sábado, 5 de dezembro de 2009

1403) As máquinas de feltro (12.9.2007)




O poeta Paulo Leminski criou o neologismo “inutensílio” para descrever coisas que não servem para nada, mas que, não obstante, têm algum significado para nós. 

Um poema é um bom exemplo, mas os inutensílios mais interessantes são certos objetos materiais que parecem a um passo da utilidade mas por alguma razão estarão sempre aquém dela. 

O rei dos inutensílios, para mim, é o francês Jacques Carelman, autor do livro Catálogo de Objetos Inviáveis, onde encontramos um martelo feito de vidro, um sacarrolhas em “Y” para extrair rolhas de duas garrafas ao mesmo tempo (não custa tentar!), um tabuleiro de xadrez esférico, um guarda-chuvas duplo em que o de cima evita que o de baixo se molhe, um aquário encimado por uma gaiola para guardar peixes-voadores... 

A imaginação, o bom humor e a meticulosidade de Carelman podem ser conferidos em seu saite: 

http://www.laboiteverte.fr/les-objets-introuvables-de-jacques-carelman/

Vi há pouco um objeto de feitura carelmânica que, se eu fosse rico, compraria para colocar na mesa de centro da minha sala: uma máquina-de-escrever modelo antigo, marca Underwood, totalmente tecida em feltro, tecla por tecla, martelinho por martelinho, em tamanho natural, tendo inclusive um rolo que pode ser girado e no qual pode ser inserida uma folha de papel. 

Uma coisa linda – só falta escrever! A autora é uma tal de Blueblythe, do Canadá, e o inutensílio pode ser visto em: http://www.craftster.org/forum/index.php?topic=187574.msg1966645;topicseen#msg1966645.

A Underwood me lembrou de imediato um dos mais famosos objetos surrealistas, criado por Méret Oppenheim: uma xícara, pires e colherinha de chá, feitos inteiramente de pelo de animal. 



Existe uma contradição tátil irresolvível entre a beleza do objeto e a impossibilidade (melhor dizendo: a impraticabilidade) de despejar líquido ali dentro. 

Os objetos de Blueblythe e de Oppenheim se baseiam numa contradição simples entre o objeto original e a textura (o material) em que são reproduzidos, que os inviabiliza. No caso de Carelman, o próprio objeto é alterado para sugerir novas funções, cada qual mais inviável do que a outra.

Nada é mais Obra de Arte do que isso. Nem a Mona Lisa, nem a Nona Sinfonia, nem a Divina Comédia. Porque todas essas obras grandiosas nos dão a sensação de que podem definir o que é a Beleza, ou de nos transportar para o reino do Espírito, ou de nos revelar a Mente de Deus. 

Elas nos iludem, porque a Arte não pode fazer isto. Nada pode. É apenas diante de uma xícara de pelo ou de uma máquina-de-escrever de feltro que sofremos o impacto brusco dessa contradição entre aparência e finalidade, que é a contradição de toda obra de arte e de toda criação humana. 

Por isso essas obras são “objetos inquietantes”, como diziam os surrealistas. Vista num momento de angústia e de crise, uma máquina Underwood de feltro nos arrebata para o abismo da impossibilidade de sucesso da existência humana, e para a irrealidade do mundo e de nós mesmos.








1402) Que ira! (11.9.2007)



A feira de Campina Grande, virtualmente destruída pelos carros-bomba e pelos incêndios, foi cercada pelo Exército Ocupante, da Vila Nova da Rainha até a Avenida Canal, com muralhas anti-bomba de 3 metros de altura. O comércio está se recuperando, mas as pessoas preferem encomendar produtos do que ir à feira, com medo de ataques. Os carros de entrega têm que trocar de motorista ao atravessar cada bairro, para evitar que sejam assassinados pela minoria que domina a área. A boa notícia é que há eletricidade três ou quatro horas por dia.

O bairro da Prata está sob controle dos exércitos (local e Ocupante). O problema ainda são as bombas-armadilha colocadas no lixo e nos cadáveres, o que leva a população a deixá-los apodrecendo na rua. Zé Pinheiro foi até recentemente palco de carnificinas entre os dois exércitos e as milícias armadas. Agora, cercado por muros, viu a violência diminuir mas a população se sente prisioneira.

