sexta-feira, 24 de julho de 2020

4603) Seis desmemoriados (24.7.2020)




1
Bartolomeu Correia Juçá, 66 anos, foi encontrado vagando na Praça Nossa Senhora da Paz, no Rio de Janeiro, e levado a um asilo. Tinha um documento com esse nome e a data de nascimento, e só. Não lembrava quem era. Não estava no Google, nem na Previdência Social. Dizia apenas que de repente acordou e estava ali, não lembra de nada que lhe aconteceu antes. Assistentes sociais e jornalistas pesquisaram todas as pistas possíveis, e nada encontraram. Era como se o mundo também não lembrasse mais quem ele era.

2
Lazslo Sandoi, 38 anos, foi descoberto ao chamar a atenção dos guardas e dos guias do Rijksmuseum, de Amsterdam, porque todos os dias entrava ali, sempre trajando a mesma roupa, e se postava na sala das “casas de bonecas”, onde ficava olhando para elas e chorando. Abordado, não soube dizer quem era nem o que fazia ali. Quando as notícias e fotos saíram nos jornais, alguém o identificou: era húngaro, representante comercial, tinha ido à Holanda a trabalho, e até aquele episódio nunca tinha sofrido nenhum problema neurológico ou emocional. Levaram-no de volta ao seu país, sob terríveis crises de nervos, apaziguadas apenas quando os médicos lhe forneceram copiosas fotografias das casas de bonecas que desencadearam o processo.

3
A Menina do Patriarca, 10 anos aproximadamente. Encontrada na Praça do Patriarca (São Paulo), sem documentos, aparentemente em estado de choque. Roupas novas, de boa qualidade. Saúde perfeita. Dentes bem tratados. Não dava mostras de entender o que lhe perguntavam. Foi mostrada em todos os telejornais. Foi conduzida a um abrigo. Não aparentava problema mentais e eventualmente conseguiu executar por iniciativa própria tarefas como dobrar roupas e lençóis, folhear revistas (não dava indicações de saber ler, mas manuseava as páginas com evidente familiaridade). Não demonstrava iniciativa para alimentar-se, ir ao banheiro. Está assim há dezenove anos. Nunca falou uma palavra sequer.

4
Charles Aronne, 47 anos, industrial, residente em Toulouse. Depois de um AVC, perdeu a capacidade retentiva da memória e vive recluso em casa, onde passa os dias, os meses e o anos maravilhando-se todos os dias com a beleza e a solicitude de sua esposa Marianne, de seus filhos Michel e Sophie, e de todos os amigos que se revezam diariamente contando-lhe quem é, o que já fez, do que gosta, em que acredita. Uma ou duas vezes por ano equipes de TV francesa e estrangeira vão entrevistá-lo: as entrevistas, vistas uma após a outra, parecem ter sido concedidas por diferentes pessoas, pois em cada época Aronne dá mostras de estar compondo uma identidade para si próprio a partir das conversas mais recentes que teve com as pessoas que lhe são próximas. Teve que reaprender a assinar o próprio nome, para poder firmar os documentos que os sócios trazem à sua casa.

5
Patrício Morais de Lautério, 49 anos, funcionário público, Belém do Pará. Aposentou-se por invalidez depois de ataques de amnésia que prejudicavam sobremaneira seu trabalho na repartição, e seus contatos com a família. Atualmente mora em casa, rodeado por parentes. Depois de vários dias em que está aparentemente normal, ele acorda sem saber quem é, mas acometido de um curiosidade intensa sobre os objetos em volta. Pergunta à família para que serve o travesseiro, o chinelo, a janela, a gaiola com pássaro, o prédio em frente. Pergunta a cada pessoa quem é, o que faz, do que gosta, que comidas prefere, que tipo de música escuta, qual sua cor favorita, que livro levaria para uma ilha deserta.  Não dá mostras de reconhecer a família, mas é gentil com todos. Isso dura um dia inteiro, até o próximo sono, do qual desperta normal e com um pouco de enxaqueca. Depois de mais de um ano de exames, os médico constataram que esses ataques ocorrem exatamente de 39 em 39 dias, mas além disso nenhum outro dado científico foi comprovado.

6
Lenny Grady, 40 anos, bluesman de Nashville, perdeu completamente a memória num acidente de carro aos 36 anos, mas foi cuidado com desvelo pela esposa Geraldine e pela filha Suzanne, até conseguir um relativo grau de autonomia. Perdeu a capacidade de falar e de lembrar as informações mais elementares, e durante meses permaneceu em casa, vagaroso, meio cambaleante, afável, sorridente, distraído, mas capaz de manter o próprio asseio e de se alimentar sozinho. Certo dia, um amigo o visitou levando o violão e nesse momento ele pareceu despertar parcialmente, pediu o instrumento e começou a cantar, meio hesitante, com a voz “enferrujada”, mas improvisando versos com relativa fluência para alguém naquele estado. “Nunca esquecerei aquele momento,” disse Suzanne, “quando ele dedilhou as cordas e me agradeceu pelo hamburger que eu lhe servira uma hora antes, dizendo apenas que estava muito apimentado, e estava mesmo, aquilo foi como um raio de luz numa noite escura, e desde esse dia tudo que ele quer dizer ele diz cantando... Só não lembra de nenhuma das músicas que fez.”













terça-feira, 21 de julho de 2020

4602) "Dark", temporada 3 (21.7.2020)




Vou começar com a coisa que eu detestei na série Dark: aquele insuportável clichê da pessoa que acorda de um pesadelo sentando na cama, arquejante, com os olhos arregalados, a boca aberta. Usar isso uma única vez, pra mim, já é um defeito grave. O diretor usa em praticamente TODOS os episódios da série, às vezes repetindo no mesmo episódio. É um dos clichês mais desgastados da História do Cinema. Como é que isso passa pelas mãos de uma equipe inteira e ninguém questiona?!  Não tem perdão.

