sábado, 25 de abril de 2015

3798) A carência retórica (26.4.2015)



Uma coisa que me inquieta nas discussões das redes sociais e nos comentários de websaites é a imensa truculência, grosseria e estupidez com que as pessoas se exprimem quando estão discutindo algo que as incomoda. A Internet levantou o tapete do Brasil e nos mostrou o que estava oculto há muitas gerações. A liberdade de “dizer o que bem entender” tem sido usada por essas pessoas para insultar e agredir verbalmente qualquer bode expiatório que passar pela sua frente. E não venham me dizer que é a “Direita hidrófoba” que faz essas coisas. É todo mundo, de um extremo ao outro, e principalmente nos dois extremos.

Vou deixar de lado os que são meio psicopatas, os que aceleram o carro pra cima de uma passeata, os que se desentendem numa fila e daí a pouco matam um desconhecido com seis tiros, os que se juntam para linchar uma pessoa que foi confundida com outra. São pessoas em ebulição permanente, a ponto de explodir, e para elas tudo é pretexto. Casos perdidos, e não é neles que penso. Penso nas pessoas que não são assim (entre as quais amigos, conhecidos meus) e que “do nada” produzem frases de uma violência e um teor ofensivo que... não vou dizer que me assustam, porque não me assusto com nada, e em matéria de violência verbal sou capaz de entestar com qualquer um. Mas não creio que a “indignação cívica” baste para justificar não apenas as coisas que são ditas, mas o vocabulário rasteiro, brutal com que são ditas.

Por que o fazem? Chamo isso de carência retórica. Pessoas que precisam exteriorizar um sentimento muito intenso que brota numa região primitiva, pré-verbal. Tive um amigo que era o entusiasmo em pessoa, era um tipo como Maiakóvski (“sou coração dos pés à cabeça”). Chegava com um livro e dizia: “Esse livro é a coisa mais absolutamente genial e sensacionalmente maravilhosa que eu já vi em toda minha vida”. Dizia variantes disso, dez vezes por dia, com dez coisas diferentes. Eu dizia: “Rapaz, por que tu não inventa um elogio que prescinda de hipérboles?” (eu falava assim aos 18 anos).

Somente entusiasmos desse tipo, só que de repulsa, justificam expressões como as que a gente vê nas redes sociais, escritas por gente que sabemos educadas, por gente que sabemos terem bons sentimentos e bom caráter (coisas que têm apenas um pouco a ver com opções políticas), mas que parecem estar sempre de palavrão em riste para desferi-lo na direção de um político, um artista, uma pessoa que saiu no jornal devido a um acontecimento qualquer. Essa carência retórica mostra acima de tudo que o que o indivíduo diz passou por longe de sua consciência. Brota direto do lugar onde alguém lhe cravou os implantes mentais.





3797) "Haxan, a feitiçaria" (25.4.2015)



Estou coordenando, para a Escola de Cinema Darcy Ribeiro (Rio de Janeiro) uma Mostra do Cinema Fantástico, com filmes todos os sábados às 14 horas, entrada franca. A escola fica na esquina da Rua 1º. de Março com Rua da Alfândega, pertinho do CCBB. (Após a sessão, haverá debate com o prof. Sérgio Almeida.)

Hoje será exibido Haxan – a Feitiçaria Através dos Tempos de Benjamin Christensen. Realizado em 1922, é uma co-produção dinamarquesa-sueca inspirada no famoso livro O Martelo das Feiticeiras (“Malleus Maleficarum”), o guia dos interrogadores de bruxas do século 15. Foi o filme escandinavo mais caro de sua época. O diretor pesquisou uma imensa iconografia relacionada a deuses, demônios, bruxas, duendes, criaturas monstruosas, espíritos malignos, e muitos episódios foram encenados com atores.

Haxan não é um filme de ficção nem é um documentário tradicional. Sua pesquisa tem um perfil até didático (é engraçado ver hoje a “vareta do professor” indicando os detalhes das imagens mencionados no texto). As tentativas de dramatização de situações não chegam a ganhar um caráter ficcional, são como ilustrações animadas. Xilogravuras, iluminuras, desenhos: o diretor reuniu uma impressionante quantidade de material.

