Sábado, 18 de Julho de 2009

1164) Vende-se o Iraque (6.12.2006)




Em 2003, os EUA tiveram uma vitória militar surpreendentemente rápida sobre o Iraque. Ninguém, inclusive eu, achava que fosse ser fácil. Depois vi na TV a cabo uma entrevista feita antes da guerra com um ex-oficial iraquiano, adversário de Saddam Hussein, que aconselhava: “Façam uma operação rápida, vão direto até Bagdá. Se vocês entrarem em Bagdá, o regime cai, porque ninguém faz questão de sustentar Saddam”. O recém-defenestrado Donald Rumsfeld ouviu este conselho e o seguiu à risca. Deu certo, do ponto de vista militar. O problema dos EUA é que eles sabem como derrubar um regime, mas não como pacificar um país, assim como os nossos partidos políticos são ótimos para ganhar eleições mas não há um só que saiba governar.

A situação se deteriora cada vez mais, e todos os dias vaza para a imprensa americana mais um documento secreto mostrando a enormidade dos erros cometidos. Os EUA são como aqueles PMs que são chamados pelos vizinhos para apartar uma briga de casal, aí entram na casa, dão uma surra na esposa, outra surra no marido, arrebentam a mobília, roubam todo o dinheiro, jogam no lixo o que tinha na geladeira, e vão embora disparando tiros pra todo lado.

A culpa é tos soldados? Um artigo recente de Elizabeth Palmer, da Rede CBS, diz: “É impressionante o quanto os soldados norte-americanos são humanos, com um forte senso do que é certo e do que é errado, e como estão mal preparados para aplicar estes conceitos em situações como a do Iraque, porque lhes falta o conhecimento histórico, geográfico e cultural. A imensa maioria deles é de homens decentes presos numa armadilha, e que ainda não entenderam o que está acontecendo historicamente, culturalmente e até fisicamente. Eles também são reféns de uma situação terrível.”

Um documentário recente de Robert Greenwald, Iraque à venda (http://iraqforsale.org/) explora o mundo nebuloso e sórdido das companhias a quem são terceirizados serviços para os soldados no Iraque. Serviços caríssimos e de péssima qualidade, chegando a colocar em risco a saúde e a vida dos militares, como se já não bastasse a guerra civil que eles têm de policiar. Na seção “Facts and Research” do saite é possível consultar documentos e reportagens sobre esse comércio escuso. São companhias como a famosa Halliburton, à qual o vice-presidente Dick Cheney é ligado, além da Blackwater (que o saite define como “um exército privado, de aluguel”), além da L3 Titan e da CACI (que forneceram tradutores e interrogadores para a prisão de Abu Ghraib).

Acho que o leitor se lembra daquele velho provérbio sertanejo de que “do boi só se perde o grito”, porque todo o resto (carne, couro, chifre, o escambau) dá lucro. O Iraque é hoje o principal boi sendo esquartejado e vendido ainda vivo pelas companhias norte-americanas. E enquanto tiver uma “peínha” de couro para arrancar, os urubus não vão largar esse esqueleto.

1163) Leopoldo Lima (5.12.2006)



Conheci este livro na Bahia, nos anos 1970. Leopoldo Lima, de Ribeirão Preto (SP), é o que eu chamo de “artista fora-de-esquadro”, ou seja, um sujeito que não se encaixa em definições ou escolas. O pessoal que o admirava dizia ser um “maluco beleza” que fazia uns desenhos e xilogravuras estranhas, meio surrealistas. Diziam que o filho mais novo dele se chamava Ôi, ou melhor, esse era o nome provisório que lhe tinha sido dado até que ele crescesse e escolhesse um nome para si próprio. O livro tem como título: 729 o varal biográfico embananado, ou pelo menos é isto que está escrito na capa, junto ao nome do autor, tudo em caixa-baixa (letras minúsculas). O exemplar que tenho hoje (comprado no Sebo Cultural de Heriberto) tem uma dedicatória do autor, para um tal de “Célio”, com um desenho e a data de 1970. 729 é o número da casa onde o artista morava (ou mora) em Ribeirão Preto, como se percebe pelas numerosas fotos no início e no fim do livro.