Esse “macete” de fingir que uma coisa horrível está acontecendo e depois dizer: “Era só um sonho! Brincadeirinha!” é um erro elementar. Rarissimamente soma alguma coisa ao filme. Você obriga o espectador a investir sentimento, impulso emocional, e depois diz que estava mentindo. Nas próximas, o espectador não acredita, não investe emoção. Mesmo inconscientemente, ele hesita. Já foi enganado umas, duas, três, quatro, cinco vezes. Pra quer morder de novo a mesma isca?

Eu dou logo um passo atrás. Fico assistindo da calçada.

Um defeito grave são os diálogos. É quando a gente vê que falta uma referência de idéias mais ampla. Falta poltrona a esse pessoal, dizia uma professora minha, para indicar que faltava leitura.


A cada episódio, os personagens repetem uns para os outros a mesma ladainha: “Tudo está interligado: luz e sombra... vida e morte... o fim e o começo...”  São banalidades abstratas pomposas, como num livro de auto-ajuda. É por isso que em Hollywood usa-se muitas vezes contratar um cara para escrever o roteiro, e outro para escrever os diálogos. Porque sempre tem gente que só sabe fazer uma das coisas.

Não quero botar um peso muito grande nas costas da roteirista/criadora Jantje Friese: pelo que vi nas bios, é apenas o segundo roteiro dela, que antes de Dark tinha escrito apenas um filme. E cabe a ela, em princípio, o grande mérito da série, que é a combinação de uma idéia ousada, um desenvolvimento complexo, um trabalho braçal imenso, absurdo, de manter a continuidade de ação e de psicologia de 15 ou 20 personagens ao longo de 4 ou 5 ou mais épocas.


É um roteiro corajoso, ambicioso, e que deve ser louvado pelo que tem de bom, numa época em que todo mundo opta pelo feijão-com-arroz e tem medo de arriscar. Jantje Friese não teve medo, quis arriscar. Quando um malabarista está no picadeiro jogando e aparando 10 bolas, e duas ou três caem no chão, a gente tem que aplaudir, sim. Senão, estaríamos até hoje pagando para ver alguém fazer malabarismos com 3 bolas. 

Já falei aqui que o erro de Dark foi querer expandir demais a complexidade do enredo, ao invés de explorar melhor o território (já em si complexo) demarcado na Temporada 01. Na Temporada 02 já houve um difícil equilíbrio, e na 03 o que tivemos foi uma dispersão dramática entre uma porção de situações contraditórias que os personagens tinham que explicar o tempo inteiro uns para os outros – e para o público.

A série ganhou em complexidade, mas acabou perdendo em profundidade. A Temporada 03 teve momentos em que parecia que a gente estava assistindo um storyboard.

Tenho meia dúzia de perguntas mal-respondidas, mas nem vou tocar nesse assunto aqui. O elenco é quase todo muito bom. O casting, como já falei, é extraordinário. A direção tira leite de pedra em lidar com as situações obrigatoriamente repetitivas propostas pelo argumento (um risco muito grande, típico desse tipo de história, e assumido com consciência). 

A parte visual é também excelente, e dou uma nota 10 para o design das Máquinas do Tempo, todas elas. Todas têm algo de steampunk, de ciência gótica.



Fico imaginando que o sucesso da primeira temporada esticou desnecessariamente o restante. Pena que um sucesso semelhante não tivesse premiado uma das minhas séries preferidas, The Lost Room (Christopher Leone, 2006), mais misteriosa do que Dark, e que morreu depois de uma temporada e seis episódios, deixando mil mistérios no ar:


Falei, ao comentar a Temporada 01, que Dark é no fundo mais um folhetim com dramas de família. E de fato tudo gira em torno de quem casou, quem descasou, quem traiu, quem nasceu, quem morreu.



E todas essas histórias de Viagem no Tempo, curiosamente, giram em torno do nosso desejo de mudar o Passado. Ninguém volta ao Passado para rever os lugares que foram marcantes, como o velhinho seu-lunga do Morangos Silvestres de Bergman. Volta para interferir, volta para tentar corrigir erros, volta por esse inconformismo humano de nunca se dar por satisfeito e achar que a vida poderia ter sido perfeita, impecável, sem um erro sequer.

Ou que a História é uma batalha que ainda não cessou, que é possível voltar no tempo para matar Hitler ou salvar Abraham Lincoln. E o que muitas dessas histórias nos mostram é que não adianta. Você volta no Tempo, corrige um erro, e o erro volta a acontecer. O Universo é teimoso, não quer ser corrigido.

