quinta-feira, 27 de novembro de 2014

3669) O Inferno é um rehab (27.11.2014)



(ilustração de William Blake para a Divina Comédia de Dante)

Numa entrevista concedida certa vez a Geneton Moraes Neto, Ariano Suassuna falou sobre o assassinato de seu pai João Suassuna (morto de emboscada numa rua do Rio, por um pistoleiro a mando de líderes políticos adversários).  Sabendo que estava jurado de morte, João deixou uma longa carta para a esposa e os filhos, dizendo que era inocente do crime de que os inimigos o acusavam (de ter ordenado ou incentivado o assassinato do governador João Pessoa), e dizendo: “Se eu for morto, não se vinguem. Não se tornem assassinos por minha causa.”

O assassino foi condenado a quatro anos e cumpriu dois; viveu até uma certa idade, e houve uma época em que morou a poucos quilômetros de onde viviam a viúva e os filhos da vítima, a esta altura todos adultos. Inquirido pelo repórter, Ariano admitiu que passou a vida dividido entre essas duas forças opostas, a possibilidade de vingança (e, de acordo com um certo código sertanejo, a obrigatoriedade moral da vingança), e do lado oposto a serenidade do pai e a firmeza da mãe.  E ele diz a certa altura: “Eu já cheguei a rezar por ele”.  Geneton pergunta: “E o que falta para perdoá-lo?” Ele diz: “Sentir por ele o mesmo que sinto pela minha esposa, meus filhos, meus amigos”.

Ariano tinha essa angústia moral dostoievskiana diante da face torva do mundo. Diz ele na entrevista que considera o inferno como uma parte mais profunda do purgatório, um lugar de expiação, onde as almas sofrem uma purificação pelo sofrimento e de onde um dia podem emergir, redimidas.  “Eu me recuso a acreditar na eternidade do inferno,” diz ele na entrevista. “Isso seria um absoluto, e absoluto só Deus. E hoje, depois de pensar muito anos, eu diria que estou me aproximando do perdão, porque se dependesse de mim a permanência dele no inferno, eu diria: pode sair.”

Tenho uma formatação mental diferente, não acredito em inferno nem purgatório. Uso esses conceitos como parâmetros, porque são da nossa cultura e determinam as ações de muita gente. Sempre achei que, nesses termos, quando o cara vai para o inferno é uma queda sem volta, mas entendo também essa concepção de um inferno apenas temporário, um purgatório para as almas mais encardidas. O inferno é o “rehab” das almas recalcitrantes.  E me comove pensar que, pelo menos em vida, as vítimas sofrem mais do que os criminosos, porque estes, muitas vezes (assassinos, estupradores, etc.), não se arrependem, não estão nem aí.  Dão risada.  São as vítimas (algumas delas) que sofrem por eles.  Sofrem por terem sido maculadas pelo Mal, purgam dentro de si sua tragédia, acabam se purificando e se engrandecendo para poder neutralizar o Mal que as tocou.





quarta-feira, 26 de novembro de 2014

3668) "Teia de Cordéis" (26.11.2014)



Este catálogo-livro foi editado pela Fundação de Cultura Cidade do Recife (2013) para acompanhar a exposição homônima de folhetos de cordel, que esteve em cartaz de março de 2011 a maio de 2012, no Museu de Arte Popular (MAP) do Recife.  A exposição foi dividida em duas partes: “Cordéis Portugueses” (da Coleção de Arnaldo Saraiva) e “Cordéis Brasileiros” (da coleção de Maria Alice Amorim), com curadoria dos dois pesquisadores para a primeira parte, e de Alice Amorim para a segunda. Cabe aos dois, também, a redação dos textos do volume, que examinam e comentam o material exposto.

