sexta-feira, 6 de março de 2015

3754) Syd Field falou (6.3.2015)



Ele é o deus-pequenino das oficinas de roteiro, e tem uma fórmula mágica pra fazer um filme dar certo. Syd Field já veio ao Brasil trocentas vezes, e espalha pelo mundo sua mensagem com a fé e a euforia de quem descobriu o universo.  Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.  Discordo da faceta engessadora e bitolada da sua teoria de que todo filme tem que ter três atos, todo ato precisa ser encerrado com uma cena de tal ou tal tipo (que ele chama “pinça”, “ponto de virada”, sei lá mais o que).  Por que combato? A fórmula não funciona? Ah, funciona, sim.  Para algum tipo de filme.  Querer impor essa fórmula em todo filme é como se Leonardo da Vinci fosse dar aulas de pintura e dissesse: “Todo quadro tem que mostrar uma mulher sentada, com as mãos pousadas no colo, e sorrindo.  São os três elementos básicos da pintura.”

Mas Field, é claro, dá muitos conselhos úteis.  Alguns passam meio despercebidos.  Por exemplo, em Como resolver problemas de roteiro (Ed. Objetiva, 2002) ele diz: “A informação visual que recebemos é cumulativa.”  Ou seja: não temos que mostrar tudo de uma vez só, mas tentar fazer com que cada plano mostre um pedaço a mais da ação ou do ambiente.  Uma das coisas que a narrativa do cinema conquistou com grande esforço foi a capacidade de ajudar o público a visualizar um complexo ambiente interno (uma casa com muitos corredores, salas, etc.) com alguns poucos planos, de modo a que o espectador perceba como estão em relação um ao outro. 

Se a informação faz sentido para o público, é possível encadear os planos numa certa relação: “eles passaram do terraço para o salão... essa escadaria leva ao primeiro andar... esse terraço fica do outro lado da casa, voltado para aquele pomar...”  Às vezes um plano parece desnecessário (uma pessoa sai de um quarto com um candelabro, segue pelo corredor, vira à esquerda) mas ele mostra a que distância e em que direção ficam os quartos de A, B ou C.  O espectador tem que acompanhar os diálogos, entender a história, conhecer os personagens, e também quer entender o espaço onde a ação acontece.

“Encontrar formas de expandir o roteiro visualmente.  Atenção aos detalhes da cena que podem permitir um close, um movimento, um corte brusco, um plano de detalhe.”  Cada avanço ou recuo da câmara, cada mudança de luz amplia o espaço do filme. Um quarto na penumbra.  Um homem deitado. Uma mulher entra, vai direto à janela, abre de par em par, chama o homem com alegria para ver alguma coisa.  Ele levanta, os dois debruçam na janela, ficam tagarelando, mas a luz da janela revelou uma terceira coisa que é agora tudo que o espectador vê, e que os dois não percebem.




quarta-feira, 4 de março de 2015

3753) Táxi com DVD ligado (5.3.2015)



É cada vez mais comum a gente entrar num táxi e ver que o motorista está dirigindo e assistindo TV ao mesmo tempo, numa televisãozinha acoplada ao painel, onde tanto pode estar rolando um noticiário quanto o DVD de uma dupla sertaneja.  Em vez de implicar, e ficar pedindo que desligue aquilo (o que seria o procedimento mais ajuizado) eu prefiro dar uma de cientista e ficar analisando o comportamento do cara. “Não atrapalha não?”, pergunto. Eles dizem algo como: “Não, eu não fico olhando o tempo todo, só olho quando paro.”  Ou então: “Deixei ligado só pra saber das notícias.”  Eu: “Por que não deixa só o áudio, então?”  Ele: “Ah, porque certas notícias tem imagens que a gente quer ver, enquanto eu vou devagarinho e dou uma espiada, ou deixo para espiar quando paro no sinal”.

Há um sistema que elimina a imagem quando o carro está em movimento.  Já peguei táxi com um DVD rolando, mas sem imagem: era um show, a música avançava normalmente, mas a tela estava preta, com um letreiro branco no meio.  Cada vez que o carro se imobilizava, a imagem reaparecia.  Quando o carro avançava de novo, a tela ficava preta.  Imagino que seja muito simples fazer esse sistema acoplado, que reduz um pouco o risco de acidentes.

