sábado, 23 de maio de 2015

3821) "O Inquilino" (23.5.2015)



Estou coordenando, para a Escola de Cinema Darcy Ribeiro (Rio de Janeiro) uma Mostra do Cinema Fantástico, com filmes todos os sábados às 14 horas, entrada franca. A escola fica na esquina da Rua 1º. de Março com Rua da Alfândega, pertinho do CCBB. (Após a sessão, neste sábado, haverá debate com o prof. Sérgio Almeida.)

Hoje, sábado 23, será exibido O Inquilino (“The Tenant”, 1976) de Roman Polanski. O filme se baseia num livro de Roland Topor, romancista e desenhista de quadrinhos francês. É a história de um migrante polonês em Paris que aluga um apartamento onde algo terrível aconteceu com a inquilina anterior, e ele percebe que o edifício não gosta muito dele. A história lida com o tema da Substituição, em que um protagonista descobre uma pessoa numa situação bizarra, tenta chegar até ela (ou salvá-la, ou investigar a situação, etc.) e no final vê que seu destino é substituir essa pessoa.

É uma história de “casa assombrada” onde não há a presença de fantasmas humanos, e sim de um clima maligno que desencadeia a tragédia. O filme tem sido considerado o encerramento de uma “trilogia do apartamento” na obra de Polanski, três histórias de horror urbano ambientadas em apartamentos malignos, sendo as duas primeiras Repulsa ao Sexo (“Repulsion”, 1965) e O Bebê de Rosemary (1968).

Trelkovsky, o inquilino do título, é interpretado pelo próprio Polanski, com o ar desamparado de um Lionel Messi que não soubesse jogar futebol. Tentando investigar o suicídio da moradora anterior do apartamento, ele entra numa espiral de fatos insólitos e bizarros. A violência aparece em pequenos detalhes de mutilação física, cujo incômodo se torna ainda maior pela irrelevância do gesto ou pela falta de sentido, a qual gera uma sensação permanente de que “o Mal não tem um plano”, e que tudo pode acontecer. Não há uma explicação final, não há um mistério a resolver; o desfecho do filme desemboca, de modo ameaçador, nas suas sequências iniciais.

O filme tinha sido cogitado pelos produtores para ser dirigido por Jack Clayton, que dirigiu em 1961 o clássico de terror Os Inocentes. Talvez o fato do protagonista ser um polonês meio paranóico, sentindo-se perseguido em Paris, tenha levado os produtores a repassar o projeto para as mãos de Polanski. O diretor recria aqui, como ator, um personagem meio desamparado como o que interpretou em A Dança dos Vampiros (1967), que participa dos fatos sem entendê-los por completo. É um dos filmes mais estranhos na carreira do cineasta. O livro de Roland Topor teve uma reedição em 2006, incluindo textos de Thomas Ligotti e comentários sobre a versão de Polanski.


sexta-feira, 22 de maio de 2015

3820) "Cariris Velhos" (22.5.2015)



A região paraibana dos Cariris Velhos é limítrofe com o Vale do Pajeú pernambucano. As duas regiões juntas são uma espécie de Grécia Antiga nordestina, pelo acúmulo de tradições, histórias, lendas e versos. Tenho duas colherinhas desse sangue em minhas veias, visto que minha mãe nasceu e se criou em Coxixola (a cidade onde você, ao entrar, é saudado por uma placa dizendo: “Coxixola Existe!”), perto de Serra Branca e de São João do Cariri.

Cariris Velhos – passando de passagem de Pedro Nunes Filho (Recife, Jabre, 2008) é uma história dessa região contada por quem nasceu e se criou por entre aquelas vilas, cidades, fazendas, sítios, povoados, caatingas, serrotes e rochedos. Pedro Nunes, radicado hoje no Recife, é o autor de um dos grandes relatos épicos sobre a história da Paraíba: Guerreiro Togado (Recife, UFPE, 1977, já com reedições subsequentes), a história da “Guerra de Doze”, uma sucessão de batalhas que em 1912 opôs as forças militares da Paraíba e o bacharel Augusto Santa Cruz, que invadiu cidades, deu surra em padre e prefeito, pintou e bordou.

