quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

5023) Marcel Proust, um planeta distante (18.1.2024)




Tenho pela obra de Marcel Proust uma admiração incondicional e depressiva. Incondicional porque não tenho nenhuma crítica a fazer-lhe, não tenho opiniões negativas a seu respeito. Depressiva porque é uma obra gigantesca, que nunca li (não por falta de interesse!) e que a esta altura do campeonato dificilmente lerei. 
 
É como o planeta Marte. Sempre me fascinou, mas já sei que nunca pisarei no seu chão. 
 
São sete volumes, mais de 4.200 páginas. Interesse não falta, mas cadê tempo e fosfato?! Não consegui até hoje encarar a leitura de coisas muito mais “fininhas”: Infinite Jest... Dhalgren... Stand on Zanzibar... Spangle... Cryptonomicon... 
 
Em Busca do Tempo Perdido é um desses clássicos tão impregnados em nossa memória-coletiva que é possível conversar sobre ele sem ter lido. Já li extensos trechos, em obras de crítica e técnica literária, muitos artigos de revistas, muitos depoimentos e análises. Tenho uma idéia aproximada do conteúdo, da época, do modo verbal inventado (?) por Marcel Proust. Não posso ter uma opinião crítica substancial; mas dá pra navegar numa conversa com gente que conhece. E de certa forma me identifico com ele. 
 
Proust é abominado por algumas pessoas para quem tudo que ele escreveu não passa de devaneio decadentista de um pseudo-aristocrata lamentando o fim de uma época “em que todo mundo era rico, bonito, inteligente e interessante”. 
 
Quando escrevi o meu ABC de Ariano Suassuna, transcrevi um comentário muito engraçado de Ariano sobre as discussões com seus amigos do grupo do TEP, o Teatro do Estudante de Pernambuco, todos com no máximo vinte anos. Diz Ariano: 
 
A minha formação universitária foi lá, não foi na universidade. As reuniões e os ensaios eram na casa do Hermilo [Borba Filho]. Era um grupo muito heterogêneo, mas todos ligados por essa paixão pelo teatro. Eu lembro que tinha o romancista Gastão de Holanda, que gostava muito de Gide e de Proust. Eu tinha horror. Eu o chamava de burguês decadente: "Você não tem vergonha na cara, não? Admirar um nojento desses!". Ele dizia: "Você é que é um imbecil! Eu quero é Proust, uma coisa refinada!". As discussões eram desse tipo, noite adentro. 
(ABC de Ariano Suassuna, Ed. José Olympio, p. 50-51)
 
Anos depois, livro publicado, vida correndo calma como riacho de chã, reencontrei Ariano Suassuna num hotel, durante um evento literário. Conversa vai, conversa vem, acho que acabamos falando sobre a literatura baseada na memória, na reconstrução e reinvenção do passado. E ele desandou a falar de Proust, e a elogiar a beleza do fraseado, o detalhismo da percepção, ou sei lá o quê. Aí, num gesto característico, deu uma palmada na perna, com força, e disse: 
 
– Ave Maria!  Dá vontade de quando voltar pra casa pegar e ler tudinho de novo! 
 
Eu fiquei ali meio esmagado ao ver um cara, com 81 anos, pelo menos considerar essa hipótese. Porque eu, no outono dos meus sessenta e poucos, achava que não ia mais ter tempo sequer de reler A Metamorfose, quanto mais encarar a cordilheira proustiana. 
 
Tudo isto me veio à mente ao assistir o belo filme Céleste, de Percy Adlon (diretor de Bagdad Café, Rosalie Vai Às Compras, etc.) contando os últimos anos da vida de Proust, com base nas memórias de Céleste Albaret, que foi a criada fiel do escritor durante este período. 



 
É um filme notável. Tudo acontece dentro do apartamento do escritor, com raras imagens do lado de fora. Dir-se-ia, pela unidade de espaço, que “parece uma peça de teatro”, mas Percy Adlon passeia nesse espaço com a câmera e seus atores de maneira fluida, usa cortes bruscos de montagem para nos inquietar com a passagem de um tempo em que nada acontece, e principalmente sabe usar o som. O filme tem música em raros (e essenciais) momentos, não é como o cinema de hoje em dia, encharcado de música em todas as cenas, submerso em orquestras, afogado em violinos, despedaçado por bate-estacas eletrônicos. 
 
A música já foi uma forma de arte, hoje em dia está virando uma doença mental. Metade das pessoas que a gente vê na rua estão com fones enfiados no ouvido, ouvindo música, música, música, música, música. Não importa se ouvem Beethoven ou Bob Dylan, Chico Buarque ou Luiz Gonzaga. É um massacre desnecessário. Quem lê muito, pensa pouco. Quem ouve muita música, também. 
 
Proust tinha o que a gente hoje chama de “T.O.C.”. Tudo que lhe era servido tinha que ser feito exatamente da mesma maneira, sempre: o café, o leite, os biscoitos, o vestuário... Sofria de asma. Tinha saúde frágil e era neurastênico, ranzinza. Afetuoso num momento e irritadiço no outro. A certa altura do filme, Céleste comenta: “Em alguns momentos me sinto como filha dele, e em outros momentos como se fosse sua mãe”



Tenho um cacoete meio notívago, e Proust também o tinha. Não sei direito por que sou assim. Já desenvolvi uma hipótese meio ciência-ficcional de que certas pessoas excessivamente sensíveis são telepatas em botão, telepatas incapazes de se comunicar pelo pensamento à distância, mas com sensibilidade bastante para captar o ruído mental da Humanidade que os cerca. Captar a mera estática, a barulheira sem sentido, como um rádio sintonizado entre duas estações, ou como “a televisão num canal fora do ar”. 
 
O dia claro, quando todo mundo está acordado e ativo, produz um ruído-de-fundo insuportável. De noite, contudo, três quartos da população da cidade estão adormecidos, desligados, inertes. E a mente do sensitivo respira aliviada, e pela primeira vez em muitas horas consegue pensar com clareza. 
 
Proust mandou forrar com cortiça seus aposentos, para eliminar os ruídos que vinham de fora. Precisava se concentrar nos seus pensamentos, no delicado afazer de fiar lembranças, de avançar pé ante pé no gelo fino do passado, que a qualquer movimento brusco pode se romper e nos mergulhar “nas águas glaciais do cálculo egoísta”, ou seja, na vida real. 
 
Céleste é um filme dirigido com muito discernimento. Fiel ao espírito de Proust, aquele apartamento onde transcorre a história inteira é silencioso como uma respiração suspensa. Ressoam os pesados sapatos da criada no piso de madeira. Tampas de armário, gavetas, janelas, tudo isto produz um barulho que, sem ser desagradável, parece mais alto do que na verdade é. 
 
Já morei em apartamentos tão silenciosos que durante a noite alta cada barulho se tornava insuportável. Você mexe na gaveta dos talheres, e tem a sensação de que está acordando o prédio inteiro. Assimilei a tal ponto essa neurose que meu computador não tem caixas de som: tenho que escutar tudo com os fones de ouvido. 
 