Mas (pergunto) se dirigir falando ao celular pode resultar em multa, por que é permitido ao taxista dirigir assistindo jogo de futebol (pense numa coisa onde a olhadela é inevitável, na hora H!)?  Ou assistindo DVD de música, filme, o que seja?  O risco de acidente, por uma olhadinha rápida, não é o mesmo que o de falar ao celular?

A verdade é que a TV invade todos os espaços.  Vi uma entrevista de um europeu que veio ao Brasil e ficou escandalizado com o fato de que em todos os restaurantes em que entrou havia uma TV ligada, geralmente na programação da Globo. “Na Europa,” dizia ele, “vai-se ao restaurante para comer e para conversar.  Uma TV ligada num restaurante é uma invasão de um espaço de privacidade.”

Não é que o achamos aqui, não é mesmo?  Temos TV ligada em salas de espera, em consultórios, em rodoviárias, em lojas, em repartições, em qualquer espaço onde se pressupõe que um grupo de pessoas estará parada, esperando.  É preciso evitar que essas pessoas pensem, que fiquem entediadas, que fiquem sozinhas com elas mesmas.  É preciso massacrar programas, blá-blá-blá, filme de carro explodindo, futebol, talk show, não importa o quê.  A televisão é a forma mais avançada de condicionamento mental, onde importa menos o que está sendo mostrado, e importa muito mais o que, através daquilo, está sendo mantido longe dos corações e mentes. Há muitas formas do Big Brother fazer-se amar, fazer-se obedecer.





terça-feira, 3 de março de 2015

3752) Como começar um livro (4.3.2015)


(Flannery O'Connor)

Nos blogs e saites com listas dos “melhores começos de livros”, “melhores finais”, etc., as listas me dão boas dicas para livros que nunca li e nunca lerei.  O que falta neles, às vezes, é teoria.  Tudo bem escolher algumas linhas do romance de Fulano e dizer que é uma das grandes aberturas-de-romance de todos os tempos.  Mas, por quê?  Nem todo sujeito que faz essas listas se dá o trabalho de justificar suas escolhas.  Em geral não são críticos – estes, sim, têm o trauma de precisar justificar até o-que-não-é-preciso.  São simples fãs, e as verdades estéticas de um fã são “auto-evidentes”.

Vou escolher um trecho colhido num desses saites, de uma autora que nunca li, um livro que não conheço. São as linhas iniciais do romance The Violent Bear It Away (1960), de Flannery O’Connor, uma escritora do sul dos EUA, muito respeitada, mas não me lembro de ter lido sequer um conto dela. Sou um leitor indiferente, portanto.  Como começa o livro? 

“Fazia apenas metade de um dia que o tio de Francis Marion Tarwater estava morto, quando o menino ficou bêbado demais para terminar de cavar sua cova e um negro chamado Buford Munson, que tinha vindo encher um garrafão, teve que acabar o serviço e arrastar o corpo desde a mesa do café-da-manhã, onde ele ainda estava sentado, e sepultá-lo de um jeito decente e cristão, com o sinal do Salvador plantado na cabeça do túmulo, e terra bastante por cima para impedir que os cães o puxassem para fora.”

Não tenho a menor idéia do que é esse romance (só vou olhar depois), mas olhe só que começo cheio de informação.  Tem esse menino (que idade terá ele?), a quem cabe a tarefa de enterrar sozinho o tio (imagino que F. M. Tarwater seja o próprio garoto) e não pôde terminar porque ficou bêbado. (Talvez isso corresponda a uma tradição como a tradição nordestina de que trabalhadores que limpam fossa sanitária bebem cachaça durante o trabalho, o que sempre deu origens a episódios pitorescos e escatológicos.)  Aparece um negro, com aqueles nomes pomposos e vazios de tantos personagens negros do Sul dos EUA, que parecem nome de governador.  Veio em busca de bebida (um garrafão, “a jug”) – talvez fosse um local de “moonshiners”, fabricantes clandestinos de bebidas.  Teve que ir buscar o corpo, que, num detalhe digno de Buñuel, continua sentado à mesa onde morreu.  E os detalhes finais mostram uma mistura de espiritualidade (“the sign of its Saviour at the head of the grave”) e de brutalismo (“enough dirt on top to keep the dogs from digging it up”).  O leitor sente firmeza em quem escreve. Não precisa mais do que isso para dar vontade de ler o resto.