A situação não é melhor no Cabo Branco, outrora um bairro de elite, está há meses sem esgoto, sem coleta de lixo, e eletricidade, quando há, é apenas uma hora por dia. Manaíra está virtualmente arrasada pelos carros-bombas que há anos explodem ali à razão de um por semana, e o seu shopping foi reduzido a ruínas. O Miramar, depois de controlado por um dos exércitos étnicos locais, experimenta um breve período de paz: apenas um ou dois cadáveres aparecem nas ruas por semana, comparados com 30 ou 40 que surgiam no fim do ano passado. Os conflitos diminuíram graças ao virtual extermínio ou expulsão de todas as famílias pertencentes à minoria étnica rival.

E aí, caro leitor? Teve um espasmo de estranheza, um calafrio de presságio? O que está aí em cima é apenas um exercício de ficção-científica (pense 1984 de Orwell, ou pense Fahrenheit 451 de Bradbury & Truffaut) para tornar mais real, projetando-o no que nos é próximo, o que nos parece irrelevante porque acontece longe de nós. Resulta de uma visita que fiz domingo ao saite do New York Times, onde há um útil mapa interativo de Bagdá mostrando a situação atual em dezesseis bairros ou áreas da capital iraquiana. Ele mostra como o poder é exercido a mão armada pelos exércitos iraquiano e americano, que reprimem as milícias armadas xiitas e sunitas, e ainda têm que lidar com o terrorismo anônimo dos carros-bomba e dos morteiros.

O endereço completo é: http://www.nytimes.com/interactive/2007/09/06/world/middleeast/20070907_BUILDUP_MAIN_GRAPHIC.html#. Aconselho uma visita para que possamos todos acompanhar ao vivo a situação. Imaginem uma luta de boxe entre dois pesos-pesados, só que a luta degenerou em briga pessoal e os dois estão querendo bater no outro até matar. Só não o fizeram ainda porque o juiz, neste caso, é um cara do tamanho de Muhammad Ali e faz o que pode para mantê-los à distância. Na hora em que o juiz (o exército dos EUA), abandonar o ringue, a carnagem vai ser grande. E os detalhes não vão poder sair no New York Times.

1401) A verdade e o grotesco (9.9.2007)


(caricaturas - Leonardo da Vinci)

Toda caricatura é grotesca e meio ridícula, até a de uma pessoa linda, respeitável, querida por todos. Toda caricatura é uma exageração de características verdadeiras. Caricatura não inventa, não mente, não cria: apenas distorce, deforma, arreveza.

A MPB, descrita pelos partidários da axé-music, é tão grotesca quanto a axé-music descrita pelo partidários da MPB. Fazem-no com a facilidade de quem enxerga melhor o cisco no olho alheio do que a trave no seu próprio. Todo movimento cultural tem suas limitações, tem seus exageros, tem suas contradições, seja ele popular, erudito, de vanguarda, de indústria cultural, intelectualizado, popularesco, seja o que fôr. Quando gostamos, minimizamos esses defeitos e nos concentramos nas qualidades que nos atraem. Quando não gostamos, descartamos as qualidades e nos concentramos nos defeitos.

Distinguir as qualidades dos defeitos é um julgamento estético. Realçar e exagerar a importância daquelas ou destes é um julgamento político. A toda arte corresponde uma política, que é o conjunto de processos que faz com que essa arte seja produzida, criada, divulgada, discutida, consumida, estudada. O nome disso é Política Cultural, e começou no dia em que um troglodita ficou parado na porta da caverna, chamando os passantes para que entrassem e vissem o bisonte que ele desenhou.

O Armorial descrito pelos tropicalistas é tão caricato e grotesco quanto o Tropicalismo descrito pelos armorialistas. Não o fazem por mau-caratismo ou por calúnia; fazem-no porque disputam um espaço dentro da vida cultural, e precisam dar um chega-pra-lá um no outro. Não se deve dar muito crédito a essas descrições, porque são contaminadas do estranhamento natural de quem, por dever de fidelidade à própria fé, não pode ter excessiva simpatia para com a fé alheia. Além do mais, quem descreve assim sabe no íntimo que está exagerando, que está “pegando pesado”, que está sendo parcial e talvez injusto, mas, paciência – essas opiniões não são opiniões científicas nem filosóficas, são opiniões políticas. Não expressam a nossa Razão objetiva, mas a nossa Vontade subjetiva.

A ficção científica, quando descrita pelos partidários do realismo, é tão ridícula e burlesca quanto o realismo descrito pelos aficionados da FC. Cada um quer puxar o Brasil para sua sardinha, cada um quer afirmar suas qualidades contrapondo-as ao defeito simétrico do outro. Quem se vale da imaginação, critica a falta de imaginação do lado oposto. Quem se vale da verossimilhança, vice-versa.