Proust se trancafiava naquela alcova e de lá não saía. Alguns críticos freudianos a comparam ao útero materno, de onde ele só teria emergido a contragosto. Ele desenvolveu um fuso horário próprio, que o fazia acordar no fim da tarde e adormecer depois que o sol saía. Em alguns momentos da minha vida consegui pôr em prática esta utopia cronológica, e a transportei para toda a geração do meu narrador anônimo do conto “Príncipe das Sombras”: 
 
A culpa era do buraco na camada de ozônio e da sujeira das praias, em coisa de vinte anos tinha surgido aquela geração de gente que nunca tinha sido exposta a nada mais que crepúsculos e auroras, nesta ordem. 
(A Espinha Dorsal da Memória, Bandeirola, p. 95)
 
Um arco temporal que reencontrei anos depois no belo título de Tarantino/Rodríguez: From Dusk to Dawn, “Do Crepúsculo à Aurora”. 
 
Acordar no fim da tarde e só ir dormir quando o sol nasce é uma utopia de gente excêntrica e branquela. Proust passava suas noites frequentando cafés, visitando a marquesa-dos-anzóis ou a madame não-sei-das-quantas. E ao voltar para casa (este é um dos aspectos divertidos do filme de Percy Adlon) detinha-se por um tempão a fofocar com a criada – que, evidentemente, cumpria um fuso horário paralelo ao do patrão, para estar sempre alerta.


 
Vozes, passos, uma eventual campainha que soa: o filme economiza sons e cada um deles se torna impactante. E então a música aparece. Proust convida um quarteto de cordas para tocar na sua casa – e aí ele se comporta como um aristocrata, um delicado patrão, cheio de gentilezas: “Poderiam, por favor, executar de novo aquela passagem para o movimento tal?... Veja, Céleste, que beleza... Merci, merci.”
 
E durante todos esses anos ele na cama, recostado nas almofadas, escrevia, escrevia, até capotar de sono. E quando ao entardecer Céleste ia levar-lhe o desjejum ao quarto a sua cama estava coberta de manuscritos, de anotações, de páginas pregadas com cola, de cadernetas espalhadas...
 
Estava em busca do tempo perdido, mesmo sabendo que tempo vivido não se perde.
 


segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

5022) A palavra gole (15.1.2024)




 
Um dos melhores sinônimos de literatura é a expressão popular “palavra puxa palavra”, porque as palavras nunca estão soltas. Estão presas umas às outras, como as contas de compridos colares que não acabam nunca, ou como os átomos que se prendem uns aos outros em moléculas. Você pega um deles com cuidado, quer somente ele, puxa devagarinho com a pinça... e todo o resto vem junto. 
 
Dias atrás eu estava lembrando dos tempos de farra lá em Campina Grande. Nessa época a nossa cachaça preferida era a Casa Grande, alternativa contestatória à predominância econômica da Caranguejo, fabricada às margens do Açude Velho. 
 
A gente estava num bar (não lembro qual) cujo dono se orgulhava de ter algumas cachaças especiais. Um conhecido nosso (não me lembro quem) tinha terminado de enxugar sozinho uma garrafa de Casa Grande, aí o dono do bar disse: 
 
-- Tou vendo que você aprecia a boa cachaça. Eu tenho uma cana-de-cabeça aqui que é do engenho do meu tio, é melhor do que Rainha. Quer provar?... 
 
Era uma provocação, porque o camarada já estava pra lá do meridiano 35, mas na voz de cana-de-cabeça ele se empertigou, focalizou o olhar, hesitou um pouco e, erguendo dois dedos no ar, imitando o gesto do Prof. Raimundo, de Chico Anysio, concedeu: 
 
-- Quero. Mas só um góipizim...
 
Palavra puxa palavra, e nesse mesmo dia eu lembrei outro fato. Na nossa casa do Alto Branco minha mãe dispunha de uma milícia informal de ajudantes domésticas que vez por outra prestavam algum serviço lá em casa. Eram as mulheres humildes que moravam espalhadas pela vizinhança, muitas delas nas casinhas de barro que ficavam por trás do muro do nosso quintal. Um lumpen-matriarcado composto de lavadeiras, engomadeiras, cozinheiras, arrumadeiras, prestadoras de serviços gerais que Mãe às vezes contratava com salário por alguns meses, e em outros momentos apareciam num dia de tarefa específica. 
 
E um dia eu estava zanzando por dentro de casa quando surge à porta dos fundos uma delas, trazendo à cabeça uma pesada trouxa de roupa lavada. Era um dia quente, de sol forte. Mãe a ajudou a botar a trouxa em cima da mesa e disse: 
 
-- Que calor, hein, Dona Maria?... Quer uma agüinha?...
 
E ela disse:
 
-- Só um góipizim, Dona Cleuza... 
 
Um góipe significa um golpe – e para mim era óbvio que um golpe significa um gole
 
As palavras são invisíveis para as pessoas que as usam sem prestar atenção. Eu sou daquele clube para quem elas são mais do que visíveis: são concretas, palpáveis, têm peso e dimensões, têm história e geografia, e, como dizia Guimarães Rosa, “têm canto e plumagem”. 
 
Não me passou despercebido que nas histórias em quadrinhos, toda vez que um personagem “engole em seco” (por nervosismo, constrangimento, etc.) a onomatopéia projetada no espaço é GULP!  E meu inestimável “Webster/Houaiss”, adquirido em 1987 quando comecei a traduzir para a Ed. Record, logo me informou que “to gulp” é de fato “engolir”. 




“Góipe” é uma corruptela de “golpe”, de “gulp”, de “gole”. Vale destacar que a lavadeira de minha mãe, quando usou essa palavra, o fez sem afetação alguma; era a palavra que ela conhecia, num contexto de conversa amigável com uma pessoa de sua convivência. E quando o bêbo aceitou a dose de cana-de-cabeça, usou a corruptela “góipizim” de forma espirituosa, como um gracejo. Ele não falava assim em sua vida normal. Era um daqueles professores jovens do Campus II da UFPB que no fim das manhãs de sábado iam para o Caldo de Peixe tomar umas e outras, e discutir tropicalismo, marxismo, armorialismo. 
 
Adivinhar as origens das palavras e os parentescos entre elas nunca é trabalho jogado fora, para quem quer ser jornalista, escritor, tradutor. Essa mania muitas vezes nos leva a cometer enganos, iludidos por semelhanças superficiais. (Dias atrás, comentei aqui minhas tentativas frustradas de descobrir se a palavra “obrigado” vinha do verbo “brigar”; não vem.) E pode nos proporcionar também uma diversão extra – inventar etimologias fictícias para uma palavra qualquer. 
 
Mas... voltando ao tema principal, como num sinfonia: de que maneira a palavra “golpe” adquiriu a pronúncia popular “góipe”? É um processo lento e sujeito às influências do Acaso, mas que pode ser rastreado. A Linguística tem certamente um termo específico para esse tipo de erosão fonética, ou de amaciamento sonoro. É algo que pode inclusive ser previsto, quando imaginamos como pode ser nosso idioma a 200 anos no futuro; e pode ser deduzido retroativamente, se nos projetarmos 200 anos no passado. 
 
