quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

2451) De Moebius a Cortázar (12.1.2011)



Seja dada uma faixa plana de material maleável, mais longa do que larga, e muito mais larga do que espessa. Um modelo padrão seria uma faixa de pano, ou de papel flexível, com o formato aproximado de uma régua escolar, ou seja, 30 cm de comprimento por 3 de largura. Essa faixa tem a feição peculiar possuir duas faces reversas e opostas. Só é possível passar de uma faixa para outra indo até alguma das bordas e transpondo-a. Este aspecto é crucial, porque a faixa tem que ser achatada, diferente de uma faixa roliça (algo como uma corda, um barbante, etc). Uma corda roliça é cilíndrica, é contínua ao longo de seu eixo, não possui arestas ou bordas, não estabelece limites, parece aos nossos olhos uma única superfície. Já a faixa achatada, em forma de régua, sugere a presença de dois espaços contrapostos, duas faces.

A faixa parece ter apenas duas dimensões (comprimento e largura), porque sua espessura de meio milímetro, ou ainda menos, é mínima, quase insignificante. Mas o fato é que ela tem três dimensões, sim, e está num espaço tridimensional, o que vivemos.

O que chamamos de Faixa de Moebius é uma faixa que foi torcida sobre si própria e depois teve suas duas extremidades coladas uma à outra. Isto só é possível porque o espaço em que vivemos tem três dimensões visíveis. Ninguém se admira ao manusear uma Faixa de Moebius, ainda que a esteja vendo pela primeira vez. Parece algo curioso, mas nossa mente a assimila de imediato, porque estamos acostumamos a deformações desse tipo, e porque sabemos, mesmo sem verbalizar as coisas nestes termos, que aquela faixa embora pareça ter apenas duas dimensões tem na verdade três, como qualquer outro objeto físico.

O aspecto original da Faixa de Moebius consiste no fato de que ela nos sugere uma transição imperceptível de um universo X para um universo Y que lhe é oposto e aparentemente inacessível. Isto ocorre através de duas figuras que podemos chamar a Torção e a Juntura. porque a partir de certo ponto a faixa começa a sofrer uma Torção que, por mantê-la intacta, é quase imperceptível. A Torção se acentua até perfazer um giro de 180 graus, quando então a face e o reverso da faixa são invertidas em relação ao espaço circundante. A essa altura a Torção se estabiliza e a faixa se alonga, aparentemente idêntica a si mesma, até que as duas extremidades se encontram na Juntura. Em geral é somente neste ponto que se dá a percepção do que aconteceu.

Este é um processo clássico de muitas narrativas fantásticas em que dois universos incompatíveis acabam se encontrando e tornam-se vasos comunicantes. A Torção se produz ao longo da narrativa pela adição gradual de elementos aparentemente normais; a Juntura se dá em geral num trecho específico, quando algo impossível parece acontecer. A mais simples e clara ilustração desse processo é o conto de Julio Cortázar “Continuidade dos Parques”, no livro Final de Jogo.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

2450) Positively 4th Street (11.1.2011)



Já li algumas biografias de Bob Dylan. Quando vejo uma, em geral procuro algum episódio crucial e leio o que o cara tem a dizer. Se me agradar, compro o livro. Se for coisa de tiete, deixo pra lá. Às vezes é melhor uma biografia contra (porque são raras) do que a favor (numerosas, redundantes). Uma boa biografia-contra é Bob Dylan de Bob Spitz, em que as fases de mau-caratismo e manipulação de Dylan no auge do sucesso (1963-66) são descritas de modo arrepiante. Mais light, mas nessa mesma direção, é este livro de David Hajdu, que na verdade descreve dois casais: as duas irmãs Baez (Joan e Mimi) e as variadas técnicas que dois jovens poetas-compositores, Dylan e Richard Fariña, empregaram para namorar com as duas, casar (Richard/Mimi) e assim encurtar o caminho rumo ao estrelato.