Isto significa que não devemos dar ouvidos a ninguém, porque todos são preconceituosos contra os concorrentes? Nada disso. Oposição é sempre necessária. Ninguém é perfeito, a não ser nos próprios press-releases. Não podemos conhecer bem uma pessoa sem saber o que pensam dela os seus adversários – estou falando dos adversários, que falam dos seus defeitos reais, e não dos seus inimigos, os que inventam defeitos que ela não tem.

1400) Bin Laden está lá fora (8.9.2007)



Vi de passagem na banca de revistas a capa de uma Newsweek recente. Uma foto aérea magnífica, em preto-e-branco, granulada, mostrando do alto uma interminável cordilheira de montanhas abruptas que se sucedem em tamanho decrescente, como as vértebras de um monstro antediluviano cobertas por terra e matagal. E a legenda dizendo: “Ele Está Ali – a busca por Bin Laden continua”. É uma luta desigual e fascinante: o exército mais bem armado e de mais avançada tecnologia, pertencente ao país mais poderoso do mundo, procurando um homem que se esconde na paisagem.

Mesmo com a antipatia que tenho por Bin Laden, torço um pouco por ele. Podia ser até Paulo Maluf, eu ainda torceria um pouquinho. Se um dia o Íbis enfrentar a Seleção Brasileira, torcerei pelo Íbis. É um reflexo condicionado inculcado em nós por um senso ético confuso (tenho consciência disto) que nos faz sempre preferir um Davi a um Golias, independentemente de qual dos dois esteja “combatendo o bom combate”. Há um senso inato de proporção, de equilíbrio, de simetria (mais até do que um senso moral de justiça) que nos faz torcer pelo pequeno contra o grande.

Conseguirão os EUA prender Bin Laden? Não sei. Jamais duvidei que eles acabassem pegando Saddam Hussein. Saddam não quis fugir do Iraque, e era um sujeito odiado pela maioria da população. Alguém o entregou, como alguém entregou Lampião, alguém entregou Guevara, e alguém sempre entrega, por razões diferentes em cada caso, um sujeito que está na vulnerável situação de depender do sigilo de 100% das pessoas com quem se encontra. Cedo ou tarde, a corda “tora” em algum ponto.

A questão é: os americanos querem mesmo prender Bin Laden? Talvez não precisem deste pretexto para continuar ocupando o Afeganistão, e depois de Bin Laden deve haver uma lista de dezenas de foragidos igualmente importantes. Mas Bin Laden tornou-se um desses símbolos elusivos que o sujeito não sabe se é mais perigoso matar ou deixar vivo. A prisão, julgamento e enforcamento de Bin Laden terão uma repercussão enorme, mas esta contará pontos positivos e negativos para os carrascos, e eles sabem disto.

Por outro lado, a busca me lembra aquela antiga piada sobre o veterano médico do interior que decidiu tirar férias com a esposa e deixou o consultório a cargo do filho, também médico. Ao voltar, o filho lhe disse: “Curei a artrite do Coronel Fulano”. E o velho explodiu: “Seu idiota! Foi aquela artrite que pagou seus estudos!” E me lembra também um trecho do filme de Billy Wilder A Montanha dos 7 Abutres, em que o jornalista cínico e sensacionalista, interpretado por Kirk Douglas, conta como certa vez aquela cidadezinha ficou em polvorosa quando cinco cascavéis fugiram do circo. Quatro foram mortas ou capturadas, mas a última delas continuou à solta durante uma semana. Alguém lhe pergunta onde a cobra estava, e ele diz: “Na minha gaveta, na redação do jornal”. Por que não procuram Bin Laden lá dentro?

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

1399) A arte das sombras (7.9.2007)


(Fred Eerdekens, "Minimum")

Ando pensando seriamente em encerrar esta coluna aqui no jornal e abrir um blog na Internet. Não é por nada não, é porque aqui no jornal não existe como inserir ilustrações. Fico eu pregando no deserto, comentando quadros ou desenhos que não dá para anexar, discutindo músicas sem poder fornecer um MP3 para download, e assim por diante.

