quarta-feira, 1 de abril de 2015

3777) A literatura da fome (2.4.2015)



Contos de fadas não são contos onde fadas aparecem. Os contos populares ou folclóricos, como os que foram recolhidos pelos Irmãos Grimm na Alemanha, e entre nós por Câmara Cascudo, Sílvio Romero e muitos outros, podem ter alguns perfis que não têm nada a ver com o “feérico” ou com o propriamente maravilhoso. Numa entrevista conjunta com Neil Gaiman concedida à revista Locus (2002), Gene Wolfe fala sobre os livros de “bad boys”, histórias sobre garotos que aprontavam, como Tom Sawyer. Ele comenta: “Os garotos modernos não conseguem imaginar que houve um tempo em que a maioria dos garotos vivia perpetuamente faminta. Eles acordavam com fome e iam dormir com fome.”

Muita da ação incessante de algumas novelas picarescas se deve ao fato de que o pícaro está mesmo se acabando de fome, e por isto as histórias onde atua são tão animadas.  Devido à fome ele vai à luta, sofre golpes, aplica golpes, corre riscos, trai concorrentes, sacaneia quem o ajudou, tudo porque a fome assassina que sente toma precedência sobre tudo. Neil Gaiman, pegando a deixa de Wolfe, completou:

“’João e Maria’ (‘Hansel e Gretel’) conta a história de uma família durante uma grande fome coletiva, quando eles não tinham comida bastante para duas crianças e dois adultos, e lamentavelmente iam ter que se livrar das crianças. É a respeito de duas crianças esfomeadas na floresta que praticamente tropeçam nessa casa feita de pão de gengibre. A trilha que eles deixam é devorada por pássaros famintos, e eles mesmos não demoram a ser apanhados por uma mulher que vê neles uma refeição em potencial. É uma história sobre fome.”

Por isso que tantos milagres desses contos, inclusive os do cordel, têm a ver com comida. Em seu Diário da Guerra do Porco (1969) Bioy Casares fala de um personagem que dorme à noite na casa de outra pessoa, e diz que de manhã, “como nos contos de fada, havia uma mesa posta à sua espera”. A mesa posta por mãos invisíveis diante do aventureiro que entra sem licença num castelo ou mansão; a toalha mágica que basta ser sacudida e estendida para se cobrir instantaneamente de vinhos e vitualhas. A garrafa que nunca se esgota, o prato que magicamente se renova.  Para encerrar as histórias havia até a fórmula tradicional: “E o príncipe casou com a princesa, deram uma festa maravilhosa, eu fui, e quando voltei trouxe uns doces e uns salgadinhos para vocês, mas quando fui atravessar o rio escorreguei numa pedra, e caiu tudo na água e o rio levou!”  A comida é mágica, é sagrada, é trazida por um pássaro para uma torre ou derrubada por um gremlin nas águas do rio, mas é sempre uma coisa encantada em si.




3776) A política pavloviana (1.4.2015)



E assim, como quem não quer nada, chegamos a um repertório de memes variado, irresistível, capaz de produzir, numa multidão  bem estudada, reações previsíveis. Na política, p. ex., termos como “tucanalha” e “petralha” são repetidos por todos aqueles a quem interessa transformar palavras como estas em detonadores da violência irracional em A ou B. É um processo de adestramento, como aquele a que se submetem os pitbulls e outros cães de guarda: atacar sem pensar, assim que receber o estímulo longamente treinado.

Quando fornecemos a grupos em disputa não apenas motivos para que se odeiem, mas também lhes damos um vocabulário de ódio (insultos que deverão dizer, insultos que aprenderão a detectar no discurso alheio, comparações pejorativas, clichês comportamentais, etc), basta ficar observando à distância e introduzindo na redes os memes necessários, nos pontos nevrálgicos (saites mais visitados, postadores mais seguidos), sempre que for preciso. E ficou provado que é possível reger, ao longo de alguns dias, o som e a fúria de milhões de pessoas que não se conhecem umas às outras e que julgam ser dotadas de livre arbítrio.

