domingo, 21 de setembro de 2014

3610) Crônicas de Bradbury (21.9.2014)





(ilustração: Marte, de Michael Whelan)


De vez em quando me perguntam os meus “dez melhores contos de FC”, por exemplo. Eu sou um pré-nerd. Gosto mais de fazer listas do que vocês todos, juntos e ranqueados. Algumas listas de melhores valem pelo que têm de insólito e quando é uma lista comentada e justificada.  E por que dez? Por nada, por “furor simétrico”, e aliás as listas da web e das capas de revistas já quebraram esse cartesianismo. E tome-lhe: As 21 Melhores Histórias de Império Submarino High-Tech Que Acaba Destruído Por Catástrofe Tectônica.  Onde houver muitas coisas, sempre haverá dez melhores. Ou 21.



Uma lista dos Dez Mais Óbvios Melhores da FC talvez incluísse quase por unanimidade “Um Som de Trovão” de Bradbury, “Os 9 bilhões de nomes de Deus” de Arthur C. Clarke, algo obrigatório de Harlan Ellison, P. K. Dick, Theodore Sturgeon, todos grandes contistas de obra extensa. Eu incluiria Fritz Leiber, Ballard, Wells, mas duvido que a maioria o faça. Não importa, e não adianta, o oceano dos livros é grande demais para qualquer leitor.



Tem também “A terceira expedição”, uma das Crônicas Marcianas de Bradbury.  Astronautas descem em Marte, encontram vilarejo do Oeste, e nele seus entes queridos, em suas casas originais. Estavam todos vivos, então, preservados em alguma ultradimensão?  Os pais, os avós, os brinquedos da casa, o quarto em que tinham morado até os dezoito anos. Tudo intacto. Todos vivos.



E então alguma coisa acontece. O cristal do final feliz e impossível se parte.  O véu do mundo se rasga e revela um lobo faminto. Bradbury, quando se torna macabro, consegue um efeito diferente do de Lovecraft, que é macabro por ideologia, é o que sempre se espera dele.  As crônicas de Bradbury são situações semi-fantásticas que ele propõe e depois desconstrói. “Encontro Noturno”, outra delas, não é um conto macabro, é de sense-of-wonder: mostra um terrestre e um marciano, no alto de uma colina, e cada um descreve para o outro o Marte que vê, e onde está.



Macabras ou maravilhosas, as projeções mentais dos marcianos de Bradbury prefiguram todos esses universos “simulacron” ou “matrix”, projeções na mente de alguém, que as experimentam como reais.


Bradbury foi chamado o Norman Rockwell da FC (ou Rockwell foi chamado o Bradbury da ilustração). Representam uma América jovial, interiorana, democrática, e com seus defeitos, seus demônios, como é a sina do ser humano. Era sentimental, mas não mais do que Dickens, e macabro, mas num grau menos grave que o de Poe. Na verdade, ele mistura o macabro, o romântico e o cômico. Seu universo é mais próximo ao de Tim Burton, Neil Gaiman ou Charles Adams do que aos universos de Clarke e Asimov.


sábado, 20 de setembro de 2014

3609) Tempos interessantes (20.9.2014)



(livraria em Londres durante a II Guerra)


Os chineses têm uma expressão para rogar praga a alguém: “Tomara que você viva em tempos interessantes”. É o contrário de desejar a alguém paz e tranquilidade, não é mesmo?  Doris Lessing dizia que os bombardeios nazistas sobre Londres trouxeram morte e terror para muita gente, mas também trouxeram um pouco de animação para suas vidas. Uma senhora londrina bem idosa lhe disse uma vez: “It was a nice change.” (“Foi uma mudança agradável”). Pode ter sido. Para pessoas que levavam uma vida tediosa, reprimida, asfixiante, a guerra pode ter representado uma liberação, uma instabilidade onde era possível meter os pés, arregaçar as mangas, tomar decisões, viver intensamente, em suma. Tempos interessantes.



