sexta-feira, 27 de maio de 2016

4119) A arte de pensar como um português (27.5.2016)



Num filme de John Schlesinger, Billy Liar (1963), o protagonista vai entrando em casa e sua avó, ao ouvir o ruído da porta, ergue a voz: “Se for Billy que está chegando, seu almoço está no fogão.” O rapaz retruca, também alto: “E se não fosse Billy, onde estaria o almoço?”.

É uma crítica dele à linguagem da avó, que parece sugerir uma inferência lógica do tipo “se x é verdade, então y é verdade”, mas trata de dois fatos independentes. O que a avó está querendo dizer é algo como “se for Billy que está chegando, saiba que, etc etc.”

O cantador Geraldo Amâncio conta em suas palestras e cantorias uma história acontecida com Biu Doido, uma figura folclórica de São José do Egito, no Pajeú pernambucano. Alguém perguntou: “Biu, você sabe me dizer se Seu Fulano está em casa?”, e Biu respondeu: “Saber eu sei, só não sei se ele está.”

Biu Doido também fez uma crítica à linguagem do outro. Quando a gente escolhe uma maneira indireta de se exprimir, parece que está fazendo uma pergunta diferente da que de fato queria fazer.  O outro pode retrucar que o “sabe me dizer” não é para ser respondido. É uma “pergunta retórica”, uma maneira mais cortês, menos brusca, de fazer a pergunta direta: “Biu, Seu Fulano está em casa?”  Mas Biu, levando esse apêndice meramente suavizador ao pé da letra, mostra que metade da pergunta é supérflua.

Isso que Billy Liar e Biu Doido fazem é uma distorção crítico-cômica do discurso cotidiano. Não é para ser levada muito a sério, porque a fala faz parte de uma longa lista de produtos humanos que a todo instante desobedecem à lógica. Quando temos filhos pequenos, às vezes é difícil convencê-los de que a língua conjuga os verbos de uma maneira que eles acham errada, mas o jeito é dizer que é assim mesmo, não cabe a nós mudar. “Você sabe e eu também sabo”, diz o moleque, diz a pirralha, a gente conserta: “Não, se diz eu sei.”  E vem a verruma na mente: “Por que?”.

Por isso, talvez, por este excesso de atenção que algumas mentes inquietas têm para com a lógica do que se diz, mesmo na mais banal das situações. São pessoas que nos ouvem dizer algo formalmente (retoricamente) contraditório, com lacunas, sei lá o que, e nos dão na maior cara de pau uma resposta absurda.

O sujeito está saindo de um hotel de Lisboa, assina o último papel na recepção, aponta para a rua através das grandes vidraças e pergunta: “Aquele ônibus ali passa no aeroporto?”. O recepcionista responde: “Não. Passa em frente.”

Qualquer um de nós tem dezenas de exemplos dos nossos irmãos lusitanos, essa lógica implacável que os faz considerar cada fala nossa como um silogismo filosófico, cuja lógica tem que ser de ferro.

O turista em Lisboa se interessa por um livro mas está sem dinheiro ou cartão, e pergunta ao livreiro: “O senhor fecha no sábado?”, e este diz: “Não.” Ele volta lá no sábado, e encontra a loja fechada. Ao se queixar na segunda-feira, o lojista diz: “Ó pá, eu fecho na sexta. No sábado eu nem abro, como posso fechar?”

Dizem que os portugueses são burros. Pois digo-lhes eu que os portugueses (pelo menos os do animê mítico da nossa cultura oral) têm mente ciberneticamente precisa, e usam a língua que é sua com uma precisão que jamais alcançaremos. Nós falamos na verdade um fuzzy-português, uma língua fora de foco, toda raiada de exceções, nuances, subentendidos.

O português pensa como o programador de sistemas. Tem toda uma deep web de piadas sobre programadores, até porque os computadores foram inventados por eles, e devem ser o grupo que ri de si próprio há mais tempo no ciberespaço. Uma piada deles diz que o programador achou em casa um bilhete da esposa: “Querido, vá à padaria e traga um litro de leite. Se eles tiverem pão, traga seis.”  Uma hora depois a mulher entra na cozinha e encontra seis litros de leite, e nada mais.

É errado pensar assim? Eu acho que não, e se algum erro pode ser imputado a quem fala desse jeito é a fantasia utópica de querer falar certo. Não é burrice, é na pior das hipóteses uma maneira exasperantemente direta de pensar. O português e o programador parecem se ater à formulação verbal como se só ela existisse.