Leopoldo Lima faz um tipo de xilogravura cheia de traços retos ou sinuosos onde nenhum trecho da imagem é deixado em branco; lembra muito o estilo de cortar do cordelista e gravador Abraão Batista. Algumas imagens são recorrentes: crianças escuras, magras, fantasmagóricas; casas labirínticas; árvores retorcidas. Algumas fotos do interior de sua casa dão a idéia de uma mente atormentada e criativa, mas ao mesmo tempo pensamos: “como é que uma família com crianças mora num lugar doido como este?”. Um quadro intitulado “eu e voce” mostra um infinito corredor de tábuas, e em primeiro plano um sapato de homem sobre um sapato de mulher.

O texto em si são 60 páginas de linhas corridas, sem pontuação, numa fonte em negrito e itálico (mas legível), sem dar muita atenção à presença do til e de outros acentos. É um monólogo interior mas sem pretensões literárias, e neste aspecto lembra um pouco outro livro excêntrico de outro autor fora-de-esquadro, o lendário José Américo II, ou Zé Américo da Camionete, que em 1976 publicou em Campina suas memórias sob o espantoso título de Uma vitória dentro de uma derrota que não tive. Esta derrota foi a vitória do meu livro. Leopoldo Lima enfileira memórias, divagações, comentários sobre seus quadros, filosofias de vida, tudo isto sem recorrer sequer a um misericordioso ponto-parágrafo. Lembra as Galáxias de Haroldo de Campos ou o Catatau de Leminski, com a diferença que estes dois tentavam fazer Literatura, e Leopoldo faz um jorro de lava fumegante brotando pelas comissuras da mente.

Diz ele à página 42: “com este negocio do pessoal passar as maos nos quadros fiz um de um homem bebado caiu sentado com os pes para a frente descalço e no lugar havia uma garrafa de bebida quebrada sangravalhe o pe entao coloquei um caco de vidro cortante onde machucou as pessoas passavam a mao para ver se era caco de vidro pois parecia muito e de fato era cortavam a mao e coloriam mais o quadro”. Cuidado com a Arte, ela morde.

1162) Quem nos ensinou a ler? (3.12.2006)



Perguntam-me com freqüência por que motivo a Paraíba tem uma tradição literária desproporcional ao seu tamanho ou à sua economia. Tudo que posso fazer são suposições em voz alta. Penso que o Nordeste teve duas frentes de colonização: a do litoral e a do interior. A do litoral era a colonização oficial, feita de navio, de porto em porto, trazendo as autoridades do Brasil Colônia, do Brasil Reino, do Brasil Império, do Brasil República. A do interior se deu ao longo do Rio São Francisco, com bandeirantes, caçadores de índios, criadores de gado. Beirando os numerosos rios dos sertões, os desbravadores criaram uma civilização rude, aguerrida, ascética, onde a presença do Estado (fosse em que século fosse) era nula. Atrás deles, vinha a Igreja Católica, trazendo a alfabetização e a instrução. Esses pioneiros desconheciam a existência das Capitais. Nunca pediram nada a governo. Não vieram de navio, vieram por dentro, chupando imbu.

No Nordeste surgiram estas duas civilizações cujos primeiros choques políticos, econômicos e militares ocorreram no século 19, e cuja crise mais grave foram a Revolta de Princesa e a Revolução de 30. Cearenses, baianos e pernambucanos talvez discordem, mas, paciência, esta coluna só tem 3 mil toques. Canudos, Padre Cícero, Guerra de Doze, tudo isto são os grandes épicos do nosso faroeste da vida real, que não deve nada a John Ford ou Howard Hawks.