Como diz uma personagem de Dark: “As coisas podem não acontecer do mesmo jeito, ou no mesmo tempo, mas acontecem”. Quem traiu com A, trai agora com B. Quem chantageou C, agora chantageia D. Quem tem o vício X, está agora com o vício Y.  Detalhes assim só importam para nós; o Universo faz a concessão e segue em frente com seu tanque Panzer.


Há um conto de Lewis Shiner (“Voodoo Chile”, Asimov Magazine, julho de 1993) em que um fã de rock volta no tempo para evitar que Jimi Hendrix morra, como morreu, engasgado com o próprio vômito após uma noite de farra em Londres. Ele volta. Vai nos bares. Fica amigo de Hendrix, revelando coisas futuras (sem explicar por que) e ganhando a confiança do músico. Na noite fatal, dá um jeito de alguém cuidar de Hendrix. No dia seguinte, Jimi está vivo! Maravilha! Vamos comemorar!  Vão beber no bar de sempre e ao saírem, de madrugada, surge do nada um maluco e esvazia um revólver no autor de “If Six Was Nine”.

O que tem de acontecer, como se diz por aí, tem muita força.


(O diretor Baran Bo Odar e a roteirista/criadora Jantje Frieser)

Volto a louvar a roteirista/criadora Jantje Frieser por uma outra ousadia: a solução final que adota para a “guerra entre dois universos”. Para solucionar o “nó górdio temporal”, não adianta desatá-lo, é preciso voltar um pouco mais e cortar tudo, mesmo ao preço de que numerosas linhas temporais deixem de acontecer. (E ela foca a solução num personagem-chave que estava ali o tempo todo; não é um simples deus ex machina).

É a ousadia assustadora de Isaac Asimov num dos seus melhores romances, O Fim da Eternidade (1955). E é diferente do “sustozinho do pesadelo” que critiquei no início. Investimos nosso envolvimento emocional com personagens cuja vida, afinal de contas, será apagada. Mas é como dizia Drummond:

“Deixaram de existir, mas o existido
continua a doer eternamente”.









domingo, 19 de julho de 2020

4601) Por que seguir as regras? (19.7.2020)




(São Luís-MA)


De vez em quando eu ministro (ou ministrava, quando o mundo era normal) “Oficinas de Poesia” e “Oficinas de Cordel” pelo Brasil afora. Onde a gente chega, encontra um público diferente, com diferentes níveis de informação sobre o que é “cordel”. Vou fazer uma “reconstituição”, como fazem os telejornais quando querem mostrar como se deu um acidente, um assalto, etc.

Estou sentado na mesa (gosto de falar sentado na mesa, diante da classe) e digo:

– Muito bem, acabaram os cinco minutos. Quem tem verso pronto?

Meu desafio foi: “Vocês tem cinco minutos para escrever uma estrofe típica de folheto de cordel; o tema é este: O QUE QUISER”.

Eles enterraram a cara na folha de papel e eu fiquei olhando pela janela, lá pra fora: um dia lindíssimo, bem nubladinho, céu todo branco, ventinho frio... Quanto é grande o poder da natureza!

Uma moça simpática, de óculos, daquelas que sentam logo na primeira fila, mete os pés e me traz uma folha de caderno.

– Ôpa, habemus versus. Como é teu nome?

– Dóris.

– Valeu, Dóris.

Ela senta, e já vem um cara de pulôver e boné trazendo outra folha.

– Tá aqui, professor.

– OK. Teu nome?

– Arlindson.

– Teu pai se chama Arlindo?

– Não, se chama João Batista. Por que?

– Nada não, é uma pesquisa que eu vivo fazendo. Pessoal, vamos dar um tempo. Temos dois exemplos aqui e vamos ler e comentar.

– Tem que entregar agora todo mundo? – pergunta um senhor grisalho lá atrás. Eu gosto dessas perguntas onde os termos vêm invertidos.

– Agora não. Sua Senhoria o Árbitro vai dar alguns minutos de acréscimos pra quem ainda não fez – digo. – Parem os cronômetros, e vamos ver os versos dos nossos amigos aqui.

Pego primeiro a folha de Dóris, que tem uma letra firme, bem legível. Várias palavras riscadas por cima, substituídas por outras.

Leio devagar, em voz alta, enquanto eles escutam:

O que quiser? O que é que eu quero?
Quero alguma coisa diferente de zero.
Quero o que não tenho. O que me desespero.
O que foi, o que não vai ser,
o que preciso decidir num segundo,
sabendo que não tenho todo o tempo do mundo
e cinco minutos são uma eternidade
quando o silêncio é tão profundo
quanto o céu que cobre a minha cidade.

Terminada a leitura, ergo os olhos. Todos estão com o olhar pregado em mim. Ninguém diz nada. O coroa magro de óculos, à esquerda, estica o lábio inferior e faz um sinal de assentimento com a cabeça, como quem diz: “Sim senhor”.

Pego o outro papel.

