quinta-feira, 4 de junho de 2009

1076) O palestrante não pôde vir (27.8.2006)



O professor Ancistófeles Cremalheira é uma simpática e folclórica figura que conheci em tempos idos, quando ele trabalhava (deve trabalhar ainda) num desses departamentos culturais de universidade que existem por aí. Claro que o nome dele não é esse, mas não sou besta de botar o nome verdadeiro e depois o sujeito vir me processar, logo numa história da qual não tenho nenhuma prova material. Vamos supor, portanto, que tudo o que se segue é uma parábola inventada por mim num momento de descontração, para comentar certos aspectos da vida cultural do país.

Anos atrás estava eu posto em sossego, aqui no Rio de Janeiro, quando me liga o professor Ancistófeles, apresenta-se, expõe suas credenciais acadêmicas, e me convida para participar de uma Mesa Redonda sobre literatura, numa próspera capital brasileira. Lamenta não poder pagar cachê; oferece-me passagem aérea e hotel. Ora, naquele tempo eu era um cara besta, só cobrava por um trabalho se estivesse precisando de dinheiro. Se tivesse dinheiro no banco, fazia qualquer coisa de graça. Concordei com a proposta, até porque na Mesa Redonda estaríamos três: eu, um autor lá da cidade, e um autor carioca de muito sucesso, digamos que ele se chama Tibúrcio Pestana. Tudo combinado.

Na semana da viagem, encontro por acaso “Tibúrcio Pestana” aqui no Rio, somos apresentados, e eu comento: “Aliás, vamos nos encontrar de novo daqui a dois dias, não é? Na palestra tal e tal”. Ele fez uma cara de espanto, demonstrou ignorar por completo o fato. Por acaso eu tinha no bolso um “folder” que o professor me enviara, mostrei, e ele disse: “Mas é muita cara de pau. Esse pessoal me convidou para esse evento, e eu recusei, porque não tinha cachê. Como têm coragem de botar meu nome?” Sugeri que talvez o folder já estivesse sendo impresso, mas ele retrucou: “Me ligaram dois meses atrás. Eles já estavam imprimindo o folder, há dois meses?!”

A conversa morreu aí. Dias depois viajei, cheguei, fui ao hotel, fui para a palestra. Que era num auditório imenso, da tal Universidade. Cheíssimo. Botando gente pelo ladrão, e pelo jeito da turma, e pelo zum-zum-zum que entreouvi desde a chegada era uma platéia ansiosa pela palestra de “Tibúrcio Pestana”. Na hora H, subimos ao palco eu, o escritor local (um sujeito simpático, inteligente, bom de papo) e... o professor Ancistófeles Cremalheira, que pediu desculpas pela ausência inesperada de Tibúrcio (“ligou-me ontem, ansioso, com um problema grave de doença na família, pediu mil desculpas...”) e comunicou que, a contragosto, e por não dispor de um substituto à altura, ele próprio, o professor Ancistófeles, faria o sacrifício de tentar substituir o ilustre convidado. Eu falei 20 minutos, o escritor local falou outros 20, e o professor falou 45 para um auditório cheio como talvez nunca tivesse tido na vida – ou vai ver que tinha de vez em quando, porque um golpe fácil como esse o cara não aplica uma vez só.

1075) Duplas de cantadores (26.8.2006)


(José Gonçalves e Ivanildo Vila Nova, em foto de Roberto Coura)

Um dos aspectos que sempre distinguiram os cantadores de viola nordestinos dos cantores de música sertaneja foi o modo como esses artistas se organizam em duplas. Na música sertaneja de São Paulo, Minas, Goiás, as duplas são praticamente fixas. Tonico só canta com Tinoco, Chitãozinho só canta com Xororó, e assim por diante. Na cantoria de viola nordestina, os cantadores são soltos. Embora nada os impeça de ficar semanas ou meses cantando com o mesmo parceiro, parte-se do princípio de que o cantador, mesmo trabalhando sempre em dupla (cantador não canta sozinho) é um profissional independente. Como já me disse um cantador, “Os sertanejos são casados. A gente não, sai com quem quiser”.

