quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

4895) Leituras 2022 -- 3 (21.12.2022)



Não costumo fazer listas de “dez melhores”, mas sempre gosto de dar um balanço, no fim do ano, de alguns livros que li e que por variadas razões não comentei aqui no blog. Quisera eu ser daqueles sujeitos organizados que “ficham” cada livro que leem, redigindo pelo menos meia página de observações. Não é o meu caso. Estas anotações, porém, podem servir como dicas de leitura, ou para que o leitor compare com suas próprias impressões.

 

CLÁSSICOS
“Wise Blood” (1952), de Flannery O’Connor
Flannery O’Connor é uma contista de estilo e cenas tão imprevisíveis quanto Clarice Lispector. Suas histórias curtas sobre aquele mundo de pernas para o ar que é o Sul dos Estados Unidos estão em todas as antologias. Procurei este romance depois de ver e rever a excelente (e fiel) adaptação de John Huston, com Brad Dourif no papel de Hazel Motes, o rapaz que volta da guerra transtornado. Ele se perde da família, fica vagando sem rumo certo, se apaixona pela filha de um pastor charlatão que finge ser cego, e embarca num delírio psico-religioso que o leva a algumas catástrofes pessoais. No meio de tudo isto ainda cabem o roubo da múmia de um anão, um automóvel jogado num lago, um homem que queima os próprios olhos, uma fila de garotos para apertar a mão de um gorila, e por aí vai. 
 
A literatura de Flannery O’Connor me parece existir num terreno fora dos EUA (sem com isto deixar de ser intensamente norte-americana), mas uma terra-de-ninguém onde se situam também vários romances do “realismo mágico” latino-americano, vários romances nordestinos com um pé no insólito e no bizarro... Em suma, histórias que constroem delírios em torno da visão mágica do universo, a qual não é muito distante da visão religiosa, principalmente a visão dos fanáticos religiosos ou dos “messias artesanais” – os profetas por conta própria, como é o caso de Hazel Motes.
 
Dentro da literatura norte-americana este livro pode evocar algo daquelas histórias de dark fantasy como em Ray Bradbury (Something Wicked This Way Comes), Jonathan Carroll, Charles G. Finney (The Circus of Dr. Lao). Mas a visão de Flannery não tem aquelas interfaces confortáveis com a fantasia-de-gênero. Parece uma obra brotada de uma enorme solidão, onde a autora vê o mundo, vê Deus, não duvida da existência de nenhum dos dois, mas duvida que qualquer um deles tenha razão de existir.
 



AUTOR NACIONAL
“Onde as verdades nascem” (Patuá, 2022) de Julio César Bernardes
Primeiro livro de contos do autor paulista. Histórias que roçam pelo fantástico e pelo insólito, numa prosa trabalhada. São ambientadas geralmente em cidades do interior onde acontecem fatos bizarros. As histórias são contadas num tom vagaroso e impassível, deixando os elementos insólitos aparecerem como parte integrante daquele ambiente que se desvenda; em geral não há surpresa a não ser a dos personagens envolvidos. Esse tom se mantém mesmo quando a narrativa é na primeira pessoa e por mais estranhos que sejam os fatos relatados: cabeças cortadas que começam a aparecer nas ruas de um bairro, um menino sonha uma vida completa com outra família num país desconhecido, um vagabundo de rua parece deter o segredo de um acidente que se abaterá sobre a cidade, a cidadezinha de litoral que não sabe o que fazer com a carcaça de uma baleia gigantesca onde um homem sem-teto resolve fazer morada. 
 
 

EXPERIMENTAL
“The Conversions” (1962), de Harry Matthews
É um típico romance do pessoal da OuLiPo, a Oficina de Literatura Potencial formada por um grupo parisiense. Aqui, um milionário deixa uma fortuna em testamento para quem for capaz de responder algumas perguntas absurdas e misteriosas, e o narrador mergulha numa série de eventos bizarros, encontrando gente estranha que se comporta de modo inexplicável. Tudo está contido numa série de “chaves” verbais, como o enunciado de uma charada, que em si mesmo não faz sentido, mas é narrado ao pé da letra, como se fizesse. Não é para todos os gostos. Eu gosto. 




MEMÓRIA
“Tarcísio Pereira: Todos os Livros do Mundo” (Recife, CEPE, 2022), de Homero Fonseca
A vida cultural do Recife nunca teria sido a mesma sem a influência de um dos seus maiores livreiros. Tarcísio (falecido em 2021, vítima da Covid) foi o homem que criou nos anos 1970 a “Livro 7”, mistura de livraria, bar, centro cultural e reduto de resistência política. Homero Fonseca pesquisou com carinho e reconstruiu o ambiente que possibilitou a existência da “maior livraria do Brasil”. Amigos do biógrafo e do biografado contribuíram com artigos, fotos, depoimentos, documentos de época; eu forneci um poema, “A Caverna Luminosa”, porque sou em grande parte um produto daquele aqui-e-agora.



POLICIAL
“Hotel Iris” (1996), de Yoko Ogawa
Uma garota adolescente, cuja mãe administra um hotel, se deixa fascinar por um homem mais velho que costuma se hospedar ali com prostitutas. Ela passa a segui-lo, até ser levada para a casa dele, onde os dois se entregam a rituais previsivelmente bizarros. O livro é contado do ponto de vista dela, com uma espécie de fascinação robotizada. Lembra a teoria da “vitimologia” de Julio Cortázar, para quem algumas histórias de crime são desencadeadas em igual medida pelo criminoso e pela vítima, a qual encara o perigo com o mesmo destemor anestesiado com que um viciado encara a droga que o está destruindo.
 



AUTOR NACIONAL
“O que a casa criou” (Record, 2021), de Diogo Monteiro
Este livro, vencedor do Prêmio Sesc de contos, tem uma prosa burilada minuciosamente, cada frase é inteira em si própria, sem servir de mero veículo para o fluxo da narração. Seria chamada de prosa poética, se isso não fosse hoje um termo meio maldito, principalmente no Brasil; mas mesmo assim é a narração que predomina. Mesmo elíptica e onírica em muitos pontos, é sempre uma história que está sendo contada, em ambientações rurais ou interioranas: o circo mambembe que viaja guardado numa caminhonete (“Várzea”), o lago que devolve as pedras jogadas dentro dele (“Repique”), o menino cujas partes do corpo desaparecem de uma em uma sem que isso cause alarme à sua mãe (“Campainha”). Todo um estilo, caprichado e imaginativo, se desdobrando.