Como se sabe, Joan Baez era a Rainha da Folk Music quando Dylan não era ninguém. Os dois se conheceram. Ela se apaixonou por ele e percorreu os EUA apresentando-o em seus shows e gravando suas canções. Quando Dylan virou roqueiro, ela, que não gostava de rock, permaneceu fiel ao seu próprio repertório de nostálgicas baladas e suaves canções de protesto. Dylan mandou-a passear e casou com Sarah Lownds, com quem teve quatro filhos.

O grande personagem deste livro é Fariña, que parece ter sido um sujeito charmoso e implacável, inescrupuloso e cheio de talento. Tinha aquela ansiedade, natural nos jovens, de fazer sucesso o mais depressa possível, até porque tinha de se comparar o tempo inteiro a Dylan, mais jovem, mais talentoso e de ascensão mais rápida. Tenho um dos dois CDs que Fariña e Mimi gravaram juntos, Reflections in a Crystal Wind. São canções melancólicas com violão e dulcimer (uma espécie de marimbau chique), não tão boas quanto as que Dylan estava compondo, mas melhores que a maioria daquela época.

Fariña morreu em 1966 num acidente de moto, no dia do lançamento de seu (ótimo) romance Been Down So Long It Looks Like Up To Me. Tinha 29 anos. Na universidade foi grande amigo de Thomas Pynchon, que anos depois lhe dedicou o clássico Gravity’s Rainbow. Acho que diz algo sobre o charme e o talento de Fariña o fato de que mesmo depois de ler o livro de Hajdu (sarcástico e implacável contra ele e Dylan) fiquei admirando-o ainda mais. Era um talento borbulhante e tinha a cara-de-pau necessária para se meter em coisas que não sabia (não era bom cantor, p. ex.) e dar um jeito de se sair bem. (Mais sobre Fariña: http://tinyurl.com/3yk8q8h).

Apenas dois meses após a morte de Fariña, Dylan teve o seu famoso acidente de moto que o tirou de campo por um ano, quando ele aproveitou para fazer uma reviravolta em sua carreira. Parou com as drogas e as turnês e dedicou-se à vida doméstica e à composição de canções country. Fala-se muito que o acidente foi forjado. Dylan, sempre alerta, deve ter pensado: “Vou fingir que tive um acidente antes que tenha um, como ocorreu com Dick Fariña”.

domingo, 9 de janeiro de 2011

2449) O nosso pecado original (9.1.2011)



Pecado original é um pecado que remonta à nossa origem, não à nossa pessoa. Um pecado que não cometemos, mas que foi cometido por quem nos trouxe ao mundo, e que de certo modo nos influencia. Quando um indivíduo toma consciência desse pecado, que não dependeu de uma decisão ou de uma opção sua, sente uma culpa que o habita mas não lhe pertence, e que por isso mesmo lhe parece impossível de expiar.

A corrupção, em suas mil formas, está entranhada em nossa vida política, empresarial, econômica. Onde quer que exista muito dinheiro (e, de maneira perversa, onde exista dinheiro público) a corrupção surge. Seria um exagero, e, mais que isto, um absurdo, dizer que todo mundo rouba, ou que a maioria das pessoas rouba. Mas as facilidades para roubar são tão variadas que a muita gente é possível roubar de pouquinho em pouquinho durante muito tempo, ou roubar carradas de grana de uma vez só, sabendo que provavelmente vai ficar tudo por isso mesmo. E até os que não roubam acabam fazendo vista grossa, seja por medo de perder o emprego, medo de represálias, amizade ou obediência devida aos roubantes, ou a mera indiferença que leva tantos, inclusive os honestos, a dar de ombros e dizer: “Deixa pra lá... Todo mundo faz...”

