segunda-feira, 12 de outubro de 2009

1300) O Inefável (13.5.2007)



O Inefável é aquilo que não se pode dizer, descrever, exprimir. A palavra nasce desta partícula “fa”, ligada em latim à idéia de expressão verbal, de onde vem “falar”, “fado” (=oráculo, profecia), “infante” (que não fala), “fábula” (conversação, relato), “fama” (o que se fala de alguém) etc. 

O inefável é o infalável, o que não se sabe como dizer, o que não tem expressão. É uma sensação mais familiar aos profissionais da escrita, que sempre se preocupam com a expressão exata, do que com o cidadão comum, o qual, quando a expressão exata não lhe ocorre, usa a primeira que lhe vem à cabeça: “Diz a Aderbal que é pra coisar aquele troço daqui pras 5 horas”. 

O inefável é aquela experiência total, que extrapola os limites da linguagem. Em “O Aleph”, Jorge Luís Borges diz, sobre o seu encontro com o objeto que contém todos os pontos do Universo: “O que os meus olhos viram foi simultâneo; o que transcreverei será sucessivo, pois a linguagem o é”. 

Aí já se estabeleceu a impossibilidade total de verbalizar o que aconteceu. Simultaneidade e sucessividade são como, na música, a harmonia e a melodia. São irredutíveis entre si: o sentido da harmonia é que aqueles sons ocorram todos ao mesmo tempo, e não um depois do outro. Escrever sobre certas experiências mentais é como executar uma Sinfonia com cada instrumento tocando sua parte sozinho, um depois do outro. 

Se fizéssemos uma pesquisa google nas letras da MPB, encontraríamos a frase “eu não sei dizer” num dos primeiros lugares. Não é privilégio dos nossos letristas. Augusto dos Anjos padecia destas mesmas dores, vendo-se a toda hora às voltas com “o mulambo da língua paralítica”, incapaz de reproduzir suas idéias. Poderíamos fazer um volume só com seus versos que falam na incapacidade de dizer as coisas: “Grito, e se grito é para que meu grito / seja a revelação deste Infinito / que eu trago encarcerado na minh’alma!” 

O poeta, que alguém já apelidou bem-humoradamente de “Angústio dos Anjos” via com desespero essa incapacidade, mas Carlos Drummond, poeta mais sereno, dizia, em “Canto Esponjoso”: “Vontade de cantar. Mas tão absoluta / que me calo, repleto”. 

Lembro daquela cena do Amarcord de Fellini em que numa certa noite as pessoas da cidade pegam botes, canoas, e vão para o mar. São dezenas de pequenos barcos e lanchas cheios de gente, levando lanternas, marmitas, o escambau. E a certa altura ficamos sabendo por quê: naquela noite passa por ali um transatlântico, que surge do nevoeiro como uma estrutura gigantesca, coberta de luzes, emitindo sons profundos, agitando as águas. As pessoas acenam, gritam, agitam lenços chorando. O transatlântico provavelmente nem percebe que eles estão ali, e passa, sereno, pesadíssimo, mais cheio de luzes do que uma espaçonave de Spielberg. E num dos barcos, sobraçando uma sanfoninha, de óculos escuros, está o ceguinho da cidade, também gritando e deslumbrado. O que ele está experimentando ali é O Inefável.





1299) Massa concentrada (12.5.2007)



A NASA criou o termo “mascon” (derivado de “mass concentration”, que podemos adaptar, para manter a ordem dos termos, para “massa concentrada”) para designar certas regiões da superfície da Lua com uma anomalia gravitacional, exercendo uma atração maior que o normal, devido à existência de grande concentração de massa no subsolo. O crítico literário Stephen Henderson apropriou-se deste termo para indicar palavras, que ele chama de “mascon words”, que embora sejam palavras comuns para outras pessoas, possuem na cultura Afro-americana um peso maior, porque correspondem a uma massa de experiência oculta, subterrânea, compartilhada apenas pelas pessoas de raça negra. Palavras como “blues”, “train”, “home”, etc. são ouvidas e escutadas de maneira diferente por um norte-americano negro.

