quarta-feira, 13 de maio de 2020

4579) A palavra Kodak (13.5.2020)




Alguns anos atrás, ao traduzir para o selo Alfaguara o clássico de H. G. Wells A Máquina do Tempo, tive um susto a certa altura.

O livro é de 1895, e supõe-se em princípio que é mais ou menos nessa época que o Viajante no Tempo inicia o seu trajeto rumo ao futuro, onde chega primeiro ao ano 802.701 e depois faz uma breve incursão a um remotíssimo futuro, onde tem o vislumbre, durante alguns minutos, da agonia do nosso Sol e do nosso planeta.

Quando está ainda no primeiro trecho da viagem (cap. 6), ele se mistura aos simpáticos Elois, a raça de rapazes e moças meio inocentes que vivem na superfície, por entre as ruínas.  A certa altura, descobre um poço vertical e desce por ali, cheio de curiosidade. Vai parar no mundo subterrâneo dos Morlocks, as criaturas monstruosas que movimentam máquinas incompreensíveis e gigantescas. E o Viajante no Tempo comenta:

Desde então tenho pensado no quanto eu estava mal-equipado para uma experiência como aquela.  Quando parti na Máquina do Tempo, foi com a noção absurda de que os homens do futuro estariam sem dúvida muito à nossa frente em todos os aspectos práticos.  Eu viera sem armas, sem remédios, sem nada para fumar – houve momentos em que o tabaco me fez uma falta angustiante – e até mesmo sem fósforos em quantidade suficiente.  Se pelo menos eu tivesse me lembrado de trazer uma Kodak! Poderia ter registrado aquele vislumbre do Mundo Inferior em um segundo, para depois examiná-lo com calma.  Mas, do jeito que tudo ocorreu, vi-me ali provido apenas das armas e dos poderes com que a Natureza me dotara: mãos, pés, e dentes; e quatro palitos de fósforo, que eram tudo que me restava.


(The Time Machine, primeira edição, 1895)

Uma Kodak!  Dei um pulo diante de um anacronismo tão brutal. Certamente eu estava lendo uma versão espúria do romance (não era; era uma edição da Penguin britânica; mas eu já encontrei erros em edições assim). Felizmente havia uma nota explicativa garantindo que as primeiras câmeras portáteis Kodak tinham sido introduzidas no ano de 1890. A patente original norte-americana, de George Eastman, data de 1888.

Às vezes descobrimos uma menção a um detalhe que tem datação nítida – como nesse caso, uma invenção tecnológica – mas talvez seja uma das primeiras menções, quando aquilo ainda não se consagrara como um termo comum da linguagem cotidiana. Quais serão, na literatura brasileira antiga, as primeiras menções a “gilete”, “brahma”, e outras marcas que viraram substantivos comuns?

Quando na canção “Desafinado” (de Tom Jobim e Newton Mendonça) João Gilberto cantava “Fotografei você na minha Rolley-Flex...” não faltou certamente quem visse nisso um merchandising subliminar, com algum dinheiro escuso trocando de mãos por baixo do pano.

A Kodak, no tempo de H. G. Wells, já parecia ser algo suficientemente popularizado para que ele não se desse o trabalho de explicar que era uma máquina fotográfica. O nome e o contexto narrativo bastavam para não deixar dúvidas.

E depois, fazendo uma consulta casual noutro clássico, me vem este outro exemplo.


(Drácula, primeira edição, 1897)

É de 1897 a primeira publicação do Drácula de Bram Stoker, um clássico à altura do livro de Wells. Como se sabe, grande parte do livro consiste nas anotações do diário de Jonathan Harker, o bem intencionado agente imobiliário que sai de Londres para os confins da Transilvânia a fim de negociar a compra de imóveis londrinos por parte do conde.

Não indicarei página, porque as edições do livro são legião; é logo no começo do livro, na data de 7 de maio, quando o diário de Harker registra suas observações sobre a casa que encontrou, e que está tentando vender ao Conde Drácula:

Em Purfleet, numa estrada vicinal, acabei encontrando um local como o que procurava, e onde era visível uma placa muito estragada indicando que estava à venda. Era cercado por um muro alto, de estrutura muito antiga, construído com pesadas pedras, e há muitos anos não sofria reparos. Os portões fechados eram de carvalho e ferro, carcomidos pela ferrugem.

O local chama-se Carfax, sem dúvida uma corruptela da antiga expressão Quatre Faces, visto que a casa tem quatro fachadas, voltadas para os pontos cardeais. Inclui ao todo uns vinte acres de terreno, bem protegidos pelo muro de pedras que mencionei. Há muitas árvores, o que torna o local sinistro em alguns pontos, e há uma pequena lagoa escura, profunda, evidentemente alimentada por fontes subterrâneas, porque a água é limpa e flui numa correnteza de bom tamanho. A casa é muito grande e data de diferentes períodos do passado, eu diria que até os tempos medievais, porque uma parte dela é de pedras, com paredes imensamente grossas e janelas muito altas, com pesadas grades de ferro. Parece parte de um torreão, e fica próxima de uma antiga capela ou igreja. Não consegui entrar, porque não estava de posse da chave da porta que dá acesso a esta parte da casa; mas com a minha kodak tirei algumas vistas de várias direções. A casa foi acrescentada a essa estrutura em época posterior, mas de forma desorganizada, e posso apenas calcular por alto o terreno que abarca, e que parece bastante extenso. Há poucas outras casas nas redondezas, sendo uma delas um casarão de construção recente e que é usado como um asilo privado para lunáticos. Ela não é visível do terreno, porém.
(trad. BT)

O romance é contemporâneo do de Wells, mas aqui a Kodak também brota inesperadamente, só que em outro contexto: um contexto de passado, de decadência, de mistério gótico, que afinal é o clima do romance: o mistério gótico invadindo o coração do Império Britânico em seu apogeu. O termo “kodak” se destaca ainda mais, por efeito de contraste.