– Vamos ver agora o verso de Arlindson. Atenção, hein, gente? Isso aqui não é paredão não. Não é pra ver quem é melhor. A resposta poética é individual e personalíssima, como a impressão digital de vocês.

Leio:

Quero chamar os ouvintes
da cidade, do sertão,
para escutar este caso
de luta, amor e paixão;
foi um fato que se deu
na vila do Riachão.


(Montenegro-RS)

Levanto a vista. O silêncio continua, mas menos impressionado. Alguém encolhe os ombros como se dissesse: “E daí?”. Eu me viro para Dóris.

– Dóris, a primeira coisa que eu observo aqui é que a sua estrofe de cordel está com nove linhas. Porque você escolheu nove, e não outra quantidade?

– São nove? Nem vi. Que diferença faz?

Eu me viro para Arlindson.

– E o teu? Quantas linhas são?

– São seis, né? O cordel é feito em sextilha. Rimando a segunda, a quarta e a sexta.

Dóris dá uma risada alegre, sem implicância.

– Ai meu Deus, que coisa específica. Eu não sei rimar nem no sábado e no domingo.

– Mas você rimou – digo eu, mostrando o papel. – Tecnicamente falando, seu verso é uma estrofe de nove linhas, em métrica irregular, rimando AAABCCDCD. Um esquema meio irregular, mas que pra meu gosto funcionou.

– Que bom – diz ela. – Mas eu não pensei nada disso. Fui escrevendo pensando no sentimento, não me preocupei com métrica nem com rima, porque eu não entendo disso. Aliás, me inscrevi na oficina pra saber por que isso é tão importante, e pra aprender como se faz.

– Você já está bem encaminhada, rimou de maneira correta. Não esquente muito a cabeça. Tem poetas que são melhores na forma fixa, esse tipo com rima e métrica. E tem poetas que são o contrário. Se você acha que escreve melhor desse jeito aí, não se preocupe, mande brasa.

– Eita, “mande brasa”! Fazia quarenta anos que eu não escutava isso – diz um cara de bigode branco na terceira fila, se sacudindo de rir.

– E eu? – diz Arlindson.

– Você fez uma sextilha perfeita. Estrofe: seis versos, rimando ABCBDB. Verso: 7 sílabas sem fazer esforço – porque às vezes a gente tem que forçar um pouco a dicção pra poder dar certo. Rima: sem problema também. Uma coisa apenas: por que você botou o nome da cidade de “Riachão”?

– Porque é verdade. Eu estou com uma história na cabeça faz dias, e foi no Riachão, um lugar perto daqui.

– Foi Deus quem botou o nome desse lugar, porque a rima em “ÃO” é talvez a que mais tem na língua portuguesa. Quebra o maior galho. Mas tem que ser economizada. Senão fica repetitivo, o leitor percebe-sem-perceber e pensa: “isso tá ficando muito chato”.

– Eu também acho, e procuro variar. Nunca faço duas sextilhas seguidas usando a mesma rima.


(Uruguaiana-RS)

– Isso mesmo. Então, vejam: nós temos aqui dois exemplos que são o contrário um do outro. O verso feito por Dóris não é nem de longe um verso de cordel, porque faltam as regras tradicionais do cordel... Calma, calma, já explico. Mas o verso dela tem poesia!  Tem imagens, tem uma agitação de sentimentos. São frases filtradas pelo uso consciente da palavra. Poesia é isso, na base. O resto é a pirueta-verbal de cada um, o voo-alto-filosófico de cada um, o sentimento-do-mundo, ou não, de cada um.

“Já o verso de Arlindson é uma estrofe de cordel impecável: formato, métrica e rima. Mas eu diria que não tem poesia. Não tem essas coisas que acabei de elogiar no verso de Dóris. É aquilo que a gente chama, tecnicamente, de “prosa rimada e metrificada”, um texto que obedece as regras, mas não tem poesia. Calma, Arlindson, não estou dizendo que não presta.

“Uma característica do cordel é esse hibridismo, essa mistura de linguagem prosaica e linguagem poética. Não tem mal nenhum nisso. É difícil você fazer um folheto inteiro, mesmo de 8 páginas, com todas as estrofes ricas em poesia. O cordel é narrativo, conta histórias. Contando histórias ele também é descritivo. Muitos trechos do cordel têm esse fluxo da prosa, de narrar ações com simplicidade, de forma direta, e têm em outros momentos estrofes mais elaboradas, mais ricas em imagens, com uso mais original das palavras, e tal.

– Eu achei uma coisa – diz uma senhora de vestido escuro, sentada por trás de Arlindson. – Achei que o verso dela, pra mim, já era um poema completo. Por mim, está dito tudo ali, a indecisão dela, a angústia, a reflexão dela sobre o tempo... Não senti falta de mais nada. No dele, não. Ele começou uma história e deixou um gostinho de quero-mais.

– “Gostinho-de-quero-mais”, apesar do nome clichê, é um conceito útil na teoria literária – digo eu. – É isso que a gente procura deixar no leitor. Ora, o cordel é narrativo, quase sempre. Conta histórias. Essa estrofe de Arlindson é a estrofe 1 de um poema que pode ter 40, 80 ou muito mais. Tem que ter essa expectativa de “vem mais coisa”.

