sexta-feira, 31 de outubro de 2014

3646) Os candidatos (31.10.2014)


Nem sempre o melhor candidato é o melhor executivo.  Acho graça no modo como a democracia eletrônica, onde o objetivo é impor uma idéia a dezenas de milhões de pessoas desinformadas, deforma todo esse processo.  Deveríamos eleger o melhor administrador, o mais competente, o mais correto, o mais íntegro, o mais líder.  Ao invés disso, elegemos em geral o que tem sorriso mais aconchegante, o que tem rasgos oratórios que fazem explodir aplausos, os que pelas feições ou pelo traje se parecem com algum vago ideal de autoridade que trazemos adormecido em nossa subconsciência de classe. Votamos num ator.  Mesmo os bons administradores (que felizmente existem) descobriram muito cedo que para poder administrar em paz tinham que desenvolver, mesmo a contragosto, esse lado televisivo, histriônico, fotogênico.

Esse jogo foi zerado por Ronald Reagan.  Deve haver precedentes, mas eu diria que Reagan foi o primeiro caso de robô biológico na história da política moderna.  Um robô biológico é um ser humano incapaz de pensar por conta própria mas dotado de uma sólida capacidade de dizer e fazer o que lhe dizem para ser dito e feito.  Reagan tornou-se assim, para o neo-liberalismo republicano, o candidato perfeito e depois o administrador perfeito.  Foi treinado durante a campanha, e depois de eleito continuou recebendo os textos das mãos da mesma equipe.  Não sabia a diferença entre o Brasil e a Bolívia, tinha um “personal astrólogo” para lhe dizer como seria o seu dia, era um javali de terno, mas recebia os textos e aplicava a eles todo o seu charme de galã rústico de Hollywood.

A direita norte-americana trouxe mais atores à política: Schwarzenegger, Clint Eastwood...  Livro um pouco a cara deste último, que é reacionário mas parece ser capaz de pensar sozinho.  Mas o bom Arnold é um exemplo cristalino de como o mundo do espetáculo, a cada década que passa, é sugado para o interior da política.  Mais fácil do que transformar um político em ator é transformar um ator em político, afinal de contas ele vai precisar apenas ler coisas no teleprompter, porque todas as discussões já lhe chegarão brifadas e dirigidas.

Lembro de uma longínqua eleição nos EUA em que um comentarista falou: “O melhor presidente seria o senador Fulano, porque é honesto, competente, sabe costurar apoios.  Mas nunca seria eleito, porque é feioso, mau orador, gagueja.  Candidato tem que ser galã.”  A democracia eletrônica facilita a discussão e participação (via redes sociais), mas é toda voltada para a construção de uma imagem e desconstrução das demais.  Vota-se numa imagem cuidadosamente concebida e orquestrada, que não corresponde a uma pessoa real.



quinta-feira, 30 de outubro de 2014

3645) Lovecraft datilógrafo (30.10.2014)





A literatura pode ser uma só, mas suas portas são legião. Todo caminho na sua Babel é único: só pode ser concebido e trilhado por aquela pessoa. É sempre bom tentar entender como o escritor trabalhava, fisicamente, porque isso pode ter alguma influência sobre seu modo de produção.  Sempre presto atenção à opinião dos autores que trabalharam durante as primeiras décadas da datilografia, no final do século 19 e começo do 20. 



Datilografar, para mim, é um prazer, hoje, no meu confortável desktop de teclado amplo e macio, cheio de recursos.  Como é ou era para os outros?  H. P. Lovecraft talvez tivesse um estilo menos ornamental e pomposo se o enfrentamento físico com o ato da escrita lhe fosse menos trabalhoso.  Numa carta de 1926 para August Derleth, ele diz: “Tenho tanto horror à tarefa de datilografar que não vou fazer isso sem antes ler tudo em voz alta para dois ou três bons avaliadores, e saber se vale a pena ser preservado ou não.”



Lovecraft era um compulsivo escrevedor de cartas, tanto à mão quanto à máquina. Também em 1926, escrevendo para Wilfred Blanch Talman, ele comentava: “O papel de formato longo que estou usando me foi dado pelo nosso companheiro e fã George Kirk, que você deverá conhecer em breve, o qual insistiu em me dar depois que não teve mais utilidade comercial para ele.  Se minha correspondência não fosse tão devastadoramente gigantesca, eu diria que o estoque de que disponho agora duraria para o restante de uma vida mediana.”



