sexta-feira, 1 de agosto de 2014

3566) O agente duplo (1.8.2014)



(túmulo de Kim Philby na Rússia)

Espiões duplos são um tema fascinante. Imagine só: o cara é um espião inglês, e mora em Moscou, disfarçado de adido de embaixada ou outra coisa assim. Um dia, sigilosamente, ele se oferece à URSS para entregar segredos britânicos, e é aceito. Ele começa a fazer esse jogo.  Mas a certa altura ele vai ao governo inglês e conta o que aconteceu: está trabalhando para os russos, que têm toda confiança nele... porque não se aproveitar disso? Ele ganha um aumento e, orientado pelo Serviço Srecreto britânico, passa a transmitir aos russos segredos falsos. Mais adiante, ele é descoberto pelos russos e forçado a confessar essa jogada. E têm uma idéia: por que não aproveitar a situação, dar mais uma reviravolta, e recomeçar tudo?  Os russos lhe dão um novo aumento, e ele passa a transmitir segredos verdadeiros da Inglaterra... O agente duplo ideal trabalha para os dois lados e não trabalha para nenhum. Só ele sabe a qual dos dois está de fato ajudando, e às vezes nem mesmo ele.

Um livro policial de Kyle Hunt, que li séculos atrás, tinha este ótimo título: “Quem mata torna a matar”. Eu diria que na espionagem, e na vida em geral, num sentido mais metafísico, quem mente torna a mentir. No momento em que o sujeito conta sua primeira mentira, e um raio não cai do céu reduzindo-o a pó de traque, ele percebe que é indestrutível, e aí mente de novo, e de novo, e de novo. Não me refiro a mentirinhas bobas, tipo ir beber com os amigos e dizer à esposa que jantou com o patrão. Falo de mentir para o Serviço Secreto da própria pátria. Quando nada acontece, o cara percebe que pode fazer aquilo impunemente, mesmo que suas chances de ser apanhado sejam sempre imprevisíveis.

Duas outras coisas sobre espiões. Já li um ensaio sobre espiões britânicos apontando o alto índice de homossexualidade entre eles. Segundo o autor do ensaio, ser gay no tempo da Guerra Fria não era brincadeira (vejam o que a Inglaterra fez com Alan Turing, pra dar só um exemplo). O jogo de máscaras, de duplicidades, de fingimento 24 horas por dia era algo a que um gay já estava acostumado, e para ser espião não requeria nenhum upgrade. Segunda coisa: um espião duplo, geralmente, tem um certo desprezo pela noção de pátria. Ele se liga em pessoas; é para com elas a pouca lealdade que tem. Frio, distanciado, brechtiano, embora afável e receptivo por fora, ele não tem o idealismo romântico do soldado de trincheiras, que julga defender uma bandeira, um hino, um ideal político. Mercenário mas humano, ele pode virar a casaca ao vento de um novo contexto pessoal; são assim alguns personagens de John Le Carré, Graham Greene e outros.


quinta-feira, 31 de julho de 2014

3565) Billy Wilder ensina (31.7.2014)



(túmulo de Billy Wilder)

Billy Wilder, roteirista e diretor alemão, fugiu do nazismo e veio parar bastante jovem em Hollywood, onde dirigiu filmes como Pacto de Sangue (1944), Crepúsculo dos Deuses (1950), A Montanha dos 7 Abutres (1951), Quanto mais quente melhor (1959) etc. Numa série de entrevistas para Cameron Crowe, Wilder deu várias dicas de como construir uma história para o cinema. São dicas que valem para a arte da narrativa em geral: literatura, HQ, teatro, etc.

Dizia ele: “Quanto mais sutilmente você esconder os detalhes essenciais do seu enredo, mais competente você é como escritor”. E dizia também: “Uma dica de Ernst Lubitsch: deixe a platéia somar dois mais dois, e ela vai amá-lo para sempre”.  São duas dicas importantes e aparentemente contraditórias. Na primeira, ele nos diz para esconder elementos importantes da platéia, pegá-la de surpresa. Ocultar dados essenciais de maneira sutil, às vezes deixando-os à mostra, sem lhes dar importância, mas fazendo o público registrar a informação, para lembrar dela no momento da surpresa. Na hora do perigo, quando o mocinho achar a arma que vai salvá-lo, a arma tem que ter sido mostrada, sob outro pretexto, lá no começo da história; mas houve fair-play. “Eu mostrei, vocês é que não deram a devida atenção”.

