sábado, 31 de janeiro de 2015

3725) Os escritores pop (31.1.2015)



As flips, flibos, flipoços, fliportos e tantas outras festas literárias e bienais têm alvoroçado muita gente.  A imprensa achou a expressão “fenômeno midiático”. No movimento browniano em que se entrechocam as opiniões e os gostos, há duas aglomerações opostas. Há os que se entusiasmam com essa interatividade, porque seu temperamento os conduz para isto e o processo todo os favorece.  E há os que têm repulsa a um processo assim, em parte porque não foram talhados para ele, e em parte porque acham que ele favorece quem escreve mal.

O escritor deve somente escrever, arder o cérebro pela madrugada, vela no altar da Musa? Ou pode também se entregar à política literária, à vida social, organizar-se em “escolas” e “movimentos”, inventar um “ismo”, colaborar na imprensa, meter-se em polêmicas, meter-se na política, cortejar a fama? É a antiga oposição entre Gustave Flaubert e Émile Zola, dois escritores de peso, amigos, que podem até ilustrar os polos opostos dessa discussão.  Flaubert era o sacerdote, Zola era o publicitário. Machado e Alencar. Graciliano e Jorge Amado.

Henry James tem um conto fantástico, “The Private Life” (1892) que conta (entre outras coisas bizarras, machadianas) sobre um escritor famoso, encontrado pelo narrador numa colônia de férias na montanha, e que não faz outra coisa senão conversar e entreter os admiradores, fãs, tietes em geral.  O narrador sobe até a suíte onde esse autor está hospedado e descobre que ele tem um duplo, um outro corpo igual ao original, que fica se esfalfando na escrivaninha, produzindo os textos que fazem a fama do primeiro.

Eu entendo perfeitamente que alguém que não goste de falar em público ou de viajar (eu gosto).  Por outro lado, não sei se eu teria disposição para autografar 500 livros ao longo de umas três horas, como já vi pessoas fazendo. Cada um pode ter recursos ou disponibilidades diferentes  para se aproximar do público, mas isso não importa. Ser autor é escrever e publicar.  E nenhuma propaganda de livro é melhor do que a de boca em boca.

O personagem de Henry James é uma variante do médico-e-o-monstro.  É o escritor-e-marqueteiro, que surge espontaneamente em certas culturas. Quem não sabe ser marqueteiro, fique escrevendo no quarto do hotel.  O quarto vai ficar cheio de folhas manuscritas, cheio até o teto. Algumas folhas acabarão sendo empurradas para fora, por baixo da porta.  Um vento as erguerá no corredor e as conduzirá flutuando até a  rua, até uma tipografia, onde alguém, quase sem perceber, fará daquilo um livro.  Se for um livro bom, é nesse momento que o jogo começa. Se o livro é ruim, é aí que o jogo acaba.




sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

3724) O fair-play do mistério (30.1.2015)



(O "cuidado, leitor" em The Roman Hat Mystery, 1930, virou depois "Desafio ao leitor")

Alguns amigos estavam conversando sobre o filme Os Suspeitos, de Bryan Singer, aquele sobre uma quadrilha de delinquentes envolvidos com as maquinações de um gênio-do-mal, Keyser Soze, uma espécie de Fu Manchu ou de Vlad Dracula.  Não vou largar spoilers sobre o filme.  Para quem não o viu, basta dizer que é um filme que conta uma história longa e complexa, cheia de peripécias, tendo como pontos-de-vista cinco bandidos envolvidos num golpe, e o que acontece a cada um deles.  Nos últimos minutos há uma reviravolta espantosa na narrativa, quando o mistério final se revela.

A narrativa policial de mistério gira em torno disso: o mistério, a coisa estranha e inexplicável, que cabe à história solucionar.  A história de mistério não precisa ser policial: pode ser mistério com FC, mistério com horror.  Basta que haja um mistério, que o leitor ou espectador seja provocado a propor uma explicação.  O jogo dedutivo entre Sherlocks e Moriartys é o mesmo jogo do leitor, querendo adivinhar o pensamento e as intenções do autor.  Coube a Ellery Queen disciplinar esse xadrez de pistas e de suspeitas, quando criou nos anos 1930 o “Desafio ao Leitor” que interrompia seus romances. “Vocês já têm nas mãos todas as pistas que Ellery Queen usou para descobrir o criminoso”. 