Algo parecido é dito por Colin Wilson em vários livros: que durante os bombardeios da II Guerra Mundial os londrinos se divertiam a valer nos bares instalados nos porões. O chão tremia, as bombas caíam a algumas dezenas de metros, mas a música não parava, a bebida rolava solta, todo mundo namorava e dançava pra valer. A proximidade e a possibilidade da morte (bem como a impossibilidade de fazer algo a respeito) pareciam tornar cada minuto mais carregado de significado.



F. Scott Fitzgerald (“Echoes of the Jazz Age”, 1931) dizia que a palavra jazz estava associada “a um estado de estimulação nervosa não muito diferente daquele das grandes cidades logo aquém do front de batalha. Para muitos ingleses, a guerra ainda continua, porque todas as forças que os ameaçavam ainda estão em atividade. Portanto, vamos comer, vamos beber e nos divertir, porque amanhã a gente morre.” Note-se o quanto Fitzgerald tinha razão: a guerra a que ele se refere era a Primeira, e os ingleses tinham uma percepção muito sensata do que lhes vinha pela frente.


Quem gosta de tempos interessantes são as pessoas que gostam de desafios, de aventuras, as que não temem a incerteza, que sabem conviver permanentemente com os próprios medos. Pessoas pacatas são sabem conviver com o medo. Quando estão numa situação mediana e satisfatória de estabilidade, querem que tudo permaneça assim. Têm moradia, comida, trabalho, o básico da vida; e a última coisa que desejam é que essa estabilidade precária seja ameaçada.  Diante do novo e do desconhecido, esperneiam e vociferam. São capazes de tudo para manter as coisas do jeito que estão. Entre a aventura de querer melhorar e a segurança de se agarrar ao que já têm, preferirão sempre esta última. Temem as próprias limitações, acham sempre “que não vai dar”, agarram com desespero o pássaro-na-mão que o destino lhes concedeu até agora. Não querem viver em tempos interessantes.



sexta-feira, 19 de setembro de 2014

3608) O Apocalipse do Metano (19.9.2014)



Anos atrás lançaram um livro de divulgação científica (acho que era de Isaac Asimov) intitulado Escolha a Catástrofe. Cada capítulo tratava de uma forma possível para o fim do mundo: guerra nuclear, choque com asteróides, elevação dos oceanos, etc.  Ando curioso para saber se o tal livro previa uma possibilidade que agora reencontro a todo instante na imprensa: o Apocalipse do Metano. 

Meu conhecimento de química é zero. Se eu falar alguma barbaridade não me execrem, mas como parte da opinião pública tenho o direito de compartilhar as razões da minha insônia. O metano é uma delas. Quantidades absurdamente grandes desse gás estão acumuladas no subsolo e nas águas. Em muitas regiões, principalmente em volta do Ártico, o gás está confortavelmente represado abaixo de uma espessa camada de gelo, que não o deixa escapar.  O problema é que com o aquecimento global o gelo (ou, mais tecnicamente, a camada de permafrost, “solo permanentemente congelado”) está se adelgaçando. Quanto mais fina fica, mais sujeita fica a uma quebra, que deixaria escapar uma grande quantidade de gás, numa explosão de baixo para cima.

Não é outra (li por aí) a origem daqueles misteriosos buracos que estão aparecendo na Sibéria, com dezenas de metros de diâmetro e uma fundura a perder de vista. O metano está comprimido, querendo escapar, e em qualquer ponto onde a barreira enfraqueça ele pipoca com gosto de gás. Há poucos anos vi um documentário sobre isto no The History Channel (OK, concordo que é um canal meio sensacionalista). A catástrofe me pareceu tão iminente que me desencadeou uma crise aguda de ternura pela humanidade e amor à existência. Abracei todo mundo da minha família, telefonei para amigos que não via há anos, comecei a me despedir da vida.

O metano me poupou, mas não sei até quando, principalmente depois de ver essa entrevista de uma cientista, que me pareceu bastante pessimista, até que comecei a escutar os apartes de um colega dela na platéia, que a achava otimista demais. (Veja aqui: http://tinyurl.com/n6ds54b). “Poucas décadas” é o tempo de vida que resta à humanidade, segundo eles, se for liberado apenas 1% (um por cento) do metano represado embaixo da terra.