Há uma corrente importante do fantástico literário (e cinematográfico) que nasce desse caldo espesso de milhares de anos de superstições, animismo, violência, preconceitos, alucinações coletivas.  A escritora Kathryn Cramer disse certa vez que “o Fantástico é a linguagem da mente submetida a extrema tensão”. É o transbordamento do inconsciente sobre o consciente, no indivíduo, e, coletivamente, o transbordamento de milhares de anos de superstição sobre a racionalidade duramente conquistada em séculos mais recentes.  Temos hoje um verniz de ciência e pragmatismo cobrindo milênios de alucinação, fanatismo, terrores religiosos.


Haxan reproduz os aspectos mais sombrios desse mundo em que seres humanos, diabos, animais e deuses se transformavam uns nos outros mediante uma fórmula mágica, uma poção, um ritual. É o mundo das feiticeiras de Salem e do Macbeth de Shakespeare, do Inferno de Dante e de Anne Rice. Estamos longe do fantástico sofisticado, na linha de Jorge Luís Borges, em que se discutem aspectos e paradoxos do espaço e do tempo. Haxan é uma viagem ao interior da mente humana e aos pesadelos que ela guarda nos seus porões. Não são os paradoxos delicados e inquietantes de René Magritte ou de Salvador Dali: é o mundo de Hieronymus Bosch, repleto de duendes, demônios, seres híbridos de animal e gente. As criaturas que abrem os olhos quando apagamos a luz. 



sexta-feira, 24 de abril de 2015

3796) O fantástico todoroviano (24.4.2015)


Tzvetan Todorov, em sua Introdução à Literatura Fantástica, produziu uma das mais úteis tentativas de definição do Fantástico. Tão útil que acabou se tornando um problema para críticos e teóricos. Muitos acham que a maneira como Todorov via o gênero era “a maneira certa”, e que as outras são erradas. O que é um engano, claro. Eu chamo a fórmula criada por ele “O Fantástico Todoroviano”, pois abarca uma boa parte do gênero, mas não o esgota. Nenhuma fórmula esgota um gênero, que pode (como o próprio Todorov admitia) ter seu perfil modificado pelo aparecimento de uma obra diferente de todas as anteriores.

Todorov reconhecia dois extremos numa escala das narrativas do sobrenatural. Num extremo, o Maravilhoso: histórias totalmente irreais, imaginárias, sem vínculo com nossa realidade. No outro, o Estranho, histórias que têm algo de insólito ou extraordinário, mas no final admitem uma explicação realista, não-sobrenatural. O Fantástico (para ele) seria uma oscilação intermediária, histórias onde o personagem, ou o autor, ou o leitor, ou os três, não conseguem decidir se os fatos narrados são de fato sobrenaturais (o que levaria a história para o terreno do Maravilhoso) ou têm explicação realista (o que a levaria na direção do Estranho).

O livro original de Todorov é de 1970. Duvido que ele não conhecesse então a famosa Antologia da Literatura Fantástica de Borges, Bioy Casares e Silvina Ocampo (São Paulo: Cosac Naify, 2013, tradução de Josely Vianna Baptista). No prólogo (a antologia é de 1940) diz Bioy Casares:

“Os contos fantásticos podem ser classificados, também, pela explicação: a) os que se explicam pela ação de um ser ou de um fato sobrenatural; b) os que têm explicação fantástica, mas não sobrenatural (“científica” não me parece o adjetivo conveniente para essas invenções rigorosas, verossímeis, à força de sintaxe); c) os que se explicam pela intervenção de um ser ou de um fato sobrenatural mas insinuam, também, a possibilidade de uma explicação natural (“Sredni Vashtar”, de Saki); os que admitem uma alucinação explicativa. Essa possibilidade de explicações naturais pode ser um acerto, uma complexidade maior; geralmente é uma fraqueza, um subterfúgio do autor, que não soube propor o fantástico com verossimilhança.”