O termo clássico para isso é “fair play”.  Se é um jogo entre intelectos habilidosos e atentos, é preciso jogar limpo com o leitor. Existem indícios? Então, que o leitor tenha acesso a eles, e só precisa interpretar corretamente cada fragmento de informação.  O interessante é a diferença de conceito de “fair play” no romance literário dos anos 1930 ou no taquicardíaco cinema de 2015.  No livro, a gente pode se deter, voltar algumas páginas, consultar um diálogo, checar uma data, ou seja: as pistas continuam ali onde o romancista as colocou, e o leitor volta lá quantas vezes quiser. É possível uma leitura não-linear.

Já o cinema virou um tobogã. Os Suspeitos tem um excelente roteiro, que faz um bordado complexo de peripécias e de agentes duplos, onde nunca se tem certeza de nada.  É num certo sentido um filme sobre o talento do repentista que não é poeta, mas é um contador de histórias.  Só que no cinema a projeção do filme é linear, sessão contínua até o fim. Filme de sala. As pistas passam, mas passam muito rápidas, piscou perdeu.  (Muitos diretores se comprazem em mostrar de novo tudo, no final: “olha aqui, eu mostrei bem claro...” ) Só em casa, com DVD e controles, ele vai ter com o filme uma experiência tão livre quanto a que um leitor tem com um livro; uma dimensão a mais, para poder saltar pra qualquer ponto da história.




quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

3723) O tio de Tonta (29.1.2015)




(ilustração: Leszek Bujnowski)

Tonta era na verdade Antonia, uma amiga nossa que morava perto da palhoça do “Buracão”. De vez em quando a gente ia fazer um pit-stop na casa dela antes de ir para os shows no ginásio da AABB. Tonta era uma menina ótima, topava todas, gostava de reunir a galera na casa dela para ouvir música. E ela tinha um tio que tinha a mania de tocar nas coisas com um dedo. A gente sentava na sala, uma turma de seis ou sete, ouvindo música, conversando, abrindo uma latinha de cerveja; alguns iam para um terraço lateral, para acender um cigarro sem empestar as cortinas. E daí a pouco o tio chegava.

Era um cara baixo e gordinho, irmão da mãe dela, solteirão, aposentado precoce por motivos de saúde, passava o dia ouvindo rádio e fazendo palavras cruzadas. Quando a sala se enchia de gente, ele vestia uma roupa apresentável e vinha sentar num canto, discreto, sem interferir.  Tonta dizia que ele se sentia melancólico e achava os jovens muito alegres e bem humorados.

O problema era o cacoete. De início eu não reparei (ninguém reparou), mas aos poucos fomos notando que ele levantava no meio da conversa, ia andando como quem não quer nada, aí estendia a mão, tocava num vaso sobre a mesa de centro, e voltava a sentar.  Às vezes, aproximava-se da gente para perguntar as horas ou algo assim, e tocava no ombro da gente. Só comecei a me intrigar no dia em que ele alegou estar vendo uma aranha na parede, arrastou uma cadeira, subiu nela e tocou numa foto do Led Zeppelin que Tonta tinha pregado por cima da cristaleira.

Tonta explicou que era uma compulsão.  De repente ele via uma coisa que já tinha visto mil vezes e sentia uma pressão irresistível de tocar nela. Pra que? Ele mesmo não sabia.  Sabia somente que, enquanto não tocasse, aquele comichão mental não o deixaria em paz.  Não adiantava ir para o quarto, se trancar, a coisa não passava.  (Uma vez, quando nos despedíamos à porta, ele veio do quarto correndo, tocou na mochila de alguém, e voltou correndo pro quarto.)

