O autor é Victor Yves, alagoano de Arapiraca que mora no Canadá e trabalha com design e direção de arte. Yves tem uma grande coleção de folhetos e serviu-se dela para criar este volume maciço com 500 capas de folhetos de todos os tipos: romances, pelejas, noticiosos, humorísticos, de valentia, de religião, etc.
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Valorizar o lado visual do cordel é uma iniciativa boa, até
porque esse tipo de publicação tem estado a vida inteira nas mãos dos
aficionados de literatura, entre os quais me incluo. Mas o folheto não é só literatura.
Ariano
Suassuna era um entusiasta dos folhetos de cordel, e esse entusiasmo foi muito
importante para as pessoas de minha geração, que buscavam uma ponte entre essa
gigantesca produção “marginal” e as ditas artes nobres. Ariano nos mostrou que no folheto de cordel
há portas para a Poesia (o verso rimado e metrificado), a Literatura (a arte de
contar histórias), as Artes Plásticas (as ilustrações de capa, o design), a
Música (os versos podem ser cantados) e o Teatro (o folheteiro “encena” os
folhetos em voz alta para uma platéia).
No Romance da Pedra do Reino (1971) ele dá voz ao grande João Melchíades Ferreira, autor do “Romance do Pavão Misterioso”. No Folheto 36, “O Gênio da Raça e o Cantador da Borborema”, ele atribui a Melchíades esta classificação:
Existe o Poeta de loas e folhetos, e existe o Cantador de repente. Existe o Poeta de estro, cavalgação e reinaço, que é o capaz de escrever os romances de amor e putaria. Existe o Poeta de sangue, que escreve romances cangaceiros e cavalarianos. Existe o Poeta de ciência, que escreve os romances de exemplo. Existe o Poeta de pacto e estrada, que escreve os romances de espertezas e quengadas. Existe o Poeta de memória, que escreve os romances jornaleiros e passadistas. E finalmente, existe o Poeta de planeta, que escreve os romances de visagens, profecias e assombrações.
Para mim, o cordel é a raiz da cultura visual do Nordeste. Não como uma romântica narrativa de origem, mas como um alicerce: um local onde a lógica visual da região se torna visível: franqueza, contraste, simbolismo, humor e urgência. O cordel mostra o que acontece quando o design brota da escassez e da criatividade, em vez das instituições e do refinamento. Ele mostra como uma cultura consegue imprimir sua própria existência.
O livro traz entrevistas com Mestre Francorli, Rouxinol do Rinaré, Almir Oliveira e Severino Honorato (da Academia Brasileira de Literatura de Cordel). Traz também uma seção informativa sobre grandes xilogravadores e editores: Mestre Dila, Manoel Pereira da Silva, “Silva da Lagoa”, Mestre Noza, Manoel Camilo dos Santos, Amaro Francisco, José Costa Leite, Mestre Lourenço, Mestre Nunes, Mestre Expedito.
No folheto (que acompanha o livro) A Oficina Verbal das Capas, Eduardo Beu ressalta o lado “udigrudi” da produção visual dos folhetos:
O que me interessa nessas capas é a maneira direta com que elas anunciam o mundo. Um título, uma figura, uma cor de papel, um corte de madeira, uma mancha preta, uma letra irregular, tudo trabalha para produzir reconhecimento imediato. (...) O preto da impressão muda de temperatura quando cai sobre papéis rosa, amarelo, verde, azul, ocre. Quando a xilogravura marca presença na capa, ela decide o tom da narrativa e anuncia o conflito. (...)
Esse folheto tem ótimos depoimentos de Ezequiel Nebulosa, Bruno Pereira, Eduardo Beu, Chico Homem de Melo, Cristhiano Aguiar, DJ Dolores, Fausto Fawcett, Isabelly Moreira, Lirinha, Xico Sá e Cauique Johnson.
Isabelly Moreira, nossa admirável poeta do Pajeú, lembra o exemplo famoso de “Altino Alagoano”, mostrando o quanto foi difícil para as mulheres penetrarem como autoras nesse universo tão masculino:
Um dos exemplos repetidos desses percalços, são as tardias publicações das mulheres na literatura de cordel, a exemplo da história de Maria das Neves Batista Pimentel, que para publicar seu primeiro folheto, precisou escrever sob um pseudônimo, ocasião em que tomou emprestado o nome do marido.