O papel podia ser muito, mas a energia era escassa. Lovecraft precisava fazer uma primeira versão à mão, corrigi-la, e depois datilografá-la, fazendo novos adendos e correções ao longo da versão passada a limpo, como a maioria dos autores.  De vez em quando conseguia alguém que fizesse isso para ele, mas a penúria financeira o impedia de contratar datilógrafos profissionais.  E o cansaço o impedia de fazer as sucessivas revisões que nós, hoje, fazemos com um pé nas costas.  Ironicamente, ele próprio faturava alguma grana, para completar o orçamento, com tarefas pagas de revisão de textos alheios, o que provavelmente o deixava, depois de um dia de trabalho, sem o menor saco para revisar seus próprios textos. (Pelo menos é o que aconteceria comigo, nessas circunstâncias.)


Em 1927 ele se queixa ao amigo Frank Belknap Long: “...a datilografia de manuscritos com essa extensão está totalmente além da capacidade de um cavalheiro idoso e cansado que costuma perder o interesse numa história no momento em que a completa...”  HPL dizia que era um homem do século 18 perdido no moderno e insuportável século 20.  Provavelmente era mesmo.


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

3644) O Banqueiro (29.10.2014)





(ilustração: Benedetta Bonichi)


Na sala do Banqueiro ouve-se música clássica o tempo todo, mas ele não sabe identificar o que está tocando.  A música está ali apenas para atrapalhar possíveis microfones de espionagem embutidos nas paredes.  O Banqueiro já chegou a fazer reuniões secretas num jatinho, dando voltas sobre a cidade, para ter certeza de estar a salvo de espiões. O Banqueiro não gosta de olhar o interlocutor nos olhos. Enquanto conversa, caminha o tempo todo.  Prefere trabalhar de pé, diante de uma bancada de madeira, onde escreve, digita no laptop, telefona, despacha com funcionários. 



Sua casa sempre foi repleta de arquivos, pastas, material de trabalho por toda parte. É vegetariano, e seu prato preferido são legumes cozidos. Acha um desperdício o hábito de comidas sofisticadas e bebidas caras: “É muito mais fácil gostar de qualquer coisa.”  Se os outros comensais pedem uma refeição fina, ele se contenta com salada de tomate com palmito.  Sob suas ordens, mais de 70 pessoas trabalham em quase absoluto silêncio.  Sem risadas, sem ninguém elevar a voz.  Pedem comida lá mesmo no escritório; todos têm hora para entrar mas não para sair.  O Banqueiro lembra saudoso ambientes bancários que conheceu na juventude: “Existia ali uma disciplina rigorosa, era tudo silencioso, quase monástico.”  O Banqueiro já tentou, sem sucesso, proibir que seus funcionários lhe dirigissem a palavra, mesmo para dar bom-dia.



O Banqueiro não passeia, não vai à praia, e seu maior luxo hedonista é comer um peixe grelhado. Seus exercícios físicos são feitos em casa, numa esteira.  Raramente vai ao cinema.  Costuma perguntar a uma amiga, frequentadora de teatro, por que ela assiste peças, já que “nada do que acontecia no palco era verdade”.  A última obra de ficção que se lembra de ter lido é o Ensaio sobre a cegueira de Saramago. Seu apartamento tem numerosos quadros dos maiores pintores brasileiros, mas ele não lhes dá muita atenção, pois estão ali apenas a título de investimento.  O Banqueiro admite que não tem muitas idéias de como gastar dinheiro, e diz que o seu objetivo e o seu prazer não são o dinheiro em si. “É o negócio,” explica.