Em Cariris Velhos”, o foco é mais a geografia social do que a História. Pedro Nunes descreve com conhecimento de causa as sutilezas da vegetação, da alimentação, do regime de secas do semi-árido.  O capítulo “Caminho sem volta” refaz o percurso entre antigas fazendas, umas arruinadas e desertas, outras ricas e sólidas, bastiões da colonização que, por caminhos diversos, desde o fim do século 17, expulsou ou escravizou os antigos índios cariris, sukurus, tarairus. A escravidão dos africanos tornou mais complexa essa relação: “Enquanto o negro africano dominava algumas indústrias – muitos eram excelentes ferreiros, marceneiros, pedreiros, tecelões, agricultores e cozinheiros – o índio só sabia caçar e pescar.” (p. 80)

“Por todo o território, serras sobranceiras pontilhadas com esculturas de pedras gigantes, obras de deuses, teatros escondidos nas encostas da velha Borborema. Blocos de granito superpostos em forma de muralhas misteriosas espalhadas numa área de extensão sem fim. Sinais indeléveis grafados nas rochas pelas mãos de homens pertencentes a uma civilização ignota e milenar, desejosos de se comunicar com o futuro por meio de mensagens, cujo código perdeu-se no tempo, restando hoje indecifráveis (p.33).”

Os Cariris Velhos e o vizinho Vale do Pajeú são fonte perpétua da cantoria de viola e da poesia popular. É necessário o entendimento de sua história, da mentalidade e da cultura dos homens e mulheres que fundaram a civilização do semi-árido, tão importante na obra de seus poetas, de Ariano Suassuna a Pinto do Monteiro.



quinta-feira, 21 de maio de 2015

3819) "O Perfura-Neve" (21.5.2015)




Num futuro não muito remoto, o planeta mergulhou numa nova Era Glacial, os oceanos estão congelados, os continentes cobertos de neve, e a temperatura ao ar livre é mortal para uma pessoa desprotegida. Da humanidade, sobrevive um número impreciso (mas enorme) de pessoas abrigadas no Perfura-Neve, um longuíssimo trem eternamente em movimento, microcosmo do mundo que deixou de existir.



O Perfura-Neve é mostrado ao leitor em sua insensata extensão, em quadrinhos horizontais de margem a margem. Vagões dormitório, vagões agrícolas, vagões de criação animal, vagões recreativos com bordéis para os ricos – enquanto os passageiros dos últimos vagões, os “fundistas”, reproduzem a vida dos moradores de cortiços. E o trem não para, produzindo mais energia do que consome, mas vendo essa relação se estreitar a cada ano que passa. Em algum momento, o trem não poderá mais avançar.



Le Transperceneige é uma “graphic novel”, e pode mesmo ser chamado de novela gráfica. A história começou com o volume O Perfura-Neve (1984), escrito por Jacques Lob (1932-1990) e desenhado por Jean-Marc Rochette. Após a morte de Lob, Rochette fez reviver a série, com roteiros de Benjamin Legrand: juntos os dois publicaram os capítulos finais, “O explorador” (1999) e “A travessia” (2000).  Os três episódios saem juntos agora pela Editora Aleph (SP), com tradução de Daniel Lühmann. É um álbum de 250+ páginas que faz jus ao desenho rico e movimentado de Rochette, sendo notável a diferença entre seu traço do primeiro capítulo e o dos dois últimos.



A idéia original de Lob, a do trem-que-não-para-nunca, tem ilustres precedentes. Um deles, The Inverted World (1974) de Christopher Priest, mostra um trem-universo num movimento relativístico incessante através do espaçotempo.  Esse livro, traduzido na França em 1975, fez um enorme sucesso, mais do que a obra inteira de Priest vendia na Inglaterra.



Mas o filme-de-trem é um gênero em si, é uma história que não existiria sem o trem. Tanto pode acolher o mistério detetivesco do Assassinato no Expresso do Oriente quanto a porrada pura de O Imperador do Norte, a guerra padrão de O Expresso de Von Ryane o mensagem natalina de O Expresso Polar. Se já estou falando em cinema a propósito de um álbum de quadrinhos é pela contiguidade que vejo entre os dois, e o fato de que o O Perfura Neve foi filmado em 2013 por Joon-Ho Bong.