Certas duplas se consagraram pelas grandes cantorias que fizeram juntas: Lourival Batista e Pinto do Monteiro é um exemplo que todo mundo se lembra. Mas Lourival cantava com todo mundo, não apenas com Pinto; e vice-versa. Eu vi Lourival cantar dezenas de vezes, e nunca com Pinto. Muitas vezes alguém quer chamar uma dupla de cantadores para se apresentar em sua casa, aí liga para o cantador Fulano: “Fulano, quero que você venha cantar aqui em casa. Você está cantando com quem atualmente?” “Com Beltrano”, “Ótimo, então venham os dois”. Se não interessar, o cara propõe: “Eu gostaria que você viesse cantar aqui, mas não com Beltrano, e sim com Sicrano. Pode ser?” Aí depende – se os dois ainda se dão bem, as agendas combinam, etc. Mas a dupla não é fixa.

Ouço falar que agora as duplas tendem a se manter estáveis. A só canta com B, C só canta com D. Dizem os cantadores (e eu concordo) que isso proporciona um entrosamento maior, que trabalhando sempre juntos os dois poetas desenvolvem um arquivo mais variado de assuntos (e de decorebas, que ninguém é de ferro). Ou seja: é a “cantoria de resultados”, seguindo o princípio capitalista do máximo de produtividade, o máximo de rendimento. Cantar com um desconhecido, ou com alguém com quem o poeta não desenvolveu essa afinidade, começa a parecer um risco, não importa que os cantadores tenham feito isto durante 150 anos.

Este aspecto sempre me pareceu intimamente ligado a outro que distingue os dois grupos: os cantores sertanejos cantam canções decoradas, os repentistas nordestinos improvisam. E isto, sim, é a distinção crucial entre os dois. Eu nada tenho contra um sujeito escrever versos, decorá-los e passar a vida a repeti-los. Tenho feito isto, aliás, nos últimos trinta anos. Mas a Arte da Cantoria é outra coisa, meus camaradas. A Arte da Cantoria consiste em ser capaz de improvisar. Levar verso decorado, lembrar verso antigo, encaixar de vez em quando um mesmo verso num lugar onde ele cabe... tudo isso faz parte do ofício, mas não é nisso que consiste a Grande Arte. E quando a dupla se torna fixa, o risco de cantar somente verso decorado cresce na mesma proporção. A dupla fixa pode ser (tomara que não seja, vou batalhar para que não seja) o começo do fim do Improviso.

1074) “Eu me prostituí por mordomias” (25.8.2006)



Eric D. Snider, jornalista free-lancer de Portland, foi banido pela Paramount Pictures de todas as entrevistas coletivas e pré-estréias patrocinadas pela produtora. Motivo: ele aceitou um convite para participar de um destes eventos, e em vez de escrever uma matéria elogiosa, contou tudo que aconteceu e perguntou: “Será que é preciso gastar tanto dinheiro, de uma maneira tão idiota, sob o pretexto de divulgar um filme?” O artigo intitula-se “I was a junket whore”, “Eu me prostituí por mordomias” (“junket” significa algo como “mordomia, boca-livre”), e pode ser lido em: http://www.ericdsnider.com/snide/i-was-a-junket-whore. Snider viajou de Portland a Seattle para cobrir o lançamento de “World Trade Center”, de Oliver Stone. Ganhou duas diárias num hotel de luxo, 125 dólares para alimentação, e o direito a duas conversas de 20 minutos, com mais seis jornalistas, com atores do filme e com os personagens reais que eles interpretam, e por fim mais 20 minutos com Oliver Stone.

