Um dos melhores sinônimos de literatura é a expressão
popular “palavra puxa palavra”, porque as palavras nunca estão soltas. Estão
presas umas às outras, como as contas de compridos colares que não acabam
nunca, ou como os átomos que se prendem uns aos outros em moléculas. Você pega
um deles com cuidado, quer somente ele, puxa devagarinho com a pinça... e todo
o resto vem junto.
Dias atrás eu estava lembrando dos tempos de farra lá em
Campina Grande. Nessa época a nossa cachaça preferida era a Casa Grande,
alternativa contestatória à predominância econômica da Caranguejo, fabricada às
margens do Açude Velho.
A gente estava num bar (não lembro qual) cujo dono se
orgulhava de ter algumas cachaças especiais. Um conhecido nosso (não me lembro
quem) tinha terminado de enxugar sozinho uma garrafa de Casa Grande, aí o dono
do bar disse:
-- Tou vendo que você aprecia a boa cachaça. Eu tenho uma
cana-de-cabeça aqui que é do engenho do meu tio, é melhor do que Rainha. Quer
provar?...
Era uma provocação, porque o camarada já estava pra lá do
meridiano 35, mas na voz de cana-de-cabeça ele se empertigou, focalizou o
olhar, hesitou um pouco e, erguendo dois dedos no ar, imitando o gesto do Prof.
Raimundo, de Chico Anysio, concedeu:
-- Quero. Mas só um góipizim...
Palavra puxa palavra, e nesse mesmo dia eu lembrei outro
fato. Na nossa casa do Alto Branco minha mãe dispunha de uma milícia informal
de ajudantes domésticas que vez por outra prestavam algum serviço lá em casa. Eram
as mulheres humildes que moravam espalhadas pela vizinhança, muitas delas nas
casinhas de barro que ficavam por trás do muro do nosso quintal. Um lumpen-matriarcado
composto de lavadeiras, engomadeiras, cozinheiras, arrumadeiras, prestadoras de
serviços gerais que Mãe às vezes contratava com salário por alguns meses, e em
outros momentos apareciam num dia de tarefa específica.
E um dia eu estava zanzando por dentro de casa quando
surge à porta dos fundos uma delas, trazendo à cabeça uma pesada trouxa de
roupa lavada. Era um dia quente, de sol forte. Mãe a ajudou a botar a trouxa em
cima da mesa e disse:
-- Que calor, hein, Dona Maria?... Quer uma agüinha?...
E ela disse:
-- Só um góipizim, Dona Cleuza...
Um góipe
significa um golpe – e para mim era
óbvio que um golpe significa um gole.
As palavras são invisíveis para as pessoas que as usam
sem prestar atenção. Eu sou daquele clube para quem elas são mais do que
visíveis: são concretas, palpáveis, têm peso e dimensões, têm história e
geografia, e, como dizia Guimarães Rosa, “têm canto e plumagem”.
Não me passou despercebido que nas histórias em
quadrinhos, toda vez que um personagem “engole em seco” (por nervosismo,
constrangimento, etc.) a onomatopéia projetada no espaço é GULP! E meu inestimável
“Webster/Houaiss”, adquirido em 1987 quando comecei a traduzir para a Ed.
Record, logo me informou que “to gulp” é de fato “engolir”.
“Góipe” é uma corruptela de “golpe”, de “gulp”, de “gole”.
Vale destacar que a lavadeira de minha mãe, quando usou essa palavra, o fez sem
afetação alguma; era a palavra que ela conhecia, num contexto de conversa
amigável com uma pessoa de sua convivência. E quando o bêbo aceitou a dose de
cana-de-cabeça, usou a corruptela “góipizim” de forma espirituosa, como um
gracejo. Ele não falava assim em sua vida normal. Era um daqueles professores jovens
do Campus II da UFPB que no fim das manhãs de sábado iam para o Caldo de Peixe
tomar umas e outras, e discutir tropicalismo, marxismo, armorialismo.
Adivinhar as origens das palavras e os parentescos entre
elas nunca é trabalho jogado fora, para quem quer ser jornalista, escritor,
tradutor. Essa mania muitas vezes nos leva a cometer enganos, iludidos por
semelhanças superficiais. (Dias atrás, comentei aqui minhas tentativas
frustradas de descobrir se a palavra “obrigado” vinha do verbo “brigar”; não
vem.) E pode nos proporcionar também uma diversão extra – inventar etimologias
fictícias para uma palavra qualquer.
Mas... voltando ao tema principal, como num sinfonia: de
que maneira a palavra “golpe” adquiriu a pronúncia popular “góipe”? É um
processo lento e sujeito às influências do Acaso, mas que pode ser rastreado. A
Linguística tem certamente um termo específico para esse tipo de erosão
fonética, ou de amaciamento sonoro. É algo que pode inclusive ser previsto,
quando imaginamos como pode ser nosso idioma a 200 anos no futuro; e pode ser
deduzido retroativamente, se nos projetarmos 200 anos no passado.
Há uma certa tendência (corrijam-me os linguistas)
amolecendo esse som de “L” (e às vezes de “LH”) num “I” que flui mais solto
quando articulado em voz alta. (Lembrem-se, nada aqui tem a ver com letras
escritas; estamos falando de sons.)
