domingo, 25 de agosto de 2013

3274) Memória de cantador (25.8.2013)





(José Gonçalves, foto Roberto Coura)



“Cantar repente é como mentir, o cara precisa ter boa memória. O repentista precisa tanto de uma memória farta quanto precisa de ligeireza no repente. Como ele pode ter ligeireza se a memória dele não for bem organizada, e bem cheia de coisas? 

"O cara precisa lembrar, na hora que lhe vem uma idéia de um verso, no instante das palmas, e quando as palmas diminuírem ele tem que entrar cantando, ele tem que saber se aquele verso é dele mesmo ou é um dos milhares de versos dos outros que ele sabe de cor. Muitas vezes o cara canta um verso alheio sem perceber e nunca teve essa intenção, mas passa a ser tido como aproveitador. Melhor evitar.

“Precisa ter boa memória para os nomes das coisas: dos lugares, das pessoas, de todo mundo que está presente naquela noitada, naquela viagem, naquele acontecimento. 

"Tem que saber também as informações dos livros, e aí o céu é o limite, mas ele tem que ter. Não adianta estar cantando sobre o Papa ou sobre um craque do futebol se não hora H errar ou não souber o nome do Papa ou o apelido do craque.

“Precisa ter boa memória também porque às vezes acontece de você ir fazer um verso e o verso não sair muito bom, por umas escolhas erradas de rima, ou qualquer besteira assim. Aí, não sei quantos anos depois, acontece uma chance de você poder voltar àquele verso, você improvisar aquele verso de novo, e o fato de já ter pensado nos problemas dele ajuda você agora a organizar as palavras de uma maneira melhor. O nome disso também é improviso.

“Precisa ter boa memória também para reconhecer o verso alheio que está sendo imitado ou repetido pelo companheiro, para ficar alerta e usar essa informação do modo que lhe convier. Porque acontece de, sem ser combinado, alguém se pegar com um decorado e você ficar queimando óleo pra inventar versos do nada. Pra depois dividirem a bandeja por igual.

“Quando se canta decorado é preciso ter boa memória para não se atrapalhar no que já sabe e já fez. Quando se está improvisando é preciso ter memória para não repetir, e para achar rápido o nome, a data, o detalhe de cada um. 

"Um cara uma vez pagou na bandeja com um cordão de ouro dessa grossura, só porque eu lembrei o nome do sítio onde ele tinha nascido, e das pessoas com quem ele passou a infância. 

"Ficar a vida toda brincando mentalmente com nomes de lugares e de pessoas, agrupando esses nomes pelo tamanho, pela rima, pela cadência, escolhendo rimas por afinidade e deixando-as próximas. Às vezes bastam duas linhas perfeitas para fechar uma sextilha; o resto pode ser deixado para resolver na hora, no calor do momento, às vezes sai até melhor do que o que já veio preparado.”




sábado, 24 de agosto de 2013

3273) A visita do Conde (24.8.2013)




(by Ralph Eugene Meatyard)

A morte repentina do Conde d’Aureville, em 1897, emocionou a Bretanha inteira, e ao seu funeral compareceram autoridades de oito países. Era autor de romances, de crônicas da corte, e de uma vasta correspondência com fidalgos e damas de toda a Europa. Sua coleção de documentos políticos foi doada ao Vaticano, mas sua biblioteca pessoal era o deleite dos pesquisadores de muitos países. Uma noite, no salão octogonal da biblioteca, estavam pesquisando documentos e fichários dois biógrafos (o húngaro Besolz e o alemão Scarblitz) e uma estagiária (a canadense Strumm). Os três trabalhavam a uma distância mediana entre si, por entre as estantes e arquivos. Naquela noite, foi como se uma mão gigantesca tivesse girado num botão. Houve como que uma ionização na atmosfera, o ar estralejou de energia, como se um toque de ponta de dedo emitisse um raio.

Eles se refugiram correndo junto à mesa central do aposento, onde a turbulência parecia ser menos intensa. No centroda sala, numa cascata de tremulações coloridas, apareceu o Conde d’Aureville. Sobranceiro, fornido, o chapéu de pluma arrogante, os copos da espada pronta para o desembainhar. Mas estava sereno, e olhou nos olhos cada um dos três intrusos. Sua voz era calma. Deu a cada um o direito a uma pergunta.