Vejam em português a palavra “chuva”. Para um sertanejo, é uma palavra sagrada, sinônimo de esperança, de vida. Para quem vive no campo com a mão na testa tocaiando as nuvens, chover ou não chover é uma questão de vida ou de morte. Uma vez, aqui no Rio, vi uma pessoa dizer para outra, brincando: “Você tem cara de quem gosta de chuva”. Pensei cá comigo: “E pode existir alguém que não goste de chuva?!” Claro que pode. Chuva, aqui no Rio, significa transtorno para quem está preso no trânsito rumo ao escritório, ou então uma má notícia para quem pretendia ir à praia. É, tanto quanto no Sertão, uma palavra “mascon”, só que neste caso com uma concentração de energia totalmente inversa.

Podemos pegar a palavra “sol”, por exemplo. Curiosamente, o sertanejo não detesta o sol, não tem horror ao sol, por mais que nossas canções o chamem de “sol inclemente”, sol que “calcina a terra”, sol que “queimou as folhas e bebeu o ribeirão”. Em qualquer simbologia sertaneja o sol é visto como uma divindade, mas que precisa ser encarada com cautela, como o Fogo.

É curioso ver como “Sol” é também uma palavra “mascon” em outros contextos musicais. O Sol é endeusado, tratado quase como um Deus Egípcio, tanto na música carioca quanto na música inglesa – só que por motivos inteiramente diversos. Na música do Rio, o sol é sinônimo de praia, festa, luz, alegria, sensualidade, corpos jovens e bronzeados. Acostumado a uma superabundância de sol, o carioca o considera indispensável ao “estar vivo”, não admite separar-se dele um dia sequer. Já na música inglesa, o sol é símbolo de calor, vida, motivo para sair de casa, para tirar o paletó e aproveitar aquele breve episódio de luz e calor numa vida úmida, sombria, vivida entre quatro paredes. Tendo tão poucas chances para apreciar o sol, o britânico o reverencia como algo raro e muito precioso, algo a ser fruído segundo por segundo, porque nunca se sabe quando ele surgirá de novo. Porque, como diziam os Beatles, “amanhã pode chover, e nesse caso, eu irei atrás do Sol”. Palavras com massa concentrada: massa de emoções individuais e coletivas, palavras que cristalizam toda uma cultura.

domingo, 11 de outubro de 2009

1298) Máquina de escrever (11.5.2007)




Daqui a um milhão de anos, os arqueólogos da futura Humanidade estarão desenterrando, junto com ossadas de iguanodontes e crânios de tiranossauros, os arcabouços enferrujados das máquinas de escrever do século 20. Simpósios e mais simpósios serão organizados para discutir qual a serventia que teriam tido aquelas engenhocas tão intrigantes e perturbadoras quanto o Mecanismo de Antikhytera. 

Mal saberão eles que foi em cima dessas barulhentas contrapções que milhões de escritores gemeram, suaram, sofreram, viveram, se desesperaram, atravessaram os sete céus e os sete infernos de que fala o poeta.

Sofrimento de tal ordem que deu origem a um dos clichês cinematográficos mais desgastados em filmes sobre escritores: o cara datilografa, pára, começa de novo, pára, arranca a folha de papel, amassa, joga do outro lado do escritório, bota outra folha, amassa de novo... aí depois de fazer isso algumas vezes se desespera – e arremessa a máquina pela janela! 

Todo filme mostra esse clichê, e eu duvido que na vida real algum escritor já tenha feito isso.

Penso em Jack Kerouac pegando um rolo de papel contínuo com centenas de metros, enfiando a ponta dele na máquina e escrevendo On the Road do início ao fim, ao longo de três semanas, na base do café e da benzedrina, sem precisar trocar de folha. 

E penso em Raymond Chandler aos cinqüenta anos, um executivo desempregado tentando virar escritor, e mandando para a editora manuscritos (ou datiloscritos) em que ele se preocupava em alinhar todas as linhas na margem direita, porque pensava que se não fosse assim o livro poderia ser recusado.

