segunda-feira, 6 de novembro de 2023
4999) "O Conde": o vampiro Pinochet (6.11.2023)
sexta-feira, 3 de novembro de 2023
4998) A última canção dos Beatles (3.11.2023)
I know it's true, it's all because of youAnd if I make it through, it's all because of youAnd now and then, if we must start againWell, we will know for sure that I love you
Eu sei que é verdade, é só por causa de vocês.E se eu conseguir, é só por causa de vocês.E, tanto agora quanto naquela época,se formos recomeçar,bem, saberemos com certeza que eu amo vocês.
https://www.youtube.com/watch?v=eNL40ql4CYk&ab_channel=GeorgeHarrison
Estes versos podem ser lidos como se Lennon estivesse falando, através do Universo, e agradecendo aos amigos que conseguiram trazê-lo de novo para cantarem e tocarem juntos.
segunda-feira, 30 de outubro de 2023
4997) Drummond: "Sesta" (30.10.2023)
No primeiro desembarque de 1920, chegara o Prêmio Goncourt do ano anterior. (...) O bando atacou o caixote. Empunhava martelo e pé-de-cabra o risonho Francisco Martins de Almeida. Iniciada a operação salta um pacote que vai tombar aos pés de um moço de olho vivo e ar tímido, mas atilado leitor e hábil tipógrafo. Era Eduardo Frieiro. Rápido, apanha-o e sobraçando o embrulho sai correndo para o fundo da loja. Mal aberto, grita: -- É o Goncourt, pessoal! Mais quatro moços atiraram-se em seu encalço e arrebataram os exemplares: Milton Campos, Pedro Nava, Carlos Drummond de Andrade e Alberto Campos.
https://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=154083_03&pagfis=29222
Existia nesses jovens a necessidade de ruptura com o Passado, peso que continuava asfixiando o presente.
SestaA Martins de AlmeidaA família mineiraestá quentando solsentada no chãocalada e feliz.O filho mais moçoolha para o céu,para o sol não,para o cacho de bananas.Corta ele, pai.O pai corta o cachoe distribui pra todos.A família mineiraestá comendo banana.A filha mais velhacoça uma perebabem acima do joelho.A saia não escondea coxa morenasólida construída,mas ninguém repara.Os olhos se perdemna linha onduladado horizonte próximo(a cerca da horta).A família mineiraolha para dentro.O filho mais velhocanta uma cantiganem trite nem alegre,uma cantiga apenasmole que adormece.Só um mosquito rápidomostra inquietação.O filho mais moçoergue o braço rudeenxota o importuno.A família mineiraestá dormindo ao sol.
Um recuo de dez anos projeta no presente esse grupo que em 1923 procurava o caminho, e no qual a presença dele [Alberto Campos] operava como um elemento de crítica vivaz e mordente. (...) Mas não éramos felizes. Fomos as primeiras vítimas da nossa própria ironia, e, impiedosos com o próximo, não nos perdoávamos a nós mesmos nenhuma fragilidade. O nosso compromisso, que era o de não assumirmos nenhum, impunha-nos disciplinas severas. A voluptuosa disponibilidade deixava de ser uma condição edênica para constituir fonte contínua de angústias.
sexta-feira, 27 de outubro de 2023
4996) Os segmentos de estória de Roberto Bolaño (27.10.2023)
Passou pelas minhas mãos o livro póstumo de Roberto Bolaño El Gaucho Insufrible, uma coletânea de contos e ensaios curtos, já com tradução e edição brasileira à vista. (Li na edição omnibus da Anagrama, Barcelona, 2010, onde o livro vem em conjunto com Llamadas telefónicas e Putas asesinas).