Note-se que a quarta via sugerida por Bioy (“alucinação explicativa”) pode perfeitamente estar contida na terceira, pois uma alucinação seria uma “explicação natural” – o que vimos é um delírio do personagem. Não tenho à mão agora o livro de Todorov para ver se ele cita Bioy, mas me parece clara a influência, ou no mínimo a convergência de raciocínio entre os dois.



quinta-feira, 23 de abril de 2015

3795) Contracapa de Instagram (23.4.2015)



escrever uma prosa que se choca com o osso e nem toca a pele  &  tem pessoas que tratam a gente como poupança, na hora em que precisar sabe que vai ter  &  as grandes cidades estão cheias de viajantes-no-Tempo analfabetos, em busca de emprego  &  nenhum aprendiz deixa de ser aprendiz quando se torna um mestre  &  o pulo do gato o leva à terceira margem do rio, assim como o salto do cavalo o liberta da Planolândia  &  os idealizadores dos bulevares temiam a guerrilha em surdina e não contavam com o estouro do vândalos  &  o mundo piscou o sol e de repente era outro dia  &  o alquimista está para a Química assim como o físico quântico está para a Física  &  torcer contra a Copa e torcer pela Seleção exigem que o cérebro vire um anel-de-Moebius  &  tem gente que pega o ônibus errado e fica teimando que o motorista não sabe o caminho  &  um aborígene reunindo toda sua coragem e bebendo da água de um poço ainda sem nome  &  o cinema é a domesticação do relâmpago  &  tenho medo de qualquer animal pequeno demais para eu montar nele  &  um casal são dois abismos abraçados, cada um com medo de cair dentro do outro  &  tem gente que brada pela ética, considera o dever cumprido e cai na gandaia  &  melhor do que ser titular é ser o reserva que entra no fim e decide  &  “catarse” é quando todos os espectadores de uma peça de teatro assoam o nariz ao mesmo tempo  &  tem aumentado a demanda de perucas com cérebro acoplado  &  tão mal camuflado quanto um submarino amarelo  &  preciso de um espelho quebrado que todo dia de manhã faça jus aos meus cacos  &  a aparência é uma parte da essência, mesmo quando se esforça para ser seu contrário  &  há momentos em que o equilíbrio geral de uma situação importa mais do que a aplicação localizada de uma virtude qualquer  &  quando a gente vê alguém que sempre acerta começa a achar que ele acerta sempre  &  simbolismo é ver uma imagem extraordinária e usar a retórica para transformá-la num conceito banal  &  um rio é tudo quanto acontece entre a nascente e a foz  &  eita, Brasil, parece que vem por aí mais meio século de divã  &  como diria Neném Prancha, pena de morte é uma coisa tão séria que o carrasco deveria ser o Presidente da República  &  o mundo é um oceano de idéias esperando que a gente abra os olhos e os ouvidos para invadir a mente  &  a Pátria é a peleja dos sem teto contra os sem limite  &  se bons sentimentos produzissem boa literatura minha avó tinha ganho um Prêmio Nobel  &  imaginei um exército de galinhas carnívoras e pensantes adentrando a cidade, e desimaginei rapidinho  &  tem veneno que você só percebe quando toma a derradeira dose  &




quarta-feira, 22 de abril de 2015

3794) O minuto da marmota (22.4.2015)



(game Red Dead Redemption)

O Dia da Marmota (Groundhog’s Day) é uma festividade folclórica norte-americana, relacionada com a sucessão das estações do ano, mas acabou virando sinônimo de outra coisa. Por causa do filme Feitiço do Tempo de Harold Ramis, essa expressão virou sinônimo de “um mesmíssimo dia eternamente repetido”, como um disco enganchado, ou como uma atividade que é preciso repetir mil vezes até conseguir fazer certo.

No filme, Phil Connors (vivido por Bill Murray) a princípio se espanta, mas quando percebe que está preso num remanso do Tempo, se resigna a reviver aquele dia da melhor maneira possível. Tudo que as outras pessoas fazem é repetido sempre da mesma maneira, como se fosse um balé com coreografias bem marcadas, de modo que ele aprende a evitar pequenos acidentes. Como sabe que às 11:34 uma pessoa vai levar uma queda, ele dá um jeito de estar lá no minuto certo para evitar algo mais grave. Há uma cena impagável em que “todo dia” ele estuda o transporte de dinheiro de um Banco, e de tanto ver a cena se repetir aproveita um breve descuido dos guardas para surrupiar um dos malotes.

