domingo, 23 de novembro de 2014

3666) Gregory Rabassa (23.11.2014)


Terminei de ler este livro pequeno, leve, escrito com a pena num idioma e a tinta em outro.  São memórias e relatos de Gregory Rabassa, que traduziu para o inglês obras como Rayuela de Julio Cortázar, Cem anos de solidão de Garcia Márquez, Brás Cubas de Machado, A Maçã no Escuro de Clarice e Avalovara de Osman Lins, além de outros títulos de peso. A capa cita uma frase de Márquez chamando Rabassa “o melhor escritor latino-americano no idioma inglês”.  Harry Ingham, um amigo meu da Califórnia, dizia que tinha vontade de aprender a escrever em espanhol só para ser traduzido ao inglês por Rabassa.

O livro é If This Be Treason – Translation and its Discontents – a Memoir (NY: New Directions, 2005). Tem uma parte introdutória de umas 50 páginas onde ele fala de si, relata sua carreira, etc. Na segunda parte, cada capítulo é sobre um autor que ele traduziu; são 31 capítulos.  Rabassa discute detalhes do processo de tradução, mas, como o livro se dirige ao leitor dos EUA, a maior parte dos comentários é para dar uma idéia de quem são esses autores nos seus países de origem.  Assim como eu não tinha idéia de quem fossem Demétrio Aguilera-Malta ou Luís Rafael Sanchez, deve haver quem não conheça Vinicius de Moraes ou Dalton Trevisan.

Rabassa tem ascendência latina, já que seu pai era cubano, e o estudo do espanhol (e do português, mais adiante) não foi uma mera estratégia de escolha de nicho acadêmico. Teve um papel afetivo, era um alargamento de um universo cultural que já lhe pertencia. Ele acabou traduzindo por necessidade, e menciona a revista literária Odyssey, da qual participou bem jovem, depois de formado.  A revista (que só produziu seis números) era de amigos seus, e seu trabalho consistia em ir para as bibliotecas remexer nas revistas literárias em espanhol e ver o que estava rolando de interessante.  Dessa maneira, disse ele, a revista publicou textos de numerosos autores desconhecidos àquela altura mas que depois se tornariam grandes, como Nélida Piñon.

Um dos comentários mais interessantes dele é sobre o seu hábito de traduzir um livro à medida que lê. Em vez de ler tudo antes, anotar, pesquisar, e só depois sentar para digitar o texto, ele vai lendo e digitando, lendo e digitando.  Eu já traduzi assim, mas não dá certo com qualquer livro; para alguns, é preciso saber de antemão para onde está indo a narrativa.  Mas ele traduziu assim alguns dos livros mais complexos e densos de nossa literatura, e todos os trechos que conferi me parecem muito bons. Talvez a identificação de pensamento com o autor (como ele tinha com Cortázar, p. ex.) conte pontos nesse processo.




sábado, 22 de novembro de 2014

3665) Gritos na noite (22.11.2014)



(foto: Diego Martins)

Quando vai se reduzindo o bradar das cornetas e das buzinas, o espoucar dos fogos, o estalo dos rojões, uma brecha de silêncio espreita o sono noturno da cidade, onde nunca existe silêncio completo. E aquele rumor distante então retorna, como o sol brilhando por trás do céu enevoado. Aquele som antigo que nos corrói a alma como uma corrente de água gelada. Quantos já foram embora daqui por não aguentar mais o alarido desse sofrimento anônimo e sem rosto. Ruas inteiras de casas fechadas, prédios abandonados com um X de tábuas em cada janela, bairros onde o mato já toma conta. Rumaram todos com sacos às costas ou malas na cabeça para a rodoviária, para a estação do trem ou para a estrada apinhada de carroças, migrando, fugindo, deixando para trás a cidade das noites insones, das noites atravessadas com o coração em frangalhos e os ouvidos tapados com algodão inútil.

Alguém dirá: Ir embora?! Mas que preço barato a se pagar, em troca da paz, do silêncio, do sono de janelas escancaradas, do passeio a pé madrugada afora. Sim, mas aqui só ficam mesmo os que já nasceram ouvindo esses gritos, e que, por mais que chorassem por eles e fossem punidos por não suportá-los, acabaram aceitando-os, tornando-se deles, tornando-os parte de si.

