quinta-feira, 15 de abril de 2010
1915) O texto do encarte (29.4.2009)
Seria uma experiência curiosa. Pegar vinte poemas de vinte poetas desconhecidos e misturá-los a vinte letras de canções desconhecidas, imprimir tudo misturado, e pedir a um crítico literário metido a esperto (eu, por exemplo) para distinguir ali o que era poema e o que era letra.
Seria mais ou menos como pegar dez quadros abstratos de gente que vale 5 milhões de dólares (Kandinsky, Jackson Pollock), misturá-los a dez quadros abstratos comprados na feira da Praça General Osório, chamar um grupo de críticos de arte e dizer-lhes: “Bote preço!”.
Por que isto? Porque os críticos são burros e só sabem o que é feijão e o que é arroz se alguém lhes disser antes? Acho que não.
Uma obra de arte pode ser avaliada apenas pelo que apresenta aos olhos desprevenidos e ao espírito despreparado. É um texto para ser lido, uma imagem para ser vista, e o leitor ou observador que se identifique ou não com ela.
Sem saber quem a fez ou de onde ela veio, o crítico que improvise ali seus próprios critérios de avaliação diante da obra nua e crua, não-assinada, não-identificada, não-contextualizada. Toda obra nos diz: “Te vira”.
Mas toda obra existe num contexto, e fica empobrecida em algum aspecto quando é despregada desse contexto. Curiosamente, isto desvaloriza algumas obras e valoriza outras.
Voltemos ao exemplo acima. Um observador casual pode achar um quadro de Jackson Pollock “uma borradeira sem graça e de mau gosto” se o vir afastado do contexto dos museus e das galerias milionárias; talvez não achasse isto se a visse amparada e avalizada por este contexto.
E, inversamente, um quadro que ele olharia com indiferença na feira hippie dominical poderia se valorizar, se afastado desse contexto de banalidade. Talvez fosse considerado uma obra revolucionária, até, por um espectador que, sem maiores referências, não soubesse distinguir nela o que há de diluição e de imitação do já visto.
Voltemos ao primeiro exemplo de todos. O que distingue, em primeiríssimo lugar, uma letra de música de um poema? Para mim, é o contato que temos com cada um.
O poema é lido num livro ou revista.
A letra de música é escutada nos alto-falantes de um aparelho de som.
Porque aquilo que está impresso no encarte do CD (repetirei isto até a morte) não é a letra da música, é apenas um texto referencial que ajuda a entendê-la ou lembrá-la. A letra de uma música se perde, no papel, porque não é um conjunto de palavras impressas, é um conjunto de sons cantados, assim como a melodia da música não é um conjunto de notas escritas numa partitura, são os sons que escutamos quando a música é tocada.
O poema escrito é ele próprio, é o próprio poema.
Uma letra de música escrita no encarte, no entanto, não é a letra da música. É apenas uma cifra, um código, uma descrição, que tem uma relação 1-por-1 tão grande com a letra da música (aquelas palavras que a cantora está cantando) que chegamos até a pensar que as duas são a mesma coisa. Mas não são.
1914) O celibato dos padres (28.4.2009)

Duas notícias nos jornais. Uma delas diz que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que está acontecendo por estes dias, pretende, entre outras questões, discutir a criação de assistência psicológica para os religiosos. A outra notícia é que no Paraguai já surgiu uma terceira mulher alegando ser mãe de um filho do Presidente Lugo, que até pouco tempo era bispo.
Já toquei nesta coluna no assunto do celibato obrigatório para os padres, que considero ter sido um grande erro estratégico da Igreja Católica. E um erro, infelizmente, difícil de desfazer, porque não creio que a Igreja derrube, no futuro visível, esse muro milenar. Dizem que a intenção da Igreja era evitar que os padres constituíssem famílias e deixassem para viúva e filhos o patrimônio gerado pelas suas atividades. Entendo a razão, mas acho-a insuficiente. Os pastores protestantes casam, os rabinos judeus casam, os sacerdotes da miríade de religiões modernas (nascidas nos últimos 200 anos) casam, e todas essas igrejas dispõem de mecanismos anti-empobrecimento. Seria mais complicado, porém mais sensato e mais útil, criar mecanismos jurídicos governando o acúmulo e transmissão dos bens dos sacerdotes do que simplesmente dizer “não casa”. Dá no que dá. Preciso falar nos milhões de “filhos de padres” que existem por aí?