- E só é cordel se for assim? – pergunta um rapaz moreno chamado Millôr. O nome dele eu já gravei desde o primeiro dia, ele disse que a mãe era fã de Millôr Fernandes.

– Aí é que está. O cordel tem regras. Mas a poesia, em geral, é uma coisa livre: o poeta é o dono do poema, ele é quem determina as regras.

– E poesia precisa de regras? – diz Dóris. – Poesia devia ser, sei lá, o reino da liberdade, alguma coisa assim.

– As regras da poesia não servem para proibir, mas para focar. As formas fixas são desafios: poemas que obrigatoriamente têm que ter aquele formato. Pra reprimir? Pra prejudicar o poeta? Não: para ser uma prova de domínio da técnica. Mas só usa quem quer, ninguém é obrigado.

– Então rima e métrica é só pra isso? Exibição de técnica? Onde fica a emoção?

– Idealmente, a função da técnica é esta: dar recursos para a emoção. Sem técnica, vocês só tem uma ou duas maneiras de exprimir suas emoções. Com técnica, você tem duzentas. O que é melhor?

– O melhor é o que a gente sabe usar com mais sabedoria, não tem a ver com quantidade – afirma a senhora de preto.

– Então pronto – digo eu. – Papel e lápis na mão, todo mundo. Vocês têm cinco minutos para produzir um poema de cinco a dez linhas, rimado ou não, cordel ou não, não importa, um poema. O tema é o mais fácil do mundo: “O Brasil de hoje”, mas não pode usar a palavra “Brasil”, nem nenhum nome próprio, de pessoa, de lugar, de instituição. Mãos à obra. Cinco minutos, como dizia José de Alencar.

Eles abaixam a cabeça para o papel e eu penso: “Caramba, ainda bem que ninguém nunca me mandou fazer isso.”


(Barbacena-MG)













quinta-feira, 16 de julho de 2020

4600) "Dark", temporada 2 (16.7.2020)




Eu não gosto de discutir filmes dando spoiler, e ainda mais quando se trata de uma série com quase 30 episódios, que nem todo mundo tem tempo ou disposição para assistir em um ou dois dias.

“Dark” é uma série alemã no Netflix, com uma história de viagem no tempo. Lembra, por esta premissa, a série espanhola “El Ministerio del Tiempo”, também Netflix. As semelhanças param por aí. A espanhola é um seriado leve, de aventuras, com momentos de comédia e de vez em quando uma piscadela de romance. “Dark” não tem humor. Não tem nenhum momento que provoque uma gargalhada. Aqui e acolá a gente dá uma risada, mas é aquele humor meio sádico de quando a gente diz: “Eita, o cara achou que ia resolver o problema, e agora é que se fudeu de vez.”

Expectativas frustradas produzem esse tipo de riso, um humor sem alegria. “Dark” (já comentei aqui, dias atrás) é uma série sombria mesmo, sem alegria, sem sorrisos, embora tenha inúmeras cenas de forte emoção humana, várias que me deixaram com nó na garganta.


(Mikkel)

Justamente por isso: não é uma série desenhada para nos aquecer o coração. É o longo relato do desmoronamento vagaroso de um mundo, e de como as poucas pessoas que entendem o que de fato acontece não podem fazer nada para impedi-lo – e quando tentam, só fazem piorar as coisas.

Por outro lado, tanto “Dark” quanto “El Ministerio del Tiempo” usam um artifício de dramaturgia muito cômodo, típico de certo estilo de ficção científica. É a possibilidade de fazer a viagem e chegar exatamente no ano (às vezes no dia e mês) que se deseja. Coisa boa, né? Se um dia eu escrever uma história de viagem no Tempo vai ser assim; “Tu viaja, mas tu não sabe onde vai pousar. Quer ir?...”  Acho mais cientificamente rigoroso, mas quem sou eu.

Uma coisa que se deve elogiar nesta série alemã é o trabalho de “casting” da escolha do ator para cada papel. Mostrar um personagem em diferentes fases da vida (5 anos... 12 anos... 25 anos... 60 anos...) é sempre um desafio, porque tem que haver uma semelhança física, uma continuidade, para que a gente aceite a ilusão.



(Claudia Tiedemann)

Quando temos no cinema uma história de paradoxo temporal, vamos ter muitas vezes (como em “Dark”) um personagem aos 35 anos falando consigo mesmo aos 18, ou aos 70. Mais difícil ainda. E os atores e atrizes, na maioria, são muito bons.

A escolha do elenco da série é incrível, a ponto de muitas vezes quando um personagem novo surge inesperadamente, eu, que sou o pior fisionomista da história do cinema, penso logo: “É Fulano, agora mais velho”. Acertei em 90% dos casos desta série.


O roteiro é de uma enorme complexidade, manipulando uns 15 ou 20 personagens, ao longo de pelo menos 4 faixas temporais com cerca de 30 anos de diferença entre si. Olha só o problema de reconstituição de época, com roupas, cabelos, carros, decoração, mobília... Os experts devem ter notado vários furos – ainda não consultei a seção “Goofs” do Internet Movie Data Base, mas não importa. Para um olho genérico (o meu), erro zero.