E por baixo disto tudo, silenciosamente, vinha o Livro. Pensem, por exemplo, no que foi a explosão da Poesia Barroca em plano sertão, com os poetas que criaram o Romanceiro Popular Nordestino a partir de 1850: Silvino Pirauá, Ugolino e Nicandro Nunes, Germano da Lagoa. Cantadores como Romano do Teixeira, capazes de compor décimas barrocas de improviso. E os padres que fundavam colégios em lugares que só vieram ter prefeituras décadas depois. Colégios de onde meninos sertanejos saíam compondo sonetos e declinando em latim. No livro Editora Globo, sobre esta casa editorial gaúcha, Elizabeth Torresini transcreve um documento de 1927 que diz: “Há Estados também para os quais essa taxa de analphabetismo fica abaixo de 75,5%. É principal destes o Rio Grande do Sul, onde esse coeficiente é de 64,2% vindo depois Parahyba do Norte com 68,8%, e, depois, sucessivamente: Território do Acre e São Paulo com 70,2% cada um, Santa Catharina com 70,5, Pará 70,7, Mato Grosso 70,9, Paraná 71,8, Amazonas 73,4, Rio de Janeiro 75,3”. Foi neste Brasil desigual que surgiu o Romance Regionalista dos anos 1930.

Quando entramos em Campina, há uma placa orgulhosa da Pitu: “Esta é a terra de Clementino Procópio”. Outras cidades celebram seus filhos famosos, que saem na TV e figuram nas enciclopédias. Eu me orgulho do fato de minha cidade se orgulhar desse professor anônimo, que do Cajá em diante ninguém sabe quem foi. Campina deve a ele (e a todos que ele aqui simboliza) a grandeza que já teve um dia e que pode voltar a ter.

1161) Universos Comunicantes (2.12.2006)




Certamente há precursores mais remotos, mas ao que eu me lembre foi Balzac o primeiro romancista a tentar unificar todos os seus ciclos de romances como partes de uma única e gigantesca história. Li muito pouco da sua “Comédia Humana”, mas os livros do tradutor Paulo Rónai são ricos em referências a respeito desse trabalho incessante do autor, revisando livros antigos, substituindo e unificando nomes de personagens, para que um sujeito que é protagonista numa história tenha uma aparição breve como coadjuvante noutro livro de dez anos antes ou dez anos depois.

Todo autor gosta de, a certa altura, voltar atrás e dar uma mexidinha num livro antigo, para criar um portal, uma conexão entre ele e outro livro. Na reedição recente do Romance da Pedra do Reino, Ariano Suassuna resolveu assumir que dois figurantes de rápida aparição, os picarescos “Piolho” e “gordo Adauto” (que surgem no final do Folheto LXXVIII), são na verdade João Grilo e Chicó, a dupla do “Auto da Compadecida” – unificando, assim, as suas duas Taperoás.

Isaac Asimov também não resistiu. Nos anos 1980, ele já havia marcado sua presença no mundo da ficção científica com dois ciclos de histórias: o ciclo dos robôs, em que postulava a criação de robôs inteligentes e obedientes, e o ciclo da Fundação, onde ele contava a criação de duas Fundações científicas destinadas a preservar a ciência e salvar a galáxia de um ciclo de obscurantismo. Eram dois universos estanques, distantes no Tempo, sem relação entre si, mas Asimov, depois dos 60 anos, decidiu unificá-los. A dificuldade principal era o fato de que nas histórias da Fundação não existiam robôs, mas ele contornou o fato postulando a evolução dos robôs metálicos para andróides com aparência humana, de modo que muitos dos personagens “humanos” do futuro eram na realidade andróides.

