criminoso; que não encontra paz em si mesmo nem deixa em paz que está à sua volta. E alguns pertubados são inteligentes.

McAfee era um programador que inventou um antivírus, ficou milionário, entupiu-se de drogas de todo tipo, pirou, teve surtos paranóicos que continuam a atormentá-lo. 

Com uma fortuna de 100 milhões de dólares, refugiou-se em Belize, na América Central, onde foi há pouco acusado de estar fabricando metanfetamina e de matar a tiros um vizinho que envenenou seus cachorros. 

A matéria da Wired (assinada por Joshua Davis) o mostra cercado de guarda-costas, praticando roleta russa, alimentando-se de enlatados e refrigerantes, namorando meninas adolescentes (ele diz: “Quanto mais feia a mulher, melhor o sexo com ela”). Seus delírios mirabolantes (ele é do tipo que resolve qualquer problema metendo a mão no bolso e gastando) e a crise de 2008 consumiram quase todo seu dinheiro.

McAfee é o tipo “rico excêntrico” gerado a partir do mundo internético. São diferentes dos burgueses de limusine, dos yuppies de Wall Street, dos burocratas ricos do mero capitalismo financeiro, porque são indivíduos que criaram algo concreto e difícil. Têm inteligência excepcional, e gostam de viver no fio da navalha. Têm algo de nerd, algo de pirata, algo de rei maluco. 

São os equivalentes, em nossa era, a Kurtz, a Rimbaud, a Aguirre e a Fitzcarraldo. Numa entrevista recente (http://bit.ly/XtiGWq), McAfee afirmou: 

“Não adianta estocar dinheiro. Dinheiro não é algo que você possui. O dinheiro quer fluir através de você, ele é o fluxo livre de energia, ou de capital. É como o sexo. Ele precisa fluir.” 

A sabedoria desses caras, que parecem personagens de Philip K. Dick, é “só de experiências feita”, e eu presto mais atenção nas falas deles do que nas de qualquer PhD formado em Yale ou em Oxford.





quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

3109) Bandeira inconsciente (14.2.2013)





(Manuel Bandeira)



No seu livro de memórias literárias Itinerário de Pasárgada (Global, 2012) Manuel Bandeira comenta os poemas que fez dormindo. Pode parecer estranho a quem não é poeta, mas se um sujeito que anda de bicicleta pode sonhar que está bicicletando, o que há de estranho em um poeta sonhar que está poetando? Ele cita, p. ex., o poema “Palinódia” (no livro Libertinagem, 1930). Diz que sonhou com uns versos, e ao acordar conseguiu lembrar estes: 

Não és prima só 
senão prima de prima 
prima-dona de prima 
- Primeva. 

E um pouco dos versos iniciais: 

Quem te chamara prima 
arruinaria em mim o conceito 
de teogonias velhíssimas 
todavia viscerais.

E diz: “Para completar o poema, tive que inventar a segunda estrofe, que não saiu hermética, como a primeira e a terceira. Achei que seria melhor isso do que fingir obscuridade, coisa que jamais pratiquei. É verdade que tentei o ditado do subconsciente, segundo a receita ‘surréaliste’ (fracassei, como sempre)”. 

É bom ouvir isso de Bandeira, cuja poesia lindamente espontânea esconde um trabalho rítmico e sonoro tão minucioso quanto o de João Cabral, embora dê menos na vista, porque é mais integrado (eu diria “mimetizado”), aos ritmos e sons da fala cotidiana, incluindo-se aí a fala carregada de emoção.

A segunda estrofe, inventada lucidamente pelo poeta, diz: 

Naquele inverno 
tomaste banhos de mar 
visitaste as igrejas 
(como se temesses morrer sem conhecê-las todas) 
tiraste retratos 
enormes 
telefonavas telefonavas... 
hoje em verdade te digo 
que não és prima só / ... etc.”.  

Fico imaginando se esse poema não teria a ver (tal como o “Lutador”, do livro Belo Belo) com sua prima Maria do Castro do Cristo Rei, que era monja carmelita. Trata-se, afinal, de um poema sobre uma prima, com referências religiosas (“teogonias”, “igrejas”).