Só o 2052 deles é que é igualzinho aos futuros em voga hoje em dia: carros de assalto, metralhadoras com design meio barroco, capacetes, tudo convergindo para um estilo de Distopia Militar Pós-Apocalipse que vai acabar sendo profética, porque, quando acontecer, pelo menos o figurino já estará à espera.


(O Futuro)

A complexidade da narrativa está fazendo muita gente abandonar o barco. Eu entendo. História de paradoxo temporal na FC é como crime de quarto fechado no romance policial. Você tem que ir construindo um “organograma” de pistas, relações, hipóteses, isso equivale àquilo, isso é por causa disso... Tem horas que muita gente diz: “Chega, me perdi, desisto”.

Quem já leu muita história assim se movimenta com mais facilidade. “Dark”, como muitas histórias desse tipo, tinha duas opções: 1) produzir o labirinto inicial, e ficar explorando as relações humanas dentro dele; e 2) sair expandindo o labirinto. Optou pela segunda.

Essa opção de continuar expandindo é o que alguns críticos da FC chamam “o estilo Doc Dmith”. O autor E. E. Doc Smith, criador da série dos “Gray Lensmen” começava com uma aventura espacial que envolvia o planeta inteiro; na segunda fase, a guerra envolvia todo o Sistema Solar; na terceira, era a Via Láctea inteira que tomava parte; na quarta, lá vinha gente de outra galáxia... É o estilo de cada um, mas equivale àqueles números de malabarismo de circo onde o cara começa com três bolas e daí a pouco está com dez.


(A Máquina do Tempo -- uma delas)

Um aspecto que eu gosto em histórias assim é que quando as pessoas ficam sabendo que alguém voltou ao Passado correm atrás de provas... e descobrem que essas provas estavam ali, a vida inteira, só que elas não viram. A foto do menino entre os coleguinhas estava no arquivo da escola. A foto do cara que foi preso saiu no jornal, 30 anos atrás. Todas as pegadas do Futuro estão lá no Passado... mas a gente só percebe depois.

Em O Fim da Eternidade (1955), de Isaac Asimov, um viajante no tempo vindo do Futuro fica preso na década de 1930 e dá um jeito de publicar mensagens “cifradas” nas revistas da época, deduzindo que seus colegas no futuro irão consultá-las e acharão essas coisas que, ininteligíveis em 1930, mostram ter sido escritas por quem veio do futuro.

A série “Dark” tem um visual extremamente eficaz, usando com habilidade uma tríade de ambientes (usina nuclear / cavernas / floresta). As alusões culturais (música de rock, comerciais de TV, vestuário) devem ser muito divertidas para quem prestou atenção aos anos 1980, o que não foi o meu caso. As máquinas do tempo (são várias – elas evoluem, feito os Pokémons) são de um design esplêndido, à altura da máquina Steampunk clássica de H. G. Wells conforme imaginada por Bill Ferrari no filme de George Pal (1960).







segunda-feira, 13 de julho de 2020

4599) Sete começos de conto policial (13.7.2020)




UM
                Meu primeiro encontro com o homem que destruiu minha vida foi num restaurante do Rio de Janeiro. Eu estava de saída, numa noite de quinta-feira, e parei junto a uma mesa onde reconheci o Dr. Túlio Andrade, que no ano anterior tinha defendido minha empresa numa causa cível qualquer. Cumprimentamo-nos e ele me apresentou os dois amigos que jantavam com ele. Um deles não lembro mais; o segundo era um homem magro, enrugado, de olhar inexpressivo, que apertou minha mão com aparente má vontade. Era Sálvio Revoredo, e quinze dias depois a polícia me acusaria de ser a pessoa que cortou sua garganta e o fez sangrar até morrer num terreno baldio de Nova Iguaçu.





DOIS

O detetive fez um sinal de silêncio para a cliente, levantou-se, abriu a janela deixando entrar os ruídos da rua, ligou o rádio num rock estridente e voltou à escrivaninha.
– Antes de qualquer declaração, deixe-me avisar: não me diga nada que possa comprometê-la. Fale como se houvesse um júri e um juiz aqui conosco.
A mulher ergueu os olhos para o teto, os ângulos da parede. Apertou a bolsa elegante com mãos trêmulas.
– Acha que pode haver microfones?... – disse.
– Nunca se sabe. Não afirme nada. Fale sempre no condicional. Então, pelo que entendi, se esse senhor tivesse mesmo sido assassinado... Teriam sido então seis tiros?
– Sim – disse ela, com mais segurança. – Teriam sido seis, e seriam poucos.





TRÊS

                Eram precisamente 06:51 da manhã quando Brenton, o mordomo de Stokely House, entrou na biblioteca para recolher, como fazia todas as manhãs, a bandeja que Sir Godfrey costumava ter à mão durante a noite para beber um pouco de uísque e mordiscar alguns frios enquanto escrevia. Ele foi até a mesa próxima à escrivaninha, varreu cuidadosamente com a mão alguns farelos esparsos e os colocou dentro do copo onde via-se um restinho de líquido cor de âmbar. Ergueu a bandeja e já se encaminhava para a porta quando viu, do lado oposto do grande sofá, duas pernas estendidas no tapete e dois pés calçando as pantufas de Sir Godfrey. Deteve-se, estupefato. Hesitou um pouco, e decidiu levar primeiro a bandeja para a cozinha, antes de verificar o que acontecera.