O que quer dizer isso?  A família já tinha assimilado aquela neura, porque vou te contar, poder assimilativo de famílias é uma coisa vasta. E afinal, todo mundo não é assim um pouco?  A gente vê um livro e não descansa enquanto não ler, ouve falar numa cidade e tem que ir lá de qualquer maneira, conhece uma mulher numa festa e não sossega enquanto não experimentar. E parece que depois que toca, desencanta. Aquela imagem vira uma realidade, perde as mil ficções que tinha sido. Vira uma coisa a mais, uma pessoa a mais, um pedaço do mundo que deixou de ser um pedaço da gente. Vira uma coisa possível, ao alcance de uma ponta de dedo banalizadora.





quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

3722) A borboleta e o filósofo (28.1.2015)


É uma das fábulas preferidas de Jorge Luís Borges. Ele a cita com frequência, faz associações de idéias entre ela e diferentes coisas.  É a história de Chuan Tzu, o filósofo que sonhou que era uma borboleta, e sonhou isso com tal verossimilhança que ao acordar já não sabia se era um homem que tinha sonhado que era uma borboleta, ou se era uma borboleta sonhando agora que era um homem.

Borges, numa das suas Norton Conferences (1967-68, publicadas em 2000) examina mais de perto essa imagem.  Diz ele que em primeiro lugar a história alude a um sonho, e basta isso para contaminar de sonho qualquer realidade que se siga. Depois, porque a escolha do animal, a borboleta, não poderia ter sido mais adequada. 

De fato, uma borboleta é um bom exemplo de criatura que sabe o que é se transformar noutra.  Note-se que Chuan Tzu não sonha que é uma lagarta, então, quando ele se imagina e se projeta como borboleta, está admitindo que sua vida como Chuan Tzu tinha sido apenas o preparatório lagartóide para aquilo. Voltar a ser Chuan Tzu seria dar um passo atrás. Como o astronauta do conto de Clifford Simak (“Desertion”), que se transforma numa criatura jupiteriana, descobre a felicidade e não admite ser restaurado como humano.

A borboleta tanto é uma criatura inquieta, que vive sempre buscando algo, como é algo que atrai os olhares e as admirações em volta.  Chuan Tzu tem, na sua dimensão lepidóptera, o dom da beleza, que talvez lhe falte no mundo de cá, onde ele é filósofo gordinho ou um calvo comerciante.  Sem falar no voo, na terceira dimensão onipresente, na leveza.  Ser borboleta era o LSD de Chuan Tzu. Imagine-se como devia ser bom, acordar nos dias pares como Chuan Tzu, dormir, acordar nos ímpares como borboleta. 

“As borboletas têm algo de delicado e evanescente”, diz Borges. Claro que outros animais poderiam servir; mas a borboleta é perfeita.  Borges argumenta com simplicidade que seria inverossímil esta história com um tigre, uma máquina de escrever, uma baleia. Nenhum desses (concordo) parece ser capaz de pensar Chuan Tzu de volta, ou mesmo de dar a Chuan Tzu uma dimensão a mais que ele não tinha.  A borboleta, por dois ou três traços apenas, já ganha de goleada.

E deve ser divertido para ela, também.  Ter braços, perna e barriga.  Um corpo que tem de ficar preso ao chão.  Lidar com objetos!  Uma aventura fascinante.  Independente do animal escolhido, essa fábula é a fábula da intercambiabilidade das consciências.  Lovecraft, Edgar Rice Burroughs, Edmond Hamilton e outros escreveram histórias sobre mentes que conseguem trocar de corpo.  Ou corpos capazes de intercambiar suas mentes.






terça-feira, 27 de janeiro de 2015

3721) "O Pedestre" (27.1.2015)



Reza a lenda que alguns anos atrás Bob Dylan foi fazer um show numa cidade tamanho médio qualquer. Chegou na véspera, instalou-se no hotel, e ao anoitecer saiu sozinho para dar uma volta no quarteirão. Era um desses bairros pacatos, casinhas simples, com gramados sem cercas etc. e tal.  Ele saiu pelas calçadas, gozando o sabor e o prazer do anonimato (coisa que não é pra qualquer um), até que um carro da polícia parou e os agentes desceram empunhando lanternas e armas. Mandaram que erguesse os braços.  Alguém tinha visto um homem desconhecido, de casaco e chapéu, rondando as casas; calafrios de alarma percorreram aquelas vulneráveis medulas suburbanas.  A rádio patrulha foi chamada, e não adiantou dizer “Sou Bob Dylan, o roqueiro.”  E daí?  Os policiais eram jovens, nunca tinham ouvido falar.  Ele levou o resto daquela noite para desmanchar o mal entendido.