Bolaño tem uma prosa líquida, fluente, aparentemente espontânea, um estilo de escrever que muitas vezes parece sair pronto do teclado, sem maior esforço que o de digitar. Não que lhe seja estranha a prosa mais elaborada, mais tensa, cheia de imagens imprevistas, de reviravoltas inesperadas no modo de pensar e de expor. Na maioria dos casos, no entanto, ele dá a impressão de que escrevia e mandava direto para a gráfica. O que é sempre ilusório. Parecer espontâneo dá muito trabalho.
Outro traço típico dele é o modo como ele parece evitar de propósito os finais espetaculares, dramáticos, catárticos. Apesar de se dizer um fã de Edgar Allan Poe, neste aspecto ele vai na contramão do mestre. Seus contos estão mais para o efeito de Tchecov: a descrição de uma série de eventos que, ao invés de conduzir a um evento final retumbante, vai se diluindo em eventos menores e menos expressivos, como uma fumaça que se dissipa no ar.
Em El Gaucho Insufrible temos contos nos dois modelos. E temos um exemplo de conto fantástico ou alegórico, não típico do autor, que é “El policía de las ratas”, uma fábula zoológica que ele deriva explicitamente de “Josefina, a cantora, ou o povo dos ratos”, de Franz Kafka. O rato narrador é um policial a quem cabe investigar uma série de crimes misteriosos que estão ocorrendo nos esgotos onde a rataria vive.
Bolaño era um leitor atento e inteligente de poesia, de prosa, de ficção científica e romance policial. O livro se conclui com dois textos que na verdade são agregados de fragmentos curtos de apreciação literária: “Literatura + enfermedad = enfermedad” e “Los mitos de Cthulhu”. Este aqui não tem nenhuma menção a Lovecraft. O título é apenas uma isca, um clickbait, para que o leitor-de-gênero o leia antes de todos os demais.
Os dois melhores contos são duas histórias longas com enredo bem ao gosto de Bolaño: um protagonista que vai entrando aos poucos num trajeto de acontecimentos onde cada evento novo conduz a uma situação que o precipita noutro evento imprevisível, e assim por diante. O protagonista parece não saber muito bem o que pretende, e quando o sabe parece não estar ansioso para alcançar seu objetivo. Deixa-se levar meio passivamente, como um daqueles personagens para-existencialistas dos romances policiais noir. “Deixa a vida me levar, vida leva eu.”
O primeiro conto é o que dá o nome ao livro. “El gaucho insufrible” transcorre na Argentina e conta as peripécias da vida de Héctor Pereda, advogado bem sucedido, viúvo, com um casal de filhos adultos. As crises políticas e econômicas do país o levam a abominar a cidade tumultuada e refugiar-se no campo, numa propriedade remota a que nunca dera muita atenção. Ali, como tantos urbanóides, ele tenta se adaptar a uma vida mais pura, mais simples, no meio de vaqueiros e camponeses rudes, que o tratam com respeito mas veem com estranheza seus rompantes gastadores, seu paternalismo jovial.
A vida de Pereda vai se tornando uma sucessão de empreitadas bem ou mal sucedidas, enquanto ele se recusa a tornar a Buenos Aires. Os filhos, e alguns amigos, empreendem a longa viagem até sua estância para tentar trazê-lo de volta ao mundo civilizado. Ele tenta restaurar casarões, caça coelhos (uma verdadeira praga do lugar), espanta-se com a vastidão aterradora do pampa.
A mulher e as crianças puseram-se a caminhar por uma rodovia e embora se afastassem e suas figuras fossem se tornando diminutas passaram-se mais de três quartos de hora, calculou o advogado, até que desaparecessem no horizonte. É redonda a Terra?, pensou Pereda. É claro que é redonda, respondeu a si mesmo.
(trad. BT)
No final, depois de anos de pesadelo campesino, ele volta a uma Buenos Aires que não reconhece mais, caminha a esmo pelas ruas, pára diante das vidraças de um café de escritores que frequentara no passado, e sente-se ali como uma espécie de extraterrestre, ou, como diria Fernando Pessoa, “um estrangeiro aqui como em toda parte”.