Essas gigantescas quantidades de dinheiro roubado (Brasil Colônia, Brasil Império, Brasil República, Brasil de hoje) são uma argamassa que ajudou a consolidar nossa nação, porque grande parte do dinheiro roubado acaba, bem ou mal, sendo investido honestamente no comércio, no lazer, nos serviços em geral, nos imóveis, ou em poupanças e investimentos que vão financiar forças produtivas que nada têm a ver com o roubo. Famílias inteiras de gente honesta cresceram à sombra de um roubo antepassado. Roubou-se muito no Brasil, e decerto muito ainda se roubará, porque não se cura uma endemia com um estalo de dedos. E quando olhamos em volta (tantos prédios, tantos carros, tantas lojas, tantos negócios) somos forçados a reconhecer que se o dinheiro sujo do Passado fosse evaporado com uma varinha mágica, levaria consigo, para o Nada, uma quantidade vertiginosa de coisas.

A corrupção é um pecado original meu, seu, de todos nós. Mesmo não roubando acabamos, por vias transversas, nos beneficiando de coisas geradas com o produto do roubo (comércio, indústria, serviços, lazer). Não há batismo que nos purifique por inteiro. Talvez tenhamos que tratar a corrupção como outros pecados originais nossos (a escravidão, o latifúndio, os massacres étnicos) e tirar dela algo de positivo. O dinheiro pode ter origem suja, mas ainda assim pode ser reaplicado, num estado de limpeza provisória, na corrente econômica. Talvez a função de ser honesto, hoje, seja essa: lavar o dinheiro sujo que nos chega às mãos. Purificá-lo, geração após geração, até que talvez um dia sua origem maldita se dilua. E possamos acreditar que um mal possa produzir, por linhas tortas, algum tipo de bem.

sábado, 8 de janeiro de 2011

2448) O número fatal (8.1.2011)



Nossas vidas têm regularidades tão implacáveis quanto as que regem o balé dos planetas e a multiplicação dos cromossomos. Pensamos que somos dotados de livre-arbítrio, mas nosso livre-arbítrio consiste apenas em imaginar que o temos. Um indivíduo que salta de um arranha-céu é livre para pensar o que quiser, inclusive que poderia interromper a queda, mas, talvez até para provar o seu livre-arbítrio, ele toma a decisão de continuar caindo. A natureza se repete; é do seu feitio. Não podemos imaginar que um belo dia uma laranjeira produza, no meio das laranjas habituais, uma graviola. Ou um relógio.

O caso de Thomas Adelmann, por exemplo. É um pacato comerciante de Munique, dono de uma loja de relógios que herdou do avô através do pai. Talvez fosse ele (que a cada noite, antes de dormir, toma de um caderno da capa preta e anota em colunas, com letra miúda, as despesas do dia, desde o metrô ao cigarro, desde o jornal ao carnê do seguro, desde as frutas que trouxe para casa à mesada da filha adolescente) uma das pessoas mais capacitadas para perceber a existência do número fatal, o número que rege sua vida. E este número é 611.

Como se sabe, na vida não há coincidências, a não ser que consideremos uma coincidência o fato de que toda tarde, após o trabalho, voltamos para a mesma rua, entramos na mesma casa e dormimos na mesma cama. Coincidência, os números marcados numa régua estarem todos a um centímetro de distância um do outro? A vida de Thomas Adelmann estava regida em ciclos de 611 horas ou 611 dias. Esta era a raiz (o x-linha e o x-duas-linhas) que zerava de forma satisfatória as modestas turbulências produzidas no Universo pela sua presença; e o readmitia no fluxo da harmonia universal.

Thomas nunca somou as letras do seu nome completo, do da sua noiva, e dos pais e avós de ambos. Se o tivesse feito teria chegado ao número 611 e isto lhe pareceria um dado aleatório. O lacônico testamento do pai, deixando-lhe, previsivelmente, a loja na Schillerstrasse, tinha um total de 611 palavras. O bilhete de loteria que um vendedor com óculos verde-escuros lhe ofereceu numa estação de trem ostentava um número que era (mas como Thomas poderia saber?...) 611 ao quadrado (ele agradeceu e recusou o bilhete, que dias depois fez a fortuna de uma professora de piano regida pelo mesmo algoritmo). E como explicar a Thomas que o dia de sua morte ocorrerá num múltiplo de 611 em relação ao do seu nascimento?

