quarta-feira, 4 de novembro de 2026

5260) Cordel para gringo ver (4.11.2026)

 

 
Não conheço muitas publicações sobre Literatura de Cordel em língua estrangeira.  Há autores da área acadêmica que publicavam com certa regularidade, como Mark J. Curran, mas não acompanho, não sei de títulos recentes. 
 
O título que tenho há mais tempo e que me tem sido útil (já foi traduzido aqui no Brasil, pelo que entendo) é Stories on a String: The Brazilian Literatura de Cordel (University of California Press, 1989; edição original 1982) de Candace Slater. 
 
Agora me apareceu um lançamento diferente de todos os outros, uma edição de luxo (pode-se dizer assim) voltada para as capas dos folhetos.  


O autor é Victor Yves, alagoano de Arapiraca que mora no Canadá e trabalha com design e direção de arte.  Yves tem uma grande coleção de folhetos e serviu-se dela para criar este volume maciço com 500 capas de folhetos de todos os tipos: romances, pelejas, noticiosos, humorísticos, de valentia, de religião, etc.
 
O livro de intitula Visual Culture of Northeast Brazil  (São Paulo: CASCA, 2026). A produção é do CASCA Archive, “um projeto independente de pesquisa e documentação dedicado à cultura visual do Nordeste brasileiro”. 
 
Aqui:
www.casca-archive.org
 
 
Valorizar o lado visual do cordel é uma iniciativa boa, até porque esse tipo de publicação tem estado a vida inteira nas mãos dos aficionados de literatura, entre os quais me incluo.  Mas o folheto não é só literatura. 
 
Ariano Suassuna era um entusiasta dos folhetos de cordel, e esse entusiasmo foi muito importante para as pessoas de minha geração, que buscavam uma ponte entre essa gigantesca produção “marginal” e as ditas artes nobres.  Ariano nos mostrou que no folheto de cordel há portas para a Poesia (o verso rimado e metrificado), a Literatura (a arte de contar histórias), as Artes Plásticas (as ilustrações de capa, o design), a Música (os versos podem ser cantados) e o Teatro (o folheteiro “encena” os folhetos em voz alta para uma platéia). 



No Romance da Pedra do Reino (1971) ele dá voz ao grande João Melchíades Ferreira, autor do “Romance do Pavão Misterioso”.  No Folheto 36, “O Gênio da Raça e o Cantador da Borborema”, ele atribui a Melchíades esta classificação: 
 
Existe o Poeta de loas e folhetos, e existe o Cantador de repente.  Existe o Poeta de estro, cavalgação e reinaço, que é o capaz de escrever os romances de amor e putaria.  Existe o Poeta de sangue, que escreve romances cangaceiros e cavalarianos.  Existe o Poeta de ciência, que escreve os romances de exemplo.  Existe o Poeta de pacto e estrada, que escreve os romances de espertezas e quengadas.  Existe o Poeta de memória, que escreve os romances jornaleiros e passadistas.  E finalmente, existe o Poeta de planeta, que escreve os romances de visagens, profecias e assombrações. 
 
É uma classificação pouco acadêmica mas personalíssima, literária, e de certa forma nos libera a imaginação para empreender outras. 
 
Voltando ao aspecto gráfico: muita tinta tem corrido em torno da Arte da Xilogravura, onde tenho muitos amigos.  Eles próprios, no entanto, serão os primeiros a afirmar que a xilo nunca teve hegemonia no mundo do cordel, que em suas primeiras décadas dependia de desenhos, fotos, etc. 
 
E de clichês de zinco, reaproveitados de velhos cartões-postais de namorados, de cem anos atrás.  Como o que usei (meio por acaso, porque estava mais à mão naquela hora) para a capa de meu A Pedra do Meio-Dia, ou Artur e Isadora, impresso em 1979 numa gráfica no bairro do Santo Antonio: 
 


Tudo isto fazia parte do mundo do cordel.  As xilos foram aparecendo aos poucos e, pelo seu charme visual próprio, foram se impondo. Além, é claro, de ser um incentivo à criatividade e à imaginação dos artistas.  


 
Diz o autor Victor Yves:
 
Para mim, o cordel é a raiz da cultura visual do Nordeste.  Não como uma romântica narrativa de origem, mas como um alicerce: um local onde a lógica visual da região se torna visível: franqueza, contraste, simbolismo, humor e urgência. O cordel mostra o que acontece quando o design brota da escassez e da criatividade, em vez das instituições e do refinamento. Ele mostra como uma cultura consegue imprimir sua própria existência. 
 
O livro traz entrevistas com Mestre Francorli, Rouxinol do Rinaré, Almir Oliveira e Severino Honorato (da Academia Brasileira de Literatura de Cordel). Traz também uma seção informativa sobre grandes xilogravadores e editores: Mestre Dila, Manoel Pereira da Silva, “Silva da Lagoa”, Mestre Noza, Manoel Camilo dos Santos, Amaro Francisco, José Costa Leite, Mestre Lourenço, Mestre Nunes, Mestre Expedito. 



No folheto (que acompanha o livro) A Oficina Verbal das Capas, Eduardo Beu ressalta o lado “udigrudi” da produção visual dos folhetos: 
 
O que me interessa nessas capas é a maneira direta com que elas anunciam o mundo. Um título, uma figura, uma cor de papel, um corte de madeira, uma mancha preta, uma letra irregular,  tudo  trabalha  para  produzir reconhecimento imediato. (...)  O preto da impressão muda de temperatura quando cai sobre papéis rosa, amarelo, verde, azul, ocre. Quando a xilogravura marca presença na capa, ela decide o tom da narrativa e anuncia o conflito. (...) 
 
Esse folheto tem ótimos depoimentos de Ezequiel Nebulosa, Bruno Pereira, Eduardo Beu, Chico Homem de Melo, Cristhiano Aguiar, DJ Dolores, Fausto Fawcett, Isabelly Moreira, Lirinha, Xico Sá e Cauique Johnson. 
 
Isabelly Moreira, nossa admirável poeta do Pajeú, lembra o exemplo famoso de “Altino Alagoano”, mostrando o quanto foi difícil para as mulheres penetrarem como autoras nesse universo tão masculino: 
 
Um dos exemplos repetidos desses percalços, são as tardias publicações das mulheres na literatura de cordel, a exemplo da história de Maria das Neves Batista Pimentel, que para publicar seu primeiro folheto, precisou escrever sob um  pseudônimo,  ocasião  em  que  tomou emprestado o nome do marido. 
 



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