Besolz ergueu o braço. “Sire, estou consultando vossa correspondência, mas não sei quem é a tal Sereia que vos escrevia tanto.”  O Conde o encarou e disse: “Se és pesquisador mesmo basta dizer: é a mesma que um dia dirá sob outro nome que aprendeu comigo a amar a noite.”  Besolz assentiu devagar, com uma cara de quem já conseguiu metade do que queria.

“E tu?”, perguntou o Conde. “Mais de mil cartas militares,” queixou-se Scarblitz. “Tenho estudado muito mas não entendo tantas manobras, tantos armamentos, tantas combinações.” “Nem eu,” disse o Conde. “Limitei-me a copiar as cartas de uns generais para os outros, e dos outros para os uns. Ser político é ter uma dedução correta sobre o que acontece, com dados colhidos pelos outros.” O homem ficou calado. O Conde continuou: “Esquece isso. Procura minhas cartas com os ministros da Polônia e da Transbalcânia. Todo o resto é consequência dessas.”

Virou-se para a moça de rabo-de-cavalo louro. Ela lhe disse: “Senhor, há um código, não é verdade? Não o decifrei ainda mas percebi uma intercalação de letras sem sentido. É um código?” A imagem do Conde tremulou e, com um relâmpago cegante, desapareceu. Os três mal acreditaram no que tinham ouvido. Na manhã seguinte, a canadense apareceu morta durante o sono, com uma expressão de triunfo no rosto claro.


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

3272) David Foster Wallace e o navio (23.8.2013)



Em seu volume de ensaios
Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo (Cia. Das Letras, 2012), David Foster Wallace relata a empreitada que recebeu da revista Harper’s: fazer uma semana de cruzeiro pelo Caribe num navio de luxo, e relatar suas impressões. 

O texto resultante, “Uma Coisa Supostamente Divertida Que Eu Nunca Mais Vou Fazer”, é alternadamente fantástico, engraçado, assustador, intrigante. Como sou um escritor profissional e Wallace também o era, recorro ao senso ético da profissão para supor que ele não inventou nada daquilo. Sua interpretação dos fatos é a mais subjetiva e distorcida possível (ele mesmo o admite várias vezes), mas se os fatos forem mesmo aqueles o mundo é um lugar muito fantástico. Comparado a ele, Salvador Dali é um Mondrian.

As 125 páginas do ensaio são uma mistura do jornalismo gonzo de Hunter Thompson e da nostalgia claustrofóbica de E La Nave Va.  

Documenta a hipertrofia das glândulas consumistas que Henry Miller já tinha diagnosticado em Pesadelo Refrigerado e a cafonice endinheirada de True Stories de David Byrne ou de Heaven de Diane Keaton. 

Tem a voltagem de algumas das reportagens de Bruce Sterling ou William Gibson (só que com humor). E nos faz sentir o tempo inteiro a flutuação escheriana entre um corredor na Ilha de Caras e uma escada num filme de David Lynch. A terrível revelação de que o Sonho Americano é, e sempre foi, uma “bad trip” gerada por um LSD com defeito de fábrica.

Wallace observa, interage, recorda e escreve ora como um filósofo pessimista, ora como um adolescente travesso, ora como um intelectual mergulhando em espirais vertiginosas de associações de idéias dentro de idéias num torvelinho que se exprime por meio de suas famosas notas gigantescas de pé de página que se desdobram diante dos olhos do leitor como bonecas russas contendo outras bonecas, numa construção-em-abismo sem fim. 

Curiosamente, é um olhar tipicamente masculino, embora não machista, pelo tom do seu discurso, a empáfia das descrições técnicas, a auto-ironia peculiar, o prazer infantil das sugestões escatológicas, a camaradagem rude com os serviçais... 