As táticas repetem algumas do tempo da república velha: inventar apelidos, nomezinhos ofensivos ou desdenhosos, palavras tão odiadas que se tornem tabu, que se tornem senha, password, pronta para detonar em qualquer ocasião. É muito útil saber que um indivíduo vai do zero ao crime em menos de um minuto, se a palavra que ele foi adestrado para odiar for pronunciada. Chamar os adversários na política de petralha ou de tucanalha não é muito diferente de tratá-los no futebol por mulamba ou bambis. O que importa é que o nome de achincalhe seja usado e repetido até virar um meme, um mantra, um gatilho em forma de sons pronto para disparar ao mais discreto sinal do dedo de alguém.

As pessoas não questionam. Acham que aquilo se deve à raça com que sempre souberam defender suas opiniões, ao fato de que elas estão certas e as outras erradas, etc. e tal. Pessoas que não cultivam a Razão auto-questionadora sempre têm desculpas para o que fazem, por menos deliberado ou consciente que pareça ter sido. Não sabem que estão sofrendo implantes mentais às custas apenas de mera repetição do meme com variações de contexto. Impossível ouvir a frase 73 sem dar a resposta 73, impossível ver a imagem 49 sem ter a reação 49. Tudo é imposto ao estilo rajada de chumbo, o que bater bateu, não dá para prever comportamentos individuais, mas num universo quantitativo na casa das dezenas de milhões dá uma segurança razoável para que o efeito desejado seja atingido.




segunda-feira, 30 de março de 2015

3775) A lista da Cinemateca (31.3.2015)



A Cinemateca Francesa programou para o período entre 18 de março e 18 de maio deste ano uma mostra com um panorama do cinema brasileiro, desde as origens até hoje (aqui: http://tinyurl.com/pepqo5v). São 72 títulos, e uma mostra tão ampla dificilmente deixaria de mostrar alguns dos chamados filmes inevitáveis, desde pioneiros como Mário Peixoto e Humberto Mauro, passando pela chanchada carioca, a Vera Cruz paulista, o Cinema Novo, o cinema marginal, o documentário, a “Retomada”, etc.  Deixo aos diretores o chororô de “deixaram Fulano de fora”. Alguém sempre vai ficar de fora. 

Em matéria de cinema nordestino (o que inclui conteúdo, não só origem de produção) temos além dos ciclos de cangaço, etc., filmes como Cinema, aspirina e urubus de Marcelo Gomes, Cabra marcado para morrer de Eduardo Coutinho e O Som ao Redor de Kleber Mendonça Filho.  Devo lembrar também A hora da estrela de Suzana Amaral, que revelou a paraibana Marcélia Cartaxo.  O que me surpreendeu foi o grande número de filmes marginais do tempo do chamado “cinema udigrudi”, inclusive títulos obscuros como Hitler 3o. Mundo de José Agrippino de Paula e Os Monstros de Babalu de Elizeu Visconti, ao lado de outros mais estudados pela crítica, como os de Julio Bressane (Matou a família e foi ao cinema, etc.), Rogério Sganzerla (O Bandido da Luz Vermelha, etc.) e outros.

Me surpreendeu também a inclusão de filmes de Zé do Caixão.  Enquanto o cinema udigrudi, com sua sujeira narrativa, seu niilismo político e seu deboche cruel me parecem até corresponder a um certo gosto da crítica francesa, sempre achei que Zé do Caixão nunca teria por lá a mesma recepção que tem nos EUA, onde há um certo culto em torno de “Coffin Joe” e sua filmografia. A mostra parece ter sido organizada pelos pesquisadores ligados à Cinémathèque. É sempre útil estudar o modo como os outros nos estudam. O “recorte”, como se diz, já é uma forma de crítica, uma tentativa de organizar diferentes tipos de prioridade.