Comentando o filme, o diretor disse que provavelmente o personagem de Murray viveu o equivalente a dez anos (ou seja, dez vezes 365), repetindo aquele dia. Ramis disse que teria de ser mais ou menos esse tempo, já que Murray aprende a tocar piano bastante bem.

Esse conceito de uma cena revivida sem parar por uma pessoa é o mesmo que vemos nos videogames. Se num game de ação, guerra, policial, etc. o jogador precisa, digamos, invadir uma instalação militar e explodir uma bomba, ou entrar numa casa e roubar um documento, ou pegar um carro e fugir até a fronteira, cada tentativa sua provavelmente vai terminar com ele sendo abatido pelos inimigos. Quando o jogador morre, volta (como num Dia da Marmota) para o começo da mesma cena, e a repete de novo. Às vezes são necessárias dezenas de tentativas e dezenas de “mortes” para que ele por fim consiga executar suas ações da maneira ideal, sem ser abatido. Todo video-game é um dia da marmota, ou melhor dizendo um minuto da marmota, eternamente repetido, e que finda com a morte, não com o sono.

Borges dizia que, assim como a correnteza dá polimento aos seixos, gerações de pessoas dão polimento a uma história. O tempo as desbasta de tudo que é não essencial a si mesmas. Foi essa a chance que teve Phil Connors: a chance de dar polimento a um único dia de sua vida e reencaminhar alguns dos seus problemas. Digamos que ele precisou trocar um pneu com o carro em movimento, teve direito a mais de três mil tentativas dispondo de todo o tempo do mundo, acabou acertando... e o jorro do Tempo fluiu.




segunda-feira, 20 de abril de 2015

3793) Uns títulos (21.4.2015)



Ouvi falar de um cara cujo romance lhe veio à mente de vez, praticamente pronto, e ele passou a limpo o texto durante alguns dias insones. Como tinha que dar um nome ao arquivo onde estava salvando o texto, e ainda não tinha uma boa idéia, olhou de lado, viu um chiclete sobre a mesa, batizou o arquivo como “Trident”, e salvou. Daí em diante ficou usando esse nome, coisa e tal, e aquilo foi se integrando de tal maneira à obra que na hora depois da revisão final, hora de mandar para a editora, ele chegou à conclusão de que seu drama existencialista sobre a vulnerabilidade do Eu na sociedade pós-moderna iria mesmo se intitular Trident, não porque isto tivesse alguma relação com a narrativa, mas porque ele não conseguia mais pensar no livro com outro título senão aquele.

Damon Knight afirmou certa vez, comentando uns contos de Avram Davidson: “Uma das minhas muitas teorias a respeito de contos é que tanto os seus títulos quanto as suas primeiras linhas devem ser memoráveis, porque se não forem memoráveis eles não serão lembrados, e se não forem lembrados os contos não serão reeditados (porque ninguém vai conseguir encontrá-los).”  Knight considera que um dos títulos mais memoráveis das histórias de Davidson é “Meu Namorado Chama-se Jello” (“My Boy Friend’s Name is Jello”). Ele diz que, mesmo tendo lido a história várias vezes, não consegue mais lembrar o que ela conta. Mas o título grudou.

Davidson é autor de um conto ganhador do Prêmio Hugo sob o título de “Or All the Seas with Oysters” (“Ou Todos os Mares com Ostras”). É uma alusão a Conan Doyle, do conto “O detetive agonizante”, em que Sherlock Holmes, doente, delira diante do Dr. Watson e especula sobre os oceanos e a quantidade de ostras que há dentro deles: “Francamente, não consigo compreender por que todo o leito do oceano não é uma única massa compacta de ostras, tão prolíferas me parecem essas criaturas”.  O título de Davidson, aliás, tem pouco a ver com o conteúdo do conto, mas é dos mais inesquecíveis que existem.