O Banqueiro não é uma invenção da mente insone e paranóica de um escritor.  É o banqueiro Daniel Dantas, do banco Opportunity, cuja fortuna pessoal é de mais de um bilhão de dólares. (ver Revista Piauí, # 7, 2007).  Conhecido como um trabalhador obsessivo, um negociador cruel, um investidor esperto e pouco confiável, sempre tentando dar um jeito de ser a única pessoa a ganhar com o negócio que está sendo feito.  É o retrato da geração que está transformando o planeta inteiro num dinheiro que ninguém conseguirá gastar.




terça-feira, 28 de outubro de 2014

3643) Sete veredas do sertão (28.10.2014)



Segundo o pesquisador Willi Bolle, a bibliografia de textos de análise ou comentário ao Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa já passa dos mil e quinhentos títulos.  Ele deve saber do que está falando, porque publicou em 2004 “grandesertão.br” (Eds. Duas Cidades / 7Letras).  Entre mil detalhes, Bolle propõe uma subdivisão da narrativa do romance em unidades, já que Rosa fez um texto corrido e sem cortes do começo ao fim. (Falei dias atrás das 10 subdivisões sugeridas por Ariano Suassuna.)

No seu livro (pags. 62-63) Bolle sugere uma divisão em sete partes.  Vou resumir. 

Um: Proêmio. Riobaldo fala, proseia, passeando por todos os temas principais da história que se inicia.  

Dois: “Recorte ‘in media res’ da vida do jagunço Riobaldo. Já jagunço, Riobaldo está no bando de Medeiro Vaz, que fracassa a travessia do Liso do Sussuarão. Surge a figura de Zé Bebelo.  

Três: Interrupção. O narrador comenta a dificuldade de narrar.  

Quatro: Primeira parte da vida de Riobaldo. Volta à infância, quando no rio ele conhece o Menino (que virá a ser Diadorim); ele fala de sua mãe, seu padrinho, sua criação, como estudou e viveu.  Sua ligação com Zé Bebelo, o jagunço-deputado.  Como vira jagunço. O bando de Joca Ramiro derrota, prende, julga e liberta Zé Bebelo.  Depois, notícia do assassinato de Joca Ramiro.  Começa “a outra guerra”. 

Cinco: Segunda Interrupção.  “O narrador, que se coloca numa situação de ‘acusado”, se põe a falar de sua ‘culpa’ e do que ‘errou’.  

Seis: Segunda parte da vida de Riobaldo: o conflito com Zé Bebelo, o pacto com o Diabo, a travessia (agora bem sucedida) do Liso, o encurralamento dos inimigos e o sangrento confronto final.  

Sete: Epílogo. Riobaldo proseia, amarra as últimas pontas falando como casou, como herdou uma fazenda, como transformou vários companheiros de jagunçagem em seus moradores e braços-de-armas.  “A viagem pelo sertão termina, em termos de perspectiva, com o signo do infinito.”

Um romance inconsútil como GSV meio que força o leitor mais atento a traçar esses esquemas, porque com eles diminui a sensação de estar sobrevoando a Amazônia sem bússola nem mapa. Esse fio básico conta a história. Bolle vê no livro de Rosa uma estrutura (a aventura de Riobaldo) que sugere a formação das instituições brasileiras, no que têm de flexíveis ou de viciadas.  Ele enfatiza o lado fazendeirão de Riobaldo, novo poderoso chefão estabelecido, contando sua trajetória rumo ao status quo, rememorando sua folha de serviços e tentando se justificar através de uma paixão e de uma culpa.  (O livro também tem vários mapas, cronologia de combates e eventos, etc.)


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

3642) 1x1 (27.10.2014)



(ilustração: Dariusz Klimczak)

Acabou a campanha.  Ontem, os brasileiros escolheram funcionários públicos de quem deverão cobrar serviço durante os próximos quatro anos.  Pra quem tem o poder, quatro anos passam num instante, vapt-vupt, não dá tempo nem de gelar a cerveja.  Para a oposição, quatro anos são uma eternidade. Uma Kalpa multiplicada por um Eon, um exílio sem fim na masmorra da ilha onde ficou preso o Conde de Monte Cristo.  Felizmente, ao contrário de Edmund Dantès, quem desaba na oposição tem direito, no seu calabouço, a internet bandalarga e conexão com tudo em tempo real.  Calada ela não vai ficar.