Na última década do século 19, a Kodak já fazia parte do vocabulário comum de escritores como H. G. Wells e Bram Stoker, a ponto deste último usar a palavra com inicial minúscula. Ou pelo menos está assim na cópia em PDF que baixei; na tradução que tenho (Tecnoprint, Edições de Ouro, 1960?, trad. David Jardim Júnior) o parágrafo está bastante enxugado, e a palavra “kodak” não aparece.


Procurando por aí ("Wikisource") achei novas menções da palavra em obras de língua inglesa, como The Cruise of the Snark (1911) de Jack London e Tante (1912) de Anne Douglas Sedgwick.

Essa familiaridade se estendia até o Brasil.

Em Minha Formação (1900), Joaquim Nabuco narra (no episódio “Massangana”, também já publicado de forma independente):

Muitas vezes tenho atravessado o oceano, mas, se quero lembrar-me dele, tenho sempre diante dos olhos, parada instantaneamente, a primeira vaga que se levantou diante de mim, verde e transparente como um banho de esmeralda, um dia que, atravessando por um extenso coqueiral atrás das palhoças dos jangadeiros, me achei à beira da praia e tive a revelação súbita, fulminante, da terra líquida e movente... Foi essa onda, fixada na placa mais sensível do meu Kodak infantil, que ficou sendo para mim o eterno cliché do mar.”


Este trecho é comentado por Flora Sussekind em Cinematógrafo das Letras (São Paulo: Companhia das Letras, 1987) onde ela esmiúça de variados ângulos as respostas literárias e paraliterárias dos escritores e intelectuais brasileiros diante nas novas tecnologias que brotavam e que se expandiam à sua volta: a fotografia, o cinema, o jornal ilustrado, o “reclame”, etc.

Nabuco (diz ela) recorre a imagens como “kodak” e “clichê” quando tenta descrever os processos de fixação mental da sua memória de criança. As novas tecnologias tornam-se novas metáforas do pensamento, porque de imediato reconhecemos nelas esses processos de percepção, enquadramento, registro, preservação, reprodução, acesso...

Não havia como não pensar numa Kodak ao se evocar o processo indelével das memórias afetivas. O caso é que, como sempre acontece na literatura, ninguém costumava se exprimir assim, mas quando um autor o faz pela primeira vez (ou pelo menos a primeira vez no interior de um público específico) o reconhecimento é instantâneo. A imagem já estava no subconsciente coletivo. O artista a evoca. O público reage: “sim, é exatamente assim.”

A técnica nos supre novas metáforas, novas maneiras de comparar processos que dominamos sem entender de todo, como é o caso da memória, da imaginação, do raciocínio, das emoções.

Infelizmente não guardei a fonte desta citação de John R. Searle, professor de filosofia, copiada de alguma revista, ou de algum saite da web (talvez o excelente “A Word A Day”, de Anu Garg):

Por não entendermos muito bem o modo como a mente humana funciona, somos tentados o tempo inteiro a compará-la com o tipo mais recente de tecnologia.  Na minha infância, sempre nos asseguravam que a mente era uma espécie de central telefônica – o que mais poderia ser, afinal?  Depois, descobri, divertido, que Sherrington, o grande neuro-cientista britânico, comparava a mente a um sistema telegráfico.  Freud a comparava com freqüência a sistemas hidráulicos e eletromagnéticos.  Leibnitz a comparava a um moinho, e agora, evidentemente, a metáfora é o computador digital.

Para Wells e para Bram Stoker a “Kodak” era um objeto utilitário, comum, já fazendo parte do seu cotidiano; no texto de Joaquim Nabuco, ela é metáfora da lembrança. Já está – eu diria – num grau ainda mais profundo de integração à vida do escritor.



P. S. - Em mais um exemplo anglófono, Rudyard Kipling usou o verbo "kodaking" em "The Village that voted the Earth was flat", na coletânea A Diversity of Creatures (1917). Segundo as notas a uma edição desse livro, o Oxford English Dictionary registra o uso deste verbo desde 1891.


















sábado, 9 de maio de 2020

4578) O bilaqueano Augusto dos Anjos (9.5.2020)




(Augusto e Olavo)

O aniversário de Augusto dos Anjos aconteceu algumas semanas atrás, e voltou à discussão o episódio, talvez verdadeiro, ocorrido com Olavo Bilac. Quando se noticiou a morte do poeta paraibano, em Leopoldina, a notícia repercutiu no Rio de Janeiro, onde Augusto tinha morado até pouco tempo atrás. No Rio ele lançara seu livro Eu, e tinha vários amigos e admiradores.

“Morreu o poeta Augusto dos Anjos”, disse alguém, talvez na porta de uma livraria na Rua do Ouvidor, ou na calçada da Confeitaria Colombo. “Quem é?”, perguntou Bilac. O interlocutor explicou e recitou um soneto de Augusto. Bilac, desdenhosamente, atirou longe a ponta do cigarro e comentou: “Não se perdeu grande coisa”.

A ponta de cigarro é por conta do meu cacoete ficcional, mas há vários relatos dessa atitude dismissiva do “Príncipe dos Poetas Brasileiros” em relação a um anônimo, cujos versos arrevesados Bilac certamente consideraria de mau-gosto. Os relatos divergem sobre o soneto que serviu de amostra. Uns falam no clássico “Versos Íntimos” (“Vês? Ninguém assistiu ao formidável enterro...”), outros falam de “Versos a um Coveiro” (“Numerar sepulturas e carneiros, reduzir carnes podres a algarismos...”)...

Não importa; seria mesmo difícil que Bilac, poeta de imenso talento mas cheio de arrebiques, “entendesse a proposta” de Augusto, que aliás, pouca gente da época entendeu.

A diferença entre os dois é principalmente que Bilac nunca leu Augusto, mas Augusto denota ter lido Bilac. E não havia como fugir a uma influência de um poeta que, nas suas décadas de maior brilho, tinha uma presença comparável à que Carlos Drummond veio a ter meio século depois.