Wilder diz também: faça o público tirar suas conclusões, sem lhe dar a resposta. Dê apenas as pistas. Obrigue-os a ficar de olho em tudo. Quando o espectador deduz algo e vê essa dedução confirmada, ele se acha inteligente, e com isso acha o diretor inteligente também. Raymond Chandler citava como bom exemplo de roteiro esta cena, cujo objetivo era mostrar um casal em crise. Marido e esposa entram no elevador. Marido de chapéu na cabeça. Elevador para noutro andar. Entra uma mulher. Marido tira o chapéu, cavalheirescamente. O roteiro fornece o 2+2 e a conclusão é por conta da platéia: ele não dá a mínima para a esposa. (O exemplo é dos anos 1940: como seria um exemplo equivalente para 2014?)

Esses conselhos (estimular a surpresa, estimular a dedução) mostram que uma das raízes da narrativa é a interatividade.  É da tensão entre essas perguntas e respostas que a narrativa (literária, cinematográfica, etc.) vai construindo sua relação com o leitor, e se tanto o autor quanto o leitor são inteligentes, essa relação vai se tornando cada vez mais complexa e prazerosa. Vira um jogo. Eu diria que nesse aspecto a história de mistério (mais tipicamente o mistério policial, detetivesco) é a narrativa por excelência, porque nenhuma outra se baseia tanto nesse jogo de pequenos enigmas que brotam num minuto e são respondidos (ou adivinhados pelo público) no minuto seguinte.


quarta-feira, 30 de julho de 2014

3564) A mensagem do livro (30.7.2014)



Um dos vícios mais recorrentes na apreciação de um livro, consequência de um ensino errado de literatura no colégio, é ter que perguntar, como num guia do professor: “Qual a mensagem do livro? Qual a idéia que o autor quis transmitir?” E coisa e tal. Não estou dizendo que um livro não possa ter uma mensagem. Há muitos que têm, mas geralmente são os mais chatos e desnecessários. Foram provavelmente escritos por pessoas que ouviram esse tipo de questionário na escola, e a partir daí começaram a ler os livros em busca da mensagem de cada um. Acabam largando os livros rapidinho ao perceber que eles não têm mensagem nenhuma, ou têm duas ou três mensagens contraditórias, ou têm milhares de mensagens que não batem umas com as outras, etc.

Um dia esses leitores tornaram-se escritores.  Seu processo criativo, provavelmente, passou a acontecer assim: 1) Conceber uma mensagem, geralmente com o objetivo de ensinar a alguém alguma lição-de-vida útil; 2) Imaginar uma situação em que essa mensagem seja necessária para um personagem ou grupo de personagens que a desconhecem; 3) Fazer com que, no momento culminante, perto do fim, um dos personagens diga a mensagem, de forma clara e inequívoca, aos demais. (E ao leitor.)

É a existência desse tipo de literatura simplória que acaba prejudicando o restante, porque começam a cobrar esse tipo de mensagismo rudimentar aos livros de verdade – e a considerá-los livros defeituosos, “herméticos”, “elitistas”, quando descobrem que eles não funcionam dessa forma. Ficam como certos leitores de fábulas (de Esopo, de La Fontaine, etc.) para quem a “moral da história” é o que importa, e a história está ali só para justificar a moral. (Por isso as melhores fábulas são somente a história, e deixam a “moral” para ser descoberta – ou inventada – por quem lê.)

Uma ótima resposta para isso é a do dramaturgo Harold Pinter, que uma vez recebeu uma carta de uma espectadora de sua peça “The Birthday Party”. A madame dizia: “O sr. pode me informar o significado desta sua peça? Há três pontos que não compreendi: 1) Quem são os dois homens? 2) De onde veio Stanley? 3) Devemos considerá-los normais? Espero que o sr. entenda que sem as respostas a estas perguntas não poderei entender sua peça.”