Uns com tanta intimidade, outros com tão pouca. Intimidade com máquina de escrever se conquista aos poucos, através dos olhos, das mãos, dos dedos, ganhando-lhe a confiança e retribuindo-a com carinhos, como dizia Mário de Andrade, ao escrever na máquina uma carta para Manuel Bandeira em 1925: 

“E agora já sabe: quinze minutos que seja de descanso, estou na frente da Manuela batendo tipo sem parar. Manuela é o nome da máquina, por causa de você. Inventei agorinha mesmo isso. Não refleti nem nada: ficou Manuela”. 

Em pleno Modernismo nossos escritores tateavam com timidez no mundo high-tech do teleco-teco do teclado, isso quando Mark Twain já tinha se tornado em 1883 o primeiro autor a submeter um “manuscrito” à editora sob a forma de um texto datilografado (o livro era Life in the Mississipi, e Twain não datilografou ele próprio o texto, pagou alguém para isto).

E não só os escritores devem sua vida a ela; a partir de certa época, também os personagens. 

Já em 1897, Bram Stoker fazia sua personagem Mina Harker, a vítima principal do Conde Drácula, ter à sua disposição uma máquina de escrever onde ela registra em 62 páginas tudo que lhe aconteceu, com todas as informações necessárias para que o Conde seja descoberto, e diz, no Capítulo 26: “Oh, como sou grata ao homem que inventou a máquina de escrever Traveller’s!”



1297) Curso prático de cartomante (10.5.2007)



Como fazem as cartomantes para adivinhar nosso futuro? Ou, mais modernamente: como é que os autores de livros de auto-ajuda são capazes de adivinhar meus problemas e dizer coisas que servem como uma luva para aprumar minha vida? O psicólogo Ray Hyman, colaborador da revista Skeptical Inquirer (citada de vez em quando nesta coluna) resolveu fazer algumas experiências neste campo. Consultou hipnotizadores, lobistas, vendedores-de-enciclopédias a domicílio, publicitários, evangélicos, trambiqueiros profissionais – ou seja, todos os indivíduos que ganham a vida convencendo outras pessoas a fazerem o que é do seu interesse. (E a ambigüidade deste “seu” é proposital).

Hyman descobriu que os clientes desses indivíduos têm uma tendência (que os profissionais logo descobrem, incrementam e manipulam) a perceber mais significado numa situação do que de fato existe. Diante de frases aleatórias, essas pessoas projetam nelas suas próprias dúvidas e seus desejos, e encontram um sentido pessoal naquilo que foi dito. Disse Hyman: “Para conquistar a simpatia de uma pessoa basta dizer-lhe o que ela quer ouvir. Ela quer ouvir coisas a respeito de si mesma. Então, fale sobre ela mesma. Mas nunca lhe diga a verdade. Diga o que ela gostaria que fosse verdade”.

Uma das técnicas que Hyman aprendeu com seus consultores foi o que ele chama de “fishing”, “pescar”, e consiste em fazer com que o cliente fale bastante sobre si mesmo, e depois dizer-lhe a mesma coisa de volta, só que com outras palavras. Na maior parte dos casos, o sujeito não percebe. Outros conselhos: sempre dê a impressão de saber mais do que de fato sabe; não tenha medo de elogiar o cliente sempre que houver uma chance.

Hyman dedicou-se por algum tempo à leitura de mãos: pedia para ver a palma da mão de alguém e começava a dizer o que achava que aquela pessoa queria ouvir. O sucesso era imediato. A coisa chegou a um ponto em que ele começou a acreditar que tinha de fato poderes de adivinhação extra-sensorial. Para fazer um teste, começou a dizer exatamente o contrário do que as “palmas” pareciam dizer-lhe – e percebeu que as pessoas continuavam acreditando em tudo!