S. J. Perelman, escritor e humorista norte-americano, trabalhou em Hollywood.  Numa entrevista à Paris Review, falou desse período, quando o repórter lhe perguntou sobre William Faulkner, que também mamou nas tetas no Bezerro de Ouro, por mais equívoca que seja esta metáfora. Perelman disse: “Às vezes, num domingo de manhã, ele passava caminhando em frente à casa em que eu morei, em Beverly Hills. Eu reparava nele somente porque o simples fato de sair andando, naquela área, o caracterizava como um excêntrico.  E ele acabou se metendo em complicações.  Um carro da patrulha o deteve uma vez e o fez passar um mau pedaço. A polícia estava convencida de que ele era olheiro de alguma quadrilha que roubava jóias, e estava sondando as residências elegantes.”

Um dos primeiros contos de Ray Bradbury que li foi “O Pedestre” (1951), incluído no livro Os Frutos Dourados do Sol. Nele, um homem sai caminhando à noitinha, no ano de 2053, por uma cidade onde todo mundo está trancado em casa, vendo TV. Estão desertas as calçadas. Um carro da polícia o aborda.  Ele diz que não fez nada demais, está apenas caminhando.  A polícia ordena que ele entre, e o leva consigo. “Para onde?”, pergunta ele. E a resposta: “Para o Centro Psiquiátrico de Pesquisa de Tendências Regressivas”.

O que é a ficção científica?  É a literatura que prevê o futuro?  Não.  É a literatura que olha o presente, vê o presente em movimento, vê o presente como uma forma que se avoluma, cresce, toma conta do mundo.  Presente e futuro são pontos diferentes de uma única curva. A beleza da FC é quando ela, usando apenas dois pontos, nos faz sentir a força da curva, a grandeza da curva, a ameaça terrível guardada em cada curva que se ergue à nossa frente bela como um tsunami.




domingo, 25 de janeiro de 2015

3720) A primeira geladeira (25.1.2015)



A primeira geladeira lá de casa foi comprada quando eu teria uns sete anos; lembro a época porque foi quando a gente morava na rua Miguel Couto, em frente aos antigos armazéns de algodão de Araújo Rique, onde depois funcionou a Cavesa. (Nem sei o que existe ali agora.)  Depois de um período de vacas magras, meu pai começou a se equilibrar financeiramente; acho que foi quando começou a trabalhar como secretário na Federação das Indústrias.  A geladeira foi anunciada aos quatro ventos, aguardada com avidez, festejada com algazarra quando foi desembarcada da camionete e carregada pelos brucutus para a sala, com todos nós pulando em volta.

A primeira epifania foi quando os carregadores se retiraram e minha mãe plugou a tomada na parede. Toquei aquela superfície externa e a senti vibrando, zumbindo, ronronando como um bicho vivo.  A primeira decepção foi quando a abri e constatei que estava vazia.  Minha expectativa era abri-la e ver lá dentro tudo que eu via nas fotografias: bandejas de maçãs, pernis, tortas, pudins, saladas de frutas, e refrigerantes, muitos refrigerantes.  Minha mãe explicou que a loja vendia só a geladeira, e como sou um cara prático aceitei o argumento, mas, toda vez que eu abria aquela porta e olhava, ela me parecia uma boca sem dentes.

Tinham nos prometido que nunca mais teríamos que comprar picolé ao picolezeiro que passava na calçada, porque fabricaríamos nossos próprios picolés.  Nova decepção quando vi minha mãe preparando refresco de laranja e derramando naquelas caçambas de alumínio, porque eu figurava o picolé completo, comprido, enrolado num papel úmido e espetado num palito – e em vez disso o que era preparado diante dos meus olhos eram aqueles cubos tortos e pálidos, que pareciam com icterícia.  Sem falar na demora, que fazia Dona Cleuza ralhar: “Se você enfiar o dedo mais uma vez nessa caçamba eu tiro-lhe o couro com uma surra de chicote!” 