Pinter respondeu: “Prezada senhora: Ficaria grato se me explicasse o significado de sua carta. Há três pontos que não compreendi: 1) Quem é a senhora?  2) De onde a senhora vem?  3) Devo considerar que a senhora é normal?  Espero que a sra. entenda que sem as respostas a estas perguntas não poderei entender sua carta.”

E nada mais disse nem lhe foi perguntado.



terça-feira, 29 de julho de 2014

3563) Forster e a burocracia (29.7.2014)



Quando se diz que o ser humano vai ser destruído por máquinas que ele mesmo criou, tem gente que imagina logo hordas de andróides assassinos ou de robôs desregulados. Não vou dizer que isso é impossível, porque não quero queimar minha língua daqui a dez anos, mas por enquanto acho que essas tais máquinas destruidoras são de outra natureza. A burocracia, por exemplo, é uma máquina – um conjunto de processos interligados, cheios de vetores hierárquicos (séries de atos que só podem ser cumpridos se outros atos forem cumpridos primeiro) e assim por diante. Numa crônica anterior (“O que é um Loop”, em http://tinyurl.com/myqtz37) falei sobre um desses aspectos.

Conta-se que quando publicou em 1922 seu livro de viagens Alexandria, E. M. Forster (autor de Passagem para a Índia, etc.) recebeu certo dia uma carta da editora, informando que tinha havido um incêndio no depósito e, entre outras coisas, toda a primeira edição do livro fora destruída. Por sorte a edição estava no seguro, o seguro já tinha sido pago, e acompanhava a carta um cheque (“com uma soma substancial”) referente aos direitos autorais daquela tiragem.

Forster achou aquilo muito chato, mas não tinha jeito a dar; embolsou o cheque e foi pensar noutra coisa. Semanas depois, entretanto, chega outra carta. Os editores acabaram descobrindo que o porão do armazém havia sido poupado do fogo, e justamente lá tinha sido estocada toda a edição do livro dele. Parecia uma solução, mas na verdade era um problema. A destruição tinha sido comunicada à seguradora, que achara suficientes as provas apresentadas. O dinheiro já tinha sido pago e provavelmente gasto, ia ser difícil não só devolvê-lo como desmanchar todos os trâmites legais que conduziram ao pagamento. Qual foi a solução que a editora encontrou? Incinerar os livros.

Acontecem coisas assim o tempo todo na administração pública e privada. Me lembro que o Brasil já mandou destruir milhões de toneladas de café colhido e ensacado para provocar escassez do produto e aumentar o preço dele no mercado.  A história me lembra também certas soluções políticas em que é impossível desfazer um erro e o jeito é cometer outro erro do mesmo tamanho para equilibrar os pratos da balança. Em Limite de Segurança de Sidney Lumet, os EUA jogam sem querer uma bomba atômica sobre Moscou. Para mostrar que estavam de boa fé e evitar um holocausto nuclear, o presidente norte-americano manda jogar uma bomba idêntica sobre Nova York. Os processos da política, da administração, da economia são de tal natureza que um erro acaba gerando uma cadeia de soluções tão catastróficas quanto o problema original. E la nave va.


domingo, 27 de julho de 2014

3562) O momento poético (27.7.2014)



("A Grande Onda de Kanagawa", de Hokusai)

Em sua biografia do poeta japonês Matsuo Bashô, o mestre do haikai, Paulo Leminski transcreve este curto poeminha do mestre: “dia de finados / do jeito que estão / dedico as flores”. E comenta: “Na festa de Ulambamma, os japoneses homenageiam os mortos. Nesse dia, todos colhem flores para levar aos que já se foram. Bashô, também: é um budista, articulado com os ritos da tribo. No haikai, porém, a subversão súbita: as flores que vê, Bashô as oferece aos defuntos, sem tirá-las do pé. Uma afirmação de vida: um sim para a poesia.”