O livro, com 236 páginas, é um pequeno primor de projeto gráfico, com reproduções de mais de 240 capas, folhas de rosto ou páginas avulsas de cordéis, incluindo também algumas das chamadas “folhas volantes” com poemas impressos de um só lado, usadas tanto lá quanto cá. A reprodução de capas de cordéis, quando é muito boa (como neste caso) revela com clareza as cores exatas das tintas, sua tendência ou não a borrar, a textura do papel, sua aspereza ou lisura, sua tendência a escurecer e se esfarelar nas bordas.  As publicações portuguesas aqui reproduzidas mostram com perfeição, em obras dos anos 1600 ou 1700, as manchas e ondulações do original, a finura das capas deixando transparecer o que há impresso pelo lado de dentro, o desalinhamento eventual dos tipos.  Tudo isso conta; tudo isso revela o trabalho e as condições de trabalho de quem os produzia.  O aspecto editorial dos folhetos é tão rico e fascinante quanto o seu aspecto propriamente literário.

E há a questão recorrente do quanto o cordel brasileiro é uma mera expansão do corpus temático do português. A filiação dos dois me parece clara, e clara também a descoberta de novos territórios que aqui se fez, até porque nosso cordel atual vive numa sociedade mais complexa em possíveis temas, em possíveis abordagens, em novas atitudes mentais e criativas que seriam impensáveis num Portugal (e mesmo num Brasil) de 1800. Se Portugal como país é o caso de uma sociedade que deu origem a outra maior e mais complexa que ela mesma, acho que o mesmo pode-se dizer de sua poesia popular impressa, o que não a desmerece, pelo contrário.  Ali estão as sementes, o DNA: o restante se deve à evolução independente que a criatura tomou, sua força de falar com voz própria, de recriar com uma estética própria uma poética e uma tecnologia editorial herdadas.  Essa justaposição do cordel lusitano e brasileiro mostra a personalidade distinta de cada um e a criatividade de ambos, a decantação poética que ambos produziam e produzem no meio social que os escreve, decora e recita.


terça-feira, 25 de novembro de 2014

3667) O retrato com Vovó (25.11.2014)


Ninguém dormiu direito naquela noite, era um aperreio de gente chorando pelos cantos, a casa toda acesa, gente indo e voltando, as pessoas cochichando e pisando na ponta dos pés. E nós três no quarto, cada um na sua caminha, tentando escutar tudo através da porta fechada. De vez em quando um da gente chorava, quando ouvia mamãe chorando. Papai ia e vinha, dando instruções, com aquela voz mais baixa e mais grossa, que não dava vontade de chegar muito perto dele. O cansaço era grande e eu pelo menos acabei cochilando.

De manhã ninguém foi para o colégio, mas nem isso adiantou, eu preferiria ter um dia igual aos outros, o café com cuscuz e tapioca, a farda, a bolsa, o ônibus, o empurra-empurra no pátio, as turmas formando sob os berros do fiscal (“Menores na frente! Maiores atrás! Braço estendido, tocando com a mão esquerda no ombro do companheiro à frente!”), e depois as turmas sendo liberadas de uma em uma, marchando rumo à sala de aula que cheirava a óleo de peroba.

Não foi nada disso, passou a hora da aula e a gente não teve coragem de levantar da cama. Dava para sentir o cheiro do incenso aceso no quarto ao lado. Minha tia girou a chave na fechadura, entrou e mandou a gente se aprontar. Lavamos o rosto e sentamos na mesa da cozinha. Lá de fora vinha um barulho de vozes de homens entrando em casa, carregando alguma coisa comprida e pesada, meu pai bradando instruções.  Tomamos café com pão-com-manteiga e só, e minha tia nos levou de volta para o quarto. Nenhum da gente teve coragem de perguntar nada.

Mais tarde ela voltou. Fez cada um de nós se vestir como em dia de missa, penteou os cabelos da gente com um pente molhado na torneira, ajudou a dar o laço no sapato, fiscalizou as orelhas e mandou esperar.  Esperamos. Vieram e nos levaram para a sala, que cheirava a flores.