Snider embarcou na empreitada achando que havia algo de errado, e já disposto a criticar. Mas seu julgamento é sensato, bem argumentado, com alguns toques de humor mas evitando o tom frívolo da imprensa “pop”. Um dos jornalistas presentes com ele ao papo com Oliver Stone mencionou de modo casual em sua coluna, dias depois: “Acabei de lanchar com Oliver Stone: uma bandeja com frutas e queijo, além de bolachas, nas quais ele mal tocou, limitando-se a pedir café. Stone disse que decidiu lançar uma versão reeditada de Alexandre...” Ou seja: o sujeito passa para seus leitores a sensação de que é importante, de que teve um lanche-a-dois com uma estrela de Hollywood. Na verdade, eram seis jornalistas de um lado da mesa, Stone entrou, cumprimentou todos, de um por um, respondeu as perguntas, tomou café, voltou a cumprimentar todos, e saiu para a próxima entrevista.

Diz Snider, sobre seus coleguinhas: “Quando eles falavam sobre filmes, não falavam se eles eram bons ou maus. Falavam sobre quem aparecia neles, e como eram essas pessoas. O cara de Vancouver parecia pensar em filmes somente em termos de quem eram as estrelas e se ele conseguira ou não entrevistá-las. A idéia de criticar um filme, discutir seus méritos como arte ou como entretenimento, pareciam-lhe totalmente estranhas. Eu, como crítico de cinema, achava aquilo inquietante, uma versão Mundo Bizarro do mundo em que vivíamos eu e meus colegas”.

Entre passagens de avião, táxi, hotel e alimentação, a Paramount gastou 1.100 dólares com Snider, para não falar no aluguel das suítes onde transcorria a entrevista, os lanches, etc. e tal. Pergunta ele: multiplicando isto por todos os jornalistas-de-aluguel que participam, será que vale a pena, em termos de ingressos vendidos? Isto pode ser considerado divulgação, mesmo do ponto de vista estritamente financeiro dos balancetes da empresa (deixando-se de lado questões como ética jornalística, importância da crítica de cinema, etc.)?

1073) A atração pelo Oculto (24.8.2006)




Estou preparando uma antologia de contos de terror, o que me exige a leitura de centenas de histórias desse tipo. Um trabalho desagradável e cansativo, mas regiamente pago. (Estou sendo irônico: é justamente o contrário.) 

Um dos subgêneros mais interessantes desse universo é a história de casas mal-assombradas, casas onde algo misterioso e ameaçador está acontecendo. Estas histórias obedecem a um padrão básico: 

1) Coisas estranhas ocorrem numa casa; 
2) Um cético e um crédulo se dispõem a verificar; 
3) Alguma coisa acontece, e o desfecho dá razão a um deles. 

Nas histórias de cunho racional ou humorístico, geralmente o cético tem razão. Nas histórias fantásticas e de terror genuíno, tem razão o que acreditava que “existem mais coisas entre o Céu e a Terra do que sonha a nossa filosofia”.

Os britânicos elevaram a extremos de refinamento este tipo de história, e a leitura seguida de dezenas delas nos permite perceber detalhes interessantes. Por exemplo: nas casas assombradas britânicas, existem os patrões e os criados. Os patrões querem investigar mais a fundo o que está acontecendo; já os criados apavoram-se com facilidade e batem em retirada. 

Lembro ao leitor que “patrões” e “criados”, na Inglaterra, não são equivalentes exatos ao que designamos com este nome aqui no Brasil. Curiosamente, aqui no Brasil os muito-ricos estão mais distantes dos muito-pobres do que na Inglaterra; mas aqui ainda existe uma certa promiscuidade social, fruto da química peculiar que se desenvolveu entre portugueses e africanos (e aqui cedo a palavra a Jorge Amado, Gilberto Freyre e outros). 

Na Inglaterra, a coisa é diferente. Patrões e criados vivem em universos paralelos, e aconselho o filme Assassinato em Gosford Park, de Robert Altman (tem em qualquer locadora) como uma bela descrição de como esses mundos, tão misturados entre si, são distantes.