De qualquer modo, foi bonito.  Tivemos momentos como a Grécia de Péricles, o impulso civilizatório do Império Romano, tivemos a Renascença, tivemos as Revoluções Científicas... Criamos e destruímos impérios.  Fomos à Lua e voltamos. Tivemos as artes e as ciências. Experimentamos todas as possibilidades da existência humana, uma coisa tão frágil, num planeta mais frágil ainda.  Valeu a pena? Tudo vale a pena, enquanto o ator ainda está em cena.


quinta-feira, 18 de setembro de 2014

3607) Mensagens subliminares (18.9.2014)





A arte de criar logotipos exige a concentração do máximo de significado no mínimo de signos. Num signo, em todo caso, capaz de ser visto de um só golpe, de um só lance de olhos, mesmo que depois resista a uma dissecação visual (e apresente seus documentos). Este saite (“30 Logos Famosos que Trazem uma Mensagem Oculta”) faz um apanhado às vezes surpreendente. (Aqui: http://tinyurl.com/nn6tzbs).

O cara diz: “Já reparou como o logo do Google tem quatro cores primárias em sequência, e isso é quebrado por uma cor secundária?”  Rapaz, se não me dissessem eu jamais perceberia.  Até me lembro desse conceito de cores primárias e secundárias, e até recordo do meu tempo de lápis de cor, quando eu superpunha um colorido de amarelo a um de azul, mas daí a perceber que é por isso que aquele “L” é verde, pense num cara que nasceu para ser o Dr. Watson. Isso pode ser boas e más notícias para mim.  A boa é que não sou muito vulnerável à propaganda subliminar, a ruim é que sou assim porque sou burro.

Eu não tinha percebido (e agora que vi não consigo mais desperceber) que as linhas do logo da Toyota são capazes de reproduzir as letras do nome da marca. Também não vi a bandeira da Dinamarca disfarçada no logo da Coca-Cola, logo este, o mais conhecido do mundo (a vírgula é opcional). O símbolo da igreja presbiteriana é um composto de oito símbolos gráficos religiosos diferentes, todos indiscutíveis, depois de explicados. Por outro lado, eu jamais iria supor que no logo da companhia (ou o que seja) “Eighty 20” apareçam duas fileiras de quadrados, cujas cores em código reproduzem em numeração binária os números 80 e 20.

As pessoas percebem essas coisas?  Duvido.  Se eu, que sou meio chegado a uma criptografia, inocentei-me todo diante do acima exposto, o que dizer de um ser humano normal?  “Ninguém percebe que percebe”, dizem-me os teóricos do ramo.  Passa tudo direto pro subconsciente, por uma porta especial. No meio das letras do nome do FedEx tem uma seta apontando para a frente; no logo da Vaio uma parte representa o sistema analógico e a outra o digital; o logo da Mitsubishi reproduz visualmente o que o nome quer dizer; o chocolate Toblerone reproduz uma montanha e um urso. 

Tiro meu chapéu para o logo do Spartan Golf Club, onde é possível enxergar tanto um guerreiro espartano quanto um golfista.  Douglas Hofstadter ficaria orgulhoso. Mas não sei. As pessoas têm paranóias com chips implantados, com ondas de rádio mentais. Eu não. Eu me preocupo com memes viróticos, com imagens multi-estáveis onde imaginamos ver um produto à venda e nossa mente, sem nos dizer nada, lê um comando para dinamitar alguém.



quarta-feira, 17 de setembro de 2014

3606) O verdadeiro céu (17.9.2014)



Quando o odor de óleo queimado retornou, Ektor e o Blue Duo aproveitaram o intervalo entre a lavagem dos dutos e seu reenchimento e os escalaram ao longo de uma tarde. Eram os vinte metros que os separavam do Chão.  Os pais deles tinham nascido dendicasa, no Abrigo. Já os avós eram crianças quando o ar do Chão ficou venenoso e todos desceram para sempre para o Subchão. One Blue tinha um mapa. Imagina, dizia ela, linda, mostrando a Ektor, um pé-direito altíssimo todo preto, como o das câmaras de estoragem.  E essas punctiluzes chamadas estrelas.  Hubs de energia.