Um grande livro, mas não consigo imaginar uma mulher gostando dele, pelo menos as mulheres para as quais se destina a chamada “literatura do olhar feminino”. Se isso de fato existe, o olhar de Wallace é um olhar masculino, mesmo que ele não dê muita importância aos aspectos de gênero. Ele tem uma irreverência e uma fascinação de rapaz adolescente pelos aspectos numéricos, verbais e técnicos do mundo que está descrevendo. E desenvolveu um estilo que é ao mesmo tempo produto desse mundo e caricatura crítica dele.







quinta-feira, 22 de agosto de 2013

3271) TV Vigilância (22.8.2013)



(Videodrome, de David Cronenberg)

As discussões a respeito do uso da TV daqui pra frente têm que considerar que a TV está deixando de ser apenas espetáculo. Continuamos vivendo na tal “Sociedade do Espetáculo”, mas quando tudo vira espetáculo, o poder magnético do espetáculo se dilui, se redistribui ao longo de toda a cadeia. A TV Espetáculo tenta se manter como pode, mas cresce uma coisa nova: a TV Vigilância, produzida pelos milhares de câmeras espalhadas pelas autoridades nas ruas, praças, prédios, etc.  Agora surgiu sua contrapartida: uma TV Vigilância da população. Com os novos meios de transmissão individual, cada pessoa pode se transformar numa TV ao vivo.

As transmissões recentes da Mídia Ninja varam o dia, a noite, a madrugada, transmitindo ao vivo manifestações ou reuniões, mas sofrem uma crítica constante: “Quem diabo tem tempo para acompanhar uma manifestação em tempo real? Quem pode ficar a noite toda em casa sentado, assistindo uma passeata?” Amigos já me disseram: “Acho simpático, mas prefiro o compacto de 3 minutos sobre a passeata, feito pelas TVs convencionais”.

Eu vejo essas manifestações. Como? Abro uma aba no TwitCasting, solto ali a transmissão da Mídia Ninja, abaixo o som, troco de tela e fico trabalhando, ou então maximizo a imagem e fico lendo numa poltrona próxima. Quando a voz do narrador sobe de tom, olho para a tela. (É assim que vejo futebol, aliás. Não fico grudado no futebol os 90 minutos. Eu deixo ligado – e leio, escrevo, trabalho, toco violão, e só presto atenção “quando o bicho pega”.) Não é espetáculo, é uma parte do ambiente, algo que está sempre ali, como o rádio que acalenta as fantasias das donas-de-casa que cozinham, ou como a muzak que atenua a promiscuidade demográfica dos elevadores.

A TV Vigilância, aliás, não é nada de novo. Darei um exemplo: a TV Câmara e TV Senado. Quem assiste aquelas tediosas transmissões dos bate-bocas e dos bate-papos dos nossos bravos congressistas? Resposta: muito pouca gente, mas é bom saber que votações de leis e defesas de projetos podem ser acompanhados por alguns milhares de indivíduos interessados no que vai ser discutido naquela tarde ou noite. Aliás, a transmissão de algumas CPIs tem dado índices de audiência sensacionais para uma TV “chapa branca”. Esse tipo de vigilância não é para dar Ibope nem para ser assistido no dia-a-dia – mas precisa estar presente no dia-a-dia, para que grupos diferentes de pessoas assistam, de acordo com o interesse de cada um. É o contrário da TV espetáculo, em que “o Brasil para pra assistir o capítulo da novela”. E volto ao meu bordão: se o Governo vigia o Povo, o Povo deve usar a mesma tecnologia para vigiar o Governo.


quarta-feira, 21 de agosto de 2013

3270) Escrever e cortar (21.8.2013)





Parece que foi Hemingway, ou Graciliano Ramos, ou Carlos Drummond, ou John Ruskin, ou Armando Nogueira, quem disse: “Escrever é cortar palavras”. 

Um conselho útil, uma boa frase de efeito. Mas tem um porém. Cortar o que? Para cortar, é preciso ter escrito alguma coisa. E se alguma coisa foi escrita e precisa ser cortada, é porque foi escrita em excesso. De modo que o conselho tem duas partes, com a primeira subentendida; o conselho completo seria: “Escrever muito, e depois sair cortando”. 

