segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

1407) Mas as coisas findas (16.9.2007)




(NOTA: estes quatro artigos devem ser lidos na ordem em que foram escritos: 1404 - 1405 - 1406 - 1407).

O poema “Memória” de Carlos Drummond de Andrade (no livro Claro Enigma) se encerra com esta singela estrofezinha: “Mas as coisas findas / muito mais que lindas / estas ficarão”. É uma estrofe perfeita, em todos os sentidos, para fechar este poema sobre a perda e a ausência. Como falei no primeiro comentário, o poema tem quatro estrofes, cada estrofe três linhas, cada linha cinco sílabas. A contagem das sílabas métricas varia de leitor para leitor; eu as leio assim: “Amar o perdido (2-3) / deixa confundido (1-4) / este coração (1-4). // Nada pode o olvido (3-2) / contra o sem sentido (1-4) / apelo do Não (2-3). // As coisas tangíveis (2-3) / tornam-se insensíveis (1-4) / à palma da mão (2-3). // Mas as coisas findas (3-2) / muito mais que lindas (3-2) / essas ficarão (3-2).” A leitura métrica da última linha (que teoricamente seria 1-4, “es – sasficarão”) vira “essasfi-carão”, claramente influenciada pela das duas linhas anteriores, o que não ocorre com a última linha da segunda estrofe, quando isto forçaria um cacófato (“apelu-donão”).

É um poema minúsculo e de grande simetria, mesmo admitindo as variações de ritmo descritas acima. A simetria é reforçada pela reiteração de rimas toantes centradas na vogal “I” nas linhas 1 e 2 de cada estrofe, e na sonoríssima rima em “ÃO” nas terceiras linhas. (Se eu fosse escrever um Decálogo para jovens poetas eu incluiria: “Economize a rima em “ÃO”, a qual, como as armas de fogo, só deve ser usada em casos de absoluta necessidade”).

O poeta fala da perda daquilo que foi amado, mas se consola dizendo que existe algo mais importante do que as coisas lindas: são as coisas findas. “Findas” significa encerradas, terminadas. As coisas que acabaram, ficarão. Vejam que belo paradoxo! Nossa sensação intuitiva é de que se essas coisas se acabaram, não ficaram. Drummond sugere o contrário. As coisas findas ficarão porque provavelmente se cristalizaram, despregaram-se da realidade (que é fluxo, transformação, incerteza) e tornaram-se Forma, Idéia – tornaram-se Memória. Vejam com que segurança o poeta usa este termo no futuro, “ficarão”. Me lembra o que disse Mário Quintana: “Esses que aí estão / atravancando meu caminho / eles passarão / eu passarinho”. É como se dissesse: “eles passarão, eu ficarei”.

Que passarinho é este que fica? Maldo eu que seja o rouxinol cantado celebremente pelo inglês John Keats, no poema “Ode To a Nightingale”, que examino no capítulo “S” do meu ABC de Ariano Suassuna (e que examinei em maior detalhe nesta coluna: “A eternidade dos pássaros”, 8.9.2004). É o pássaro imortal que canta o mesmo canto por toda a eternidade. É a memória, que preserva em seu âmbar as coisas findas. Que na ficção científica foi assim definida por Frank Herbert (Duna): “Arrakis ensina a mentalidade da faca: cortar aquilo que está incompleto e dizer – Agora está completo porque termina aqui”.

1406) As coisas tangíveis (15.9.2007)



A terceira estrofe do poema de Drummond, “Memória”, diz assim: “As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis / à palma da mão”. Sendo um poema sobre a perda amorosa, a primeira leitura destes versos refere-se à ausência – nossa mão, que antes sentia a presença de algo concreto, tocável, tangível, não a sente mais. Vejo uma sutileza curiosa no uso desta imagem da “palma da mão”. Porque me parece que o ato de tocar, experimentar, acariciar algo se dá primeiro pelas pontas dos dedos, que funcionam para nós como as antenas de alguns insetos. O tato que temos nas pontas dos dedos é muito mais refinado e mais reconhecedor de diferenças do que a palma da nossa mão. Por que a palma da mão? Porque ela serve, mais do que para tocar, para reter. Para estabelecer a posse. Na informalidade dos bate-papos amorosos vangloriamo-nos dizendo: “Fulana tá aqui, olha, na minha mão” – e estendemos a palma para reforçar. Se algo não pode mais ser sentido na palma da nossa mão, não nos pertence mais.

