quarta-feira, 1 de outubro de 2014

3618) Rubens F. Lucchetti (1.10.2014)



A pulp fiction tem autores invisíveis, que se multiplicam por toda parte. “Já cheguei a encontrar 15 títulos meus em uma banca, assinados por diversos autores,” diz Rubens Francisco Lucchetti, tão conhecido entre os fãs do Horror quanto Zé do Caixão. 



No Brasil não era comum, quando ele começou a carreira há 60 ou 70 anos, o escritor pulp que hoje está roteirizando quadrinhos, amanhã escrevendo uma novela de rádio, publicando um romance, reeditando contos antigos, metendo-se com cinema.  Nosso primeiro escritor de FC-de-gênero foi Jeronymo Monteiro.  “De gênero” por ser uma tentativa clara de reproduzir aqui as premissas da FC norte-americana, tentativa anunciada com entusiasmo de fã.  Com seu próprio nome e seus recursos, além do seu pseudônimo Ronnie Wells, ele foi um multimídia, na linguagem de hoje: radialista, editor, antologista, ficcionista, crítico... 



O ubíquo R. F. Lucchetti é um nome que eu cresci vendo por toda parte e lendo de vez em quando.  Não conheci sua obra tão bem quanto a de Jeronymo.  (Deste, eu tinha aos doze anos uma coleção das aventuras de Dick Peter com 9 volumes, achava que era completíssima.) Lucchetti atuava mais na literatura de horror, que sempre li menos que FC.  Na página de uma matéria recente sobre ele no Uol (aqui: http://bit.ly/1rx25m4) aparecem as capas de alguns livrinhos de bolso de terror, apenas alguns entre centenas e centenas de títulos. “Noite Diabólica – contos macabros” era um deles, cuja capa lembrei de cara.  Não lembro se foi ali que vi minha primeira referência sobre Ray Bradbury, um resumo comentado de sua carreira, ilustrado por desenhos.



Não li os romances mais famosos de Lucchetti, que me parecem ser “O Crime da Gaiola Dourada” e “O Fantasma do Tio William”, mas devo ter lido dezenas dos seus terrores góticos, seus calabouços, seus zumbis, seus sacerdotes de cultos indizíveis, em livrinhos vendidos nas bancas há 50 anos, feitos em papel jornal, do tamanho de um folheto de cordel. Lucchetti, que tem 84 anos, pertence a um mercado editorial muito diferente do de hoje.


Ele diz que já publicou muita coisa com pseudônimo inglesado, para vender. (Achei “Brian Stockler” uma ótima idéia.)  Na Paraíba estivemos lembrando e homenageando o nosso Deodato Borges velho-de-guerra, o criador do “Flama”, que faleceu há pouco tempo.  Deodato enveredou pelo radialismo em Campina Grande como poderia ter enveredado pela “pulp fiction” se morasse em São Paulo.  Como enveredou, por esses e outros caminhos, o paraibano Péricles Leal, que foi do “Falcão Negro” às telenovelas.  Todos com a inquietude, a imaginação e as contas-a-pagar de todo autor de literatura popular.




terça-feira, 30 de setembro de 2014

3617) Campanhas políticas (30.9.2014)





Uma campanha política é uma peça propagandística (e teatral) complexa. Envolve, em sua parte visível, um catatau de impressos, programas de TV, discursos, comícios, debates, entrevistas coletivas, etc.  A parte invisível deve ser (nunca vi) de reuniões a portas fechadas com doadores de campanha, com companheiros de coligação, promessas, acenos de futuras vantagens, contratos a sete chaves onde cada vírgula é barganhada até a exaustão.



Essa parte invisível é, para as pessoas e entidades envolvidas, a verdadeira campanha, o jogo real, uma Copa do Mundo privada que acontece também de quatro em quatro anos.  A parte visível é essa festa diante dos olhos de dezenas de milhões de eleitores. A campanha não é a Copa, é a cerimônia de abertura. A Copa mesmo começa depois da posse. Seria injusto dizer que a campanha não tem valor nenhum.  É a conquista dos corações e mentes do eleitorado, e para isso as encenações têm um peso indiscutível.  Mas campanha é jogo-de-cena.  Algo como a dança de acasalamento de algumas espécies animais. É necessária para que o acasalamento ocorra, mas o acasalamento em si são outros quinhentos, que vêm logo depois.