O que aliás tem sintonia com outra frase famosa, esta sim, de Hemingway: “Escreva bêbado. Revise sóbrio”. Conselho que pode incomodar os abstêmios, de modo que podemos substituí-lo por: “Escreva com entusiasmo, corte sem piedade”.

Não vale para todo mundo, é claro. Acho que James Joyce, Balzac, cortavam muito pouco. Cada vez que recebiam as provas da gráfica, enchiam as margens com novas frases, novos parágrafos inteiros. E os tipógrafos ficavam malucos. (Refazer essas coisas, naquele tempo, dava um trabalho insano.) 

Guimarães Rosa cortava muito, mas o texto não se reduzia, porque tudo que ele cortava substituía por outra coisa. (As antigas edições de seus livros, pela José Olympio, reproduziam páginas inteiras de provas revisadas por ele em letra desenhadinha, meticulosa, legível demais, como se pedisse desculpas aos tipógrafos.)

Escreva entusiasmado (se for esse o seu temperamento como escritor), escreva com exuberância, com exaltação, jogando no papel tudo que lhe passar pela cabeça. Descreva com detalhes, prolongue os diálogos, tente cobrir com palavras tudo que sua imaginação lhe sugerir. Naquele momento de escrever, abre-se uma janela em nossa mente, que depois se fecha. O que você está acessando naqueles minutos já não acessará na manhã seguinte; então, despeje tudo na página, antes que o portal se feche.

No dia seguinte, pegue uma caneta e vá cortando, sem pena. Veja entre essas frases qual delas merece ficar; veja qual delas já contém (ou sugere) as que estão indo para o lixo. 

Em geral, quando escrevemos, repetimos muito. Em diálogos principalmente. Dizemos a mesma coisa de duas ou três maneiras diferentes. Estamos ainda no processo de descoberta, por aproximações sucessivas. No dia seguinte, começa o processo seguinte, o de cristalização. O que estava ali só para ajudar, só para servir de veículo, pode desaparecer. 

Como um copo de água com sal, onde a água se evapora e deixa o sal no fundo. O sal é o texto que vai para o livro. Mas se esse texto for realmente bom, será possível sentir nele a presença da água que o trouxe até ali. 

Corte sem piedade. Cada palavra que você corta aumenta o valor das que ficam.







terça-feira, 20 de agosto de 2013

3269) Os ódromos (20.8.2013)



Circula a notícia de que a PM carioca sugere a criação de um Manifestódromo onde venham a se concentrar os novos protestos populares, que estão causando transtorno à cidade. É como se dissessem: “Um milhão de pessoas uma vez por ano, tudo bem, mas 500 gatos pingados todo dia não pode!”.

Há um paradoxo curioso e talvez insolúvel na criação de um espaço delimitado e oficial para protestos públicos. Tudo que os governos e as autoridades querem é controlar esses protestos, dizer o que pode, o que não pode, como vai ser, como não vai. O governo quer ser o coreógrafo do protesto, o carnavalesco da manifestação. Demarcar um lugar, estabelecer um horário (“é permitido protestar aqui das 6 às 8 e meia...”), disciplinar a produção sonora (“bater latas pode, soltar fogos não”), gravar e filmar quem entra e quem sai... Qualquer governo fará o possível para conseguir isso.

Por outro lado, tudo que manifestantes, protestadores, anarquistas, baderneiros, vândalos e rebeldes em geral querem é justamente não se deixarem controlar dessa forma. Para eles, liberdade concedida não é liberdade, protesto consentido não é protesto, revolta autorizada não é revolta. E têm razão, não é mesmo? Talvez o resultado prático traga contratempos para todo mundo, inclusive para mim (que fico preso no engarrafamento) mas filosoficamente não posso contestá-los.

Tudo que termina em “ódromo” fica com um cheiro de coisa fake, coisa falsificada, marca de fantasia. Não sei se foram Brizola e Darcy Ribeiro que batizaram com esse nome o Sambódromo carioca (foi Darcy, com certeza, quem criou a expressão “Praça da Apoteose”). O modelo, claro, foi o Autódromo de Jacarepaguá; durante a construção da Passarela do Samba, o termo “sambódromo” surgiu na imprensa e acabou pegando. Logo depois, veio o Camelódromo da Rua uruguaiana, para onde foram recambiados todos os camelôs e ambulantes que transformavam o centro do Rio num enorme mafuá. Hoje, o Camelódromo funciona que é uma beleza, vive cheio de gente, é um dos lugares mais tupinipunks do Rio de Janeiro, e o centro está virando o mesmo mafuá de antigamente.