Eu tenho uma inveja inofensiva e sincera dos caras que deram a suas histórias ou seus livros títulos como “Sagarana”, “O Homem que Era Quinta-feira”, “Mas Não se Mata Cavalo?”, “O Ganido dos Cães Chicoteados”, “O Carteiro Sempre Toca Duas Vezes”, “Estrelas em Meu Bolso Como Grãos de Areia”, “Cinquenta Anos Falando Sozinho”, “Um Faca Só Lâmina”, “O Acrobata Pede Desculpas e Cai”, “Porque Eu Toquei no Céu”, “O Amor nos Tempos do Cólera”, “Neuromancer”, “Todos os Fogos o Fogo”, “PanAmérica”, “Será que Andróides Sonham com Carneiros Elétricos?”, “Claro Enigma”, “O Desastronauta”, “Os Frutos Dourados do Sol”, “Dormindo nas Chamas”.







sábado, 18 de abril de 2015

3792) Os Super-Heróis (19.4.2015)



Um super-herói, como os dos quadrinhos e do cinema, é como um ser humano comum refletindo-se nos espelhos deformados dos parques de diversões. O herói pertence a um mundo elástico onde certos detalhes podem ser hipertrofiados enquanto o restante tenta permanecer o mais normal possível. Todos os Super-Heróis têm uma ferida dolorosa em sua origem: um ficou cego, outro foi picado por uma aranha, outro perdeu os pais, outro perdeu os pais e o planeta. Os Vilões também não são vilões de nascença, cada um deles traz também uma ferida como momento de origem: um disparo, um acidente, um banho de ácido, a perda de uma pessoa amada, a perda de uma parte do corpo, uma traição sofrida... tudo isto também é o estofo de que os Vilões são feitos.

Os X-Men são mutantes sobre os quais caiu como um raio um superpoder aleatório, sem muita explicação. Por serem diferentes são cercados, por terem um poder são capazes de revidar. Alguns mutantes desenvolvem o superpoder mas não a capacidade de administrá-lo, o que os leva a praticar violências, crimes, ou então servirem como atrações ou fenômenos circenses.  Indivíduos realmente capazes de ler pensamentos passam a vida inteira enfrentando platéias broncas, acertando a leitura, e sendo vaiados como truque. Outros são mais espertos: Os Filhos do Átomo (1953) de Wilmar H. Shiras (há uma tradução brasileira, de 1969) mostra crianças dotadas de superinteligência que conseguem disfarçar essa condição e passar despercebidas, como crianças comuns.

Às vezes, a ferida do herói, o espinho encravado do seu desajuste, é apenas o reverso-da-moeda do dom espantoso que ele recebeu. Bênção e maldição descem juntas sobre a vida dele. O superdotado Grenouille, de O Perfume (1985) de Patrick Susskind é ao mesmo tempo um indivíduo sem cheiro, sem odor de espécie alguma, e o indivíduo de olfato mais apurado no mundo. É o homem que “vê” tudo menos a si mesmo. Grenouille é quase um sociopata, mas torna-se quase um cientista, guiado pelo superolfato que o mantém sob encantamento constante. Sua monstruosidade torna-se grandeza, sem deixar de ser monstruosa.

Hércules só realizou os seus famosos Doze Trabalhos porque eles lhe foram impostos como pena por ter assassinado a mulher e os seis filhos. William Burroughs (Almoço Nu) afirmou que até matar a própria esposa num acidente irresponsável ele era apenas um drogado igual a qualquer outro, mas aquela morte o tornou escritor. Despertou, pela dor da ferida, seus superpoderes, e lhe mostrou um caminho diferente. O Super-Herói não é apenas um poderoso, é alguém que desenvolve um poder extremo para compensar uma fraqueza extrema.



sexta-feira, 17 de abril de 2015

3791) "Ladrão de Sonhos" (18.4.2015)



Estou coordenando, para a Escola de Cinema Darcy Ribeiro (Rio de Janeiro) uma Mostra do Cinema Fantástico, com filmes todos os sábados às 14 horas, entrada franca. A escola fica na esquina da Rua 1º. de Março com Rua da Alfândega, pertinho do CCBB. (Após a sessão, haverá debate o prof. Sérgio Almeida.)