Existe um movimento instintivo de nossa mente em busca dessa unidade, em busca da crença de que todas as histórias acontecem num universo só. Eu estava lendo uma crítica do filme House of Frankenstein de Erle C. Kenton (1944), onde se dá o famoso encontro entre o monstro de Frankenstein, o Conde Drácula e o Lobisomem. Estas tentativas de misturar vários universos são fascinantes pelas suas implicações de ordem psicanalítica e mitológica, embora em geral resultem em filmes grotescos. Mas o resenhador do filme observa a certa altura que a ressurreição de Drácula é contraditória, pois em Dracula’s Daughter de Lambert Hillyer (1936) o corpo do Conde havia sido cremado por sua filha.

Buscar continuidade entre esses produtos híbridos da cultura-de-massas é tão absurdo que deve corresponder a um instinto profundo de nossa mente, alguma coisa num nível neuronial. Para mim, o mais interessante é que essas histórias sejam estanques, e recomecem do zero a cada vez. Como os desenhos animados de South Park, em que o personagem Kenny morre em cada episódio e recomeça vivinho da silva no próximo, para morrer de novo.

Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

1160) A revelação estética (1.12.2006)



Os manuais de estética citam uma idéia de Platão segundo a qual a obra de Arte produz em nós um efeito de “reminiscência”. Para Platão, existe para além deste nosso mundo um mundo ideal das coisas perfeitas, e o que vemos aqui são apenas reflexos, variações rudimentares dessas Idéias. Platão tem muitos seguidores, principalmente entre os filósofos que acreditam em Deus; já os agnósticos tendem a ser aristotélicos. Mas mesmo seus admiradores têm dúvidas. Jorge Luís Borges, que com freqüência é platônico até a medula (ou, pelo menos, finge sê-lo como recurso ficcional), indaga-se às vezes se no mundo transcendental existe o Cachorro Ideal ou se lá também temos o Buldogue Ideal, o Pitbull Ideal, o Lulu-da-Pomerânia Ideal, o Vira-Latas Ideal...

Platonismo à parte, as grandes obras de Arte nos produzem de fato uma sensação de reconhecimento. Como se estivessem nos dizendo algo que a gente já percebia, mas não era capaz de dizer. Daí, talvez dizer-se que o poeta é o “porta-voz” do povo. A Idéia expressa pelo artista já existe, de certa forma, no consciente ou no inconsciente daqueles que entram em contato com sua obra. Não cabe aí, portanto, falar de “reminiscência” , mas de “revelação”. A obra de arte não nos faz recordar algo que nossa alma conheceu num mundo preternatural anterior ao nosso nascimento. Ela apenas nos revela modos de ver, de pensar e de sentir cujas condições básicas já trazíamos dentro de nós, mas de maneira incompleta. Temos o dicionário, por assim dizer, as palavras isoladas, mas não chegamos a compor a frase. Quem fez isto foi o artista.

Isto se casa de certa forma com uma velha lei do Materialismo Dialético. Marx e Engels diziam que cada época histórica só coloca para si própria os problemas que pode resolver. A crise e a solução da crise brotam juntas em cada momento da História. Dá-se o mesmo das obras de arte, com mais flexibilidade por ser ela uma realização individual. O artista percebe uma relação complexa entre formas de dizer e coisas a serem ditas. Quando seus contemporâneos são capazes de entender e valorizar as soluções estéticas que ele encontrou, ele alcança um sucesso comparável ao de Mozart em Viena em 1780 ou de Chico Buarque no Brasil em 1967. Quando ele resolve tais problemas mas não há muita gente capaz de entender o que ele fez, ele torna-se um “gênio póstumo”, cuja revelação estética, na mente do público, só se produz depois que ele está morto e enterrado. Ou nunca.

Uma obra de arte produz uma série de revelações. O artista tem a revelação “de como fazer”, aquele “eureka!” de quando a gente tem uma idéia luminosa. O público tem a revelação daquela obra específica, do que ela tem para lhe mostrar de novo sobre o mundo. E séculos depois o historiador da arte tem a revelação sobre aquele momento da história, em que uma grande idéia brilhou pela primeira vez, em que todo mundo começou a ouvir falar num tal de Beethoven, num tal de Michelangelo.