A crítica francesa já foi acusada como responsável por muitos cacoetes do Cinema Novo; aquilo que os franceses elogiavam num ano era repetido por muita gente nos filmes do ano seguinte. O que tanto pode ser uma coisa ruim como uma coisa boa, porque o que vale, sempre, é o resultado na tela. Acontece também com os EUA: muitas coisas boas produzidas lá eram esnobadas na terra natal e foram os franceses que souberam lhes dar valor. De Edgar Allan Poe ao jazz, muita coisa norte-americana só ganhou a estatura que tem hoje depois que os franceses assinaram embaixo. O olho francês sobre o nosso cinema pode continuar a ser uma influência positiva.


domingo, 29 de março de 2015

3774) Contos curtíssimos (29.3.2015)



(Hemingway bebê)

Sempre que falo aqui em contos curtíssimos, contos-relâmpago num mínimo de texto, cito o exemplo de Hemingway.  Numa mesa do famoso restaurante Algonquin, em Nova York, escritores debatiam para ver quem escrevia o conto mais curto, e Hemingway rabiscou num guardanapo de papel as famosas seis palavras: “For sale. Baby shoes. Never worn” (“Vende-se. Sapatos de bebê. Sem uso.”)

Textos tão compactos criam uma rede interna de relações, como um ideograma. Por que alguém venderia um par de sapatos de bebê?  E por que nunca foram usados? A explicação mais imediata é de que alguém começou a preparar um enxoval de bebê e depois desistiu, porque o bebê foi perdido. Há um pequeno drama humano nessas palavras.  E mais ainda quando, para além do realismo da situação, atentamos para a sutileza de que o “autor” do texto, certamente, são os pais da criança, e que o último detalhe (“sem uso”) é o mais doloroso, mas valoriza o produto à venda. A emoção está presente através da secura da linguagem. Basta sugeri-la, sem exprimi-la diretamente.

O saite Open Culture (aqui: http://tinyurl.com/kkoa6kz) afirma que o texto não é de Hemingway. Já existia em 1906, numa coluna de jornal chamada “Terse Tales of the Town”, um texto dizendo: “For sale, baby carriage, never been used. Apply at this office”.  Depois dessa data há várias versões, algumas se referindo a sapatos de bebê, outras a um carrinho. Há inclusive uma tirinha de quadrinhos de 1927 indicando-a como “o maior conto curto do mundo”.  (Não transcrevo todos os exemplos aqui, por falta de espaço.)  Tudo indica que Hemingway, se é que a aposta no Algonquin é verdadeira, se baseou mais na memória do que na imaginação, e de alguma forma conhecia esses exemplos mais antigos.
Isso mostra o quanto, na cultura digital, é fácil pegar um mentiroso. Já escrevi em algum lugar que não há originalidade que resista a um bom levantamento bibliográfico. A busca eletrônica pode descobrir em horas algo que levaria anos para fazer em bibliotecas, compulsando coleções encadernadas de jornais empoeirados e obscuros. O miniconto de Hemingway não perde com isso sua força literária. Ela fica até maior se considerarmos agora, podendo fazer a comparação entre as sucessivas versões, que o texto foi sendo limado, reduzido, aperfeiçoado até chegar à sua irretocável versão atual de seis palavras. O que perde é a “lenda urbana” criada em função do autor famoso. E por vias transversas acabamos batendo noutra característica da cultura digital: a mania de atribuir uma boa frase a uma pessoa famosa, na crença de que isso ajudará a propagá-la. Crença perfeitamente justificada, aliás.




sexta-feira, 27 de março de 2015

3773) "O Anjo Exterminador" (28.3.2015)



Estou coordenando, para a Escola de Cinema Darcy Ribeiro (Rio de Janeiro) uma Mostra do Cinema Fantástico, com filmes todos os sábados às 14 horas, entrada franca. A escola fica na esquina da Rua 1º. de Março com Rua da Alfândega, pertinho do CCBB. (Após a sessão deste sábado, haverá debate comigo e o prof. Sérgio Almeida.)

Para hoje está programado O Anjo Exterminador (“El Ángel Exterminador”, 1963) de Luis Buñuel, realizado no México logo depois que Buñuel, tendo passado um período de relativa obscuridade, ganhou prêmios internacionais, provocou escândalo com Viridiana (1961) e voltou a chamar a atenção da crítica. Em O Anjo..., o milionário Nobile traz para sua mansão um grupo de amigos para um jantar, após a apresentação de uma ópera. Acabado o jantar, eles descobrem que não conseguem sair do salão principal da casa, embora as portas estejam abertas. Uma espécie de bloqueio mental os impede de cruzá-las, e do mesmo modo as pessoas de fora não conseguem entrar na casa. Há uma barreira invisível, mas não é física, e sim mental.