Olha que coisa mais bonita. Ele olha para as flores. Poderia arrancá-las e levá-las até os túmulos. Mas ele prefere deixar as flores vivas, unidas à sua planta de origem; prefere permitir que elas continuem vivendo mas, num gesto simbólico, dedicar a beleza e a vida delas aos mortos humanos, aos que já se foram. E ele deposita as flores, apenas metaforicamente, aos pés dos mortos queridos.

Isso é o gesto poético. E ele se equivale, de maneira antipodamente semelhante, ao gesto modernista e irreverente de Marcel Duchamp quando pegou um mictório de porcelana e o enviou a uma exposição de arte sob o título de “Fonte”. O que houve de artístico nesse gesto de Duchamp (que, infelizmente, produziu uma gigantesca bola-de-neve de mal-entendidos, porque cada sujeito preguiçoso julgou-se no direito de pegar qualquer objeto encontrado e chamá-lo de obra de arte)?  Duchamp percebeu que um ingrediente essencial da arte é essa intenção, esse modo-de-ver, essa decisão íntima do artista projetando significado no gesto de depositar flores invisíveis ou de sagrar como arte um objeto banal.

Note-se que Bashô não se limitou a pensar no gesto de dedicação das flores: ele escreveu um haikai descrevendo esse gesto. O haikai substitui o gesto, de forma artisticamente satisfatória (pelo menos pra mim). Um gesto convencional (levar flores aos finados) tornou-se artístico quando não foi executado e foi substituído por uma obra de arte (o poema). No caso de Duchamp, a obra de arte (uma pintura, uma escultura, etc.) que alguém talvez esperasse dele não foi executada: foi substituída por um gesto banal, o de enviar alguma coisa. Dois fatos artísticos, um sendo o contrário do outro, e os dois se equivalendo.

A extrema sutileza de ambos passou despercebida não só pelos críticos que os combateram, como também pelos pseudo-discípulos que tentaram imitá-los. Porque do ponto de vista artístico um gesto assim só pode ser pensado uma vez, um momento poético assim pertence por inteiro a quem o concebeu, e não pode ser imitado ou transformado em gênero, em ideologia, em atitude. É arte porque é único. E morreu aí.


sábado, 26 de julho de 2014

3561) Achei dentro dum livro (26.7.2014)



Quando estou folheando os livros das minhas estantes encontro de tudo um pouco. Como tenho o costume de fazer anotações, uso muitas vezes como marcador de página uma pequena ficha pautada, onde vou anotando detalhes ou os números de páginas onde há algo interessante, quando é um livro que por um motivo ou outro não quero rabiscar. (Quando é um livro comum, anoto tudo na última página em branco.)  Mas me acontece muito encontrar fotos, tickets de avião (nos livros que leio durante o voo), bilhetes, contas, canhotos de ingressos de cinema ou de shows, cartões postais, o escambau. O websaite Abebooks publicou um levantamento feito com livreiros de livros usados do mundo inteiro, onde eles relatam o que acham nos acervos que vêm parar nas suas mãos. (Aqui: http://tinyurl.com/5q2qlk)

Há a história de uma mulher que comprou um livro antigo num bazar, no Novo México, e encontrou dentro 40 notas de mil dólares. Essas notas, de uma série impressa pela última vez em 1934, valem mais até do que seu valor nominal.  Outro item valioso foi achado por um livreiro da Califórnia: um cartão de Natal com uma assinatura ilegível, que ele levou anos para identificar como sendo de L. Frank Baum, o autor de O Mágico de Oz. O cartão foi vendido depois num leilão por 2.500 dólares. Alguns livreiros são mais honestos do que o normal. Uma livreira de Idaho achou cem dólares num livro e os devolveu à pessoa que deixara o livro em consignação. (Tenho certeza de que muitos leitores dirão: “Ah, não tinha que devolver! Se o dono do livro não viu o dinheiro, azar o dele!”)