Há uma certa tendência (corrijam-me os linguistas) amolecendo esse som de “L” (e às vezes de “LH”) num “I” que flui mais solto quando articulado em voz alta. (Lembrem-se, nada aqui tem a ver com letras escritas; estamos falando de sons.) 
 
Quando um nordestino pede na feirinha livre “um mói de coentro” ele está pedindo “um molho de coentro”. Quando ele diz que “Isso aqui é muito paia”, está dizendo que “é muito palha”, para dizer que não presta. E nem vou falar em termos como véio e véia, que todo mundo entende. 
 
Prefiro lembrar a piada clássica do barbeiro matuto, que depois de escanhoar o cliente pergunta, solícito: “Qué áico, táico, ou qué que mói?...” (“Quer álcool, talco, ou quer que molhe?...”). 
 
Tudo isto aqui está em formato de afirmações, mas são apenas hipóteses. Uma hipótese deve sempre vir em forma de afirmação, para despertar a sanha contestatória dos leitores, de onde tanto pode vir mero som e fúria, quanto um raio de luz nas trevas do nosso desconhecimento coletivo. 
 
Não tenho nenhuma hipótese de como a palavra “golpe” veio a significar “gole”, ou de como esta, que talvez seja mais antiga, acolheu essa variante. Registro apenas uma terceira ocorrência, muito próxima aos dois: o verbo “golfar” e o substantivo “golfada”. “O sangue golfava de um profundo ferimento que ele tinha no peito...”  “Traz um pano aí, o bebê está golfando...” Em ambos os casos, trata-se de pequenas quantidades de líquido, como num “gole”. 
 
É bom registrar que “golfada”  também sofre a mesma corruptela e aparece na linguagem nordestina como “goipada”, no sentido de “cuspida”, ou de “golfada de vômito”.


 
(DICIONÁRIO DE PARAIBÊS, Vicente Campos Filho)


Já na casa dos 20-30, folheando “bandas desenhadas” francesas, me deparei com a exclamação “Ta gueule!...” que minha inteligência artificial traduzia como “Tua goela!...”, ou seja, tua garganta. Aos poucos, por superposição de diferentes contextos, de Wolinski a Tintin, fui deduzindo um significado tipo “”Fecha essa matraca!...” Permaneceu, no entanto, a associação com “goela”, principalmente através da gíria campinense “bicho-güela”, no sentido de “sujeito falastrão, gabola, mas envolvente, com papo-de-derrubar-avião”.



 
E depois, vasculhando os dicionários à cata de uma palavra nova aqui, outra ali, fui percebendo a quantidade de palavras ligadas entre si por proximidade sonora/estrutural e vizinhança semântica. 
 
Goela = pescoço, garganta, falação 
Güelar = ganhar no papo, na conversa finória. “Preciso güelar um convite pra essa festa, vou dizer que sou músico-reserva da banda.” 
Gola = parte do vestuário em volta da garganta 
Gula = apetite excessivo 
Guloseima = comidinha gostosa 

... e por aí vai.
 
Ao verificar a relação entre “gueule / goela”, não pude deixar de pensar: “E a palavra pescoço?... Que papel desempenha nessa nuvem semântica?...”  
 
Claro que já havia uma certa pulsão rabelaisiana nessa linha de pesquisa, pois todo mundo sabe que “pescoço” em francês é “cou”; se não todo mundo, pelo menos Campina Grande inteira sabe, porque a quantidade de piadas, anedotas e gracejos envolvendo estas palavras daria um livro. 
 
Pescoço em francês é “cou”, mas também é grafado como “col” – e vejam como a Terra é mesmo redonda, a gente dá uma volta tão longa e retorna ao português. “Colo” é pescoço, sim, lembrem da personagem de Arsène Lupin, “Edite, colo de cisne”. Só que devido ao sacolejo dos séculos a palavra aqui foi se espalhando por toda a parte fronteira do corpo – falamos de uma mulher cujo decote a deixa “com o colo à mostra”, falamos de “trazer um bebê ao colo”, falamos de “sentar no colo”... Mas tudo isso, palpito eu, escorre do pescoço. “Colar” (o adereço) deve ter a mesma origem: algo que se usa ao pescoço. 



 
O trajeto dos dominós veio se encaixando assim: golpe / gole / goela / pescoço / cou / ... E num estalo completei mais uma volta e cheguei ao ponto de partida: golpe é francês é coup, de onde vêm as expressões famosas “coup de grâce” (“golpe de misericórdia”) e “coup d’état” (“golpe de estado”). Coup é associado ao verbo “couper”, cortar. Parece que os franceses têm uma tradição guilhotinadora, enquanto outros países optavam pelo fuzilamento e a cadeira elétrica. Quando fui verificar coup, no entanto, o que encontro como sentidos possíveis? 




O mesmo sentido que deu início a este passeio: “golpe” (coup) quer dizer “gole (de bebida)” (coup).
 
Claro que estas associações de idéias não são fixas nem têm todas as mesmas nuances. Cada cultura e, mais, cada pessoa projeta vibraçõezinhas diferentes em tudo que diz. Chego mesmo a concordar com Douglas Hofstadter, quando no seu incrível Le Ton Beau de Marot (1997, cap. 10), ele questiona: 
 
Um novaiorquino do Upper East Side fala a mesma linguagem de outro que é do Upper West Side? “Central Park” significa a mesma coisa para ambos? E o que dizer de “Broadway”? E de “cachorro”? E de “coisa”? E de “um”?
 
Um golpe, no meu dicionário afetivo, seria apenas um góipizim de cachaça que a gente vira, pra esquentar as brasas do juízo e colorir o rosto da Natureza.
 
 






sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

5021) Algumas leituras de 2023 - 3 (12.1.2024)

 

(Algumas leituras do ano passado, alguns dos livros que achei marcantes por variados motivos; sem nenhuma ordem especial. Como sempre, incluo apenas livros que li do começo ao fim. Se eu fosse incluir todos os livros bons que comecei mas não li por completo, não ia ter espaço que coubesse.)
 


 
O corpo encantado das ruas (Civilização Brasileira, 2023), de Luiz Antonio Simas
O Rio de Janeiro que me atrai, e que mais me ensina, não é o do Pão de Açúcar, é o da Pedra do Sal. O Rio se divide entre a Rua e o Resto. O que mantém coesa esta cidade partida é sua cultura das ruas, o caldeirão fumegante de heranças e memórias, o canjirão farto e compartilhado, de coração aberto, com quem compartilha de coração aberto. Esta coletânea de crônicas é um pequeno clássico contemporâneo, já em 12ª. edição; Simas é um dos que mexem nesse caldeirão, e sei que posso chamá-lo de “professor de rua”, no sentido em que existem “músicos de rua”. Trabalhando sem pausa na zona crepuscular entre a memória oral-familiar-grupal e o ensino formalizado pelas escolas e pelas editoras, Simas é um dos muitos operários da missão de explicar “uma cidade fundada para expulsar franceses que um dia resolveu ser francesa para esconder que é profundamente africana”. 
 