A novela gráfica do trio francês é visualmente asfixiante, avançando naqueles corredores estreitos com uma sucessão disparatada de ambientes. Maquinações mafiosas, líderes cruéis, pessoas comuns sem esperança, como nas distopias mais distantes, mais sozinhas e mais geladas.




terça-feira, 19 de maio de 2015

3818) Orson Welles (20.5.2015)






Passei batido pelo centenário de Orson Welles, que foi comemorado no dia 6 de maio passado. Deve ser porque estou focado nos centenários de Rosil Cavalcanti e de Lourival Batista.  Mas Welles é uma esfinge sem fim no meu deserto.  A imagem é adequada, porque ele não construiu uma pirâmide, como Bergman, Chaplin ou Kubrick podem alegar ter feito, mas deixou uma criatura bizarra (sua obra) que o que perde em perfeição ganha em mistério e vida.



Minha primeira impressão dele sempre foi a de alguém ligado à FC, e à inevitável (assim nos parecia) invasão dos marcianos à Terra. Por causa do programa The War of the Worlds ficou associado à obra de H. G. Wells: ele e seu quase-xará têm inclusive um bate-papo que gravaram ao vivo numa rádio. São os dois homens que trouxeram ao mundo o conceito de invasão marciana. O britânico, uma espécie de intelectual do povo, “self-made man” bem ao gosto dos norte-americanos, pragmático, cheio de soluções para que a humanidade dê certo. E o menino prodígio dotado de vastas e divergentes leituras, ego sem limites, e ausência patológica do medo.



Cidadão Kane já foi para os críticos como o melhor filme da história. (Ultimamente, dizem, foi suplantado nessas votações por Um Corpo que Cai de Hitchcock.) Talvez por ser um filme-síntese, composto de perfeições setoriais: a fotografia, a direção de arte, o trabalho de ator, a montagem, a labiríntica e ainda obscura criação do roteiro... É um filme bom em tudo, “uma nova maneira de fazer filmes”, como Orson explicou modestamente ao quase-xará quando este lhe perguntou sobre seu novo projeto.



O Processo e F for Fake são, para mim, tão importantes e tão bons quanto Kane, descontando-se o aspecto histórico deste, claro.  Alguns anos atrás houve uma retrospectiva da obra de Welles no Centro Cultural da Justiça Federal, na Cinelândia. Foram exibidos os comerciais hilários que ele fazia, de bebida, charutos, sei lá o que. Tinha um lado bonachão e ôver, sabia ser simpático quando havia um cheque no fim do túnel. Sempre soube se virar, teve fases de xeique e fases de showman barato, mas não era um gênio inatingível como Kubrick, era um cara que vivia cercado de gente em restaurantes e clubes.


Gosto de Mr. Arkadin, trama policial vertiginosa no gênero “magnata cosmopolita e encrencadíssimo se envolve com um crime”. Tal personagem sempre parece uma fantasia de Welles sobre si mesmo, caso nadasse em dinheiro. Seus milionários lembram o Hubertus Bigend, dos livros recentes de William Gibson. Todo protagonista de Wells é um leão rampante, o que torna ainda mais notável o que ele consegue em O Processo, onde se dá o contrário.




3817) "O Monstro das Sete Bocas" (19.5.2015)




Inventar uma história que ninguém nunca contou é a ambição de muitos escritores. Não direi que é impossível; mas é como inventar uma posição sexual que nunca foi tentada.  Se o cara conseguir, tem seu mérito, claro, mas estamos falando de duas atividades (literatura e sexo) onde a fruição importa mais do que originalidade. O objetivo da literatura é enriquecer o mundo mental do leitor, e não fazer o autor subir no ranking do que dá para medir.