Se existissem deuses poderíamos elogiar sua generosidade. Não os havendo, basta dizer que é uma feliz coincidência o fato de que as regras fundamentais do nosso destino nos são invisíveis, de tão amplas. São como as Linhas da Nazca, que traçam figuras quilométricas e imperceptíveis sob os pés dos incautos viajantes. Fosse o número, ao invés de 611, um simples 3 ou um simples 7, é possível que numa noite insone Thomas saltasse na cama, gritando “Eureka!”. Ao que nos consta, isto até agora não aconteceu.

2447) A arte do livro bizarro (7.1.2011)




Sou colecionador de livros bizarros, exóticos, meio absurdos. Não dos livros propriamente, porque não tenho dinheiro que os compre nem lugar onde os amontoe; mas das informações a seu respeito, que muitas vezes se limitam a ver a capa, o título, ler um resumo.

O Livro Bizarro nos lembra que o mundo dos livros se parece ao mundo da Natureza, onde as coisas brotam ao acaso, sem coordenação central. Basta esquecermos as cadeias de grandes livrarias e irmos fuçar Web afora (ou em sebos e bibliotecas) para descobrirmos livros tão improváveis quanto o ornitorrinco, o tubarão-martelo e a bactéria de arsênico.

Quem imaginaria, por exemplo, um livro intitulado Tudo Sobre Cascas de Feridas? É uma obra didática infantil de Genichiro Yagyu (1998), a quem tirei o chapéu: está aí um assunto que jamais me ocorreria.

Talvez me ocorresse, como a qualquer cidadão, o tema da obra de Deborah K. Hargis: Suas Pernas São Longas Demais: Como Ir Além das Desculpas nos Casos de Disfunção Erétil. É um manual que analisa as desculpas dadas pelos homens (“Você parece com a minha mãe”, “Acho que bebi muito”, “Acho que bebi pouco”, etc.) naquela mais constrangedora das situações.

Talvez fosse útil a gente consultar Mais 101 Utilidades Para um Gato Morto de Simon Bond (observem a sutileza do “mais”: trata-se decerto de uma segunda compilação), ou os provavelmente sábios conselhos de Donald Rogers em Ensinando Sua Esposa a Ser Viúva.

Temas mais leves podem ser encontrados em A Estranha História dos Dentes Falsos de John Woodforde, Amor e Sexo com Robôs de David Levy, Como Ensinar Física ao seu Cachorro (pena que não haja um livro visando filhos adolescentes!) de Chad Orzel, Um Atlas das Pulgas da Grã-Bretanha e Irlanda de R. S. George.

Tudo na vida tem dois lados, não é mesmo? Aqui está Castração – Vantagens e Desvantagens, de Victor Cheney, que não me deixa mentir.

São livros técnicos destinados a aprimorar nossa vida prática, mas não é apenas neles que a estranheza se manifesta. Fico pensando nas mirabolantes aventuras contidas no romance A Vagina Mal-Assombrada de Carlton Mellick (autor de outras obras como O Cadáver do Jesus Elétrico ou Zumbis e Fezes).

Ou nas revelações históricas contidas em Os Homens que Embalsamaram Lênin de Ilya Zbarsky. 

Sem falar nas emoções de Socorro! Estou Sendo Comido Por um Urso! de Mikle Hansen. (Gostou? Tem mais aqui: (http://tinyurl.com/2u8w63z).

O Livro Bizarro nos produz um estimulante alongamento dos músculos mentais, porque em geral ficamos presos àquela vidinha besta entre os clássicos do passado e os sucessos do presente.

O Livro Bizarro é o sexto lado do Pentágono e a terceira margem do rio. Não é feito por galhofa. São livros sérios, escritos por gente de verdade para quem aquele assunto merece respeito e atenção. O mundo é mais rico do que imaginamos, ainda que essa riqueza se expanda em direções que às vezes dá medo explorar.






quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

2446) O bandido João Branco (6.1.2011)



(Roy Barcroft, ou, no Nordeste, "João Branco")

Eu confesso que não tenho lembranças dele, mas muitos amigos meus recordam que Roy Barcroft era o indefectível vilão em mil faroestes em preto-e-branco das décadas de 1940 e 1950. Durão, mal-encarado, com voz intimidante, (apesar de na vida real ser, ao que se diz, um sujeito afável e brincalhão), Barcroft era o eterno fora-da-lei dando trabalho a mocinhos como Wild Bill Elliott ou Rocky Lane.