Essa imagem me lembra os versos de outro poema do mesmo livro (Claro Enigma), o belíssimo “Campo de Flores”, onde o poeta diz: “Seu grão de angústia amor já me oferece / na mão esquerda. / Enquanto a outra acaricia / os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura / e o mistério que além faz os seres preciosos / à visão extasiada”. Esta imagem da mão acariciante me evoca os versos sensuais de Bob Dylan em “I Threw it All Away” (“Eu Joguei Tudo Fora”), canção de 1969: “Um dia eu tive montanhas na palma da minha mão / e rios que fluíam o dia inteiro...” E vejam com que delicadeza Drummond passa da mera posse física para a posse em seu sentido mais pleno, a posse da pessoa total e de tudo que ela inclui, ao dizer que a mão não acaricia apenas os “cabelos”, mas também a “voz”, o “passo”, a “arquitetura”...

E tem mais. Observem o duplo sentido da palavra “insensível”. Insensível é aquilo que não sente (“você é uma pessoa insensível”), e também aquilo que não pode ser sentido, imperceptível (“houve uma mudança insensível de temperatura”). Portanto, as coisas que antes eram tocadas com as mãos já não são sentidas – nem sentem. A ausência, como a presença, é um fenômeno recíproco. Tudo que toca é tocado. Toda mão que acaricia é também acariciada no mesmo gesto. E tudo que não podemos sentir também não nos sente.

É como a reciprocidade da dor, registrada em outro poema do mesmo livro, “A Um Varão, Que Acaba de Nascer”: “Este é de resto o mal / superior a todos: / a todos como a tudo / estamos presos. E / se tentas arrancar / o espinho de teu flanco, / a dor em ti rebate / a do espinho arrancado”. Quando a ausência se instaura, não existe mais sofrimento mútuo nem prazer mútuo: apenas a falta de contato entre duas “coisas” que, mesmo tangíveis, mesmo possíveis de alcançar com a mão, não se sentem mais uma à outra. Amanhã comentarei a última estrofe.

1405) Nada pode o olvido (14.9.2007)



A segunda estrofe do poema “Memória” de Carlos Drummond de Andrade (em Claro Enigma) diz: “Nada pode o olvido / contra o sem sentido / apelo do Não”. É um poema sobre a perda amorosa, à primeira vista muito simples, mas a facilidade de Drummond é enganosa. Seu método criativo parece com o de Paul MacCartney, que dizia: “Eu pego uma idéia simples e vou complicando, vou complicando... Então, quando ela está bem complexa, eu começo a simplificar de novo”. É escusado dizer que a simplicidade que se obtém no final do processo é de caráter distinto da que o artista teve como ponto de partida.

Voltando ao poema, é preciso deixar claro que o poeta se refere ao Olvido, o Esquecimento. Já vi esse poema transcrito por aí com o absurdo erro de dizer: “Nada pode o ouvido...” É o típico caso da contaminação oral da pronúncia, agravado pelo fato de que, enquanto aqui no Nordeste a gente em geral pronuncia “ól-VI-do”, no Sudeste muita gente diz “ôl-VI-do”, o que ajuda a confundir.

Portanto, o Esquecimento nada pode contra o apelo absurdo, o apelo sem significado do Não. Eu sempre empanquei diante deste verso. Por mais que tente analisá-lo, nunca chego a fechar um resultado. É uma verdadeira dízima periódica poética, a gente pode continuar dividindo por todos os “século seculóro”, como diz o matuto, e nunca vai fechar a conta.