O que isto nos diz sobre a natureza humana é, em princípio, meio deprimente. Diz que somos crédulos, bobos, inseguros, e que qualquer pessoa perceptiva e pouco escrupulosa é capaz de nos levar na lábia, simplesmente através da adulação com ar professoral. (Grandes políticos e grandes “Don Juans” fazem isto pela vida afora.) Por outro lado, talvez nos diga algo de bom. Diz que acreditamos em nós mesmos; que procuramos sempre o melhor; que somos capazes de usar meia-hora de papo furado de um desconhecido como uma mola propulsora do nosso entusiasmo, de nossa vontade de fazer com que as coisas dêem certo. No dia em que uma cartomante me disser que eu vou fazer uma grande viagem e eu finalmente criar coragem e for conhecer o Japão, como posso me queixar dessa sábia madame?

1296) Cultura informal (9.5.2007)



Debate-se em todo lugar a Cultura Erudita e a Cultura Popular, mas existe uma outra dicotomia que não vejo discutir, e que em muitos pontos coincide com essa, sem ser a mesma coisa. Eu chamaria a essas categorias Cultura Formal e Cultura Informal. Não é a mesma coisa que Erudito x Popular, e acho que pode ser mais bem compreendida se fizermos um paralelo com a Economia.

Chamamos de Economia Informal a toda essa atividade econômica que toma conta de nossas ruas: camelôs, vendedores ambulantes, etc. É chamada de informal porque vive à margem dos registros, dos controles e da fiscalização do Estado. Quem a pratica não tira documentos, não requer alvará, não emite nota fiscal, não assina carteira dos empregados, não transaciona através de uma conta bancária da “firma”. Dinheiro entra e dinheiro sai; mercadoria vem e mercadoria vai; e o governo não vê nada e não recebe um ceitil. Grande parte dos brasileiros prefere trabalhar assim. Num país de impostos tão múltiplos e escorchantes, e de tantos exemplos de como gastar mal o dinheiro público, até lhes dou razão.

Passemos para a Cultura Informal. Não sei se podemos traçar uma linha nítida separando-a da Cultura Formal, porque é mais uma questão de grau do que de sim ou não. Mas podemos tentativamente estabelecer que a Cultura Formal é aquela que se cria, se discute, se processa e se consome dentro dos meios oficiais, que são os do Estado e os do Mercado. Os meios oficiais do Estado são as universidades, as academias de letras, os conservatórios, as galerias e escolas de Belas Artes, as escolas e grupos de teatro com apoio oficial, etc. Os meios do Mercado são as editoras e livrarias, o circuito teatral e musical (casas de shows, etc.), todos os espaços onde se produza cultura e exista não apenas uma vigilância fiscal do estado (cobrança de taxas, necessidade de autorização, etc.) como também exista uma espécie de consenso de que é naquele espaço e naquela atividade que acontece a verdadeira cultura, e lá é possível ser um artista profissional.

A Cultura Informal, por outro lado, é o borbulhante caldo amadorístico que precede todo esse profissionalismo. Ela envolve toda a atividade cultural em que circula pouco ou nenhum dinheiro; em que as pessoas agem motivadas pelo entusiasmo próprio, sem que ninguém as contrate ou as obrigue; onde as obras são produzidas e circuladas pessoa-a-pessoa, sem intermediários e sem cobertura da imprensa. Grande parte da cultura popular ou folclórica ocorre nesta faixa, mas as duas não são sinônimas: as Escolas de Samba do Rio de Janeiro, por exemplo, já pertencem à Cultura Formal, enquanto que recitais poéticos e happenings musicais da Zona Sul carioca são praticados por jovens de classe alta, mas tão tipicamente exemplos de Cultura Informal. Seria útil traçar o perfil de uma e de outra, pesar as vantagens de uma e de outra, para que soubéssemos quando seria mais conveniente fazer parte de uma ou da outra.

sábado, 10 de outubro de 2009

1295) “Freud e seu duplo” (8.5.2007)



Uma das muitas importâncias que tem a obra do Dr. Sigmund é sua capacidade de ser entendida psicologicamente por um psicólogo, medicamente por um médico, literariamente por um escritor etc. É sobre este último caso que se concentra a atenção de Noemi Moritz Kon neste livro publicado em 1996 pela Editora da Universidade de São Paulo. Até que ponto Freud era escritor, no sentido literário do termo? Até que ponto a Psicanálise pode ser entendida como literatura, ou seja, a criação de significados por si mesma, e não a busca e avaliação de significados exteriores a si?