3751) O Sr. Spock (3.3.2015)



(Spock, por Ellygator)


Nunca assisti Jornada nas Estrelas (“Star Trek”) na época em que deveria ter assistido.  Se o tivesse feito, a série estaria protegida pelos mesmos habeas-corpus afetivos que beneficiam Quinta Dimensão, Além da Imaginação e outras.  Só comecei a ler a seu respeito quando em 1981 pus a mãos na Encyclopedia of Science Fiction (Nicholls/Clute) e fiquei sabendo do seu imenso sucesso.  Vi alguns episódios ao acaso, vi 2 ou 3 longas-metragens feitos depois, mas, não, não posso dizer que sou um fã de Star Trek.  Olho suas qualidades (são várias), anoto suas limitações (idem), avalio tudo com olhos de crítico, com um olhar de não-fã, um olhar distanciado, brechtiano.  O olhar (só agora me ocorre isto) do Sr. Spock.

Spock (cujo ator, Leonard Nimoy, faleceu dias atrás aos 83 anos) era um Vulcano, um humano pertence a uma raça que, pelo que entendo, não exterioriza suas emoções.  A frieza de Spock, sua postura imperturbável, tinham algo do não-sorriso permanente de Buster Keaton, do cerebralismo autoconfiante de Sherlock Holmes, do pragmatismo calmo de tantos robôs na história da FC.  A discussão a seu respeito ia de “ele é incapaz de emoções” até “ele se emociona mas aprendeu a não demonstrar”.

A indústria cultural se baseia no estímulo às emoções.  Excluam as emoções e escutem o desmoronamento do cinema, da TV, da música, da literatura popular.  Se esse comércio todo tivesse que se basear na lógica, na frieza e no raciocínio que Spock representava, não passaria de uma barraca de fundo de quintal.  O mundo é emoção, e Spock se destacava por contraste. Ele é frio e lógico. Consegue analisar problemas, em situações de emergência, como se fosse algo meramente formal, algo de que não dependesse a sobrevivência da Enterprise e a dele próprio.  Na política, talvez procure uma posição em que a brasa possa aquecer por igual as sardinhas disponíveis.

Uma parte dos admiradores de Spock são todos aqueles nerds que, como eu, já pagaram algum mico por não saberem controlar as emoções. Já meteram os pés pelas mãos, quebraram a cara, produziram episódios de grosseria ou descontrole; e ficaram depois, com a cara enterrada no travesseiro, jurando a si mesmos que da próxima vez não se deixariam manipular daquela forma.  E uma parte vem das fãs femininas, para quem a imagem de um homem totalmente apolíneo é O Grande Desafio de suas vidas. Será que ele é assim, indiferente, apenas “por que ainda não achou a garota certa”?  Toda trekkie adolescente já alimentou essa fantasia de ser um dia “a mulher que fez o Sr. Spock balbuciar de paixão, confessar seu amor, dizer que está morrendo de saudade”.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

3750) Spoilers (1.3.2015)



(Agatha Christie)

Quando o cartunista Péricles fazia “O Amigo da Onça” na revista O Cruzeiro, um dos meus preferidos era o que mostrava uma fila na bilheteria do cinema e o Amigo da Onça saindo da sessão anterior e repetindo, enquanto caminha ao longo da fila: “O assassino é o pai da moça... o assassino é o pai da moça...”  Eu já lia Agatha Christie; era capaz de captar a crueldade dessa ação. Quando uma narrativa (filme, livro, etc) coloca todo seu peso no aparecimento de um enigma e sua posterior resolução, saber essa solução antecipadamente estraga 90% do prazer.