O Poeta parece estar dizendo que o Não (a negação, a impossibilidade, a proibição, a ausência, todos os correlatos dessa idéia básica) tem um apelo sem sentido. Esse “apelo” do Não não é uma imagem poética que me diga alguma coisa. Podia ser uma porção de coisas relativas ao Não, mas... apelo? Posso explicar racionalmente o uso dessa palavra, mas um verso, como uma piada, não é para ser explicado, é para ser apreendido num segundo. Se isto não acontece, de nada adianta explicar. O “apelo do Não”, portanto, é uma imagem poética que me entra por um ouvido e sai pelo outro.

Mas enfim – o Poeta nos garante que o apelo do Não existe, e que é algo contra o qual nada pode o Esquecimento, o Olvido. O Não impõe suas próprias regras às quais não podemos fugir, e à luz da primeira estrofe (“Amar o perdido deixa confundido este coração”) podemos aceitar que este Não se refere à perda, à ausência, à impossibilidade de ter ou de continuar tendo. E contra isto, nada pode o esquecimento. É inútil (ou é impossível) esquecer a perda, mesmo que ela seja sem sentido.

Analisar um poema desse jeito é uma coisa chata, que eu comparo com querer interpretar um quadro da Van Gogh analisando a composição química das tintas. A gente só deve fazê-lo quando o poema for opaco, quando a gente não estiver encaixando as frases, quando a conta não bater. Aí, vale parar e tentar ler o poema como se fosse a resolução de uma equação, onde cada linha é um resultado lógico de uma operação invisível que ocorreu na mente do autor entre uma linha e a seguinte. Amanhã comentarei a terceira estrofe.

1404) Amar o perdido (13.9.2007)



Ler um poema é deduzir referências que o poeta deixa implícitas ou que vamos suprindo por conta própria, como se junto de cada frase do poema houvesse um asterisco remetendo para uma nota ao pé da página – só que a nota está em branco, e cabe ao leitor preenchê-la. Tem um poema de Carlos Drummond de Andrade que parece um dos mais simples, mas sempre me deixou com a pulga atrás da orelha. É o poeminha “Memória” (em Claro Enigma), talvez um dos primeiros que li do poeta, pois aparecia manuscrito em fac-símile na Enciclopédia Delta-Larousse, que foi a Internet da minha infância. Diz o poema: “Amar o perdido / deixa confundido / este coração. // Nada pode o olvido / contra o sem sentido / apelo do Não. // As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis / à palma da mão. // Mas as coisas findas, / muito mais que lindas, / essas ficarão”.

Quatro estrofezinhas, cada uma com quinze sílabas métricas, numa cadência 5-5-5 cujo ritmo implacável é reforçado pelo “ão” com que se encerram. A estrofe inicial não tem mistério: “Amar o perdido deixa confundido este coração”. À primeira vista é o tema da perda da pessoa amada, um dos grandes lugares comuns da poesia lírica. Mas eu penso que CDA se refere a algo mais sutil: o amor que só brota após a perda. Como ocorre com a amante do poema “Caso do vestido” (em A Rosa do Povo), que confessa à mulher cujo marido roubou: “Eu não tinha amor por ele / ao depois amor pegou”. Ou então a fórmula que ele estabelece no poema “Perguntas” (também em Claro Enigma), em que o Poeta vê um “fantasma” no espelho trazendo-lhe recordações da infância e dizendo-lhe, ao se despedir: “Amar, depois de perder”. O que talvez seja a versão drummondiana para outro lugar comum: “eu era feliz e não sabia”.

Amar o perdido confunde o coração do poeta porque insinua a possibilidade de que na verdade só amamos o que não temos. Nosso objeto preferencial de amor é o sonho, a utopia, o inalcançável – ou, mais realistamente, o ainda inalcançado. Somos todos Don Juans a quem a conquista fascina e a posse provoca o tédio. Ou então somos crianças freudianamente impelidas por pulsões de tal magnitude que nada as satisfaz, nem mesmo a conquista do objeto desejado. O desejo que não foi satisfeito hoje nunca poderá ser satisfeito amanhã, porque nesse caso estaremos satisfazendo apenas o desejo de amanhã. Basta ter desejado em vão por um minuto para continuar desejando por toda a Eternidade.