A luz interna era outro mistério, porque sempre que abríamos a porta ela estava acesa.  Dilema filosófico: a luz permanecia acesa quando a geladeira estava fechada?  Precisei de algumas dezenas de abridas-e-fechadas-de-porta (clandestinas, pra não ir dormir com o couro quente) para perceber o artifício do botãozinho interno que a porta pressionava ao se fechar.  Mas os picolés eram picolés mesmo, daqueles de doer no dente quando mastigados.  E acima de tudo tínhamos aquela sensação orgulhosa de estar adentrando a Modernidade, de respirar o ar condicionado da civilização. Quando Brasília começou a ser construída, aquele projeto cibernético e ciência-ficcional me pareceu uma mera expansão da nossa geladeira, um eco distante da chegada triunfal do nosso Futuro.




sábado, 24 de janeiro de 2015

3719) Sim, General (24.1.2015)


“Se tem uma coisa que eu não suporto, seja em quartel, seja em campo de batalha, é aquele sujeito da mentalidade que eu chamo Sim General.  É o cara que você diz: “Vá lá no meu alojamento e traga meu sapato marrom com cadarço amarelo”, ele pergunta: “O esquerdo ou o direito, General?”.  Não adianta querer dar um tiro nele. Não resolve.  Diga: “Os dois” e vá cuidar da vida. O mundo onde vive esse pessoal todo cheio de pruridos de especificidade é um mundo de infinitas pulgas, infinitos carrapichos.  Um mundo de muito cabelo branco e pouco sossego.

“No começo da guerra, quando estávamos passando-no-rodo as democracias vizinhas, tudo eram flores, tudo cheirava a fumaça comemorativa. Mas agora não.  Cada telegrama que é rasgado, aberto, erguido e lido por doze pares de olhos traz uma notícia pior que a anterior. O inimigo fecha o cerco, com tropas que pontilham a silhueta da colina como um mostrador de relógio.

“Nem sei se estou operando dentro das minhas prerrogativas militares e jurídicas, mas espero que sim, porque é apenas o mais desinteressado dos ideais que me move.  Mas tomo a iniciativa de denunciar: Quem nos destinou a nós, para o sacrifício?  Foram os políticos, meros civis, ainda menos preparados do que nós militares, mesmo admitindo que a maioria de nós passou de ano em ano pelo-pau-do-canto. Graças ao protecionismo deste ou daquele grupo, passamos, estamos aqui, e de repente querem que justamente nós ganhemos a guerra que eles declararam e ficaram assoprando as unhas nos seus gabinetes.  Me parece uma grande injustiça contra nossa geração. Na verdade nunca quisemos invadir ninguém, bombardear ninguém, dominar o planeta. Queríamos apenas um emprego com plano de carreira bem estabelecido e aumentos acima da inflação.

“E eis-me cercados de tecnocratas. Digo: “Bem, então amanhã vamos desembarcar na praia deles.” E os sim-general querem saber detalhes, miudezas: a que horas, com quantos homens, por que lado...  Eu os despacho da tenda aos pontapés.  Sou um general! Os técnicos são eles!  Eles que decidam essas picuinhas!  Já não basta a responsabilidade nossa?  Quem é que presta contas ao Estado Maior, ao Chefe Supremo das Forças Armadas?  (Que de quatro em quatro anos periga ser uma mulher ou um negro, ainda por cima!) Somos nós.  Não me perguntem detalhes: hora do desembarque, alvos da artilharia, cobertura aérea.. São minúcias técnicas, não venham a mim, perguntem aos técnicos. Eu é que corro o risco maior de todos, o de entrar para a História como “o General que perdeu uma batalha praticamente ganha”. E tudo que eu queria era um pijama e meia dúzia de medalhas.”




sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

3718) Humberto Teixeira 100 anos (23.1.2015)



No dia 5 de janeiro passado foi comemorado o centenário de nascimento de Humberto Teixeira (1915-1979), o primeiro grande parceiro de Luiz Gonzaga, a quem coube criar o baião junto com o sanfoneiro do Exu.  Humberto foi uma figura muito diferente de Gonzaga.  Trouxe para o baião o lado literário, urbano e culto, enquanto Gonzaga forneceu o talento telúrico. Nascido no Iguatu (CE), teve formação musical desde a infância, tocando flauta e bandolim.  Ao contrário do que se imagina, não era apenas “o letrista de Gonzagão”. Também compunha melodias, e sem dúvida há muitas parcerias dos dois em que ele fez o principal da letra e da música, e Gonzaga contribuiu com arranjo, floreios, refrão, etc.  Em qualquer parceria musical existem diferentes proporções da participação de cada um, não é aquela coisa mecânica de “A faz a letra e B faz a música”.