Sambistas, camelôs, manifestantes... Esse tipo de gente é incontrolável, tanto pela sua mania de só fazerem o que querem quanto pelo fato de que parecem brotar de um formigueiro inesgotável. Muitas autoridades adorariam montar uma frota de cargueiros e embarcá-los para a Mauritânia ou a Indonésia. Como não podem, recorrem às pranchetas dos técnicos e ao concreto das empreiteiras. Talvez daqui a poucos anos o Rio tenha um “ódromo” a mais, o que não quer dizer que terá manifestantes, baderneiros ou vândalos a menos.


domingo, 18 de agosto de 2013

3268) O mundo do sucesso (18.8.2013)






(by Laurie Lipton)



Um escritor famoso faz uma viagem para outro país e, em cartas para os amigos, comenta a recepção que teve e a vida social em que mergulhou. Dois trechos:

1) “Esta cidade me engoliu como uma planta carnívora engole uma mosca. Tenho vivido sem fôlego há cerca de cinquenta dias. A vida aqui consiste em uma série de encontros marcados com uma ou duas semanas de antecedência: almoço, coquetel, jantar, festa à noite, são estas as várias fases de um dia, permitindo-me conhecer novas pessoas o tempo todo, para marcar novos almoços, novos jantares, novas festas e assim por diante, ao infinito. (..) Isto aqui não é a terra do imprevisto, mas é a terra de uma vida mais rica, onde todas as horas do dia estão preenchidas; a terra que nos dá a sensação de estar em plena atividade, mesmo que muito pouca coisa seja feita, a terra onde a solidão é impossível (só passei sozinho uma única noite, das cinquenta em que estou aqui).”

2) “Não me sinto feliz e estou terrivelmente rouco devido à laringite. A farra aqui é muito intensa. Você vai para um almoço com oito pessoas e no dia seguinte cinco delas o convidam para jantar. Assim, tudo que você consegue fazer é comer, beber e se entediar”.

Tudo indica que se trata do mesmo sujeito falando sobre o mesmo ambiente, mas as duas cartas têm origem diferente. 

A primeira é do italiano Ítalo Calvino falando sobre sua estadia em Nova York a partir de 1959, quando recebeu uma bolsa para passar seis meses nos EUA. 

A segunda é do norte-americano Raymond Chandler falando sobre sua estadia em Londres, em 1955, quando viajou para a Inglaterra tentando fugir à depressão causada pela morte de sua esposa.

Calvino era um rapaz de 36 anos, cheio de entusiasmo; Chandler um homem de 67, alquebrado pela bebida e pela perda recente de Cissy. Os dois, no entanto, transmitem em poucas linhas a sensação de vertigem do indivíduo caído de paraquedas no mundo da boemia e do sucesso. 

Um mundo onde não há distinção entre noite e dia, entre dentro e fora. Onde se dorme de luz acesa, vestido, com o quarto cheio de gente. Onde taças cheias de champanhe milionário esquentam esquecidas no parapeito da janela ou na bancada do banheiro. 

Onde há sempre alguém rindo e alguém gritando, onde a música não pára, onde se olha pela janela e não se sabe se é o fim da tarde ou o amanhecer, onde carros cheios de gente inebriada e lânguida percorrem a cidade, fechando um bar aqui, abrindo um bar acolá, onde as contas são pagas sem ser conferidas, onde as histórias são contadas dezenas de vezes, onde as gargalhadas se misturam na mesma algazarra que ora parece melodia, ora raiva, ora terror.









sábado, 17 de agosto de 2013

3267) Armagedon das abelhas (17.8.2013)




Na Bíblia, as pragas do Egito e outros fenômenos apocalípticos envolviam manifestações de caos no mundo dos animais e dos insetos (pragas de gafanhotos, rãs, etc.). Na vida real, são as abelhas que estão dando o alarme. Falei em 2007 aqui nesta coluna (“A debandada das abelhas”: http://bit.ly/11PVSo9) sobre o fenômeno da “Desordem do Colapso das Colônias”, que nos últimos seis anos dizimou cerca de 10 milhões de colmeias. Estudos recentes indicam que o pólen recolhido por essas abelhas está contaminado por um verdadeiro coquetel de pesticidas; já foram descobertos 21 agrotóxicos diferentes em uma única amostra.