Tô brincando; não vou parar com a coluna, mas há coisas que dependem de uma ilustração concreta, senão parece que eu estou inventando. (Já percebi que alguns leitores acreditam mais na minha imaginação do que na minha honestidade.) Um bom exemplo disto é um saite que descobri via BoingBoing: “Shadow Sculptures”. Basicamente é o seguinte: você pega objetos aleatórios e forma com eles um amontoado que, iluminado lateralmente, produz na parede uma sombra exata de algo que não está ali. Aqui (http://www.instructables.com/id/ERTLALRF46WOFDE/?ALLSTEPS) ele mostra o passo-a-passo da construção da sombra de um gato, sentado, com a cabeça virada para o lado. Em princípio, parece simples: você prega um papelão na parede, esboça a silhueta da sombra, fixa uma lâmpada acesa a certa distância (anotando tudo, para o caso de alguém da família mexer na lâmpada enquanto você foi comprar SuperBonder na esquina), e vai amontoando e colando objetos aleatórios que forneçam a forma desejada.

No mesmo saite tomei conhecimento da obra de Fred Eerdekens, um artista que pega essa mesma técnica e vai um passo adiante. Nas obras dele (algumas das quais podem ser vistas aqui: http://architectradure.blogspot.com/2006/11/shadows-of-objects.html) é utilizado o mesmo princípio: objetos aleatórios produzindo sombras significativas, como uma obra em que uma enorme mola espiral, levemente deformada, pendurada do teto em posição horizontal, projeta na parede a palavra “minimum”. Erdekens tanto usa a sombra direta do objeto quanto o contrário: uma sombra maciça com ranhuras por onde a luz passa, formando palavras.

Como em tudo na vida, podemos tirar disto uma lição metafísica (de um significado que vai além das coisas materiais) e cibernética (do modo como causa e efeito se influenciam mutuamente). Pensem num filme, por exemplo. Quando a gente vê um filme projetado numa tela, é uma beleza, parece uma coisa que já nasceu pronta. Um daqueles casos filosóficos em que a mera existência leva a supor uma necessidade, ou seja, algo que é tão “assim” que não poderia ser de outro modo senão assim. Ledo engano, meu amigo. O que você está vendo na tela é o produto de um aglomerado caótico de orçamentos, contratações, ensaios, cronogramas, testes, bate-bocas de executivos, deslocamentos da equipe, filmagens e refilmagens, madrugadas inteiras tentando colar pedaços que não combinam, milhões de pequenos pepinos de som e de luz sendo resolvidos a toque-de-caixa... Um evereste caótico mas que resulta naquela silhueta rabiscada no papelão, e que se intitula “Cidadão Kane” ou “Deus e o Diabo na terra do Sol”.

1398) Castro Lopes (6.9.2007)



Uma das figuras mais curiosas na história do nosso vernáculo foi o Dr. Castro Lopes (1827-1901), um filólogo que era meio invocado com a quantidade de palavras estrangeiras adotadas em nossa linguagem corrente. O doutor morreu em 1901, quando o grande referencial para quem queria ser “chic” no Brasil era o francês; hoje, o referencial para quem quer ser “cool” é o inglês. Se vivesse hoje, o doutor cairia fulminado por um enfarte antes de uma semana, ao ver como nosso idioma está absorvendo, sem digerir, um imenso vocabulário vindo de fora.

O problema com o Dr. Castro Lopes é que suas soluções para os problemas eram piores do que os problemas em si. Diante das palavras importadas de países contemporâneos como Inglaterra ou França, o doutor sugeria criar palavras novas importando radicais linguísticos da Grécia e de Roma. O que me lembra a famosa frase de Jorge Luís Borges, de que todo mundo aceita influências dos clássicos mas ninguém gosta de dever nada aos contemporâneos. (Tem razão: os contemporâneos cobram.) Vai daí que o doutor não gostava da palavra “abajur” (do francês “abat-jour”), e sugeria “lucivelo” (de “luci”, luz, e o verbo “velar”). Convenhamos que de todas essas palavras nenhuma é mais simples e intuitiva do que o popular “quebra-luz”. Hoje, ao que parece, todas dançaram, sendo substituídas por “luminária”.

Algumas tentativas do doutor não foram tão mal assim. Por exemplo, consta que ele propôs “cardápio” no lugar do francês “menu”. Não tenho como quantificar essas coisas, mas eu diria que a disputa entre os dois termos está hoje pau-a-pau, mais de um século depois. Embora “menu” (com pronúncia abrasileirada e tudo, “menú”) tenha migrado inclusive para o campo de Informática (“o menu do Windows”), pode-se dizer que “cardápio” é um termo de uso corrente, que todo mundo entende, e que dispensa análises estruturais para decifrar seu significado.