Acasalamentos a portas fechadas, sob sete capas de sigilo. E la nave va. O direito de eleger os funcionários públicos que administrarão o mundo onde eu vivo é da maior importância, mas seria tão bom que bastasse isso.  Que não precisasse ficar cobrando, não precisasse vigiar e punir.  A maioria dos cidadãos, se perguntados, diriam que não querer se envolver com política é legítimo, mas não precisa entrar em choque com quem quer.



Eleições são como trocas de técnico no futebol.  Têm importância?  Claro que têm. Emocionam multidões? Certamente.  Podem trazer mudanças boas, mudanças ruins?  Sem dúvida.  Mas a estrutura fundamental não muda. Um Presidente da República, pra dar só um exemplo, é o técnico a quem cabe organizar o time e botá-lo pra correr.  Está ali para manter a todos fora do buraco, se possível, até pra que a galinha não pare de pôr seus ovos de ouro.  Quem manda no clube, no entanto, não é o técnico. Em muitos casos, não manda nem no time que botou em campo. 


Num clube seleto como a Seleção Brasileira, a gente já viu técnico como figura decorativa, que está ali pra pôr em prática políticas já decididas no vigésimo andar.  Cabe a ele administrar o lucro ou o prejuízo, dar explicações à TV, ser sabatinado, às vezes até ser derrubado com certa rudeza. Já na política, nunca consegui acreditar que quem manda, p. ex., nos EUA é o Presidente Obama. Ele é como o comandante, dando ordens na torre, e recebendo ligações do dono do navio.



domingo, 28 de setembro de 2014

3616) Palavras sem rima (28.9.2014)





A lista A Word a Day, que assino há anos, trouxe uma postagem sobre um oficial norte-americano do século 19, chamado Henry Gorringe.  Ele foi o responsável pela transferência da chamada Agulha de Cleópatra (um obelisco egípcio) para o Central Park de Nova York.  Sua presença na lista, contudo, era por uma razão ainda mais rara: segundo os redatores, o nome dele é a única rima na língua inglesa para a palavra “orange” (laranja).



Rima é um negócio danado.  Quando dizemos rima, na poesia, estamos falando em geral daquilo que se denomina rima exata, ou rima consoante: laranja / canja, abacaxi / siri, futebol / sol, e assim por diante.  A poesia modernista, no entanto (João Cabral, Cecília Meireles, tantos outros) usou fartamente a rima toante, aquela em que os sons são meramente parecidos: Paraíba / vida, sino / caminho, alma / casa, etc.  Só pra resumir: a rima consoante, exata, tradicional, é aquela onde existe entre as duas palavras uma coincidência perfeita de sons a partir da vogal da sílaba tônica.  As palavras “conta” e “ponta” rimam, não importa se antes da vogal em questão vem um C ou um P.



Meu pai fez para minha avó (Vó Clotilde, que era a cara de Agatha Christie) um soneto chamado “Mãe”, que terminava dizendo: “Pois teu nome sem rima é o hemistíquio / do verso alexandrino de minh’alma”.  Quando o questionei, ele me interpelou: “Pois me diga uma rima para a palavra ‘mãe’”.  Eu disse, em-cima-da-bucha: “Bãe... tamãe...”, e ele me mandou pastar.  Não, não tem rima.  Assim como “sempre” também não tem. Dou um milhão de dólares por duas palavras terminadas em “...empre”, preu fazer uma sextilha que está engatilhada há anos.



Também não têm rima palavras como cérebro, víbora, câncer, nuvem, órfã, mil outras.  De vez em quando aparece um esperto exumando um vocábulo seiscentista, ou distorcendo de leve uma pronúncia pra aconchambrar um verso periclitante.  Vale?  Às vezes vale.  Guilherme de Almeida, artesão de mão cheia e bom poeta, tem um poema chamado “Berceuse da Rimas Riquíssimas” onde cataloga alguns desses truques, como por exemplo rimar “nuvem” com “nu vem”.  Existe o caso famoso de “cinza”, que só rima com “ranzinza”, mas um cantador de viola sabichão encaixou num verso a história de um cantador fanho que em vez de “camisa” falava “caminza”.