Poderiam todos ficar mais serenos, depois que passar a adrenalina das quatro linhas. (Do futebol ou do UFC?  Digamos futebol, é mais diplomático.) Todo mundo acha bonito quando, no fim de um clássico disputadíssimo, entre dois times de ponta e antagonistas históricos, num jogo de muitos gols e viradas no placar, cheio de cartões e “lances ríspidos”, então, conquistado o título, os que estavam trocando carrinhos e cotoveladas se abraçam, trocam de camisa, comentam alguma coisa, dão uma risada.  O jogo acabou (dizemos nós, ainda meio surpreendidos com essa cultura tão moderna); eles “são profissionais, são colegas de trabalho”.  E achamos bonita a transição da fúria guerreira para o sorrisão diplomático.

Quando é com os políticos... Por que todo mundo se escandaliza quando os vê trocando de time, abraçando os ex-antagonistas, trocando por elogios os antigos vitupérios? Ora, por que não o fariam? São profissionais também.  São colegas de trabalho.  Surgem na vida com um personagem, ou com um projeto de.  São aceitos, burilados em público, jogados à arena das gramas e à das urnas, e os que vão sobrevivendo têm chance de um dia serem convocados para alguma coisa. 

Num ano como 2014 não é possível não matutar um pouco como são duas profissões incompreendidas no Brasil: político e jogador de futebol!  Veja com quantas más avaliações se faz um Irremediável. Nossos principais super-heróis, e começam a pedir recall. Cada um deles tem seu quinhão de hubris e de comemorações na avenida, seu quinhão de cooptações ou de apequenamentos, seu pênalti chutado às nuvens, seus sonhos em reboot.  São profissionais. Não sei se pensam em salvar o mundo, nem se acreditam quando são chamados de deuses com asas nos pés.  Os dois são injustiçados de um lado, hiperinflacionados do outro, mas isto é Brasil, é nessa dinâmica que toca a orquestra. Se é tudo um jogo, que se jogue o jogo; e não pode ficar um a um.  Que se jogue limpo, porque há leis de sobra.  Projetos para melhorar nem se fala.  Ídolos, não maltratem a bola não, que a bola pune. Vida que segue.


domingo, 26 de outubro de 2014

3641) A catedral gótica (26.10.2014)




Um país é como uma catedral gótica que está em construção há séculos. O “pobrema” é quando uma nova equipe assume o projeto. Resolve continuá-lo. Só que agora vai ser um edifício-garagem.  Mais algumas décadas, nova troca de comando.  Surge uma idéia brilhante: por que não transformar aquele edifício-garagem num heliporto?  E por aí vai.  Quando séculos depois a equipe primordial reassume o controle tem que explicar como alegoria cristã todos aqueles penduricalhos arquitetônicos, que à primeira vista parecem não ter nada a ver com catedrais. A doutrina, a teoria, tem que bater com a realidade.  Quando a realidade se mostra irredutível, não custa nada a teoria dar a volta ao quarteirão e trazer um novo aprouche.



Imagine o velho Oeste americano, as imensidões do Vale da Morte ou Monument Valley, aquela horizonte árido e aquelas formações geológicas impudentes, “cheguei”, tão reconhecíveis quanto uma assinatura num cheque.  Parece um trecho do país construído em mandatos sucessivos por dois partidos que eram não apenas politicamente antagonistas, mas esteticamente jurados de morte.  Tudo lhes era permitido no poder, menos destruir o que o outro conjurou.  (Na China, a solução de cada um era avançar a muralha mais para a esquerda. Mais para a direita.)



Pode um país ser tocado pra frente assim?  Meu amigo – você está preparado para escutar a resposta?  Pois tanto pode como vai.  Tanto pode como vem sendo tocado assim há muito tempo, desde antes de qualquer um de nós aqui se entender de gente.  Todos os países assim são tocados. Uns resvalam pra guerra civil, outros pra economia de mercado, e não se sabe qual dos dois teve mais sorte, ou menos.



Vejam só.  Atravessei a catedral gótica e no meio dela não tinha um altar. Tinha um bloco de pedra com uma porta.  Abri-a – e não vi nada do lado de lá.  Eu ia dizer para não incendiar a cidade conquistada, porque o poder é uma mistura de mil teorias das conspirações e um bilhão de desconfianças.  Talvez seja esta, na História da Humanidade, a primeira geração em que nerds de 50 anos estão no Poder.  Cinquentões cobertos de acne e sardas, dispostos a devolver com juros tudo que sofreram. 