Eles variam. Ou é uma voz de homem sofrendo uma dor intensa ou uma voz de mulher idosa lamentando uma dor antiga. Crianças infelicitadas por gente sem coração. Uma multidão, durante horas, rugindo de terror diante de algo gigantesco e indecifrável, ou a voz abafada, lamuriosa, de alguém que pedia, pedia uma coisa, uma coisa que ninguém no mundo tinha condições de lhe dar.  Cada noite um contracanto e um cânon de vozes diferentes, cada qual se erguendo na escuridão como uma navalha, cortando devagar a carne da alma.

Quem grita?  Ninguém sabe. Antigamente mal se erguia um grito desses e uma expedição saía, avenida afora, com lanternas e cordas, prece de exorcismo nos lábios e autorização judicial nas mãos. O grito, como um arco-íris ou um horizonte, nunca estava no local quando eles chegavam.  Como se sua aproximação empurrasse para longe essas almas que uivam, essas presenças penadas que reclamam alguma coisa sem palavras e sem mensagem, um resíduo sonoro de algo que deixou de ser humano, virou esse som sem corpo, como um vento que se esgueira através de uma fenda e produz um silvo, um chacoalho, um rugido, uma vibração física causada por algo que não é físico.  Foi assim que os cientistas nos explicaram tudo, antes de guardarem os óculos, fecharem a pasta, apertarem nossa mão e voltarem para o helicóptero que se ergueu no ar com seu ruído ensurdecedor e os levou embora também. 



sexta-feira, 21 de novembro de 2014

3664) Na Biblioteca (21.11.2014)



Não costumo encher esta coluna com relatos autobiográficos. Isto aqui não é uma coluna social, embora tenha algo de coluna socialista. Pode ser vista também como uma coluna vertebral ou espinha dorsal da memória, em que os elementos vão se encaixando uns aos outros como vértebras, ou como vagões de trem. Não importa o símile, desde que o resultado seja longo, firmemente encaixado, e flexível.

Resumindo: dias atrás estive em Belo Horizonte para fazer uma palestra no Circuito Literário da Praça da Liberdade. O detalhe é que a palestra foi na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, que fica ao lado do Palácio da Liberdade.  Com isto, retornei depois de 43 anos àquele edifício que teve um papel crucial na minha formação como leitor.  BH é uma das quatro cidades onde morei pra valer. As outras são Campina Grande, claro, Salvador e este Rio de Janeiro em cuja terceira margem vivo hoje a circular minha canoa.  Vivi em BH dos 19 aos 21 anos, estudando cinema na Universidade Católica (naquele prédio do lado oposto do Palácio), e morando numa pensão a 50 metros dali (não existe mais: fotografei o prédio imponente com que a gentrificação implacável a sepultou no solo).

Minhas manhãs e tardes eram passadas naquela biblioteca de enormidade borgiana (e eu ainda não conhecia Borges!).  Foi lá que tirei por empréstimo os dois primeiros livros que li em inglês, The Time Machine de H. G. Wells e The Martian Chronicles de Ray Bradbury.  Era lá que eu decifrava, linha por linha, as críticas do Cahiers do Cinéma. Foi lá que eu li (olha só que biblioteca democrática, em pleno governo Médici) Os Protocolos dos Sábios de Sião, o Minha Luta de Adolf Hitler, as Origens da Revolução Russa de Kochan, Trotsky: o Profeta Armado de Isaac Deutscher.  Lembro que nessa estante havia dois outros livros de Trotsky: Stálin, com umas 500 páginas, e Os Crimes de Stálin com 800.