Freud comentou várias vezes que a Psicanálise se assemelhava à Arqueologia. Tratava-se, sob esta ótica, de descobrir memórias soterradas, fosse pela mera ação do tempo, fosse pelo trabalho ocultativo de quem cobre de terra os seus malfeitos, como um gato doméstico ou um assassino apressado. Cabe ao médico remover essa terra, trazer à luz o que estava oculto, expô-lo ao paciente e perguntar: “Quer falar sobre isto?” Esta é uma das maneiras de ver a coisa. Outra maneira – pelo que vejo, também legítima, também endossada por muitos psicanalistas – é reconhecer que nem sempre se sabe se a relíquia desenterrada (seja caco de cerâmica inca ou dente de brontossauro) é autêntica ou não. Freud se deparou com isto em seus primeiros estudos sobre a histeria, quando percebeu que os relatos de violações de suas pacientes não tinham acontecido, eram fantasias delas, misturando lembranças confusas da infância com suas próprias releituras maliciosas de mulher adulta.

Isto lembra uma imagem de Jorge Luís Borges sobre o mundo imaginário de “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”. Neste mundo, a mente tem primazia sobre a matéria, e é possível criar objetos simplesmente imaginando-os. Fulano perde um objeto, acha-o, mas Sicrano, que o ajudava a procurar, acaba encontrando um segundo objeto quase idêntico ao que estavam procurando. Este segundo objeto é um “hrön” (plural: “hrönir”). Pode ser produzido apenas pela esperança ou pela expectativa. Alguns trabalhadores são designados para escavar num suposto sítio arqueológico, onde devem existir relíquias, e começam a desenterrar objetos variados, inclusive “uma roda enferrujada com data posterior ao experimento”. Como tudo em Borges, parece uma sátira a determinados projetos científicos, e tanto pode se referir à Psicanálise quanto à Física de laboratório.

“Quem procura, acha”, já diz a sabedoria oracular da TV popularesca. Freud comparou certa vez a Psicanálise e a Arte dizendo que a Psicanálise era como a escultura, que se limita a retirar o “entulho”, deixando no fim do trabalho algo que já estava ali e foi revelado pelo processo de retirada, enquanto que a Arte seria como a pintura, que se aproxima de um espaço em branco (a tela) e o cobre com formas e cores saídas da imaginação do artista, mas que antes disto “não estavam lá”. Mas sua própria prática mostrou-lhe que a diferença não é tão grande assim.

1294) “A Encomenda do Bicho Medonho” (6.5.2007)




(uma das obras de Seu David)

Dois filmes paraibanos foram exibidos no recente festival Cine-PE: Cabaceiras de Ana Bárbara Ramos, e o vídeo A Encomenda do Bicho Medonho de André da Costa Pinto. Este último documenta o trabalho do artesão David Ferreira, de Barra de São Miguel. 

Seu David é um barbeiro de 94 anos que nas horas vagas, as quais são muitas (imagine o que é ser barbeiro em Barra de São Miguel) emprega seu tempo esculpindo toras de madeira, criando umas intrincadas engrenagens que só vendo para crer. O leitor já deve ter visto, em lojas de artesanato, aquelas correntes com elos de madeira, elos que não têm emendas, porque foram esculpidos daquele jeito, uns por dentro dos outros, “deixando tudo encangado”.