O outro conto tem um perfil de quest, de demanda, e também de investigação, lembrando os obsessivos “detetives selvagens” do romance do mesmo título, à caça de uma pessoa que parece nunca ter existido. “El viaje de Álvaro Rousselot” parte de um início enigmático. Rousselot, escritor argentino, publica um romance intitulado Soledad que acaba sendo traduzido ao francês. Pouco depois, aparece na França um filme, Las voces perdidas, dirigido por Guy Morini, que parece um plágio descarado do romance.
Rousselot se inquieta, mas deixa passar. Publica um romance policial, torna-se medianamente famoso, e em seguida um romance humorístico, Vida de recién casado, que é bem recebido pelo público. Logo em seguida, contudo, surge nas telas um novo filme, de Guy Morini: Contornos del día, que é uma versão fiel mas melhorada do livro mais recente de Rousselot.
Começa então o périplo do escritor, que reúne suas economias e, a pretexto de comparecer a um evento literário na Europa, escapa rumo à França e entra numa investigação (desajeitada, incompetente, cheia de surpresas agradáveis e outras nem tanto) em busca do elusivo Guy Morini. Não se sabe bem para quê; para tomar satisfações? Processá-lo? Beber com ele? Crivá-lo de balas? Rousselot viaja, inquire, telefona, pega ônibus e trens, e ele mesmo não tem uma idéia do que fará quando se deparar com seu plagiador.
Muitos contos de Bolaño têm esse enredo que nos dá a impressão de que, tal como seu personagem, o escritor não sabe muito bem para onde está se dirigindo e todo dia, ao sentar-se para escrever, vai tecendo episódios menores que conduzem a episódios mais longos, que não dão em nada mas lhe permitem dobrar uma esquina do enredo e conduzir a investigação (a invenção da estória) num rumo imprevisto.
É uma leitura desconcertante para os leitores formatados pelos manuais de roteiro televisivo e pela estética do romance onde tudo conduz a alguma coisa, tudo se amarra, tudo tem função, tudo tem uma resposta mais adiante.
Bolaño, quando envereda por este tipo de narrativa, nos leva de árvore em árvore sem muita intenção de revelar (ainda que a si mesmo) o formato da floresta. Seus contos se parecem ao que os matemáticos denominam “um segmento de reta”. Uma linha reta (conceitualmente) não tem começo e não tem fim, de modo que é preciso atribuir-lhe (para efeito de uma demonstração qualquer) o começo A e o final B. Os contos do chileno são pura travessia, e se esvaem ou se interrompem bruscamente sem que suas principais perguntas tenham obtido resposta. Como a vida. A do próprio Bolaño, por exemplo.
terça-feira, 24 de outubro de 2023
4995) Cada qual com as suas manias (24.10.2023)
Toda pessoa tem direito a uma mania mansa, uma mania inofensiva, algo que na pior das hipóteses consome seu tempo livre e uma fatia de seu orçamento. Tem gente que coleciona chaveiros, latas de cerveja, cartões postais, selos. Tem gente que coleciona recortes de jornal. Tem gente que anota resultados de futebol, de eleições, de corridas de cavalos.
sábado, 21 de outubro de 2023
4994) Fellini: as mulheres e as luzes (21.10.2023)
Vem daí uma das cenas famosas do
filme. Desalentado e sem grana, impedido de entrar na pensão onde estava em
dívida, ele caminha de madrugada pelas ruas desertas da cidade, na companhia de
um norte-americano negro, trumpetista, um dos muitos soldados do exército dos
EUA que se deixaram ficar na Itália depois do fim da guerra. Os dois se
deparam com uma moça ao violão (apresentada como “a grande artista brasileira,
Moema”) que não é outra senão Vanja Orico, que poucos anos depois ficaria
famosa aparecendo em O
Cangaceiro (1953), de Lima Barreto.