Fui embora de BH e a biblioteca ficou como o quarto de Manuel Bandeira, “intacto, suspenso no ar”. Aparece de maneira fugaz no meu conto “Exame da Obra de Giuseppe Sanz”, no livro Mundo Fantasmo (que deu seu nome a este blog).  Hoje, à sua entrada, veem-se as estátuas do grupo do Encontro Marcado: Fernando Sabino, Oto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos. Era um pouco desse espírito que me iluminava, junto a Lincoln Cunha, Elizeu Ewald, Régis Frota, Paulo Sérgio Braz, Geraldo Pires, João Antonio de Paula e tantos outros amigos que o vento leva e o tempo traz de volta.  Em sua honra, tomarei um café e comerei um doce-de-leite em forma de losango, em alguma madrugada silenciosa e aberta para o futuro. 


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

3663) Conto curto (20.11.2014)




(foto: Rui Palha)

Imagine uma cidade à noite, moderna, mas centrão velho decadente de alguma capital européia.  Centrão perto do cais do porto, onde esta rua aqui está deserta e na próxima tem dez bares cheios.  E imagine um sujeito andando apressado, não como quem foge de alguém, ou está com medo que alguém surja de uma sombra e o esfaqueie; mas como alguém que está um pouco atrasado para um compromisso mas está tranquilo, já recalculou seu tempo e sabe que naquele passo chegará na boa.  O homem anda, passa por arcadas vistas de baixo para cima, cruza pela faixa um asfalto molhado e brilhante, atravessa becos onde só se veem latas de lixo e o onipresente gato filmando tudo com os olhos.

O homem está avançando pela rua e agora está sendo visto de dentro de uma sala no quarto andar de um edifício vetusto e exuberante, como um hotel decandente para aristocratas que há vinte anos não consegue reformar suas instalações.  São dois homens de roupa escura e uma mulher com uma taça na mão.  Lá vem, diz um deles, atraindo a atenção dos dois, que conversavam em voz baixa.  O homem junto à janela tem os olhos de um demônio e o cavanhaque de um impostor.  O homem mais jovem é enorme, tem a barba por fazer, exibe um coldre-de-arma em diagonal no peito.  A mulher, bem, a mulher é a única coisa que eles dois enxergam, e essa foi a tragédia dos três.

O homem veio, a porta do edifício foi aberta, ele subiu os quatro andares, bateu à porta.  Abriram e ele se deparou com o trio: a mulher sentada bebericando seu gimlet, o homem mais velho de braços cruzados junto à janela, o grandão armado fechando a porta às suas costas.  Ele cambaleou, caiu de joelhos no meio da sala e recitou um soneto de Shakespeare.  Foi percorrido por um estremeção, tombou, e pareceu desacordado por algum tempo.

“Recebeu o implante dez anos atrás: este endereço, o texto, tudo", diz o homem mais velho.  "Mora a seis mil km daqui, e gastou tudo que tinha para cumprir essa missão sem sentido que lhe impusemos.”  O recém-chegado dormia, ressonava sonoro e largadão. O homem armado estava perplexo. “É hipnotismo?”  “Não,” disse o outro, “é uma recriação high-tech disso. Funciona com senhas.”  “Números?”  “Não,” foi a mulher quem respondeu. “Palavras.”  Virou-se para o mais velho e disse: “Vercingetórix em Mohenjo Daro”.  O rosto dele amarelou e ficou tão artificial quanto o cavanhaque.  Ela disse ao outro: “Weltanschauung no Seridó”.  O homem desabou, fulminado. Ela os revistou, pegou tudo que precisava, inclusive do homem que dormia.  Olhou bem para o rosto dele.  “Dez anos e não mudou nada,” pensou ela, “e ele dizia mesmo que iria até o fim do mundo até me encontrar”.




quarta-feira, 19 de novembro de 2014

3662) Dicionário Aldebarã VIII (19.11.2014)



O planeta de Aldebarã-5 tem uma civilização influenciada pelos colonizadores terrestres.  Seu vocabulário exprime as características da natureza do planeta, e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura.  Confiram os verbetes abaixo, recolhidos, meio ao acaso, do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso.

“Canflas”: Cavernas com entradas em pontos diferentes, que servem de túnel e de atalho para os camponeses.  

“Domarb”: Rito de passagem para rapazes adolescentes, envolvendo pescaria, jejum e anamnese.  

“Sancros”: Imagens humanas como ex-votos, feitas por artesãos anônimos, e entregues a qualquer pessoa que tenha um rosto parecido com aquele.  