Vinham subindo há quase duas semanas, de andar em andar, de poço em poço, de um mecanismo de tração para outro, sempre olhando a temperatura e pressão nos reloginhos. Two Blue era técnico.  Desenroscava parafusos com a ponta dos dedos, tinha um extrator de senhas, dava nó em cordas.  Ektor tinha apenas um mapa, mas o sabia de cor.  As Constelações, explicava ele. Elas têm formato, cada uma tem toda uma história por trás. Heróis, animais, seres mitológicos.  Não são meros pontos. One Blue bocejava, esperando a próxima janela de passagem.  Ele recitava o mnemo: “Mamãe, vendi telescópio, mas já surgiu uma Nova”. E cantarolava: Orion, Cisne, Hércules, Ursa Maior, Via Láctea...

Se fossem pegos durante a fugida (o plano era voltarem antes do fim das férias, sem a Guarda perceber) seriam presos. Mas era um roteiro de evasão nunca tentado, era concepção e execução deles dois.  Ektor era mais novo e foi junto porque era amigo, e porque insistiu. Tirava da mochila o largo mapa quebradiço e olhava. Uma balança gigante, uma mulher de cabelos longos derramando no chão as águas de uma concha, um lacrau maior que uma trirreme, uma cruz de verdade erguida na abóbada do céu.

Chegaram. Pelo horário deles, era hora de estarem na Academia dormindo.  Na hora da superfície (bastava uma conta) era perto de meia-noite. One: “Nosso país é um altiplanalto límpido e deserto.  Não há mais as fáctores, os fogos pararam há de-muito, o céu deve estar cristalclaro.”  Nisso Two os chamou; tinha liberado o acesso.

Subiram um poço de tijolos pegando-se em ganchos enferrujados, até uma borda final que os expeliu.  O vento noturno era áspero, mas menos frio do que lá embaixo. O que os entonteceu foram os cheiros, muitos e conflitantes. Deitaram-se olhando para cima.  Aí estão, iguaizinhas, disse One depois de muito tempo.  Mas onde estão? perguntou Ektor. Pela primeira vez ela, a linda, dignou-se a relancear o olho pelo mapa que ele tinha voltado a desdobrar.  Rebatou a página negra com as figuras azuis cravadas de pontos amarelos, e riu.  Two, pia só o que o lek pensava que ia ver.



terça-feira, 16 de setembro de 2014

3605) Quando Deus não olha (16.9.2014)



Quando se fala em literatura jovem, em prosa de ficção escrita por jovens (autores com menos de 30 anos), parece haver (já vi isso ser dito entre editores, críticos, autores) um pressuposto de que serão livros falando em sexo, drogas e rock-and-roll.  Eu nada tenho contra estes importantes fatores, mas, vamos e venhamos, nada disso é privilégio jovem. Esqueçam o clichê. Cada jovem tem seus problemas e seus horizontes, no que diz respeito à literatura.  Literatura não é ilustração de uma tese sociológica. Literatura é seiva da vida espremida até se tinturar de sangue.

O maior problema do jovem, diria eu, é tornar-se adulto: jogar o jogo adulto. O romance de Débora Ferraz, Enquanto Deus não está olhando (Record, 2014, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura) é a história de uma moça de vinte e poucos anos e seu difícil ajuste de contas com a vida: com a perda do pai, com a possível perda do namorado, com um trabalho onde se sente enjaulada e encolhida, com a opção de ser artista plástica (coisa que a família estranha e não assimila) e assim por diante. É um livro de ação constante, de idas e voltas, procuras, derrotas, desencontros, aquela agitação que todos conhecemos: no fim do dia se tem a sensação de que vinte coisas foram resolvidas e não se avançou um passo.

O livro transcorre numa João Pessoa jamais nomeada, e só reconhecível por sabermos que é lá que a autora mora. Cenas como a do reveillon na praia, por mais que a reconheçamos, não devem ser muito diferentes em outras cidades. Não há nomes de ruas, de praças, mas é uma João Pessoa palpável e familiar, tal como a Campina Grande que José Nêumanne descreve, também sem nomear, no seu O Silêncio do Delator.