Também não proponho que o casamento fosse obrigatório! Acho mesmo que apenas uma minoria, talvez uns 30%, fosse reivindicar esse direito. A maioria dos religiosos que conheço consiste de intelectuais, sujeitos fascinados pelo pensamento, pela metafísica, pela elucubração filosófica. Prefeririam uma noite na poltrona com um livro de São Tomás de Aquino a uma noite no leito com uma dama atenciosa. Existe, contudo, um grupo para quem seria possível, e necessário, conciliar as duas coisas. Um ex-padre (que largou a batina para casar) me disse uma vez: “Pensam que nós somos tarados, sátiros, que só pensamos em sexo. Estão errados. Gostamos do carinho, do companheirismo, da presença física e terna de uma mulher. Queremos a alegria e o drama de criar um filho. O sexo é um meio para isto. Tive que escolher entre minha igreja e minhas convicções, e Deus decidirá se errei ou não”.
Que drama o do Vaticano. Tenho certeza de que os indivíduos que estão lá sabem perfeitamente a sinuca histórica em que estão metidos há mil anos. Pela vontade deles, talvez, fariam uma “distensão lenta e gradual”, criando um sistema de exceções, de liberações em casos especiais, etc. Mas eles sabem que qualquer passo nesse sentido seria interpretado como uma concessão da Igreja ao acanalhamento moral, ao hedonismo despudorado, à sexualização comercializada e compulsória de todas as atividades humanas, que é o que o Neocapitalismo Freudiano estimula, para faturar às custas de nossas pulsões incontroláveis. “Não”, murmura a Igreja, “nós somos O Centro, e quando O Centro não mais se sustentar, o edifício inteiro virá abaixo”.
1913) Contracapa de Fita Demo (26.4.2009)

& não sou rico, tenho apenas uma nota de cada valor de cada moeda em circulação em cada país do mundo & um logotipo cuja visão provocasse amnésia instantânea & “Creative Commons” é uma mera figura jurídica para designar o inconsciente coletivo & tão difícil quanto perfurar um poço de petróleo é descobrir exatamente onde perfurá-lo & a Esfinge não passava de uma “collage” de medos, solúvel em respostas & a gangrena dos países começa pelas fronteiras & a Natureza é um conjunto de anomalias majoritárias com as quais nos acostumamos & vontade de me esconder num tronco de árvore, numa bigorna, num bloco de basalto, num livro de Direito Internacional Público & sente aqui, juntinho de mim, olhe, lá vai o Nautilus do Capitão Nemo, quase alcançando o Submarino Amarelo & digamos por exemplo que todos os sem-terra são de origem extra-terrestre, e vêm daí os seus problemas & filósofos são como arqueólogos desfazendo o Everest com espátulas, na esperança de que exista ali alguma coisa & orçamento à parte, procuro viver como se já fosse milionário & para esta faixa quero baixo acústico com arco, um cavaquinho bem palhetado, três ganzás, três reco-recos, um solo de clarineta no final & um filho é uma missão, um neto é nosso horizonte genético, um bisneto é um parente distante que ignorará nossa existência & um cofre de se trancar por dentro & estou num daqueles momentos mortos que o relógio pula & acordou, sentou na cama, sentiu os pés mergulharem na espuma das ondas que avançavam & a força gravitacional das tragédias anunciadas & um trumpete fazendo estremecer todas as linhas retas da sala-de-estar & os universos paralelos se intersectam no infinitesimal & a insônia é um formigueiro que não me deixa adormecer e me ferroa quando acordo & girando o calcanhar na terra macia para cavar o buraco-negro que atrai as bolas de gude & dormia de luz acesa com medo de ser dissolvido pela treva & uma biblioteca de livros em branco mas com títulos diferentes & dois elevadores lado a lado, um para subir, outro para descer & quem sabe a Humanidade seja um breve incidente entre