“Ampressim”: Prato de carne cozida com frutas, típico do inverno, com centenas de variantes.  

“Marlotch”: Criatura sobrenatural, espécie de tubarão que nada na terra, cruzando o chão sem furá-lo.

“Carandoley”: Dança folclórica de migrantes, sempre dramatizando cenas e ações de sua cultura que os locais são incapazes de compreender.  

“Perenides”:  Fontes de água gasosa que só começam a jorrar quando uma pessoa se aproxima.  

“Galfeiras”: Cestos de vime interligados, feitos de módulos conjugáveis, para levar frutas, flores, etc.  

“Mintales”: Próteses decorativas e trocáveis, para ajudar e divertir crianças que perderam membros na guerra.  

“Alanturas”: Espécie de lagartixa doméstica, muito rara, que se diz ter poderes proféticos e precisa ter seus trajetos pela casa acompanhados e compreendidos. 

“Marças”: Almôndegas apimentadas surgidas de uma tradição de comidas para afugentar pedintes importunos.  

“Nanilhos”: Combinações de anéis de acordo com o estado de espírito da pessoa naquela ocasião social específica (festa, velório, etc.).  

“Gázires”: Aves de quintal, com plumagem ampla, com variados padrões em preto e branco.  

“Trassal”: Colares com retratos de pessoas queridas, usados nas ocasiões festivas de encontros familiares.

“Cardenni”: Carteiros itinerantes que em cada casa entregam encomendas e recebem outras para entregar mais adiante. 

“Ancozul”: Lugar imaginário e utópico usado por redução-ao-absurdo para criticar o presente.  

“Varmenes”: Indícios inconscientes que uma pessoa dá sobre si mesma, e que todos percebem mas não comentam. 

“Tirvos”: Caricaturas em verso que os convivas improvisam uns sobre os outros na hora dos brindes pós-ceia. 

“Peljo”: Instrumento de metal multi-uso doméstico, para o qual sempre se tenta descobrir novas utilidades.  

“Dariones”: Condecorações que os civis se atribuem por feitos de interesse coletivo.  

“Trezun”: Divindade que em cada situação de crise encarna ao mesmo tempo os dois extremos opostos.




terça-feira, 18 de novembro de 2014

3661) A Vida e os Tempos de Valdemar Pompéia (18.11.2014)



Cap. 1 – De como Valdemar ficou devendo dinheiro à galera da sinuca, e eles o ameaçaram de uma surra. Cap. 2 – De como ele e dois amigos emboscaram o líder dos marginais e deram a surra nele próprio. Cap. 3 – De como no dia seguinte ele se gabou na cidade inteira. Cap. 4 – De como na terceira noite o sujeito retornou na companhia de mais cinco, todos armados, deu uma surra nele, amarrou-o na linha do trem, pela qual deveria passar um trem daí a meia hora, e se afastaram, e ele ficou atado sobre os dormentes, pensando: “É, agora fudeu.”

Cap. 5 – De como ele, com tempo para pensar, lembrou suas leituras de ocultismo e encantações mágicas.  Cap. 6 - De como ele ficou endividado com a galera da sinuca justamente por ter tentado clonagem alquímica de alguns cordões de ouro e relógios Rolex, que acabaram virando alumínio. Cap. 7 – De como no meio daquela babel de irrelevâncias havia fórmulas que funcionavam mesmo, e não é que Valdemar pronunciou uma delas, em autêntico desespero de causa, seis minutos antes que o trem apontasse no horizonte visível.

Cap. 8 -  De como esse encantamento é um string de sensações, palavras, imagens visuais, cheiros, etc., uma espécie de sistema numérico de Funes, só que sinestésico, incluindo como “números” (que ele deve receber e reproduzir mentalmente) notas musicais, frases inteiras, aromas, cores, padrões geométricos... Enfim.  Cap. 9 - De como, mercê desse recurso, ele conseguiu concentrar sua mente-de-baixo (liberada da vigilância da mente-de-cima, que está entretida com o ping-pong sinestésico) concentrou suas forças e retardou o trem. Mesmo. 