1159) Tempos interessantes (30.11.2006)


(Hendrik Van Loon)

Dizem que quando os chineses querem rogar uma praga a alguém dizem: “Tomara que você viva em tempos interessantes!” São aqueles tempos em que não há monotonia nem pasmaceira, aqueles tempos em que tudo pode acontecer, em que (para usar minha expressão favorita) o campo probabilístico fica mais intenso e por toda parte começam a brotar “o estranho, o bizarro, o inesperado”. E tudo é uma questão de gosto. Há quem prefira a placidez contemplativa da rotina, dos dias que se sucedem todos iguais. E há quem goste do tumulto, de viver perigosamente no olho do furacão.

Numa carta ao escritor Van Wyck Brooks, em 1938, Hendrik Van Loon (cujo nome não é desconhecido dos leitores de Monteiro Lobato, que baseou nele alguns de seus livros) tentou consolar o colega, preocupado com os tempos negros que estavam vivendo durante os anos da Grande Depressão nos EUA: “Os tempos sempre foram assim. Nós nascemos num período intermediário, 1880-1914, e é fácil nos iludirmos pensando que essa foi uma época normal. Não foi. Foi uma pausa para respirar, curta e agradável. Agora, estamos de volta à normalidade das coisas”.

Interpretar histórias individuais a partir do chamado “momento histórico” é sempre arriscado. Ninguém vive numa torre-de-marfim, claro, mas a verdade é que os altos e baixos de nossa vida pessoal nem sempre (ou quase nunca) coincidem com os altos e baixos da vida política e econômica do país. Para não nos afastarmos muito da Grande Depressão dos EUA, basta lembrar que os anos 1930 foram um período de ouro do cinema de Hollywood, assim como da “pulp fiction” vendida em bancas de jornal. Por quê? Porque em tempos de depressão econômica o divertimento barato é um dos bens mais preciosos. A América inteira estava passando fome, populações inteiras viravam retirantes carregando suas tralhas amarradas em cima de velhas fubicas, sacolejando em estradas poeirentas. Milhares de acampamentos de refugiados sem-terra espalhavam-se pelo país. E para quem trabalhava com cinema, ou escrevia ficção-científica ou histórias policiais, foi “The Golden Age”.

Tivemos algo parecido aqui: entre 1964 e 1968, na primeira fase da ditadura militar (a fase mais moderada, antes da radicalização produzida pelo AI-5 em dezembro de 68), tivemos uma fase de intensa criatividade e politização no teatro, na música, no cinema, etc. Quem visse de fora pensaria que o Brasil estava vivendo um surto de democracia inédito. Eram tempos interessantes, apesar do clima de terror e paranóia (qualquer sujeito envolvido com cultura, jornalismo, arte, etc. sabia que bastaria a denúncia falsa de um desafeto para que ele fosse preso como simpatizante do terrorismo e tratado de acordo). Ingleses que viveram em Londres durante os bombardeios alemães na II Guerra lembram-se dessa época como “o tempo mais feliz da minha vida”. A possibilidade da morte e a certeza de estarem lutando por uma boa causa tornava a Guerra um tempo interessante.

1158) Ninguém é universal (29.11.2006)


(Orhan Pamuk)

Comentei há algum tempo essa mania de dizerem que a literatura de Machado de Assis é universal, enquanto a de autores como Zé Lins do Rêgo não é. O que querem dizer com este “universal”? Que ela exprime sentimentos ou idéias que não são apenas do Rio de Janeiro onde Machado vivia, mas podem ser compreendidos por toda a Humanidade? Sem desmerecer Machado, não creio que a literatura dele fosse unanimidade entre camponeses africanos ou servo-croatas (cultos, alfabetizados, etc.). Não digo que a compreensão e a fruição profunda dessa literatura fossem impossíveis a essas pessoas. Afirmo apenas que não são unânimes, infalíveis, obrigatórias. Ninguém é “universal”. Ninguém.