 


“Un episodio en la vida del pintor viajero” (2000), de Cesar Aira
Aqui no Rio de Janeiro há um fã-clube informal deste escritor argentino, mas todas as vezes que me aproximei em busca de informações fui gentilmente escorraçado sob o pretexto de ser um leigo total. Fico feliz em afirmar que tal obstáculo foi removido. Este livro curtinho e intenso relata (glosa, amplifica, interpreta) um evento trágico na vida do pintor Rugendas, muito conhecido aqui dos brasileiros, mas que também viajou pintando por toda a América Latina. Cruzando o pampa argentino, Rugendas sofreu um acidente com seu cavalo e ficou com o rosto totalmente despedaçado, sendo forçado a usar máscara e a tomar doses enormes de morfina e outros remédios. César Aira conta essa história como uma espécie de delírio psicodélico desse alemão que entrou para a História do Brasil. 
 



Lunário Encourado (Itatiaia, Ed. do Autor, 2022), de Adiel Luna
Adiel é violeiro, embolador de coco, enredador de rimas, mestre-pastor de palco embandeirado, e tudo o mais que se imaginar; inclusive autor deste livro que Pedro Américo, na contracapa, descreve como “uma narrativa com 20 cantos ou movimentos”. Numa série de poemas com formatações variadas, mas sempre dentro da prosódia sertaneja, ele constrói passo a passo a vida de um vaqueiro, usando com abundância a terminologia local. Tal como Elomar Figueira de Melo, tem a precaução de acompanhar tudo com um glossário em doses medidas, página a página. Mais que um longo poema, é uma longa suíte de canções de apartação, de vaquejada, de cavalo rompe-mato, de namoro e dança. Como diz o narrador a certa altura (p.79): “Meu branco, regule! Tem cousa que munta gente diz: não consta no mundo. Já ôto chega e dí: -- Consta no mundo!”. 



Nací (Je suis né) (2022), de Georges Perec
Todo ano faço minha romaria à obra de Perec e leio um livro que não conhecia ainda. Li este ano Nasci, na tradução espanhola (Anagrama, Barcelona). É livro póstumo (Perec morreu em 1982), reunindo material inédito e disperso. Alguns textos são textos preparatórios para sua memória W ou a Memória da Infância (1975). Há transcrição de uma carta dele a Maurice Nadeau (um dos historiadores do Surrealismo), na qual ele enumera os projetos em que trabalha na época (1969); uma entrevista a Frank Venaille, e outros artigos curtos sobre literatura e memórias. “Los lugares de uma fuga” narra na terceira pessoa um episódio em que um garoto (ele) foge de casa, mas só se lembra disso depois de adulto; é calmo e arrepiante. “El salto en paracaídas” é um longo monólogo de improviso (gravado ao vivo, numa reunião, em 1959) em que ele compara o lançamento de uma revista a um salto de paraquedas. 
 
 
 
A arte do nevoeiro indelével (Campina Grande, Papel da Palavra, 2023), de Maxwell F. D.
Tenho observado cada vez mais a convivência pacífica, principalmente nos livros dos novos poetas, entre o verso livre/branco e o verso metrificado/rimado. Desde que me entendo de gente vejo um dos dois convidando para a missa de 7º. dia do outro, e por sorte continuam vivos e bulindo. Como vivem e bolem neste livro de estréia de Maxwell F.D., onde as formas fixas convivem em paz com o verso solto, algumas brincadeiras gráficas e trocadilhísticas, mas sempre denotando algo essencial e que nem sempre está presente em quem publica livros: o gosto pela palavra, a curiosidade pela palavra, o sabor de manejar a palavra e indagar tudo que ela pode dizer: “a luz que tinha era pouca / bruxuleava a chama / donde a fumaça emana / onde há fumaça há fogo / então vou lá descobrir / cavar, olhar, confundir / ao deixar tudo desnudo / eu sem querer clareei / as incertezas do mundo”
 


 
Chêne et Chien (1937), de Raymond Queneau
Outra romaria anual me leva todo ano à obra de Raymond Queneau (1903-1976), o intelecto mais bem-humorado da literatura francesa, que tende a ser tão constipada. O título “Chêne et Chien” alude às palavras de que se origina seu nome de família: “carvalho” e “cachorro”.  O livro é descrito pelo autor como um “romance em versos”, e é uma espécie de autobiografia psicológica numa série de poemas de formatos variados: livres, metrificados, com e sem rima. Queneau reconta sua vida com auto-ironia, e há uma sequência de poemas em que ele se reporta aos seus anos de psicanálise, de forma impagável: “E vejam que esse sacripanta / quer me fazer pagar por estas sessões. (...) Eu, o doente, insisto / em julgar esse psicanalista: / é um sedento, um rapinante, / um pobretão ávido de lucro / uma ratazana cheia de audácia / um salteador de estradas!”. 
 



O irreal e a suspensão da credulidade (Arribaçã, 2023), de W. J. Solha
W. J. Solha é um poeta privilegiado, um sibarita das letras, pois (ele mesmo o confessa) sua enorme e excelente produção literária é bancada integralmente por um circunspecto funcionário público, o bancário Waldemar José Solha, a quem o Banco do Brasil muitos serviços deve. Sua série de poemas-livro, caudalosos, whitmanianos, faz uma espécie de recenseamento das correspondências, relações, filiações, ecos e diálogos entre a pintura, a religião, a poesia, a história... Tenho comentado todos eles em meu blog, e este aqui é mais uma catadupa de imagens, de descobertas, de premonições: “E a humanidade – sempre antevendo o apocalipse – se sente, agora, a um lapso de ser eliminada pela Inteligência Artificial, / como o Homo Sapiens fez com o / Neandertal. / É a Terra se encaminhando / a seu objetivo / final”. 
Leia mais aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/10/4990-o-real-irreal-de-w-j-solha-9102023.html
 
 
 
Os gatos quando os dias passam (Ed. 34) – Thiago E
Livro de poemas com tema único é sempre um desafio arriscado. Sinto um livro de poemas como algo que vai aos poucos se ramificando em várias direções, ao invés de convergir para uma só. E atesto que Thiago Eh saiu-se com láureas dessa tarefa de encontrar novos dizeres e novas maneiras, em cada um desses poemas dedicados à raça alienígena que devagarinho está nos amansando. Como ele diz: “sem ser notado, um gato te acompanha / desde o parto – escondido pelo sangue / entre ombros e quadris em crescimento / fortaleceu alguns grupos de músculos /das pernas, do abdômen e dos braços / a fim de pôr teu corpo em quatro apoios / no chão, e assim brincar equilibrista / a criança descalça, hoje esquecida / que um felino lhe deu coordenação / quando bebê, enquanto nem podia / sequer supor o mais vago sentido / desta infantil palavra: engatinhar.” 
 