No típico conto de terror inglês, os criados acreditam no sobrenatural mas não querem papo com ele; os patrões são céticos, mas por isto mesmo querem investigar mais a fundo. Só esta semana reencontrei este padrão em “The Screaming Skull” de F. Marion Crawford, “The Haunted House” de Charles Dickens, “The House and the Brain” de Bulwer-Lytton, “The Beast with Five Fingers” de W. F. Harvey, e outros. 

O que me lembra uma frase famosa de Jorge Luís Borges, quando perguntaram sobre a presença constante do tema de Deus em suas obras: “Sou o contrário dos outros argentinos: ele crêem em Deus mas não se interessam, já eu não creio, mas me interesso”. 

De um lado, o Povo com sua mentalidade arcaica, medievalista, supersticiosa, vulnerável ao medo do Oculto. Do outro, a burguesia com seu materialismo, seu Iluminismo, seu culto à Razão. 

O povo não gosta de mexer com Potestades, ainda mais do Além. Mas a maioria dos escritores pertencem (mesmo que apenas mentalmente) a este mundo burguês, para quem o Sobrenatural é um mero passatempo literário, que não ameaça e não impõe deveres.








1072) O declínio do improviso? (23.8.2006)




(Sebastião da Silva e Louro Branco)

Durante vários anos, quando morava em Campina Grande, trabalhei no Congresso Nacional de Violeiros, realizado pela Associação de Repentistas e Poetas Nordestinos, com o apoio do Museu de Arte da então Universidade Regional do Nordeste (atual UEPB). 

Um congresso de violeiros é um festival em que duplas de cantadores sobem ao palco, durante meia hora cada uma, para improvisar versos sobre assuntos sorteados na hora. Uma comissão julgadora atribui notas, as duplas classificadas nas eliminatórias retornam na noite final, quando as mais bem classificadas ganham prêmios.

A tarefa da comissão julgadora é difícil e ingrata. Mas não o é menos a da Comissão de Seleção, da qual eu geralmente fazia parte. Cabe a ela selecionar os assuntos e os motes que serão sorteados. 

Assuntos e motes bem escolhidos podem ajudar os poetas. Não é fácil subir num palco, de viola ao pescoço, cumprimentar a platéia e o locutor, e em seguida ouvir este dizer: “Agora vamos à apresentação desta dupla, John Lennon e Paul MacCartney. Primeiramente, eles cantarão sete minutos em sextilhas sobre o tema... (abre um envelope pardo, pede a um dos cantadores que escolha ao acaso lá dentro, entre dezenas de outros, um envelope menor, lacrado, tira dali um papelzinho datilografado, lê)... ONDE ESTARÁ OSAMA BIN LADEN?... Palmas para a dupla!” 

Aí eles se postam junto aos microfones, ponteiam as violas durante um minuto, e começam a improvisar.

Essa é a raiz da Grande Arte nordestina. O cara ser capaz de fazer versos sobre um assunto proposto na hora. Ou glosar um mote. O locutor diz: “E vamos anunciar o mote em decassílabo a ser glosado pelos poetas. O mote é: (pega e lê): O TEU CORPO ENCANTOU O MEU OLHAR / TUA ALMA ALEGROU MEU CORAÇÃO”. E os caras começam. 

Não podem trazer o verso decorado de casa. Os envelopes estão todos misturados, e a única maneira de escolher o que vai cair é a coisa ser desonesta. Quando eu trabalhava com isto, os motes eram escolhidos pelos membros da comissão, datilografados, envelopados, e colocados no tal envelope pardo que durante as 72 horas seguintes ficava embaixo do meu braço, porque eu não queria correr riscos. Já cheguei a dormir com o envelope embaixo do travesseiro. 

E é claro que quando caía um assunto que a dupla achava desagradável, diziam logo que era perseguição, que aquele tema ou aquele mote tinha ido para eles de propósito, etc. e tal.

Nos últimos anos, ouço falar em Festivais de Violeiros onde os temas e motes são informados com dias de antecedência, para que os poetas tenham tempo de preparar material. Estou considerando seriamente a possibilidade de me tornar cantador. Escrevendo e decorando, meu amigo, eu não abro nem pra Otacílio Batista ou Pinto do Monteiro! 