Uma biografia de Alan Turing, o criptógrafo inglês da II Guerra Mundial (O homem que sabia demais - Alan Turing e a invenção do computador, David Leavitt, Ribeirão Preto. Ed. Novo Conceito, 2011), cita alguns episódios em que ele, já fascinado pela ciência, pensava como cientista. No exército, foi criticado porque seu cartão de identidade estava sem a sua assinatura, e ele respondeu que fora instruído “a não escrever nada nele”.

Leavitt comenta:

Claro que do ponto de vista da lógica matemática, em cada uma dessas circunstâncias Turing estava se comportando com a máxima exatidão. A lógica matemática é distinta do discurso humano normal, no sentido de que suas afirmações são exatamente o que elas declaram, e declaram o que querem significar; de modo que uma sentença como “não se preocupe em me apanhar, eu vou andar até minha casa pela chuva e pela neve com minha perna doente” provavelmente não encontrará lugar em um livro-texto de lógica. O Dr. Spock, do seriado Jornada nas Estrelas era notoriamente insensível às inferências, ao duplo sentido e à agressividade passiva, e havia mais do que um toque de Dr. Spock em Turing, que muitas vezes se via em apuros por sua incapacidade de ‘ler nas entrelinhas’”. (p. 21)

Isto me lembra outro cientista excêntrico e de pensamento rebelde, nosso amigo Richard Feynman, cuja biografia daria uma série de TV. Feynman envolvia-se costumeiramente em episódios cômicos pela sua capacidade de dizer a verdade sabendo que ninguém acreditaria nele. (Aqui: http://tinyurl.com/gm5jk2f). “Ninguém lembrava textualmente do que ele dissera. Ele tinha dito a verdade, mas o tom de voz empregado, e a sua fama de gozador, tornaram invisível a verdade que ele dizia.”

Nossa conversa é feita de frases, mas essas frases são reforçadas, comentadas ou contraditas por mensagens complementares, de natureza não-verbal: gestos, atitudes, expressões faciais, que contaminam de sentido e de comentários a frase. Existe também o “contexto social”, uma enorme quantidade de “modos de dizer” que não fazem muito sentido mas todo-mundo-sempre-disse-assim, e ninguém para pra examinar com uma lupa.

E há pessoas que nada percebem disso, percebem apenas a letra, o texto, o sentido direto das palavras, e que ouvem uma pessoa falar aquilo como se fosse um texto num cartaz lambe-lambe pregado num poste.

Alguns tipos de autismo, ao que se diz, deixam o indivíduo incapaz, por exemplo, de jogar pôquer, onde é preciso blefar e entender o que é um blefe. Nuances, piscadelas de olho, “aspas” colocadas com uma torção cômica da voz... tudo isso passa despercebido por eles, que no entanto serão capazes de alvejar uma incoerência lógica sua com a precisão de um luso cirurgião.

Ficamos incomodados ao conversar com alguém que sempre leva ao pé da letra tudo que dissemos.  “– Pô, faz horas que a gente está nessa fila”. – Não, são menos de cinquenta minutos”. Ou então: “-- OK, pessoal, então a gente se reúne de novo amanhã. – Amanhã não, hoje, porque já passou de meia-noite.”

A crítica que se pode fazer ao estilo luso-programador-cibernético de falar é que ele, por seu excesso de fidelidade à letra, se recusa a captar o espírito. Por um apego à palavra, perde a chance de se apegar a outras formas humanas de significar (gestos, expressões, atitude, contexto). Mas os portugueses não são burros, e se um dia chegarmos de fato a produzir uma Inteligência Artificial, ela pensará exatamente como pensa um português. (O português mítico desses exemplos, bem entendido.)









quarta-feira, 25 de maio de 2016

4118) Os detalhes da narrativa (25.5.2016)



Li há muitos anos um conto italiano ou francês, ambientado no tempo antigo, em que o protagonista pega um cabriolé para ir a tal lugar. Ele desce, pede ao cocheiro que fique esperando, há um contratempo, ele foge, é perseguido, viaja, passam-se semanas ou meses, não lembro mais. O conto é cheio de coisas que não lembro mais. Só lembro (olha as ironias da literatura!) o parágrafo final, onde ele diz algo como: “Tudo resolvido, voltei à minha cidade e fui até a estação. O homem do cabriolé continuava à espera. Perguntei quanto era, ele disse que eram 900 mil francos. Dei-lhe uma nota de um milhão e falei que ficasse com o troco.”