Nerds grisalhos em posição de mandar em conglomerados bancários, equipes científicas, telecomunicações, mercados, em tudo que um nerd gosta.  Não são os Homens de Preto, embora haja muitos cidadãos assim trajados.  O espetáculo é vibrante, e eles o assistem das coxias, paralelos ao palco, fumando um cigarro (o teatro é deles) de vez em quando afastando a beira da cortina e olhando para nós, aqui nesta abóbada, nesta platéia que não tem mais fim, não tem mais fim, não tem mais fim.



sábado, 25 de outubro de 2014

3640) Cantos do "Grande Sertão" (25.10.2014)



(ilustração de Poty para Grande Sertão: Veredas)


Um dos grandes problemas para estudar (e não meramente “ler”) o Grande Sertão: Veredas é que Guimarães Rosa fez dele um texto corrido, direto, sem interrupções, sem separação de capítulos, sem segmentos precedidos de título ou número, sem qualquer tipo de divisão.  Quando vamos citar o livro podemos dar apenas o número da página, que muda de edição para edição. (Em obras clássicas, com numerosas edições, costuma-se citar o capítulo, não a página, que sempre varia.)  O problema não é só com citações, mas também com a necessidade que o leitor tem de memorizar uma sequência, um fio condutor.  Subdivisões ajudam. Quando o livro é contínuo, as palavras passam por nós e se perdem como as águas de um rio incessante.



Uma das tentativas de partir o romance em unidades foi feita por Ariano Suassuna em “Encantação de Guimarães Rosa”, um texto de 1967 recolhido no Almanaque Armorial (org. Carlos Newton Júnior, Ed. José Olympio, págs. 148-149). Diz Ariano que Rosa “entrou instintivamente no grande ritmo épico” e estruturou seu romance ao longo de dez Cantos, como num poema épico, mas sem indicá-los.  Essas dez subdivisões do texto seriam, segundo Ariano:



“O primeiro canto começa no início, tem a lista dos chefes, a descoberta que faz Riobaldo de que é filho bastardo de Selorico Mendes (...) e vai até o começo da traição a Joca Ramiro.   

O segundo canto começa com a luta contra Zé Bebelo sob o comando de Hermógenes e vai até a chegada do chefe guerreiro Sô Candelário.  

O terceiro, vai da espera de Joca Ramiro no É-Já até o julgamento de Zé Bebelo.  

O quarto, pega do episódio da Guararavacã até o Bambual do Boi.  

O quinto, começaria com a nova andança dos jagunços, do Poço até a morte de Medeiro Vaz.   
O sexto, do enterro deste chefe até o primeiro grande ataque aos ‘judas’.  

O sétimo começaria com a grande lista dos cangaceiros, até a fuga de Zé Bebelo do cerco que lhe fora posto por Ricardão.  

 O oitavo iniciar-se-ia com a cena na fazenda de Dodó Ferreira e iria até o pacto de Riobaldo com o Diabo.  

 O nono começaria com a nova força de autoridade de Riobaldo e iria até a travessia do ‘Liso do Suçuarão’.  

 Finalmente, o décimo partiria daí até o desenlace.”


Certamente não é a única divisão possível (qualquer dia comentarei a divisão proposta por Willi Bolle), mas ela indica o modo como tanto um autor quanto um leitor precisam de uma espécie de índice mental para ter a visão do todo.  Dividi-lo em partes tem um fim prático (ajuda a localizar com rapidez um certo trecho) mas também ajuda a perceber e julgar melhor a estrutura da obra, ver como ela se organiza e produz os seus efeitos.


3639) Seu Lunga (24.10.2014)






(na foto, Biliu de Campina)



Eu gostaria de saber qual o abracadabra do fascínio que Seu Lunga exerce sobre as pessoas.  Me refiro ao personagem, que é facílimo de vestir por qualquer cidadão desde que seja baixinho, magro, roufenho, irritadiço, abespinhado, inconsequente, abofelado, impaciente ou feroz.  Pense em Pinto do Monteiro, a cascavel do repente, ouvindo do outro cantador uma alusão que considera desrespeitosa, e se entesando todo pra disparar uma sextilha-tonelada.  Pense em Manoel Camilo dos Santos tomando conhecimento de algum reparo a sua ortografia ou sua gramática.  Pense em Jamelão recebendo a abordagem loquaz de um penitente na hora em que quer escutar uma música que se canta na mesa. 