Fui criado numa casa onde se contavam muitas histórias, e dos quatro filhos dos meus pais pelo menos dois foram inoculados com o vírus. Tem histórias, ouvidas na infância, que lembro até hoje.  Tenho medo de botar num livro e aparecer na mesma hora um crítico provando que acabei de plagiar Paulo Setúbal ou Francisco Marins ou Karl May. Todas as histórias já foram contadas a esta altura, mas como elas são milhões, há sempre um leitor que está lendo aquilo pela primeira vez – e é para ele, sempre, que escrevemos.



Minha irmã Clotilde Tavares lançou agora O Monstro das Sete Bocas (Ed. Jovens Escribas, Natal), um romance de histórias encapsuladas, umas dentro das outras. Um subgênero que vem das Mil e Uma Noites, através, creio, das Mil Histórias Sem Fim de Malba Tahan. Nesse livro, ela conta as aventuras de vários personagens que, a certa altura da própria Demanda, fazem uma pausa para “contar um acontecido”, uma historieta que ilustra algum princípio moral ou faz revelações sobre uma pessoa, sobre um lugar. Nessa dinâmica, o texto fica parecendo aqueles quadros barrocos onde há um quadro-dentro-do-quadro.


É assim que sabemos como D. Ana Francisca, mulher de Renovato, ficou cega; eles recebem em sua fazenda no Cariri paraibano a visita do poeta errante Samuel Romano, que lhes conta a história de Juvenal, que enfrentou o famoso monstro da Caverna das Sete Bocas, o que conduz Renovato e Samuel a uma nova aventura. No seu livro anterior desta série, A Botija (Editora 34, 2003), ela reconta (no meio do romance) a história do Pavão Misterioso. Neste, os personagens cruzam a certa altura o País de São Saruê. Existe uma continuidade inconsútil entre os reinos encantados do cordel e os feudos desencantados onde moram os leitores dos folhetos. O seu mundo é um só, entrar numa dessas histórias é entrar em todas. Estão ligadas por túneis antiquíssimos e em ótimo estado de conservação. É através deles que o mundo das histórias se comunica, se realimenta e se perpetua. Fica longe das vistas dos leitores, que trafegam pela superfície sem ver as passagens subterrâneas que fazem do rico palácio e da pobre cabana dois aposentos diferentes de uma só construção.

sábado, 16 de maio de 2015

3816) 5 teimosias (17.5.2015)










Lionel Shenanigan, 37 anos, irlandês, tipógrafo. Adormeceu uma noite, dormiu até tarde, ressonando saudável, feliz da vida. Começou a ter um sonho e decidiu que queria ficar morando naquele sonho. Fincou pé e não saiu. Os vizinhos deram estimulantes, cafeína. A família continua fazendo barulho, sacudindo ele, “pai, acorde, o senhor está dormindo há cinco dias”, e ele reagindo, “sai, sai, me deixa sonhando, se me acordarem eu dou-lhes uma surra que nenhum de vocês vai achar de novo o caminho de casa”.



São Cireneu de Éfeso (séc. VI d.C.). Criou uma argumentação lógica irrespondível onde demonstrava a existência de Deus, e muitos estudiosos visitaram a abadia onde habitou, para debater com ele e tentar demonstrá-lo em erro. Da fórmula de S. Cireneu restam numerosas versões, todas incompletas, todas insatisfatórias. Ele a sustentou com três gerações de sábios da Cristandade, e suas últimas palavras foram: “Deus prefere a clandestinidade”.



Matilde Castellani, dona de boate, 67 anos, em algum lugar do interior paulista. Viveu na Amazônia até os trinta, e foi de lá que trouxe um óleo rejuvenescedor, o qual talvez não fizesse efeito nas numerosas clientes a quem ela o vendia, mas fazia efeito nela, que explicava: “Com isso você só envelhece até os 50 anos, aí no ano seguinte você faz 51 mas seu corpo faz 49. Com mais um ano, sua idade é 52 mas seu corpo vai a 48... Eu estou com 67 e um corpo de 33.” Isso tinha uma lógica irrespondível, e lhe rendeu uma grana que deu para comprar a primeira das oito buates.