QUATRO

No ano 655 da era Ch’an, pouco antes da terceira lua cheia, a brisa que soprava perto das margens do Yun Chih veio naquela noite carregada de gritos, choros, imprecações. As lanternas amarelas e vermelhas que clareavam o Pavilhão da Melodia Sem Fim mostraram a partida súbita do senhor daquelas terras, o nobre Wang Su, que abotoava às pressas sua túnica militar, enxugava as mãos e o rosto numa toalha que jogou sobre os arbustos, tinta de sangue, e deu ordem ao cocheiro para que fosse embora dali.
Lá dentro, no claustro das concubinas, nove delas ajoelhavam-se aos prantos em torno do corpo inerte da décima, que tinha o rosto desfigurado de pancadas e um punhal cravado na garganta. Não era a primeira vez que o brutal suserano praticava tais violências, que mantinham todas elas com o peito opresso e a alma em terror. Mas nessa noite Ling Su Li pousou sobre o peito ainda morno da amiga uma mão fervorosa, e murmurou em voz baixa algo que há anos trazia preso dentro de si. E a segunda pousou a mão sobre a sua, e fez o mesmo, e depois a terceira, e a quarta – todas sacramentando o fato de que daquela noite em diante tudo continuaria aparentemente igual ao que sempre fora, aguardando o retorno costumeiro do tirano, mas que entre elas, aquele local funesto passaria a se chamar o Pavilhão da Sussurrada Jura.
  




CINCO

Não existe roubo impossível, não existe segurança inexpugnável. Era essa a palavra de ordem que pairava na mente de três homens discretamente vestidos, que passavam de mão em mão um poderoso binóculo, à janela do vigésimo-sexto andar de um hotel de Paris. Dali, num ângulo de 45 graus, podiam ver o quarteirão inteiro, os tetos, os pátios internos, e a última casa, de três andares, no final do Impasse Lenormand, a casa onde havia um cofre, o cofre onde havia uma caixa, a caixa onde havia um escrínio que seria de apenas um dos três. Ali foi confirmado o prazo de um mês, ali foi selada a aposta, e despediram-se com apertos de mão respeitosos e sem sorrisos.




SEIS

Ela cruzou a sala com passos lentos e sentou numa poltrona diante da minha. Cruzou as pernas. Usava uma sandália rósea, brilhante, e em volta do seu tornozelo cintilava uma correntinha de minúsculos elos de ouro.
– O que é isto? – perguntei, segurando seu tornozelo e passando a ponta dos dedos, de leve, pela corrente.
– Chama-se anklet – disse ela, acendendo um cigarro.
– Que coisa mais linda – disse eu, acariciando mais.
– Cuidado – disse ela, dando uma baforada. – Dá azar.
– Se dá azar, por que usa? – perguntei.
– Não é a quem usa – disse ela. – Dá azar a quem pega.





SETE

Às 17:30 de uma quinta-feira de junho de 2006, o sr. José Benício Morais de Lima, 44 anos, solteiro, representante de vendas, deixou o quarto-e-sala onde morava sozinho no Rio de Janeiro e pegou a ponte-aérea para São Paulo, como fazia três ou quatro vezes por mês. Era um homem magro, olhos azuis, lacônico, discreto, e viajava sempre com pouca bagagem. Nunca conduzia armas de fogo. Estas ficavam guardadas embaixo de uma tábua em seu apartamento.
Às 21:14 da mesma noite de quinta, o sr. João Batista Medeiros Luna, 44 anos, casado, representante de vendas,  chegou em sua casa em Vila Madalena, São Paulo, onde ao abrir o portão do jardim foi recebido com um beijo por sua esposa Lúcia Helena e com algazarra pelos filhinhos Laís e João Jr. Era um homem magro, olhos azuis, lacônico, discreto, e viajava algumas vezes ao Rio todo mês, para cumprir contratos.











sexta-feira, 10 de julho de 2020

4598) "Dark", temporada 1 (10.7.2020)




Vi a primeira temporada desta série alemã do Netflix. É uma tentativa de fazer uma série de ficção científica de “grande conceito” – um feixe de idéias ambiciosas exploradas até as últimas consequências – não as últimas propriamente, porque não as há, mas até uma distância segura. E de grande produção também, pois parece uma série cara, tecnicamente muito bem realizada.

Quem não viu ainda mas quer ler este texto pode ficar tranquilo. Darei uma idéia aproximada da história, mas não darei spoilers.

É uma história de viagem no tempo, e transcorre numa pequena cidade alemã, Winden, situada entre uma usina nuclear e uma floresta, que são os dois ambientes principais. Pessoas desaparecem misteriosamente, sempre nas proximidades de um sistema de cavernas subterrâneas (a Alemanha é cheia delas) no meio da floresta. E pessoas estranhas são vistas na cidade o tempo inteiro, referindo-se a fatos igualmente misteriosos ocorridos três décadas atrás.

