Não vou falar aqui do improviso musical. É uma forma de arte a que não tenho acesso a
não ser como ouvinte embasbacado diante dos floreios e piruetas melódicas de Charlie
Parker ou Stéphane Grappelli ou Oscar Peterson.
Não que o jazz monopolize a arte do improviso, e aqui estão
nossos grande melodistas-da-surpresa como Dominguinhos, ou Hamilton de Holanda,
ou Yamandu Costa, e mais mil-e-um e lá-vai-fumaça.
O improviso verbal é o que me atrai. A palavra é meu território
natal, é meu DNA, é algo que sinto tão próximo de mim que não consigo enxergar
por completo, assim como nenhum de nós consegue enxergar o próprio rosto.
(Cuidado, os espelhos enganam.)
Sou capaz de resgatar da minha memória meus recuos receosos
durante a infância, escutando o programa “Retalhos do Sertão” da Rádio
Borborema, com dez ou onze anos de idade.
Um locutor com voz de barítono encorpado dizia:
--
E agora, vamos trazer de volta nossa dupla titular do programa: José Gonçalves
e Cícero Bernardo. Eles vão glosar o mote enviado por dona Chiquinha Neves, do
sítio Quixaba, em Juazeirinho. O mote diz: “Não tem sol pra secar o oceano, nem
despeito que acabe o nosso amor”.
E os violeiros começavam a cantar suas estrofes, desenvolvendo
esse tema e terminando todas as estrofes com os versos dados.
Eu perguntava a minha mãe:
-- Isso é feito na hora mesmo, ou é combinado antes?
Dona Cleuza respondia:
-- É feito na hora. Se não, que graça tinha?
Eu ia perguntar a meu pai.
-- Como é que eles conseguem inventar um verso inteiro, na hora,
em-cima-da-bucha?
Seu Nilo gostava de ser perguntado. Botava uma pose de nonchalance, como quem diz “mas você
está se preocupando com uma coisa tão simples?...”.
-- Eles treinam muito – dizia. – Qualquer coisa que você treina
fica ligada o tempo todo na sua cabeça. Pegue o exemplo dos trocadilhos. Emílio
de Menezes vinha num bonde, quando duas senhoras, tão gordas quanto ele,
sentaram-se, e o banco cedeu, derrubando as duas. Ele murmurou para o amigo que
ia ao lado: “Primeira vez que vejo um banco quebrar por excesso de fundos”.
-- Tudo bem. – Eu não me dava por achado. – Improvisar piada é
fácil. Mas um verso inteiro? Rimado e metrificado?
-- Treino – dizia ele. – Se você treinar soneto, consegue
improvisar um soneto em alguns minutos. O mesmo Emílio viu uma vez a demolição
de uma catedral, no Rio de Janeiro, puxou o amigo para uma mesa de café, pegou
lápis e papel e improvisou o soneto famoso: “Vetusta
catedral que ao tempo te esborcinas...”
-- E quanto tempo ele levou? – Eu sempre gostei de
especificações técnicas.
-- Não sei. Um soneto? Pode botar aí dez ou quinze minutos.
-- Isso tudo?! Se for
isso tudo eu também consigo!...
-- Está vendo como é fácil?
Não é fácil, não é simples, mas Seu Nilo tinha razão. Vi-o
improvisar sonetos, assim, inúmeras vezes. Treino é treino e jogo é jogo, mas a
vida futura iria me ensinar que não existe treino mais útil do que jogo jogado.
Não existe preparação melhor do que o “tá valendo”.
E é o que os cantadores de viola fazem o tempo inteiro, calados,
pensativos. Por baixo desse silêncio escorre um rio subterrâneo de quase-versos,
versos quebrados, experimentados, deixados incompletos, rimas se encadeando num
fluxo-de-consciência sempre ligeiramente abaixo da superfície da mente pública.
Na hora de produzir verso-de-verdade a coisa flui, porque, mesmo
que não tenha nada pronto, tem na memória um milhão de coisas com meio-caminho-andado.
Como o próprio Emilio de Menezes dizia, em seu célebre soneto
homenageando o amigo Olavo Bilac:
Corre,
sobre o papel, a tinta, como um rio
a
correr na caudal que o declive acelera!
Os
vocábulos vêm, espontâneos, a fio...
O pessoal do hip-hop,
aliás, não faz algo muito diferente. Seu verso preferencial é o mesmo verso de
7 sílabas dos cantadores e dos cordelistas, o famoso verso da cadência “batatinha quando nasce”, e que eu
prefiro chamar de “maracá, maracatu /
maracatu, maracá”.
O improviso do hip-hop, no
entanto, é em cima de uma forma livre, maleável. Essa forma pode ser alterada o
tempo todo, e na verdade pede para
ser alterada o tempo todo, mediante quebras ou sobras, mediante síncopes ou
epènteses, mediante um esticamento de vogaaaaais para preencher meio compasso,
ou mediante um atravancamento de sílabas pra arrumar frase comprida em verso estreito,
como quem arruma um show de rock numa van.
Teoricamente, é mais fácil improvisar assim, sem aquela rigidez
calvinista da Cantoria e do Cordel, cuja beleza é a ambição da regularidade
absoluta.
O Hip-hop é uma criação de formas à la Gaudí, cheias de
distorções, surpresas e caos sob controle. Já a Cantoria de Viola procura ser uma
catedral gótica, feita de simetrias e exatidões.