Ora, aqui no Nordeste surgiu, não se sabe como, a mania de dar aos personagens genéricos de Barcroft o nome de “João Branco”. Garotos de muitas cidades nordestinas sempre se referiam desse modo a ele quando contavam uns para os outros o filme que tinham visto na matinê da véspera: “Aí o artista entrou na caverna e quando viu apareceu João Branco com mais uns cinco bandidos, aí teve a maior briga, eles amarraram o artista em cima da linha do trem...”

Por que João Branco? Segundo Homero Fonseca, autor do romance “Roliúde” (a história do matuto que vive de contar filmes de Hollywood de cidade em cidade), os garotos de sua geração misturaram a figura de Roy Barcroft com o nome do autor das legendas em português dos filmes da época. E de fato eu me lembro que a maior parte dos filmes que eu via quando garoto se encerravam, na hora do “The End”, com uma derradeira legenda dizendo: “Legendas de João Branco”. (Anos depois, esta referência seria substituída por: “Tradução: S. da Rocha Spiegel”. Hoje, na TV a cabo, aparece: “Tradução: Drei Marc”). Por caminhos ínvios, o nome do tradutor foi associado, na imaginação dos pirralhos, à imagem do bandido.

Homero está tentando localizar quem foi de fato João Branco, que se ainda for vivo deve ter mais de 90 anos; e em que cidades essa relação entre seu nome e a figura de Roy Barcroft se estabeleceu. Isto é uma pesquisa curiosa porque o imaginário do faroeste norte-americano influenciou muitas gerações de garotos, desde os fãs de “Apolônio Cassíde” até os de Clint Eastwood.

Há pelo menos mais duas histórias curiosas misturando Nordeste e Faroeste. Não sei se muita gente fora dos limites de Campina Grande sabe que um dos grandes goleiros da Paraíba na década de 1950 foi o famoso Arricarêi, do Treze, e que este foi assim batizado por sua semelhança com Harry Carey, o grande ator de westerns dos anos 1920 e 1930. Um dos companheiros de infância e de peladas de Arricarêi era um neguinho chamado Zé Gomes, que, assim como o amigo, adotou para si um nome de cowboy, Jack Perry. Com o passar do tempo acabou ficando conhecido apenas como Jack, e depois que se tornou músico um diretor de rádio o batizou em definitivo como Jackson, e mais que isto: Jackson do Pandeiro.

Que pena não podermos perguntar a Arricarêi e a Jackson se eles alcançaram essa época em que o bandido era chamado de João Branco independentemente de seu nome em inglês. Seria um capítulo a mais na história do roliudismo que impregnou sucessivas gerações de garotos no brejo, sertão, cariri e agreste.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

2445) O colaborador de conteúdo (5.1.2011)



Abril de 2019 começou bem. Meus pais me convidaram para um almoço celebrando meu novo emprego. Achei ótimo, a não ser pelo fato de que chamaram meu avô, que não me dá força de jeito nenhum. No meio do almoço, Mamãe ergueu o suco de laranja dela e disse: “Vamos brindar, gente. Ao trabalho de Betinho, e muita realização profissional para ele!” Papai ergueu a cerveja: “E dinheiro, para ele repor o que a gente gasta há vinte anos”. Mamãe replicou: “Que coisa, Alberto, pra se dizer a um filho”. Vovô, que não bebe, ergueu um pedaço de carne espetado no garfo e tocou com ele no copo de meu pai, sem dizer nada. Ele não fala com minha mãe. “E você, meu filho?”, perguntou ela, “não vai brindar?” Eu ergui minha cerveja, fiz um gesto curto em semicírculo abrangendo a todos. “Do que se trata, afinal?” perguntou Papai.