Maldo eu que essa pretensão a universalismo vem daqueles para quem “o universo é a minha aldeia”. O recém-ganhador do Prêmio Nobel, o escritor turco Orhan Pamuk, queixou-se disto há pouco numa entrevista ao “Globo”: “As pessoas consideram muitas das coisas escritas pelos europeus como universais, mas às vezes são apenas ocidentais. (...) Se você é um escritor turco e escreve sobre o amor, as pessoas dizem que é sobre o amor na Turquia. Se Proust escreve sobre o amor, ele está escrevendo sobre o amor universal. Esse tratamento realmente me irrita, mas talvez, agora, esteja mudando”. O imenso etnocentrismo denunciado aqui por Pamuk é a cara da cultura ocidental, e não vem de agora, vem do Renascimento, do descobrimento da América, dos imperialismos culturais europeus, cujo espaço foi ocupado no século 20 pelo imperialismo cultural norte-americano e agora pelo multinacional-corporativo.

Globalização é, em parte, isto: afirmar que o que é nosso é universal, e o que é do vizinho ao lado é meramente regional e exótico. Não existe cultura “universal”, existe cultura imposta militarmente e economicamente. Falamos um idioma filho do latim, não porque o latim seja universal, mas porque foi imposto à força das armas. Arranhamos inglês hoje em dia porque ele é imposto pelo mundo das finanças, da indústria cultural e das telecomunicações.

Chamamos de universal aqui que parece conosco, e se temos poder de imposição suficiente, conseguiremos convencer o mundo de que estamos certos. Bruce Sterling, um escritor de ficção científica capaz de escrever sobre qualquer questão política e tecnológica de qualquer região do mundo, ironiza a literatura “universal” praticada nos EUA dizendo que ela não passa de romances sobre professores de meia-idade bebericando vinho e pensando em trair a esposa. Não está muito longe do “universalismo” de Machado, que era, na minha modesta opinião, um escritor regional cujo universo ia do Andaraí a Botafogo. Seria mau escritor, por isto? De jeito nenhum. É o que nossa literatura produziu de melhor, e suas façanhas literárias são ainda mais notáveis quando consideramos a quantidade de leite que ele conseguiu extrair dessa minúscula pedra temática sobre a qual preferiu debruçar-se.

1157) O drible do elástico (28.11.2006)



Semana passada Ronaldinho Gaúcho voltou a aprontar das suas, fazendo contra o Villarreal um gol de bicicleta (o último da goleada de 4x0 do Barcelona) que o estádio aplaudiu de pé. Como disse o redator do “Mundo Deportivo”, ninguém pode arredar o pé do estádio num jogo do Barcelona quando ainda faltam 2 minutos para terminar, como era o caso. A qualquer momento, pode ocorrer o que ocorreu: um gol para se contar aos netos. A imprensa já gastou tinta bastante com este gol, mas eu queria falar era de outra jogada que o Gaúcho fez pouco antes, um drible-do-elástico no zagueiro, que só não foi perfeito porque na conclusão a bola saiu alguns centímetros pela linha de fundo, invalidando o cruzamento perfeito que ele fez para os atacantes.

Quando eu era garoto, não existia esse negócio de drible-do-elástico, ou se existia não era cultivado no Presidente Vargas nem no Plínio Lemos. Acho que é coisa recente. O primeiro que vi em alto estilo foi um que Romário deu em Amaral num Flamengo x Corinthians no Morumbi, há alguns anos, escapando rente à linha de fundo, tirando o zagueiro da jogada e marcando um gol quase sem ângulo. O lance foi reprisado centenas de vezes pela TV nos dias seguintes, por todos os ângulos, em todas as velocidades.