Esses livreiros já acharam dentro de livros antigos uma receita médica datada de 1785, uma carta manuscrita por C. S. Lewis (o autor de Narnia), o texto integral de uma conferência astronômica proferida por alguém em 1895. Há também registro de pequenos objetos encontrados entre as páginas, desde um dente de criança até um anel de ouro com um pequeno diamante ou uma tesoura ou uma camisinha não usada ou uma mecha de cabelo ou um biscoito de chocolate ou uma fatia de bacon. Um livreiro de Michigan achou num livro sobre futebol um cupom de poupança no valor de 500 dólares, e ao contactar a família descobriu que o cupom estava perdido há onze anos, e eles tinham revirado a casa inteira à sua procura. O achado acabou custeando a entrada de uma das filhas, agora adulta, na universidade.

Um livro qualquer acaba se tornando às vezes um bolso de ocasião, um pequeno cofre, uma cápsula do tempo onde a gente se depara com o estranho, o bizarro, o inesperado. Alguém poderia organizar uma antologia de contos com esse tema. Dou esta idéia de graça.


sexta-feira, 25 de julho de 2014

3560) A volta de Sherlock (25.7.2014)



Foram os fãs de Sherlock Holmes que criaram a “fanfic”, a ficção escrita por fãs utilizando os personagens e o universo que admiram. Depois da morte de Conan Doyle em 1930, seus leitores, insatisfeitos com a impossibilidade de novas adições ao Cânone (o conjunto de 4 romances e 56 contos escritos por Doyle sobre o detetive) começaram a inventar e publicar histórias por conta própria. Hoje, a biblioteca sherlockiana encheria uma livraria de boas dimensões.

Uma novidade recente é o bom romance The House of Silk (2011); no Brasil “A Casa da Seda”, pela editora Zahar, 2012, tradução de Maria Luiza X. de A. Borges.  Anthony Horowitz, um conhecido autor de romances juvenis da Inglaterra, emula com habilidade e sem exagero o estilo de Doyle, e seu livro é bastante fiel ao ambiente, à época e aos personagens. O especialista Leslie Klinger apontou inúmeros erros de detalhe, mas nenhum livro é escrito para satisfazer totalmente os especialistas; o próprio Klinger deu ao romance uma nota B+ e o considerou “perfeitamente satisfatório”.

Holmes e Watson estão em Baker Street e a chegada de um cliente os envolve em dois mistérios que parecem correr lado a lado, e que o autor faz convergir de maneira surpreendente e plausível, no final. O livro tem as habituais “set-pieces” sherlockianas, como o truque de adivinhar o que Watson está pensando, os disfarces irreconhecíveis, a fuga mirabolante, os comentários aparentemente “non sequitur” feitos por Holmes como se desse pistas enigmáticas sobre suas deduções.

Não gosto muito das paródias que ridicularizam os personagens de Doyle, embora algumas sejam divertidas, como as de Maurice Leblanc, Robert L. Fish e até do nosso cartunista Carlos Estêvão. O grande desafio da fanfic sherlockiana, o que pode elevá-la de fanfic a literatura profissional, é saber captar a época, a dinâmica da dupla de personagens, os esquemas de dedução, as eventuais explosões de ação física e de violência. O mistério sherlockiano é um sub-gênero nobre do romance policial. Parece simples, porque “tudo já está pronto”, mas por isso mesmo exige uma criatividade e originalidade extra do autor. Horowitz se sai bem.  A aventura que concebeu tem um lado cruel e repulsivo que não está presente no Cânone, mas é a cara da época vitoriana. São os “outros vitorianos” estudados por Steven Marcus em The Other Victorians: a Study of Sexuality and Pornography in Mid-Nineteenth-Century England (1966), um submundo criminoso habitado por nobres, fidalgos, pares do Reino e outros adversários poderosos e maquiavélicos, quase capazes de derrotar Sherlock Holmes num combate sem trégua e sem mercê.  Eu disse: quase.


quinta-feira, 24 de julho de 2014

3559) Smartfone (24.7.2014)




Será que a grafia “smartfone”, que já vejo sendo usada por aí, vai substituir “smartphone”, o termo original em inglês?  A tendência natural da nossa língua, ao assimilar palavras estrangeiras, é escrever da maneira que se pronuncia: futebol, gol, chofer, etc.  Uma partícula escrita com intenção de pronúncia inglesa atrapalha o usuário, está pedindo para ser mudada. Temos aí um ponto de inflexão, algo que está assumindo uma forma que, por algum motivo, tende a não se fixar, a ser substituída por alguma outra. Aquilo que o I-Ching chama de linhas instáveis ou mutantes, pequenos detalhes que estão a ponto de se transformar noutra coisa.