Buñuel mostra a lenta bestialização daquelas pessoas ricas e sofisticadas (seriam chamadas hoje de “coxinhas”) quando começam a sentir falta de comida, água, sanitários. Choram, desesperam-se, trocam socos e acusações, vão aos poucos regredindo a um estágio animalesco. Trancafiados num salão aberto, em breve não se distinguem mais de um grupo de moradores de rua, sujos e famintos. Alguns começam a morrer, e os cadáveres são escondidos em armários.

Assim como o personagem de Feitiço do Tempo de Harold Ramis fica preso no trecho de tempo, os personagens de Buñuel ficam presos num espaço, sem nenhuma explicação. O interesse do diretor é mostrar o processo de deterioração física e moral de todos. Buñuel (tratei disto em meu livro O Anjo Exterminador, Ed. Rocco, 2002) traz para seu cinema influências do movimento surrealista francês dos anos 1920, do qual fez parte; da literatura de folhetim européia; do romance gótico de terror dos séculos 18 e 19.  Seu individualismo feroz o fez investir contra a Igreja, o Estado, a Burguesia, contra tudo que, a seu ver, limitava as liberdades do indivíduo.

É um filme fantástico que não sugere nenhuma explicação racional, embora os personagens comentem sem parar o que aconteceu, proponham hipóteses, tentem descobrir uma maneira de sair dali. Buñuel desdenhava explicações: com o Surrealismo ele aprendeu a importância do impacto direto das imagens absurdas e das situações insólitas, como elemento capaz de desestruturar nosso raciocínio, descarrilar o trajeto seguro das explicações preconcebidas, da lógica, do racionalismo.



quinta-feira, 26 de março de 2015

3772) A perna artificial (27.3.2015)



Era uma vez um cara que morava perto da linha do trem, e costumava ficar às vezes sentado no chão, perto dos trilhos, pensando na vida. Um dia ele estava distraído, com a perna esquerda em cima dos trilhos, e o trem passou e arrancou a perna dele.  Grande comoção na família, que se mobilizou, fez lista de doações, livro-de-ouro, o escambau, e levantou um milhão de cruzeiros (a história é antiga) para poder dar a ele uma caríssima perna artificial. Foi feito, e a vida voltou à normalidade. Uma tarde, ele estava mais uma vez sentado junto da linha do trem, desta vez com as duas pernas em cima dos trilhos. À distância, o trem apitou para avisar que se aproximava. Ouvindo o apito, ele deixou a perna de carne e osso em cima do trilho e afastou a outra, comentando: “Esta aqui me custou um milhão de cruzeiros!”.

Esta é uma das piadas mais antigas que me lembro de ter escutado. Marcou minha infância, e me fazia rir muito. Quando comecei, já por volta dos vinte-e-tantos anos, a refletir sobre o humor e os processos que ele utiliza, percebi que cada vez que pensava nela surgiram novas associações de idéias. A mais importante, acho, é que ela é uma metáfora terrível da nossa época. A gente tende a valorizar o que conquistou com esforço próprio, não o que trouxe de nascença. A gente valoriza mais a tecnologia do que a biologia, mais a civilização do que a natureza. (Um amigo já me disse: “eu cuido melhor do meu computador do que de mim”.) E com isso corre o risco de ficar sem as duas. É uma boa fábula moral para este Brasil que, segundo Glauber Rocha, “pode beber água de coco de graça, mas prefere pagar por uma Coca-Cola”.