Diz Seu David que a partir de certa época na vida começou a ter sonhos com um bicho que lhe mandava esculpir essas coisas; ao acordar, passou a obedecer à voz ouvida em sonho. Uma de suas filhas contradiz o pai, num depoimento: “Se ele diz que a voz manda ele fazer umas coisas tão bonitas assim, então não é bicho nenhum, deve ser é um anjo!”. 

Seu David faz caixas ocas, esculpidas de fora para dentro, com correntes desse tipo em seu interior, um troço tão complicado de descrever que é mais simples vocês pegarem um ônibus e irem até Barra de São Miguel para dar uma olhada.

Não duvido de que o trabalho de Seu David seja conhecido por Ariano Suassuna, e tenha servido de inspiração para um episódio do folhetim (publicado entre 1976 e 1977) As Infâncias de Quaderna. 

Ali, no Folheto “O Ladrão de Madeira”, o protagonista Quaderna, então um menino de dez anos, encontra um de seus irmãos bastardos que vivem soltos na fazenda de seu tio. Matias rouba madeira para esculpir umas formas fantásticas, e confessa a Quaderna que vivia tendo pesadelos em que sonhava com criaturas terríveis. O cantador João Melchíades, que vivia na fazenda, o aconselhou a esculpir esses monstros na madeira, porque assim conseguiria de certa forma domesticá-los, livrar-se de sua ameaça. E Matias diz: 

“Fiz, e livrei-me de novo do pesadelo; mas daí em diante fiquei assim: depois de fazer cada figura, tinha uns dias de folga e de descanso no juízo, mas aí aparecia outra visagem e eu começava a ter outro sonho que só me largava quando eu obedecia à voz de Deus.”

Um cientista diria que o Bicho Medonho que nos faz essas encomendas é o nosso Inconsciente freudiano ou junguiano, aquele tumulto indizível de impulsos atávicos que durante o sonho nosso cérebro reprocessa em termos visuais e auditivos. 

Como dizia Jorge Luís Borges, não é que a gente sonhe com um tigre e sinta medo; a gente sente medo, e o sonho produz um tigre para servir de explicação. Mas de onde vem o medo? De onde vêm os pedidos do Bicho Medonho? Vem, como diria Augusto, “de incógnitas criptas misteriosas” que trazemos em nossa mente. E que alguns privilegiados como Seu David conseguem traduzir num tipo de Arte que não tem (e não precisa ter) explicação.






1293) “Cabaceiras” (5.5.2007)



Estive no Recife participando do Festival de Cinema, o Cine-PE, onde um dos curtas premiados foi Cabaceiras de Ana Bárbara Ramos, que ganhou o prêmio de Melhor Curta-Metragem na opinião do público. Não é pouco. Foram 22 curtas, a maioria deles muito bons. Cabaceiras, ao que parece, tocou o lado emocional da platéia (de 2.300 pessoas por noite) ao mostrar a imensa distância existente entre o cinema que se faz em Cabaceiras e a vida da população local. Comentei aqui, dias atrás (“Roliúde Nordestina?”, 24 de abril) o movimento que está rolando para denominar a simpática cidade do Cariri como a nossa “Roliúde”. Vendo os depoimentos dos cabaceirenses no filme de Ana Bárbara Ramos, fiquei ainda mais convencido do que disse naquele artigo.

O filme resiste à tentação de demorar a câmara durante horas nas formações rochosas do Lajedo do Pai Mateus, por mais fascinantes que sejam. Quem faz isso são os fotógrafos que vêm de fora e que ficam de queixo caído diante daquela geologia surrealista. A câmara (de João Carlos Beltrão) se demora é nos rostos das pessoas, que falam longamente sobre o orgulho que sentem por sua cidade, pelo fato de pessoas de fora virem filmar ali, e tudo o mais. Mas ergue-se no meio dos depoimentos aquela queixa que tantas vezes se repete nos habitantes dos lugares nordestinos que servem de locação para filmes: por que só querem filmar o lado feio, o lado árido? Uma das moradoras compara a cidade com uma cabaça: por fora, parece seca, desinteressante, sem beleza alguma; por dentro está cheia de sementes. “Essas sementes são as pessoas”.