Sandinho, 8 anos, baiano de Salvador. Fastioso e cheio de luxos com comida, um dia a mãe perdeu a paciência no almoço e disse: “Você só levanta dessa cadeira quando terminar seu prato”.  Choque de vontades, braço-de-ferro entre dois gigantes turbinados, e 48 horas depois já havia van de TV na porta da casa e a aposta virou um reality-show que a cidade acompanhou em tempo real, até que representantes da Cúria Metropolitana, do Ministério Público e da Prefeitura costuraram um armistício que permitiu a ambos sair daquilo com a pose intacta.


Casmiro, 28 anos, camisa 10 e capitão do time do Paradaisinho, de Paradaisópolis. Na reta final do campeonato, reunião com comissão técnica, diretores, alguns amigos escolhidos a dedo, para a estrela do time se sentir à vontade. O veredito técnico: nos últimos oito anos e mais de quinhentos jogos, ele bateu onze pênaltis com o pé direito, e converteu nove; e bateu quarenta e oito pênaltis com o pé esquerdo, e converteu vinte e um. Casmiro deu razão a todos, pediu desculpas, e na decisão do campeonato, quando chegou sua vez na série decisiva, ele meteu o pé com toda confiança.




sexta-feira, 15 de maio de 2015

3815) "Os Outros" (16.5.2015)



Estou coordenando, para a Escola de Cinema Darcy Ribeiro (Rio de Janeiro) uma Mostra do Cinema Fantástico, com filmes todos os sábados às 14 horas, entrada franca. A escola fica na esquina da Rua 1º. de Março com Rua da Alfândega, pertinho do CCBB. (Após a sessão, neste sábado, haverá debate com o prof. Sérgio Almeida.)

Hoje, sábado 16, será exibido Os Outros(“The Others”, 2001), de Alejandro Amenábar, o mesmo diretor de outro curioso filme fantástico, Abre los Ojos (1997), depois refilmado nos EUA como Vanilla Sky (de Cameron Crowe).

As histórias de casas mal assombradas não devem ser uma exclusividade nossa. Acho que toda cultura, em geral, examina a hipótese da sobrevivência da alma humana após a morte. Uma primeira divisão, portanto, seria entre as culturas que não admitem nenhuma forma de vida após a morte (morreu, acabou) e as que a acham possível. Entre estas, haveria uma segunda divisão, entre as que acham que a alma vai embora para sempre, cumprir seu destino espiritual, e as que acham que a alma pode voltar em algumas circunstâncias, ou é por algum motivo impedida de abandonar seu ambiente físico.

É no meio desta última crença que podemos situar a origem das histórias de casas assombradas, porque na esmagadora maioria destas histórias a assombração consiste em variadas formas de resíduo espiritual de pessoas que viveram ou morreram ali, ou que de alguma forma ficaram presas àquele espaço.

Eu sou dos que não acreditam em nada disso, embora me disponha a mudar de opinião no dia em que eu vir alguma coisa convincente. (Sou um cientista. Cientista não discute com fatos. O problema é que certos tipos de fato só acontecem com quem não é cientista.) As histórias de casas assombradas são, para mim, metáforas da mente humana. Aquela casa é um crânio, um cérebro. É lá dentro que estão aparecendo coisas que se recusam a morrer, a ir embora.

Os Outros (The Others) é um filme tenso, primorosamente fotografado, e que usa os espaços internos da casa como o principal vetor de inquietação para o personagem, a câmera, o espectador; uma lição de clássicos como Os Inocentes (1961) de Jack Clayton ou Desafio ao Além (1963) de Robert Wise. A “casa nova onde a família vai morar” é um espaço hostil, misterioso, cheio de ameaças. Quando a câmera se põe em movimento por dentro dela, basta isso para produzir o aperto no peito. É um filme de suspense sobrenatural com uma reviravolta final do tipo puxada-de-tapete. Como se alguém estivesse avisando, aos céticos que duvidam dos fantasmas: “Os vivos precisam aceitar que os mortos estão entre nós, e aprender a conviver com eles”.