Não sou grande leitor de livros longos, mas o fato é que tracei sem cansaço ou esforço as 366 páginas do livro.  São jovens que tomam cerveja, conversam sobre o futuro, queixam-se dos pais. A ausência de nomes próprios (seja de bares, de canções, de marcas, de lojas, de pessoas da cultura pop e da TV) dá ao livro um aspecto curiosamente realista, numa literatura que, anêmica de sentido, torna-se cada vez mais referencial, atulhada de marcas, nomes e citações. A realidade onde os personagens circulam em suas espirais intermináveis, que nunca avançam, é uma realidade feita de ações, pessoas, sentimentos; aquilo poderia ser o Irã ou a Bélgica.  Apesar disso, e na verdade por causa disso, é um livro essencialmente paraibano (sem regionalismo, mas é a Paraíba por onde caminho hoje em dia) e provavelmente brasileiro.  Nessa cidade transparente e neutra, os personagens são só eles mesmos, e é só com isto que podem contar.


domingo, 14 de setembro de 2014

3604) Lovecraft e fantasia (14.9.2014)



H. P. Lovecraft foi um dos escritores mais heterodoxos do seu tempo, uma figura fascinante. Um tímido de meia idade, escrevendo cartas quilométricas para jovens que em muitos casos nunca chegou a conhecer. Um cético materialista que escrevia sobre terror sobrenatural. Um aristocrata de espírito que passou toda a vida adulta na penúria. Seus contos que misturam terror e ficção científica, e seu ensaio O Horror Sobrenatural na Literatura, uma descrição comentada de dois séculos de narrativas de horror, são textos fundadores do gênero.

Como leitor, Lovecraft não economizava opiniões ao escrever para os amigos. Numa carta para Clark Ashton Smith (em 1926), ele diz: “A respeito de romantismo e de fantasia, eu, por mim, desdenho o primeiro, a não ser sob a forma do segundo.” [HPL se refere a “romantismo”, não como “histórias de amor”, mas como a literatura na linha de Byron, Shelley, Victor Hugo.]  “Para mim,” continua ele, existe algo de não-vital na supercolorida representação do que se pretende ser a vida real – o sentimentalismo de Dickens, os heróis bombásticos de Dumas, ou Victor Hugo no que tem de mais lamuriento. Para mim existe algo de pueril em delinear uma espécie de variante da vida, cheia de convenções, com pensamentos e sentimentos espúrios e artificiais, e depois ficar todo piegas e excitado e efusivo a respeito dela. Mas a fantasia é algo totalmente diferente. Aqui, temos uma arte baseada na vida imaginativa da mente humana, francamente reconhecida como tal; e, ao seu modo, tão natural e científica – tão relacionada aos processos psicológicos naturais (ainda que incomuns, delicados) quanto o mais nítido dos realismos fotográficos.”

Lovecraft não desdenha o realismo, apenas acha que a fantasia o expande e engrandece. Alimentada dos recursos do realismo, ela se torna grandiosa. Ele diz: “[Lord] Dunsany escreve – e você [C. A. Smith] tanto escreve quanto pinta – o épico autêntico de uma região etérea, tão bem fundamentada e bem descrita quanto o mundo real dos seres; e porque você não finge que aquilo é o mundo real, mas reconhece nele um mundo de fantasia, sua arte tem uma verdade e uma dignidade e um lugar mais elevado na estética, lugar que (na minha opinião) o romance sentimental terrestre não tem.” 

Lovecraft era consciente dos mil pequeninos truques e malabarismos técnicos que a estética realista usa para convencer o leitor de que aquilo “é como na vida real”. Aplicados à fantasia, tais recursos fazem deste gênero algo superior ao realismo, algo mais original, menos fingido. O realismo é uma fantasia que serve de dublê da verdade; a fantasia é uma verdade com suas próprias leis.


sábado, 13 de setembro de 2014

3603) "Another side of Dylan" (13.9.2014)



Mais um livro sobre Bob Dylan está nos balcões: Another Side of Bob Dylan de Victor & Jacob Maymudes.  Victor foi assistente pessoal de Dylan durante décadas, sempre considerado como um “faz-tudo” e uma pessoa do círculo mais próximo do artista. Antes de morrer em 2001, ele deixou várias fitas cassetes com depoimentos para um livro de memórias, finalmente compilado por seu filho Jacob. Maymudes é um desses coadjuvantes discretos que a gente se acostuma a ver em todo documentário, biografia ou série de fotos sobre o bardo. Onipresente, eficiente e invisível.        

