sexta-feira, 6 de novembro de 2009

1355) Os fantasmas escritores (18.7.2007)




A revista Piauí de junho tem uma matéria de Chico Mattoso, “À Sombra dos Ectoplasmas em Flor”, sobre a literatura mediúnica no Brasil. Este assunto despertou minha curiosidade na infância, quando descobri o Parnaso de Além Túmulo com poesias de Olavo Bilac, Augusto dos Anjos e dezenas de outros. Eu, ainda muito pequeno, custava a entender como esse pessoal morria e continuava esvaziando tinteiros. Acreditar no Céu e da Vida Eterna eu conseguia, mas como era possível conciliar essas estratosferas metafísicas e a obrigatoriedade de contar dodecassílabos?

Segundo a Piauí, o Brasil tem cerca de 200 editoras de livros espíritas, que vendem 6 milhões de exemplares por ano. A grande maioria são livros atribuídos a espíritos famosos ou a espíritos que se identificam com nomes genéricos como “Emanuel”, etc. Para os mais melindrosos vou logo avisando que minha mãe era espírita e dezenas de parentes meus (tios e tias, primos e primas por quem tenho respeito e afeto) compartilham das crenças kardecistas. Todos já estão acostumados com minha maneira cética de tratar esses assuntos. Não acredito – mas não mango, não menosprezo, e acima de tudo não tenho certeza de que estou certo. Apenas não acredito que alguém continue existindo depois que morre, quanto mais que escreva sonetos!

Chico Xavier (informa a revista) publicou mais de 400 títulos e vendeu mais de 25 milhões de exemplares. A atual líder do mercado é Zíbia Gasparetto, cuja gráfica imprime 500 mil exemplares por mês – nem todos de livros espíritas, pois a empresa também imprime livros por encomenda para outras editoras. Mas não se pode negar que é um mercado em crescimento constante, ainda mais lançando obras de autores que vão de Luigi Pirandello (psicografado por Elifas Alves) até Edgar Allan Poe, Cego Aderaldo e Florbela Espanca (psicografados por Jorge Rizzini).

O episódio mais sintomático é a questão judicial movida em 1944 pela viúva de Humberto de Campos, a quem se atribuíam numerosas obras espíritas psicografadas por Chico Xavier. Esta senhora argumentou, com razão, que se de fato os livros eram escritos pelo falecido esposo então os direitos autorais cabiam a ela, e não ao copista mediúnico. O juiz do caso saiu pela tangente decretando que a propriedade intelectual se encerra com a morte do autor, mesmo que este continue a produzir no Mais Além.

Confesso minha perplexidade em saber que autores estrangeiros são psicografados em português, num processo de tradução simultânea que em muitos casos não me parece sem ruídos, porque até agora não vi nenhuma obra psicografada que me parecesse à altura das obras escritas em vida pelo autor. Será preconceito? Pelo contrário. Quem me dera que autores como Guimarães Rosa, James Joyce, Raymond Queneau ou Jorge Luís Borges pudessem vir matar as saudades deste humilde leitor, com textos à altura dos que escreveram quando assinavam ponto neste vale de lágrimas!

1354) Brasil 3x0 Argentina (17.7.2007)



A Argentina engoliu a isca da superioridade, do favoritismo. Foi pra cima, e o Brasil fez três gols de contra-ataque. Uma grande injustiça, se levarmos em conta o futebol medíocre do Brasil nos cinco jogos anteriores e o bom futebol que os “hermanos” vinham jogando (não vi nenhum dos jogos, mas acredito no que a imprensa falou; e vi o gol de Messi na seleção mexicana, o mais bonito da Copa América). Mesmo goleando duas vezes um Chile incompetente e irreconhecível, o Brasil não jogou nada. O problema é que no jogo decisivo as coisas se inverteram. A Argentina parecia confusa, desorientada. O Brasil, quase sem nenhum talento, ganhou na marcação, na força e na raça.

Confesso que fiz parte de uma discreta corrente-pra-frente que estava se formando informalmente aqui no Rio, torcendo para que a Argentina vencesse. Explico logo, antes que me fuzilem no Forte de Copacabana. É que o futebol tem idas e vindas, altos e baixos, enchentes e vazantes. O Brasil vem sentando a ripa na Argentina sem parar: ganhou a Copa América de 2004, ganhou com goleada a Copa das Confederações, meteu-lhes 3x0 num amistoso recente em Wembley... Cedo ou tarde terá que perder, a maré vai ter que virar. “Então,” pensamos por aqui, “que seja agora, quando eles estão com força total, o mesmo time que disputou a Copa do Mundo, e nós estamos aqui com um time B onde somente Robinho seria titular numa Seleção que eu escalasse”. Tudo indicava que domingo seria a vez deles. Já estávamos conformados. E aí...