Expliquei que eu agora era colaborador de conteúdo. O Space Booth já era a maior rede de relacionamento do mundo: quatro bilhões de usuários no planeta, 250 milhões só no Brasil. Estar ali era poder ser amigo de qualquer celebridade da música, do cinema, da TV. Havia até um novo setor, o da Política Radical, que estava fazendo muito sucesso. Vovô se manifestou: “Não são políticos radicais, são terroristas.” Tentei explicar que o conceito de terrorismo é subjetivo, afinal Tiradentes foi considerado terrorista, mas Vovô não deixa ninguém falar. Fez um discurso dizendo que no tempo dele terrorista não vendia autógrafo pela Internet e primeira-ministra do Irã não distribuía calcinhas com os eleitores. Na verdade, no tempo dele o Irã nem tinha mulher na política.

Mamãe pediu licença (ela fala e Vovô se cala pra não lhe responder, toda vez é assim) e peruntou o que era colaborador de conteúdo. Expliquei que eu tinha que fazer posts o dia inteiro, de tudo que me agradasse: músicas, filmes, vídeos, roupas... Cada post dando uma dica contava pontos. Quando eu acumulava pontos suficientes, tinha direito a brindes, viagens, Vale Lazer, Vale Barato, etc. Papai me interrompeu: “Sim, mas, e salário?” Papai é tão antiquado quanto Vovô, é do tempo de salário. Expliquei que na economia moderna a pessoa presta serviços e recebe produtos, e o dinheiro, mero intermediário, tende a desaparecer. Minhas refeições eram oriundas de meus posts sobre lanchonetes. Roupas, objetos pessoais, tudo tinha origem semelhante. Cem posts sobre música davam direito a um boné, e assim por diante. “Ah meu Deus, demora uma vida”, suspirou Mamãe, e eu disse que não, durante uma tarde normal eu fazia mais de 500 posts. E minha pontuação-de-perfil era repassada para meu Cartão de Crédito, me dando abatimento nas despesas relativas aos temas que eu postava. Vovô me chamou de vagabundo e lacaio do capitalismo; aí eu joguei meu trunfo: “Qué isso, Vovô, não banque o moralista, eu dei um comando de busca e vi que você já teve 3 mil amigos no Facebook”. Ele soltou um palavrão e saiu da sala. Toda vez é assim.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

2444) Uma noite em 67 (4.1.2011)



Assisti finalmente o documentário Uma Noite em 67 de Renato Terra e Ricardo Calil, que reconstitui a noite da grande final do Festival da Música Brasileira da TV Record. Misturando material de arquivo e entrevistas atuais, o filme pede aos artistas vencedores e derrotados, além de críticos e organizadores, que relembrem e comentem aquela época. Fazer filme assim é um dos muitos ovos-de-Colombo à disposição de documentaristas. O material de arquivo é farto (pelo que eu soube, tudo pertence á TV Record, então basta consultar um único arquivo em ver de fazer uma via-crucis de dezenas deles). Os entrevistados estão todos aí, acessíveis. E se o fato enfocado for de fato interessante, é só editar bem o material e correr pro abraço.

O Festival de 67 foi chamado o “festival da virada”, acho que porque marcou o surgimento do Tropicalismo como uma força musical, ainda meio sem forma e sem manifesto, uma espécie de dissidência pop da MPB. Isto ficou bem claro na premiação final. O primeiro e o terceiro prêmios foram para duas revelações da MPB tradicional, Edu Lobo (campeão com “Ponteio”, em parceria com Capinam) e Chico Buarque (“Roda Viva”). Ambos tinham ganho festivais recentemente (Edu com “Arrastão”, Chico com “A Banda”), então apesar de jovens já podiam ser considerados concorrentes pesos-pesados. O 2º. e o 4º. lugares foram para os tropicalistas: Gilberto Gil com “Domingo no Parque” e Caetano Veloso com “Alegria, Alegria”. Ficou explícito então o racha entre a música que recorria a fontes brasileiras tradicionais, principalmente o samba e outros ritmos regionais, e a música que assimilava influência do rock, da música pop internacional e de outras formas de linguagem (quadrinhos, cinema, etc.).