Palavras proparoxítonas têm rimas mais difíceis, porque há três sílabas que precisam ser iguais (cântico / romântico). As oxítonas são as de rima mais fácil, a começar pelas terminações de verbos (...ar, ...er, ...ir, ...por).  Quando Monsueto dizia “Pra que rimar amor e dor?” estava exprimindo uma nostalgia afetiva e também uma impaciência estilística.


sábado, 27 de setembro de 2014

3615) Paranóia hospitaleira (27.9.2014)




(Bela Lugosi, 1931)


Um vampiro nunca pode entrar por vontade própria quando vai pela primeira vez à casa de alguém. Ele precisa ser convidado a entrar por alguém, pertencente à residência (ver Drácula, cap. 18). Depois que alguém diz: “Oh, Conde Drácula, mas que surpresa, veio conhecer minha humilde casa, pode entrar, não repare a bagunça”, ele entra, e a partir desse instante você perdeu todo seu domínio, todo seu direito à proibição, à interdição da presença. Ele poderá entrar e sair à vontade. 



Esta é uma das regras da existência do “nosferatu”, mas ela se estende a outros domínios. Celia Fremlin, escritora inglesa, tem um conto arrepiante sobre  uma menina que está sozinha em casa numa noite chuvosa, na ausência dos pais, e ouve outra menina batendo à porta, pedindo para entrar. (Vejo um eco desse conto, que é bem antigo, no filme sueco, depois refilmado nos EUA, Deixe ela entrar)  É um dos medos mais primitivos da humanidade. Se você está trancado e em segurança num ambiente familiar, confortável, etc., será que se arriscaria a deixar entrar ali um desconhecido, que pode representar uma ameaça? (Lembrem de Laranja Mecânica: “Por favor... sofremos um acidente na estrada... meu amigo está ferido... deixem-nos usar o telefone...”). 



A paranóia da hospitalidade é uma daquelas situações analisadas na Teoria dos Jogos em que você é forçado a uma decisão porque com a decisão oposta teria pouco a ganhar (se desse certo) e muito a perder se desse errado. Na dúvida, é melhor dizer: “Vá embora, não vou abrir pra ninguém, vá bater noutra porta”.



Deixar entrar um estranho: eis uma fórmula simples para muitas situações trágicas. Curiosidade e ingenuidade são uma combinação perigosa, vide os troianos ao receber o presente do cavalo de madeira. Levaram o Estranho para dentro de suas muralhas, que era justamente onde ele queria chegar.  Não foram muito mais espertos do que os índios brasileiros que aceitaram roupas usadas e morreram de peste.


Na série Game of Thrones, a hospitalidade, os direitos e deveres recíprocos entre anfitrião e hóspede são sagrados.  Um dos seus momentos mais dramáticos foi no episódio chamado de “Red Wedding”, quando essa regra foi covardemente quebrada.  Matar o hóspede (tanto quanto matar o que hospeda) é o mais desonroso dos crimes. Macbeth recebe o rei em seu castelo e o assassina durante a noite.  Isso é mais vil do que mandar matar um amigo e o filho pequeno, do que aconselhar-se com as três velhas sinistras.  Hospedar um criminoso, ser recebido na casa de um criminoso: uma ingenuidade imperdoável na Guerra dos Tronos.


sexta-feira, 26 de setembro de 2014

3614) 5 mentiras (26.9.2014)





“Mãe, será possível, eu passei a tarde na casa da Priscila, es-tu-dan-do-pra-pro-va, se você não acredita pega aqui, vai, liga pra ela e pergunta!” (Daniela Martins, 18 anos, estudante, São Paulo, estendendo o celular para a mãe e cruzando metaforicamente os dedos na esperança de que seu blefe funcione e a mãe não ligue para a colega e não a force a gaguejar mentindo, não venha a desconfiar de que a filha foi pela terceira vez ao motel levada por Pedro Paulo, um homem casado e sem escrúpulos que mora no terceiro andar do prédio para onde as duas se mudaram juntas após o falecimento do pai).