O drible-do-elástico consiste basicamente (descrever essas coisas com palavras é tão inútil quanto descrever a melodia inicial do Concerto #1 de Tchaikóvski, mas, bora lá) em armar o bote diante do zagueiro, indicar que vai projetar o corpo num arrancada instantânea, e com o lado exterior do pé direito empurrar a bola com força para a direita, e partir atrás dela. O zagueiro julga que esse é o movimento final e, com meio segundo de atraso, projeta-se nessa direção. Quando isto acontece, a gente conclui o movimento de empurrar a bola com uma brusca torção do tornozelo direito para o lado esquerdo, fazendo o bico do pé tocar a bola e inverter o movimento que ela executava, projetando-a para a esquerda e mudando de direção de repente – o que não é difícil para quem já estava com esta intenção, difícil é para o zagueiro que é pêgo de surpresa. O modo como a bola inverte de repente a trajetória dá a impressão de que ela foi puxada com um elástico.

Aos 15 anos eu li Viagem em Torno de Pelé, de Mário Filho, onde a certa altura ele enumera jogadas que Pelé tinha introduzido no futebol. Fazer tabelinha com os zagueiros, p. ex., chutando a bola de encontro às suas canelas para pegar de novo mais à frente. Pela primeira vez eu me dei conta de que no futebol, como na arte, a gente recebe um repertório de coisas inventadas, que é preciso aprender, mas tem também a liberdade de inventar coisas novas. Perdi muitas noites desenhando mentalmente gols mirabolantes. Nunca os fiz, pois sou um perna de pau. Mas conheço um neguinho dentuço que provavelmente aos 15 anos ficava fazendo “story-board” de jogadas e de gols e de tabelas. Feliz de quem realiza em público o que criou sozinho.

1156) Robert Altman (26.11.2006)



Morreu Altman, que nos anos 1970 era “o diretor de M*A*S*H*”, aquela comédia de humor negro sobre cirurgiões americanos na guerra (num Vietnam indiretamente sugerido), amputando membros e costurando soldados esfrangalhados enquanto faziam piadas politicamente incorretas e azaravam as enfermeiras. Foi sucesso, virou série de TV, e projetou dois ótimos atores, Elliott Gould (que subiu e depois sumiu) e Donald Sutherland, que ainda toca bem a bola no meio de campo, embora hoje tenha virado “o pai de Kiefer”, aquele ator de “24 Horas”.

O sucesso de M*A*S*H* deu a Altman cacife suficiente para uma série de filmes personalistas, nem sempre muito bons, mas todos mostrando uma mente inquieta, um olhar crítico e ácido sobre a sociedade americana, além de uma capacidade de trabalhar em diferentes gêneros, assimilando o que eles têm de essencial e usando-o para encorpar uma linguagem própria. Altman fez faroeste (McCabe and Mrs. Miller), comédia amalucada (Voar é com os Pássaros), mistério policial britânico (Assassinato em Gosford Park), pseudo-documentário musical (Nashville), policial “noir” (The Long Goodbye), ficção científica (Quinteto), adaptação de quadrinhos (Popeye)...

Um dos meus filmes preferidos de Altman é o obscuro Imagens (1972), a história de uma mulher que luta contra a esquizofrenia enquanto tenta montar um imenso quebra-cabeças na mesa da sala e faz joguetes emocionais com o marido e dois namorados (sendo um deles um fantasma). É um belo filme, e pesquisando agora na Web fiquei sabendo que foi mal sucedido nas bilheterias e o estúdio (Metro/Universal) incinerou o negativo (ainda assim, há cópias em DVD). Altman foi um valoroso inimigo da ideologia industrialesca de Hollywood, e disto resultou um de seus melhores filmes, O Jogador, com Tim Robbins no centro de uma rosácea de personagens e enredos que mostram de forma satírica e amarga “as entranhas da Besta”. Outro dos meus preferidos é Short Cuts, em que o diretor pega dezenas de contos curtos de Raymond Carver e os interliga numa única história em que todos aqueles personagens se conhecem ou se conectam casualmente.