Não gosto de torcer contra a Seleção, mas quando é preciso eu torço. Torci contra o Brasil, por exemplo, na Copa de 74. Torci contra aquele futebol botinudo e horroroso do nosso time, e a favor do belo futebol dos holandeses de Cruyff. Voltei a torcer contra em 78, na Argentina: contra uma Seleção mal convocada, mal escalada, e que em matéria de talento só tinha praticamente Zico e Reinaldo. Em 90 eu não me dava mais ao trabalho de torcer contra, mas quando apanhou (da Argentina) eu disse: “Bem feito”.

Portanto, não morro de amores pela “Seleção dos Sete Anões” de Dunga. Craques só tem dois: Robinho e Juan. O resto é uma porção de jogadores de nomes duplos que não consigo decorar. Naquela disputa de pênaltis contra o Uruguai apareceram um tal de Afonso e um tal de Fernando que nunca vi mais gordos. Contra a Argentina o time comportou-se bem. Marcou em cima, roubou centenas de bolas, contra-atacou com lucidez, fechou-se atrás quando foi preciso; nada contra. Parabéns para Julio Batista, Daniel Alves, Wagner Love, Doni, e outros rapazes esforçados aproveitando seus 15 jogos de fama. Mas não venham me dizer que quem ganhou essa Copa América foi a Seleção Brasileira.

Quem tem com que me pague não me deve nada, por isso toda surra que aplicarmos nos nossos amigos portenhos se auto-justifica. Nós podemos não saber por que estamos ganhando, mas eles com certeza sabem por que estão perdendo.

1353) Mistérios e quebra-cabeças (15.7.2007)



Um artigo de Gregory Treverton na revista Smithsonian estabelece uma distinção útil – ainda que problemática – entre o que é um mistério e o que é um quebra-cabeças (“puzzle”). Diz ele: “Um mistério não pode ser resolvido; pode apenas ser enquadrado, quando identificamos os fatores cruciais e tentamos descobrir como eles interagiram no passado e podem interagir no futuro. Um mistério é uma tentativa de definir ambigüidades. Já os quebra-cabeças podem ser mais satisfatórios, mas o mundo de hoje nos oferece cada vez mais mistérios, e tratá-los como quebra-cabeças é tentar resolver o irresolvível, um desafio impossível. Se, contudo, nós os abordarmos encarando-os como mistérios, talvez possamos nos sentir mais à vontade com as incertezas de nossa época”.

Tudo parece girar em torno de uma questão principal. Um quebra-cabeças tem uma solução real e oculta, que não depende do observador. Já um mistério, em princípio, não tem “a resposta certa”, mas respostas aceitáveis em maior ou menor grau, e que sempre dependem da interpretação subjetiva do observador. Uma adivinhação ou uma charada, por exemplo, são quebra-cabeças. Têm uma resposta prevista pelo seu criador, e cabe à gente descobrir qual é. Uma adivinhação: “O-que-é o-que-é, que cai em pé e corre deitado?” Resposta: A chuva. Uma charada: “Água na ponta do osso – uma e uma (sílabas)”. Resposta: Água, com uma sílaba, mar; ponta, com uma sílaba, fim; osso, com duas sílabas, marfim. Isto são quebra-cabeças. Já um mistério seria, por exemplo, o significado do sorriso da Mona Lisa, ou a explicação da origem dos Objetos Voadores Não-Identificados. Não “há” uma resposta. Qualquer resposta é possível, e umas poderão ser mais adequadas do que outras, sendo que o veredito sobre o que é “adequado” é, também, subjetivo.