Cap. 10 – De como anos devem ter se passado, porque onde havia um gramado ao longo da ferrovia existem agora árvores totalmente crescidas, ele vê a uma certa distância uma agora estrada por onde agora passam automóveis, e, do lado oposto dos trilhos, o muro alto de uma casa; ele não entende; sabe apenas que está detendo o trem, está impedindo que ele se aproxime; que na linha férrea o Tempo está parado, ou pelo menos avança a passo de caracol, enquanto em redor dela o tempo flui normalmente.  Cap. 11 – De como um dia dois operários estão consertando um dormente perto dos pés dele (sem vê-lo, claro) e um deles menciona: “o Natal é na semana que vem”; e vão embora e ele se pergunta: “Sim... mas Natal de que ano?”  Nunca terá resposta.  Cap. 12 –  De como Valdemar, atado aos dormentes, vê passar minuto a minuto, ano após ano, o filme do futuro alheio, e resolve se consolar com isso da impossibilidade de um futuro seu, porque sendo invisível não há quem o liberte, mas quando encher o saco é só liberar o trem.


domingo, 16 de novembro de 2014

3660) Ser antologista (16.11.2014)


Ser antologista é viver a Escolha de Sofia de ter em mãos três ou quatro contos parecidos, de autores igualmente importantes e/ou simpáticos (às vezes amigos pessoais do antologista), e saber que só vai caber um no livro, porque se incluísse todos o fato de terem tantos elementos em comum iria apenas empobrecê-los mutuamente aos olhos do leitor.

 

Ser antologista é planejar um volume gigantesco de 700 páginas, trabalhar nele durante um ano, e depois ver que os problemas burocráticos, financeiros e jurídicos reduziram essa “antologia definitiva do gênero” a umas meras 210 páginas e olhe lá.

 

Ser antologista é, depois do livro lançado e elogiado, descobrir por acaso um conto que se descoberto antes teria virado a cereja-do-bolo, mas agora é tarde, o bolo já foi ao forno e de lá à mesa.

 

Ser antologista é ter a obscura honra de ter sido o responsável pela primeira publicação no Brasil de um cara que será grande no futuro, e achar que isso é uma pequena glória que compensa algum pequeno fracasso.

 

Ser antologista é conceber uma antologia temática em torno de quatro contos “essenciais”, passar meses escolhendo as dez ou doze histórias “acessórias”, e terminar fazendo o livro somente com as acessórias, porque uma das essenciais o autor não pôde liberar, outra a tradução ficou horrível e não dava tempo refazer tudo, outra os herdeiros estavam em conflito e não liberaram e outra, relida agora 40 anos depois da primeira leitura, revelou-se não tão essencial assim.

 

Ser antologista é escolher e republicar uma história escrita há mais de um século, e descobrir que esta é a primeira vez em que ela foi incluída numa antologia.

 

Ser antologista é passar meses à procura de uma história que use uma abordagem qualquer do tema, não encontrá-la, e depois de jogar-a-toalha nessa busca achar uma história perfeita, de um desconhecido, lida por acaso numa revista quando você pernoitou na casa de amigos e aquela revista era a única coisa pra ler antes de dormir.

 

Ser antologista é ter a sua mente e sua visão do mundo modificadas aos 10 anos de idade, pela leitura de um conto, e aos 50 anos incluir esse conto numa antologia, e ver a cara de espanto do editor, quando este sugere tirar esse conto porque o livro “já está muito grosso”, e você responde, com a brusquidão de um menino de 10 anos: “Só passando por cima do meu cadáver”.

 
Ser antologista é ouvir seu editor dizer que finalmente localizou os herdeiros de um autor obscuro, descobriu que ele ainda está vivo, e que na sua última semana de vida, aos 100 anos de idade, ele recebeu a notícia de que um conto dele ia ser publicado por uma editora do Rio de Janeiro.




sábado, 15 de novembro de 2014

3659) Ele será (15.11.2014)


Ele será parido e paparicado por uma sacerdotisa ou princesa de não-sei-que clã. Será a promessa messiânica da futura ponta de um iceberg heráldico. Vai brotar num mar de lama e esqualos, onde os brasões se empurram disputando espaço à luz da História. Ele nascerá infante, vermelho, franzido, berrante, friorento e finalmente aconchegado. Nada o distingue dos outros, afora o sobrenome, e por causa deste será visto como um prodígio.