Daí que um debate antigo na literatura policial tenha sido o de manter a presença e o interesse do enigma, mas de tal maneira que ele não seja o único motivo pelo qual o livro está sendo lido.  Um leitor do O Caso dos Dez Negrinhos de “Dame” Agatha pode, mesmo sabendo quem é o “vingador invisível”, reler o livro somente pelo clima de suspense, pela detalhada criação de personalidades.  Mas nem todo livro dela se sustenta para quem já sabe o final.  Um volume de análise muito interessante (A Talent to Deceive – An Appreciation of Agatha Christie, 1980, de Robert Barnard) previne o leitor, na introdução, de que os capítulos de 4 a 6 são obrigados, por serem capítulos de análise técnica dos enredo, a revelar o final; mas o autor avisa que os demais capítulos podem ser lidos sem susto, pois não revelam mais nada.

Não é só com o romance policial.  Muitas obras de literatura mainstream têm revelações finais que são cruciais para o enredo, e que não são necessariamente sobre um crime. Pode ser uma revelação de identidade, como em Grande Sertão: Veredas, ou a descoberta de que o mundo não é o que parece ser, como em tantos romances de ficção científica. O mistério e o enigma não pertencem apenas à literatura de crime. Eu gostei muito dos desfechos de A Misteriosa Chama da Rainha Loana de Umberto Eco, ou de A Invenção de Morel de Bioy Casares. Se vier a escrever sobre esses livros, terei que omitir informações, para que o leitor leia em paz, fique impregnado do livro por inteiro, e possa extrair desses momentos literários a satisfação que eles pretendem produzir. 

Como resenhar livros dessa natureza?  Eu diria que a uma solução possível é: 1) resenhar o romance descrevendo-o apenas em parte; 2) prevenir o leitor de que o enredo se baseia em algum tipo de surpresa ou resolução de enigma; 3) criar um certo suspense sobre o não-dito.  Deixar que a consciência de que há “spoilers” (revelações inoportunas) à espreita funciona como um atiçador a mais da curiosidade do leitor, e é melhor ainda que ele não saiba ao certo qual aspecto da história está sujeito a spoilers.




sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

3749) "The Black Room" (28.2.2015)



Colin Wilson, escritor existencialista britânico, propôs o conceito de “outsider” para designar o indivíduo inquieto, rebelde, movido por uma intensa busca de sentido na vida, e que tanto pode derivar para a grande arte quanto para o crime.  Muitos livros seus têm como centro personagens que realizam essa busca.  Neste romance de 1971, a história acompanha o compositor erudito Christopher “Kit” Butler, que aceita, meio na esportiva, o convite de um amigo que faz parte do Serviço Secreto britânico, o MI5, para participar de uma experiência científica como cobaia altamente qualificada.  A experiência, realizada numa espécie de hotel-com-laboratório num lugar remoto, consiste em submeter-se durante dias à experiência da total privação dos sentidos da visão e (tanto quanto possível) da audição.  O objetivo é medir o grau de resistência ao tédio e ao isolamento, para seleção e treinamento futuro de espiões.

Butler é o porta-voz das teorias de Wilson, e discute com os cientistas e as outras cobaias sobre energia mental, concentração, autocontrole emocional, etc.  Ao mesmo tempo, ele percebe que outras agências, como a CIA, a KGB e uma misteriosa “Estação X”, espionam as pesquisas dos ingleses.  Na segunda parte do livro, Butler, já aprovado, está em Praga numa missão um tanto inócua mas arriscada. É sequestrado e depois de algumas aventuras violentas vai parar na sede da misteriosa Estação X, onde se defronta com um chefe cheio de teorias próprias sobre o assunto.

Em matéria de escritor popular, conheço poucos como Colin Wilson capazes de encadear uma discussão filosófica e psicológica superficial, mas que faz sentido, com aventuras e um senso de realidade satisfatório.  Os seus romances policiais são bem melhores que sua ficção científica, e The Black Room lembra um pouco aquelas histórias de espionagem cheias de traições, subentendidos e reviravoltas, tipo John Le Carré.  O único defeito do livro, se é que é defeito e não um corte ousadíssimo, é que ele não acaba, interrompe-se bruscamente.  Há um desfecho em vista, mas precisaria de mais 20 ou 30 páginas para dar-lhe alguma conclusão satisfatória numa situação política tão complicada, embora haja algumas alusões interessantes à política européia de 1968. 