Daí que eu prefira escrever “websaite” e não “website”, e já expliquei esta opção num artigo recente (http://tinyurl.com/nh6nno8). Me parece que trocar um “ph” por um “f” é muito mais simples, uma transição quase imperceptível, ajudada aliás pela nossa reação subliminar de considerar as coisas escritas com “ph” como antiquadas.  Imagino quanto tempo levará para a língua brasileira a eliminar esse “ph” de “photoshop” e adotar de vez a grafia “fotoshop” (na qual “s” seria mantido para evitar a confusão com “chope”, a bebida.).

É bom lembrar que as letras K, W e Y foram (ao que me consta) recuperadas para nossa língua por uma dessas reformas ortográficas recentes. Não creio que a partícula “web”, por exemplo, venha a ser substituída por “ueb” ou “uébi”, como querem alguns usuários. Creio que o “w” em casos assim tende a se fixar. Por outro lado, as grafias que induzem a pronúncias erradas deveriam ser substituídas, daí que eu prefira escrever draive, pendraive, saite, etc.  (Mas nem sempre cola – os implacáveis revisores restituem a forma anterior com fervor inquisitorial.)

E o que fazer com “iPhone”?  Esse “i” minúsculo que se pronuncia “ái” é uma marca visualmente muito característica; na verdade considero esta uma palavra composta mas sem hífen, a junção sendo assinalada pela manutenção da inicial maiúscula no segundo termo. Pode ser que um dia digamos (com coerência acústica) “aifone”, ou, por escrito, “aiFone”, mas duvido. Esse “ai”, que soa como uma queixa ou lamento (ao invés de induzir o individualista “Eu” do termo em inglês), não vai pegar facilmente em português.

A lógica sugere que “wi-fi” seja um dia trocado por “uai-fai”, mas não sei se teremos essa ousadia coletiva. “Uai”, que sugere interjeição mineira, corre o risco de introduzir um ruído, desviar a atenção do leitor e fazê-lo ter uma primeira interpretação errada da palavra. Como o “w” está se reincorporando ao alfabeto, o termo poderia virar “wai-fai”. Isso cola? Que o tempo o diga.


quarta-feira, 23 de julho de 2014

3558) Escrever por dinheiro (23.7.2014)



O escritor Neil Gaiman conta que no início de sua carreira, ainda pouco conhecido, recebeu um telefonema de uma editora propondo-lhe trabalho. Queriam saber se ele estava disposto a escrever um livro sobre um artista de rock, uma espécie de biografia. Ele se entusiasmou com a idéia e começou de cara a propor temas: Velvet Underground, David Bowie, Elvis Costello... A editora o interrompeu e disse: “Calma, não é você quem escolhe. Me diga: você quer escrever um livro sobre Barry Manilow, sobre o Def Leppard ou sobre o Duran Duran?”.  Gaiman acabou topando escrever sobre o Duran Duran, que era uma banda relativamente nova, porque, diz ele, “para escrever sobre Barry Manilow eu teria que escutar pelo menos uns 40 discos de Barry Manilow”.  O livro foi escrito, e é Duran Duran: The First Four Years of the Fabulous Five (1984).