duas Eras dos Dinossauros & Deus é quem veste o alfaiate, calça o sapateiro, cura o médico, alimenta o padeiro, escreve o escritor & um poema é uma erupção de lava vulcânica que se solidifica em forma de catedral & mesmo durante o trabalho minha mente foge para os terrenos baldios de si mesma e se entrega a contravenções inofensivas & aquelas mansões inglesas onde um fantasma introspectivo mal percebe as gerações que se sucedem num piscar de olhos & é duro constatar que Aristóteles nunca comeu feijão, Cleópatra nunca bebeu uísque, Calígula nunca fumou um cigarro, Shakespeare nunca trocou uma lâmpada, Mem de Sá nunca andou de ônibus & cibernética é o estudo de como as coisas se governam sem as pessoas & cataratas cachoeirando em catadupas, e na caatinga o cacto contando gotas com usura e concisão &
1912) “Os Inconfidentes” (25.4.2009)
Os Inconfidentes de Joaquim Pedro de Andrade (1972) é uma ilustração cênica e histriônica de textos dos Autos da Devassa, do Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles e de poemas dos próprios inconfidentes (aliás, deve haver uma Lei da Natureza dizendo que qualquer conspiração política com três ou mais poetas entre seus líderes está condenada ao fracasso).
Isto dá origem a um estilo de encenação muito usado pelo cinema da época (lá fora, Godard, Straub; no Brasil, Glauber, Miguel Faria Jr.): longos planos-sequência com câmara imóvel e enormes extensões de texto (ou texto nenhum), sucedendo-se com uma intenção cronológica apenas superficial, mas servindo cada um como um quadro ilustrativo do tema geral do filme. As cenas surgem como peças de um quebra-cabeças que são retiradas aleatoriamente da caixa, e só aos poucos o espectador percebe seu lugar de encaixe.
Neste filme, vemos um time de excelentes atores em plena juventude ou maturidade dando baile uns nos outros. Enquanto um diz seu longo bife os demais ficam “na ponta dos cascos” esperando sua deixa.
Paulo César Pereio, José Wilker, Nelson Dantas, Luís Linhares, Carlos Kroeber, Fábio Sabag, Wilson Grey... Como diz o pessoal de teatro, é cobra engolindo cobra.
E a encenação de Joaquim Pedro tira proveito de toda a liberdade concedida a quem está usando um texto clássico – se as palavras são escrupulosamente seguidas, a imagem pode ser a que melhor convém ao diretor.
São inesquecíveis a cena da delação em que Silvério dos Reis e o Visconde de Barbacena tomam banho de banheira juntos, ensaboando-se um ao outro; Gonzaga bordando o “vestido” que deveria usar em seu casamento com Marília, ao lado de um querubim e ao som de João Gilberto cantando “Farolito”; a cena final em que o enforcamento de Tiradentes é aplaudido por dezenas de colegiais.
O mais curioso é que se trata de um filme cheio de estocadas nos militares, na subserviência do povo brasileiro, na tortura, etc. E, por outro lado, é um filme impiedoso com os intelectuais – todos se apequenam e se acovardam depois de presos, e só Tiradentes assume plenamente o que tinha dito e feito. É um filme que diz tanto sobre a época em que foi feito quanto sobre a época remota que retrata.
Na ponteira que aparece no final do filme, ficamos sabendo que sua restauração (o filme é de 1972) só foi possível devido a cópias e negativos encontrados em cinematecas de Portugal e da Itália (a co-produção era italiana).
Ao que eu me lembre, o filme não chegou a ser proibido pela ditadura. Vi-o numa sessão comum de Cinema de Arte. Mas a asfixia econômica mata um filme com a mesma eficiência que o enforcamento censório. O filme de Joaquim não teve o pescoço partido como ocorreu com o alferes, ainda mais com o peso do carrasco, o negão Capitania, escanchado em seus ombros. Ficou pendurado por uma corda, finando-se aos poucos, como Cláudio Manuel da Costa.