O espectador percebe desde logo que o enredo envolve viagens no Tempo e os famosos paradoxos temporais, a que todo mundo já foi exposto desde Back in the Future: E se você voltasse no Tempo e visse seus pais ainda adolescentes, antes mesmo de namorarem?  E se você voltasse no Tempo e visse a você mesmo ainda garoto?



Há duas tendências principais a respeito disso, nos autores de FC.

Uma delas eu chamo de Os Divergentes: qualquer ação mínima que se faça pode influenciar o tempo; você pisa numa borboleta e, por causa da morte dela, o futuro será todo diferente. É uma espécie de carnavalização do Livre Arbítrio.

A outra eu chamo Os Convergentes: não importa o que a gente faça, há uma força no Universo que corrige esses pequenos desvios e faz tudo voltar a acontecer como teria que acontecer mesmo, não adianta espernear. Uma carnavalização do Determinismo.

Como a série ainda está em progresso (tem as temporadas 2 e 3 pela frente), ainda não sei o Futuro. Vou comentar outros aspectos interessantes, não-ciência-ficcionais, da dramaturgia.

Vi amigos meus se queixando de que os personagens (há várias famílias com protagonistas, a coisa é maior do que Cem Anos de Solidão) são todos parecidos, e isso atrapalha a gente. Não que sejam parecidos fisicamente. São pessoas de “astral” sempre igual.

Será que os alemães são todos assim? (Os meus amigos alemães tinham um pouco disso, mas não tanto.) O povo de Winden é um povo carrancudo, parece que está com raiva o tempo todo. Adolescentes que namoram, se abraçam, se beijam, trepam, tudo isso sem um sorriso. Perpassa uma sombra o tempo todo. (Recomendação da dramaturgia? Pode ser.) Pode ser também o orvalho radioativo que eles absorvem.

Isso pega mal para uma platéia brasileira, porque entre nós o sorriso é uma vaselina universal que torna suportável a convivência humana. Dependemos tanto do sorriso sincero que damos carta-branca ao sorriso falso. O sorriso de condescendência, o sorriso de escárnio, o sorriso de fúria, o sorriso de neurose impotente, o sorriso de súplica. Alemão, não. É sério como um retrato falado feito em delegacia.


Uma das teses da série, como da FC em geral, é a de que “o Futuro modifica o Passado”. Isso tem um reflexo dramatúrgico muito interessante no fato de que Winden tem famílias que se conhecem ao longo de décadas, e se relacionam o tempo todo: os Tiedemann, os Nielsen, os Doppler, os Kahnwald...   E esses relacionamentos envolvem casamentos, mortes, ódios antigos, namoros, dívidas, perseguições, alianças, vinganças...

É o velho melodrama de folhetim, as árvores genealógicas intrincadas que faziam a festa de Balzac, Dickens, Dumas, etc.  Tudo enroscado numa webwork de relacionamentos que daria vertigem no mestre desse estilo, Harry Stephen Keeler, que se limitou ao melodrama policial e não se arriscou muito em viagens no tempo.



(A "webwork" de um livro de H. S. Keeler)


No melodrama mainstream (leia-se: a telenovela) a gente não volta no tempo fisicamente, mas volta mentalmente o tempo todo. Não podemos mudar os fatos concretos do passado. Podemos mudar, isto sim, nossa interpretação deles, com as devidas consequências a partir daí.

Podemos revelar um fato que ninguém sabia. Podemos reinterpretar um fato  que tinha sido visto de outra forma. Podemos perceber pela primeira vez uma relação entre dois fatos antigos. Podemos entender por fim (com algum dado novo) um fato que até agora tinha permanecido inexplicável. Podemos recuperar informações perdidas, podemos recordar detalhes que tínhamos esquecido.



Isso tem sido, nos últimos 200 anos, a substância do melodrama, do folhetim literário, da telenovela do horário nobre. O baú do Passado sendo aberto.

“A estética do Ah Se Eu Soubesse”:

“A estética do Meu Passado Me Condena”:

“A estética do Por Essa Eu Não Esperava”:


A verdade é que os fatos já aconteceram – mas o que chamamos de “fatos” é o que sabemos a respeito deles. E que pode mudar, com as revelações bombásticas de qualquer enredo bem bolado.

Grande parte de nossa literatura se baseia nisso: o que aconteceu no Passado? Capitu traiu, ou não traiu? É um Passado que, em tese, pode pender para qualquer lado. Em Machado de Assis, um cristão não pode abrir uma gaveta sem achar uma carta comprometedora, o que faz desmoronar um castelo com rochas de mil anos.

Dizem os personagens de Dark: “Todo mundo nesta casa tem segredos”. “Você já percebeu que não conhecemos direito nossos pais, não sabemos como eram eles na infância, na juventude?”.  E agora o aparato da FC serve a esse tipo de plot.

Dark, por mais que mostre personagens viajando loucamente para o Passado e para o Futuro, tem algo da tragédia grega de sempre: pessoas que tentam evitar que algo aconteça e nesse esforço acabam justamente provocando o que queriam evitar. 




(Aqui, meus comentários sobre a Temporada 02):
http://mundofantasmo.blogspot.com/2020/07/4600-dark-temporada-2-1672020.html