Escritores principiantes têm às vezes uma idéia meio maniqueísta sobre os conceitos de trabalho artístico e trabalho comercial. O trabalho artístico seria aquele que “vem de dentro”, como se costuma dizer. Uma idéia que o artista tem por uma mera idiossincrasia pessoal, uma inspiração, um impulso, uma veneta soberana do seu Ego.  E o trabalho comercial seria aquele que ele faz por dinheiro, pressionado por pessoas de moral escusa que percebem o momento financeiramente fragilizado que ele vive; um trabalho que não se distingue da prostituição, da venda de favores sexuais para pagar o aluguel, o condomínio e o seguro do carro.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra, pessoal. O que a vida real nos propõe são situações próximas do episódio relatado por Gaiman. Na minha experiência, recebo o tempo todo propostas como aquela. Nem somos totalmente livres para escolher, pois se trata se um projeto alheio para o qual estamos sendo convidados, nem somos obrigados a aceitar tudo – há sempre uma margem de múltipla escolha onde podemos escolher o que mais nos agrada, ou o que menos compromete a nossa reputação. E, no caso do artista freelancer, existe a possibilidade de dizer: “Ih, rapaz, não achei muito interessante. Chama outra pessoa, mas na próxima vez me fala de novo, pode ser que role.”

O escritor profissional não vive apenas de ter idéias geniais na calada da noite, vive do telefone que toca às três da tarde convidando-o para fazer algo em que ele nunca tinha pensado. O profissionalismo começa no momento de aceitar ou não, de ter a coragem de recusar quando o trabalho não convém, e a disposição para fazer o melhor possível depois que aceita. Até mesmo as garotas do “trottoir” têm a chance de escolher se querem entrar no carro daquele cara, ou se acham que é uma roubada.


terça-feira, 22 de julho de 2014

3557) Jogador que se joga (22.7.2014)



(Robben, o bailarino)

O jogador brasileiro confirmou e carimbou, nesta Copa, a sua fama de “flopper”, de jogador que se joga ao chão sem ter sofrido falta, fingindo ter sido atingido, para induzir o juiz à marcação de um pênalte.  Entre nós, na nossa cultura da malandragem, isto é visto como esperteza, como inteligência. Quem age assim tenta fazer de otário o jogador do outro time (que poderia ter feito a falta, optou por não fazê-la, e foi punido por isso) e o juiz (que acreditou na mentira).  

Essa malandragem de “cavar pênalte” é da mesma categoria do sujeito que paga o restaurante com cheque sem fundo, do sujeito que falta ao trabalho porque tomou uma carraspana e pede atestado médico a um doutor amigo, do sujeito que combina com alguém para que roube seu carro, embolsa o seguro e ainda vende o carro por baixo do pano. É disso que muitos brasileiros se orgulham.

Pois olhe, se eu fosse jogador de futebol e entrasse na área com a bola dominada eu faria como faz Lionel Messi – alguém só me derrubaria com um tiro de espingarda 12. Quem parte pra fazer o gol quer fazer o gol, mas esses atacantes de hoje quando sentem o bafo do zagueiro desabam como florzinhas no vendaval. Nesta Copa do Mundo, o ridículo pênalti marcado a favor do Brasil no jogo de estréia contra a Croácia (pênalti salvador, aliás), numa encenação patética de Fred, acabou sendo prejudicial a longo prazo. Pênaltis verdadeiros a nosso favor acabaram não sendo marcados, porque nosso time perdeu a pouca credibilidade que já tinha. É um tanto humilhante sair navegando pelos websaites de futebol mundo afora e perceber que nós, os ex-reis do futebol, somos hoje objeto de zombaria do mundo inteiro (antes mesmo dos 7x1), como covardes e desonestos, que têm medo de tentar o gol.

São só os brasileiros? É somente Neymar que é “cai-cai”?  Claro que não.  Esta Copa nos trouxe de volta o holandês Robben, um notório cavador de pênaltis graças a suas quedas acrobáticas (ganhou um de graça contra o México). Mas esse traço indica um indivíduo (ou todo um grupo social) que tem medo de ousar e prefere transferir a responsabilidade para alguém. O jogador-que-se-joga poderia tentar o gol, mas tem medo de perder e ser cobrado; acha melhor fingir que sofreu um pênalte e jogar a responsabilidade nas costas de um colega. É curioso que, apesar da aparente facilidade do pênalte, inúmeros atacantes desfrutam de uma chance muitíssimo melhor do que a cobrança de um penal, mas a covardia os inibe de tentar. Pode ser um sintoma daqueles povos que acham que o Governo é quem tem de resolver todos os problemas, e ele, cidadão, não tem dever algum, tem só direitos.