1911) Os tamarindos de Augusto e de Edgar (24.4.2009)
Eram magros, sombrios, neurastênicos. Ambos obcecados pela morte, ambos carinhosos com a família e os amigos mais próximos. Viveram em hemisférios diferentes, um na Paraíba, o outro na Nova Inglaterra, e separados por cerca de um século, mas habitaram ambos o mesmo mundo gótico e soturno, cheio de ameaças.
Uma herança genética os predispunha à morbidez. Tiveram que arrastar durante toda a vida adulta o pavor da doença, a penúria financeira, o dever doloroso de sobreviver num mundo que não os entendia e não os comportava. Um morreu com trinta anos, o outro com quarenta.
Augusto dos Anjos era leitor de Edgar Allan Poe. Num questionário reproduzido em suas biografias, ele afirma que seus autores preferidos são Edgar e William Shakespeare.
Augusto dos Anjos era leitor de Edgar Allan Poe. Num questionário reproduzido em suas biografias, ele afirma que seus autores preferidos são Edgar e William Shakespeare.
Falamos em influência quando temos certeza de que o autor mais recente leu de fato a obra do autor mais antigo, mas toda influência não passa de uma ressonância específica. Milhares de versos são lidos, e entram por um ouvido e saem pelo outro. E há um verso que se incrusta, por ressonância, na memória daquele leitor, e nunca mais o abandona.
Daí talvez o temor neurótico de Augusto em relação ao “Deus Verme”, o “fator universal de transformismo”, o qual não é muito distante do “Verme Conquistador” de Edgar, que é o herói da peça intitulada “Homem”.
Daí talvez o temor neurótico de Augusto em relação ao “Deus Verme”, o “fator universal de transformismo”, o qual não é muito distante do “Verme Conquistador” de Edgar, que é o herói da peça intitulada “Homem”.
O Corvo que grasna “Nunca mais!” para um é talvez um dos “corvos carniceiros” cuja “asa de mau agouro” o outro tanto teme, e, que, ao comer suas fibras “há de achar nelas um sabor amargo”.
O morfético que invade a tasca onde acontece uma bebedeira, na parte VII de “Os Doentes”, não é muito diferente da Morte Rubra que surge nos salões do Príncipe Próspero.
Ambos tentaram, num ambiente literário municipal e tacanho, circundar com a mente o formato do Universo. Sofreram a pior das torturas, a da alma inesgotável que quer tudo saber, tudo entender, e percebe estar presa a um pedaço de carne mortal.
Ambos tentaram, num ambiente literário municipal e tacanho, circundar com a mente o formato do Universo. Sofreram a pior das torturas, a da alma inesgotável que quer tudo saber, tudo entender, e percebe estar presa a um pedaço de carne mortal.
Augusto se refugiava à sombra de um pé de tamarindo, chorando “bilhões de vezes com a canseira de inexorabilíssimos trabalhos”, e desejando que após a morte sua sombra repousasse ali para sempre.
Debaixo do tamarindo
No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos!
Hoje, esta árvore de amplos agasalhos
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da flora brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!
Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,
Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade,
A minha sombra há de ficar aqui!
Edgar, em seu soneto “À Ciência”, louva essa “filha legítima dos tempos antigos”, que “espreita o coração do poeta como um abutre”. Queixa-se ele à Ciência: dessacralizaste o mundo, afugentaste os deuses e os espíritos que povoavam a Natureza, “...e, quanto a mim, arrebataste o sonho de verão à sombra do tamarineiro”.
SONETO -- À CIÊNCIA
(tradução: Milton Amado)
Ciência! Do velho Tempo és filha predileta!
Tudo alteras, com o olhar que tudo inquire e invade!
Por que rasgas assim o coração do poeta,
abutre, que asas tens de triste Realidade?
Poderia ele amar-te, achar sabedoria
em ti, se ousas cortar seu voo errante e ao léu
quando tenta extrair os tesouros do céu,
mesmo que a asa se eleve indômita e bravia?
Não furtaste a Diana o carro? E não forçaste
a Hamadríade do bosque a procurar, fugindo,
estrela mais feliz, que para sempre a esconda?
Não arrancaste à Ninfa a carícia da onda,
e ao Elfo a verde relva? E a mim, não me roubaste
o sonho de verão ao pé do tamarindo?