O verdadeiro desejo nunca é satisfeito, porque o que no fundo desejamos é um objeto total, um arquétipo platônico que funde em si todas as possibilidades daquele ser – e o que obtemos na vida real é o objeto real, com suas incompletudes e defeitos. É como desejar o Oceano e poder apenas encher as mãos em concha. Amamos o que é conquistado, mas amamos ainda mais o que não conquistamos, porque é um sonho que não se desvalorizou em realidade. Amanhã comentarei a segunda estrofe.

sábado, 5 de dezembro de 2009

1403) As máquinas de feltro (12.9.2007)



O poeta Paulo Leminski criou o neologismo “inutensílio” para descrever coisas que não servem para nada, mas que, não obstante, têm algum significado para nós. Um poema é um boim exemplo, mas os inutensílios mais interessantes são certos objetos materiais que parecem a um passo da utilidade mas por alguma razão estarão sempre aquém dela. O rei dos inutensílios, para mim, é o francês Jacques Carelman, autor do livro Catálogo de Objetos Inviáveis, onde encontramos um martelo feito de vidro, um sacarrolhas em “Y” para extrair rolhas de duas garrafas ao mesmo tempo (não custa tentar!), um tabuleiro de xadrez esférico, um guarda-chuvas duplo em que o de cima evita que o de baixo se molhe, um aquário encimado por uma gaiola para guardar peixes-voadores... A imaginação, o bom humor e a meticulosidade de Carelman podem ser conferidos em seu saite: http://www.cienaniosdeperdon.com.ar/IO/#.

Vi há pouco um objeto de feitura carelmânica que, se eu fosse rico, compraria para colocar na mesa de centro da minha sala: uma máquina-de-escrever modelo antigo, marca Underwood, totalmente tecida em feltro, tecla por tecla, martelinho por martelinho, em tamanho natural, tendo inclusive um rolo que pode ser girado e no qual pode ser inserida uma folha de papel. Uma coisa linda – só falta escrever! A autora é uma tal de Blueblythe, do Canadá, e o inutensílio pode ser visto em: http://www.craftster.org/forum/index.php?topic=187574.msg1966645;topicseen#msg1966645.

A Underwood me lembrou de imediato um dos mais famosos objetos surrealistas, criado por Méret Oppenheim: uma xícara, pires e colherinha de chá, feitos inteiramente de pelo de animal. Existe uma contradição tátil irresolvível entre a beleza do objeto e a impossibilidade (melhor dizendo: a impraticabilidade) de despejar líquido ali dentro. Os objetos de Blueblythe e de Oppenheim se baseiam numa contradição simples entre o objeto original e a textura (o material) em que são reproduzidos, que os inviabiliza. No caso de Carelman, o próprio objeto é alterado para sugerir novas funções, cada qual mais inviável do que a outra.

Nada é mais Obra de Arte do que isso. Nem a Mona Lisa, nem a Nona Sinfonia, nem a Divina Comédia. Porque todas essas obras grandiosas nos dão a sensação de que podem definir o que é a Beleza, ou de nos transportar para o reino do Espírito, ou de nos revelar a Mente de Deus. Elas nos iludem, porque a Arte não pode fazer isto. Nada pode. É apenas diante de uma xícara de pelo ou de uma máquina-de-escrever de feltro que sofremos o impacto brusco dessa contradição entre aparência e finalidade, que é a contradição de toda obra de arte e de toda criação humana. Por isso essas obras são “objetos inquietantes”, como diziam os surrealistas. Vista num momento de angústia e de crise, uma máquina Underwood de feltro nos arrebata para o abismo da impossibilidade de sucesso da existência humana, e para a irrealidade do mundo e de nós mesmos.