Quando um nordestino pede na feirinha livre “um mói de
coentro” ele está pedindo “um molho de coentro”. Quando ele diz que “Isso aqui
é muito paia”, está dizendo que “é muito palha”, para dizer que não presta. E
nem vou falar em termos como véio e véia, que todo mundo entende.
Prefiro lembrar a piada clássica do barbeiro matuto, que depois
de escanhoar o cliente pergunta, solícito: “Qué
áico, táico, ou qué que mói?...” (“Quer álcool, talco, ou quer que
molhe?...”).
Tudo isto aqui está em formato de afirmações, mas são apenas
hipóteses. Uma hipótese deve sempre vir em forma de afirmação, para despertar a
sanha contestatória dos leitores, de onde tanto pode vir mero som e fúria,
quanto um raio de luz nas trevas do nosso desconhecimento coletivo.
Não tenho nenhuma hipótese de como a palavra “golpe” veio
a significar “gole”, ou de como esta, que talvez seja mais antiga, acolheu essa
variante. Registro apenas uma terceira ocorrência, muito próxima aos dois: o
verbo “golfar” e o substantivo “golfada”. “O
sangue golfava de um profundo ferimento que ele tinha no peito...” “Traz um pano aí, o bebê está golfando...” Em
ambos os casos, trata-se de pequenas quantidades de líquido, como num “gole”.
É bom registrar que “golfada”
também sofre a mesma corruptela e
aparece na linguagem nordestina como “goipada”,
no sentido de “cuspida”, ou de “golfada de vômito”.
(DICIONÁRIO DE
PARAIBÊS, Vicente Campos Filho)
Já na casa dos 20-30, folheando “bandas desenhadas”
francesas, me deparei com a exclamação “Ta
gueule!...” que minha inteligência artificial traduzia como “Tua goela!...”,
ou seja, tua garganta. Aos poucos, por superposição de diferentes contextos, de
Wolinski a Tintin, fui deduzindo um significado tipo “”Fecha essa matraca!...” Permaneceu,
no entanto, a associação com “goela”, principalmente através da gíria
campinense “bicho-güela”, no sentido
de “sujeito falastrão, gabola, mas envolvente, com papo-de-derrubar-avião”.
E depois, vasculhando os dicionários à cata de uma
palavra nova aqui, outra ali, fui percebendo a quantidade de palavras ligadas
entre si por proximidade sonora/estrutural e vizinhança semântica.
Goela = pescoço, garganta, falação
Güelar = ganhar no papo, na conversa finória. “Preciso güelar um convite pra essa festa,
vou dizer que sou músico-reserva da banda.”
Gola = parte do vestuário em volta da garganta
Gula = apetite excessivo
Guloseima = comidinha gostosa
... e por aí vai.
Ao verificar a relação entre “gueule / goela”, não pude
deixar de pensar: “E a palavra pescoço?... Que papel desempenha nessa nuvem
semântica?...”
Claro que já havia uma certa pulsão rabelaisiana nessa
linha de pesquisa, pois todo mundo sabe que “pescoço” em francês é “cou”; se não
todo mundo, pelo menos Campina Grande inteira sabe, porque a quantidade
de piadas, anedotas e gracejos envolvendo estas palavras daria um livro.
Pescoço em francês é “cou”, mas também é grafado como
“col” – e vejam como a Terra é mesmo redonda, a gente dá uma volta tão longa e
retorna ao português. “Colo” é pescoço, sim, lembrem da personagem de Arsène
Lupin, “Edite, colo de cisne”. Só que devido ao sacolejo dos séculos a palavra
aqui foi se espalhando por toda a parte fronteira do corpo – falamos de uma
mulher cujo decote a deixa “com o colo à mostra”, falamos de “trazer um bebê ao
colo”, falamos de “sentar no colo”... Mas tudo isso, palpito eu, escorre do
pescoço. “Colar” (o adereço) deve ter a mesma origem: algo que se usa ao
pescoço.
O trajeto dos dominós veio se encaixando assim: golpe /
gole / goela / pescoço / cou / ... E num estalo completei mais uma volta e
cheguei ao ponto de partida: golpe é francês é coup, de onde vêm as expressões famosas “coup de grâce” (“golpe de misericórdia”) e “coup d’état” (“golpe de estado”). Coup é associado ao verbo “couper”,
cortar. Parece que os franceses têm uma tradição guilhotinadora, enquanto
outros países optavam pelo fuzilamento e a cadeira elétrica. Quando fui
verificar coup, no entanto, o que
encontro como sentidos possíveis?
O mesmo sentido que deu início a este passeio: “golpe” (coup) quer dizer “gole (de bebida)” (coup).
Claro que estas associações de idéias não são fixas nem
têm todas as mesmas nuances. Cada cultura e, mais, cada pessoa projeta
vibraçõezinhas diferentes em tudo que diz. Chego mesmo a concordar com Douglas
Hofstadter, quando no seu incrível Le Ton
Beau de Marot (1997, cap. 10), ele questiona:
Um novaiorquino do Upper East Side fala a mesma linguagem de outro que
é do Upper West Side? “Central Park” significa a mesma coisa para ambos? E o
que dizer de “Broadway”? E de “cachorro”? E de “coisa”? E de “um”?
Um golpe, no meu dicionário afetivo, seria apenas um góipizim de cachaça que a gente vira, pra
esquentar as brasas do juízo e colorir o rosto da Natureza.