Quero ver é fazer na hora, como esses dois faziam, e como fazem tantos outros dos dias de hoje – aos quais cabe manter viva a Grande Arte, ou ajudar a transformá-la num simples apêndice menor da MPB.






1071) Filme arrasa-quarteirão (22.8.2006)



Cinema nunca foi tão caro. É algo que vai muito além da curva da inflação. Os filmes não estão apenas mais caros do que eram antes, como tudo o mais (sorvete, alface, fósforos). O cinema subiu de patamar, criou um novo nível para si próprio. É como aquele sujeito que mora de aluguel e dirige um fusca, aí ganha na Mega-Sena, e pouco tempo depois descobre que precisa faturar 100 mil por mês para manter o nível. Assim é o cinema de hoje.

Vejam o caso de Piratas do Caribe 2. Este filme (que não vi ainda, nem vou discutir se presta ou não) teve, segundo a imprensa, o melhor fim-de-semana da estréia de todos os tempos: 135 milhões de dólares. De sexta a domingo (7 a 9 de julho) o filme arrecadou isto nas cerca de 4 mil salas em que foi exibido simultaneamente. Só para comparar outros fins-de-semana de estréia de sucessos recentes: X-Men: The Last Stand (122 milhões, em 4 mil salas), Superman Returns (52 milhões, em 4 mil salas), Os Sem-Floresta, desenho (38 milhões, em 4 mil salas), Velozes e furiosos: desafio em Tóquio (23 milhões, 3 mil salas), Carros, desenho (60 milhões, 4 mil salas). Números arredondados, claro. Mas a faixa é esta.

O monitoramento eletrônico de venda de ingressos fornece relatórios de hora em hora aos estúdios, informando a marcha da bilheteria do filme. O fim-de-semana de estréia é crucial, porque desencadeia o boca-a-boca (que continua a ser a maior arma de propaganda do cinema), e porque proporciona aquilo que todo investidor (inclusive eu) adora: retorno instantâneo de um investimento. Eu fiz 500 exemplares de um livro de poesia em 2003 e ainda não vendi tudo.

O fim-de-semana de estréia é um pesadelo. Peter Bart, editor da Variety e ex-produtor, diz: “O fim-de-semana de estréia é uma tortura. Às vezes são dez anos de trabalho para fazer um filme, e agora tudo que você pode fazer é esperar. É um estresse sem comparação”. Diz Tom Hanks: “Você vê gente vomitando na cesta de papéis”. A estratégia de estréia envolve quantas cópias serão feitas, em que regiões, estados e cidades serão exibidas, e o tipo de propaganda a ser feito – “Carros” exige um estilo de divulgação, “Velozes e furiosos” exige outro. Se você já faz uma pesquisa de mercado extremamente detalhista para mudar a embalagem de um detergente que já vende bem há décadas, o que dizer de um produto novo, caríssimo, e que está arriscando toda sua carreira entre sexta e domingo?

Fatores “extra-campo” podem afetar essas estréias: o Dia dos Pais, ou a final do Campeonato de Beisebol. Os estúdios jogam todas as suas fichas nesses três dias, e a imprensa fica atulhada de matérias, fotos, merchandising, notícias “plantadas”, com cada lançamento querendo marcar presença mais que os outros. Faz sentido. Se você investe um milhão em publicidade e arrecada cinco, ganhou quatro. Se você investe dez milhões e arrecada vinte, ganhou dez. Proporcionalmente, não foi tão bom, mas é o resultado bruto que conta.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

1070) Deus e o Mundo (20.8.2006)



Atribui-se a Einstein uma frase (não lembro o teor exato, mas o sentido é este) dizendo que acreditar na existência de Deus não significa negar a do Universo. E Jorge Luís Borges dizia espantar-se com a importância exagerada que a maioria das religiões atribuía aos nossos parcos anos sobre a Terra, porque cabia a eles determinar se passaríamos a Eternidade no paraíso ou no inferno. Em todos os sistemas de Fé parece haver uma tensão constante, com re-aproximações e re-afastamentos, entre o conceito de Deus e o do Mundo, como se este fosse imperfeito demais para ter sido criado por aquele, ou como se a existência daquele nos desobrigasse de explicar o que acontece neste.