Hoje, o que mais me chama a atenção é o mecanismo tragédia-grega de uma historieta assim. Tudo é fado, tudo é destino, e não se vê um dedo sequer de livre arbítrio nesse personagem aparentemente tão bem posto em si mesmo. Sentar com as pernas em cima de uma linha do trem é meio caminho andado para perdê-las. E quando isto acontece, pensam que o cara ficou com um trauma, uma repulsa pelas coisas ferroviárias? Não, ele continua a sentar no mesmo lugar, com as duas pernas ali, fazendo por conta própria uma reconstituição ritual do trauma, quase que implorando aos Deuses do Plot para que aquele fato espantoso se repita. Anedota não é realismo, é fabulação. Tentar interpretá-la através de motivações emocionais realistas é perdido. Há uma certa literatura (não toda, é claro) que também funciona assim. Críticos desperdiçam hectares de papel cobrando verossimilhança de personagens que são meras funções de uma história que precisa acontecer de uma maneira tão implacável quanto a aproximação de um trem.




quarta-feira, 25 de março de 2015

3771) "O Terceiro Policial" (26.3.2015)



Flann O’Brien (não era este seu verdadeiro nome) é um desses escritores fora-de-esquadro cujas obras se recusam tanto ao sucesso popular quanto ao desaparecimento. Ficam gravadas na memória de quem as leu no momento certo, e a cada geração ressurgem diante de um novo público leitor.  The Third Policeman foi escrito nos anos 1940, recusado pelos editores, e publicado apenas em 1967, logo após a morte do autor.  É uma espécie de romance policial absurdista, numa Irlanda rural onde todo mundo se locomove de bicicleta, inclusive os policiais.

Há um crime cometido logo no início que lança o narrador numa fuga, ao longo da qual ele vai dar numa delegacia de polícia que parece pertencer a um mundo de dimensões diferentes. “Ela dava a impressão de ter sido pintada em cima de um outdoor, e muito mal pintada aliás. Parecia totalmente falsa e inconvincente. (...) Eu estava vendo a frente e a traseira do prédio ao mesmo tempo, quando me aproximava dele pela lateral.”  O narrador, que não tem nome, passa então por aventuras notáveis. Desce a um subterrâneo cyberpunk cheio de encanamentos, tubulações de aço, medidores, mecanismos gigantescos. Ouve falar de uma teoria atômica segundo a qual um homem e sua bicicleta são seres híbridos, pois cada um está impregnado de átomos do outro, devido ao longo uso, tanto que em alguns crimes de morte é mais sensato prender e executar a bicicleta. Toma conhecimento de cores que não podem ser percebidas pelos olhos, e de um lugar onde o tempo não corre e a barba não cresce. Ouve a história do balão que subiu à estratosfera com um homem, e desceu vazio. Discute as teorias do filósofo De Selby, como a de que a noite não passa de um acúmulo de pó preto largado pelos vulcões ao longo do dia, e que escurece o mundo quando passa de um certo limite.

O absurdismo cara-de-pau de O’Brien pode ser encontrado em muitos dos estilistas excêntricos da FC, como R. A. Lafferty, Avram Davidson, Damon Knight (Humpty Dumpty, de 1996, lembra muito este livro), além de autores que não são da FC mas tiraram um fino nela, como Alfred Jarry, Georges Perec, Raymond Queneau, além de dramaturgos do absurdo como Ionesco e Samuel Beckett. É um livro incrustado de teorias científicas mirabolantes, num clima de filme de animação, com pequenos detalhes realistas de total verossimilhança. Entre nós, O’Brien poderia ser apreciado pelos leitores de Campos de Carvalho ou Victor Giudice, dois praticantes dessa literatura que caminha sobre uma linha de fronteira, um pé no realismo da vida material, um pé no absurdo das teorias cósmicas.




3770) "Gimme Shelter" (25.3.2015)



O ano era 1969, e Merry Clayton era uma cantora profissional de Los Angeles que fazia vocais em estúdio e na banda de Ray Charles. Estava grávida, era cerca de meia-noite e ela já estava deitada com o marido quando o telefone tocou. Era um produtor pedindo para ela dar um pulo num estúdio e fazer um vocal, coisa rápida. Ela reclamou: “Cara, já estou deitada pra dormir, não vou mais sair pra trabalhar uma hora dessas.”  O produtor insistiu, disse que seria bom pra carreira dela, e pagava bem. O marido pegou o telefone para discutir com ele, falou, ouviu, ouviu, aí desligou e disse: “Merry, é melhor você ir. Vai ser bom pra sua carreira”.