Seu Lunga vai saindo bem cedinho, na primeira luz do dia, o perdigueiro arfando à frente, a espingarda num ombro e a tira do embornal no outro. Um vizinho diz: “Bom dia, Seu Lunga!  Tá indo caçar?!”  “Não,” diz ele, engatilhando a arma, “tou indo matar esse cachorro doido!”.  Tebêi!  Seu Lunga não tem paciência com os idiotas da objetividade, esses personagens meio fora de foco criados por Nelson Rodrigues.  Quando alguém tenta condená-lo ao óbvio, ele faz como aconselhavam os surrealistas: produz um ato atroz bem no meio da parede bem branquinha da vida real.



Engraçado que na minha infância esse personagem era Seu Mandurinha, ou Seu Mandury.  O nome Lunga eu vim a conhecer quando troquei Campina pelo Brasil.  O Velho Pôpeiro é um arquétipo, afinal, tanto quanto o Canalha Arrependido ou o Bajulador Frustrado.  E nas artes temos o memorioso Funes, o avaro Scrooge, o libertino Casanova, o mercantilista Paulo Honório, o apaixonado Romeu, o imperturbável Buster Keaton, o ardiloso Ulisses, o absurdo Limeira... Personagens de rica textura, cada qual ao seu modo, mas submetidos a um viés que os deixa na beirinha da alegoria.  Cada um tem um fator principal, que o transforma quase num personagem de uma só dimensão, um só traço, ou traço predominante demais sobre os demais.


Porque por mais que a gente queira e deva e precise e mereça tocar o barco com alegria e leveza e peso específico, é bom existir alguém pra ser a trombeta explosiva e vibrante de toda essa baita duma réiva. De tudo que a gente represou pra que aquilo no meio de uma festa não resultasse em tumulto e morte. Tudo que a gente engoliu pra não parecer que estava querendo ser melhor do que os demais. Tudo que a gente pra ser gente boa teve que coçar a cabeça, e dar um riso assim de lado, e dizer, rapaz, deixa isso pra lá, não vamos mexer com esse assunto não. Seu Lunga é o estouro da rolha dessa champanhe vingativa, maturada durante as horas de ressentimento e rancor.


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

3638) Cronenberg escritor (23.10.2014)


O diretor David Cronenberg (Videodrome, A Mosca II, eXistenZ, etc.) acaba de lançar seu primeiro romance, Consumidos (Alfaguara/Objetiva, 2014).  O livro é descrito como “a narrativa bifurcada do assassinato canibalístico envolvendo um casal de famosos filósofos franceses e um médico que está por trás de uma doença sexualmente transmissível e sua estranha filha”.  Se eu tivesse lido esse resumo sem saber o autor, pensaria: “Esse cara deve estar vendo muitos filmes de Cronenberg”.

Fiquei curioso em saber como foi esse processo para quem, como ele, escreveu não só seus próprios roteiros mas também adaptou alguns romances (Naked Lunch de William Burroughs, Cosmópolis de Don DeLillo, Crash de J,. G. Ballard, etc).  Não conheço muitos romances de estréia de diretores com carreira já consolidada, ou seja, alguém que dirigiu mais de meia-dúzia de filmes e de repente resolveu escrever um livro. Numa entrevista no saite The Daily Beast (http://tinyurl.com/py385c4), ele comenta o processo.

“Romance e roteiro não se parecem em nada. Um roteiro é um tipo bizarro e híbrido de escrita, onde a qualidade de sua prosa é irrelevante. Na verdade, tanto melhor se for uma prosa rasa e simples. Quando a gente lê um roteiro de um escritor frustrado, a gente o odeia, porque ele vai, e vai e vai, descrevendo coisas irrelevantes. (...)  O roteiro tem que ser uma leitura rápida e clara, que possa lhe dar uma idéia de como sua equipe pode fazer com que aquilo aconteça. É uma escrita restritiva, comprimida. Um romance é totalmente diferente. Descobri, para minha surpresa, que escrever um romance parece muito mais com dirigir um filme. Você escolhe o elenco, faz a iluminação, os figurinos, as locações, os efeitos sonoros, efeitos especiais, música.  Você faz tudo.  Não é assim quando se faz um roteiro.”