O cientista, o cara que não acredita em Deus, fica muitas vezes preso a um racionalismo minucioso, microscópico, e perde a visão de conjunto. É como um sujeito que diante de um texto escrito se detivesse diante da primeira letra, um B, e começasse a pensar: “O que significa esta letra? Como chegou aqui? Quem a colocou? Com que intenção?” Ele passa a vida inteira nessa letra, depois dedica-se à segunda, depois à terceira, e nunca lhe ocorre soletrar a palavra.

Conan Doyle tem um conto divertido, “A esposa de um fisiologista”, sobre um desses cientistas empedernidos, materialistas até a medula, o dr. Ainslie Grey. Há uma cena em que ele está tomando o café da manhã com sua irmã Ada, uma moça religiosa. E eles têm este breve diálogo: “—Você não tem fé, disse ela. – Tenho fé nas grandes forças evolutivas que estão conduzindo a espécie humana a uma determinada meta, desconhecida, porém elevada. – Você não acredita em coisa alguma. – Ao contrário, minha querida Ada: acredito na diferenciação do protoplasma”.

Reli este conto agora, e lembrei que, tendo-o lido pela primeira vez por volta dos dez anos de idade, ele deve ter sido uma influência decisiva na minha opção precoce pelo agnosticismo. Quando alguém me perguntava se eu acreditava em Deus, eu dizia que sim, porque não era idiota, mas pensava comigo mesmo: “Acredito na diferenciação do protoplasma”. Não me perguntem o que é isto. Ainda hoje não sei.

Ou melhor: vou arriscar, sem consultar livro algum. Imagino que protoplasma seja uma espécie de substância biológica primordial, mas uma substância uniforme, estática. No momento em que houve algum tipo de diferenciação (a diferenciação dos sexos, por exemplo) isto desencadeou uma série de processos evolutivos que levaram ao surgimento dos protozoários, amebas, peixes, mamíferos, primatas e finalmente humanos. Parece absurdo? Leiam Augusto dos Anjos.

Para alguns, é mais fácil acreditar na existência do átomo (que nunca vimos e jamais veremos) do que na de Deus, e vice-versa. Tudo depende das razões emocionais que nos levam a aceitar esta explicação, e não aquela. Mas para alguns basta contemplar o Universo para acreditar em Deus, e basta ver um casal de mãos dadas para agradecer aos céus pela diferenciação do protoplasma.

1069) Hipocrisia com boas intenções (19.8.2006)



Freud dizia que uma ocorrência típica do “Unheimlich” (o estranho, o sinistro, o assustador) é quando um símbolo adquire as funções e o significado da coisa simbolizada. O nome de algo perigoso é evitado porque contém o perigo daquilo que representa. Os primitivos não dizem o nome do Diabo, preferindo referir-se a ele por circunlóquios: O-Não-Sei-Que-Diga, O-Coiso, O-Cão... Nossos médicos e enfermeiros, representantes da Ciência, também evitam dizer “câncer”, preferindo dizer “C. A.”, e assim por diante. Chamamos a isto “pensamento mágico”: tocar no nome é tocar na coisa.

Um circunlóquio parecido ocorre hoje com a Rede Globo, que evita dizer o nome PCC (Primeiro Comando da Capital), preferindo dizer “a facção criminosa”, ou “a facção que controla os presídios paulistas”. Já vi alguém argumentando que usar o nome seria de certa forma oficializar a existência do PCC (como se ele precisasse disto para agir). Faz um certo sentido. Quando um novo governo chega ao poder, ainda mais se chegou por vias não-democráticas, pede para ser oficialmente reconhecido pelos outros. Há ditaduras que estão no poder há décadas e não foram reconhecidas pela comunidade internacional. Reconhecer que uma entidade existe é, de certa forma, admitir sua existência, concordar com sua existência.