Ela vestiu uma capa e, de bobs no cabelo, foi direto para o estúdio, onde foi recebida pelos Rolling Stones, que estavam gravando “Gimme Shelter”. Quem conhece bem a música deve lembrar aquela voz feminina rasgada, lancinante, no refrão: “War, children, it’s just a shot away... Rape, murder, it’s just a shot away...”  É uma canção dark, falando da guerra, da brutalidade da época, da violência onipresente.  Sentada num banquinho (“minha barriga estava muito pesada”), ela gravou três takes do vocal, onde sua voz dobra com a de Mick Jagger, e foi pra casa.

Acho difícil traduzir esse refrão. “It’s just a shot away” significa mais ou menos “está a apenas um tiro de distância”. Seria algo como: “Pra guerra, rapaziada, só falta um tiro”. Para o estupro, para o assassinato, só falta um tiro. Só falta “um tantinho assim”. Os Stones amenizam a mensagem no final, dizendo: “Love, sister, it’s just a kiss away”: “para o amor, minha irmã, só falta um beijo”. Concessão aos tempos do “Paz & Amor”? Pode ser, mas “Gimme Shelter”, uma das canções mais fortes da banda, não ficou marcada como uma canção de alto astral, e sim como uma canção de “os tempos estão sombrios”.  Como o “Cálice” de Chico & Milton, e tantas outras dos nossos tempos de ditadura.

Aqui neste link (http://tinyurl.com/ldz24jj) é possível ouvir a música, a faixa somente com a voz de Merry, e uma entrevista de Jagger onde ele lembra o episódio. Foi bom pra carreira de Merry? Difícil dizer, mas tornou-se a performance mais famosa dela. A história, contudo, não teve propriamente um final feliz. A hora tardia e o esforço desgastaram Merry Clayton, e pouco depois da gravação ela perdeu o bebê. “Foi um período muito sombrio para mim,” disse ela, “mas Deus me deu forças para superar. Dei a volta por cima. Encarei isso como parte da vida, do amor, da energia, e desviei noutra direção, de modo que hoje não me incomoda cantar ‘Gimme Shelter’. A vida já é muito curta e eu não posso viver no passado.”



segunda-feira, 23 de março de 2015

3769) "Maldito Sertão" (24.3.2015)



Tem crescido o número de livros de contos baseados nas lendas populares, no folclore, nas histórias de assombrações e de monstros das diversas regiões do Brasil. Quando publiquei no ano passado meu livro de contos Sete Monstros Brasileiros (Casa da Palavra, 2014) , citei alguns amigos que estão trabalhando esse tipo de literatura, como Simone Saueressig, Christopher Kastensmidt e Felipe Castilho. Mitos e lendas populares têm sido sempre adaptados para livros infantis, tomando inclusive uma feição paradidática, mas o fenômeno mais recente é a produção de textos nessa linha para leitores adultos, fazendo uma interface com a literatura de terror tradicional.

Outro lançamento recente é Maldito Sertão (Natal, Editora Jovens Escribas, 2012, 2ª. Edição) de Márcio Benjamin. É uma coletânea de doze contos curtos onde surgem os “habituais suspeitos” das nossas lendas de terror e assombração: o lobisomem, o papa-figo, a porca dos sete leitões, a Comadre Fulozinha, a mula sem cabeça, etc.  As histórias de Márcio Benjamin têm narrativa ágil, com parágrafos curtos. Em sua maioria descrevem uma situação humana (uma casa, uma família, um grupo de pessoas) onde a invasão do sobrenatural se dá tanto por acaso quanto por uma espécie de maldição tipo “estava escrito”, algo que provavelmente aquelas pessoas nunca poderiam evitar.  Os desfechos são misteriosos e geralmente violentos.