Transpondo esta questão para a política, Malcolm Gladwell, no The New Yorker faz uma comparação. O paradeiro de Osama bin Laden, por exemplo, é um quebra-cabeça: existe uma resposta concreta, pois ele está em algum lugar, mesmo que mude de esconderijo com freqüência. Os investigadores podem se queixar de escassez de dados, ou de dados contraditórios, mas podem ter a certeza de que existe uma resposta única, real, que pode vir a ser descoberta. Já um mistério seria, por exemplo, o que iria acontecer no Iraque após uma invasão norte-americana. Não há uma resposta concreta, única, para isto: há teorias, cenários, hipóteses, cada qual baseada em elementos diferentes e opiniões contraditórias. À medida que o tempo passa, algumas dessas respostas vão perdendo probabilidade e outras vão se tornando mais viáveis. Mas para uma questão dessa natureza não existe “a resposta”. A resposta está se formando no correr dos dias, dos meses, dos anos, e não existia no momento em que o problema foi proposto. Portanto, não é um quebra-cabeça: é um mistério.

1352) Clarividência e abutres (14.7.2007)



Uma matéria saída no jornal londrino “The Observer” informa que o abutre está se tornando uma espécie em extinção em alguns países da África e da Ásia. As razões variam. No sul da Ásia, nos últimos anos, o gado tem sido tratado com um analgésico chamado Diclofenac. Não faz nenhum mal ao gado, mas é mortal para os rins dos abutres que se alimentam dele. Três espécies de abutres já estão quase extintas, e duas outras estão reduzidas a algumas dezenas de indivíduos. Já na África do Sul o motivo é diferente. Existe uma crença popular de que a carne do abutre dá poderes de prever o futuro, e as pessoas que apostam na loteria nacional estão “dando uma baixa” na população das aves.

São duas situações diferentes que têm conseqüências parecidas. A rigor não existe nada contra os abutres em si. Ninguém está tentando extinguir a espécie, ou persegui-la. Ninguém sabia que o Diclofenac não fazia bem a eles; a intenção era apenas cuidar bem do gado. Se o efeito colateral disto é diminuir a população de abutres, os fazendeiros dão de ombros e dizem: “E daí? Problema deles”. Já o pessoal sul-africano persegue os abutres, não por raiva ou medo, mas por admiração mística. Como as aves têm uma visão fantástica, comparável à da águia, isto passa para as pessoas a impressão de que eles conseguem também avistar o futuro, e de que esse dom pode ser absorvido através da carne. Na África Ocidental, a população de abutres já caiu 95%. Problema deles.

Os elefantes correram o mesmo risco de extinção por causa do simples marfim. Mas uma coisa é procurar uma substância valorizada no mercado por causa de suas propriedades decorativas, como é o caso do marfim, e outra coisa é projetar nos animais uma qualidade mágica qualquer. Houve um tempo em que os rinocerontes foram ameaçados de extinção porque se dizia que chifre de rinoceronte pulverizado era afrodisíaco. É o mesmo caso agora da carne dos abutres sendo vista como garantia de clarividência.

Num livro de ficção científica de Thomas M. Disch, Os Genocidas, a Terra é invadida por alienígenas superpoderosos que pretendem utilizar nossos continentes para algum tipo de cultura – plantar o equivalente a soja ou algodão lá na economia deles. Para isso, eles primeiro têm que “limpar” o terreno com pesticidas, e é aí que entramos nós, porque somos a peste que eles pretendem extinguir. Não é nada de pessoal contra nossa espécie, inclusive eles nem se dão ao trabalho de estabelecer contato. Assim como nós não nos preocupamos em fazer contato com os gafanhotos sobre os quais espalhamos nuvens de pesticida.

A metáfora de Disch, típica dos anos 1960, é de que a Humanidade não precisa necessariamente temer inimigos alienígenas que tenham divergências políticas conosco e queiram nos invadir. Eles podem querer nos destruir, não por inimizade, mas porque somos aos seus olhos uma sub-raça, uma praga daninha ou uma espécie descartável como nós mesmos consideramos os abutres.

1351) O escritor anônimo (13.7.2007)



Se, numa capa de livro, o nome do autor é maior que o título da obra, estamos diante de um desses autores best-sellers como Sidney Sheldon ou Barbara Cartland, porque evidentemente o leitor que os lê procura por eles, não por uma obra específica. O título serve apenas para tirar a dúvida natural do “será que eu já li este?” Mas o nome em letras garrafais é muitas vezes sintoma de amadorismo. É a ansiedade muito compreensível, da parte de quem nunca publicou, em ver seu nome exposto nas vitrines. Tem gente que para ver seu nome na capa de um livro é capaz até do imenso sacrifício de escrever um.