Sonhos de verão de dois rapazes magros, neuróticos, de olhos fundos, nascidos em mundos de escravidão recente e urbanização conflituosa. Observadores das madrugadas decadentes da cidade, das doenças, da peste, da mortandade de um mundo insalubre.
Encostados a um pé de tamarindo, com um livro aberto na mão, um deles pedia ao "sol brasileiro" que lhe queimasse os destroços; o outro celebrava "o sol à minha volta, em seu outono tinto de ouro". Dentro deles era tudo uma Sombra só, e o tamarindo foi o de mais doce que a vida lhes deu.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
1910) O efeito Kulechov (23.4.2009)

Há uma figura retórica em filosofia a que se chama informalmente de “postoquismo”, porque vem da expressão latina “post hoc ergo propter hoc”. Isto quer dizer mais ou menos: “Se foi depois disto, então foi causado por isto”. Às vezes vemos dois fatos acontecerem um depois do outro e imaginamos que o segundo foi causado pelo primeiro. Se a Abolição da Escravatura foi em 1888 e a Proclamação da República foi em 1889, isto não quer dizer que uma foi causa e a outra foi efeito. (Na verdade, ambas foram efeitos de um conjunto de causas mais complexas).
Nossa mente tem uma tendência para fabricar causalidades onde existe apenas sucessão. A montagem cinematográfica tem um exemplo clássico, que se chama “efeito Kulechov”, nome do cineasta que o criou. Kulechov foi um dos primeiros a compreender que a sucessão de imagens na tela leva a mente do espectador a praticar uma associação de idéias, “fundindo” essas imagens numa idéia mais complexa que não estava contida em nenhuma delas isoladamente. Assim como nossa retina funde várias imagens estáticas sucessivas, num movimento virtual que só existe em nosso cérebro, nossa imaginação cria laços entre as imagens pelo simples fato de vê-las juntas.
A experiência de Kulechov foi basicamente de pegar a mesmíssima imagem de um ator, e montá-la com imagens, respectivamente, de um prato de comida, uma pessoa morta e uma jovem deitada na cama. Os espectadores viram no rosto do ator expressões diferentes: fome, tristeza e ternura – mas a expressão era a mesma, pois era a mesma imagem.
Jorge Luís Borges tem um ensaio famoso, “A Muralha e os Livros”, sobre o imperador chinês Shih Huang Ti, que teria mandado construir a Grande Muralha da China, e teria também mandado queimar todos os livros escritos antes do seu reinado. Borges examina de vários ângulos este relato e a certa altura diz: “Também poderíamos supor que erigir a muralha e queimar os livros não tivessem sido atos simultâneos. Isto (conforme a ordem que escolhêssemos) nos daria a imagem de um rei que começou destruindo e depois se resignou a conservar, ou a de um rei desenganado, que destruiu o que antes defendia”.
Nossa mente fabrica essas conexões, impondo sentido a uma sucessão de fatos que muitas vezes não têm a menor ligação. Fazemos isto desde bebês, para sobrevivermos, para perceber continuidade entre os fatos. Um belo dia percebemos que aquelas dezenas de seios são um só seio. Percebemos que aquelas mulheres com rostos que parecem diferentes, com vozes, roupas, cheiros diferentes são sempre a mesma. Esses pequenos triunfos intelectuais nos dão, com um ou dois anos, nossa primeira sensação de onipotência, quando acordamos de manhã e reconhecemos o lugar onde estamos. Não importa se algumas dessas conexões são erradas; se não fizesse isto o tempo todo, nosso cérebro se diluiria. Os estímulos que recebemos podem ser caóticos. Nossa mente é um processo Kulechov permanente, impondo sentido ao mundo mesmo quando ele não tem.