Um trecho citado nas resenhas me chamou a atenção, quando ele fala sobre o álbum que deu o título do seu livro. Reza a lenda que Another Side of Bob Dylan foi gravado, por Dylan, sozinho, numa única sessão ao longo de uma única noite (9 de junho de 1964). Diz Maymudes: “Ele nunca tinha cantado aquelas canções para ninguém antes daquela noite. Apenas despejou tudo de uma vez. Era como um capacitor armazenando eletricidade e depois jogando pra fora. Estava com tudo aquilo guardado e deixou explodir. Eu estava zonzo.”  O disco tem pelos menos três clássicos: “My Back Pages”, “It ain’t me, babe” e “Chimes of Freedom”, além de canções menores de que gosto, como “To Ramona”, “Spanish Harlem incident”, “All I really want to do”, etc. 

A façanha no caso não foi “compositorial”, mas de intérprete. A fórmula compacta de apresentação do cantor Dylan (voz + violão + gaita) lhe dera àquela altura (era seu quarto disco) domínio total sobre estes recursos. Na verdade, foram 14 as canções inéditas e recentes que ele gravou naquela noite (embora somente 11 fossem selecionadas para o disco). Era típico do seu estilo: Dylan passou mais de quinze anos sem permitir, em nenhum disco seu, que voz e violão fossem gravados em separado, como hoje se faz. (Alguns dizem que ele nem sequer conhecia essa possibilidade.) Para ele, o ganho em nitidez sonora (o Santo Graal dos técnicos de som) acarretava uma perda em jogo rítmico e em espontaneidade.

Dá pra pensar sobre isto, nesta indústria de hoje em que você usa dez músicos numa mesma faixa e eles nunca se cruzam no estúdio. Vão lá em dez datas diferentes, ouvem o que já foi gravado e gravam sua participação em cima. Não há diálogo, não há troca musical. O baixista gravou ouvindo a bateria, que já estava pronta, mas isso significa que o baterista gravou sem ter ouvido o baixo. Todo o “kardec” que rola entre músicos, toda a percepção intuitiva do que fazer diante do que o colega acabou de mostrar, todo o diálogo rítmico e harmônico... tudo isso se perde com essa frieza.


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

3602) Matemática e corpo (12.9.2014)




Se existe alguma coisa que justifica o surgimento do ser humano neste planeta é ele ter concebido a matemática, e digo aqui a matemática no seu sentido mais amplo, que inclui a geometria, a aritmética, a música, a zorra toda. Não quero dizer que ela seja mais importante do que tudo, e na verdade acho que está muito longe disso. A coisa mais importante da vida é a felicidade do corpo, o em-paz do corpo, o na-ponta-dos-cascos do corpo, o turbinas-a-toda-potência do corpo, a alegria-de-viver do corpo, o vou-tomar-todas-porque-sou-indestrutível do corpo.  O corpo, a gente joga a toalha: o corpo é a base do real. A matemática é simplesmente o vislumbre da perfeição.

A matemática nos sugere o possível mundo Trans-Humano do futuro, em que todos seremos mente pura, gravada em elétrons e silício, livres das dores, das carências e da decadência do corpo. Não sei o que sente o corpo alheio, mas os prazeres e os achaques do meu me bastam. Tenho dias sempre movimentados.  O corpo ocupa cada um de nós 24 horas por dia. É único e não se conecta em rede.  Talvez por isso nunca consegui ver o arco-íris que tantos outros viam, a estrela cadente que tantos apontavam, o fantasma que todo juravam trêmulos que estava ali, diante de nós. Pobre de mim, que vejo uma ciclóide e não vejo um fantasma.