“Eu preciso desse empréstimo, tenho uma ex-mulher que me arranca o derradeiro centavo, tudo que eu ganho tenho que dividir com aquela praga do Egito!” (Ladislau Werneck, 49 anos, Belém, para o gerente do Banco, tentando justificar, sem que ninguém lhe pedisse, o empréstimo que está em trâmites, sendo que a ex-mulher, coitada, apenas lhe pede uma graninha emprestada de vez em quando, e sempre paga, e o buraco financeiro na verdade é pra sustentar os luxos de Keyla Simone, 23 anos, dançarina, que faz Ladislau comer na sua mão e nas horas vagas gasta os tubos com roupa e academia).



“Pai, preciso daqueles 50 reais que falei pro senhor, o da taxa de material esportivo para os Jogos Colegiais, era pra ter levado na segunda-feira.” (Wilson Leite da Silva, 16 anos, estudante, Santa Maria do Paraná, na esperança de que o Pai, sempre resmungão e reticente, não descubra que metade do dinheiro é para comprar no sebo da cidade, que fica a 10km, livros que Wilson esconde no celeiro, porque se o pai descobrir queima tudo no querosene e diz “vai trabalhar, vagabundo!”).



“Não, doutor, nunca fiz aborto, deve haver algum engano...” (Marilene de Campos, 38 anos, Aracaju, morrendo de medo de confessar ao ginecologista seu erro de juventude, porque nunca se sabe, numa cidade pequena homens comentam coisas em mesa de bar e essas coisas acabam chegando aos ouvidos de Valdir, seu marido, o melhor homem do mundo, tão melhor que casou com ela e nunca percebeu que ela não era mais virgem).


“Falou que estava tudo bem, que era estresse, e que na minha idade eu preciso é de dieta e um pouco mais de exercício.” (Mário Guilherme Frota Santos, 57 anos, administrador de imóveis, Cachoeiro do Itapemirim, guardando os Raios-X e os resultados sombrios dos exames que tinha feito, disposto a tomar as providências necessárias, organizar as finanças, e depois aproveitar os meses de vida profetizados pelo médico, porque se por um lado não tinha jeito, também não era motivo para jogar todo mundo num desespero sem futuro).


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

3613) As cidades voadoras (25.9.2014)





Cities in Flight é o nome geral de uma série de histórias de ficção científica publicadas por James Blish entre 1955 e 1962. Mediante a descoberta de uma energia antigravitacional, chamada “spindizzy”, é possível isolar cidades inteiras da Terra, cobri-las com um cúpula pressurizada, transformá-las em verdadeiras ilhas celestes, e fazê-las levantar voo pelo Sistema Solar e além.  Espaçonaves não apenas do tamanho de Manhattan, mas levando a própria Manhattan inteira dentro de si, universo afora.



A FC estava explorando o conceito de naves cada vez maiores, mais complexas, com milhares de tripulantes, “naves-geração” viajando séculos afora pelo espaço. Naves cada vez mais parecidas com uma cidade. Blish pulou ousadamente para a extremidade oposta da idéia. Ao invés de transformar a nave numa cidade, transformou as cidades em naves.



É a mesma mentalidade por trás dos grandes transatlânticos de cruzeiros marítimos, cuja publicidade insiste o tempo inteiro em descrever como algo do tamanho de uma cidade, com todas as opções e todos os serviços de uma cidade, só que despregadas do continente, da continuidade das obrigações do trabalho.  Um paraíso de lazer que cortou o cordão umbilical que o prende ao princípio da realidade, das obrigações, dos deveres.



Cidades realizando a utopia urbana de não se verem presas a um país, a um ambiente rural. A cidade inventiva, tecnológica, aventureira, decolando espaço afora com a única missão de enfrentar aventuras e desafios. A cidade vira uma metáfora da mente, da inovação, da invenção, do progresso, do fervilhar de idéias; é ela quem se lança no espaço aventuresco.  Quem fica para trás é o mundo rural, o corpo físico, aquela coisa conservadora, materialista, cuja necessidade de comida e de descanso atrapalha a criatividade da mente. 