FICÇÃO CIENTÍFICA
“The Other Nineteenth Century” (2001), de Avram Davidson
Avram Davidson era um judeu novaiorquino, baixinho, barbudo e irascível. Morou algum tempo no México e depois nas Honduras Britânicas (América Central), antes de se estabelecer na Caifórnia. Foi um desses indivíduos com leituras vastas e ecléticas, um vasculhador incansável de alfarrábios, arquivos, bibliotecas empoeiradas, hemerotecas de um tempo em que este termo ainda estava em uso.
 
The Other 19th Century é uma coletânea póstuma das principais histórias que ele ambientou nesse século, com o qual se identificava. Muitas de suas histórias de FC têm lugar no passado, com episódios bizarros relativos à descoberta e exploração da eletricidade, rádio, etc.  Bastaria esta coletânea para que Davidson pudesse ser considerado um precursor do gênero steampunk, porque ele mostra, além da fascinação pela tecnologia vintage, o exotismo de uma época delirantemente imperial, e a mestiçagem cultural resultante do refluxo, para dentro das capitais dos impérios, de tudo que existe de improvável e ininteligível na cultura das colônias.
 
Davidson (1923-1993) sempre foi uma espécie de “estranho no ninho” na FC norte-americana – ainda assim, ganhou prêmios como o Hugo, o World Fantasy Award e o Edgar (de literatura policial). Ursula LeGuin disse certa vez, referindo-se a Philip K. Dick, que este seria “o Borges do nosso país”. Acho que Avram Davidson é quem mereceria essa qualificação, por mais de um motivo.
 
O título completo deste livro é: O Outro Século Dezenove: Uma Coletânea de Histórias de Avram Davidson, Contendo Extraordinárias Revelações sobre as Vidas de Pessoas da Literatura; bem como Relatos Fidedignos sobre Fósseis Vivos, a Câmera de Montavarde, a Máquina de Irradiodifusão, e o Vilvoy das Ilhas; com Crimes Nefandos, Nobres Damas em Adversidade, Brilhantes Deduções, Eunucos Imperiais, Maquinações Políticas, etc etc



CLÁSSICOS
“Orlando” (1928), de Virginia Woolf
Li este livro em tradução brasileira, quando tinha trinta e poucos anos, e tive a sensação de que estava lendo um livro de alguém tão hábil com as palavras e com os pensamentos quanto Machado de Assis. (Li na edição do Círculo do Livro, e até hoje não consegui descobrir quem traduziu esta versão.) Reli agora no original inglês, e achei o livro muito melhor, mas muito mesmo. O impulso de reler veio por ter assistido a ótima adaptação feita por Sally Potter em 1992, com Tilda Swinton no papel-título.
 
Virginia Woolf tem o dom, que nem todos os escritores (mesmo os que são geniais) têm, de puxar o leitor pelo fio das palavras da maneira como uma criança puxa pelo fio de uma linha a sua pipa (arraia, coruja, pandorga, etc.).  Basta um fio de palavras, e como o fio tem solidez e tensão suficientes, ele arrasta o leitor para o século tal, para Londres, para Istambul, para o oceano, para o passado e o futuro... Virginia Woolf escreve o tempo todo como quem começa a contar uma história para os frequentadores de um café egípcio, e poucos parágrafos mais à frente tudo acontece como se estivesse acontecendo de verdade, ou seja, num filme de verdade, com atores e tudo, navios e tudo, explosões e tudo; e mal se dissipa o fumo das explosões lá vem o fio das frases nos arrebatando e nos levando de novo na direção que a autora bem entende, e até em direções que ela confessa não entender por completo, mas afinal, como é ela que está levando, ela leva mesmo, lá vai ela e lá vamos nós. 
 
Este livro é uma beleza, li traduzido em edição de papel, li agora em inglês (em PDF no celular), e pretendo comprar outra versão em papel para me deleitar sublinhando. 
 

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Outras indicações: 

https://mundofantasmo.blogspot.com/2022/12/4892-leituras-2022-1-12122022.htm

https://mundofantasmo.blogspot.com/2022/12/4893-leituras-2022-2-15122022.html 





domingo, 18 de dezembro de 2022

4894) Entrevistas Transcendentais: Alfred Hitchcock (18.12.2022)




O elevador é espaçoso, sem ruído, e meus sapatos se afundam num carpete fofo. No final do largo corredor, uma secretária ergue-se da mesinha e me conduz a uma sala interna, ampla, com teto altíssimo. As paredes são cobertas de cartazes e fotos emolduradas. Há uma estante envidraçada a um canto, dois sofás, três poltronas, uma mesa baixa de madeira, sem nada em cima a não ser três cinzeiros de vidro. Ela me pede que espere e sai, pé ante pé. Fico olhando a janela envidraçada e enorme por onde entra a luz da manhã californiana, onde arde um sol de ouro. 
 
Um minuto depois abre-se outra porta ao fundo e ele se aproxima, com passo tranquilo e miúdo, um sorriso formal, a mão estendida, senhor de si. Sentamos, trocamos amabilidades, ele se interessa em saber se fiz boa viagem, se estou bem instalado, se fui bem atendido. Por fim, explico-lhe o conceito por trás da minha visita.
 

HITCHCOCK - Dizem que tenho uma relação difícil com a imprensa. Por quê? Poucos diretores receberam tanta cobertura de imprensa quanto eu, o que prova que sei como os jornalistas pensam. Se gosto das críticas? Incomoda-me a injustiça de me atribuírem, mesmo de boa fé, intenções que nunca tive, ou de exibirem má-vontade para com certos aspectos do meu sucesso.
 
BT – Há diretores que se fecham em si, se distanciam do público. Com o senhor, parece ter sido o contrário. O senhor se preocupa em saber o que as pessoas pensam de cada filme, de cada plano em cada filme.
 