O poema, mesmo sem ser uma obra-prima (o trocadilho é proposital) parece ter certa importância para Bandeira, não só porque o incluiu em livro, mas porque se deu o trabalho de construir uma ponte entre os dois trechos sonhados. 

A leitura que posso fazer dele agora, obviamente depois de municiado com informações do próprio autor, é que o poeta se dirige a uma prima observando que durante um certo inverno os dois pareceram mais próximos, porque a prima não apenas teve uma vida social mais intensa (indo à praia, visitando igrejas, tirando fotos) como porque ela também lhe telefonava o tempo todo. Há uma relação indiscutível de afeto entre o poeta e a inspiradora do poema, que o faz remontar à própria origem dos deuses (teogonia) e do homem, porque ela é a “prima Eva”.









quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

3108) "Cosmópolis" (13.2.2013)





Não li o romance em que se baseou este filme de David Cronenberg. O filme tem tantos diálogos interessantes e frases tipo guilhotina (aquela que faz vapt! – e joga você no espaço) que deu vontade de ler o livro original. Nunca cheguei ao fim dos dois livros de DeLillo que tenho, e o curioso é que o acho um excelente escritor. Talvez seja mesmo, e eu é que sou um leitor relapso. Talvez ele seja um autor para ser lido num ambiente de silêncio e concentração, e não na fila do Banco ou durante uma circular do 184.

Cronenberg é um dos meus diretores preferidos, desde os pesadelos mórbidos do começo da carreira até os seus recentes thrillers, rudes e impiedosos (Marcas da Violência, Senhores do Crime). Cosmópolis me lembrou em certos momentos o Crash – Estranhos Prazeres (1996), baseado em J. G. Ballard, onde ele mostrava um grupo de pessoas com obsessão sexual por automóveis e acidentes. Cosmópolis sugere pelo título uma compressão de espaço: o universo comprimido numa cidade, a cidade comprimida no interior de um carro. Eric Packer (Robert Pattinson) é um bilionário de 28 anos, o que significa dizer que ele só tem uma idéia muito vaga de por quê se tornou bilionário. O hipercapitalismo gera tanta riqueza virtual que ela tem que ir para as mãos de alguém; é como a Mega-Sena. Alguém acaba ganhando. Cada um tem seus truques na arte de fabricar fortunas na especulação financeira; os que ganham não precisam ser os mais inteligentes ou mais capazes. Geralmente são (como Packer) meros manipuladores de pessoas talentosas.

Packer se arrasta por Manhattan numa limusine e vai se encontrando com os coadjuvantes de seu delírio: a esposa, os assessores e conselheiros, os seguranças, o médico... A cidade está um caos, com passeatas, demonstrações, enterros, atentados terroristas. É impressionante a quantidade de pontos em comum entre Cosmópolis e um filme que em princípio não tem nada a ver com ele, Holy Motors de Leos Carax (comentado aqui em 14 de dezembro), onde, igualmente, um cara passa o dia inteiro dentro de uma limusine (desta vez em Paris) relacionando-se com gente estranha. Curiosamente, os dois filmes estrearam no Festival de Cannes de 2012; o de Cronenberg foi concluído antes do início das filmagens do de Carax, e além do mais se baseia num romance bem conhecido. Não deve ser imitação ou influência, talvez seja um sintoma coletivo. Estamos no mundo das limusines, que são um equivalente móvel dos condomínios cobertos por vigilância high-tech. Do “realismo histérico” de Cronenberg ao surrealismo de Carax as limusines parecem estar virando as novas carruagens-abóboras dos contos de fadas urbanos.



terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

3107) O nome da fera (12.2.2013)





Dias atrás mais uma tempestade de inverno atingiu os Estados Unidos. A imprensa a chamou de Nemo. Um nome aparentemente adequado, por ter ressonâncias marítimas: o capitão Nemo de 20 Mil Léguas Submarinas, o peixinho de Procurando Nemo.  Muita gente, porém, reclamou desse nome, porque ao que parece não é costume dar nome a tempestades de inverno. É uma dessas tecnicalidades divertidas do mundo da burocracia científica.