 
The Housekeeper and the Professor (2003), de Yoko Ogawa
Está sendo publicada aos poucos no Brasil a obra desta escritora japonesa. Ogawa tem uma forma oblíqua e interessante de contar suas histórias. Em muitos casos, elas abordam a relação entre uma mulher mais jovem e um homem mais velho, cada vez com diferentes dosagens de adoração, sadomasoquismo, vassalagem. Neste caso, uma governanta precisa cuidar de um cientista que sofreu um acidente e só lembra o que lhe aconteceu na última hora e meia. A dependência mútua entre eles cria uma afetividade gradual e distante, numa dinâmica relatada com voz impassível, e bruscas surpresas de vez em quando. 
Leia mais aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/10/4991-empregada-e-o-professor-12102023.html
 



Fábulas cabulosas e outras histórias subversivas (Rocco, 2022), de Henrique Rodrigues
O título dá uma idéia bastante próxima dessas historietas em que o autor revisita, da maneira irreverente, as mais conhecidas histórias infanto-juvenis, arrancando-as da noite aconchegante de seu contexto folclórico e trazendo-as, cara amassada, cabelo em desalinho, olhos piscando, para o meio-dia implacável do mundo atual. Atualizar histórias infantis tem sido um passatempo das décadas mais recentes, inclusive no campo da fantasia e do horror. Henrique Rodrigues as leva para o campo da crônica urbana atual, e as recheia com todo o linguajar (e conceitos) que atulham as redes sociais. De um lado temos Pinóquio, Branca de Neve, Pequeno Polegar e outros personagens, e de outro o jargão lacratório das redes: suas aventuras estão polvilhadas de “empoderamento”, “pertencimento”, “autoajuda”, “inclusivo”, “desconstrução”... O contraste entre arquétipos e clichês sempre rende boas risadas e boas reflexões. 
 

Transversais (Belém, Floresta Urbana, 2023), de Adriano Abbade
Uma das coisas que o Modernismo de cem anos atrás nos explicou foi que poesia lírica e registro prosaico podem ser complementares, fortalecendo-se mutuamente: a proximidade e o contraste faz ressaltar o que cada um tem de sensorial e de concreto. Adriano Abbade alterna poemas que lembram certas “notícias de jornal” de Bandeira ou Drummond, resgatando a beleza crua do banal da vida, e poemas de delicada percepção visual e sonora: “a poesia não está nesses versos / mas na cena que estes pretendem evocar / fim de tarde numa fazenda / generique miles davis a rolar / depois do vinho e da ganja / hae-mi levanta-se querendo dançar / despe o casaco / e a blusa branca / com as mãos cria uma ave /e tensiona com ela voar / seios beijando o vento / braços qual asa a planar / nua da cintura para cima / corpo de gaze aspirando ao luar / balé sem lastro / neste atordoante som / a leste cai a noite / em dourado azul neon.” 
 



Era apenas um presente para o meu irmão (Todavia, 2023), de Bruno Ribeiro
Um dos crimes mais cruéis da história recente da Paraíba? Pode ser, mas a concorrência a este título é tão grande que é preferível usar o termo consagrado junto à imprensa e ao público: “a Barbárie de Queimadas”. Em fevereiro de 2012, nessa cidade, um filho de uma família importante local ofereceu uma festa de aniversário ao irmão, e convidou algumas moças bonitas da cidade. O que elas não sabiam é que havia um “presente” para o aniversariante: no meio da noite, um bando de encapuzados invadiu a festa e começou uma longa sessão de estupros, de que o aniversariante e o organizador participaram. Duas das moças acabaram sendo mortas a tiros. Bruno Ribeiro usou este episódio para escrever uma reportagem corajosa (eu pelo menos não teria tido coragem de escrevê-la) sobre o mundo de hoje. 
Leia mais aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/09/4979-barbarie-de-queimadas-692023.html
 


Veja também:

Algumas Leituras de 2023 - parte 1

Algumas Leituras de 2023 - parte 2 


 






terça-feira, 9 de janeiro de 2024

5020) Algumas leituras de 2023 - 2 (9.1.2024)


(Algumas leituras do ano passado, alguns dos livros que achei marcantes por variados motivos; livros sem nenhuma ordem especial. Como sempre, incluo apenas livros que li do começo ao fim. )


Sombras na Relva (1960), de Karen Blixen (“Isak Dinesen”), trad. Maria Luiza Newlands (Ed. 34, 1992)
Estou dando-uma-geral na obra da escritora dinamarquesa cuja carreira tem um perfil único e invulgar. No ano passado, comentei a obra de estréia, que lhe deu fama, Sete Contos Góticos. Este ano li esta pequena coletânea de quatro textos memorialísticos, uma espécie de expansão de seu livro mais famoso, A Fazenda Africana. Blixen teve uma fazenda de café no Quênia, e é impressionante a visão dessa baronesa da Dinamarca andando de jipe, calçando botas, atirando em leões, contando histórias e, principalmente, convivendo com os quenianos de diversas nações. Principalmente os somalis, que ela descreve como “altivos e ingovernáveis”. No primeiro capítulo ela lembra do somali Farah, que foi uma espécie de mordomo em sua fazenda – um homem inescrutável, elegante, que falava inglês e francês, e administrava tudo com delicadeza e mão de ferro. Em “Barua Soldani” ela fala de uma carta que recebeu do rei da Dinamarca, e que depois de mostrá-la aos nativos estes começaram a atribuir poderes mágicos à folha de papel. Em “O Grande Gesto” ela comenta o esforço de cuidar da saúde dos “kikuyu”, que têm hábitos peculiares, e diz: “Cometi alguns erros muito graves, em que ainda hoje não consigo pensar sem consternação, mas estes aparentemente não abalaram meu prestígio; às vezes, acho que as pessoas gostavam mais de mim por eu não ser infalível. Essa peculiaridade dos africanos aparece em outros aspectos de suas relações com os europeus.” E em “Ecos das Colinas” ela reflete sobre os sonhos, e conta os longos anos de correspondência postal que manteve com seus ex-criados. Tudo que ela escreve vale a pena ler.





The Cement Garden (1978), de Ian McEwan
Há um sub-gênero do insólito que podia ser chamado ”Histórias de crianças ou pré-adolescentes que após a morte ou desaparecimento dos pais tenta continuar vivendo por conta própria, sem que o mundo perceba”. Muito longo este rótulo, então talvez caiba “Os Órfãos Independentes”. É o tema de A Menina no Fim da Rua (livro de Laird Koenig, filme de Nicolas Gessner), Todas as noites às 9 (livro de Julian Gloag, filme de Jack Clayton) e deste romance arrepiante de McEwan, que começa com a frase: “Eu não matei meu pai, mas às vezes tenho a impressão de que lhe dei um pouco de ajuda.” Jack, Sue e Julie são três adolescentes que após a morte do pai ficam cuidando da mãe doente e do irmão menor, Tom. São uma família isolada, sem amigos, que não se dá com os vizinhos. Julie, a mais velha, tem independência bastante para ir ao banco receber a pensão, fazer compras. Os três mais velhos vivem infernizando uns aos outros com brigas constantes e com jogos eróticos. A mãe morre, e agora a casa é deles.
McEwan é um escritor de enorme precisão narrativa, e coloca em cerca de 150 páginas uma história de sadismo infantil, fuga da realidade, estagnação social, naqueles bairros meio pobres onde não há vida comunitária, não há futuro, e as pessoas acabam inventando fantasias necrófilas para se distrair.