Claro que as aventuras e a necessidade de sobrevivência no espaço acabam mostrando a esses aventureiros o lado mais espinhoso da aventura, mas o ciclo de romances de Blish se baseia numa daquelas imagens que só uma certa arte pode proporcionar. A justaposição inesperada de duas coisas, reveladora de uma realidade inquietante; como os relógios moles de Dali, a bicicleta voadora do “E.T.”, a Gioconda bigoduda de Duchamp, a ceia dos mendigos de Buñuel, os rostos-perfis de Picasso, a Estátua da Liberdade na praia do Planeta dos Macacos.


A idéia ponto-de-partida da Cidade Voadora de Blish é um pouco como a flor que se sustentasse no ar sozinha, sem haste, descrita num poema por Paulo Mendes Campos – a flor sem contato com o chão, a flor que não come estrume, a lírica não contaminada pelas sujeiras da vida real.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

3612) Meus 25 irmãos (24.9.2014)





Meu nome é Paraíba, e tenho 25 irmãos. Sabemos quem é nossa mãe, mas não temos certeza sobre quem é o pai de cada um, porque somos legião. O mal da nossa mãe foi ser tão fecunda, bastava que lhe plantassem algo ali onde ela tudo dava. Seu destino era traçado a milhares da léguas da cama onde vivia sendo possuída.   Mas tem uma velha oração, ou será uma canção antiga, que diz que não há tragédia que não produza uma nova forma de viver, e, se é uma nova forma de viver, é algo, em princípio, bom.



A terra dos nossos pais é grande e se estende por montes, campinas, matas e rios.  Vivemos quase todos ao alcance da vista uns dos outros. Quem vive perto se observa, se vigia, se controla, se mantém a uma distância respeitosa, conserva os outros a uma distância confortável.  Por uma questão meio de poder aquisitivo, meio de hábito tradicional, vivo cercado pelos meus irmãos mais próximos – Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará – cujas terras limitam com as minhas e com quem, metaforicamente, troco empréstimos de xícaras de açúcar, vagas na garagem, senhas de wi-fi.



Numa família de muitos irmãos, é normal que alguns não se conheçam, que outros inventem formas de convivência e apoio.  Eu mesmo desde muito cedo saí da casa dos meus país e fui morar na casa do meu irmão Rio de Janeiro, que mora longe mas é super bem sucedido, ou pelo menos assim apregoa.  Morei com São Paulo também, que não é o mais velho mas é sem dúvida o mais rico de todos os irmãos e acha que basta isso para lhe dar direito a uma primogenitura. Enfim, uma discussão que já é antiga.



Irmãos demais dá nisso. Uma bela noite a gente está de volta à cidade natal, vai a um bar com a antiga turma e de repente um cara de bigode se aproxima de uma mesa próxima. “Você é Paraíba?”  “Sim, sou eu mesmo.”  “Eu sou teu irmão, então. Me chamo Amazonas.” (Roraima, Amapá, Acre...)  Bom, só me resta apertar sua mão e dizer: “Que legal, cara, somos irmãos, nossos pais já me falaram muito de você, não é lá que predomina a pesca do pirarucu?”.  Meu amigo, é família que haja mapa.


Todos nos avaliamos a meia distância, como convém a quem concorre.  Todos trocamos pequenas gentilezas, como acontece com quem sabe que um dia morre. Saber que somos irmãos nos dá a idéia de que jogamos do mesmo time, estamos botando a bola pro mesmo lado, mesmo que discordemos de todo o resto.  Uns são mais histriônicos e necessitados de holofotes. Outros são mais carregadores de piano. Tem uns que sonham em viver no estrangeiro com os pais, tem outros que se orgulham da vida aqui na mãe.  Enfim: igual ao que acontece com toda família, desde que o mundo é mundo.


terça-feira, 23 de setembro de 2014

3611) Fala, Nabokov (23.9.2014)





(ilustração: Huxley King)


Em 1975, Vladimir Nabokov, então morando em Montreux (Suíça), cidade que já nessa época devia viver infestada de músicos brasileiros, foi a Paris para ser entrevistado no programa de TV Apostrophe, respondendo a perguntas e a comentários de Bernard Pivot e Gilles Lapouge. (Aqui, com legendas em português: http://tinyurl.com/ozxtunu) O autor de Fogo Pálido fala num francês saboroso, com torneados de voz muito bem humorados. Recitando Verlaine, ao lembrar da adolescência, ele observa que rimas como “atonne / détonne” são rimas incestuosas, porque são a mera repetição de um sufixo ou elemento comum a ambas. Certo-incerto, cansar-descansar, são rimas incestuosas, estão acasalando coisas etimologicamente consanguíneas.