O caixão estava pronto, do lado oposto à janela. Na parede maior tinham afastado os outros móveis e Vovó estava com o vestido que usava no Natal, sentada na poltrona encostada à parede, com as mãos pousadas no colo, o retrato de papai e mamãe por cima dela. Tinha os olhos fechados e o rosto pintado de maquilagem, estranho, porque há muito tempo que ela não se pintava mais. Meus irmãos ficaram em pé de um lado, eu, o mais velho, fiquei do outro.  No meio da sala, o fotógrafo, Seu Sóter, amigo de papai, mandou que a gente levantasse mais o rosto. Empunhou a máquina, ergueu a lâmpada, e um instante antes do relâmpago eu virei o rosto para vovó, e vejam o que é criança, juro que ela abriu os olhos, piscou pra mim aquele olhinho bem azul dela e disse baixinho: “Deixei um livro pra você embaixo da imagem de São Jorge.” E não é que eu achei?!




domingo, 23 de novembro de 2014

3666) Gregory Rabassa (23.11.2014)


Terminei de ler este livro pequeno, leve, escrito com a pena num idioma e a tinta em outro.  São memórias e relatos de Gregory Rabassa, que traduziu para o inglês obras como Rayuela de Julio Cortázar, Cem anos de solidão de Garcia Márquez, Brás Cubas de Machado, A Maçã no Escuro de Clarice e Avalovara de Osman Lins, além de outros títulos de peso. A capa cita uma frase de Márquez chamando Rabassa “o melhor escritor latino-americano no idioma inglês”.  Harry Ingham, um amigo meu da Califórnia, dizia que tinha vontade de aprender a escrever em espanhol só para ser traduzido ao inglês por Rabassa.

O livro é If This Be Treason – Translation and its Discontents – a Memoir (NY: New Directions, 2005). Tem uma parte introdutória de umas 50 páginas onde ele fala de si, relata sua carreira, etc. Na segunda parte, cada capítulo é sobre um autor que ele traduziu; são 31 capítulos.  Rabassa discute detalhes do processo de tradução, mas, como o livro se dirige ao leitor dos EUA, a maior parte dos comentários é para dar uma idéia de quem são esses autores nos seus países de origem.  Assim como eu não tinha idéia de quem fossem Demétrio Aguilera-Malta ou Luís Rafael Sanchez, deve haver quem não conheça Vinicius de Moraes ou Dalton Trevisan.

Rabassa tem ascendência latina, já que seu pai era cubano, e o estudo do espanhol (e do português, mais adiante) não foi uma mera estratégia de escolha de nicho acadêmico. Teve um papel afetivo, era um alargamento de um universo cultural que já lhe pertencia. Ele acabou traduzindo por necessidade, e menciona a revista literária Odyssey, da qual participou bem jovem, depois de formado.  A revista (que só produziu seis números) era de amigos seus, e seu trabalho consistia em ir para as bibliotecas remexer nas revistas literárias em espanhol e ver o que estava rolando de interessante.  Dessa maneira, disse ele, a revista publicou textos de numerosos autores desconhecidos àquela altura mas que depois se tornariam grandes, como Nélida Piñon.

Um dos comentários mais interessantes dele é sobre o seu hábito de traduzir um livro à medida que lê. Em vez de ler tudo antes, anotar, pesquisar, e só depois sentar para digitar o texto, ele vai lendo e digitando, lendo e digitando.  Eu já traduzi assim, mas não dá certo com qualquer livro; para alguns, é preciso saber de antemão para onde está indo a narrativa.  Mas ele traduziu assim alguns dos livros mais complexos e densos de nossa literatura, e todos os trechos que conferi me parecem muito bons. Talvez a identificação de pensamento com o autor (como ele tinha com Cortázar, p. ex.) conte pontos nesse processo.




sábado, 22 de novembro de 2014

3665) Gritos na noite (22.11.2014)



(foto: Diego Martins)

Quando vai se reduzindo o bradar das cornetas e das buzinas, o espoucar dos fogos, o estalo dos rojões, uma brecha de silêncio espreita o sono noturno da cidade, onde nunca existe silêncio completo. E aquele rumor distante então retorna, como o sol brilhando por trás do céu enevoado. Aquele som antigo que nos corrói a alma como uma corrente de água gelada. Quantos já foram embora daqui por não aguentar mais o alarido desse sofrimento anônimo e sem rosto. Ruas inteiras de casas fechadas, prédios abandonados com um X de tábuas em cada janela, bairros onde o mato já toma conta. Rumaram todos com sacos às costas ou malas na cabeça para a rodoviária, para a estação do trem ou para a estrada apinhada de carroças, migrando, fugindo, deixando para trás a cidade das noites insones, das noites atravessadas com o coração em frangalhos e os ouvidos tapados com algodão inútil.