Um dos repertórios poéticos de Bilac era a Fantasia Heróica, inspirada na Antiguidade Greco-Romana e na Idade Média. Castelos, imperadores, príncipes, espadas, estandartes, exércitos, elmos, escudos... tudo isso fazia parte do repertório de imagens do poeta de pince-nez e bigodes bem cultivados.

Muito bilaqueano este soneto “Vandalismo”, onde Augusto dá vazão a leituras que não diferiam muito das do príncipe:

Meu coração  tem catedrais imensas,
templos de priscas e longínquas datas,
onde um nume de amor, em serenatas,
canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
vertem lustrais  irradiações intensas
cintilações de lâmpadas suspensas
e as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais
entrei um dia nessas catedrais
e nesses templos claros e risonhos…

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
no desespero dos iconoclastas
quebrei a  imagem dos  meus próprios sonhos!


É um dos sonetos do Engenho Pau d’Arco, de 1904, e Bilac está todo aí, não somente na imageria medieval e templária, mas no tema tipicamente bilaqueano (e ainda tipicamente Romântico) do guerreiro derrotado no limiar das grandes conquistas, como o Fernão Dias de “O Caçador de Esmeraldas” (“Na terra que venceu há de cair vencido”). Sem falar no ritmo enumerativo (“e as ametistas e os florões e as pratas”), presentes o tempo todo em Bilac:

E a água verde do mar, e a água fresca dos rios,
e as ilhas de esmeralda, e o céu resplandecente,
e a cordilheira, e o vale, e os matagais sombrios...
(“A um violinista”, em Alma Inquieta)

É bem de Bilac essa listagem de elementos que contempla a um só tempo o olho e o ouvido; e qualquer poeta brasileiro da época seguia na mesma pisada.

Bilaqueano, também, este soneto que talvez não seja tipicamente Augusto na temática, “Vencedor”, mas o é na história afetiva de quem sempre o leu e o decorou:

Toma as espadas rútilas, guerreiro,
e à rutilância das espadas, toma
a adaga de aço, o gládio de aço, e doma
meu coração – estranho carniceiro!

Não podes?! Chama então presto o primeiro
e o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
nenhum pôde domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois um domador de hienas
e outro mais, e, por fim, veio um atleta,

vieram todos, por fim; ao todo, uns cem…
E não pôde domá-lo, enfim, ninguém,
que ninguém doma um coração de poeta!

A ambientação de Fantasia Heróica é toda de Bilac, que gostava de passear por Roma, Cartago, Alexandria, Atenas; não o são alguns pequenos tropeços que um parnasiano dificilmente deixaria passar, como a repetição do “por fim” nos tercetos – e tem esse “que” do verso final, que não sei por que me soa tão paraibano substituindo o “porque”, e que um parnasiano trocaria sem perda alguma por um simples “Pois ninguém doma...”.

Num outro artigo, de tempos atrás, comentei como os dois poetas, cada qual ao seu modo, glosava o tema da palavra que não consegue corresponder à grandeza da idéia, ou das emoções tão intensas que se quedam sem expressão:


Mas Bilac era capaz também (porque num certo ponto de vista o Parnasiano é um Romântico domesticado) de certas visões que não deixam de lembrar o romantismo “negro” ou “fúnebre” que também influenciou Augusto:

(...)
Uivam os ventos funerais medonhos...
Brilha o luar... As lápides se agitam...
E, sob a rama dos chorões tristonhos,
sonhos mortos de amor despertam e palpitam,
cadáveres de sonhos...
(“Campo Santo”, em Alma Inquieta, 1902)

Ou em “Pomba e chacal” (Sarças de Fogo, 1888):

Ó Natureza! Ó mãe piedosa e pura!
Ó cruel, implacável assassina!
Mão, que o veneno e o bálsamo propina
e aos sorrisos as lágrimas mistura!

Pois o berço, onde a boca pequenina
abre o infante a sorrir, é a miniatura
a vaga imagem de uma sepultura,
o gérmen vivo de uma atroz ruína? (...)

Não é somente o tema da morte a brotar de dentro da vida, que é augustiano; é até mesmo um detalhe de dicção, como esse “pois” que inicia o segundo quarteto, e que tanto lembra Augusto e seu estilo comparativo, demonstrativo de teses, espalhado por toda sua obra: “Pois é mister que para o amor sagrado...”.

Eram reinos poéticos cujas capitais ficavam distantes mas cujas fronteiras se interpenetravam.





quarta-feira, 6 de maio de 2020

4577) Ser professor (6.5.2020)




(BT aluno)

Teve um professor meu de Geografia que sempre trazia um mapa-múndi enorme, enrolado. Pendurava num prego grande que tinha por cima do quadro-negro (era aquele quadro de pedra verde, embutido na parede) e usava uma varinha para indicar as coisas que explicava.

Eu sentava na primeira fila, porque a distribuição dos alunos nas “carteiras” (era o nome das bancadas individuais onde a gente sentava e escrevia) era por ordem alfabética. E vi que ele sabia tudo, ou já tinha acostumado, porque ele dizia, por exemplo, “Liverpool é um grande centro portuário”, e tocava com a varinha num ponto, quase sem olhar. Depois eu levantava e ia ver de perto, e era exatamente ali.

Uma vez ele estava falando das alterações do Homem sobre o meio ambiente, falou dos canais, explicou a diferença entre o Canal da Mancha, que é uma passagem natural, e o Canal de Suez, que foi construído por Ferdinand de Lesseps. Falou do Canal do Panamá.  Aí disse:

– Para que serve o Canal do Panamá? – Olhou em redor, olhou para mim, e tocou na minha carteira com a varinha. – Você.

Eu fazia a linha tímido-metido, não dava uma palavra nunca, mas me sentia na obrigação de, em falando, botar pra quebrar.