1909) Duas flechas no ar (22.4.2009)

Um artigo de William Langewiesche na revista Vanity Fair procura dar um balanço, depois que a poeira assentou, nos fatos que conduziram ao acidente entre um Boeing da Gol e um avião Legacy pilotado por dois norte-americanos, em 2006. Foi um dos maiores acidentes aéreos já ocorridos no Brasil, e tornou-se ainda mais grave porque a culpa acabou sendo dividida entre os controladores de vôo brasileiros (mal pagos, mal preparados, estressados, etc) e os dois norte-americanos, que pilotavam de forma talvez descuidada um jatinho de luxo destinado a executivos de multinacionais. O avião da Gol, com seus cento e tanto passageiros, foi a vítima azarada dos erros e descuidos cometidos por esses dois grupos de técnicos.
Não discutirei aqui a respectiva percentagem de culpa que cabe a cada um, mas transcrevo um comentário feito pelo jornalista no parágrafo final de seu artigo, que pode ser encontrado aqui: http://www.vanityfair.com/magazine/2009/01/air_crash200901?currentPage=all. Diz ele, ao recordar sua conversa com os índios caiapós, sobre cuja reserva o acidente ocorreu:
“Em última análise, o acidente nos leva a avaliar um paradoxo associado ao progresso e aos tempos modernos. Falei aos caiapós para levarem em conta que em todo o céu por sobre aquela floresta havia apenas aqueles dois aviões no ar. Era como se num espaço do tamanho da aldeia caiapó – não, mais do que isto, um espaço que se estendesse até a rodovia – índios disparassem duas flechas na direção um do outro, e as flechas se chocassem. Quais eram as probabilidades de algo assim acontecer? No passado, jamais aconteceria. Mesmo se tivessem sido guiadas para a mesma rota aérea, as ‘flechas’ teriam passado uma pela outra, devido à falta de exatidão inerente ao voo. Mas agora foram inventadas ‘penas’ mais aperfeiçoadas, e isto se tornou um requisito obrigatório para aeronaves que voam em alta velocidade. Como resultado disto, as novas flechas voam com uma exatidão espantosa, o que permite que uma quantidade muito maior delas esteja cruzando os céus ao mesmo tempo, mas com uma dependência muito maior nos sistemas interligados que controlam esses voos. O céu continua grande, como sempre foi, mas a margem de erro se estreitou. E quando os sistemas falham? Foi isto que aconteceu sobre a terra dos caiapós. O paradoxo envolvido no caso foi: exatidão. Erros foram cometidos, o Diabo interferiu, e as duas flechas bateram de frente”.
Os erros neste caso foram todos humanos, e não do equipamento. Os pilotos esqueceram de ligar o transponder, os controladores entenderam mal ou transmitiram mal as informações, etc. Quando os humanos cometem erros, nossa solução é criar “máquinas que não erram” (como se isto pudesse existir) e colocá-las no lugar dos humanos. Não lhes ocorre preparar melhor os humanos, dar-lhes melhores salários, melhor treinamento, maior disciplina, cargas horárias compatíveis com a intensidade do trabalho que executam.
1908) Dez grandes canções de Roberto (21.4.2009)

O Rei Roberto Carlos faz 50 anos de carreira. A imprensa fica pedindo listas das dez melhores canções. Difícil escolher. É como tomar um copo de água gelada num sábado de sol e alguém de prancheta em punho nos perguntar quais foram as dez melhores gotas. Mas o leitor gosta de comprar. Cheio de esperança, alinho-me entre os vendedores. E aqui vão dez, sem ordem de valor.
Primeiro, “O Calhambeque”, uma fascinante mistura do cantado com o falado, precursora de tantos “raps” de 30 anos depois, e com um irresistível “bip-bip!” para a platéia repetir em uníssono. Por trás, a chuckberryana saga urbano-adolescente do rapaz que, sartreanamente, só existe ao volante de um carro, nem que seja uma fubica. Depois, “Quero que vá tudo pro inferno”, que abre com um órgão arrebatador, um vocal lancinante, uma letra irreverente para a época. Uma canção pro cara cantar bêbado, de madrugada, embaixo da janela da respectiva, no melhor estilo “venha senão eu morro”.