Por isso sempre achei curiosas certas táticas de despistamento e anonimato que a história de literatura nos oferece. Por exemplo: em 1827 um jovem soldado de 18 anos chamado Edgar Allan Poe publicou na cidade de Boston seu primeiro livro de poesia, intitulado Tamerlane and Other Poems. Um volumezinho de quarenta páginas em tiragem de 200 exemplares, dos quais apenas dezoito se conservaram, fazendo dele uma das maiores raridades bibliográficas dos EUA (uma edição facsímile está à venda por 800 dólares). O livro, curiosamente, era assinado por “Um Bostoniano”. Por que motivo um poeta se esconderia por trás de um tal disfarce? A resposta mais óbvia é o fato de o jovem poeta saber-se completamente desconhecido, e, como o seu nome não serviria de chamariz para as vendas, talvez o bairrismo levasse algum leitor esperançoso a apostar no conterrâneo desconhecido. O livro, é claro, passou em branco, e provavelmente a maior parte da edição foi para o lixo.

E temos um exemplo local. Em 1854 o carioca Manuel Antônio de Almeida publicou um romance intitulado Memórias de um Sargento de Milícias, cujas páginas alguns milhões de vestibulandos brasileiros já percorreram com impaciência e perplexidade. O livro é útil e divertido, para quem se interessa por aquela época e consegue saborear aquela linguagem; e foi assinado, modestamente, por “Um Brasileiro”.

Na História da Inteligência Brasileira (vol. 3, p. 478 e seguintes) Wilson Martins põe o dedo na razão deste anonimato. Almeida era jornalista (o livro saiu primeiro em folhetins periódicos) e seu livro não era mais do que o resultado de suas freqüentes conversas com um antigo sargento, português de nascimento, chamado Antonio César Ramos. Muito jovem nessa época, Almeida não poderia ter recordações do “tempo do Rei”, em que transcorre a ação do livro. O título é totalmente adequado, pois o livro não passa de uma recolha das lembranças desse sargento; e se vem assinado “um brasileiro” é para ressaltar a parceria entre o autor que conta e o autor que escreve. Mais do que modéstia, diz Martins, vê-se aí “algum constrangimento em apresentar-se como autor de um livro que não lhe pertencia inteiramente”. A obra literária anônima era ainda possível num século 19 em que cultura oral e cultura escrita eram ainda misturadas como café e leite numa xícara.

1350) A debandada das abelhas (12.7.2007)



Numa piada antiga, um astrônomo informa, numa palestra, que todas as galáxias estão se afastando da nossa a uma velocidade de não-sei-quantos milhões de quilômetros por hora. E alguém pergunta na platéia: “Será que elas descobriram alguma coisa?” Algo parecido está acontecendo desde os primeiros meses deste ano, no mundo inteiro, com as abelhas. Colônias inteiras estão abandonando suas colmeias e fugindo em massa, deixando para trás quantidades abundantes de mel e de pólen, e até mesmo sua rainha – a quem as abelhas, como outros insetos, protegem com o sacrifício da própria vida. Por quê? Ninguém sabe.

Numa matéria no “Washington Post”, Joel Garreau lista as hipóteses levantadas até agora: o uso de pesticidas, de alimentos geneticamente modificados, e até mesmo as ondas dos telefones celulares. Para criaturas com um senso de orientação sofisticado como as abelhas (que “dançam” no ar para indicar às outras um local de colheita de pólen), qualquer um desses fatores pode ter produzido um ruído, uma interferência, que avarie o sua bússola interna e provoque essa evacuação às pressas. O fenômeno está sendo chamado “Desordem do Colapso das Colônias” (“colony collapse disorder”) nos EUA, que desde o final do ano passado já perdeu cerca de um quarto de seus 2,4 milhões de colônias da espécie “Apis mellifera”.

Jess Pettis, líder de um dos grupos de pesquisa encarregados do problema, lembra uma frase dita certa vez por Einstein: “Se as abelhas desaparecerem da face da Terra, a humanidade só sobreviverá por uns quatro anos. Sem abelhas, não haverá mais polinização, e sem ela não haverá mais gente”. Pode ser um exagero, mas o problema, mesmo que não seja tão grande, é grave e real. Os cientistas acham que as abelhas podem estar reagindo a mudanças ambientais que ainda não percebemos, do mesmo modo que nas minas de carvão os operários levam gaiolas com canários, cujo estado de saúde lhes serve de alerta contra níveis perigosos de poluição do ar. Fugindo em massa, elas nos alertam que algo está errado. Mas, volta a pergunta: o quê?