Estudando em Fortaleza, Humberto participou de grupos musicais e chegou até a acompanhar filmes mudos ao vivo, como se fazia na época.  Já no Rio, largou estudos de medicina e formou-se em Direito. Foi vendedor de óculos rayban, foi agente de restaurante, foi telefonista.  Enquanto isso, compunha por conta própria. Já tinha mais de 100 músicas editadas quando, através do seu cunhado Lauro Maia (também cearense e compositor), conheceu Gonzaga; a história da criação e do sucesso do baião já é conhecida de todos.

Humberto queixava-se da historiografia da MPB, que, passava direto das canções românticas dos anos 1940 para a Bossa Nova dos anos 1950 sem mencionar que nesse intervalo houve dez anos em que só tocava baião no Brasil. Foi deputado federal pelo Ceará, mas ele mesmo dizia: “Política é um negócio que você tem que usar de muitas éticas, e a minha ética é uma só”.  Trabalhou muito pela implantação dos direitos autorais e pela divulgação da música brasileira no exterior, criando caravanas que percorreram muitos países. 

A parceria com Gonzaga foi interrompida porque naquele tempo (vejam só) era proibido registrar músicas de parceiros que pertencessem a entidades arrecadadoras diferentes. Quando Gonzaga foi para a SBACEM, Humberto decidiu permanecer fiel à UBC e a dupla se desfez. Ainda assim, não saíram perdendo: Gonzaga engatou a parceria com Zédantas, e Humberto passou a assinar sozinho suas músicas, a começar pelo baião “Kalu”, gravado por Dalva de Oliveira, Yves Montand, Edith Piaf e mais umas 60 gravações mundo afora.  Vale a pena procurar o filme O Homem Que Engarrafava Nuvens, de Lírio Ferreira e o livro Humberto Teixeira, voz e pensamento (Banco do Nordeste, Fortaleza, 2006) para conhecer melhor esse poeta que fez História.




quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

3717) A filosofia num gesto (22.1.2015)




(ilustração: Saul Steinberg)

“Quem quiser que fale em Isaque Nilton ou em Arquimedes, tá ligado? Pra mim o grande gênio da humanidade é o caba que sabe fazer uma coisa completa. O ruim é explicar, prum caba que não sabe, o que é uma coisa completa. Eu tive um professor, minto, uma professora, que falou uma vez sobre a importância da filosofia. Ela disse que a importância da filosofia era explicar cada coisa de uma maneira que nunca mais coubesse outra explicação. Aquilo bateu.

“Passou-se.  Anos depois estou eu na Europa, bolsista com bolsa atrasada, pagando aquele mico de pedir pra colega europeu pra ir jantar na casa deles.  Europeu é um povo travadão.  Todo europeu fala com a gente por trás duma parede de vidro à prova de bala. Se você diz que tá sem jantar há três dias ele subentende logo que é desde Cristóvão Colombo, manja como é? Aí entorta a boca e diz na língua dele: “Então bora lá”. Aí bota um prato só pra você e fica sentado ali, fumando e olhando como é que um brasileiro come, tá ligado?

“Por isso eu não esqueço minha lição de filosofia. Um nego véio que era porteiro do prédio da tal Faculdade. Era um cara de cabelo meio branco, de um daquele países subdesenvolvidos da África, um cara legal.  Quando rolou essa situação ele me levou lá no quartinho dele e providenciou uma macarronada.  Acendeu uma estaca do tamanho do meu braço e ficou baforando enquanto escorria o macarrão.  Ralou um queijo gelado, duro que só tijolo, deu uns sopapos no fundo dum ketchup do tempo de Colombo, sentou na mesa comigo e a gente começou a comer.