 

Ele será treinado nas artes, nas ciências, nas linguagens, nas cerimônias. Será o ponto focal da herança de mil técnicas remotas que não se pode permitir que se percam, e que têm que ser transmitidas a cada herdeiro, a cada delfim, a cada primogênito que um dia se assentará no trono e despachará com os ministros da corte. Quando se formar nele a noção do “Eu”, formar-se-á conjuntamente a de cumprir uma Missão, a de desempenhar um Papel.

 

Ele será festejado, ao chegar, com girândolas e orquestras. Será coroado, condecorado, benzido, aspergido, aclamado por entre batalhões em trajes de gala e dignitários de cinco continentes, comparecerá a missas e cultos, descerrará placas comemorativas, partirá fitas simbólicas, comandará banquetes e coquetéis.  É como se o mundo ocidental inteiro estivesse vendo, estivesse acompanhando, estivesse sabendo em tempo real o que ele realiza.  Voltará para o hotel cercado de seguranças. A luz se apagará.  Depois que a luz se apaga, todos os travesseiros são iguais.

 

Ele reinará com uma mão de ferro e uma mão de ouro.  Empunhará a caneta que prende e que solta, a cruz que profere bênçãos e excomunhões, a espada que sagra cavaleiros e decapita traidores.  E se transformará  (foi este o mundo que nos coube, por castigo ou prêmio) num especialista nas artes de vender e de comprar. O poder é isto, pensará ele, ser capaz de examinar vidas alheias, deslizes alheios, e ser capaz de condená-los sem nada sentir. O Poder é poder estar do lado de fora de tudo: “sei o que vai acontecer mas não tenho nada a ver com o fato de que uma coisa assim aconteça.”

 
Ele será venerado, mas como o mero portador do anel mágico, o mero detentor do gene certo, o mero realizador da profecia alheia.  Como todo ator, será amado ou odiado pelo personagem que recebeu, e o terá vivido com tal verdade que aceitará com equanimidade tanto a idolatria quanto o repúdio alheio. Ele será ungido e canonizado após a morte, sofrerá calúnias benignas inspiradas pelo ardor dos seus seguidores, será objeto de um culto que desprezaria quando vivo, e receberá a duvidosa imortalidade das páginas da História, das lendas apócrifas, dos prodígios sem comprovação.

3658) grandesertão.br (14.11.2014)


Na bibliografia enorme sobre Guimarães Rosa, tem muita coisa preciosa e muita coisa irrelevante.  A maldição de um grande autor é virar um cômodo pretexto para trabalhos de estudiosos meio indolentes, que têm preguiça de ter idéias originais, e estudam os autores mais famosos porque sabem que o tema é nobre e conta pontos, a bibliografia é vasta, e a esta altura ninguém espera grandes novidades a respeito.

 

Willi Bolle é o autor de grandesertão.br, assim mesmo em minúsculas como num nome de saite (Editoras Duas Cidades / 7Letras, 2004).  É uma dessas investigações minuciosas que dão gosto, porque é como se o autor relesse o livro inteiro para nós, descobrindo, destacando, reinterpretando.  A tese principal de Bolle é de que o romance de Rosa é um romance de formação do Brasil.  A história de Riobaldo vale como uma alegoria ou uma ilustração prática, rica, variada, minuciosa e nítida, da formação da nação brasileira que temos, com suas qualidades e defeitos. 

 

É uma tese detalhadamente exemplificada e argumentada.  O sistema jagunço (o exercício da força das armas, para afirmar e legitimar o poder político e econômico) está no cerne da nossa formação. Riobaldo, um homem velho que no fim da vida reconta sua história, tenta entender seu próprio percurso, justificar suas ações, e livrar-se um pouco das culpas que carrega, das muitas mortes que praticou e da cegueira que o afastou de Diadorim.