Os cientistas dizem que a absorção de fungicidas era considerada inofensiva para as abelhas, pois eles se dirigem contra a população de fungos. A gravidade da situação trouxe um elemento de tensão a mais entre a Rússia e ao EUA. A Rússia questiona o uso de inseticidas chamados “nicotinóides”, que, afetando a população das abelhas, pode desequilibrar a cadeia ecológica e comprometer a produção de alimentos do mundo inteiro. Houve irritação, dias atrás, num encontro entre Vladimir Putin e o Secretário John Kerry. Dois dos principais nicotinóides (Actara e Cruiser) são fabricados pela Syngenta, baseada na Suíça, parte de um grupo que inclui outros gigantes como Monsanto, Bayer, Dow e DuPont e controla quase a totalidade de pesticidas, plantas e sementes geneticamente modificadas.

Críticas pesadas vêm sendo feitas ao governo Barack Obama pela promulgação de leis que liberam as grandes empresas para produzir e comercializar material geneticamente modificado, e pelo fato de que o presidente colocou pessoas ligadas à Monsanto (como Roger Beachy, Michael Taylor e outros) em postos-chave do governo. O peso político dessas empresas, e o modo como seus lobistas estão incrustados em Washington, não permite imaginar que venham a perder influência no futuro próximo.

Sem querer ser apocalíptico, mas as cadeias ecológicas são tão bem encaixadas que não precisa de muita coisa para produzir desastres localizados. Basta lembrar episódios de proliferação descontrolada como a de coelhos na Austrália, de pardais nos EUA, de abelhas africanas nas Américas. A ficção científica já imaginou inúmeros cenários de catástrofes ecológicas globais onde há mais interesse em explorar as consequências do que as causas, mas como ainda estamos na fase das causas, são elas que nos interessam do ponto de vista prático. Com os milhões de toneladas de agrotóxicos despejados no mundo todos os anos, é só uma questão de tempo. A cada década que passa, as possibilidades de um colapso ecológico se multiplicam por todos os lados.


sexta-feira, 16 de agosto de 2013

3266) "Breaking Bad" final (16.8.2013)



Começou a temporada final do seriado (TV a cabo, HBO) Breaking Bad. O derradeiro capítulo tinha deixado alguns milhões de pessoas penduradas na borda da falésia, ou no parapeito de um arranha-céu. Houve o salto. O vácuo. O negror de um tempo. E de repente o retângulo negro se ilumina. Surge um homem de barba ruiva e óculos, arrombando uma casa abandonada, onde garotos praticam manobras bobburnquistianas numa piscina vazia. Ele invade essa casa onde há um nome próprio cruelmente pichado numa parede interna entre as ruínas, e atravessa uma cenografia que transmite de modo competente a idéia de longo tempo passado. Pega o que tinha ido pegar, e cai fora dali, não sem cruzar casualmente com alguém.

Breaking Bad é história de uma descida ao inferno de um sujeito que acha ter carta-branca para defender sua família. Nerd incurável, o negócio de Walter White não é droga: é planejamento, competência, ciências exatas e – agora, depois de tudo que passou – instinto assassino rumo ao topo do pódio. A lentidão bouleversante da terrível certeza de seu adversário Hank, uns olhos claros como olhos de zumbi de lenta iluminação, depois que caiu a ficha, ou melhor, a tampa de bueiro. O folhear febril dos dossiês, num clip de resumo. Um grande momento de tragédia grega, ou, no mínimo, aqueles momentos em que o personagem descobre o que a platéia já sabia há tempos.