HITCHCOCK – Concordo, com uma correção: não o que as pessoas pensam, mas o que elas sentem. O que procuro é um cinema de comunicação instantânea, onde o ato de ver e a descarga de emoção sejam quase simultâneos. Deixar o público num estado de interrogação; depois, de surpresa; depois, de medo, de riso, de indignação, de simpatia...
 
BT – Talvez também um estado de juízo crítico, de distanciamento?...
 
HITCHCOCK – Menos! Muito menos. Somos educados para pensar criticamente o tempo todo. O cinema quebra essa barreira racionalista e vai no ponto mais fundo de cada pessoa. Muitos dos roteiros que filmei tinham que ter trechos expositivos, com diálogos falando da política, da psicanálise, da investigação policial... O cinema sonoro produziu este pesadelo: o blá-blá-blá filmado. Sou de um tempo em que apenas víamos os lábios se movendo e deduzíamos sem erro o que estava sendo dito. 
 
BT – Muitas vezes o senhor se vinga do diálogo irrelevante de forma até óbvia.
 
HITCHCOCK – Sim, acho que consigo, com certa frequência, fazer com que as ações na tela sirvam de desmentido às falas. Os diálogos, em  geral, são irrelevantes, estão ali apenas para que a cena pareça realista. As pessoas falam demais na vida real, não acha? Palavras, palavras...
 
BT – Eu tenho uma curiosidade especial em saber a forma como o senhor escolhe os títulos dos filmes. Alguns são óbvios ou banais, mas outros parecem cuidadosamente pensados. 
 
HITCHCOCK –  Isto varia de caso para caso. No cinema empregamos muito os títulos provisórios; North by Northwest se chamou durante algum tempo A Mulher no Nariz de Lincoln. Creio que O Homem Que Sabia Demais é um bom despiste, porque esse personagem é claramente o agente que morre apunhalado no mercado ao ar livre, na sequência inicial do filme, no Marrocos. O protagonista (James Stewart) é, como sempre, alguém que só conhece a verdade aos pedaços, nunca sabe o suficiente. 


 
BT – O senhor fala frequentemente no contraste entre o suspense e a surpresa.
 
HITCHCOCK – São dois instrumentos úteis, e a sabedoria está em usá-los da forma adequada. Prefiro defini-los como: “A Ignorância do Espectador” e “A Onisciência do Espectador”. No primeiro caso, acontece algo que ele não entende por completo, e por isso o desfecho é surpreendente: um simples susto, digamos. A ignorância do espectador, porém, deve ser explorada para gerar mais que o mero susto. Gerar a estranheza: a cena da estrada e do avião em North by Northwest, da loja do taxidermista em O Homem Que Sabia Demais... A estranheza é tudo. 
 
E há as situações em que o espectador é onisciente, ou seja, ele sabe coisas que os personagens não sabem. Muitos efeitos de suspense brotam desse tipo de situação. Veja a cena de Rear Window em que Grace Kelly penetra no apartamento do assassino em busca de provas, e nós vemos à distância que o assassino está voltando pelo beco. Somos oniscientes, vemos tudo, e não podemos fazer nada para avisá-la – nesse momento, “somos” James Stewart, que está nessa mesma situação. 
 
BT – Muitos cineastas afirmam que pensam só no filme, e quase nunca no espectador. Certamente não é o seu caso. O senhor pensa o tempo todo nas reações do público.
 
HITCHCOCK – Mas é claro! O cinema existe para isto! Alguns colegas meus têm uma visão interiorizada, voltada para seus dramas íntimos, e eu os respeito. Mas também é legítimo pensar nos dramas íntimos do público e tentar contar histórias que tragam esses dramas para a superfície. O suspense é catártico. Tem sua função. 



BT – Quando estudei sua carreira, tive até a impressão de que o senhor era um leitor voraz de romances policiais, e que teria estudado psicologia. Mas logo vi que me enganava. 
 
HITCHCOCK – Minha abordagem reflete minha formação. Estudei engenharia, mecânica, eletricidade, desenho técnico. O cinema veio para mim como consequência do trabalho técnico no estúdio.  Um filme é como uma máquina: uma sucessão de diferentes funções (suspense, riso, susto, romance, etc.) que devem ser cumpridas de maneira consciente, deliberada. O trabalho do roteirista depende do trabalho do ator, que depende do trabalho do fotógrafo, que depende do trabalho do diretor de arte... e por ai vai. 
 
BT – Com esta sua formação técnica, o que acha dos atuais efeitos especiais?  Gostaria de tê-los tido à sua disposição?
 
HITCHCOCK –  Há momentos em meus filmes que exigiram um esforço técnico prodigioso, mas o resultado compensava: o mundo coberto de aves no final de The Birds, o crime na escada em Psicose, a subida da torre em Vertigo... Dezenas de pessoas suando a camisa durante dias para produzir alguns minutos de imagem na tela. E creia-me, todo trabalhavam exultantes. A computação gráfica permite transformar uma pessoa em outra em segundos, apenas apertando meia dúzia de teclas? Ora, ora... Isso é bem típico da época do capital financeiro, em que fortunas fictícias são construídas através de transferências eletrônicas. Nada disso é real. 



BT – Salvador Dalí à parte, eu creio que o senhor tem uma fascinação pelo Surrealismo, pelas imagens improváveis, incongruentes. Algo mais sutil do que uma girafa em chamas, ou um relógio derretido. Penso, por exemplo, nos cigarros que seus personagens apagam num ovo frito (Ladrão de Casaca), num pote de creme facial (Rebecca); no copo que Cary Grant pousa no pescoço da mulher bêbada em Notorious; na freira de saltos altos em The Lady Vanishes; no garoto que exibe um rato morto à mesa do jantar, em Young and Innocent... 
 
HITCHCOCK – O mundo tem uma faceta absurda, que tanto pode virar comédia como tragédia. Meus filmes refletem isso, porque é algo que aprendi na vida. Há uma área limítrofe entre a imitação e a realidade, entre a encenação e a “coisa real”. Muito do que vemos na tela nos parece invenção, mas a vida real é mais rica de surpresas do que imaginamos.    



BT – O que nos leva, de certa forma, à questão de suas breves aparições nos filmes. Há uma certa injustiça nos críticos que atribuem esse gimmick à simples vaidade.
 