– Serve para ligar o Oceano Atlântico e o Oceano Pacífico, que são os dois principais – respondi.

– Correto – disse ele. – Do ponto de vista geográfico. Mas por cima do ponto de vista geográfico, o ser humano impõe o ponto de vista geo-político, ou geo-econômico. As necessidades reais das populações humanas. – Ergueu a varinha, e demonstrou. – O Canal do Panamá acabou servindo como a via marítima mais curta entre a Costa Leste dos Estados Unidos – indicou com a varinha – e a Costa Oeste dos Estados Unidos. – Fez a varinha descrever um arco de círculo.

– É o imperialismo norte-americano – falou um esperto, da turma lá do fundo.

– Sim e não – disse ele, imperturbável. – Se fosse a União Soviética, fazia a mesma coisa. É a necessidade de manter uma máquina imensa funcionando, porque eles têm 250 milhões de bocas querendo comer três vezes por dia. Por que foi que Vasco da Gama descobriu o caminho para as Índias, arrodeando a África? – A varinha foi até a Península Ibérica, e desceu o trajeto beirando a África inteira e subindo até a Índia. – Porque antes existia um caminho mais curto por Terra, que era esse aqui. – Aí mostrou mais ou menos o tal caminho que passava por Istambul ou Constantinopla, que a maioria dos meus colegas pensava que eram duas cidades diferentes. – Mas a guerra fechou esse caminho terrestre.  Eles tiveram que descobrir outro, que acabou sendo mais comprido, mas quebrou o galho. O Panamá foi o contrário. Ele pegaram a peixeira e abriram uma passagem.

– Por que logo com o pobre do Panamá? – perguntou alguém.

– O Panamá era o trecho mais estreito do continente – disse ele. – Eles podiam tentar abrir através do Amazonas, mas só iam terminar no ano 3.000.

Tive outra professora de Geografia, essa eu lembro o nome, era Dona Elaine, que eu já conhecia porque trabalhava com meu pai, foi uma época em que ele era funcionário da Federação das Indústrias. Ela não usava mapa, não usava varinhas, nada de efeitos especiais. Era uma coroa de cabelo colorido, toda enfeitada, cheia dos anéis, dos colares. Sentava, olhava a turma, cruzava os dedos das mãos e começava a contar uma história. Usava muitos conceitos de economia que na época (eu teria uns 15 ou 16 anos) eu achava chatos. (Aliás, acho até hoje.)

Foi ela que deu uma prova, certa vez, que nunca esqueci. Chegou no dia marcado para a prova, organizou a turma, “você vai sentar aqui, vocês três aí vão ficar espalhados, essa menina fica aqui na fileira da frente, você vai pra ali...”  E todo mundo caladinho, obedecendo. Livros guardados. Caneta e papel na carteira, prontos.

Ela sentou-se, cruzou os dedos, olhou para a turma por cima dos óculos, e disse:

– Quesito Único: “Fale sobre agricultura”. Podem começar. Têm quarenta e cinco minutos.

Eu me virei como pude; preferia que ela tivesse dito “fale sobre as possibilidades de colonização da Lua”, mas enfim.


(BT professor)

Dez anos depois, o professor era eu. Barbudo, cabeludo, de óculos, dava aula de Inglês e de Educação Artística, no Colégio Alfredo Dantas (onde também estudei, dos 9 aos 12 anos). Era um tempo cheio de matérias abstrusas. Tinha Estudos de Problemas Brasileiros, tinha OSPB (Organização Social e Política do Brasil)...

Enfim – eu dava aula de Educação Artística, o que era ótimo, porque o pessoal do Colégio dava carta branca e eu falava de cinema, de poesia... Os alunos (turma mista) tinham 17, 18 anos, por aí.

Me lembro de ter passado uma aula inteira dissecando aquele poema dos galos, de João Cabral, que eu dizia: “Hoje vamos ver um poema de João Cabral de Melo Neto dedicado à torcida do Treze”, e eles vibravam.

Uma vez eu terminei de dar a matéria daquele dia. Parei ali, de pé. Olhei em torno.

– Quantos minutos faltam? – perguntei.

– Cinco – disse alguém.

– Faltou assunto, professor?... – perguntou uma bonitinha, jogando uma ironia.

– Como assim, faltou assunto?! – disse eu. – Vou dar cinco minutos de aula extra, e o assunto são vocês que escolhem. Bora, escolham aí. Astronomia, Poesia Concreta, História do Império Bizantino, Cirurgia Cardíaca, Mineralogia...

Eles riam com as minhas tiradas. Aí alguém gritou: “Mineralogia!”.

– Mineralogia – anunciei.

Fiz um fictício, fechei os olhos, pus as pontas dos dedos na testa, concentrei, e eles fizeram um silêncio que nem eu esperava.

Abri os olhos, estendi um braço, teatral.

– Os minerais!... – falei, em tom meditativo. – O que sabemos nós dos minerais?!  Nada. Eles nada nos dizem, eles não se manifestam, eles nos ignoram... Não são como os animais, que interagem conosco, tem necessidades iguais às nossas. Não são como os vegetais, que como nós têm o ciclo da vida. Os minerais vivem noutra escala do tempo. O que para nós são 100 mil anos, para eles é um segundo. O que são eles, então?! Talvez sejam deuses adormecidos, esperando o momento em que evoluirão para estátuas, caminharão por fim nesse planeta que será só seu...

Eu tinha lembrado um livrinho de bolso, “O Falso Planeta”, de Peter Randa.  Saí por ali enrolando, citei Augusto dos Anjos, que mesmo fora do tema sempre impressiona, e fiz um fecho qualquer, bem dramático. Eles vibraram, alguns bateram uma palmazinha.

Aí o eterno e infalível Engraçadinho da Turma dos Fundos perguntou com voz desdenhosa:

– Cai na prova?...

Eu parei, estendi o braço na direção dele como se fosse um rifle, dedo esticado, e disse:

– A prova é a vida, rapaz!  A prova é a vida!