Segundo o saite Terra, “apesar de a tempestade estar sendo chamada de Nemo por vários veículos da mídia americana, o nome não é oficial, mas sim uma criação da emissora Weather Channel, o que gerou uma polêmica nas mídias sociais e entre alguns jornalistas. ‘Nós não estamos usando esse nome arbitrário para a tempestade’, disse Jason Samenow, do Washington Post; ‘é sem sentido’. Oficialmente, o Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos dá nome a apenas tempestades tropicais e a furacões. Tempestades de inverno não costumam receber alcunhas, mas o Weather Channel passou a adotar identificações para ajudar a alertar os moradores de áreas atingidas e torná-las mais fácil de serem seguidas, especialmente nas redes sociais”.

Os meteorólogos devem ter lá suas razões para batizar umas coisas e não batizar outras. Na verdade, o sistema de nomeação dos furacões tem uma lógica: nomes próprios por ordem alfabética, para que seja mais fácil situar um furacão em relação a outro. (Escrevi a respeito aqui: http://bit.ly/Y12qK0). E damos nomes às coisas pelos mesmos motivos por que damos nomes a nós mesmos. Imaginem só o problema se nosso amigo José não se chamasse José; teríamos que ter dezenas de designações diferentes para ele: o filho de Seu Zuca, o filho de Dona Maria, o irmão de Joana, o menino da casa da esquina, o menino que tem um cachorro marrom... Um nome enfeixa isto tudo numa fórmula curta e sólida.

Pelo mesmo motivo inventamos nomes como amor, liberdade, democracia, ética, etc. Não correspondem a criaturas reais. Se nos pedissem uma definição para qualquer um desses conceitos teríamos dificuldade em fornecê-la, e mesmo que o conseguíssemos dificilmente seriam encontradas duas definições iguais. O nome serve por um lado para tornar nítida uma coisa difusa e por outro lado para sugerir que várias coisas são uma só por serem chamadas pelo mesmo nome. Sempre que dizemos “o Brasil” estamos nos referindo, em princípio, a uma entidade geograficamente, historicamente e politicamente concreta; e também a um fenômeno tão heterogêneo, tumultuado, contraditório, instável e mutante quanto uma tempestade tropical. Ou de inverno.




segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

3106) Django e o personagem (10.2.2013)





No filme de Quentin Tarantino, Django Livre, os dois pistoleiros, Schulz e Django, vão até uma fazenda fingindo interesse num assunto qualquer, mas com a intenção de resgatar uma escrava. Django tem que se fingir de negociante de negros que lutam para agradar os brancos. No filme, os fazendeiros brancos cultivam uma luta que é uma espécie de MMA entre dois brutamontes, no tapete da sala, para uma platéia de meia dúzia de amigos ricos, que fazem apostas. Os negros lutam “na mão” até que um consegue deixar o outro indefeso; então, o patrão oferece um martelo para que o perdedor seja “finalizado”.

O poder nos cega, o poder nos diz que somos invencíveis, que todos os nossos desejos serão satisfeitos, todos os nossos prazeres serão aceitos e legitimados, que mesmo as nossas fantasias mais cruéis merecem ser trazidas ao mundo real.  Dê a um ser humano poder absoluto sobre outro ser humano, e verá o quanto um ser humano vale pouco aos olhos de outro.

Schulz adverte a Django: “Não saia do personagem”. Atores sabem o que é isto. Leonardo DiCaprio cortou a mão num caco de vidro, na cena do jantar, mas ficou no personagem, e usou a mão sangrando como parte da cena. Incorporou o acidente à criação. Naquele mundo, continuar representando, sem deixar a peteca cair, é garantia de continuar vivendo.