Um aspecto que me agradou foi a linguagem nordestina coloquial empregada pelo autor, que reforça a textura oral desses contos. “Saiu desembestada”, “arrudiando a casa”, “velho como a fome”, “aperreados com a violência”, “buchos cheios de arribaçãs fritas”, “uma zuada seca”, “o primeiro bufete que levei, de uma ruma de outros”, “eu moro aqui faz é tempo”, “arrumadinhas como bonecas de feira” são algumas expressões que dão ao livro essa oralidade sertaneja, esse resíduo de um modo de falar e de pensar que serve de caldo fermentador dessas histórias. Sem forçar a barra da oralidade (o português é simples mas correto, sem transcrições fonéticas), essa maneira de escrever dá credibilidade literária a essas pequenas fábulas de crueldade, pecado, mistério, medo, ambição.

São histórias que não vêm dos livros, embora Câmara Cascudo e outros as tenham registrado.  Vêm da memória de infância, das reuniões na mesa da cozinha, no alpendre da casa da fazenda, em volta de uma fogueira ou de um candeeiro que recorta de luzes e sombras a imaginação de um grupo de crianças de olhos grudados na pessoa que conta os malassombros, com largos gestos de ênfase multiplicados e ampliados pela chama.




sábado, 21 de março de 2015

3768) Minha outra vida (22.3.2015)



Às vezes eu sonho acordado que sou um cara bem diferente de mim mesmo, vivendo uma vida que não parece nem um pouco com a minha. É uma das minhas formas de terapia inexplicável. Inexplicável porque se fosse uma fantasia de riqueza, orgias, farras, viagens pelo mundo, boemia, glória literária, tudo isso seria muito óbvio: estou sonhando com o que gosto e não tenho, ou tenho e queria ter em dobro. Mas não é o caso. Sonho com coisas sem graça e que não têm nada a ver comigo.

Às vezes sou um cara de 30 e poucos anos que vive sozinho numa casa minúscula. Cozinho, esquento ou peço por telefone minha comida, lavo minha roupa, faço a limpeza da casa. Minha casa tem mobília simples e pouca: poltronas, mesas, geladeira, um som na sala. Não tem uma TV, um livro, um disco sequer. Nada nas paredes além de um relógio redondo na sala e um calendário quadrado na cozinha. Eu acordo, tomo banho, faço a barba, visto calça, camisa, calço tênis. Desço uma escadinha interna que conduz à garagem. Entro no carro, sento, ligo a ignição e sinto com prazer aquele ronco profundo, possante, prometendo motor em ordem e tanque cheio. Saio dirigindo devagar pelas ruazinhas tranquilas.

Aonde vou? Não sei. Não é para o trabalho. Meu trabalho é alguma coisa que me faz passar semanas a fio longe dali; mas quando volto, volto para aquela casinha silenciosa, as ruas, os gramados. Parece uma cidade americana ou européia, mas pode ser uma daquelas cidades históricas mineiras, ou da serra gaúcha. Vou ao supermercado, ao boliche, ao cinema. Às vezes vou à noite para uma boate, bebo cerveja com alguma garota, dançamos, vamos para um quarto dos fundos.

Tenho dinheiro no Banco que daria para me manter por dois ou três anos, se parasse de trabalhar. Não tenho família nem amigos. Meus vizinhos me acenam e sorriem de longe, nunca entraram na minha casa nem eu na deles. À noite rego as plantas, faço pequenos consertos. Ou levo uma espreguiçadeira para o gramado do quintal, abro uma cerveja, fico sentindo a brisa, olhando as estrelas, bebendo devagar, sem pensar, sem lembrar, sem imaginar coisa alguma.

É uma vida vazia, uma vida sem alegria, sem prazer? Talvez seja, mas é uma vida que nunca tive nem terei, uma vida parecida com uma foto de revista, algo com cores mas sem som nem movimento. Uma vida que só o pensar nela me repousa, me descansa de mim mesmo. Como aquelas pessoas que para adormecer imaginam o fundo de um lago escuro, eu me imagino nessa vida sem gente, sem afetos, sem emoções, sem perigos, sem vitórias, sem projetos e sem medos, e o fato de ter esse lugar para onde ir de vez em quando chega a me repousar desta carga pesada de ser quem sou.