Alguém dirá: Ir embora?! Mas que preço barato a se pagar, em troca da paz, do silêncio, do sono de janelas escancaradas, do passeio a pé madrugada afora. Sim, mas aqui só ficam mesmo os que já nasceram ouvindo esses gritos, e que, por mais que chorassem por eles e fossem punidos por não suportá-los, acabaram aceitando-os, tornando-se deles, tornando-os parte de si.

Eles variam. Ou é uma voz de homem sofrendo uma dor intensa ou uma voz de mulher idosa lamentando uma dor antiga. Crianças infelicitadas por gente sem coração. Uma multidão, durante horas, rugindo de terror diante de algo gigantesco e indecifrável, ou a voz abafada, lamuriosa, de alguém que pedia, pedia uma coisa, uma coisa que ninguém no mundo tinha condições de lhe dar.  Cada noite um contracanto e um cânon de vozes diferentes, cada qual se erguendo na escuridão como uma navalha, cortando devagar a carne da alma.

Quem grita?  Ninguém sabe. Antigamente mal se erguia um grito desses e uma expedição saía, avenida afora, com lanternas e cordas, prece de exorcismo nos lábios e autorização judicial nas mãos. O grito, como um arco-íris ou um horizonte, nunca estava no local quando eles chegavam.  Como se sua aproximação empurrasse para longe essas almas que uivam, essas presenças penadas que reclamam alguma coisa sem palavras e sem mensagem, um resíduo sonoro de algo que deixou de ser humano, virou esse som sem corpo, como um vento que se esgueira através de uma fenda e produz um silvo, um chacoalho, um rugido, uma vibração física causada por algo que não é físico.  Foi assim que os cientistas nos explicaram tudo, antes de guardarem os óculos, fecharem a pasta, apertarem nossa mão e voltarem para o helicóptero que se ergueu no ar com seu ruído ensurdecedor e os levou embora também. 



sexta-feira, 21 de novembro de 2014

3664) Na Biblioteca (21.11.2014)



Não costumo encher esta coluna com relatos autobiográficos. Isto aqui não é uma coluna social, embora tenha algo de coluna socialista. Pode ser vista também como uma coluna vertebral ou espinha dorsal da memória, em que os elementos vão se encaixando uns aos outros como vértebras, ou como vagões de trem. Não importa o símile, desde que o resultado seja longo, firmemente encaixado, e flexível.

Resumindo: dias atrás estive em Belo Horizonte para fazer uma palestra no Circuito Literário da Praça da Liberdade. O detalhe é que a palestra foi na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, que fica ao lado do Palácio da Liberdade.  Com isto, retornei depois de 43 anos àquele edifício que teve um papel crucial na minha formação como leitor.  BH é uma das quatro cidades onde morei pra valer. As outras são Campina Grande, claro, Salvador e este Rio de Janeiro em cuja terceira margem vivo hoje a circular minha canoa.  Vivi em BH dos 19 aos 21 anos, estudando cinema na Universidade Católica (naquele prédio do lado oposto do Palácio), e morando numa pensão a 50 metros dali (não existe mais: fotografei o prédio imponente com que a gentrificação implacável a sepultou no solo).

Minhas manhãs e tardes eram passadas naquela biblioteca de enormidade borgiana (e eu ainda não conhecia Borges!).  Foi lá que tirei por empréstimo os dois primeiros livros que li em inglês, The Time Machine de H. G. Wells e The Martian Chronicles de Ray Bradbury.  Era lá que eu decifrava, linha por linha, as críticas do Cahiers do Cinéma. Foi lá que eu li (olha só que biblioteca democrática, em pleno governo Médici) Os Protocolos dos Sábios de Sião, o Minha Luta de Adolf Hitler, as Origens da Revolução Russa de Kochan, Trotsky: o Profeta Armado de Isaac Deutscher.  Lembro que nessa estante havia dois outros livros de Trotsky: Stálin, com umas 500 páginas, e Os Crimes de Stálin com 800.