Uma esgrima verbal em normal e itálico num balcão de lava-carros. Skyler vira Mrs. Heisenberg pra cima de uma intrusa. Um interminável diálogo Repo Man entre dois malucos, que pode dar aos detentores da franquia Star Trek pretexto para uma bilionária indenização. Cinco milhões de dólares de mão em mão e ninguém quer, dinheiro de sangue, dinheiro não vale nada mesmo, dinheiro na mão é vendaval. Momentos de tensão. Um ping-pong rápido de grafologia, dedicatórias em plano de detalhe, o espectador, saturado de informação, assinando embaixo de cada desfecho, ou quase todos.


O confronto em que A interpreta uma coisa para B com quem dialoga e outra para a platéia subentendida. O momento do arranque de máscaras de ambos. Hank não é um grande detetive num ranking sherlockiano, mas é um cara pentelho, vasculhador, que tem a intuição correta sobre os crimes que têm acontecido, mas não conseguiu (talvez por cegueira emocional, preventiva) enxergar a verdade que vê agora.  Dois indivíduos, um que se defende como um tigre, outro que tem todos os motivos para o ódio e a vingança, cada qual com a família do outro nas mãos. Momento sertanejo, com “slide guitars” tipo Sérgio Leone, num hardboiled bolañesco em Albuquerque, Estado do Novo México.


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

3265) Os ensaios de Wallace (15.8.2013)





Este volume de ensaios de David Foster Wallace (Cia. Das Letras, 2012) tem um título que parece uma correntinha de clips: Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo (tradução satisfatória para o original: “Getting Away from Already Pretty Much Being Away From It All”). A tradução é de Daniel Galera e Daniel Pelizzari, que cortam um dobrado, com competência, para traduzir a prosa errática, precisa, absurdista de Wallace. O livro tem ensaios variados: um texto curto e perceptivo sobre o humor na obra de Kafka; uma análise em câmera lenta e stop motion dos prodígios que Roger Federer realiza numa quadra de tênis; uma aula magna em que ele diz aos estudantes, basicamente, que a vida é chata, e que cabe a nós torná-la excitante e maravilhosa através do esforço conjunto da imaginação e da vontade; uma reportagem gastronômica que desanda num questionamento do nosso direito de matar lagostas em água fervente.

Wallace é uma mistura de satírico feroz e humanista compassivo, tão frequente na literatura dos EUA. Ele consegue, num mesmo parágrafo, mostrar todo o ridículo do comportamento de um grupo de pessoas e ao mesmo tempo nos despertar uma certa simpatia por elas. Isto é mais visível nos dois primeiros (e mais longos) ensaios do livro. O primeiro, que lhe dá o título, é sua cobertura da Feira Estadual de Illinois, uma dessas feiras agro-industriais-precuárias que misturam comércio e lazer. Eu gostaria de ver o choque cultural que esse texto produziria num habitante de um grotão qualquer, alguém que não vê TV e tem apenas uma vaga idéia do que sejam os EUA. O próprio Wallace, que passou a infância e a adolescência em Illinois, quase se apavora diante daquele evento de desbragado consumismo, mau gosto, glutoneria, tacanhice, ostentação kitsch e ingenuidade caipira. E ao mesmo tempo ele parece estar pondo o braço sobre os ombros do leitor e dizendo: “Pssst... nós também somos assim”.

O outro ensaio é “Uma Coisa Supostamente Divertida que Eu Nunca Mais Vou Fazer”. Outra reportagem encomendada, desta vez sobre um cruzeiro num navio de luxo pelo Mar do Caribe, em “uma entre as mais de vinte linhas de cruzeiro que operam atualmente a partir do sul da Flórida” (o ano era 1995, mas ouvi relatos recentes de uma viagem assim; não mudou muita coisa). Comentarei em detalhe esse texto numa próxima coluna, mas basta lembrar que Wallace, até por não ser um jornalista, e sim um escritor, mergulha nessas empreitadas de corpo inteiro e alma aberta, e equilibra de maneira prodigiosa o olho atento, o espírito incrédulo, o humor ferino e uma prosa permanentemente criativa sem traços de beletrismo.