1402) Que ira! (11.9.2007)



A feira de Campina Grande, virtualmente destruída pelos carros-bomba e pelos incêndios, foi cercada pelo Exército Ocupante, da Vila Nova da Rainha até a Avenida Canal, com muralhas anti-bomba de 3 metros de altura. O comércio está se recuperando, mas as pessoas preferem encomendar produtos do que ir à feira, com medo de ataques. Os carros de entrega têm que trocar de motorista ao atravessar cada bairro, para evitar que sejam assassinados pela minoria que domina a área. A boa notícia é que há eletricidade três ou quatro horas por dia.

O bairro da Prata está sob controle dos exércitos (local e Ocupante). O problema ainda são as bombas-armadilha colocadas no lixo e nos cadáveres, o que leva a população a deixá-los apodrecendo na rua. Zé Pinheiro foi até recentemente palco de carnificinas entre os dois exércitos e as milícias armadas. Agora, cercado por muros, viu a violência diminuir mas a população se sente prisioneira.

A situação não é melhor no Cabo Branco, outrora um bairro de elite, está há meses sem esgoto, sem coleta de lixo, e eletricidade, quando há, é apenas uma hora por dia. Manaíra está virtualmente arrasada pelos carros-bombas que há anos explodem ali à razão de um por semana, e o seu shopping foi reduzido a ruínas. O Miramar, depois de controlado por um dos exércitos étnicos locais, experimenta um breve período de paz: apenas um ou dois cadáveres aparecem nas ruas por semana, comparados com 30 ou 40 que surgiam no fim do ano passado. Os conflitos diminuíram graças ao virtual extermínio ou expulsão de todas as famílias pertencentes à minoria étnica rival.

E aí, caro leitor? Teve um espasmo de estranheza, um calafrio de presságio? O que está aí em cima é apenas um exercício de ficção-científica (pense 1984 de Orwell, ou pense Fahrenheit 451 de Bradbury & Truffaut) para tornar mais real, projetando-o no que nos é próximo, o que nos parece irrelevante porque acontece longe de nós. Resulta de uma visita que fiz domingo ao saite do New York Times, onde há um útil mapa interativo de Bagdá mostrando a situação atual em dezesseis bairros ou áreas da capital iraquiana. Ele mostra como o poder é exercido a mão armada pelos exércitos iraquiano e americano, que reprimem as milícias armadas xiitas e sunitas, e ainda têm que lidar com o terrorismo anônimo dos carros-bomba e dos morteiros.

O endereço completo é: http://www.nytimes.com/interactive/2007/09/06/world/middleeast/20070907_BUILDUP_MAIN_GRAPHIC.html#. Aconselho uma visita para que possamos todos acompanhar ao vivo a situação. Imaginem uma luta de boxe entre dois pesos-pesados, só que a luta degenerou em briga pessoal e os dois estão querendo bater no outro até matar. Só não o fizeram ainda porque o juiz, neste caso, é um cara do tamanho de Muhammad Ali e faz o que pode para mantê-los à distância. Na hora em que o juiz (o exército dos EUA), abandonar o ringue, a carnagem vai ser grande. E os detalhes não vão poder sair no New York Times.

1401) A verdade e o grotesco (9.9.2007)


(caricaturas - Leonardo da Vinci)

Toda caricatura é grotesca e meio ridícula, até a de uma pessoa linda, respeitável, querida por todos. Toda caricatura é uma exageração de características verdadeiras. Caricatura não inventa, não mente, não cria: apenas distorce, deforma, arreveza.

A MPB, descrita pelos partidários da axé-music, é tão grotesca quanto a axé-music descrita pelo partidários da MPB. Fazem-no com a facilidade de quem enxerga melhor o cisco no olho alheio do que a trave no seu próprio. Todo movimento cultural tem suas limitações, tem seus exageros, tem suas contradições, seja ele popular, erudito, de vanguarda, de indústria cultural, intelectualizado, popularesco, seja o que fôr. Quando gostamos, minimizamos esses defeitos e nos concentramos nas qualidades que nos atraem. Quando não gostamos, descartamos as qualidades e nos concentramos nos defeitos.