Pode-se dizer de Wilson o que já foi dito de Philip K. Dick: que a leitura de sua obra pode começar com qualquer título, porque sua visão do mundo está inteira em cada um, e cada um conduz aos demais como se todos fossem continuação de todos. A fé infatigável de Wilson nos poderes da mente humana perpassa sua filosofia, seus romances populares, suas antologias, sua obra sobre crimes e sobre ocultismo.







3748) Livros ilustrados (27.2.2015)



(ilustração de Poty para O Púcaro Búlgaro, de Campos de Carvalho)

O pesquisador João Antonio Buhrer postou no Facebook imagens de livros ilustrados pelo curitibano Poty. Obras de Campos de Carvalho, Guimarães Rosa, Jorge Amado e muitos outros.  Houve um tempo em que era uma prática corrente em nosso mercado editorial lançar romances ilustrados.  Nosso conterrâneo Santa Rosa produziu ilustrações extraordinárias para obras de José Lins do Rego, Graciliano, Drummond e Jorge Amado. Hoje em dia, isso parece que acabou.  Se pegarmos ao acaso 100 romances (ou livros de contos) brasileiros lançados ano passado, de diferentes editoras, quantos deles terão ilustrações internas?

A ilustração encarece o livro? Não acho. Por outro lado, tem editora encarecendo livros ao imprimi-los, pretensiosamente, em papel cuchê, papel brilhante de todo tipo.  Olhe, é um absurdo imprimir em papel brilhante um livro para ser lido. A gente tem que ficar procurando um ângulo que não reflita a luz em nossos olhos  Papel de livro tem que ser fosco. Ponto final.  E um romance ilustrado não precisa de papel de gramatura alta ou com brilho. Livro de arte, livro de fotografia, tudo bem.  Mas um livro onde o foco é no texto e a ilustração é complemento, essa ostentação não é necessária. Em geral, ilustrações como as de Poty ficam com seu valor estético intacto em qualquer tipo de papel.

Dizem que “livro ilustrado é livro para crianças”.  Já vi leitores metidos a sofisticados dizendo do livro de alguém: “O livro é cheio de figurinhas, até parece que é pra leitor analfabeto”. A verdade é que existem analfabetos da escrita e analfabetos da imagem. Um leitor desse tipo não sabe o que está perdendo, e talvez não saiba nem o que está ganhando.

Idealmente (cada caso é um caso, sempre) um livro ilustrado deveria pagar “luvas” ao ilustrador pela execução da encomenda (toda obra encomendada tem que ter uma paga extra, fora o recolhimento de direitos autorais), e uma percentagem do preço de capa, tal como o autor recebe.  As fórmulas são muitas, e devem ser conversadas em cada trabalho. Alguns livros pagam um preço fixo ao ilustrador, e tchau. Outros pagam uma percentagem a ele, sem mexer nos 10% do autor (o mínimo que um autor deve receber). Em outros casos, a percentagem do ilustrador é diminuída da do autor, este ficando com 9% e o ilustrador com 1%. Também há divisões de 5% para cada, quando a proporção do volume de material criado por cada um seja essa. 

A ilustração não está ali para explicar o livro, para torná-lo mais fácil de entender, e sim para tornar o livro mais complexo, mais rico de informações, produzindo um diálogo entre dois criadores, mesmo quando é um diálogo em que um dos dois toma a dianteira.





quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

3747) Os nomes das ruas (26.2.2015)



(rua em Paraty, RJ)

Nomes de ruas já foram flashes de poesia ou de humor, ou serviram como uma polaróide-de-época, ou indicaram pequenos mistérios que um estrangeiro custa a decifrar.  Vi um dia desses uma foto de uma placa inglesa, com o comentário embaixo: “A placa mais triste de todos os tempos”.  A placa dizia: “Carters Lane, antiga Wibbly-Wobbly Lane”.  “Wibbly-Wobbly” é um termo wibbly-wobbly de traduzir. Significa algo tortuoso, acidentado. Em termos nordestinos, a placa citada seria como trocar “Rua do Catabí” por “Rua Bonifácio Magalhães”. Tem coisa mais sem graça?  Portanto, vou logo avisando: quando eu morrer não quero meu nome em rua.  Se quiserem me homenagear, criem uma biblioteca onde não existia nenhuma, e botem meu nome. Ou qualquer outro.