HITCHCOCK – Essas aparições começaram por acaso, e se tornaram uma espécie de assinatura.  Eu sempre fui um admirador das artes plásticas. E garoto, indo aos museus ou folheando álbuns, eu me assustava às vezes ao olhar um quadro famoso, geralmente no canto inferior direito, e ver que nas folhas de um jardim ou na água do mar estava escrito o nome do pintor! Ora, aquelas imagens me pareciam reais. Quando um vaso de girassóis mostrava o nome “Vincent” ou o véu de uma freira taitiana trazia o nome “PGauguin” aparentemente bordado, não me passava na mente, de início, que aquele nome fosse um elemento estranho ao quadro. O nome fazia parte daquele objeto! Somente depois, com um pouco mais de idade, vim a entender o que era uma assinatura, e que ela estava numa “camada” externa ao quadro em si. 
 
Quando apareço em meus filmes sentado num ônibus, ou conduzindo terriers pela coleira, ou pondo uma carta no correio, é como se dissesse ao meu público que aquela história aconteceu no mesmo mundo em que eu existo. As pessoas que aparecem naquele filme são tão reais quanto eu – ou então, sou eu que sou tão irreal quanto o mundo delas. O público é livre para escolher!...  (risos) 



BT – O senhor já afirmou que depois de certa época, procurou incluir esse “cameo” nos primeiros minutos do filme, para não distrair o público da história...
 
HITCHCOCK – É preciso usar essas coisas com sensatez. Mesmo assim, confesso que já tive vontade de deixar de fazê-lo em algum filme, e depois afirmar vigorosamente, na imprensa, que estou ali, sim, o público é que não prestou atenção. Algumas pessoas talvez comprassem um novo ingresso, só para conferir. (risos) 
 
BT – O senhor é visto como o mestre do suspense e dos crimes violentos, mas não são coisas equivalentes.
 
HITCHCOCK – Por certo que não. O suspense não precisa da existência do crime, a não ser para ganhar mais dramaticidade. Estar atrasado rumo à estação de trem ou ao aeroporto é uma situação de enorme suspense pela qual todos nós passamos algumas vezes na vida. O suspense é a incerteza entre vários desfechos possíveis. Já a violência faz parte de nossa sociedade, infelizmente. Precisamos descarregar esses impulsos, projetando-os numa atividade inofensiva, simbólica, imaterial como o cinema. 



BT – É engraçado que o senhor qualifique o cinema como algo imaterial, porque problemas materiais, físicos, são a essência dos seus filmes. Livrar-se de um cadáver, por exemplo.
 
HITCHCOCK – Isso me fascina, porque depois que cometemos o mais horrível dos pecados – matar um ser humano – ficamos com a mais prosaica das tarefas: dar fim àquele trambolho que é um cadáver. Por isso os ingleses geralmente enterram suas vítimas, prosaicamente, no porão ou no jardim. É a solução mais prática, e somos um povo prático. Levá-lo para longe é sempre arriscado, principalmente quando o jogamos num caminhão de batatas e depois precisamos reaver um objeto que foi junto por engano, como fiz em Frenesi. Em O Terceiro Tiro pude usar a chave do humor sinistro para me divertir um pouco com isso. 
 
BT – Em The Rope o cadáver fica praticamente ao alcance da mão de todas as possíveis testemunhas, durante o filme inteiro.
 
HITCHCOCK – Uma das vantagens da tomada em ação contínua, que usei nesse filme, é reproduzir a sensação material que temos numa peça de teatro, de sabermos que não houve nenhum intervalo de tempo, por menor que fosse, que lhes possibilitasse dar um fim do cadáver. Ele é uma presença obsessiva, material mas invisível, pesando sobre o filme inteiro.


BT – Podemos dizer que o senhor leva a sério este problema.
 
HITCHCOCK – Faz parte da vida. É como no sexo, não acha? Depois que o indivíduo comete um crime ele está psicologicamente exausto, como se tivesse acabado de concluir um ato sexual. Tudo que ele quer é descansar. Mas... ele vê aquele corpo ali, ao lado, e precisa tomar uma providência a respeito. 
 
BT – O senhor tem de fato um humor muito peculiar.
 
HITCHCOCK – Sim, tenho consciência de que ao longo da vida fui um homem temido e admirado. Amado... raramente.




 
(Nota necessária: esta série de "Entrevistas Transcendentais" é composta por textos imaginários. Eu não entrevistei essas pessoas.) 

Augusto dos Anjos:

Philip K. Dick:

Agatha Christie:

Julio Cortázar:





quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

4893) Leituras 2022 - 2 (15.12.2022)




POLICIAL
“O Homem do Terno Marrom” (1924; L&PM Pocket, trad. Petrúcia Finkler) e “The Mousetrap” (1952), de Agatha Christie

Reler um livro depois de mais de cinquenta anos equivale a ler pela primeira vez. O Homem do Terno Marrom pertence a uma linha menos famosa na obra de Agatha Christie: aventuras movimentadas e com algum mistério criminal, cujos protagonistas são jovens. Os mais conhecidos são o casal Tommy & Tuppence Beresford (que aliás envelhece ao longo das décadas), mas neste romance há a aventura única de Anne Bedingfield, uma moça sozinha e expedita. Um crime que ela casualmente testemunha no metrô de Londres a envolve numa conspiração internacional cheia de peripécias, onde há um clima de aventura juvenil e até de comédia, mas os personagens morrem de verdade. Não darei spoiler de um detalhe importante, apenas direi que ele de certo modo prenuncia o clássico The Murder of Roger Ackroyd (1926). Agatha está visivelmente tentando transportar para a página escrita um pouco das emoções e da excitação de seriados de cinema como Os Perigos de Paulina (1914, com Pearl White). No texto (caps. 1 e 19) ela cita Os Perigos de Pamela – não sei se é outro seriado, ou apenas uma referência camuflada. 
 