Distinguir as qualidades dos defeitos é um julgamento estético. Realçar e exagerar a importância daquelas ou destes é um julgamento político. A toda arte corresponde uma política, que é o conjunto de processos que faz com que essa arte seja produzida, criada, divulgada, discutida, consumida, estudada. O nome disso é Política Cultural, e começou no dia em que um troglodita ficou parado na porta da caverna, chamando os passantes para que entrassem e vissem o bisonte que ele desenhou.

O Armorial descrito pelos tropicalistas é tão caricato e grotesco quanto o Tropicalismo descrito pelos armorialistas. Não o fazem por mau-caratismo ou por calúnia; fazem-no porque disputam um espaço dentro da vida cultural, e precisam dar um chega-pra-lá um no outro. Não se deve dar muito crédito a essas descrições, porque são contaminadas do estranhamento natural de quem, por dever de fidelidade à própria fé, não pode ter excessiva simpatia para com a fé alheia. Além do mais, quem descreve assim sabe no íntimo que está exagerando, que está “pegando pesado”, que está sendo parcial e talvez injusto, mas, paciência – essas opiniões não são opiniões científicas nem filosóficas, são opiniões políticas. Não expressam a nossa Razão objetiva, mas a nossa Vontade subjetiva.

A ficção científica, quando descrita pelos partidários do realismo, é tão ridícula e burlesca quanto o realismo descrito pelos aficionados da FC. Cada um quer puxar o Brasil para sua sardinha, cada um quer afirmar suas qualidades contrapondo-as ao defeito simétrico do outro. Quem se vale da imaginação, critica a falta de imaginação do lado oposto. Quem se vale da verossimilhança, vice-versa.

Isto significa que não devemos dar ouvidos a ninguém, porque todos são preconceituosos contra os concorrentes? Nada disso. Oposição é sempre necessária. Ninguém é perfeito, a não ser nos próprios press-releases. Não podemos conhecer bem uma pessoa sem saber o que pensam dela os seus adversários – estou falando dos adversários, que falam dos seus defeitos reais, e não dos seus inimigos, os que inventam defeitos que ela não tem.

1400) Bin Laden está lá fora (8.9.2007)



Vi de passagem na banca de revistas a capa de uma Newsweek recente. Uma foto aérea magnífica, em preto-e-branco, granulada, mostrando do alto uma interminável cordilheira de montanhas abruptas que se sucedem em tamanho decrescente, como as vértebras de um monstro antediluviano cobertas por terra e matagal. E a legenda dizendo: “Ele Está Ali – a busca por Bin Laden continua”. É uma luta desigual e fascinante: o exército mais bem armado e de mais avançada tecnologia, pertencente ao país mais poderoso do mundo, procurando um homem que se esconde na paisagem.

Mesmo com a antipatia que tenho por Bin Laden, torço um pouco por ele. Podia ser até Paulo Maluf, eu ainda torceria um pouquinho. Se um dia o Íbis enfrentar a Seleção Brasileira, torcerei pelo Íbis. É um reflexo condicionado inculcado em nós por um senso ético confuso (tenho consciência disto) que nos faz sempre preferir um Davi a um Golias, independentemente de qual dos dois esteja “combatendo o bom combate”. Há um senso inato de proporção, de equilíbrio, de simetria (mais até do que um senso moral de justiça) que nos faz torcer pelo pequeno contra o grande.

Conseguirão os EUA prender Bin Laden? Não sei. Jamais duvidei que eles acabassem pegando Saddam Hussein. Saddam não quis fugir do Iraque, e era um sujeito odiado pela maioria da população. Alguém o entregou, como alguém entregou Lampião, alguém entregou Guevara, e alguém sempre entrega, por razões diferentes em cada caso, um sujeito que está na vulnerável situação de depender do sigilo de 100% das pessoas com quem se encontra. Cedo ou tarde, a corda “tora” em algum ponto.