Um rapper vai soltando
os versos do jeito que lhe vêm:
Parece que é muito fácil
é assim como um palácio
parece que nasceu pronto
mas olha aqui eu não te conto
noite que fico acordado
de olho arregalado
parece que estou parado
com a cabeça em movimento,
eu tento
eu me sento
eu me deito
eu volto para o leito
e o verso não sai perfeito
sai assim meio reto, meio
torto,
parecido com meu corpo
parecido a minha cara
meu rosto de pau-de-arara
penei mas aqui cheguei
sofri mas improvisei
o verso é bom? Eu não sei
só vai saber quem escuta
qualquer um filho----
E por aí vai. Cinco minutos? Moleza, deixa-solto e deixa comigo.
Acho que cabe também um mínimo de definição teórica, para que a
gente não se perca no juncal do euachismo. Proponho, por enquanto:
Improvisar
não é criar “do zero”, é produzir um resultado aceitável no menor tempo disponível,
obedecendo regras mutuamente aceitas.
O tempo requerido ao violeiro numa cantoria de pé-de-parede ou
num festival é de alguns segundos, ou de um ou dois minutos no máximo,
esticando a corda.
O tempo requerido ao cordelista diante de um fato para ser
transformado em folheto é de poucos dias, às vezes de apenas algumas horas.
Morte de celebridade, resultado do futebol ou da eleição, catástrofe: ele tem
que ficar sabendo, entender, escrever, imprimir e vender em tempo recorde.
E a canção popular? E o
samba, o bolero, o rock, o xote, o baião?
Quando se pode dizer que uma música foi “improvisada”, em vez de ser
burilada e aperfeiçoada durante semanas ou meses ou anos?
Canções populares muitas vezes são “improvisadas” em mesa de
bar, compostas em voz alta, batucando com as mãos no tampo da mesa, anotando a
letra num guardanapo. Isso é improviso? Sim, mas um improviso sem regras, a
música pode ficar pronta em quinze minutos ou em duas horas. Não se trata de um
ritual, ninguém deve satisfação a ninguém.
É inesgotável o repertório de canções populares que surgiram de
um jato, em minutos ou horas, apenas porque os compositores captaram uma idéia
boa que passou voando, e conseguiram dar-lhe forma na voz e no papel.
(Dylan e Baez)
Joan Baez conta de sua estupefação quando ela e Bob Dylan,
namoradinhos, tiveram dificuldades para serem aceitos num hotel, por causa do
cabelo e da roupa dele.
Em poucas horas, Dylan rabiscou furioso sua canção clássica,
“When the Ship Comes In”, seu protesto contra os caretas, os puritanos, os
filisteus, que serão exterminados “quando o navio chegar”.
Oh the time will come up
when the winds will stop
and the breeze will cease to be
breathin’…
Like the stillness in the wind
‘fore the hurricane begins
the hour when the ship comes in.
Aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=5c9_XkYYjTU&list=RD5c9_XkYYjTU&start_radio=1
Improviso? Talvez, com certa boa vontade, porque deve ter sido
mesmo uma resposta imediata a uma raiva muito grande. A poesia deve muito à
raiva, à raiva por uma causa nobre.
Improviso é, como
falei acima, uma relação de tempo entre um possível estímulo exterior e a
canção inteira, finalizada. Como diz o mestre Zé de Cazuza, a grande maioria
dos versos escritos são improvisados, só que o sujeito está escrevendo em casa,
sem pressa, sem pressão, pode demorar o tempo que quiser, pode voltar atrás
para refazer, etc.
O improviso de verdade é o que não tem muito direito a esses
luxos. É pensar e dizer, em cima da bucha.
Todos nós, compositores de música popular, devemos ensinamentos
a duas dinastias.
Primeiro, a dinastia dos Perfeccionistas,
dos que ficam esgaravatando sílabas e acordes “em busca da batida perfeita”, em
busca do verso irretocável... O verso de Chico Buarque, de Vinicius de Morais, de
Paulo César Pinheiro, o verso inatacável, aparentemente simples e claro como um
cristal, mas, também como um cristal, forjado em altas temperaturas, até se
tornar invisível, como tudo que atinge a perfeição.
É a escola de Dorival Caymmi e seus vinte anos para dar uma
valsa por terminada. Ou Leonard Cohen e seus dois anos para finalizar
“Hallellujah”.
E tem também a dinastia dos Instintivos.
São os que jogam a canção no papel do jeito que ela vem, com placenta e tudo, e
logo vão cuidar de alguma outra coisa. Quantos sambas não terá inventado Noel
Rosa nas mesas da Lapa, fazendo quadras em voz alta e contando com o
lápis-e-papel dos amigos para engaiolar os versos?
Quantos poemas-boleros não terá feito assim um Aldir Blanc, ele
também capaz de artesanatos, quando necessário, mas também vulnerável à influência
dos duendes etílicos, os tais que exigem da canção um irrecusável
agora-ou-nunca? É o mesmo espírito de um John Lennon olhando um cartaz de circo
na parede e extraindo dele o seu “Mr. Kite”.
A criação poética é feita de fagulhas rápidas, instantâneas,
produzidas pelo atrito entre a memória e a imaginação, impelidas pela
necessidade imperiosa de criar algo.
Na Cantoria de Viola, espera-se que o verso apareça em alguns
segundos. As sextilhas são alternadas. Depois que “João” canta seu verso,
“José” não tem escolha senão cantar o seu, por pior que seja, por mais
incompleto que esteja.
Nada aumenta tanto a necessidade de dizer alguma coisa quanto a presença de uma platéia cheia de
expectativa, como acontece na Cantoria de Viola. O sujeito ou cria alguma coisa
ou cai ciscando.
(foto de Roberto Coura: José Gonçalves e Ivanildo Vila Nova)
Nenhum comentário:
Postar um comentário