3814) Ser professor (15.5.2015)



Uma lojinha estreita, de uma porta só; uma tenda. Não a tenda “barraca de acampamento”, mas a tenda que é um quartinho instalado no rés-do-chão de um sobrado ou de um edifício de poucos andares sem elevador. Um pé-de-escada espaçoso e com pouca circulação de gente.  Em certa década, um rapaz de bigode preto começou a usar aquele espaço para prestar pequenos serviços de consertador de alguma coisa: sapatos, relógios, motocicletas, tudo que na vida humana precisa de manutenção e reparos. O mundo pisca um olho, e anos depois quem atende ali já é um velho de barba branca.

Ser professor é um pouco assim. (Claro que tem o outro lado, o rosto solar, a faceta operística, o viés peroratório do magistério. Quem não gosta de auditório cheio? Duzentos clientes, todos precisando de pelo menos meio ponto!) Mas tem o lado lunar do professorado, que é justamente o que na minha utopia (este é um conto de ficção especulativa) eu chamo o “professor de tenda”.

A tenda pode ser em qualquer canto. Centro da cidade, ou transversal da avenida principal do bairro. Ele está ali sentado, às três da tarde, botando meia sola num calçado qualquer, quando chega um casal de alunos, ele indica uns tamboretes, os dois sentam. Precisam fazer um trabalho, o assunto é tal e tal. O mestre escuta, a boca segurando os pregos que os dedos recolhem de um em um, enquanto ele martela a sandália feminina em decúbito. No último prego ele pigarreia, manda gravar, pronuncia meia dúzia de títulos, números especiais de revistas, edições específicas. Dá o email para acompanhamento da consulta. Erguem-se todos, ele busca a maquininha, a moça passa o cartão, guarda o recibo – hesita – sorri – tira um livro da bolsa: “O senhor podia assinar pra mim?”.  “Claro,” diz ele, abre o livro devagar, dá uma risada: “Você é como eu, não é? Lê sublinhando.”

Na parede desse professor há um quadro-negro tipo tabela, com a lista dos serviços, e a lista dos preços, que nunca sobem mais do que o necessário. Um metalinguístico calendário-de-oficina com Rose di Primo no auge. Um cartaz (original) de filme, renovado toda segunda-feira. Há um espelho com uma foto recente dele pregada bem no centro. Um alvará caligrafado por Steinberg. Um termômetro e um barômetro solidariamente lado a lado. Uma vitrine (o casal quase não se desgruda dali) com alguns manuscritos dele, e primeiras edições.  Uma telona digital, ladrilhada em quatro: noticiário via cabo, browser, canal Classimovies e uma fractal em loop, bem repousante. Um assum preto digital cantando preso noutra telinha. O diploma de professor emoldurado. A flâmula com o escudo do meu time do coração.




quinta-feira, 14 de maio de 2015

3813) "Ensaio sobre a Cegueira" (14.5.2015)



Este romance de José Saramago, de 1995, lembra O Dia das Trífides de John Wyndham, cuja tradução foi publicada em Lisboa em 1962, na Colecção Argonauta. Há quem lembre também “A escuridão”, conto de André Carneiro (1963), que incluí na minha antologia Páginas de Sombra (2003). Todas essas histórias de “a humanidade ficou cega” percorrem caminhos parecidos, às vezes previsíveis, inevitáveis, pois as situações são basicamente as mesmas.  O que importa é o que cada autor consegue extrair delas.

Saramago mostra uma cegueira que é branca. Não uma cegueira de trevas, mas de luz, que lembra o testemunho de Jorge Luis Borges: “O preto é uma das cores que fazem falta a um cego. (...) Para mim, que estava acostumado a dormir no escuro, foi bastante incômodo, por muito tempo, ter que dormir nesse mundo de neblina esverdeada ou azulada e vagamente luminosa que é o mundo do cego.”

O núcleo de personagens principais se cria em torno do episódio inicial. Um homem fica cego ao volante; outro conduz seu carro e o deixa em casa, mas logo em seguida rouba o carro do que ficou cego, e mais adiante cega também. O “primeiro cego”, como passa a ser chamado, vai se consultar com um oftalmologista, e este consultório será o centro de propagação da cegueira, porque atinge os demais pacientes, todos com algum problema nos olhos: a rapariga de óculos escuros (como se trata de uma garota de programa, o termo português não destoa), o velho com a venda no olho, o menino estrábico.  Guiados pelas mulher do médico, que por alguma razão não cegou, são eles a constelação de luzes apagadas que iremos seguir até o capítulo final.