A questão é: os americanos querem mesmo prender Bin Laden? Talvez não precisem deste pretexto para continuar ocupando o Afeganistão, e depois de Bin Laden deve haver uma lista de dezenas de foragidos igualmente importantes. Mas Bin Laden tornou-se um desses símbolos elusivos que o sujeito não sabe se é mais perigoso matar ou deixar vivo. A prisão, julgamento e enforcamento de Bin Laden terão uma repercussão enorme, mas esta contará pontos positivos e negativos para os carrascos, e eles sabem disto.

Por outro lado, a busca me lembra aquela antiga piada sobre o veterano médico do interior que decidiu tirar férias com a esposa e deixou o consultório a cargo do filho, também médico. Ao voltar, o filho lhe disse: “Curei a artrite do Coronel Fulano”. E o velho explodiu: “Seu idiota! Foi aquela artrite que pagou seus estudos!” E me lembra também um trecho do filme de Billy Wilder A Montanha dos 7 Abutres, em que o jornalista cínico e sensacionalista, interpretado por Kirk Douglas, conta como certa vez aquela cidadezinha ficou em polvorosa quando cinco cascavéis fugiram do circo. Quatro foram mortas ou capturadas, mas a última delas continuou à solta durante uma semana. Alguém lhe pergunta onde a cobra estava, e ele diz: “Na minha gaveta, na redação do jornal”. Por que não procuram Bin Laden lá dentro?

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

1399) A arte das sombras (7.9.2007)


(Fred Eerdekens, "Minimum")

Ando pensando seriamente em encerrar esta coluna aqui no jornal e abrir um blog na Internet. Não é por nada não, é porque aqui no jornal não existe como inserir ilustrações. Fico eu pregando no deserto, comentando quadros ou desenhos que não dá para anexar, discutindo músicas sem poder fornecer um MP3 para download, e assim por diante.

Tô brincando; não vou parar com a coluna, mas há coisas que dependem de uma ilustração concreta, senão parece que eu estou inventando. (Já percebi que alguns leitores acreditam mais na minha imaginação do que na minha honestidade.) Um bom exemplo disto é um saite que descobri via BoingBoing: “Shadow Sculptures”. Basicamente é o seguinte: você pega objetos aleatórios e forma com eles um amontoado que, iluminado lateralmente, produz na parede uma sombra exata de algo que não está ali. Aqui (http://www.instructables.com/id/ERTLALRF46WOFDE/?ALLSTEPS) ele mostra o passo-a-passo da construção da sombra de um gato, sentado, com a cabeça virada para o lado. Em princípio, parece simples: você prega um papelão na parede, esboça a silhueta da sombra, fixa uma lâmpada acesa a certa distância (anotando tudo, para o caso de alguém da família mexer na lâmpada enquanto você foi comprar SuperBonder na esquina), e vai amontoando e colando objetos aleatórios que forneçam a forma desejada.

No mesmo saite tomei conhecimento da obra de Fred Eerdekens, um artista que pega essa mesma técnica e vai um passo adiante. Nas obras dele (algumas das quais podem ser vistas aqui: http://architectradure.blogspot.com/2006/11/shadows-of-objects.html) é utilizado o mesmo princípio: objetos aleatórios produzindo sombras significativas, como uma obra em que uma enorme mola espiral, levemente deformada, pendurada do teto em posição horizontal, projeta na parede a palavra “minimum”. Erdekens tanto usa a sombra direta do objeto quanto o contrário: uma sombra maciça com ranhuras por onde a luz passa, formando palavras.