E nesse instante o Roteirista do Mundo me deu uma colher de chá, e a sineta ressoou.










domingo, 3 de maio de 2020

4576) Modos de falar paraibanos (3.5.2020)




(grafite no Recife, Seth + Derlon)


Se for feita uma enquete entre pessoas sudestinas a respeito do modo de falar dos nordestinos, é quase certo que se concentraria no vocabulário “exótico”, o vocabulário com termos que “só no Nordeste se usa”, como oxente, arretado, gota serena, etc.

Para mim, como escritor, tão importante quanto isto, para caracterizar o Nordeste, são aquelas expressões comuns, com palavras comuns a todo o Brasil, usadas de maneira peculiar.

Já me ocorreu muitas vezes, ao revisar um livro meu para publicação, conversar com o(a) revisor(a) a respeito de certas frases; geralmente nos diálogos.

– Essa frase está esquisita, ninguém fala assim – diz o(a) revisor(a), que é carioca ou paulista.

– Lá em Campina Grande fala-se assim o tempo todo – digo eu. – Estou registrando para a posteridade do idioma.

– Sim, mas isso é lá em Campina Grande. O livro vai ser lido pelo leitor carioca (ou paulista).

– Ótimo. É uma boa chance para os leitores cariocas (paulistas) aprenderem uma coisa que não sabem.

Sei que não é uma conspiração deliberada, mas cariocas e paulistas fazem um esforço comovente no sentido de que se considere “universal” tudo que eles fazem, e o resto seja considerado meramente exótico. Por que? São conspiradores, são fumanchus, são ditadores orwellianos? Não, apenas isto: quem tem poder econômico impõe seu alfabeto, seu dicionário, sua moeda, suas leis, etc.  É assim que a banda toca.

Conheço nordestinos que se fossem chefes de Estado baixariam Medidas Provisórias obrigando todo mundo a usar o oxente, e considerando atentado à segurança nacional o emprego do chiado carioca e do érre paulista.

Mas, vamos lá.

Na desgraça
Em nordestinense, “na desgraça” não tem nada a ver com desgraças e catástrofes. Significa apenas: “na pior das hipíteses.” “Já que a gente não tem convite pra entrar na festa, vamos fazer o seguinte: a gente leva umas bebidas, e na desgraça a gente fica bebendo do lado de fora.”  “Se eu fosse o técnico, armava uma retranca bem grande; na desgraça a gente voltava de lá com um empate.”  A palavra desgraça entra aí como simples hipérbole melodramática.

Na doida
Às cegas, sem plano, sem saber direito o que está fazendo. De maneira atabalhoada, sem planejamento, sem intenção clara.  “Dei a maior sorte: respondi a prova inteirinha na doida, e ainda tirei um cinco.”  “Parece que o guarda atirou na doida, sem fazer pontaria, mas acabou acertando a perna dele.”  “Eu logo vi que esse projeto não ia ser aprovado, foi feito na doida, faltando uma semana pra fechar o prazo”.
Há uma brincadeira frequente: toda vez que alguém diz que fêz alguma coisa “na doida”, pergunta-se: “E o doido, deixou?”

Esquecido
Inválido; sem movimentos. “Essa mulher é uma que mora em frente à praça, ela é mãe de um menino que tem um braço esquecido”  “O ladrão entrou na casa na hora que a família foi pra missa, só tinha lá dentro o avô dela, que tem uma perna esquecida e não pôde fazer nada”. Acho um uso muito poético da palavra: “esquecido” no sentido de imóvel, sem ação, etc., como se a mente tivesse perdido o contato com aquela parte do corpo.

Antigo
Tem às vezes a conotação de experiente, vivido, esperto. “Ele veio com uma conversa de levar o menino pra dar um passeio, mas o menino é antigo, deu um grito e saiu correndo.”  “Não adianta inventar uma desculpa, mamãe é antiga, ela vai ver logo que tem coisa por trás.”

Pelas caridade
É meio que um equivalente a “Por caridade!” – um pedido de súplica, de alguém que implora. Só que, nessa grafia, e com uma pronúncia meio exagerada, é uma forma brincalhona de pedir algo encarecidamente, mas de maneira descontraída. “Fulano, me mande esse texto hoje de noite, pelas caridade, porque eu tenho ensaio às dez da manhã.”  Note-se que, como tantas vezes acontece na linguagem popular, o erro aparente é que dá o poder expressivo. Se disser “pelas caridades”, estraga tudo. (Atenção, revisão!)

Não tem xenhenhém nem meu-pé-tá-doendo
Isso se dizia tanto na minha casa que já não sei se pertence à linguagem de Campina Grande ou era o que a gente chama de dialeto intramuros, coisas que só naquela casa são ditas e entendidas. Tem o sentido aproximado de “não tem desculpa, não tem conversa, é isso e acabou-se”. “Você vai arrumar essa bagunça nesse quarto é hoje mesmo, não tem xenhenhém nem meu-pé-tá-doendo!...”

Chamando cachorro caixa
Todo mundo sabe que quando um indivíduo está muito bêbado a voz fica pastosa, engrolada, ele não consegue pronunciar as palavras por completo. Vem daí esta expressão para dizer que o cara estava muito bêbado, não era apenas “puxando fogo”. “Foi uma briga danada na volta, eu tive que tomar a chave do carro dele e eu mesmo trouxe, porque ele estava chamando cachorro caixa”.
Há alguns complementos também muito frequente: “Estava chamando cachorro caixa e Jesus Genésio”. “Ele ontem chegou em casa chamando urubu de meu-louro”.

Não tem nenhum que se diga:
Usa-se para reforçar uma qualidade qualquer de determinada coisa: "Eu vim aqui nesta loja procurar uma camisa, mas não tem nenhuma que se diga: 'Esta aqui serve'."  "Aquele homem tem seis filhos, mas não tem nenhum que se diga: 'Esse aí é honesto'."