Faz sentido, sim, mas somente dentro dos jogos de linguagem da Diplomacia, que algum espirituoso já definiu como “a hipocrisia com boas intenções”. Um bom diplomata sempre sabe que não se pode ser totalmente franco, dizer as coisas como as coisas são, ou como achamos que elas são. É sempre necessário usar eufemismos, circunlóquios, perífrases, aproximações, ambiguidades. A Globo se recusa a dizer PCC porque “só existe o que sai na Globo” – um pensamento corrente em vários setores da emissora, e do qual grande parte da própria população brasileira compartilha. Acho que William Bonner só vai olhar para a câmara e dizer essa sigla quando for uma notícia assim: “Uma delegação de representantes do PCC foi recebida no Ministério da Justiça, para dar início às reuniões de reforma do Código Penal...” Chega me dá um calafrio.

O seqüestro de dois funcionários da Globo e a veiculação no ar de uma mensagem da facção podem ser considerados, em conjunto, um episódio decisivo dos tempos atuais. A última vez que isso aconteceu foi em 1969 quando a guerrilha urbana seqüestrou o embaixador norte-americano Elbrick. O PCC, assim como o Comando Vermelho e todos os grupos congêneres, é o filho bastardo do crime comum com o crime ideológico, e foi concebido no presídio da Ilha Grande, onde a falta de inteligência da ditadura militar colocou guerrilheiros e bandidos para conviver. No tempo da ditadura, a gente não podia citar Karl Marx num jornal, tinha que dizer “um filósofo barbudo”, ou coisa equivalente. Como se bastasse não dizer o nome para que a Coisa deixasse de existir.

1068) Iluminismo e ilusionismo (18.8.2006)





Um repórter da Rede Globo foi seqüestrado em São Paulo pelo PCC (Primeiro Comando da Capital). Os bandidos condicionaram sua libertação à divulgação, na TV, de um vídeo-manifesto protestando contra o Regime Disciplinar Diferenciado, em prática nos presídios paulistas. Houve um detalhe que a imprensa divulgou mas não discutiu, ao que eu saiba. Na terça-feira, o jornal O Globo comparou o texto do manifesto do PCC com o texto de um documento que o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária havia divulgado em abril de 2003.

Vejam os dois textos. O do Conselho diz, a certa altura: “(...) o Regime Disciplinar Diferenciado agride o primado da ressocialização do sentenciado, vigente na consciência mundial desde o iluminismo e pedra angular do sistema penitenciário nacional (...)” Diz o manifesto lido pelo representante do PCC: “O Regime Disciplinar Diferenciado agride o primado da ressocialização do sentenciado vigente na consciência mundial desde o ilusionismo e pedra angular do sistema penitenciário”. Há outros trechos quase iguais, mas o que me interessa é este.

Onde se lia “Iluminismo”, lê-se “ilusionismo”. Houve quem desse risada, vendo nisto uma prova no analfabetismo e da desinformação dos bandidos. Coitados! Nunca ouviram falar no Iluminismo, no “Enlightenment”, na Idade das Luzes, que deu origem à Revolução Francesa e à Declaração Universal dos Direitos do Homem. Foi uma fase (na filosofia, nas ciências exatas, nas ciências sociais e jurídicas) comparável ao que o Renascimento representou nas artes da Europa.

Freud dizia (e se não o disse assim, digamos que o tivesse dito) que todo erro revela uma verdade oculta. Todo esquecimento, todo equívoco, toda troca involuntária de palavras, revela uma informação que estava doida para aparecer, estava pronta para ser trazida à luz, e que acabou escapando pela primeira brecha aberta à sua frente.