(Vanja Orico)
É curioso ver no filme de estréia de Fellini uma cantora
entoando “Meu Limão, Meu Limoeiro” em puro português. Não é surpreendente, no
entanto – é bom lembrar que a década de 40, entrando pela de 50, foi o auge do
baião de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, e muitos filmes estrangeiros da
época incluíam canções brasileiras em sua trilha. Foi também o caso de Noites Brancas (1957) de Luchino
Visconti, onde escutamos “Muié Rendeira”, a composição de Zé do Norte tornada
famosa em O Cangaceiro.
E o próprio Lattuada viria a incluir em seu Anna (1951) um nímero musical cantado
por Silvana Mangano, “El negro Zumbón”, um dos mais conhecidos baiões compostos
fora do Brasil – a música é de Armando Trovajoli, grande “trilheiro” do cinema
italiano, e letra de Francesco Giordano.
Aqui, “Meu Limão, Meu Limoeiro”:
https://www.youtube.com/watch?v=CoKUmGP9FCw&ab_channel=gelsomminna
E aqui, “Sodade, Meu Bem, Soidade” (O Cangaceiro):
https://www.youtube.com/watch?v=_rqMBScsrgY&ab_channel=RADIOSANTOS%28REM%29
Fellini, mesmo em seu primeiro filme (e um filme
co-dirigido por um amigo mais experiente) já era o cineasta do grotesco e do
bizarro. Encontrei aqui neste filme uma cena de submundo que seria depois
recriada na tela pelo carioca Miguel Borges. São os homens que “dormem na
corda”, ou seja, sentados num banco comprido e debruçados sobre uma longa corda
amarrada horizontalmente. Quando o dia amanhece, o dono do pulgueiro desamarra
a corda, todo mundo tomba para a frente, levanta e vai embora.
E há a cena inesquecível de quando a companhia de vaudeville se apresenta numa cidadezinha
e desperta a simpatia de um ricaço local, que convida a todos para jantar, na
esperança de exibir seus próprios dotes artísticos (cantando o “Figaro”) e de
tirar uma casquinha da desejada-das-gentes, Liliana. A companhia está
esfaimada, e o jantar é uma longa cena em que a câmera percorre a mesa
mostrando uma dúzia de rostos que mastigam com concentração, voracidade e
êxtase, sem trocar uma palavra sequer.
https://www.youtube.com/watch?v=CoKUmGP9FCw&ab_channel=gelsomminna
https://www.youtube.com/watch?v=_rqMBScsrgY&ab_channel=RADIOSANTOS%28REM%29
quarta-feira, 18 de outubro de 2023
4993) A pior sensação da vida (18.10.2023)
“A vida inteira que poderia ter sido e não foi”, pensou um dia Manuel Bandeira, durante um poema.
Frágil, ameaçado pela tuberculose desde a adolescência, o poeta não tinha como não fantasiar outras vidas, o que aliás fez lindamente em “Vou-me embora pra Pasárgada”. Tanta coisa para viver, tantas aventuras, tantos prazeres! E a vida se resume ao esforço fatigante de preservar uma existência sem atrativos. Por isso, talvez, gente como Janis Joplin dizia preferir viver dez anos a mil-por-hora do que mil anos a dez.
Janis conseguiu o que queria. A maioria das pessoas prefere viver pianinho, prefere pegar leve, poupar-se, mesmo que resignando-se a uma certa pasmaceira. E abrindo mão daquilo que a cultura-de-massas chama “a realização do seu sonho”.
Paulo Coelho popularizou (não foi ele quem criou) a expressão “quando você vai atrás do seu sonho, o universo inteiro conspira a seu favor”. É uma frase eficaz no sentido motivacional, porque todos nós precisamos de uma aplicação de otimismo quando temos que encarar uma tarefa, mesmo algo simples como arrumar a escrivaninha ou lavar o banheiro de casa.