Li o texto da peça The Mousetrap depois de ver o filme See How They Run (2022), de Tom George, uma comédia policial que transcorre no palco e nos bastidores da montagem desse texto. É a peça em cartaz há mais tempo no mundo inteiro; transcorre numa pousada num lugar remoto, isolada pela nevasca, com hóspedes que não se conhecem uns aos outros (ou talvez sim), e que têm, todos eles, episódios suspeitos no passado. De certo modo, é um ensaio para Ten Little Niggers ou And Then There Were None, um dos melhores romances da Dama do Crime. E para milhares de outras narrativas em que é essencial, acima de tudo, um ambiente fechado e isolado do mundo (numa montanha, numa ilha, num local com comunicações cortadas) onde crimes são praticados e resolvidos sem interferência do mundo externo. Para quem se interessar, aqui há uma filmagem completa da peça (câmera parada, no meio da platéia, plano único, mesmo ângulo; sem legendas):
https://www.youtube.com/watch?v=F_3ZSoRV7aE&t=552s&ab_channel=CraigJohnson
 


 
FANTÁSTICO
“The lost and the lurking” (1981), de Manly Wade Wellman

Um dos meus personagens preferidos no chamado “folk horror” é o cantador de viola Silver John, ou John The Balladeer, que viaja pelas montanhas dos EUA enfrentando seres sobrenaturais, feiticeiros, assombrações. Neste romance ele vai parar num vilarejo onde as pessoas parecem sujeitas a um encantamento coletivo, centrado num culto satânico cuja sede é a mansão de uma mulher que o próprio John confessa ser a mais bonita que ele já viu.
 
Wellman nasceu em Angola e passou boa parte da infância na África, o que o levou a criar um estilo de fantasia bem pessoal. Em geral seus contos são superiores aos romances, que dão a impressão de estar sendo “esticados”; mas o personagem é sempre fascinante, uma espécie de Woody Guthrie com traquejo pra enfrentar o sobrenatural. Silver John é um cara simples, do povo, mas daquele povo “com uma certa leitura” que me lembra muito o ambiente do cordel e da cantoria de viola no Nordeste. Assim como os sertanejos nordestinos leem o “Lunário Perpétuo” e eventualmente o “Verdadeiro Livro de São Cipriano”, os montanheses dos EUA têm algum conhecimento das obras de Cornélio Agripa ou Alberto Magno. Mergulhado na cultura folk local, Silver John é bom entendedor de amuletos, sinais cabalísticos, lugares com boa ou má energia, e toda a “sabedoria oculta” que a literatura fantástica usa como se fosse uma Ciência paralela (e que funcionasse). 
 




AUTORA CONTEMPORÂNEA
“O Lugar” (Ed. Fósforo, 1983, trad. Marília Garcia), e “La Honte (1997), de Annie Ernaux

Para que serve o Prêmio Nobel? Uma resposta possível: para leitores desinformados descobrirem uma autora com quem rapidamente se identificam. Annie Ernaux só não era totalmente anônima no Brasil porque a jovem Editora Fósforo (S. Paulo) já estava traduzindo e publicando seus livros fininhos, densos, aqueles livros onde em cada parágrafo cai uma ficha. São textos autobiográficos, mas em vez de circularem apenas em torno do umbigo afetivo de quem escreve, alargam-se na observação dos contextos, dos confrontos sociais, dos comportamentos padronizados que dão às sociedades conservadoras uma permanente ilusão de estabilidade até o próximo terremoto. 

“O Lugar” começa com a narração da morte do pai e da memória que ela guarda do pai, um camponês que se tornou operário de fábrica e depois pequeno comerciante. É a penosa e nem sempre bem sucedida ascensão social dos que sabem que por definição jamais deixarão de ser pobres, e que mesmo que um dia se tornem milionários carregarão a pobreza gravada na pele em caracteres indeléveis. 

“La Honte” (a Vergonha), um livro confessadamente mais doloroso de escrever, tenta reconstituir o dia em que o pai de Annie brigou com a esposa e tentou matá-la. “Meu pai tentou matar minha mãe” é um começo difícil para qualquer livro; embora depois o episódio tenha sido superficialmente superado, ele se espalha em constatações de inadequação social, ressentimentos, incompatibilidade de sonhos, tudo isto pesando na cabeça de uma garota de doze anos que “é a única da família a ter a chance de estudar numa boa escola” – onde, aliás, praticamente todos a tratam com desdém, por ser quem é e por vir de onde vem. Mais comentários aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2022/11/4884-vergonha-de-annie-ernaux-18112022.html
 


 
AUTORA NACIONAL
“Vestígios – Mortes nem um Pouco Naturais” (Bandeirola, 2018), de Sandra Abrano

O que chamamos de “romance policial” nem sempre (e às vezes quase nunca) se prende ao funcionamento da polícia e das atividades correlatas à investigação policial. A literatura em inglês tem o termo police procedural para designar os romances que mostram de forma verossímil os “procedimentos policiais” de investigação. Aqui, alguns poucos autores transitaram nesse terreno: José Louzeiro, Rubem Fonseca e outros.  Sandra Abrano avança com segurança, em Vestígios, por um terreno pouco explorado (talvez por estar cheio de minas subterrâneas): os procedimentos da polícia brasileira, principalmente das chamadas polícias secretas, no tempo da ditadura militar.

É um tipo de romance policial-político, onde o crime é visto como uma instituição coletiva. Não é o crime clássico, onde um indivíduo sozinho arquiteta e executa o delito. É o crime transformado em profissão legalizada e lucrativa, uma prática sabida e tolerada pelas autoridades, um “mal menor” com o qual muitas sociedades se conformam porque temem reprimi-lo e desencadear, assim, represálias imprevisíveis. O poder corrompe, e o poder não-fiscalizado corrompe absolutamente, ainda mais quando se tem a certeza da impunidade, e da cobertura de gente graúda. 

Sandra Abrano (“disclaimer”: a autora editou e edita livros meus pelo selo Bandeirola) aborda, numa narrativa de tragédias familiares e luta diária pela sobrevivência, o tema clássico da polícia criminosa, mostrando o que acontece com esses indivíduos quando algum surto democrático (como o que o Brasil experimentou a partir do final do século 20) desmantela seus grupos, organizações, folhas de pagamento, burocracias. Para onde vai esse pessoal? Raymond Chandler retratou a corrupção policial na Califórnia e recebia cartas dizendo: “eu conheço todos esses homens que o senhor descreve”. De certa forma, todos nós os conhecemos.