Fui embora de BH e a biblioteca ficou como o quarto de Manuel Bandeira, “intacto, suspenso no ar”. Aparece de maneira fugaz no meu conto “Exame da Obra de Giuseppe Sanz”, no livro Mundo Fantasmo (que deu seu nome a este blog).  Hoje, à sua entrada, veem-se as estátuas do grupo do Encontro Marcado: Fernando Sabino, Oto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos. Era um pouco desse espírito que me iluminava, junto a Lincoln Cunha, Elizeu Ewald, Régis Frota, Paulo Sérgio Braz, Geraldo Pires, João Antonio de Paula e tantos outros amigos que o vento leva e o tempo traz de volta.  Em sua honra, tomarei um café e comerei um doce-de-leite em forma de losango, em alguma madrugada silenciosa e aberta para o futuro. 


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

3663) Conto curto (20.11.2014)




(foto: Rui Palha)

Imagine uma cidade à noite, moderna, mas centrão velho decadente de alguma capital européia.  Centrão perto do cais do porto, onde esta rua aqui está deserta e na próxima tem dez bares cheios.  E imagine um sujeito andando apressado, não como quem foge de alguém, ou está com medo que alguém surja de uma sombra e o esfaqueie; mas como alguém que está um pouco atrasado para um compromisso mas está tranquilo, já recalculou seu tempo e sabe que naquele passo chegará na boa.  O homem anda, passa por arcadas vistas de baixo para cima, cruza pela faixa um asfalto molhado e brilhante, atravessa becos onde só se veem latas de lixo e o onipresente gato filmando tudo com os olhos.

O homem está avançando pela rua e agora está sendo visto de dentro de uma sala no quarto andar de um edifício vetusto e exuberante, como um hotel decandente para aristocratas que há vinte anos não consegue reformar suas instalações.  São dois homens de roupa escura e uma mulher com uma taça na mão.  Lá vem, diz um deles, atraindo a atenção dos dois, que conversavam em voz baixa.  O homem junto à janela tem os olhos de um demônio e o cavanhaque de um impostor.  O homem mais jovem é enorme, tem a barba por fazer, exibe um coldre-de-arma em diagonal no peito.  A mulher, bem, a mulher é a única coisa que eles dois enxergam, e essa foi a tragédia dos três.

O homem veio, a porta do edifício foi aberta, ele subiu os quatro andares, bateu à porta.  Abriram e ele se deparou com o trio: a mulher sentada bebericando seu gimlet, o homem mais velho de braços cruzados junto à janela, o grandão armado fechando a porta às suas costas.  Ele cambaleou, caiu de joelhos no meio da sala e recitou um soneto de Shakespeare.  Foi percorrido por um estremeção, tombou, e pareceu desacordado por algum tempo.

“Recebeu o implante dez anos atrás: este endereço, o texto, tudo", diz o homem mais velho.  "Mora a seis mil km daqui, e gastou tudo que tinha para cumprir essa missão sem sentido que lhe impusemos.”  O recém-chegado dormia, ressonava sonoro e largadão. O homem armado estava perplexo. “É hipnotismo?”  “Não,” disse o outro, “é uma recriação high-tech disso. Funciona com senhas.”  “Números?”  “Não,” foi a mulher quem respondeu. “Palavras.”  Virou-se para o mais velho e disse: “Vercingetórix em Mohenjo Daro”.  O rosto dele amarelou e ficou tão artificial quanto o cavanhaque.  Ela disse ao outro: “Weltanschauung no Seridó”.  O homem desabou, fulminado. Ela os revistou, pegou tudo que precisava, inclusive do homem que dormia.  Olhou bem para o rosto dele.  “Dez anos e não mudou nada,” pensou ela, “e ele dizia mesmo que iria até o fim do mundo até me encontrar”.




quarta-feira, 19 de novembro de 2014

3662) Dicionário Aldebarã VIII (19.11.2014)



O planeta de Aldebarã-5 tem uma civilização influenciada pelos colonizadores terrestres.  Seu vocabulário exprime as características da natureza do planeta, e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura.  Confiram os verbetes abaixo, recolhidos, meio ao acaso, do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso.