Canções de amor são o forte do Rei, e aqui vai uma trinca de ases. “Como é grande o meu amor por você”, “Quase fui lhe procurar” (Getúlio Cortes) e “Ninguém vai tirar você de mim” (Edson Ribeiro & Hélio Justo) são canções que toco e canto desde que o vinil que as imortalizou ainda estava quente. Há outras melhores? Talvez. Mas estas são as minhas. Para complementar, o clássico “Detalhes”, sobre a qual já correu um itapemirim de tinta e não preciso comentar.
O Rio descobriu, num show de Caetano Veloso, que a pequena obra-prima “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” tinha sido composta por Roberto para ele, durante o exílio. É engraçado. Na época, todo mundo sabia disso. Só posso atribuir tal surpresa à faixa etária de imprensa atual. Outra canção-de-amigo que virou hino foi “Amigo”, para Erasmo Carlos, que mostra um lado importante das músicas de RC: a verdade autobiográfica. Eu, que tanto louvo o “Eu poético distanciado”, tiro aqui o chapéu para o poeta cujo Eu é geralmente ele mesmo.
Já vamos em oito, e até agora só falei títulos óbvios! Vou completar a lista com duas músicas que ninguém conhece ou lembra. Uma delas é “Do outro lado da cidade” (Helena dos Santos): “A cidade agora / do outro lado tem / alguém que vive sem saber / que eu vivo aqui também...”, com uma melodia simples e tocante. Uma canção de distância urbana, de jovem sozinho, sem paradeiro e sem amor, numa cidade sem sol que poderia ser a Seattle de Kurt Cobain ou a Detroit de Eminem. A outra é “Nasci para chorar”, versão de Erasmo para uma canção italiana: “Eu levo a minha vida chorando pelo mundo / talvez até tivesse algum desgosto profundo / procuro na memória, procuro me lembrar / mas eu não posso – nasci para chorar...” É uma canção dilacerada, adolescente, pessimista, mas de um pessimismo “pra cima”, revoltado, sem submissão ao Destino, o pessimismo rock-and-roll de quem diz “morro, mas morro atirando”. Acabou a lista? Mas rapaz, eu ainda tinha uma quarenta!
1907) Um réptil ao volante (19.4.2009)
São duas coisas muito parecidas: um sujeito ao volante de um automóvel, e um sujeito ao teclado de um computador. E ficam mais parecidos ainda quando o que eles estão fazendo ali começa a ser atrapalhado – a máquina recusa-se a funcionar, ou alguém de fora interfere no que ele está fazendo. Existe coisa mais exasperante do que clicar um comando e nada acontecer? Existe tortura pior do que uma conexão lenta, ou que cai com frequência? Existe maior tormento do que uma tela congelada à nossa frente, sobre a qual ficamos passeando às tontas um cursor transformado em ampulheta?
É nisso que penso quando contemplo à distância o desespero dos motoristas no trânsito. É o engarrafamento que deixa o sujeito trancado por todos os lados, como Amir Klink na Antártida, tendo que esperar que o degelo do verão faça os carros à sua volta se moverem, permitindo que ele vá embora. É a raiva cega e homicida contra o descuidado que bloqueou seu carro no estacionamento e foi embora. É o dedo impaciente premindo a buzina sem parar, para que o décimo carro lá na frente, o mais próximo ao sinal de trânsito, perceba que ele ficou verde. É o palavrão histérico contra o imbecil que não ligou a sinaleira; é o revólver em punho contra o agressor que lhe deu uma fechada.
Artefatos tão high-tech quanto um automóvel e um computador parecem ser destinados ao nosso neo-córtex cerebral, a parte mais evoluída do nosso cérebro, que lida com linguagens, sistemas, idéias abstratas. Na prática, contudo, quem os manipula é a parte mais ancestral e primitiva do cérebro, o chamado “complexo R”, ou “cérebro reptiliano”, diretamente ligado aos nossos reflexos, nossa atividade motora, nossas respostas instantâneas ao que ocorre no ambiente. (Entre os dois, existe o sistema límbico, ou “cérebro mamífero”, responsável pela afetividade, o gregarismo, as emoções.) É este cérebro reptiliano que nos garante a sobrevivência entre predadores e concorrentes; é ele que durante milhões de anos nos fez, numa fração de segundo, decidir se valia a pena lutar contra uma ameaça ou se era melhor fugir a toda velocidade.