CLÁSSICOS
“Os Refugiados” (1893), de Conan Doyle (Melhoramentos, trad. Agenor Soares de Moura)

Um dos melhores romances históricos de Doyle, e um dos seus típicos livros com duas partes muito diferentes entre si. Na primeira, o oficial De Catinat, na corte de Luís XIV, sofre perseguições por ser huguenote (protestante) e se envolve nas intrigas da corte. Quando o rei promulga o Édito de Fontainebleau, que joga os huguenotes na ilegalidade, ele foge com a família num navio que vai para a América. Chegando lá, as perseguições continuam, e eles acabam tendo que atravessar uma parte selvagem do continente, perseguidos pelos índios. Doyle era um pesquisador dedicado, e algumas das suas fontes surgem como coadjuvantes na história, que é de ação constante, com ótimos personagens, diálogos vívidos. Há cenas notáveis, como a do despertar matinal do rei (que chega a ser cômica, pela pompa envolvida) e no final o cerco dos índios à casa onde De Catinat está refugiado. 
 
Li esse livro quando era garoto e reli agora com o mesmo prazer. É enorme o contraste de ambientes entre a primeira parte (a corte do Rei Sol) e a última (a selva da imprecisa fronteira, na época, entre o que hoje são o Canadá e os EUA). Há uma parte intermediária, a viagem de navio, que serve de ponte entre as duas e é também cheia de lances mirabolantes, conspirações, tentativas de morte, fugas, perseguições.  Doyle tinha faro para história de aventuras, e no cânone de Sherlock Holmes há blocos narrativos impecáveis, como a violência na colônia mórmon em Um Estudo em Vermelho, os conflitos no sindicato dos mineiros em O Vale do Terror, ou a perseguição final de barcos no Tâmisa em O Signo dos Quatro. Para falar em linguagem de hoje, The Refugees daria uma série de TV com duas ótimas temporadas de cinco ou seis episódios.
 
 (continua)
 
Primeira parte:





segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

4892) Leituras 2022 - 1 (12.12.2022)



Não costumo fazer listas de “dez melhores”, mas sempre gosto de dar um balanço, no fim do ano, de alguns livros que li e que por variadas razões não comentei aqui no blog. Quisera eu ser daqueles sujeitos organizados que “ficham” cada livro que leem, redigindo pelo menos meia página de observações. Não é o meu caso. Estas anotações, porém, podem servir como dicas de leitura, ou para que o leitor compare com suas próprias impressões.

FICÇÃO CIENTÍFICA

“Picnic on Paradise” (1968), de Joanna Russ

É um dos livros pioneiros das super-heroínas da FC. Alyx é uma agente transtemporal que logo na primeira página dá uma chave-de-perna num policial com o dobro de sua altura e do seu peso, estatelando-o no chão. Ela está ali para servir de guia a um grupo heterogêneo de turistas num planeta gelado e inóspito. Os turistas são todos riquinhos e reclamam de tudo. O passeio se envolve com uma guerra e vira um pesadelo. Morre gente (de verdade). Começa como uma HQ descolada e aventurosa, vai ganhando contornos dark à medida que os conflitos pegam fogo. A prosa de Russ é rápida, incisiva. Em 1968 ela já estava desconstruindo clichês que muita gente considerou novidade no ano passado.

 


AUTOR NACIONAL

“Gótico Nordestino” (2022), de Cristhiano Aguiar

Um dos livros mais premiados do ano, e com justiça, pois são contos imaginativos, escritos numa prosa segura. Numa resenha que fiz para a revista 451, comentei o fato de que a nordestinidade das histórias se dá de modo mais sutil do que o aparecimento dos famigerados “elementos típicos”. Cristhiano retoma alguns temas do horror clássico, mas evita fazer aquela série infindável de referências que muitos autores colocam como piscadelas-de-olho para os leitores-fãs, mostrando que leram os mesmos livros e conhecem as mesmas histórias.

Leia mais aqui: https://www.quatrocincoum.com.br/br/resenhas/literatura-brasileira/o-terror-vem-da-alma

 


HISTÓRIA

“Memória da Cidade do Rio de Janeiro” (1955), de Vivaldo Coaracy

Acho fascinantes as descrições e as anedotas sobre a vida no Rio no tempo da Colônia, do Império... Vivaldo Coaracy (que também se assinava “V. Cy.”) tem uma prosa saborosamente antiquada, dá a impressão daqueles intelectuais de casaca e pince-nez, muito cultos, muito refinados. A gente se perde às vezes na geografia das ruas e dos logradouros porque o “presente” do livro é 1955, e de lá para cá o Rio já trocou de pele várias vezes. É um livro que pretendo reler, porque não apenas nos revive o fascínio dos tempos passados como nos consola um pouco da tristeza de ver a cidade sendo destruída e recriada – ela sempre foi assim.

 


HISTÓRIAS DE FANTASMAS

“The Book of Dreams and Ghosts” (1897), de Andrew Lang

Este livro é um clássico da “historiografia fantasmagórica”; li numa reedição de 1974. Andrew Lang foi uma figura onipresente da Inglaterra vitoriana e sherlockiana. Era um daqueles intelectuais meticulosos e cultos, fascinado por pesquisas; escreveu e editou uma quantidade impressionante de livros. Foi membro da Folk-Lore Society, num tempo em que o conceito de “folclore” estava sendo criado (a palavra surgiu em 1846), e compilou uma importante coleção de contos de fadas, em nada menos que 25 volumes (1889-1913), a qual teve uma enorme influência na literatura inglesa. Como membro (e até presidente) da Society for Psychical Research, interessou-se profundamente pelas aparições de fantasmas – e compilou este livro, onde registra e comenta dezenas de casos de aparições, com um certo distanciamento e bom-humor, deixando sempre claro quando não acha nenhuma explicação “racional” para o ocorrido.

 


MEMÓRIAS

“Solo de Clarineta, 1 e 2” (1973, 1976), de Erico Verissimo

Érico, um escritor que sempre (re)lerei com prazer, escreve suas memórias à maneira convencional, atendo-se aos fatos, comentando-os, buscando a sinceridade e a veracidade. Estes livros são um complemento ideal para dois outros, que li na adolescência, sobre suas viagens aos EUA: Gato Preto em Campo de Neve (1941) e A Volta do Gato Preto (1946), e que recomendo sem reservas.