Porque naquele ambiente todos representam. Schulz se disfarça de dentista. Django, quando libertado, se fantasia de branco (ou de mestre-sala, não sei). Criminosos se fantasiam de xerife. Stephen (Samuel L. Jackson, ótimo) é uma raposa calculista que se fantasia de puxa-saco ingênuo (o verdadeiro administrador da fazenda é ele). O fazendeiro (Leonardo DiCaprio, excelente) tem um personagem exuberante e imutável até o momento em que percebe estar sendo enganado, quando então reage como qualquer sinhôzinho quando é vítima de um insulto, ou pior, quando vê que estava sendo feito de otário.

Sair do personagem (perder a calma, o sangue frio, a paciência) é o que perde esses personagens. Quem sai do personagem perde o controle que tinha sobre a própria história. Negros são obrigados a “entrar num personagem” para sobreviver: a imitar os brancos, agradar os brancos, trair outros negros em benefício dos brancos. Schulz, que parece capaz de se sair de qualquer enrascada mediante sorrisos, gestos largos e exuberância vocabular, sai desse personagem no momento em que a raiva e a revolta moral são mais fortes do que o instinto de sobrevivência. Tarantino dirige cada cena como um arqueiro que retesa um arco, e quanto maior a energia retesada mais sangrento e trovejante é o desfecho, no momento em que ele desfere a flecha.



sábado, 9 de fevereiro de 2013

3105) O poema inconsciente (9.2.2013)





Falamos em mente consciente e mente inconsciente como se fossem duas coisas distintas, mas talvez elas sejam apenas como um jardim que a certa hora da tarde é batido parcialmente pelo sol. Uma parte fica iluminada e visível, e a outra mergulhada na sombra. Não a vemos direito porque o brilho da primeira deixa nossos olhos acostumados, e tendemos a pensar que o resto não está ali. 

Mas não são dois espaços diferentes.  O jardim é um só.


Manuel Bandeira conta, no seu Itinerário de Pasárgada, sobre alguns versos que compôs num estado alterado de consciência. O mais conhecido é o poema “Oração no Saco de Mangaratiba”, poeminha curto que era para ser muito maior. 

Diz ele que vinha voltando de barco de Mangaratiba, à noite, cansadíssimo, quando 

“...numa espécie de subdelírio de imensa fadiga, todo um poema, o mais longo que já se formou na minha cabeça, começou a fluir dentro de mim. O meu esgotamento era tal, que não tive ânimo para tomar o menor apontamento. Pensei poder recompor os versos em casa. Mal cheguei, caí no sono... Quando acordei, só me restavam na memória os seis versos da oração, única estrofe regular do poema, que era no mais em verso livre. Nunca me consolei desse desastre”.

O primeiro aspecto interessante é o estado alterado de consciência produzido pelo cansaço; algo que muitos artistas e escritores, inadvertidamente, procuram, quando “viram a noite” escrevendo, tomando drogas, sem dormir, etc. Por paradoxal que pareça, certos tipos de cansaço físico parecem deixar a mente mais livre para pensar e para criar em paz. 

O segundo aspecto, notado pelo próprio Bandeira, é o fato de que os trechos em verso livre foram esquecidos, mas ele conseguiu lembrar o único trecho “regular” (=com métrica e rima). O fragmento final, que foi salvo, diz: 

“Nossa Senhora me dê paciência 
para estes mares para esta vida! 
Me dê paciência pra que eu não caia 
pra que eu não pare nesta existência 
tão mal cumprida tão mais comprida 
do que a restinga de Marambaia!”.

Todos sabem que é mais fácil decorar algo rimado e metrificado do que um texto solto. A métrica e a rima se gravam em outro departamento do cérebro, talvez, um setor responsável pela memorização de estruturas regulares, que, por assim se dizer, memorizam-se a si mesmas, impõem uma regularidade. Uma rima chama a próxima, a cadência regular do metro define o tamanho e a acentuação dos trechos que vêm a seguir. 

O que dá mais pena é sabermos que todo o texto esquecido por Bandeira poderia ter sido recuperado através de algum tipo de exercício mental, quem sabe até através de hipnotismo. Na mente nada se perde, tudo vai para o sótão.