Hoje será exibido Ladrão de Sonhos (“La cité des enfants perdus”, 1995), dirigido por Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro. O filme conta a história de um cientista que para não envelhecer precisa roubar os sonhos das crianças que sequestra. Ele pluga seu cérebro no cérebro dos meninos (Matrix usou recursos visuais análogos) mas se aterroriza com seus pesadelos. Seu esconderijo, num cais do porto brumoso e decadente, é habitado por uma anã, um grupo de clones (todos interpretados por Dominique Pinon, ator-mascote dos diretores), e variadas criaturas com elementos de cyborg ou de vilão de seriado.

Jeunet e Caro estrearam com Delicatessen (1991), que tem a mesma atmosfera surreal, semifuturista (mas um futuro sem muita lógica), personagens grotescos, cenários delirantes, um clima “steampunk”. Cada imagem nos projeta num ambiente de tecnologia do século 19, com elementos de um futuro pouco plausível. Os personagens são caricaturas; comportam-se como personagens de desenho animado, sem muita preocupação com realismo emocional.

Jeunet separou-se depois de Marc Caro (que é mais cenógrafo do que diretor) e realizou filmes como Alien: Ressurrection (1997), O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001), Eterno Amor (2004) e outros. Embora seus filmes tenham uma incessante criatividade visual e narrativa, ele nunca mais produziu delírios tão consistentemente fantásticos quanto esses dois primeiros filmes, mistura de surrealismo, ficção científica, quadrinhos, velhos seriados.

Os filmes de Jeunet & Caro são exemplos do que chamo de Ciência Gótica: histórias repletas de elementos científicos (máquinas, laboratórios, instrumentos, experimentos químicos e físicos), mas desprovidas voluntariamente da lógica científica. É uma ciência cenográfica, acima de tudo, porque o mundo onde esses adereços se amontoam é um mundo Gótico: sombrio, ominoso, inexplicável, resistente à lógica e aos sentimentos, um mundo onde os seres humanos parecem máquinas de outro tipo, executando ações insensatas e brutais.

Ladrão de Sonhos, cujo título original é “A cidade dos meninos perdidos” é um filme desconcertante, a menos que o espectador consiga vê-lo com os olhos com que, menino, observava coisas terríveis, ameaçadoras, fascinantes, repulsivas, coisas que pertenciam ao mundo dos adultos, o mundo bizarro que um dia seria o seu.



quinta-feira, 16 de abril de 2015

3790) Eduardo Galeano (17.4.2015)



A morte de um grande escritor, como a de qualquer pessoa muito conhecida, enche a imprensa de maledicências e benedicências. Sempre tem alguém que aproveita o silêncio definitivo do outro para chamá-lo de imbecil ou de santo. Eduardo Galeano foi um grande escritor que, por ser de esquerda, jamais será lido pela metade da humanidade cuja religião política lhe assevera que o esquerdismo é tão contagioso quando o homossexualismo ou o alcoolismo: basta chegar perto daquilo e o “caba” já está contaminado pro resto da vida.

Alguns obituários destacam o fato de que Galeano teria “renegado” seu livro mais famoso, As Veias Abertas da América Latina (1971), talvez a maior denúncia da exploração do nosso continente pelos variados colonialismos. Galeano publicou esse livro extraordinário aos 31 anos, embebido daquele entusiasmo salvacionista que nos ajuda a enfrentar as desilusões da juventude. Queixou-se, depois de velho, da prosa tediosa, dos seus poucos conhecimentos de economia política na época. Seu livro cede com frequência ao “melodrama da vitimização”, recurso retórico que a esquerda usa há um milhão de anos. Mas não importa. É o calidoscópio dos milhares de fatos surreais e cruéis que torna o livro um monumento de quase-ficção, como Os Sertões ou Casa Grande & Senzala.