Alguns animais e pássaros são capazes de prever terremotos. Quando ficam muito inquietos, vem coisa por aí. Certamente eles são capazes de perceber as vibrações mais graves dos movimentos tectônicos iniciais, porque, como se sabe, quando a terra começa a se abrir e os prédios caem isto já é uma fase muito adiantada do terremoto, que já vem acontecendo há horas ou dias. Portanto, deve estar havendo algum tipo de convulsão magnética no planeta que não somos capazes de perceber, mas as abelhas percebem, e fogem dos lugares afetados.

Numa sociedade menos atarefada e menos soterrada por opções de lazer como a nossa, a observação do mundo natural é sempre uma maneira de “tomar o pulso” da Natureza, avaliar como andam as coisas. As profecias apocalípticas sempre falam em “sinais” do que está para acontecer. Se acontecer, não podemos nos queixar de falta de aviso.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

1349) O objetivo do terrorismo (11.7.2007)



O objetivo do terrorismo não é explodir aviões, desmoronar arranha-céus ou fuzilar chefes de Estado. Isto são meios para alcançar um fim. É claro que quem botou abaixo as torres do World Trade Center sabia que estava dando um baita dum prejuízo financeiro, mas também não era nada que levasse os EUA à falência. O objetivo a médio prazo dos terroristas é impor dentro do território americano uma tal insegurança que a vida de todos se transforme num inferno sem que haja necessidade de mais bombas.

Recentemente a polícia americana alegou ter descoberto uma trama para explodir tubulações que levam combustível para o aeroporto, o que resultaria em milhares de mortes. Se for verdade (uma das conseqüências do terrorismo é a multiplicação dos boatos, inclusive os criados pela polícia), acho que estão indo na direção errada. Depois do 11 de setembro, as grandes cidades ficaram com os nervos à flor da pele aguardando um novo ataque. Para mim, teria sido de um efeito psicológico devastador se a Al-Qaeda fizesse explodir uma bomba de grande porte numa cidadezinha americana insignificante, um Big Creek ou um Springfield qualquer, matando algumas centenas de pessoas. Enquanto os atentados se limitarem a metrópoles como Nova York, com sua imensa visibilidade, o resto do país dormirá mais ou menos sossegado, achando que não é com eles. Mas na hora em que um carro-bomba mandar para os ares a prefeitura de uma Johnsonville qualquer, todas as Johnsonvilles da América entrarão em pânico.

A coisa já está bem encaminhada. Vi depoimentos recentes de que os americanos estão deixando de viajar pelo simples fato de que não agüentam mais as demoradas, minuciosas e às vezes constrangedoras revistas toda vez que vão entrar num avião. Fico imaginando os milhões de bate-bocas que ocorrem diariamente de costa a costa desde 2001, o grau crescente de irritabilidade da população, a sensação de desgaste desnecessário, e por trás de tudo a desconfiança de que aquele moído todo não vai adiantar de nada, porque na hora que o terrorismo quiser atacar de novo vai ser por um caminho em que ninguém tinha pensado antes.

O seriado de TV Além da Imaginação (Twilight Zone) tinha um episódio escrito por Rod Serling, “Os Monstros vão chegar na Rua Maple”. Uma nave pousa a alguns quilômetros de uma cidadezinha americana. A população entra em pânico. Todo mundo começa a achar que há alienígenas infiltrados. E de fato coisas estranhas começam a acontecer. Pessoas somem. Cachorros se comportam de modo esquisito. Ocorrem falhas na eletricidade, apagando todas as luzes – menos as de uma residência, e o bairro inteiro se volta contra o “estranho”, que jura inocência. Começam os quebra-quebras, os linchamentos. Com pequenas sabotagens desse tipo, os ETs manipulam o terror da população. Em breve vizinhos estão se fuzilando uns aos outros. Falta muito para isto?

1348) A bala e a vítima (10.7.2007)



Ando pensando num filme documentário no estilo daquelas reportagens esportivas que acompanham, por exemplo, dois boxeadores que vão disputar um título no fim do ano. Uma equipe de filmagem cola em cada um, e vão seguindo os seus passos, registrando seu cotidiano, etc. No final o filme é editado em paralelo, mostrando lá e cá o trabalho de preparação de ambos, em duas linhas que convergem para a noite daquela luta histórica.