Automóveis e computadores, à medida que se aperfeiçoam, dão respostas cada vez mais rápidas e eficazes aos nossos comandos. Um toquezinho, e ele já obedeceu. Acostumamo-nos com isto, e o funcionamento da máquina vira um extensão de nosso sistema perceptivo e motor. O cérebro reptiliano gosta de ações e reações instantâneas, de controle total, de superação rápida de obstáculos. Por isso os motoristas e internautas ficam tão irritados quando os comandos não lhes obedecem ou quando outros motoristas interferem com sua atividade. O cérebro reptiliano é rápido, interesseiro, competitivo, pensa apenas em executar o mais rapidamente e mais satisfatoriamente possível aquela tarefa. Qualquer contratempo desperta sua ira. Quando rosnamos de ódio diante do volante ou do monitor, é a língua bífida do réptil primitivo que emerge da nossa boca.
1906) “O Quinto Poder” (18.4.2009)
Este thriller de Alberto Pieralisi é um dos filmes brasileiros mais raros e elusivos. Ouvi falar nele pela primeira vez por volta de 1967, e só consegui vê-lo agora, 42 anos depois, no Canal Brasil. A cópia exibida tinha legendas em inglês, e uma advertência de que se tratava da única cópia existente. Ao que parece o filme foi proibido pela Censura do regime militar, e suas cópias foram destruídas ou se perderam.
Ele tem uma premissa de ficção-científica: o controle mental da população através de mensagens subliminares transmitidas pelo rádio e pela TV. Sob o efeito dessa lavagem cerebral imperceptível, o Brasil entrega-se aos saques, à depredação, ao crime, habilmente sugeridos pela montagem de manchetes das páginas policiais de jornais da época (noticiando inclusive o famoso incêndio do circo em Niterói com centenas de mortos) e cenas de passeatas, quebra-quebras, etc.
Os responsáveis pela conspiração (que falam alemão entre si) pretendem com isto assumir o poder num país desorientado e caótico.
[Aqui, o filme completo:
https://www.youtube.com/watch?v=amcp7zgJHyw ]
Em seu blog no Estadão, Luiz Zanin nota as influências hitchcockianas no filme de Pieralisi, como na luta no bondinho do Pão de Açúcar e na cena final em que o chefe dos espiões é perseguido pelo Exército no interior na estátua do Cristo Redentor. As cenas de perseguição (de automóveis, inclusive) têm um dinamismo de encenação, câmara e montagem que era muito raro no cinema brasileiro em 1962.
Do ponto de vista da ficção científica, a realização visual obedece, por economia de tempo e de dinheiro, a todos os clichês dos filmes B dos anos 1950: caixas metálicas cheias de mostradores, luzes piscando, osciloscópios, etc., além de referências tipo “mensagem HRB-350”.
O mais interessante é o conceito em si, porque mensagens subliminares (ou subliminais) são raras no cinema de FC da época, e só em décadas mais recentes foram tratadas a sério, como em Videodrome de David Cronenberg (1982).
Ainda no blog de Zanin há uma informação de Marcelo Miranda de que o produtor Carlos Pedregal, espanhol, dividiu com o italiano Pieralisi a direção do filme, encarregando-se das cenas de ação e perseguição. Isto faz deste filme pioneiro de FC no Brasil uma curiosa “intriga internacional”. Pedregal também teria sido o “marqueteiro” de uma campanha de Adhemar de Barros, e o criador do curioso slogan “Rouba, mas faz” que o político paulista usou desde então.
Essas informações ganham relevo no contexto de um filme cujo tema é a manipulação da mídia para provocar o caos no país e abrir caminho para a tomada do poder por um grupo radical. Um sintoma da convulsão social provocada pelos espiões são as manchetes dos jornais bradando: “Revolução: única saída!”, diante da mortandade desenfreada que campeia no país.
É claro que o governo militar pós-64 se sentiu incomodado com o filme, que, com suas evidentes limitações, é um dos melhores que o Brasil já produziu nesse gênero, e é mais atual hoje do que na época em que foi feito.
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