Eu não sabia nada de sua história familiar, e Solo de Clarineta dá uma série de retratos magníficos daqueles gaúchos épicos e sombrios, aquelas famílias introspectivas e ruidosas, aqueles homenzarrões encapotados que se metem em enrascadas homéricas. Talvez esta parte, que cobre mais da metade do primeiro volume, seja a mais reveladora e mais “literária”, porque puxa muito pela imaginação do menino, pelas conversas entreouvidas e semi-recordadas. É o princípio da recriação mítica dos antepassados que todos nós realizamos, querendo ou não.

Mais comentários aqui:

https://mundofantasmo.blogspot.com/2022/10/4873-paisagem-perturbada-15102022.html



“Um Cavalheiro da Segunda Decadência” (1966-72), de Hermilo Borba Filho

Já o pernambucano Hermilo romanceia sua própria vida, exagerando, delirando; suas memórias têm longas passagens surrealistas e episódios claramente inventados. Um Cavalheiro... é uma tetralogia, escrita num jorro inesgotável de prosa brilhante, caótica, sarcástica, auto-depreciativa, idealista, erótica. Margem das Lembranças (1966) conta a infância em Palmares e a iniciação etílica e sexual do menino “Borba”. A Porteira do Mundo (1967) mostra o jovem Borba no Recife, estudos e trabalhos caóticos, leituras, primeiros escritos, primeiras aventuras teatrais, primeira prisão política na ditadura Vargas. O Cavalo da Noite (1968) mostra Borba em São Paulo, como roteirista de cinema, redator de revista chique, publicitário, envolvendo-se com a burguesia paulista. Deus no Pasto (1972) o mostra de volta ao Recife, trabalhando para o governo de Miguel Arraes e indo parar de novo na cadeia, no golpe de 1964. Hermilo escreve no estilo roman à clef, alterando o nome dos personagens e das entidades (Ariano Suassuna é “Adriano”; Arraes é “Árias”; a revista Visão vira Mirante; etc.). Isto lhe dá liberdade para dizer o que bem quer, e não é pouco.

 


FICÇÃO CIENTÍFICA

“Secret Passages” (1997), de Paul Preuss

Este romance pode ser lido independentemente da aventura anterior do cientista Paul Slater: há um pequeno drama familiar que vem da primeira história, mas ocorre ao fundo, e é convenientemente explicado. O importante aqui é que Slater e sua esposa jornalista vêm a conhecer um físico grego que atrai os dois a Creta para lhes dar acesso a uma descoberta misteriosa. A parte mais substancial do livro é a vida deste grego, Minakis, que se tornou cientista depois que na infância serviu de guia, nas montanhas, aos arqueólogos que pesquisavam as ruínas minóicas de Creta.

O livro parte de uma trama arqueológica real (o arqueólogo John Pendlebury é um coadjuvante essencial na história) e atinge, em seu último terço, um breakthrough de Física que projeta a narrativa em plena ficção científica, além de fornecer uma resolução satisfatória à história de vida dos personagens. É uma experiência fascinante, porque cita-se muito a máxima de H. G. Wells de que basta uma grande idéia de FC para sustentar uma narrativa; a questão é que no livro de Paul Preuss essa idéia FC só se concretiza nas últimas 50 páginas. O leitor-fã, impaciente para reencontrar os tropos do gênero, talvez não espere tanto, mas o romance vale muito a pena.



AUTOR NACIONAL

“A procura de Chã dos Esquecidos” (Schoba, SP, 2013), de Carmelo Ribeiro

Um romance histórico, ou pseudo-histórico, ambientado na Paraíba de fins do século 18, quando a fome e o misticismo falavam no centro. A primeira parte reproduz as cartas trocadas entre o governador da capitania da Paraíba e o capitão-general de Pernambuco, seu superior. Já existe aí uma ironia sutil sobre a relação instável entre os dois atuais Estados, uma interdependência costurada com rivalidade.  O autor reconstitui nesse epistolário, com fluência e bom humor, o linguajar burocratês da época, tingido de ironia do século 21.  No final, a narrativa se projeta num fluxo de irrealidade cada vez maior, como nos filmes de Glauber Rocha onde o messianismo alucina as multidões, que se roem de fome e bradam aleluias, que seguem o primeiro maltrapilho capaz de orar em voz alta e de distribuir farinha de graça.

 

(continua)

 

 

 

 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

4891) O Gabinete de Curiosidades de Del Toro (9.12.2022)




Uma das boas séries recentes do Netflix é esta série-antologia produzida e co-escrita por Guillermo Del Toro, com oito episódios contando histórias de terror. Algumas histórias são inéditas, outras são contos clássicos de mestres do gênero.
 
Del Toro parece ter usado como premissa o retorno ao terror da pulp fiction de 80 anos atrás, pelo menos na maioria dos episódios. É o terror da revista Weird Tales, que praticamente cimentou algumas estruturas do gênero. Duas adaptações de H. P. Lovrecraft são de contos originalmente publicados na revista, em 1927 (“O Modelo de Pickman”) e 1933 (“Os Sonhos na Casa da Bruxa”). Outro conto arrepiante, de Henry Kuttner, saiu na WT em 1936 (“Os Ratos do Cemitério”). São histórias “de época” inclusive na ambientação.


As outras histórias são de autores contemporâneos, ambientadas em épocas mais recentes, mas sempre exibindo um visual (cenografia, figurino, objetos de cena, carros) que remete a décadas passadas. O episódio 8, “O Murmúrio” mostra um casal de ornitólogos registrando os hábitos de aves numa ilha distante, com gravadores e câmeras de filmar de modelos “vintage” que não passarão despercebidos a quem já os manuseou. 
 
A premissa da série é mais interessante do que seu resultado final, que a despeito das muitas coisas bem feitas não traz nada de novo além do habitual “um pouco mais daquilo mesmo”, que é o cardápio da maioria das séries de TV. 
 
Para ser sincero, a coisa que mais admirei na série inteira foi o”gabinete” exibido pelo diretor-produtor na apresentação de cada episódio: um daqueles prodígios de marcenaria e mecânica, típico do século 18, um móvel enorme cheio de gavetas visíveis, gavetas secretas, painéis deslizantes, fundos falsos, dobradiças embutidas, placas rotativas... 