Essa maneira de colocar a questão recupera o lado literário do cinema, a capacidade de criar artificialmente a sensação de uma realidade em torno da imagem. Não basta o salão do palácio parecer verossímil, é preciso fazer o público acreditar que há um palácio em volta do salão, mesmo sem vê-lo.  Cronenberg diz que o cinema tem algo de escultural, e que sempre precisa ter uma idéia clara do espaço, da posição e dos movimentos dos atores, mas que Tolstoi já fazia isso na literatura, antes do cinema. O difícil do roteiro é reproduzir, com uma escrita “minimalista”, essa impressão de espaço, de realidade física, de modo a que diretor, atores, técnicos, etc., lendo o roteiro, cheguem a um consenso rápido sobre como tudo aquilo deve ser preparado para que, visto na tela, passe aquela mesma idéia para o espectador.


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

3637) Lafferty 100 anos (22.10.2014)





Entre os centenários comemorados este ano, um dos mais obscuros está sendo o de R. A. Lafferty (1914-2002), um dos escritores mais fora-de-esquadro da FC norte-americana.  Nunca foi traduzido no Brasil, ao que eu saiba, a menos que tenha saído por um daqueles livrinhos de papel ruim da Bruguera, Cedibra, etc., nos anos 1960-70, onde muitos anos depois descobri, já sabendo quem eram os autores, livros de Ballard, Delany, Aldiss, Dick. 



A literatura de Lafferty não se parece com a de ninguém.  Ele é o que a crítica de FC chama de “oddball stylists”, estilistas excêntricos, pessoas que pensam de uma maneira diferente, escrevem de modo totalmente pessoal, e usam os temas clássicos da FC (alienígenas, universos paralelos, viagens no tempo, inteligência artificial, etc.) de uma maneira que deixa perplexos até mesmos os autores especialistas nessas vertentes.  São autores personalistas, fora de grupinhos, de escolas.



Lafferty era católico, solteirão, engenheiro elétrico, e só começou a publicar profissionalmente por volta dos 45 anos. Seus primeiros livros tinham uma mistura desnorteante entre o épico e o humorístico, sem preocupação com realismo ou verossimilhança, narrando fabulações que tinham de ser aceitas sem muito exame, como uma história contada ao pé da fogueira.  A tradição dos “tall-tales” (contos folclóricos de exageros e prodígios), a pulp fiction, a mitologia, tudo se mistura nos cerca de 200 contos e 20 romances do autor. (Veja aqui a página sobre ele: http://tinyurl.com/prmp43g.  O verbete na Wikipédia tem numerosos outros links.)



Já comentei aqui o conto Novecentas Avós (em: http://tinyurl.com/klwgb4z), da coletânea homônima.  Neil Gaiman (que é seu fã e tentou imitar seu estilo no conto “Sunbird”, em Coisas Frágeis) diz: “O que me atraiu nele foi a voz narrativa, acho; o modo como ele constrói uma história, diferente de todo mundo. A peculiar justeza de sua visão-do-mundo, e a natureza obscura dela. E as frases.” 


Num texto de 1981, Lafferty disse: “A FC sempre promete mais do que faz, e tem sempre fraudado seus consumidores com produtos de má categoria. Bem, o que ela promete é mágica e deslumbramento, porque uma história de FC ou é uma história que nos deslumbra ou não é nada. Mas esse deslumbramento é uma coisa muito rara, por sua própria natureza, e difícil de produzir. Então, se a FC falha miseravelmente em dezenove casos em vinte, ela é mesmo assim um relativo sucesso. (...)  A FC é a ponte possível entre as ‘duas culturas’, (...) entre a arte viva e a ciência viva, pois ambos os grupos perdem um pouco dessa vivacidade enquanto o afastamento entre os dois continuar existindo”.