Não é um conto propriamente realista, é de algum autor como Papini ou Apollinaire. Mas o fato do autor lembrar do cocheiro que ficou à espera aquele tempo todo traz de volta uma questão crucial da narrativa. Até que ponto um autor deve amarrar todas as pontas soltas de uma história? E precisa mesmo, esse rigor todo?

Manuais de escrita nos dão o tempo todo conselhos nessa praia. “Se o personagem pedir alguma coisa no bar, lembre-se de fazer com que o garçon acabe trazendo.” Sim, são dicas úteis. Cada vez que você faz isso a narrativa ganha maior espessura. Dois caras pedem sanduíches e começam a conversar. Se o diálogo é interessante (e afinal de contas é para mostrar esse diálogo que a cena foi concebida e escrita, ou filmada) ninguém lembra mais dos sanduíches. Mas quando eles são trazidos, fumegantes e apetitosos, isto dá ao espectador uma sensação maior de realidade. Ele percebe fugazmente que, durante a conversa, algo (a preparação dos sanduíches) estava acontecendo na cozinha. Ou seja, há coisas acontecendo de verdade em torno daquele diálogo, o mundo não pára, o mundo é de verdade e está funcionando em volta daqueles dois personagens.  Perceber isso dá mais solidez à cena e à história.

O manual diz: “Deixou o táxi esperando, volte e pague. Ou guarde o motorista para aparecer, impaciente e furioso, como elemento resolvedor irrompendo em outra situação qualquer.” Sim, sempre é bom deixar acontecimentos pendurados. No famoso conto de Fernando Sabino “O Homem Nu” o protagonista, de manhã cedinho, avisa a esposa que se baterem na porta não atenda, é o cobrador das prestações da TV. Ele sai, nu, para pegar o jornal que estava no corredor do prédio, e a porta do apartamento bate. Ele chama. A mulher pensa que é o cobrador da TV e não abre. Depois de ser surpreendido e passar por mil peripécias, perseguido pelos vizinhos, ele consegue voltar para o apartamento, arrasado. Quando está explicando tudo à mulher, batem na porta. “É a polícia!” diz ele, e vai abrir. “Não era. Era o cobrador de televisão.”  Li isso com 11 anos e lembro até hoje.

Vem daí talvez o velho conselho de Raymond Chandler para a narrativa de pulp fiction: “Quando não souber o que fazer com a cena, faça alguém entrar na sala de arma em punho.” Em histórias de crime há sempre alguém perseguindo alguém, alguém querendo silenciar uma testemunha, querendo recuperar um objeto roubado, querendo se vingar de uma chantagem, etc.  A narrativa policial hardboiled é sempre uma história de ação em que as ações dos personagens tendem mais a ser interrompidas do que a chegar ao fim sem sobressaltos.

Essa “amarração de pontas” precisa ser feita se o autor acha que o leitor vai lembrar do taxista que ficou esperando, ou do fone deixado fora do gancho, ou da chaleira com água posta a ferver, ou de Fulano que foi ao banheiro e não voltou a participar da reunião. Às vezes o autor indica cada um desses pequenos fatos com tanta ênfase que o leitor, inconscientemente, anota: “Ôpa, tem coisa aí.”  Quando depois o autor passa em branco, ele se sente meio desacorçoado. A melhor solução talvez seja dizer esses detalhes (se não são significativos) meio “en passant”, sem lhes dar muita importância.

Veja-se este exemplo:

“Quando acordei, desci para tomar o café da manhã na lanchonete. Sentei numa mesa, pedi café e sanduíche e comecei a ler o jornal. Nenhuma novidade, mas na página policial havia uma notícia sobre um carro igual ao meu encontrado pela polícia. Paguei e saí às pressas, fui direto para a delegacia.”

No trecho acima, o autor não diz que o café chegou, não diz que chegou a comer alguma coisa. Mas quando ele diz “paguei”, vemos que tudo isso aconteceu, e que esse minúsculo episódio foi encerrado. Se ele dissesse apenas “Saí às pressas...” daria a impressão de que o café não foi trazido, ou foi consumido mas não foi pago. Escrever, mesmo sem pretender grandes voos literários, é escolher o tempo todo o que precisa ser dito e o que não precisa.