É preciso acreditar que o objetivo vai ser atingido. Times de futebol, equipes de vendedores, grupos de militantes políticos, soldados no campo de batalha – todos eles precisam acreditar no sucesso, precisam da hipnose benéfica do otimismo.
Esse tipo de auto-ajuda funciona de forma paradoxal, porque as pessoas conseguem acreditar ao mesmo tempo no livre-arbítrio (“eu tomei esta decisão e tenho certeza de que alcançarei meu objetivo”) e no destino (“está escrito que serei vencedor”). O que é compreensível: sempre que os fatos parecem desmentir um desses aspectos, basta-nos trocar de chave, e acreditar no outro.
(Hugh Mac Leod)
Hugh MacLeod, autor de livros de auto-ajuda, afirma (em Ignore Everybody):
Toda pessoa foi trazida para a Terra com um Monte Everest privado para escalar. Talvez você nunca chegue ao pico, e isto é compreensível. Mas se você não fizer pelo menos um esforço sério para chegar ao cume nevado, anos depois você vai se ver deitado em seu leito de morte, e tudo que vai sentir é um enorme vazio. (trad. BT)
A auto-ajuda consiste muitas vezes em reafirmar, com suas próprias palavras, algo que você leu e lhe pareceu fazer sentido.
Franz Kafka tem uma parábola famosa chamada “Diante da Lei”. Um homem chega diante de uma porta que dá acesso à Lei. Diante dela há um guarda enorme, ameaçador, que o dissuade de tentar entrar ali. “Depois desta porta há outra,” explica ele ao homem, “com um guarda ainda maior que eu, e depois outra ainda maior, e assim por diante; eu próprio não consigo olhar para eles sem ficar tomado de terror.”
O homem hesita, acha que não vai ser capaz, e passa o resto da vida ali, ao pé da porta. Perto de morrer, ele chama o guarda e pergunta por que motivo, durante todos aqueles anos, não apareceram outras pessoas ali à procura da Lei. O guarda responde: “Porque esta porta existia somente para ti, e como agora vais morrer, terei que fechá-la”.
A porta da Lei e o Everest privado são o mesmo conceito – existe algo que somente você será capaz de tentar, e não adianta tentar se beneficiar da experiência alheia ou do efeito manada, invadindo o recinto junto com uma multidão. As conquistas pessoais são solitárias, por definição. Dependem só de você.
Henry James glosou este mote em sua misteriosa noveleta “A Fera na Selva” (1903). Seu protagonista, John Marcher, é um homem inteligente, pacato, metódico, que confessa viver à espera de um evento extraordinário que (por uma intuição qualquer) ele pressente estar à sua espera no futuro. Preparando-se para esse evento (que tanto pode ser uma epifania quanto um desastre), ele se poupa, se protege, evita embarcar em outros compromissos. E no final, nada acontece. O evento extraordinário talvez estivesse no seu caminho se ele tivesse se lançado à vida, ao invés de se proteger dela.
Ter medo da vida é doloroso. O que dizer de quem tem medo da literatura? John Crowley tem um conto, “Novelty”, na coletânea do mesmo nome (Foundation / Doubleday, 1989), cujo protagonista, um indivíduo cheio de ambições literárias, um dia se depara, dentro de si mesmo, com uma revelação acabrunhante.
Muitos anos depois, ele percebeu que a diferença entre ele e Shakespeare não era propriamente de talento, mas de fibra. A capacidade de não se intimidar diante das idéias mais vastas ou mais poderosas e de simplesmente (simplesmente!) sentar-se à mesa e pôr mãos à obra. A terrível languidez que se apossava dele quando algo imenso e complexo tornava-se subitamente claro aos seus olhos, algo com as dimensões de um “Rei Lear” e a minúcia de um soneto. Se ao menos não desabasse sobre ele assim, de uma vez, tudo tão monumental e tão perfeito, deixando-o amedrontado e frouxo diante da perspectiva de articular tudo aquilo, cena por cena, página por página!... (...) Gemendo como um fantasma desprezado, a idéia grandiosa ruflava as asas e sumia no vazio. (trad. BT)
Alguns autores são assim, capazes de se maravilhar (e se aterrorizar) com as dimensões de uma empreitada. Outros são mais pragmáticos.