Pecúlio (2023), de Jorge Filó (Recife, Ed. do Autor)
No departamento da poesia popular, registro este livro onde Jorge Filó dá uma amostra da convergência tradicional, mas que não é visível a todo mundo, entre o repente e o cordel nordestino, por um lado, e formas tradicionais, como o soneto. Para muitos críticos literários, repente e soneto são antípodas, porque instintivamente pensamos no primeiro como uma poesia oral cultivada nos pés-de-parede do Sertão, e no segundo como uma poesia refinada cultivada nos cafés da Rua do Ouvidor. Ledo engano, como comprova a obra do sonetista maior do Pajeú, João Batista de Siqueira, “Cancão” (1912-1982). Em Pecúlio, Jorge Filó traz uma caixa sortida de investidas poéticas onde tem décima, soneto, sextilha, poema longo e curto, poema irreverente e poema filosófico. Este último gênero tem raízes visivelmente filogênicas, pois o autor, que já conquistou brilho próprio, é herdeiro da linhagem do mestre Manoel Filó, de São José do Egito. Portanto... sai do meio que lá vêm os Filós: “O repente acelera o pensamento / cada verso retrata um sentimento / que nenhum outro ser, por si, revela. / A não ser um poeta improvisando / as belezas do mundo vislumbrando / do batente que Deus tem na janela.” 


 
Cuentos (Llamadas Telefónicas, 1997; Putas asesinas, 2001; El gaucho insufrible, 2003), de Roberto Bolaño
Este ano dei cabo desta excelente coletânea de três livros de contos de Bolaño, pela Ed. Anagrama (Barcelona). Bolaño é um escritor de prosa enganosamente descomplicada, que nos leva a participar de uma história a princípio totalmente comum e previsível mas aos poucos tudo vai se distorcendo numa direção ou noutra, e logo estamos dentro do insólito. Não o sobrenatural (raro nos contos dele), mas num universo de gangsters, mulheres fatais, atrizes de cinema pornô, colecionadores, adolescentes carrancudos, escritores na pindaíba, acadêmicos emproados, gente que reconhecemos no primeiro parágrafo em que surgem, mas que nos surpreendem poucas linhas depois. 
Bolaño abre o livro com uma série de “Conselhos Sobre a Arte de Escrever Contos”, onde diz: “Nunca aborde os contos de um em um. Se alguém aborda os contos de um em um, honestamente, pode estar escrevendo o mesmo conto até o dia de sua morte. O melhor é escrever os contos de três em três, ou de cinco em cinco. Se se acha com energia suficiente, escreva-os de nove em nove, ou de quinze em quinze.”
Leia mais aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/04/4937-as-chamadas-telefonicas-de-roberto.html
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/10/4996-os-segmentos-de-estoria-de-roberto.html




O corpo e o caleidoscópio (2023), de Thays Albuquerque (Recife, Ed. Castanha Mecânica)
Uma narrativa que mistura memorialismo e imaginação, um desses relatos em que a gente encontra a cada passo um pequeno marco confirmatório batendo com as informações biográficas sobre quem escreveu; mas basta isso para cancelar todo o restante, cancelar toda a parte textual baseada em improvisos, lembranças recauchutadas, memórias fugidias, reinterpretações, invenções por descuido ou por deliberação? A narradora está pesquisando a história das ditaduras militares na América Latina: Chile, Argentina, Brasil... É quando chega no Brasil que a trava emperra, porque aqui é mais fácil saber do tempo da ditadura através de obras literárias do que de obras escolares: “em 70 eu ainda nem tinha nascido, minha mãe e meu pai tinham onze anos, em muitas das nossas conversas, eu perguntava sobre a ditadura. mainha diz que era muito pequena e não lembra de nada. durou até 85, duas décadas, você se tornou adulta durante a ditadura. como não consegue lembrar? ela me olha sem entender. não diz uma palavra”. Acho que existe toda uma literatura hoje em dia, de jovens com a idade dos meus filhos, perguntando isso, como quem diz: Tudo bem, mas me fala: pra baixo de qual tapete isto foi varrido? 



The case of Erle Stanley Gardner (1946), de Alva Johnston
Este ano pude ver pela primeira vez alguns episódios da famosa série de TV “Perry Mason”, onde o advogado-detetive é interpretado por Raymond Burr (o ator que faz o assassino em Janela Indiscreta de Hitchcock). A série é divertida, com episódios curtos de ritmo frenético para a época (1957-66). Isto me motivou a ler esta curta biografia do autor, que eu tinha há anos. Gardner era uma máquina de escrever. No seu rancho na Califórnia, ele mantinha secretárias para quem ditava seus romances palavra por palavra. No início da carreira (diz Johnston) ele escrevia um romance por semana. Depois que ficou rico, tirou o pé do acelerador e passou a produzir um romance por mês. Seus livros policiais repousam no seu extenso conhecimento de filigranas jurídicas e de casos reais improváveis, que ele usava como ponto de referência para imaginar crimes onde uma pessoa inocente é acusada, recorre a Perry Mason para salvá-la, e ele o faz, descobrindo durante o processo quem foi o verdadeiro criminoso. Já li uns 30 ou 40 romances dele. A fórmula nunca falhou. 




A febre (2023), de Marcelo Ferroni
Tzvetan Todorov dizia que uma narrativa é fantástica quando, durante e após a leitura, somos incapazes de decidir se tudo aquilo foi uma interferência do sobrenatural ou foi apenas (por exemplo) uma alucinação do personagem. Este romance de Marcelo Ferroni narra uma daquelas claustrofóbicas histórias que transcorrem quase totalmente durante uma noite de medo e sofrimento, uma noite que o personagem pensa que nunca vai acabar. É uma “longa jornada noite adentro” de dois irmãos rivais e hostis cuidando do pai senil, no apartamento em que este vive, repleto de recordações do seu tempo de homem poderoso durante a ditadura. Pense numa noite em que tudo dá errado, a ponto do protagonista, Marco, começar a imaginar que seres do além estão interferindo para vingar-se da família. Marcelo Ferroni (disclaimer: Marcelo é meu editor na Alfaguara, e graças a ele traduzi H. G. Wells e Raymond Chandler) já fez incursões bem sucedidas pelo romance policial (Das paredes, meu amor, os escravos nos contemplam, 2014) e pela ficção científica (As maiores novidades, 2021, uma curiosa história de viagem no tempo ambientada no mundo corporativo). Este novo livro é a narrativa de um pesadelo cruel que aflige gente cruel e gente fraca. 