Peço emprestada essa singela metáfora para reafirmar que precisamos olhar o lugar em que vivemos com olhos nossos, e não com os olhos de quem vem de fora. Quem sabe o que temos a oferecer ao mundo somos nós, e não eles. Eles vêm aqui atrás de “mandacarus, canaviais e figurantes” – o que não é nada demais, afinal moram em planetas distantes como o Rio ou São Paulo, e para eles a Paraíba não passa de um lugar pedregoso e místico, uma espécie de Judéia perdida no século 21. Vi ontem, num artigo de Luís Zanin, uma frase de Paulo Emílio Salles Gomes (um dos nossos maiores críticos cinematográficos) que coloca bem esta questão: “Não somos europeus nem americanos do norte, mas destituídos de cultura original, nada nos é estrangeiro pois tudo o é. A penosa construção de nós mesmos se desenvolve na dialética rarefeita entre o não ser e o ser outro.”

Estamos o tempo inteiro nos comparando com europeus, com americanos do norte, com cariocas, com paulistas, com pernambucanos. Precisamos fugir às duas maldições do subdesenvolvimento: recusar raivosamente tudo que vem de fora, ou usar servilmente como espelho tudo que nos vem de fora. A Paraíba tem uma tradição cultural (cinematográfica, inclusive) que poucos Estados têm neste país. Não precisa recorrer a Hollywood para afirmar a existência de Cabaceiras.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

1292) Noel Rosa (4.5.2007)



Os jornais anunciam que este ano a obra musical de Noel Rosa estará se tornando de domínio público, porque se completam 70 anos da morte do autor. Parece menos. Se a gente pega as músicas de Noel, sente na maioria delas uma simplicidade poética e uma sutileza que parecem ser do ano passado. Comparadas com as letras de Noel, são algumas letras recentes de Chico Buarque que (sem discutir o mérito da qualidade poética) parecem vir de uma época mais rebuscada, mais erudita, menos coloquial. A comparação procede. Chico e Noel estão sempre próximos em minhas referências, porque sou da geração que foi correndo à loja da Olacanti para perguntar a Dora se já tinha chegado o LP de Chico Buarque, no qual já sabíamos que iríamos encontrar seu grande sucesso “A Banda” e suas duas obras-primas, “Olê Olá” e “Pedro Pedreiro”. E a imprensa carioca saudava o aparecimento do maior letrista do Rio de Janeiro desde Noel Rosa.

Não se pode conceber duas vidas mais diferentes nem em dois talentos tão parecidos. Chico e Noel têm um olho meio Cartier Bresson para distinguir personagens fugidios ou pequenas situações do cotidiano, e extrair deles meia dúzia de estrofes que os fotografam de dez ângulos diferentes e inesperados. Depois, guardam a máquina na bolsa e vão embora assobiando, como se aquilo fosse a coisa mais simples do mundo. O Noel Rosa de “Três Apitos”, “O Orvalho vem Caindo” ou “Conversa de Botequim” gerou o Chico Buarque de “Rita”, “Juca”, “Você não ouviu”, “Januária” ou “A Televisão”. São as décadas de diferença entre os dois, e a inegável erudição de Chico, que o levam a explorar formas mais complexas que Noel, pela formação que tinha e pela vida que levava, não se sentiria impelido a experimentar. Noel talvez pudesse ter composto “Quem te viu, quem te vê” ou “Carolina”, mas, talento à parte, não posso imaginá-lo fazendo experiências como “Construção” ou “Geni e o Zepelim”.