Como em tudo na vida, podemos tirar disto uma lição metafísica (de um significado que vai além das coisas materiais) e cibernética (do modo como causa e efeito se influenciam mutuamente). Pensem num filme, por exemplo. Quando a gente vê um filme projetado numa tela, é uma beleza, parece uma coisa que já nasceu pronta. Um daqueles casos filosóficos em que a mera existência leva a supor uma necessidade, ou seja, algo que é tão “assim” que não poderia ser de outro modo senão assim. Ledo engano, meu amigo. O que você está vendo na tela é o produto de um aglomerado caótico de orçamentos, contratações, ensaios, cronogramas, testes, bate-bocas de executivos, deslocamentos da equipe, filmagens e refilmagens, madrugadas inteiras tentando colar pedaços que não combinam, milhões de pequenos pepinos de som e de luz sendo resolvidos a toque-de-caixa... Um evereste caótico mas que resulta naquela silhueta rabiscada no papelão, e que se intitula “Cidadão Kane” ou “Deus e o Diabo na terra do Sol”.

1398) Castro Lopes (6.9.2007)



Uma das figuras mais curiosas na história do nosso vernáculo foi o Dr. Castro Lopes (1827-1901), um filólogo que era meio invocado com a quantidade de palavras estrangeiras adotadas em nossa linguagem corrente. O doutor morreu em 1901, quando o grande referencial para quem queria ser “chic” no Brasil era o francês; hoje, o referencial para quem quer ser “cool” é o inglês. Se vivesse hoje, o doutor cairia fulminado por um enfarte antes de uma semana, ao ver como nosso idioma está absorvendo, sem digerir, um imenso vocabulário vindo de fora.

O problema com o Dr. Castro Lopes é que suas soluções para os problemas eram piores do que os problemas em si. Diante das palavras importadas de países contemporâneos como Inglaterra ou França, o doutor sugeria criar palavras novas importando radicais linguísticos da Grécia e de Roma. O que me lembra a famosa frase de Jorge Luís Borges, de que todo mundo aceita influências dos clássicos mas ninguém gosta de dever nada aos contemporâneos. (Tem razão: os contemporâneos cobram.) Vai daí que o doutor não gostava da palavra “abajur” (do francês “abat-jour”), e sugeria “lucivelo” (de “luci”, luz, e o verbo “velar”). Convenhamos que de todas essas palavras nenhuma é mais simples e intuitiva do que o popular “quebra-luz”. Hoje, ao que parece, todas dançaram, sendo substituídas por “luminária”.

Algumas tentativas do doutor não foram tão mal assim. Por exemplo, consta que ele propôs “cardápio” no lugar do francês “menu”. Não tenho como quantificar essas coisas, mas eu diria que a disputa entre os dois termos está hoje pau-a-pau, mais de um século depois. Embora “menu” (com pronúncia abrasileirada e tudo, “menú”) tenha migrado inclusive para o campo de Informática (“o menu do Windows”), pode-se dizer que “cardápio” é um termo de uso corrente, que todo mundo entende, e que dispensa análises estruturais para decifrar seu significado.

Mas o doutor propôs “ludopédio” em vez de futebol, “convescote” no lugar de piquenique, “cinesíforo” ao invés de chofer. Nenhuma pegou. Qualquer aparecimento delas num texto atual é apenas como citação, como neste artigo, mas ninguém diz “Chame o cinesíforo e vamos embora”. Outras criações do doutor são de uma implausibilidade que impressiona. Ele não gostava do galicismo “galocha”, e propôs substituí-lo por “anidropodoteca”. Como diria Bussunda: “Fala sério!”

Muita coisa que vemos na política internacional de hoje é resultado de quando a mentalidade Castro Lopes assume plenos poderes. O Iraque é uma ficção política, três retalhos de mapa costurados entre si, batizados com um nome e entregues à própria sorte. A Palestina e Israel, idem idem. A região da Cachemira, entre Índia e Paquistão, também. As superpotências inventam países como um filólogo inventa palavras, e os usuários de ambos que se virem. São soluções de gabinete, possíveis de defender numa tribuna, mas que não se encaixam na vida real. E mais cedo ou mais tarde a vida cobra.