Fiz um paralelo visual desse móvel com a ambientação do primeiro episódio, “Lote 36”. Trata-se de um daqueles enormes complexos de boxes de depósito, onde a pessoa aluga um box e guarda ali o que bem entender. Um homem compra num leilão, “no escuro”, o conteúdo de um box cujo dono faleceu, e encontra ali alguns livros de magia negra. A câmera explora os intermináveis corredores daquela estrutura que parece um mercado municipal, com boxes, boxes e mais boxes trancados – o que nos dá a impressão de que por trás de cada uma daquelas portas metálicas escondem-se segredos tão tenebrosos quanto os que foram descobertos pelo personagem de Tim Blake Nelson. 
 
A literatura popular se assemelha a isso, um corredor com mil portas todas iguais, mas cada uma delas com a promessa de algo diferente. Promessa que nem sempre se cumpre.
 
Uma coisa que me desagrada nessas séries é a fascinação de todos pelo “gore”, pela exibição fascinada e compulsória de ferimentos, mutilações, torturas físicas, violência sádica. Não é novidade alguma no gênero – mas os efeitos visuais contemporâneos são capazes de dar um realismo nauseante a isto, como se vê no episódio “A Autópsia”, baseado numa noveleta de Michael Shea (Prêmio Hugo, 1981). Há um verdadeiro deleite na apresentação da mutilação física; uma pornografia da violência – o que leva muitos críticos acadêmicos a ver na literatura de horror uma obsessão com o ódio ao corpo humano, o nojo ao corpo, o medo do corpo humano. 


O episódio 4, “The Outside”, tem uma premissa mais interessante: a transformação gradual de uma mulher feíssima numa perua empoderada, uma espécie de Cinderela ao contrário, porque a personagem paga um preço alto (a monstruosidade, a loucura, o crime) para se transformar numa beldade à altura de suas colegas de trabalho. O episódio tem ecos de The Stepford Wives, ao lidar com a desumanização brutal que acompanha esse processo de “ficar a esposa ideal” (mesmo, no presente caso, a contragosto do marido bobão mas sincero).
 
O episódio 7, “The Viewing”, é também ambientado num cenário contemporâneo, e mostra um sujeito riquíssimo que traz para sua mansão surrealista um grupo de artistas para conhecer uma raridade de sua coleção – um meteorito misterioso. Todo o episódio é caricatural, exagerado; os efeitos especiais são às vezes meio toscos. O total oscila entre um filme que se leva a sério e uma sátira ao horror, mas de tal modo que acaba parecendo uma sátira involuntária. 
 
Del Toro é um artista meticuloso, com uma imaginação visual notável, e um faro excelente para narrativas insólitas. Eu compararia o resultado final desta série com outro filme recente dele, Nightmare Alley (2021), com Bradley Cooper e Cate Blanchett. É um filme tecnicamente impecável, brilhante, perfeccionista em todos os detalhes; mas acaba sendo em muitos aspectos inferior ao filme em que se baseia, dirigido por Edmund Goulding em 1947, com Tyrone Power. (Há versão integral no YouTube.) 


 
Por que é inferior? Talvez por isso mesmo, por ser bem feito demais, quando está penetrando num terreno onde o excesso de brilhantismo estético dilui o drama e impõe um distanciamento. Tudo é muito nítido, num território onde convém deixar uma margem ao que é indistinto, nebuloso, pouco claro. Tudo é muito limpo, numa narrativa onde seria preciso deixar presente “a vida como ela é”, com suas sujeiras e imperfeições. Os atores são tão bons que o tempo todo vemos que são eles que estão ali, e não os personagens que interpretam. (A personagem de Cate Blanchett, aliás uma das atrizes de que mais gosto, é muito mais forte no filme original.) 
 
Vou pegar carona num conceito de Marshall MacLuhan que sempre me pareceu uma avaliação correta dos meios de comunicação visual. MacLuhan dizia que quando vemos um filme excepcionalmente nítido e claro, tudo nos é dado “de bandeja” e não fazemos outra coisa senão receber passivamente a informação perfeita que nos é oferecida. Mas quando vamos assistir, por exemplo, uma transmissão na velha TV em preto-e-branco, com sua imagem pulverizada em pontos claros e escuros, temos dificuldade em interpretar a sucessão de imagens e isso ativa muito mais fortemente nosso cérebro, nossa capacidade intelectual de perceber, decodificar e assimilar. 
 
Um meio “quente”, ou de alta definição (o cinema digital) nos dá tudo pronto e mastigado. Um meio “frio”, ou de baixa definição (a televisão P&B) nos dá uma informação limitada que exige nossa participação mental ativa, constante. 
 
Uma coisa é melhor que a outra? Não necessariamente. A gente usa o que precisa naquela hora. Mas esse filme de Del Toro deixa o espectador num território sem ambiguidade, sem mistério. Limitamo-nos a ver e registrar aquilo que é mostrado com riqueza de detalhes e em alta definição.
 
Não há dúvida de que em vários momentos esse perfeccionismo traz um upgrade para a história. Na série do Gabinete, a informação visual envolvendo contos que li há tempos, como os de Lovecraft e Kuttner, enriqueceu minha visão deles (nossas visualizações pessoais de contos raramente se parecem com as adaptações que vemos depois no cinema). Talvez este seja, no entanto um lucro magro para uma despesa tão elevada, e para uma arregimentação tão grande de talentos.
 
O cinema de hoje, com esta espantosa evolução da imagem e do som digitalizados, infinitamente passíveis de aperfeiçoamento, corre o risco de se transformar em algo como aqueles discos onde a qualidade técnica da gravação é espantosa, mas a banda de rock ou o pianista clássico tocam como robôs, sem um pingo de tensão emotiva que nos faça ansiar pela próxima frase musical.
 
O Gabinete de Curiosidades é – vou mandar aqui uma comparação que certamente dezenas de colegas já fizeram na imprensa mundo afora – como o móvel que Del Toro nos mostra na abertura de cada episódio: uma pequena maravilha de mecânica e de design, mas com pouca coisa dentro de suas gavetas.