O filme é uma ótima Sessão Nostalgia para os que, como eu, acompanharam aquele festival pela TV, torcendo muito e sem saber direito por quem torcer. A rejeição ao Tropicalismo foi muito forte em alguns setores. Eu mesmo durante algum tempo martelei na tecla de que eles imitavam demais os Beatles, só depois reconheci o quanto havia ali de talento e originalidade. A oposição entre violão e guitarra era uma falsa oposição, uma metonímia mal colocada em que para rejeitar o todo (a invasão do lixo musical norte-americano) era preciso rejeitar uma parte (o uso de um instrumento elétrico).

Hoje já se sabe que o Tropicalismo venceu, e que sua vitória não eliminou o samba, a música rural, a canção regional e acústica. O estilo Tropicalista de se apresentar (guitarra, roupas exóticas, atitudes performáticas, modelos americanizados) virou um novo padrão. Algo parecido ocorreu com o tropicalíssimo programa de Chacrinha, que era transgressivo em seu tempo e hoje virou uma nova norma, sendo diluído e palidamente copiado por Faustão, Luciano Huck e todos os demais. Um padrão foi substituído por outro. O Sistema que assimila tudo assimilou o Tropicalismo, e os verdadeiros tropicalistas foram fazer outra coisa.

domingo, 2 de janeiro de 2011

2443) "Drummond: Esperteza" (2.1.2011)



Já falei nesta coluna (“Drummond: Poemas Natalinos”) sobre o “olho esperto” que o Modernismo jogou dentro da poesia brasileira. O termo é bem atual, bem 2010. É um olho rock-and-roll, um olho hip-hop, um olho típico de uma geração jovem e escolada, se bem que não na escola. É um olho “street-wise”, com a sabedoria das ruas; um olho malandro. Um jeito desabusado de ser, irreverente, levemente desonesto, ou pelo menos capaz de pequenas contravenções e de mentiras táticas. Não necessariamente um olho mau-caráter. Chega a sê-lo em alguns casos, e o uso insistente deste adjetivo na cultura urbana carioca o deixou contaminado de mau-caratismo aos olhos de muita gente. Quando em algum lugar do Brasil se quer menosprezar com acidez a desonestidade de alguém, é ao sotaque carioca que se recorre como exemplo: “Fulano é muito metido a ichpiérto...”

A esperteza é uma forma de inteligência em pequena escala e com objetivos imediatos, a curtíssimo prazo. Beira a desonestidade porque não está vinculada a valores eternos ou princípios morais, e sim à simples e imediata esgrima de vontades e de inteligências. Fulano quer isto, Sicrano quer aquilo, e o mais esperto é o que consegue o que quer, em detrimento do outro. A esperteza sempre se dá num contexto de disputa, de competição, de jogo, de confronto entre A e B. Sabedoria é outro papo.

No livro Alguma Poesia (que completou 80 anos), Carlos Drummond já vê de modo presciente a instauração deste valor no embate amoroso. O romantismo literário não prevê esperteza; prevê valores absolutos como a paixão, a devoção, o ciúme, a solidão, etc. Esperteza? Invenção modernista. Como a do poema “Esperteza” de Drummond, que diz: “Tenho vontade de / — ponhamos amar / por esporte uma loura / o espaço de um dia.” Vejam mesmo que heresia; no século 19 este poema iria para fogueira, por reduzir o amor a um esporte, e pressupor que esse amor de veneta duraria um dia apenas.

Depois continua: “Certo me tornaria / brinquedo nas suas mãos. / Apanharia, sorriria / mas acabado o jogo / não seria mais joguete, / seria eu mesmo.” Jogo, brinquedo: o poeta considera a possibilidade de ver o amor como algo leve, sem compromisso. Algo fugaz e sem sequelas. Um amor que não traria grande abalos para a vida do amante, nem durante nem depois. Serviria no máximo para o propósito egoísta de deixá-lo mais senhor de si, de suas próprias forças. Um amor século 20. Um amor de cinema americano. (A “loura” sonhada dessa forma está mais para Jean Harlow do que para as ninfas pré-rafaelitas). E o poeta conclui: “E ela ficaria espantada / de ver um homem esperto”.