 

Bolle examina o conflito entre discurso erudito e linguagem popular, e contrasta as abordagens de Euclides em Os Sertões (o intelectual que glorifica o povo, mas não lhe dá voz) e de Rosa, que dá voz ao povo procurando a síntese entre a sabedoria tradicional e a cultura livresca. Bolle observa que o pacto com o Diabo nas Veredas Mortas é “uma representação criptografada da modernização do Brasil”.  Quando Riobaldo diz, referindo-se ao seu trato com o Demônio: “Trato? Mas trato de iguais com iguais. Primeiro, era eu que dava a ordem”, isso reflete os pactos sociais brasileiros, uma “retórica do faz de conta”, em que as duas partes (elites e povo) são supostamente iguais em direitos, mas é uma delas que manda.  Ecoando a famosa frase de Orwell na Revolução dos Bichos: “Todos os bichos são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros”.

 
Riobaldo é sempre visto como o jagunço vivendo aventuras guerreiras e uma história de amor, mas Bolle o recoloca com clareza na sua posição final de fazendeiro, dono de terras herdadas do pai biológico, alguém que fez carreira dentro do sistema jagunço e de empregado tornou-se patrão. Para isso, ele faz um sacrifício: ele é “um homem que deixou morrer o grande amor de sua vida”.
 

3657) O balão de Dumont (13.11.2014)


Li numa matéria sobre Santos Dumont que o seu quarto balão, chamado (numa contagem descontraidamente brasileira) “no 3” se destacou pelo fato de ter sido o primeiro que se elevou com gás de iluminação, e o primeiro para o qual foi construído um hangar.   O gás de iluminação substituía o hidrogênio, que até então era o gás mais utilizado para inflar os balões da época.   O vôo foi realizado no dia 13 de novembro de 1899 – o dia exato em que, segundo os videntes do "fim do século", o mundo iria se acabar. 

 

Não sei por que motivo nostradâmico se previa o fim do mundo para esta data, e não para 31 de dezembro, o que pelo menos teria alguma lógica cronológica. Vai ver que assim como 13 é 31 ao contrário, novembro é dezembro ao contrário – para essa turma pêndulo-de-foucault, qualquer coisa pode ser demonstrada verbalmente.

 

Santos Dumont, ao que parece, não tinha problemas com o número 13, pois além de desafiar o Apocalipse anunciado, construiu e pilotou um balão com este número, mesmo vindo de duas tentativas abortadas com os números 11 e 12.  O no 13, ao que parece, sofreu algum tipo de sabotagem, mas logo em seguida veio o 14 e seu upgrade 14-Bis, e o resto é história. 

 

Não imagino que Santos Dumont fosse imune a superstições. Ao que parece foi por superstição que ele pulou o número 8, e na prática isso equivale a recear o 13, o 7 ou qualquer outro.  Mas, como temos o hábito mental de tirar lições de fatos aleatórios, aproveitemos para lembrar a reação de Santos Dumont, que foi provavelmente a de dizer: "Não, não tenho medo de que o mundo vá acabar hoje.  Para falar a verdade, acabei de construir um troço complicadíssimo que nem eu mesmo tenho certeza se vai voar ou não, e não tenho tempo de pensar em fim do mundo."

 

O mundo não acabou: o balão de Santos Dumont foi quem acabou voando.  Podemos aproveitar a outra informação (foi para este balão que ele construiu o primeiro hangar) como uma prova de seu otimismo, de sua certeza de que não apenas o mundo não ia acabar, mas talvez chovesse daí a alguns dias, e era preciso guardar o balão num lugar coberto.  Era um sujeito cheio de manias, e quase todas eram de ordem prática.

 
Mas, e o número 8?  Terá sido a prudência de Santos Dumont, evitando este número tão evidentemente perigoso, que salvou o Universo em que vivemos hoje?  Bem, tudo é possível.  Mas o melhor complemento da lição será, talvez, pensar que não comemoramos a data em que Fulano deixou de voar: comemoramos aquela em que ele de fato voou, sem se preocupar com milênios, cabalismos, superstições, e catástrofes anunciadas que afinal só interessam a quem vive passando cheque pré-datado.