“Meu irmão, eu percebi, eu fiquei olhando o jeito como o cara cravava o garfo no macarrão, como ele erguia aquela moita enorme de macarrão, e de baixo dela subia aquela lufada de fumaça, e ele parava o braço com o garfo erguido, deixava aquilo se dissipar, aí abaixava a garfada de macarrão de volta no prato, largava ela ali, cravava outra garfada noutro ponto, voltava a erguê-la suspensa, e liberava outra nuvem de fumaça, esfriando o interior daquela espécie de turfa. 

“E nesse instante, véio, foi muito, muito maneiro! Eu percebi que um cara pode ser negão e proleta, outro pode ser doidão e drogadaço, outro retardado e bugado de nascença, mas esse cara pode saber o que está fazendo, e fazer com arte.  Só de olhar o cara fazendo aquilo eu entendi a natureza da filosofia e isso redefiniu minha vida.  Parei de pensar em tudo e comecei a pensar somente na coisa de cada instante, aprendi a deixar o mundo lá fora. Não sei se foi o tamãe da fome, mas a filosofia desembarcou em mim naquela hora.  Larguei o curso naquela noite.  Minto: meu curso aconteceu naquela noite. O resto foi aeroporto e correr pro abraço.”





quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

3716) As Duas Éticas (21.1.2015)



(manuscrito de Max Weber)

Entre tantas discussões sobre fatos recentes, encontrei neste blog (http://tinyurl.com/mhqodkc) uma menção muito útil a dois conceitos de ética propostos por Max Weber, um velho conhecido dos meus tempos de Ciências Sociais na universidade (curso que nunca concluí: falaram mais alto o cinema, a cantoria de viola e a boemia). Weber distinguia dois tipos de ética, que ele chamava de “Ética da Convicção” e “Ética da Responsabilidade”. 

Na Ética da Convicção, o indivíduo se disciplina a agir de acordo com suas convicções, não importa quais as consequências. Suas convicções (ou princípios) são o que ele tem de mais importante, aquilo que o define, e é preciso sempre agir de forma coerente com eles. Os humoristas do Charlie Hebdo, por exemplo, comportavam-se dessa forma, mesmo sabendo que estavam há tempos ameaçados de morte.  Não transigiam.  Essa ética comporta uma boa medida de coragem pessoal, e também uma certa medida de desdém pela própria sorte.  O sujeito movido por ela é geralmente o tipo que “dá murro em ponta de faca” (para permanecer fiel aos seus ideais), é o cara que “não abre nem prum trem carregado de pólvora com um doido fumando em cima” (como diz Zelito Nunes).

Na Ética da Responsabilidade, por outro lado, o sujeito considera as consequências dos seus atos e admite desobedecer aos próprios princípios se for para evitar um mal maior.  O valor de suas ações não é medido em função da coerência íntima de suas idéias, mas do resultado objetivo de suas escolhas, ou seja, o que vai acontecer se ele agir assim ou assado. Quem se guia por essa ética costuma ser é um negociador mais flexível, que em circunstâncias diferentes pode assumir posições diferentes, mesmo ao preço de ser taxado de incoerente ou de infiel aos seus próprios valores.  É o caso, por exemplo, do indivíduo que admite mentir para salvar uma vida, ou sacrificar sua honra pessoal visando um benefício coletivo. Para esses, “fazer a coisa certa” importa mais do que ser impecavelmente fiel a si mesmo.

Weber dizia que “a vida é uma série de decisões cruciais através das quais a alma escolhe seu próprio destino”, e achava que a distância entre as duas posturas não é tão abismal quanto parece; que talvez seja possível conciliar as duas atitudes num comportamento único e coerente. É a velha dicotomia entre o comportamento Técnico (seguir inflexivelmente a letra-da-lei) e o comportamento Político (fazer arranjos, jeitinhos e conchambranças desde que para uma finalidade nobre).  Não existe fórmula mágica, mas ao analisar as ações de alguém vale a pena indagar qual dessas éticas ele tinha mente ao tomar suas decisões.