Suponhamos, então, que uma equipe inicia seu trabalho numa maternidade do Rio de Janeiro, documentando a chegada de uma paciente, o parto, a volta para casa. Passam-se os meses e os anos; vemos a criança crescer, ir à creche, ir à escola. Acompanhamos sua aprovação no vestibular, sua formatura, seu casamento. Tudo isto através de flashes muito rápidos, é claro, uma técnica já consagrada de documentarismo do cinema e da TV. Temos em alguns minutos um compacto da vida inteira de uma pessoa, e a vemos chegar à vida adulta, à vida profissional, ao nascimento dos primeiros filhos.

Enquanto isto, uma outra equipe de filmagem estará documentando as atividades de uma fábrica de munição. Não tenho muita idéia de como se dá este processo industrial, mas não é nada que alguns dias de pesquisa não resolvam. Podemos começar desde a extração e a fabricação das matérias primas (o chumbo, a pólvora, etc.), indo em seguida para o processo de fabricação das balas e das cápsulas de metal. Como balas não são fundidas individualmente, acompanharíamos com a câmara e o microfone (captando as explicações dos técnicos) a preparação de um lote específico, que deve ser de alguns milhares, até que a pesquisa fosse se fechando em torno de algumas centenas ou dezenas de projéteis que seriam encaixotados e remetidos para o comércio.

Na loja registraríamos a chegada daquela caixa de munição, e, atendendo a um chamado previamente combinado do lojista, documentaríamos o momento em que a caixa que nos interessa seria vendida para um cliente, que poderia ser o Exército, a Polícia, ou algum particular. Nele se concentraria então a nossa cobertura, com a ressalva de que seria preciso o revezamento de equipes para um plantão 24 horas por dia à espera do momento em que aquela bala específica fosse colocada na arma, e o momento do disparo – quando então as duas equipes de filmagem se cruzariam pela primeira vez, e se filmariam reciprocamente.

Sei muito bem dos problemas de produção envolvidos, porque na verdade não se pode prever quanto tempo teríamos de acompanhar a vítima desde o nascimento até ela receber o tiro – poderiam ser apenas 10 anos, mas poderiam ser 70. Quanto à bala, o problema seria não nos perdermos, pelo fato de que toda bala se parece (não acho que cápsulas tenham numeração individual, ou coisa assim) e a qualquer momento poderíamos perder a trilha e sair acompanhando um projétil diferente do que vínhamos seguindo até então. Mas enfim – vocês pensam que é fácil fazer cinema no Rio de Janeiro?

1347) A religião de Isaac Newton (8.7.2007)


(Isaac Newton)

Em Jerusalém foi aberta uma exposição de manuscritos religiosos de Isaac Newton, mais conhecido como o formulador da Lei da Gravitação Universal, inventor do Cálculo Diferencial, além de outras descobertas científicas. Muita gente não sabe que Newton, em seus últimos anos de vida, mergulhou fundo na exegese da Bíblia, que lhe ocupava o tempo inteiro. Já vi avaliações de que do total de manuscritos que deixou apenas um terço era de natureza científica; o resto eram especulações sobre a época do Dilúvio ou a possível data do Fim do Mundo.

O qual, de acordo com manuscritos exibidos em Jerusalém, está marcado para o ano de 2060, o que nos deixa tempo, caro leitor, para ir até o fim deste artigo. Ciência e Religião já foram uma coisa só, e ainda o são, nas chamadas sociedades primitivas. Todo grupo humano quer saber o porquê das alternâncias do dia e da noite, o porquê das estrelas e dos planetas, o porquê da vida e da morte. Quando atribui essas causas a seres sobrenaturais, cria a Religião. Quando as procura na própria Natureza, acaba produzindo a Ciência. Mas o objetivo das duas é o mesmo: entender como o Universo funciona, saber o como e o porquê das coisas.

Isto é algo tão óbvio que é preciso levantar os olhos do monitor e ver o mundo dilacerado em que vivemos, onde Ciência e Religião parecem não apenas atividades diferentes, mas mortalmente inimigas. Newton viveu num tempo (séculos 16 e 17) em que a Ciência começava a suplantar a Religião na explicação das coisas, e o fez, em grande parte, graças a ele próprio. Newton talvez acreditasse que não havia muita diferença entre o Dilúvio e a Gravidade: ambos seriam manifestações de Deus para melhor administrar a sua Criação.