Seguiu por um vasto campo
 era um deserto esquisito
 não havia um arvoredo
 que se dissesse: é bonito (...)

(Leandro Gomes de Barros, Estória do Reino da Pedra Fina, ou Moizaniel e Angeltrina)








quinta-feira, 30 de abril de 2020

4575) A ausência patológica do medo (30.4.2020)




(Jared Kushner e Ivanka Trump)


Anos atrás, numa reunião social, conversando sobre política (aquela conversa em torno de uma mesa com uísques e cervejas, onde a gente conhece apenas um terço dos participantes), alguém tocou no nome do ex-presidente Fernando Collor.

Houve a malhação-de-Judas habitual (claro – ele já tinha sido defenestrado do Poder), mas me chamou a atenção o depoimento de um dos presentes, que disse conhecê-lo pessoalmente.

– Collor é o exemplo típico do cara produzido para ocupar o poder: familia de políticos, bons colégios, boa formação, boa base cultural, boa oratória... Mas existe nele um traço que o diferencia do resto dos políticos. Ele tem o que na medicina, na psicologia, é chamada “Ausência Patológica do Medo”. É um traço quase de psicopatia, e não está necessariamente relacionada a mau-caratismo, crueldade, etc.  É simplesmente o sujeito que tem 100% de certeza a respeito de tudo que pensa, que diz e que faz. Torna-se um cara perigoso porque não lhe passa pela cabeça que alguma ação dele possa não dar certo.

E de fato, aquela imponência varonil de Collor, caminhando na rampa do Planalto com a empáfia e a autoridade de um granadeiro prussiano, sempre produziu uma impressão muito grande no povaréu. Naquela fervilhante campanha de 1989, quantas vezes em mesas de bar eu vi comentários do tipo “Esse aí é macho mesmo, com ele não tem nhém-nhém-nhém...”.

(Digressão: “nhém-nhém-nhém” era o equivalente a “mi-mi-mi” trinta anos atrás, e foi posto em circulação por Fernando Henrique Cardoso.)

Isto me veio à mente lendo um artigo de Michelle Goldberg no NYTimes, onde ela cita o livro-pesquisa de Andrea Bernstein sobre o trêfego Jared Kushner, o conhecido genro de Donald Trump. 

Kushner detém hoje em dia, nos EUA e por tabela no mundo, um poder inconcebível para gente como eu, que anda de ônibus e volta do “Extra” carregando sacolas. Valendo-se do inevitável “berço” e do previsível “altar” (casou com a filhinha do potentado), ele ganhou uma posição desproporcional na política do país, sem ter sido eleito sequer para vereador.

Diz Bernstein:

Os profissionais que têm lidado com Kushner afirmam que, não importa o que ele esteja fazendo, “ele acredita que pode fazer aquilo melhor do que qualquer outra pessoa, e tem uma confiança suprema em sua própria capacidade e seu próprio julgamento, mesmo quando não sabe do que está falando".

Isso bate com uma frase que a imprensa cita às vezes. Em 2006 Kushner comprou o jornal The New York Observer, e logo entrou em choque com o editor-em-chefe, Peter Kaplan, que produziu a divertida frase a seu respeito: “This guy doesn’t know what he doesn’t know”, algo como “Esse rapaz não sabe nem mesmo quais são as coisas que ele ignora”.

O mais interessante é que pessoas como Fernando Collor e Jared Kushner (e os milhões que eles representam, e que são iguaizinhos a eles) são o exemplo mais típico do que a gente chama de “meritocracia”, porque são de famílias ricas e poderosas, estudaram nos melhores colégios, devem ter tirado excelentes notas, e tudo o mais.

Quando isso coincide de acontecer num indivíduo que se acha predestinado, que foi criado ouvindo todo mundo dizer que ele é diferenciado, que ele pertence a um grupo de poder e deve “sonhar alto”, que ele é um vencedor, etc. e tal, é meio caminho andado para o cara se achar um super-homem.

E o problema fica ainda maior quando ele tem esse pequeno desvio psiquiátrico, a “Síndrome da Ausência Patológica do Medo”, que na linguagem das ruas a gente chama de “falta de simancol” ou “falta de desconfiômetro”, e os mais calejados tratam como “a certeza da impunidade”.












segunda-feira, 27 de abril de 2020

4574) Dicionário Aldebarã XX (27.4.2020)



(ilustração: Michael Whelan)

O planeta de Aldebarã-5 tem uma civilização influenciada pelos colonizadores terrestres.  Seu vocabulário exprime as características da natureza do planeta e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura.  Confiram os verbetes abaixo, recolhidos, meio ao acaso, do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso.


“Assambol”: sistema social de sorteios mediante o qual duas das pessoas inscritas têm que trocar de residência durante sete dias, cada uma delas indo dormir na casa da outra, conviver com a família da outra, exercer o trabalho ou outras funções que são desempenhadas pela outra. O processo é voluntário e encarado como uma oportunidade de enriquecimento da experiência pessoal, e geralmente resulta em amizades duradouras.

“Carrebing”: pessoa com temperamento entre egoísta e ansioso, que a faz ficar de pé diante de um palco prejudicando a visão dos que estão sentados, furar filas sob o pretexto de que está apenas pedindo uma informação no guichê mas sempre dando um jeito de ser atendida naquele momento, segurando aberta a porta do elevador para esperar outra pessoa que vai descer com ela mas está longe de estar pronta, e assim por diante.

“Sodibo”: praças e estações constantemente cobertas de decoração festiva (bandeirolas, luzes, etc.) para dar aos visitantes que passem por aquela cidade a impressão de que ela está em festa, e assim convencê-los a ficar; quando eles se informarem melhor, ouvirão dizer que a festa “foi na semana passada” mas em breve haverá outra, e com isto a circulação de viajantes é sempre grande.

“Sellchinork”: o ritual de, ao acordar pela manhã, permanecer de olhos fechados rememorando o que foi sonhado durante a noite, e anotar as partes mais significativas antes da primeira refeição do dia.