(Thomas Carlyle)
Conta-se que Thomas Carlyle recebeu de seu colega John Stuart Mill, em 1834, a encomenda da redação de uma história da Revolução Francesa. Mill recebera essa proposta mas não tinha condições de executá-la. Carlyle aceitou, e pôs mãos à obra. Depois que concluiu o livro (cuja edição atual tem cerca de 800 páginas), enviou o manuscrito para Stuart Mill. Na casa deste, por engano, uma criada pegou o pacote com o manuscrito e o queimou, achando que era destinado ao lixo. Quando recebeu a notícia, Carlyle sentou-se à mesa, pegou pena e tinteiro, escreveu “Capítulo 1”, e refez o livro por completo.
domingo, 15 de outubro de 2023
4992) Lupin e a pérola negra (15.10.2023)
Um detalhe importante da série é a presença do policial Guédira,
que tal como Diop é um fã dos romances de Maurice Leblanc, e os conhece a
fundo. Isto é pretexto para um jogo de pistas e alusões em que Guédira percebe
as intenções de Diop, mas não consegue explicar aos demais membros da polícia a
importância das alusões literárias.
Dessa maneira, existe um diálogo à distância entre o
ladrão e o policial, uma “fanzice” compartilhada, com uma aproximação gradual
que vem se estreitando ao longo da temporada. E que de certa forma “atualiza” a
simpatia meio paternal que o Lupin original tinha pelo sofredor Inspetor
Ganimard.
(Omar Sy, como Assane Diop, e Soufiane Guerrab, como o policial Guédira)
Dois recursos narrativos do roteiro da série (criada por
George Kay e François Uzan) ajudam a dar dinamismo à situações mostradas – que,
como é habitual no gênero dos “heist movies” ou “filmes de assalto”, precisam
ter um pouco frouxas as rédeas da verossimilhança.
O primeiro é o fato de que a narrativa conta em paralelo
a vida adulta e a infância de Assane Diop (e nesta parte encontramos várias das
pessoas que virão a ser importantes na sua vida de adulto). E muitas vezes,
quando o Assane adulto está num beco sem saída qualquer, surge um flashback de sua infância mostrando que
quando adolescente ele passou por uma situação parecida, deu-se bem ou deu-se
mal, mas aprendeu uma lição. Lição que agora põe em prática.
(Mamadou Haidara, como o jovem Assane)
O segundo recurso é uma espécie de “rewind” da narrativa. No momento crucial do perigo, surge uma
interferência salvadora aparentemente “do nada” para resolver a situação. Nesse
instante, a narrativa se interrompe, surge um letreiro tipo “Três dias antes...”, e só então
entendemos como Diop tinha antevisto o perigo e preparado sua salvação.
Lupin é uma
série que teve a sabedoria de, ao invés de fazer uma série de época, de cem
anos atrás, dando vida ao personagem, preferiu mostrar um Lupin atual, um
leitor-fã com inteligência suficiente para se meter em aventuras semelhantes ao
de seu personagem favorito. E de fazê-lo numa Paris de hoje, uma Paris
multirracial, cheia de novas tensões sociais e de novas tecnologias.
É interessante notar que este último aspecto já havia sido
adotado pela série inglesa Sherlock (com Benedict Cumberbatch e Martin Freeman).
Ali, os personagens originais foram “transplantados” para o presente. Holmes continua
detetive – mas Watson é blogueiro. E se faz uma exploração intensa de
celulares, computadores, GPS, internet, etc., ou seja, é necessária uma mudança
estrutural em alguns enredos que se baseavam numa sociedade onde o telégrafo, o
telefone e a fotografia eram o máximo de recursos high-tech à disposição.
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