Nabokov nasceu em 1899, numa família rica e aristocrata que fugiu com os baús na cabeça diante dos bolcheviques. Ficou famoso nos EUA, o russo é sua língua preferida e o inglês o seu instrumento de trabalho, mas talvez por ser um programa francês ele fez questão de se exprimir em francês.  Acontece que ele parece estar lendo o que diz, e daí a pouco percebe-se que está mesmo, está com texto à frente e entremeia isso com algumas frases trocadas com os franceses.



Ele fala da espécie fictícia (“espécie, não gênero”, adverte ele) de borboletas que criou para Ada, ou O Ardor (1965) – segundo ele, a primeira vez que isso ocorre na literatura. Nabokov demora a assumir que gosta de trocadilhos (“calembours”), mas logo adiante admite que a cidade russa de Tomsk lhe sugeriu as cidades fictícias de Atomsk e Bombsk.  Ele concorda que seus professores se queixavam, antigamente, de que ele não era suficientemente russo.  Diz que gosta de histórias bem contadas, sim, e que seus livros são justamente uma teia completa de histórias que se entrelaçam.



Sua conversa lembra uma daquelas entrevistas de Cortázar ou Borges em francês; evoca aquela fase da História em que o francês foi o latim dos intelectuais. Ele claramente se diverte em comentar as capas terríveis de Lolita no mundo árabe, onde os desenhistas colocavam na capa “mulheres de formas opulentas”.  Elogia o sistema postal suíço.  Diz que não dá autógrafos, acha um desperdício de tempo.  Faz longos comentários sobre as tramas de Lolita e de Ada, o livro cuja tradução francesa estava sendo lançada naquele momento.


Essas aulas que Nabokov redigia e depois lia em sala de aula estão publicadas, e começam a ser traduzidas no Brasil: as Notas sobre Literatura e as Notas sobre a Literatura Russa.  Ele responde em francês lendo em fichas, mas de forma coloquial, e se fosse meu professor eu faria o possível para ver a aula desde o começo.


domingo, 21 de setembro de 2014

3610) Crônicas de Bradbury (21.9.2014)





(ilustração: Marte, de Michael Whelan)


De vez em quando me perguntam os meus “dez melhores contos de FC”, por exemplo. Eu sou um pré-nerd. Gosto mais de fazer listas do que vocês todos, juntos e ranqueados. Algumas listas de melhores valem pelo que têm de insólito e quando é uma lista comentada e justificada.  E por que dez? Por nada, por “furor simétrico”, e aliás as listas da web e das capas de revistas já quebraram esse cartesianismo. E tome-lhe: As 21 Melhores Histórias de Império Submarino High-Tech Que Acaba Destruído Por Catástrofe Tectônica.  Onde houver muitas coisas, sempre haverá dez melhores. Ou 21.



Uma lista dos Dez Mais Óbvios Melhores da FC talvez incluísse quase por unanimidade “Um Som de Trovão” de Bradbury, “Os 9 bilhões de nomes de Deus” de Arthur C. Clarke, algo obrigatório de Harlan Ellison, P. K. Dick, Theodore Sturgeon, todos grandes contistas de obra extensa. Eu incluiria Fritz Leiber, Ballard, Wells, mas duvido que a maioria o faça. Não importa, e não adianta, o oceano dos livros é grande demais para qualquer leitor.



Tem também “A terceira expedição”, uma das Crônicas Marcianas de Bradbury.  Astronautas descem em Marte, encontram vilarejo do Oeste, e nele seus entes queridos, em suas casas originais. Estavam todos vivos, então, preservados em alguma ultradimensão?  Os pais, os avós, os brinquedos da casa, o quarto em que tinham morado até os dezoito anos. Tudo intacto. Todos vivos.