“Jorrops”: pequenas bolsas pregadas à parte de trás dos assentos dos transportes públicos, contendo livrinhos de natureza variada para serem lidos pelos passageiros durante a viagem; quem quiser levar um, deixa outro.

“Torinid”: lanche popular que consiste em espetinhos de bolas de carne tipo almôndegas, enfiadas uma a uma, cada qual com sabor diferente: apimentado, doce, empanado, guisado, com legumes, etc.

“Coniara-Tere”: período na adolescência em que o rapaz ou a moça tem que passar um mês inteiro na casa de uma família, ajudando nos trabalhos dentro e fora de casa, convivendo, estudando; ao fim de cada mês, a família decide para que casa ele(a) deverá seguir para avançar no seu aprendizado.

“Dossodip”: diz-se de certos trejeitos físicos ou cacoetes verbais que uma pessoa tem mas não se dá conta, mas as pessoas que convivem com ela se acostumam a perceber e com isso deduzir suas reações de desagrado, surpresa, interesse, etc.

“Tulunfass”: instrumento musical que consiste num pote de barro grande, arredondado, cheio de água até certo ponto, com penduricalhos metálicos que se agitam a produzem reverberações quando o exterior do pote é percutido com as mãos nuas ou com baquetas forradas de lã.

“Mariuk-dan”: o costume de, antes do sepultamento de uma pessoa, cada parente ou amigo se dirigir para a sepultura antes de ser fechada e colocar ali algum pequeno objeto (ou uma réplica dele) simbolizando o laço que o ligava à pessoa falecida.

“Edjiume”: pequenos suportes, geralmente de louça ou de metal, que se coloca sobre a mesa e nos quais pode-se prender um livro aberto. Servem para liberar as mãos das pessoas que gostam de ler enquanto fazem um lanche.

“Kam-Unin”: objetos, ou pequenas coleções de objetos, cuidadosamente acondicionados, que os pedreiros costumam inserir entre os tijolos, entre as telhas ou sob o piso de uma casa, durante a construção, e que servem como pequenas cápsulas-do-tempo (sempre têm a data gravada) para serem descobertas e apreciadas num dia futuro.












sexta-feira, 24 de abril de 2020

4573) Minhas canções: "Alicerce da Terra" (24.4.2020)





Por volta de 1982 eu passei uns meses no Rio de Janeiro, nas casas de meus amigos, antes de me mudar em definitivo. Numa destas eu estava no apartamento em que Mestre Fuba morava em Ipanema – como o pai dele vinha ao Rio com frequência, a trabalho, era cômodo manter um apartamento pequeno, onde o filho morava e ele se instalava quando vinha.

O filho hospedava também outros trovadores errantes, como era o meu caso, e numa destas resolvemos fazer um show coletivo. Juntamos uma turma de cinco: Fuba, Pedro Osmar, Jarbas Mariz, Paulo Machado e eu. Era a época das “coletivas musicais”, aquelas noitadas longas em que uma longa fila de cantores-compositores se sucedia no palco.

Começamos a ensaiar o show, que foi marcado para um espaço na Universidade Santa Úrsula, em Botafogo. Pedro Osmar, o líder do grupo Jaguaribe Carne, de João Pessoa (de onde surgiram, entre outros, Chico César e Totonho) era o dínamo propulsor dessa atividade toda. Para mim, “fazer um show” significava apenas comparecer no dia e cantar algumas músicas escolhidas na hora, mas Pedro tinha outra concepção. Era preciso organizar, viabilizar, produzir, divulgar...

Discutíamos muito sobre o nome do show e numa tarde, depois de uma sessão especialmente acalorada, Pedro Osmar se levantou e disse: “Amanhã a gente se encontra de novo e não é possível que ninguém tenha um nome bom!”. Eu respondi, com a modéstia habitual: “Pedro, vá tranquilo, que amanhã eu vou lhe dar trinta nomes possíveis para esse show.”.

De noite botei o papel na máquina (havia uma máquina de escrever portátil no apartamento) e fiquei tomando cerveja e inventando títulos, terapia de descontração mental que aconselho a todo mundo. Quando estava com 29, deu um branco, e o último não vinha de jeito nenhum. E aí coloquei, só de zoação: “E se alguém encostasse o Brasil na parede e pedisse pra ver os documentos?”.

Não deu outra: o nome do show foi esse, e saiu em todos os jornais.


(À frente: Pedro Osmar. Atrás, da esquerda para a direita: BT, Fuba, Paulo Machado e Jarbas Mariz)

É dessa época uma canção que acabou não sendo cantada no show, por ser muito nova. Lá no apartamento iam de vez em quando nossos amigos riograndenses-do-norte, da banda Flor de Cactus (não confundir com a banda homônima recifense, do começo da carreira de Lenine): Babal Galvão, Chico Guedes, Mingo Araújo, Cláuton “Neguinho” e outros, inclusive o paraibano Alex Madureira, que tocou com eles durante algum tempo.

Eles estavam se preparando para gravar um LP, seu segundo disco de carreira (o primeiro foi Pepitas de Fogo, 1981) e primeiro pela gravadora RCA. 

Esta minha letra, musicada por Babal, acabou sendo a faixa de abertura, e dando nome ao disco.

É um galope-beira-mar, estilo clássico dos cantadores, com uma variante que eu introduzi, repetindo as duas últimas linhas em cada estrofe, como se glosasse um mote. (Os cantadores nunca usam galope beira-mar para glosar mote.)