O livro não diz nenhum nome próprio: nem de pessoa, nem de lugar, nem de produto. É mais uma tentativa (tem havido muitas, ultimamente) de romance que evita dizer onde se passa. Ouvimos falar em prédios, consultórios, supermercados, quartéis, praças, e não vemos um nome sequer. Tudo que se conta neste livro (e que automaticamente visualizamos em Lisboa, por ser português o autor) poderia ter acontecido em Campina Grande.

Os primeiros cegos são trancafiados num manicômio desativado, e ali seguem-se episódios de sujeira e violência que lembram o Anjo Exterminador de Buñuel, lembram as memórias de campos de concentração. Saramago é um escritor de viés pessimista, chamado de “sal-amargo” por mais de um resenhador. O mais admirável é o modo como ele consegue tornar plausíveis, numa situação espantosa e desumanizadora como esta, os pequenos gestos de solidariedade dos seus personagens. As pequenas coragens, pequenas compaixões, compreensões e gentilezas: as últimas coisas humanas que se extinguirão.






terça-feira, 12 de maio de 2015

3812) O que é ser analfabeto (13.5.2015)



Um amigo meu passou uma semana no Japão. “Descobri o que é ser analfabeto,” disse ele. Pensou que tudo lá tinha letreiro em inglês, mas tem muito pouco. “É terrível você ficar olhando aqueles insetozinhos escritos, saber que aquilo significa alguma coisa, mas não ter nenhuma pista. Nunca senti tanta falta das linguagens ideográficas, como os hieróglifos, onde pelo menos a palavra passarinho parece um passarinho”. Ironia maior pelo fato de que o japonês começou como linguagem ideográfica, mas foi se sofisticando. Hoje, alguém pra ler precisa ser alfabetizado.

Viver numa cidade grande e não saber ler é como ser jogado no mar com os braços amarrados. Em “Um Assassino entre Nós" ("A Judgement in Stone", 1977), Ruth Rendell conta a história de uma empregada doméstica inglesa que, por motivos variados, nunca se alfabetizou e chegou à idade adulta sem que ninguém percebesse essa deficiência. Numa infância desorganizada pela guerra, Eunice Parchman trocou várias vezes de escola, interrompeu os estudos, e durante a adolescência seu objetivo não era mais aprender a ler, e sim esconder que não sabia. E (diz a autora) a vantagem de ser analfabeto é que o indivíduo adquire uma excelente memória visual e se força a ser capaz de lembrar de tudo. Povos inteiros fazem isto desde que o mundo é mundo.

Uma velha piada apócrifa diz que Rui Barbosa saiu de casa às pressas, esqueceu os óculos, e ao chegar à rua São Clemente perguntou a um homem humilde, na calçada, que bonde era aquele que estava se aproximando. O homem respondeu: “Desculpe, eu também não sei ler”. Quem não sabe ler geralmente alega “um problema na vista” e pede para alguém lhe repetir em voz alta bilhetes, recados, tudo. Aprende a distinguir os números, acostuma-se a reconhecer palavras nas placas e letreiros públicos, mas não conseguiria reproduzi-las com lápis e papel, se lhe pedissem. Vive (diz Rendell) “numa misteriosa e sombria liberdade feita de sensações, instinto, e ausência da palavra impressa”.

O analfabeto que precisa esconder sua condição vive num estado permanente de alerta, porque de um instante para outro podem tentar obrigá-lo a decifrar alguma coisa; precisa de um repertório permanente de desculpas, evasivas. Acostuma-se a perguntar. Cultiva fama de distraído, esquecido. Conversa pouco, para que lhe façam menos perguntas. Diz Ruth Rendell: “O hábito de se isolar estava entranhado nela; não era mais consciente. Todas as fontes de calor humano e gestos de afeição e de entusiasmo tinham secado. O isolamento era algo natural agora, e ela não entendia que aquilo começara quando ela começou a se afastar da palavra impressa, dos livros, das coisas escritas à mão”.