O Iluminismo acreditava no poder da Razão para mediar o contato entre o Homem e o Universo. A Racionalidade era a luz que vinha afastar as trevas e as superstições da Idade Média. Infelizmente, não conseguiu. A Razão pode muito, mas não pode tudo. Freud, produto avançado do Iluminismo, foi quem trouxe a este a amarga notícia. E o erro dos bandidos do PCC revela uma verdade dolorosa sobre as democracias de hoje. Porque elas não são governadas pela Razão, como se queria no século 18, e sim através do Ilusionismo: a manipulação das massas pelas telecomunicações, a distribuição de riquezas inexistentes através do capitalismo financeiro, a distorção da arte e do entretenimento através da hipertrofia de ficções manipuláveis como “fama” e “sucesso”, a cuidadosa eliminação de referências (quando não a perseguição explícita) a quem é do contra. O Ilusionismo, que aparece erradamente no manifesto dos bandidos, é a melhor descrição da sociedade que os produziu – e que agora não consegue destruí-los porque tem muita gente olhando.


1067) “Fuga de Nova York” (17.8.2006)



Peguei para rever o DVD deste filme de John Carpenter, do qual eu tinha uma vaga lembrança, pois vi somente na época do lançamento. Descobri agora que o filme é de 1981 e portanto está completando 25 anos, já saiu DVD-duplo comemorativo, e todas essas bugigangas com que o cinema americano ressuscita seus mortos e os bota para trabalhar de novo. Para um morto, Fuga de Nova York goza de boa saúde. Claro que não é um grande filme. E meramente como filme de ação parece uma produção da Disney, comparado com a brutalidade física e a crueldade mental dos filmes contemporâneos. É cheio de clichês, mas são clichês de uma época em que o clichê ainda provocava um sorriso de reencontro, e não uma careta de saturação.

No filme, a ilha de Manhattan foi transformada em prisão e cercada por muros. O avião do presidente dos EUA cai lá dentro, ele é sequestrado pelos presos, e cabe a um herói-bandido entrar ali e resgatar o figurão em menos de 24 horas. Dizem os adeptos do video-game que vários games se inspiraram neste filme, principalmente Metal Gear: Solid Snake, onde até o protagonista é copiado de Snake Plissken, o personagem aqui interpretado por Kurt Russell. O feedback recíproco entre indústria de filmes e indústria de games pode ter aqui um ótimo ponto de partida para um estudo. Os elementos básicos de um bom videogame de ação estão todos presentes. Uma missão suicida. A contagem regressiva com um limite mortal. Protagonista executando façanhas acrobáticas e tendo que improvisar estratégias para enfrentar os inimigos. Uma luta de ringue. Uma perseguição de carro por terreno minado. E assim por diante. Palpita-me que muitos rapazes que inventaram os games dos anos 1990 viram este filme quando adolescentes.

E o filme tem uma curiosa simbologia. Manhattan cercada de muros, helicópteros, arames farpados, como se fosse um Muro de Berlim ou a prisão de terroristas em Guantanamo, me parece uma poderosa metáfora para a má consciência dos norte-americanos. Uma reversão simbólica radical, expressa nas tomadas noturnas com a silhueta dos arranha-céus às escuras, mesmo habitados por milhões de presidiários. Esta ameaça é reforçada pela existência paralela dos “Crazies”, espécie de zumbis que habitam os esgotos e surgem pelos bueiros (o que conecta o filme com outro gênero florescente e muito apreciado pelos jovens: o filme de zumbis).


Manhattan se torna um “espaço interdito” como a mansão dos Nobile no Anjo Exterminador de Buñuel. Para os EUA é como a perda do próprio rosto (Vanilla Sky). É a criação, no seu próprio centro de poder, de um buraco-negro capaz de sugar para dentro de si o Ego (=o Presidente), que precisa ser resgatado por um filho bastardo do Bem com o Mal, híbrido de herói militar e criminoso condenado. O típico herói do filme de ação: desprezado e temido pelas autoridades (seus superiores) que o manipulam, odiado e respeitado pelos bandidos (seus iguais) que lhe cabe combater.