Eis uma interessante pergunta retórica: se Deus criou as Leis da Natureza, ele pode desobedecê-las, produzindo um milagre? Diz a Religião que sim, a Ciência que não. Mas talvez estejamos colocando a questão de maneira errada. A Natureza não tem “leis” que devamos “obedecer”, tem uma maneira única de administrar a si mesma, através de fenômenos que vão desde a eletricidade e o magnetismo até a gravidade, a vida, as reações químicas, etc. Estes fenômenos obedecem a regularidades obrigatórias. Dadas as mesmas condições, repetem-se sempre da mesma forma. Se Deus não interfere nisso não é por impossibilidade de sua parte, é porque ele escolheu essa forma, entre todas, para exprimir a si mesmo no mundo material. Como diz o Gênesis, Deus fez tal e tal coisa, “e viu que era bom”.

Há um poema do cientista polonês Miroslav Holub em que um mágico, na corte do rei, faz surgir uma porção de coisas impossíveis: uma estrela negra, água seca, etc. Então alguém lhe pede para produzir “um seno de alfa maior do que 1”. O mágico empalidece: “Sinto muito,” diz ele, “seno de alfa está situado entre +1 e –1”. E vai embora derrotado. Uma bela fábula para mostrar que certos milagres não batem com a vontade de Deus.

1346) Dois tipos de autor (7.7.2007)


(Thomas Ligotti)

Na literatura existem dois focos distintos (para simplificar uma situação muito mais cheia de nuances) onde se concentram duas formas de produzir textos. Vamos chamá-los de Alta Literatura e de Literatura de Massas. Na primeira estão aqueles autores que constituem o cânone literário, os mais capazes praticantes da arte. São autores diferenciados, personalíssimos, de perfil inconfundível, mas compartilham alguns traços: visão profunda e complexa do mundo e da vida; e domínio da palavra escrita capaz de recriar a profundidade e complexidade dessa visão.

Na Literatura de Massas a visão é mais rasa e não vai muito além do que é consensual ou largamente aceito. É uma visão com menor índice de contribuição individual, e mais apegada ao clichê. O estilo não inova, apenas procura usar com eficiência os recursos expressivos criados por outros autores e já assimilados pelo público. O típico autor da Literatura de Massas procura criar poucos problema para ser compreendido pelo leitor. O que ele quer é ganhar tempo e “ir direto ao assunto”.

Na Alta Literatura, o Inconsciente está presente no processo de auto-revelação implícito no ato da escrita, e da escrita considerada de alto nível. Todo o material inconsciente que aflora durante o processo de criação é assimilado pelo intelecto criador e regente, ao qual cabe dar a última palavra. Por mais que o autor de Alta Literatura pareça delirante, caótico, incoerente (neste aspecto pode-se pensar na primeira impressão causada por um texto de James Joyce, ou Samuel Beckett), percebe-se afinal na elaboração do texto um intelecto poderoso em ação, mesmo que seja um intelecto trabalhando num plano além do racional.

No caso do autor da Literatura de Massa, pode-se dizer que, em vez de dominar o texto, é dominado por ele. Este tipo de autor escreve para consumo imediato. Não o faz para exprimir idéias pessoais ou suas próprias emoções, mas para satisfazer as expectativas de um público. Recorre a si mesmo porque isto é inevitável no processo da escrita, mas para ele importa muito mais “o que o público quer ler” do que “o que eu tenho a dizer”. Como diz o escritor Thomas Ligotti, “a arte é feita para exprimir as emoções do artista; o entretenimento é feito para produzir emoções no público”.

Pela natureza de seu ofício, o autor de Literatura de Massas dialoga com o público de maneira mais superficial que o outro Autor, mas de uma maneira mais próxima e imediata. O autor das Massas é um sismógrafo do gosto que lhe é contemporâneo, do Espírito do Tempo. Se o grande autor revela seu próprio Inconsciente, cabe ao autor popular revelar o Inconsciente Coletivo de sua sociedade e de sua época. Dois grandes grupos de autores podem servir como exemplos típicos deste processo: os autores de folhetins europeus do século 18 (Alexandre Dumas, Ponson du Terrail, Eugene Sue, etc.) e os autores da “pulp fiction” norte-americana nas décadas de 1920-1940.