  
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YouTube (gravação original Flor de Cactus):

ALICERCE DA TERRA
Babal / Braulio Tavares

Meu canto é quem guia o impulso da onda
e faz o oceano emitir seu marulho
meu canto supera do mar o barulho
e faz com que a tempestade se esconda...
Meu canto é que exige que o mar lhe responda
e chama a tormenta pra lhe acompanhar
no dia que emudecer meu cantar
a própria garganta das águas se emperra...
E eu faço tremer o alicerce da terra
cantando galope na beira do mar

O vento passando através duma mata
arranca das árvores suas folhagens
a força de um rio contido entre margens
liberta-se quando ele cai em cascata.
Toda natureza tem a força exata
que leva o mundo a se transformar
nenhum ser vivente consegue escapar
à lei natural que governa e não erra...
E eu faço tremer o alicerce da terra
cantando galope na beira do mar

Se um dia você passeando na praia
ouvir um concerto solene e profundo
como se houvesse no ventre do mundo
uma orquestra que lá se oculta e ensaia,
você feche os olhos, se benza e caia
de joelhos na areia e comece a rezar,
pois quando essa voz principia a soar
nos céus e no inferno um portão se descerra...
Sou eu abalando o alicerce da terra
cantando galope na beira do mar

O mar é um cofre de imensos segredos
naufrágios, tormentas, batalhas e dores
desastres, mistérios, miragens, terrores
sepulcros, cavernas, abismos e medos...
A terra é uma arena de tristes degredos
miséria, doença, infortúnio e penar
maldade, violência, tortura e azar
cobiça, traição, assassínios e guerra...
E eu faço tremer o alicerce da terra
cantando galope na beira do mar





 ( Banda Flor de Cactus )


terça-feira, 21 de abril de 2020

4572) Meu curso de Natação (21.4.2020)





Fiz um curso intensivo de natação, num centro cultural que tem aqui entre Ipanema e o Leblon. Nem estava muito interessado, mas um amigo meu fez um trabalho para eles e ganhou algumas bolsas para alunos. Me ofereceu uma, e lá fui eu, por mera curiosidade.

As aulas foram à noite, de segunda a sexta. Na primeira noite tivemos uma conferência massa, de um figurão cujo nome esqueço, mas foi até de terno e gravata. Ele falou sobre “A Origem da Água”, assunto que nunca tinha me despertado a curiosidade, mas só naquela hora vi como era fascinante.

Claro que ele não estava falando na origem física da água, que afinal sabemos ser o famoso H2O presente na Natureza, e sim a origem dessa relação lúdica que o ser humano tem com a água. A água, explicava ele, se constituía como universo fluido do prazer, e como desafio carinhoso ao movimento corporal. Citou Gaston Bachelard, citou Jean Baudrillard, e outros nomes que anotei para futura referência.

Na segunda noite veio outro professor, que nos explicou “Os Segredos do Movimento”. Se a primeira conferência tinha sido filosófica, esta segunda teve um perfil de natureza mais técnica. Abriu com um Power Point minucioso a respeito dos músculos dos braços e das pernas, falou sobre os impulsos elétricos que o cérebro envia aos músculos, etc.  Depois exibiu uma animação mostrando exemplos de movimentos coordenados de braço, perna e pescoço, com contra-exemplos do “que não se deve fazer”.



Aula muito intrutiva, eu inclusive não sabia que temos dois hemisférios no cérebro, e que cada uma dessas metades coordena a metade oposta do corpo!  A esquerda comanda a direita, e a direita comanda a esquerda.

A terceira aula tinha como título (ainda guardo o programa, muito bem impresso) “O Mito de Sísifo”, e eu cocei a cabeça sem saber como encaixar aquilo no tema proposto. Mas a professora (uma francesa, que falava muito bem o português, com sotaque encantador) deu um banho, sem trocadilho.


Porque o mais importante na natação, disse ela, é o objetivo a ser alcançado, e a concentração mental a ser desenvolvida: ela citava o mito de Sísifo (aquele cara que empurrava uma pedra para o alto de um morro e quando ia chegando lá em cima a pedra escapulia, toda vez) para ilustrar que certas atividades podem parecer insensatas quanto à sua finalidade, mas se descobrirmos sentido e prazer na atividade em si, o meio torna-se um fim e isso nos traz a paz interior.

Voltei para casa transformado; um novo homem. Eu sentia uma verdade íntima muito grande no olhar dela quando cruzava com o meu. Os olhos dela eram cinza-azulados com reflexos índigo, uma coisa impressionante.


Na quarta aula, demos uma geral na história da natação. O professor era um sujeito pequeno, troncudo, meticuloso, de bigodinho bem aparado, que usava uma vareta de metal telescopável para apontar os gráficos, as tabelas de nomes e de números.

Ele dividiu tudo em vários períodos, que copiei diligentemente, mas agora só lembro o Período Empírico, o Período Olímpico, o Período Pré-Científico, o Período Científico... Lembro do momento em que ele apoiou a ponta da vareta na palma da outra mão, empurrou-a para dentro do cabo e disse com ar ameaçador: “E precisamos nos preparar para o Período Pós-Científico”.


A quinta e última aula foi com outra professora, uma senhora sessentona, de óculos, muito bem vestida e com excelente didática. Foi uma abordagem, como direi? Uma abordagem de cunho pessoal. Via-se que era uma ex-atleta, uma pessoa que apesar da idade mantinha um ritmo regular de atividade física. Alguém cochichou no meio da turma que ela era famosa, tinha ganho medalhas não sei onde.

Nadar, demonstrou ela, produz em nós um estado alterado de consciência. Nenhuma outra atividade envolve de modo tão radical nosso corpo, nossa mente, nossos instintos mais básicos, porque quem nada está escapando à morte em cada segundo e está empenhando cem por cento do seu Ser nessa conquista. Andar é falar a própria língua, comentou ela; nadar é dominar uma língua estrangeira. Mas – e aqui ela erguia um dedo de unha bem manicurada – uma língua estrangeira que é também a nossa Ur-Linguagem, nosso idioma primordial, no oceano esférico da placenta.

No final houve a entrega dos certificados, e um breve coquetel, em que confraternizamos. Gostei muito da experiência, e na semana que vem já me inscrevi para o curso de “Reportagem Jornalística”.