 
Regarde les lumières, mon amour (2014), de Annie Ernaux
Fiquei gostando do estilo despojado de auto-ficção praticado pela ganhadora do Prêmio Nobel do ano retrasado. Este livrinho, em forma de diário, descreve sua experiências de frequentadora do supermercado Auchan. Os franceses são catalogadores e classificadores até a medula, sentem-se na obrigação de tudo classificar, tudo descrever, tudo interpretar. O livro de Annie Ernaux parece um olhar apolíneo e distanciado avaliando e julgando a experiência do consumo, a ética e a estética das gôndolas e dos caixas, a psicologia dos frequentadores. Entretanto, a certa altura ela começa a relacionar certas catástrofes ocorridas em Bangladesh, com milhares de mortos, e a empresa dona do supermercado.
Mais comentários aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/03/4919-o-supermercado-de-annie-ernaux.html




Contos Encantados do Brasil (2023), de Marco Haurélio
Marco Haurélio é neste momento um dos pesquisadores mais dedicados e mais confiáveis da nossa literatura oral. O fato de ser poeta e cordelista com obra própria (e muito pessoal) não interfere nessa atividade; antes o ajuda a perceber e preservar a riqueza de sonoridades, coloquialismos e variantes dialetais de que essa literatura é tão rica. Riqueza que às vezes se perde quando o estudioso e transcritor sente-se levado a traduzi-la para o linguajar do relato jornalístico ou para o do ensaio acadêmico, que muitas vezes tendem a ser pálidos e uniformes. Estes contos, colhidos em fontes primárias e cuidadosamente anotados, deverão agradar a leitores de Ítalo Calvino (Fábulas Italianas), Angela Carter (103 Contos de Fadas) e da obra inesgotável de Altimar Pimentel, Câmara Cascudo, Sílvio Romero e muitos outros. 



A Tabela Periódica (1975), de Primo Levi (Relume-Dumará, 1994, trad. Luiz Sérgio Henriques)
Primo Levi declarava repetidamente que não era cientista e que não era escritor: era um técnico com formação em química. Não chamo a isto modéstia, a qual no mais das vezes não passa de auto-defesa de um Ego vulnerável; chamo auto-conhecimento, que em geral é uma conquista cara e sofrida. Vi há pouco o filme A Trégua (Francesco Rosi, 1997) que narra como Levi (1919-1987) sobreviveu a Auschwitz, e reconstitui sua tortuosa volta a sua Ítaca natal, Turim, após o fim da guerra. A Tabela Periódica se detém em outros episódios de sua vida, com a precisão verbal de um escritor e a imaginação meticulosa de um cientista.
Leia mais:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/07/4966-tabela-periodica-de-primo-levi.html



Martina no Vale do Germânio (2023), de Eduardo Souza Lima
Vivo matutando sobre os caminhos até agora abertos pela ficção científica brasileira, e sobre as atitudes possíveis a um escritor brasileiro diante de um gênero dominado, quantitativa e qualitativamente, pelos autores de língua inglesa. (Spoiler: ainda não vejo solução.) Eduardo Souza Lima é crítico de cinema desde o tempo em que as barbas eram pretas, e neste seu romance de estreia adota o absurdismo fragmentário presente em outras obras nacionais recentes, com o Back in the URSS, de Fábio Fernandes. Um absurdismo com algo da sátira dos cineastas brasileiros que ao sucesso do seríssimo Tubarão respondiam com o escrachado Bacalhau. Ou o absurdismo com que os cineastas da Boca do Lixo paulistana canibalizavam cinema de Hollywood, cultura pop, marxismo de botequim, dramalhão latino-americano. Uma espécie de escracho reverente com que os artistas da indústria mais fraca homenageiam os da mais forte, enquanto lhes batem a carteira. Em suma: é uma ficção científica udigrudi. (Nem sei se o autor concordaria, mas eu sou como ele, não peço licença a ninguém.) 
 


Maria Amélia Mello (2023), de Marisa Midori Deaecto e Carolina Bednarek Sobral
Este perfil biográfico pertence à coleção “Editando o Editor”, da EdUsp, e traça o perfil da minha amiga e editora Maria Amélia Mello. Além do relato saboroso de suas leituras, estudos, viagens, idéias editoriais brilhantes, o livro coloca esta questão tão interessante do olhar feminino sobre a atividade editorial. Discussão que não se esgota. Na ficção científica, por exemplo, existe uma copiosa bibliografia de artigos e ensaios a respeito de John W. Campbell (1910-1971), um editor que formatou a “Golden Age” da FC com suas qualidades, mas também com suas limitações e seu conservadorismo. E pouco se escreve sobre uma editora como Judith Merrill (1923-1997) e sua esplêndida série de antologias anuais (de 1956 a 1968) onde ela, com total conhecimento de causa, misturava ficção científica, fantasia, poesia e literatura mainstream. Os caminhos são sempre abertos por pessoas, cada qual com uma visão única, irrepetível, preciosa.
Leia mais aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/05/4947-editando-editora-maria-amelia.html
 



sábado, 6 de janeiro de 2024

5019) Algumas leituras de 2023 - 1 (6.1.2024)



(Algumas leituras do ano passado, alguns dos livros que achei marcantes por variados motivos; livros sem nenhuma ordem especial. Como sempre, incluo apenas livros que li do começo ao fim. )




 
The Hemingway Hoax (1990) – Joe Haldeman
É uma história de viagem no tempo, cujo “ponto de divergência” (fato isolado que, tendo outro desfecho, gera uma linha-do-tempo diferente da nossa) é o famoso episódio em que uma valise com manuscritos de Ernest Hemingway foi perdida num trem da França. Joe Haldeman, que demonstra grande conhecimento da vida e da obra do autor de O Velho e o Mar, imagina um grupo de pessoas decididas a forjar uma pseudo-descoberta de tais manuscritos, num golpe semelhante ao de Clifford Irving que durante algum tempo enganou muita gente com seu pseudo-autêntico Diário de Hitler.
 
O que o trio de espertalhões não sabe é que por razões cósmicas quaisquer, é preciso que os textos de Hemingway continuam perdidos, desconhecidos e inéditos. As idas-a-vindas temporais que a trama acarreta produzem um suspense razoável. Em cada “universo alternativo” onde o protagonista vai parar, tanto ele quanto as outras pessoas são outras mesmo, têm características físicas, psicológicas e biográficas diferentes. 
 
Há algumas discussões literárias interessantes, inclusive sobre fraudes, falsificação, máquinas de escrever antigas (os tipos são reproduzidos graficamente na página do livro); ao mesmo tempo, o próprio Haldeman reconheceu que é o seu livro com mais cenas de sexo e de violência. (A maioria destas cenas não estavam incluídas na versão mais curta da história, publicada por Gardner Dozois na Isaac Asimov SF Magazine, abril de 1990, versão que ganhou os prêmios Hugo e Nebula de 1991.)



 
“A Lua na Caixa Dágua” (2021) – Marcelo Moutinho
A crônica carioca talvez seja, depois da música popular, a melhor maneira de conhecer o Rio de Janeiro, no sentido de saber o que os cariocas pensam, sentem, imaginam. E também de conhecer a “pequena história” dos bairros, das praias, das turmas, das épocas. Marcelo Moutinho é um dos cronistas que costuram a “cidade partida”, num vai e vem incessante entre a Zona Sul (a ponta visível do iceberg carioca) e o resto da cidade. Aqui se misturam lembranças de infância, comentário social, a história do samba, registros de lugares e pessoas que sumiram do mundo material mas ainda são passados adiante de geração em geração, pois o tempo tanto destrói quanto conserva.   