“Canflas”: Cavernas com entradas em pontos diferentes, que servem de túnel e de atalho para os camponeses.  

“Domarb”: Rito de passagem para rapazes adolescentes, envolvendo pescaria, jejum e anamnese.  

“Sancros”: Imagens humanas como ex-votos, feitas por artesãos anônimos, e entregues a qualquer pessoa que tenha um rosto parecido com aquele.  

“Ampressim”: Prato de carne cozida com frutas, típico do inverno, com centenas de variantes.  

“Marlotch”: Criatura sobrenatural, espécie de tubarão que nada na terra, cruzando o chão sem furá-lo.

“Carandoley”: Dança folclórica de migrantes, sempre dramatizando cenas e ações de sua cultura que os locais são incapazes de compreender.  

“Perenides”:  Fontes de água gasosa que só começam a jorrar quando uma pessoa se aproxima.  

“Galfeiras”: Cestos de vime interligados, feitos de módulos conjugáveis, para levar frutas, flores, etc.  

“Mintales”: Próteses decorativas e trocáveis, para ajudar e divertir crianças que perderam membros na guerra.  

“Alanturas”: Espécie de lagartixa doméstica, muito rara, que se diz ter poderes proféticos e precisa ter seus trajetos pela casa acompanhados e compreendidos. 

“Marças”: Almôndegas apimentadas surgidas de uma tradição de comidas para afugentar pedintes importunos.  

“Nanilhos”: Combinações de anéis de acordo com o estado de espírito da pessoa naquela ocasião social específica (festa, velório, etc.).  

“Gázires”: Aves de quintal, com plumagem ampla, com variados padrões em preto e branco.  

“Trassal”: Colares com retratos de pessoas queridas, usados nas ocasiões festivas de encontros familiares.

“Cardenni”: Carteiros itinerantes que em cada casa entregam encomendas e recebem outras para entregar mais adiante. 

“Ancozul”: Lugar imaginário e utópico usado por redução-ao-absurdo para criticar o presente.  

“Varmenes”: Indícios inconscientes que uma pessoa dá sobre si mesma, e que todos percebem mas não comentam. 

“Tirvos”: Caricaturas em verso que os convivas improvisam uns sobre os outros na hora dos brindes pós-ceia. 

“Peljo”: Instrumento de metal multi-uso doméstico, para o qual sempre se tenta descobrir novas utilidades.  

“Dariones”: Condecorações que os civis se atribuem por feitos de interesse coletivo.  

“Trezun”: Divindade que em cada situação de crise encarna ao mesmo tempo os dois extremos opostos.




terça-feira, 18 de novembro de 2014

3661) A Vida e os Tempos de Valdemar Pompéia (18.11.2014)



Cap. 1 – De como Valdemar ficou devendo dinheiro à galera da sinuca, e eles o ameaçaram de uma surra. Cap. 2 – De como ele e dois amigos emboscaram o líder dos marginais e deram a surra nele próprio. Cap. 3 – De como no dia seguinte ele se gabou na cidade inteira. Cap. 4 – De como na terceira noite o sujeito retornou na companhia de mais cinco, todos armados, deu uma surra nele, amarrou-o na linha do trem, pela qual deveria passar um trem daí a meia hora, e se afastaram, e ele ficou atado sobre os dormentes, pensando: “É, agora fudeu.”

Cap. 5 – De como ele, com tempo para pensar, lembrou suas leituras de ocultismo e encantações mágicas.  Cap. 6 - De como ele ficou endividado com a galera da sinuca justamente por ter tentado clonagem alquímica de alguns cordões de ouro e relógios Rolex, que acabaram virando alumínio. Cap. 7 – De como no meio daquela babel de irrelevâncias havia fórmulas que funcionavam mesmo, e não é que Valdemar pronunciou uma delas, em autêntico desespero de causa, seis minutos antes que o trem apontasse no horizonte visível.