Alceu Valença tem uma canção (“Pelas ruas que andei”) homenageando os nomes das ruas de Recife e Olinda, talvez as cidades com nomes mais poéticos.  Nunca esquecerei que minha avó Clotilde, já velhinha, morava na Rua das Moças.  Quando eu era menino, passei muitas férias na casa dela na Rua Subida do S, no Fundão, nome que eu achava tão descritivo (a rua era exatamente isso, uma ladeira em forma de S, lembrando a sextilha famosa de Pinto do Monteiro) que o utilizei anos depois no meu romance A Máquina Voadora

O Rio ainda tem a Rua das Marrecas, a Rua do Teatro, a Rua do Jogo de Bola, a Rua da Quitanda, a Rua da Alfândega, a Rua do Paraíso e outras que talvez não demorem a ser rebatizadas com o nome de algum picareta municipal, cavalheiro-de-indústria estadual ou bilionário-provisório federal. Quando morei em Salvador, procurei casa no bairro do Garcia, e descobri a Rua dos Artistas. Saí batendo de porta em porta perguntando se não havia alguma casa para alugar ali.  Não havia, e o mais que consegui foi acabar morando na Rua Vítor Meireles.  (O fato de depois ter morado no Rio na Rua Pedro Américo me pareceu uma rima com essa moradia baiana.)  A rua em que nasci, em Campina Grande, era chamada de Rua dos Paus Grandes (“honni soit qui mal y pense”), devido a umas árvores enormes que a enfeitavam nos idos de 1950.  É aquela rua que desce do final do Beco dos Bêbos (cujo nome oficial ninguém sabe) e vai até o Ponto Cem Réis.

Não são somente os nomes de ruas.  Drummond viu a cidadezinha de Brejo das Almas ser rebatizada como Francisco Sá; revoltou-se, e imortalizou o nome no título de um livro seu. Muitas vezes os nomes novos não pegam. O povo continua a dizer o nome enraizado na memória coletiva.  E é tão bonito alguém poder dizer que mora Rua da Floresta, Rua da Passagem, Rua da Aurora, Rua das Palmeiras, Rua das Ninfas, Rua da Boa Hora.



terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

3746) Nossos bilionários (25.2.2015)



(ilustração: www.nationofchange.org)

Os dados são de 2013-2014, mas os números absolutos não importam muito. Vi-os no saite da revista Exame (http://tinyurl.com/oyuvsk6), com dados da consultoria Wealth Insight.  Outras fontes dão outros números, por diferença de metodologia. Uma fortuna inclui ações e outros papéis (e seu valor momentâneo), participação em lucros, contratos vigentes, valor de propriedades imobiliárias, etc. 

Mas, resumindo: a matéria diz que o Brasil ganharia 17 mil milionários em 2014, 8,9% a mais em relação a 2013, que era de 194.300 milionários. A estimativa é de que com mais cinco anos, em 2018, haja no país um total de 407 mil milionários. (Como esses cálculos são estrangeiros, imagino que o critério seja o dólar, ou seja, milionário é quem tem mais de um milhão de dólares, ou 2 milhões e meio no câmbio atual, mais ou menos). E os bilionários?  Cito: “Em 2012, o país tinha 49 bilionários com uma fortuna combinada de US$ 300 bilhões. Neste ano, o país ganhou um bilionário, mas o total acumulado entre eles caiu 13,7%, para 259 bilhões de dólares. Eike [Batista] é responsável por aproximadamente metade desta queda.”

Não acho, como os anarquistas barbudos, que toda propriedade é um roubo. Vai ver que uma boa fatia desse dinheiro é dinheiro justo, de quem (pra usar o jargão vigente) aqueceu a economia, gerou empregos, botou produtos nas prateleiras, pagou seus impostos.  Muitos herdaram suas fortunas, e, como já disse um aristocrata inglês, “quem herda dinheiro roubado não roubou”.