Era uma das especialidades de Altman: uma história com 20 ou 30 personagens importantes, a cada um dos quais ele dava atenção concentrada, extraindo o máximo dos atores e embranquecendo os cabelos dos roteiristas (embora ele próprio participasse da maioria dos roteiros que filmava). Altman talvez fique mais lembrado pela sua furiosa luta por autonomia ideológica e estética do que pelas reais e sólidas contribuições que deu à arte de contar histórias, de proporcionar performances inesquecíveis a atores medíocres, de contemplar à distância um romance ou peça de teatro e sempre encontrar um caminho cinematográfico para produzir na tela, sem copiar o original, um impacto semelhante ao do original. Era um animal com cinema correndo nas veias, típico do que o cinema americano tem de melhor.

1155) A Síndrome de Bonnet (25.11.2006)


("Darby O'Gill")

A Síndrome de Charles Bonnet (a sigla em inglês é CBS, e nada tem a ver com a rede de TV norte-americana) é uma rara anomalia visual em que as pessoas vêem objetos ou seres que não estão ali. Não se trata de uma alucinação, porque nas alucinações o senso de realidade da “vítima” fica prejudicado: ela tem dúvidas sobre a realidade ou não do que está vendo, e às vezes acredita piamente nas supostas aparições. Na Síndrome de Bonnet, a pessoa fica assustada, desorientada e preocupada com o que pode estar lhe acontecendo, mas como regra geral não lhe passa pela cabeça, nem por um momento, que aquelas coisas estejam de fato ali. É um erro do sistema visual, não um delírio da mente.

Há pessoas que vêem gnomos, há pessoas que vêm gente ou animais passando pelo meio da sala, há pessoas que vêem apenas padrões geométricos de linhas e formas. Não se sabe exatamente por que isto acontece, mas está ligado ao modo como o cérebro processa os estímulos que recebe através do nervo ótico e os organiza numa imagem coerente. E este processo não é simples. Por exemplo: as imagens que vemos são todas de cabeça para baixo, porque é assim que elas se formam numa câmara escura (como uma máquina fotográfica tradicional). Bebês vêem as coisas de cabeça para baixo, e só com um longo treinamento, através do tato, do andar, etc., aprendem a remontar essa imagem de modo a corresponder com a real posição das coisas.

Fico pensando se muito do que existe na literatura não será o produto indireto de visões deste tipo. A Síndrome de Bonnet ocorre em pessoas com problemas clínicos de visão, e acontece com mais freqüência em momentos de repouso, quando a pessoa está num ambiente familiar. Uma hipótese sugere que problemas de visão podem fazer o cérebro produzir imagens por conta própria, de modo meio descoordenado, para preencher regiões visuais que não estão captando bem a luz. Um amigo meu, médico, me contou uma vez que teve um problema neurológico que o impedia de ver tudo que havia no lado superior esquerdo de seu campo visual. Via tudo escuro? Não, diz ele: simplesmente aquele lado não existia, não era registrado pelo cérebro. Em casos parecidos, a Síndrome de Bonnet pode colocar ali gnomos, alienígenas, vacas pastando, janelas inexistentes.

Alucinações visuais e auditivas são recorrentes em pessoas submetidas a experiência de privação sensorial. Colocadas num quarto escuro e com isolamento sonoro, as pessoas daí a pouco começam a “ver” e “ouvir” coisas. Isto me lembra uma idéia recorrente na obra de Colin Wilson, a de que a consciência é um ato intencional. Não recebemos passivamente as idéias que pensamos: pensamos o que queremos pensar. A percepção sensorial (o que vemos, ouvimos, etc.) pode ser passiva, mas o ato de interpretá-las e organizá-las mentalmente é resultado da vontade. Em momentos de desequilíbrio, a mente produz seu próprio alimento. Os sonhos e a Síndrome de Bonnet podem ser dois lados de um mesmo processo.