Noel foi quase um cantador de viola. Dada uma estrofe de forma fixa, cada estrofe com o mesmo número de versos, cada verso com o mesmo número de sílabas, ele parecia capaz de derramar texto dentro delas e preenchê-las como quem enche copos sucessivos sem que fique uma gota dágua sobrando ou faltando. Sua espantosa fluência verbal fazia tudo parecer muito fácil. Sua vida boêmia e seus desenganos amorosos lhe deram uma percepção amarga das coisas que se vê em “Último desejo”, “Pra que mentir”, “Filosofia”, “Quantos beijos”... Diz-se dele (como de tantos compositores do samba) que compunha batucando na mesa do botequim, rabiscando em guardanapos, esperando o bonde. Fazia música de ocasião, atendendo à provocação de um amigo, ou estimulado pela melodia nova que o parceiro acabava de dedilhar ao violão. Como o chope num barril, tinha poesia sob pressão, gelando na serpentina, esperando apenas o momento de abrir a torneira. Em 2007, sua obra retorna ao domínio público, ao ambiente que a produziu.

1291) Arte Conceitual (3.5.2007)




(ilustração: Keith Arnatt)

Chego ao Centro Cultural, pego minha senha, adentro a exposição principal. É um vasto salão de paredes nuas, chão nu, teto nu, e toda essa nudez dionisíaca deve ter como propósito equilibrar a sobriedade apolínea da obra exposta no meio do aposento. 

Aproximo-me. Sobre o chão de tacos há um praticável de madeira em tom neutro, com um metro quadrado, e em cima dele A Obra. 

É uma caixa de acrílico transparente, que parece inteiriça, porque não percebo junturas nas suas arestas. Não é quadrada nem retangular; lembra um pouco uma estrela tridimensional, com raios que se expandem em todas as direções a partir de um centro, só que um raio é cilíndrico, outro é um cone fino e torto, outro é uma série de bolotas de tamanhos diferentes, outro é uma haste que se expande em cálice-losango, cada um deles com diâmetros entre dez e vinte centímetros, e todos ocos.

Rodeio dum lado, rodeio do outro, fazendo de conta que não vi direito algum detalhe, mas na verdade estou ganhando tempo diante de mim mesmo, porque me sinto na obrigação de ter uma idéia. 

À minha esquerda um casal, ele de bengala e barba branca, ela de óculos acadêmicos e cara de sobrenome europeu. “Multiplicidade”, murmura ele. “E simultaneidade”, retruca ela. Ele pega a deixa: “É um corte sincrônico nas possibilidades do Ser”. Ela: “Sim – mas é uma interrupção no seu devir”.

Rodeio de novo. Dois rapazes de roupa descuidada, cavanhaque pop e cara de quem deu uma bola. “Vi um igualzinho em Kassel”, diz o mais alto. “O autor disso também viu”, diz o outro. E soltam casquinadas escarninhas, tapando a boca com a mão.

Volto a rodear e me aproximo de um grupo de moças, todas bronzeadas, todas de ombros à mostra, todas de testa franzida, em volta de um quarentão de cavanhaque, terno preto, camisa preta, cabeça raspada, parecendo o Agente 47 do “Hitman”. Uma dela diz: “Mas, o que que tem aí dentro?” Antes que ele responda, uma mais impetuosa responde: “Oxigênio!”. 

Ele sorri, passa os braços sobre os ombros das duas (enciumando as demais, que se aglomeram em torno), e diz: “Sim. Oxigênio, azoto, poeira, mas acima de tudo...” Faz uma pausa dramatúrgica, e prossegue: “Espaço. É uma fragmentação do espaço através desse invólucro. Vejam como a substância envelopante tenta manter-se invisível, imperceptível. Não é ela a obra. A obra é esse formato que ela delimita. Podemos ter certeza de que não há, agora, neste instante, em todo o Planeta Terra, em todo o Sistema Solar, em toda a Galáxia, nenhum outro trecho do continuum-Espaço-Tempo que tenha o mesmo formato deste que estamos contemplando.” 

Uma delas joga o cabelo para trás: “Uau”. Outra murmura: “Ai, professor, me arrepiei agora”.

Entenderam o que é Arte Conceitual? É teatro. Uma peçazinha de teatro que o público improvisa sem saber, criando diálogos e atitudes em torno de um Objeto Mudo que lhe serve de Catalisador de Idéias, ou de Mote Universal, ou de Tábua de Salvação.