Precisamos de uma revista misturando a Forbes e a Nature, para estudar cientificamente os bilionários e milionários. Dinheiro transforma a gente. Eu mesmo, quando estou com a conta bancária cheia de zeros, fico com 10 metros de altura e 900 anos de vida pela frente.  Só não saio voando porque os bolsos estão pesados.  E esses caras? Em que pensam? Que tipo de olhar eles dirigem para os pobres? (Não falo dos famintos do Sudão ou da Nigéria: falo de mim e dos meus leitores.) São indivíduos soturnos, misantrópicos, de cérebro lagartiforme, faturando fortunas a golpes de ambição e de perfídia?  São hedonistas construindo palacetes submarinos, satélites-de-lazer, bordéis repletos de andróides e ginóides?  São capitalistas truculentos à velha moda, esmagando a concorrência, jogando dez mil famílias na miséria enquanto cuidam da catarata do seu rotweiler? Mistério.

Bilionários e milionários, sejam eles xeiques sauditas, executivos de Manhattan ou playboys latino-americanos, são uma nova espécie criada em nosso tempo, e estudá-los pode lançar luz sobre o rombo no casco do nosso Titanic, mesmo que já seja tarde demais para consertá-lo.




segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

3745) Oliver Sacks (24.2.2015)



Oliver Sacks, neurologista e escritor, ficou famoso ao ser interpretado por Robin Williams no filme Tempo de Despertar, onde ele faz o médico que trata de um paciente (Robert de Niro) que está há anos em estado vegetativo.  O médico inventa uma complicada terapia para trazê-lo de volta à consciência, e consegue.  Depois, médico e paciente percebem que o tratamento funciona, mas não por muito tempo, e este se vê condenado a mergulhar de novo nas trevas. Lembra muito a situação do clássico de FC “Flowers for Algernon”, de Daniel Keyes (1959).

Sacks, de 81 anos, publicou recentemente no New York Times uma carta anunciando que está com câncer de fígado, em fase terminal, e tem apenas algumas semanas de vida. (Aqui, a carta, traduzida: http://tinyurl.com/k9xvcex). Os leitores brasileiros hão de lembrar livros como O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu, Um Antropólogo em Marte e muitos outros em que ele descreve casos clínicos recolhidos de sua longa carreira médica. Sacks dedicou sua vida ao estudo do cérebro humano e da mente humana, e ler um dos seus livros abre os nossos olhos para a fragilidade de conceitos como consciência, percepção, personalidade, etc. 

Diz ele, em sua carta: “É só minha a decisão de como viver os meses que me restam. Tenho que viver da forma mais rica, profunda e produtiva que conseguir. (...) Repentinamente me sinto possuidor de um foco muito claro, e de perspectiva. Não há mais tempo para nada que não seja essencial. Preciso focar em mim mesmo, no meu trabalho e nos meus amigos. Não vou mais assistir o jornal na TV todas as noites. Não vou mais prestar atenção para política ou para argumentos sobre aquecimento global. Não se trata de indiferença, mas de desapego – ainda me importo muito com o Oriente Médio, com o aquecimento global, com o crescimento da desigualdade, mas estas coisas não estão mais na minha alçada; pertencem ao futuro.”

Diante de situações assim a gente percebe que o mundo se divide em O Mundo e o Meu Mundo. Há uma área imensa do mundo que ignora a nossa existência, que vai ficar para sempre invulnerável às nossas ações. Como se fosse outro planeta, e não o planeta onde vivemos. Mas há outro, o Meu Mundo, onde a nossa vida conta, nossas ações produzem resultados, nossa presença chama a atenção, nossa ausência deixará um vazio. Quando somos jovens cheios de sonhos, de atrevimento, de esperança, achamos que um dia o Meu Mundo se confundirá totalmente com o outro. Quando estamos na porta, nos preparando para ir embora, é hora de esquecer o que está fora do nosso alcance, e de reconhecer que o Meu Mundo é pequeno, mas é tudo que a gente tem.