E então alguma coisa acontece. O cristal do final feliz e impossível se parte.  O véu do mundo se rasga e revela um lobo faminto. Bradbury, quando se torna macabro, consegue um efeito diferente do de Lovecraft, que é macabro por ideologia, é o que sempre se espera dele.  As crônicas de Bradbury são situações semi-fantásticas que ele propõe e depois desconstrói. “Encontro Noturno”, outra delas, não é um conto macabro, é de sense-of-wonder: mostra um terrestre e um marciano, no alto de uma colina, e cada um descreve para o outro o Marte que vê, e onde está.



Macabras ou maravilhosas, as projeções mentais dos marcianos de Bradbury prefiguram todos esses universos “simulacron” ou “matrix”, projeções na mente de alguém, que as experimentam como reais.


Bradbury foi chamado o Norman Rockwell da FC (ou Rockwell foi chamado o Bradbury da ilustração). Representam uma América jovial, interiorana, democrática, e com seus defeitos, seus demônios, como é a sina do ser humano. Era sentimental, mas não mais do que Dickens, e macabro, mas num grau menos grave que o de Poe. Na verdade, ele mistura o macabro, o romântico e o cômico. Seu universo é mais próximo ao de Tim Burton, Neil Gaiman ou Charles Adams do que aos universos de Clarke e Asimov.


sábado, 20 de setembro de 2014

3609) Tempos interessantes (20.9.2014)



(livraria em Londres durante a II Guerra)


Os chineses têm uma expressão para rogar praga a alguém: “Tomara que você viva em tempos interessantes”. É o contrário de desejar a alguém paz e tranquilidade, não é mesmo?  Doris Lessing dizia que os bombardeios nazistas sobre Londres trouxeram morte e terror para muita gente, mas também trouxeram um pouco de animação para suas vidas. Uma senhora londrina bem idosa lhe disse uma vez: “It was a nice change.” (“Foi uma mudança agradável”). Pode ter sido. Para pessoas que levavam uma vida tediosa, reprimida, asfixiante, a guerra pode ter representado uma liberação, uma instabilidade onde era possível meter os pés, arregaçar as mangas, tomar decisões, viver intensamente, em suma. Tempos interessantes.



Algo parecido é dito por Colin Wilson em vários livros: que durante os bombardeios da II Guerra Mundial os londrinos se divertiam a valer nos bares instalados nos porões. O chão tremia, as bombas caíam a algumas dezenas de metros, mas a música não parava, a bebida rolava solta, todo mundo namorava e dançava pra valer. A proximidade e a possibilidade da morte (bem como a impossibilidade de fazer algo a respeito) pareciam tornar cada minuto mais carregado de significado.



F. Scott Fitzgerald (“Echoes of the Jazz Age”, 1931) dizia que a palavra jazz estava associada “a um estado de estimulação nervosa não muito diferente daquele das grandes cidades logo aquém do front de batalha. Para muitos ingleses, a guerra ainda continua, porque todas as forças que os ameaçavam ainda estão em atividade. Portanto, vamos comer, vamos beber e nos divertir, porque amanhã a gente morre.” Note-se o quanto Fitzgerald tinha razão: a guerra a que ele se refere era a Primeira, e os ingleses tinham uma percepção muito sensata do que lhes vinha pela frente.


Quem gosta de tempos interessantes são as pessoas que gostam de desafios, de aventuras, as que não temem a incerteza, que sabem conviver permanentemente com os próprios medos. Pessoas pacatas são sabem conviver com o medo. Quando estão numa situação mediana e satisfatória de estabilidade, querem que tudo permaneça assim. Têm moradia, comida, trabalho, o básico da vida; e a última coisa que desejam é que essa estabilidade precária seja ameaçada.  Diante do novo e do desconhecido, esperneiam e vociferam. São capazes de tudo para manter as coisas do jeito que estão. Entre a aventura de querer melhorar e a segurança de se agarrar ao que já têm, preferirão sempre esta última. Temem as próprias limitações, acham sempre “que não vai dar”, agarram com desespero o pássaro-na-mão que o destino lhes concedeu até agora. Não querem viver em tempos interessantes.