Quando conseguirmos transformar em .gifs animados tudo que sabemos sobre o espaço e suas dimensões. Quando conseguirmos codificar isso numa tecnologia que qualquer raça, por mais física e quimicamente diferente de nós, consiga reproduzir e utilizar. Quando, enfim, pudermos revelar a uma raça alienígena qualquer o que descobrimos sobre a matemática pura do Universo, somente então teremos justificado nossa presença na Terra.  Talvez nossa aritmética e nossa geometria (nossos lados digital e analógico) não sejam perceptíveis por todas as espécies inteligentes que há. Faz sentido.  Mas também faz sentido supor que exista alguma semelhante à nossa, ou pelo menos capaz de ver como vemos e raciocinar como raciocinamos, pouco importa sua aparência anatômica ou sua composição química.

Imagino um mundo distante, um mundo submarino com uma civilização compartilhada entre cetáceos e cefalópodes, e onde um dia cheguem, sabe-se lá como, demonstrações cabais da existência de que existia, num passado remoto, um raciocínio abstrato em termos visuais, no terceiro planeta em volta de uma estrela periférica. Eles olharão aquilo e comentarão: “Vejam só, eram mamíferos antropóides de superfície, respiravam oxigênio, e mesmo assim conheciam o Yamigang do Kambalaôr.” (É assim que chamam o “Teorema de Pitágoras” na cultura deles.)


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

3601) Guy de Maupassant (11.9.2014)



Nossa formação literária se deve muito aos livros que nos caem nas mãos por acaso, no momento certo. Quem quiser diga que o maior contista do mundo é Tchecov ou Hemingway ou qualquer outro: para mim é Guy de Maupassant, que conheci aos dez anos através da antologia Histórias Eternas (Cultrix, 1959), cheia de contos realistas, fantásticos, satíricos, românticos, tenebrosos, sentimentais, maliciosos, cruéis.  Suas histórias mais famosas são Bola de Sebo (que inspirou desde a canção “Jenny e os Piratas” de Brecht até o filme No Tempo das Diligências de John Ford), “O Horla” (uma das mais arrepiantes histórias de monstros invisíveis) e o romance Bel-Ami (sobre o jornalismo e a vida mundana de Paris).

A mãe de Maupassant era amiga de infância de Flaubert. Os dois se adoravam, e o jovem escritor foi apadrinhado com entusiasmo pelo autor de Salambô.  Com o mestre, GdM aprendeu a ser o que Jessier Quirino chama “um prestador de atenção”. Tem uma finura notável para sugerir, com poucos elementos, tipos humanos vívidos: uma rápida descrição visual, um diálogo, um adjetivo, e a pessoa está inteira e plausível diante de nós. Sua narrativa é ágil e jornalística (diferente do estilo pintura-a-óleo-em-grandes-dimensões do seu mestre). Maupassant é o mestre do parágrafo curto. Em duas ou três linhas ele tanto resume uma ação inesperada e complexa quanto o transcurso de dezenas de anos com tudo que trouxeram dentro de si.

Ficou rico publicando contos em jornais (e depois compilando-os em livros), façanha assombrosa em qualquer época. Na antologia citada, diz Ondina Ferreira no prefácio: “Foi um trabalhador infatigável: produzia num ritmo de febre. Em dez anos, espaço de tempo em que Flaubert redigia dois livros, publicou vinte e sete.”  Uma máquina-escritora comparável a Robert Silverberg, a Lester Dent, a Edgar Wallace. Certamente um autor lido e meditado por Machado de Assis, com quem só não é comparado porque tinha um temperamento diametralmente oposto.

A biografia Maupassant: A Lion in the Path (1949) de Francis Steegmuller, traz fatos curiosos como as amizades conflituosas de GdM com autores como Émile Zola, Henry James, Turgueniev. Episódios pitorescos sobre a intensa vida boêmia do autor nos bordéis de Paris e depois nas alcovas elegantes, disputado pelas mulheres devido ao seu (digamos) dom de resposta instantânea e de permanecer impávido durante horas a fio, em benefício da parceira. A sífilis que o levou à desorientação mental e ao hospício, onde morreu aos 43 anos. Foi o maior contista do seu século, e ainda é capaz de disputar em pé de igualdade com qualquer outro dos dois séculos seguintes.