Talvez pela consciência dos seus excessos de entusiasmo, Galeano nunca parou de evoluir. Textos como Vagamundo (1973) e A Canção de Nossa Gente (1975), que li na mesma época, são literariamente brilhantes, muito superiores às Veias Abertas, enquanto que o massacre político, econômico e cultural do continente foi retomado, com mais maturidade, na enorme pesquisa histórica que resultou na trilogia Memória do Fogo (Os nascimentos, 1982; Os rostos e as máscaras, 1984; O século do vento, 1986). 

Borges disse que um escritor é sempre julgado pelo seu credo político, e por isto todo mundo via em Kipling o romancista do imperialismo britânico, e não um dos maiores escritores de seu tempo. Galeano produziu uma obra vasta que acabei perdendo de vista; o último que li foi As Palavras Andantes, ilustrado pelas xilogravuras do nosso J. Borges. Seus escritos sobre futebol têm uma paixão e uma lucidez que sempre invejei; logo o futebol, cuja força gravitacional, tal como a da política, parece empurrar todo mundo na direção da fúria alucinada. A paixão em Galeano (paixão amorosa, paixão política, paixão literária, paixão futebolística) foi, para usar a velha metáfora, um corcel ágil e impetuoso, sempre mantido sob controle por um cavaleiro que sabia para onde estava indo: para o horizonte da utopia.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

3789) Crítico ou resenhador (16.4.2015)



(o crítico John Clute)

Antonio Cândido já elogiou com admiração o resenhador de livros, o crítico do varejo semanal, que escreve sobre o que vem parar em cima da sua mesa na redação. Dizia ele: “Não é fácil escrever todas as semanas sobre livros do dia, feitos muitas vezes por autores desconhecidos, a respeito dos quais não se tem a menor referência. Por isso digo que um crítico como Álvaro Lins, que acertava sempre e produzia artigos bem escritos, de grande densidade e destemor, enfrentava dificuldades maiores do que, por exemplo, Augusto Meyer, que escrevia não sobre o livro da semana, de autor frequentemente desconhecido, mas sobre Camões, Cervantes, Machado de Assis, Dostoiévski, Pirandello, Rimbaud.” 

Deve ser mais cômodo trabalhar com os clássicos, ou com textos em domínio público, do que com autores de carne e osso, cheios de opiniões, mas a questão nem é essa. A crítica e a teoria se desvalorizam quando passam longe da literatura. A crônica jornalística impõe a quem a escreve o contato com o inesperado. Escrever sobre um dado que gira e que não se definiu ainda, e que às vezes cabe a nós traçar o seu primeiro perfil.

O crítico John Clute diz: “Acho que a tentativa de captar e definir o que existe de ‘historiável’ em um texto novo, que é o que se espera dos resenhadores, é absolutamente inerente a qualquer compreensão de um texto qualquer. E acho que a crítica acadêmica, que tende a abstrair, em proporções industriais, temas a partir dos textos (numa espécie de mineração), tende a tropeçar logo na primeira barreira: a tarefa de descrever como um conto se livra contando do seu fardo. Porque se você não conseguir transmitir essa parte essencial, esse ‘como’, você só pode discutir em cima de uma generalização fatalmente vazia, desgarrada.” 

Alguns ficcionistas produzem textos críticos muito lúcidos e demonstram conhecer o gênero com que trabalham. Stephen King, Lovecraft, Henry James etc têm inclusive talento para a descrição sintética, resumindo em poucas linhas o sentido ou o impacto de um livro. Autores comentando livros alheios costumam ter uma abordagem mais pragmática, indo direto ao ponto, falando não como autores, mas como leitores.

Dizem que Pauline Kael, a grande crítica de cinema novaiorquina, escrevia aqueles seus comentários agudos e personalistas tendo visto o filme apenas uma vez. Via hoje, escrevia amanhã; os artigos estão preservados nos seus livros. O crítico vive, como diz Clute, como o canário na mina de carvão das coisas novas.  Para acusar de imediato qualquer mudança nas condições normais de temperatura e pressão, ou qualquer outro indicador que faça o ponteiro do novo pular.