Cap. 8 -  De como esse encantamento é um string de sensações, palavras, imagens visuais, cheiros, etc., uma espécie de sistema numérico de Funes, só que sinestésico, incluindo como “números” (que ele deve receber e reproduzir mentalmente) notas musicais, frases inteiras, aromas, cores, padrões geométricos... Enfim.  Cap. 9 - De como, mercê desse recurso, ele conseguiu concentrar sua mente-de-baixo (liberada da vigilância da mente-de-cima, que está entretida com o ping-pong sinestésico) concentrou suas forças e retardou o trem. Mesmo. 

Cap. 10 – De como anos devem ter se passado, porque onde havia um gramado ao longo da ferrovia existem agora árvores totalmente crescidas, ele vê a uma certa distância uma agora estrada por onde agora passam automóveis, e, do lado oposto dos trilhos, o muro alto de uma casa; ele não entende; sabe apenas que está detendo o trem, está impedindo que ele se aproxime; que na linha férrea o Tempo está parado, ou pelo menos avança a passo de caracol, enquanto em redor dela o tempo flui normalmente.  Cap. 11 – De como um dia dois operários estão consertando um dormente perto dos pés dele (sem vê-lo, claro) e um deles menciona: “o Natal é na semana que vem”; e vão embora e ele se pergunta: “Sim... mas Natal de que ano?”  Nunca terá resposta.  Cap. 12 –  De como Valdemar, atado aos dormentes, vê passar minuto a minuto, ano após ano, o filme do futuro alheio, e resolve se consolar com isso da impossibilidade de um futuro seu, porque sendo invisível não há quem o liberte, mas quando encher o saco é só liberar o trem.


domingo, 16 de novembro de 2014

3660) Ser antologista (16.11.2014)


Ser antologista é viver a Escolha de Sofia de ter em mãos três ou quatro contos parecidos, de autores igualmente importantes e/ou simpáticos (às vezes amigos pessoais do antologista), e saber que só vai caber um no livro, porque se incluísse todos o fato de terem tantos elementos em comum iria apenas empobrecê-los mutuamente aos olhos do leitor.

 

Ser antologista é planejar um volume gigantesco de 700 páginas, trabalhar nele durante um ano, e depois ver que os problemas burocráticos, financeiros e jurídicos reduziram essa “antologia definitiva do gênero” a umas meras 210 páginas e olhe lá.

 

Ser antologista é, depois do livro lançado e elogiado, descobrir por acaso um conto que se descoberto antes teria virado a cereja-do-bolo, mas agora é tarde, o bolo já foi ao forno e de lá à mesa.

 

Ser antologista é ter a obscura honra de ter sido o responsável pela primeira publicação no Brasil de um cara que será grande no futuro, e achar que isso é uma pequena glória que compensa algum pequeno fracasso.

 

Ser antologista é conceber uma antologia temática em torno de quatro contos “essenciais”, passar meses escolhendo as dez ou doze histórias “acessórias”, e terminar fazendo o livro somente com as acessórias, porque uma das essenciais o autor não pôde liberar, outra a tradução ficou horrível e não dava tempo refazer tudo, outra os herdeiros estavam em conflito e não liberaram e outra, relida agora 40 anos depois da primeira leitura, revelou-se não tão essencial assim.

 

Ser antologista é escolher e republicar uma história escrita há mais de um século, e descobrir que esta é a primeira vez em que ela foi incluída numa antologia.

 

Ser antologista é passar meses à procura de uma história que use uma abordagem qualquer do tema, não encontrá-la, e depois de jogar-a-toalha nessa busca achar uma história perfeita, de um desconhecido, lida por acaso numa revista quando você pernoitou na casa de amigos e aquela revista era a única coisa pra ler antes de dormir.

 

Ser antologista é ter a sua mente e sua visão do mundo modificadas aos 10 anos de idade, pela leitura de um conto, e aos 50 anos incluir esse conto numa antologia, e ver a cara de espanto do editor, quando este sugere tirar esse conto porque o livro “já está muito grosso”, e você responde, com a brusquidão de um menino de 10 anos: “Só passando por cima do meu cadáver”.

 
Ser antologista é ouvir seu editor dizer que finalmente localizou os herdeiros de um autor obscuro, descobriu que ele ainda está vivo, e que na sua última semana de vida, aos 100 anos de idade, ele recebeu a notícia de que um conto dele ia ser publicado por uma editora do Rio de Janeiro.