Notes on the Making of Apocalypsis Now (1979?) – Eleanor Coppola
A esposa de Francis Ford Coppola acompanhou toda a via-crucis da realização deste filme, e deste processo resultaram um documentário, espécie de “making of” (Hearts of Darkness: A Filmmaker’s Apocalypse, 1991) e este livro, um diário que ela manteve durante a aventura. Francis Coppola é um cineasta ambicioso, daquele tipo cujos filmes são atrapalhados por um tufão ou por uma guerra civil, e não pelos quiproquós habituais. O interessante do relato de Eleanor Coppola é o acompanhamento das incertezas do dia a dia. Logo no começo do livro, ainda na pré-produção, ela diz que Coppola teve um acesso de raiva e jogou pela janela todos os seus Oscars; quatro deles se despedaçaram. Hoje sabemos que o filme é considerado um clássico, ganhou prêmios, e não levou ninguém à falência; mas durante o livro dela nada disto aparece como garantido, porque nada é contado em retrospecto e com a vantagem de já saber o fim. O que a gente tem é a incerteza absurda da vida real, as dúvidas, as catástrofes diárias (tempestades, acidentes, enfartes do elenco, etc.), e o permanente pânico do diretor reescrevendo tudo na véspera ou no instante da filmagem, sem saber ainda que história está contando. 




Corpos benzidos em metal pesado (2022), de Pedro Augusto Baía
Os nordestinos nos queixamos de pouca exposição, pouca divulgação para o Brasil todo, mas a verdade é que a literatura nordestina tem, quando se vê o conjunto de literatura brasileira, muito mais presença do que a literatura nortista. Nos últimos anos, aparecem cada vez mais livros da região Norte, como este de ótimos contos curtos. Corpos benzidos...  (ganhador do Prêmio SESC de literatura) mostra uma vivência que em alguns momentos chega a parecer irreal: de um lado, uma floresta e um rio que parecem um acesso de megalomania da Natureza, e do lado oposto forças econômicas igualmente gigantescas e impessoais, mas que passam-o-rodo em tudo usando fuzis, dinheiro, tratores. Entre estas duas forças estão pessoas simples, que leem romances, presenciam assassinatos, ouvem música, sofrem perseguições, encontram cadáveres, discutem assombrações, sentem o corpo saturado do metal invisível que boia nos rios. A epígrafe de um dos contos cita A queda do céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert: “Se os brancos de hoje conseguirem arrancá-lo [=ao metal] com suas bombas e grandes máquinas, do mesmo modo que abriram a estrada em nossa floresta, a terra se rasgará e todos os seus habitantes cairão no mundo de baixo”. 




Cinema Palacio (2022), de Ivan Noé Espadas Sosa
Anos de cineclubismo me impuseram uma mania, a de ler (e achar bom) tudo quanto se refere à experiência do cinematógrafo: a atividade de fazer filmes, assistir filmes, projetar filmes, comentar filmes, inventar filmes que não existem. Ivan Noé Espadas Sosa é filho de dono de cinema, e mais uma dessas pessoas cuja infância foi contaminada desde cedo pelas idas diárias à sala de projeção. Neste livrinho (li em edição eletrônica), ele recompõe episódios que são memórias comuns a todo garoto de cidade pequena que vivia hipnotizado pela tela. São diferentes dos cineclubistas, que vão ao cinema para ver um Fellini, para ver um John Ford. Esses meninos e meninas são encarregados de pegar as latas de filme na estação do trem (como Ivan), ou são levados ao cinema enquanto a babá namora com o projecionista (como aconteceu com Rubem Fonseca), e a ida ao cinema não tem muito a ver com o filme, com o autor do filme ou o conteúdo do filme. É o cinema que constitui sua realidade emocional: a bilheteria, a sala, o vácuo morno, a escuridão, a cortina, as cadeiras barulhentas, o facho de luz... 



Leia esta canção: Beto Guedes (2023), org. Marina Ruivo
Sou meio suspeito para falar desta antologia, da qual participo com um conto. Foi uma idéia em homenagem ao histórico disco de Beto Guedes, A Página do Relâmpago Elétrico (1977), disco que marcou minha geração já marcada pela obra de Milton Nascimento e de seu Clube da Esquina. Participam da antologia alguns amigos “clubesquinófilos” como Luiz Roberto Guedes, Fábio Fernandes e Sérgio Fantini, além de textos-bônus contribuídos por Fernando Naporano, Murilo Antunes, Benedito Bergamo e Flávio Venturini. A música mineira já me encantava quando fui morar em Belo Horizonte em janeiro de 1970 (lá se vão 54 anos), via Milton, e tudo que veio depois dele foi só deslumbramento e descoberta. 



Engenheiro Fantasma (2023), de Fabricio Corsaletti
Felizmente li este livro antes que ele ganhasse o Prêmio Jabuti duas vezes (Melhor Livro de Poesia, e Livro do Ano), porque ler um livro que traz faixa-de-prêmio ao peito é sempre um peso, um ruído na comunicação. Ficamos com os impulsos contraditórios de reverenciar e de ironizar, e a leitura propriamente dita vem contaminada de impurezas mentais. Este livro pode ser visto como uma obra de ficção em forma de sonetos. Alguém objetará que isto já foi feito, mais famosamente no Eugene Onegin (1833) de Alexander Pushkin, mas há uma diferença essencial: os sonetos de Pushkin contam a vida do personagem, e no livro de Corsaletti a moldura ficcional é dada pelo prefácio, em que ele diz ter sonhado com um livro de sonetos escritos por Bob Dylan, e resolveu escrevê-lo. 
Mais detalhes aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2022/04/4811-ficcao-poetica-942022.html


 
Dream Country (1991), de Neil Gaiman
A série de TV “Sandman” me conduziu sutilmente à missão auto-imposta de ler/reler os volumes da novela gráfica, cuja amplitude e variedade sempre admirei. Neste terceiro volume da obra, Gaiman está acompanhado por artistas como Kelley Jones, Malcolm Jones III, Colleen Doran e Charles Vess – sem esquecer Dave MacKean, um dos grandes capistas deste universo. Dream Country tem quatro histórias magníficas: “Calíope”, o conto brutal de um homem que sequestra uma musa para que não lhe falte inspiração; “A Dream of a Thousand Cats”, uma história onírica somente com gatos como personagens; “A Midsummer Night’s Dream”, onde Gaiman reconstitui Shakespeare e sua trupe ambulante encenado uma peça fantástica com a ajuda de seres fantásticos; e “Façade”, em que uma super-heroína monstruosa está cansada de usar máscaras para esconder sua feiura, e recebe uma ajuda inesperada da Morte. Gaiman é um dos meus autores fantásticos preferidos, e minha intenção é ler a série completa do “Sandman” nos próximos anos. Como dizia José Saramago: “Vida havendo, e saúde não faltando...” 
 
 
(continua no próximo dia 9)