Será impressão minha, ou este poema de 1930 é um esboço do argumento de Acossado de Godard, além de tantos outros filmes em que um homem esperto pega uma loura, extrai dela o que lhe interessa (prazer, lazer, dinheiro) e depois se vai, assobiando uma canção pop? Se o século 20 foi o Século da Esperteza, Drummond o percebeu desde cedo.

sábado, 1 de janeiro de 2011

2442) Resoluções de Ano Novo (1.1.2011)




Respirar a fumaça do Vesúvio. 

Escutar o cabelo crescendo de novo. 

Anotar o momento em que o número de folhas na árvore da casa em frente for igual ao número de caracteres do artigo que estou escrevendo. 

Fotografar simultaneamente trinta chaminés na perpendicular. 

Levar uma bolha de sabão de João Pessoa até Campina. 

Aprender a chover e a colorir na primeira pessoa. 

Fazer a difícil opção entre envelhecer e virar vampiro. 

Desvendar um mistério, descantar uma música, desescrever um livro. 

Visitar em sequência sete cidades cujas iniciais são as letras do meu nome. 

Lembrar tudo que aconteceu em volta quando eu estava dormindo. 

Descobrir uma galáxia nova e guardá-la só para mim. 

Falar de corda em casa de enforcador. 

Desenhar um teclado numa cartolina e botar o povo pra dançar uma noite inteira. 

Fazer um gol de pênalti de cabeça. 

Criar uma espécie de partitura para som de pneu de carro. 

Passar vergonha na cara e esperar que seque. 

Ensinar um macaco a ler, um peixe a escrever, um teimoso a pensar. 

Fazer faxina nos advérbios e desempacotar preposições que ainda não foram usadas. 

Monitorar o espelho à espera do terrível sinal. 

Conseguir plagiar tão bem que o plagiado elogie minha originalidade. 

Ler sem ouvir minha voz repetindo baixinho o que é lido. 

Aprender a tocar cavaquinho, pandeiro e tantã – ao mesmo tempo. 

Atravessar uma rua do outro lado para o outro lado. 

Fazer uma cirurgia telepática para tirar a catarata do meu terceiro olho. 

Trancar a gaveta e jogar a chave dentro. 

Escrever como se a linha fosse uma corda-bamba solta no ar. 

Assistir um filme no Capitólio, outro no Babilônia, outro no Avenida e outro no São José. 

Inventar um sacarrolhas reto. 

Arrumar o primeiro, o segundo, o terceiro, e deixar para arrumar o quarto no ano que vem. 

Carambolar o ricochete quântico de duas ondas sem colapsar os cordéis de ambas em incontáveis quarks supérfluos. 

Amar sem orgulho e odiar sem preconceito. 

Criar um banco randômico de sílabas e um programa anti-entrópico que as faça formar frases ao longo dos dias. 

Misturar três vinhos numa taça e identificar cada gole. 

Tentar não esconder meus descuidos por trás dos meus excessos de cuidados. 

Fazer uma correntinha de clips unindo Brasília e Praga. 

Adotar um mineral de estimação e cuidar dele todos os dias. 

Autografar mil pedaços de papel para vendê-los quando ficar rico e famoso. 

Abrir livros no escuro até encontrar um que tenha luz própria. 

Respirar fundo e deslizar tobogã acima. 

Trocar meia dúzia de realidades fabricadas por uma ilusão verdadeira. 

Conseguir ler um jornal sem ficar procurando meu nome. 

Poder guardar na minha sala de visita todas as minhas cabeças de gado, todas as minhas sesmarias, todos os meus canaviais. 

Me preparar para o restante deste século com o auxílio de um dicionário chinês-árabe, árabe-chinês. 

Escrever alguma coisa que possa relida em 2110. 

Marcar um encontro em Samarra e não comparecer.