Mas o doutor propôs “ludopédio” em vez de futebol, “convescote” no lugar de piquenique, “cinesíforo” ao invés de chofer. Nenhuma pegou. Qualquer aparecimento delas num texto atual é apenas como citação, como neste artigo, mas ninguém diz “Chame o cinesíforo e vamos embora”. Outras criações do doutor são de uma implausibilidade que impressiona. Ele não gostava do galicismo “galocha”, e propôs substituí-lo por “anidropodoteca”. Como diria Bussunda: “Fala sério!”

Muita coisa que vemos na política internacional de hoje é resultado de quando a mentalidade Castro Lopes assume plenos poderes. O Iraque é uma ficção política, três retalhos de mapa costurados entre si, batizados com um nome e entregues à própria sorte. A Palestina e Israel, idem idem. A região da Cachemira, entre Índia e Paquistão, também. As superpotências inventam países como um filólogo inventa palavras, e os usuários de ambos que se virem. São soluções de gabinete, possíveis de defender numa tribuna, mas que não se encaixam na vida real. E mais cedo ou mais tarde a vida cobra.

1397) Adeus às armas (5.9.2007)



Tenho aqui nas minhas anotações duas notícias que li no “Globo” do dia 7 de agosto passado. Na página 30, na seção Internacional, lê-se: “110 mil fuzis AK-47 e 80 mil pistolas foram perdidos pelos americanos no Iraque nos anos de 2004 e 2005. O Pentágono reconheceu que não sabe o que aconteceu com 30% de todas as armas que os EUA distribuíram para forças iraquianas de 2004 até o começo deste ano”. Notem que estamos nos referindo ao Departamento de Defesa do país mais rico e teoricamente mais bem aparelhado do mundo.

Isto deve nos consolar um pouco do que sentimos ao ler na coluna de Luiz Garcia, à página 7 do mesmo exemplar: “Em 15 anos 1.539 armas da PM do Rio acabaram nas mãos de bandidos. Outras 928, quase todas pistolas Taurus, de fabricação nacional, foram vendidas individualmente a policiais, e também acabaram indo dormir na casa do inimigo”.

É auto-sugestão minha, ou existe uma simetria perversa entre estes dois fatos, além de um cruel simbolismo cósmico-freudiano? Os americanos não conseguem fazer com que os iraquianos se matem uns aos outros em benefício dos EUA. Eles se matam pelas rivalidades étnicas e religiosas que alimentam há séculos; mas a verdade é que vai ser muito difícil fazer com que matem quem os americanos determinam.

A mesma coisa é a guerra dos morros cariocas. Por um lado, alguns PMs não vêem motivo para matar sujeitos que são da mesma cor e da mesma origem social que eles para proteger os interesses dos “bacanas” que vivem nas coberturas de luxo. Por outro lado, veja-se a quantidade de armas surrupiadas dos quartéis para o tráfico, e a quantidade de espiões que o tráfico manda se alistar na PM ou no Exército para facilitar o acesso a armas, munições, informações, know-how. É uma guerra difícil, porque grande parte da força de repressão é recrutada exatamente nas mesmas favelas, nos mesmos bairros populares, nos mesmos conjuntos habitacionais onde fervilha o crime. Existem amizades, existe convivência, existem cumplicidades formais ou informais, e cedo ou tarde o sujeito fardado “se faz de doido” e beneficia outro sujeito que teoricamente é seu inimigo, mas que na prática é seu vizinho de bairro ou conhecido de botequim.

Certas guerras já estão perdidas antes mesmo de ser disparado o primeiro tiro, antes mesmo do primeiro soldado levantar do beliche e enfiar o uniforme. Estão perdidas; não porque o inimigo seja em número superior ou tenha armamento de melhor qualidade, não porque o Acaso ou o Destino tenham determinado algo de antemão. Estão perdidas porque são guerras que nunca deveriam ter começado. São situações em que, diante de um problema, alguém recorre à guerra sem perceber que ela será apenas a radicalização irremediável do problema. Como dizia Jorge de Lima, “há as naus que não chegam, mesmo sem ter naufragado; não porque nunca tivessem quem as guiasse no mar (...) mas simplesmente porque já estavam podres no tronco da árvore de que as tiraram”.

1396) A pedra no meio do caminho (4.9.2007)



Encontrei por vinte reais num sebo do Largo da Carioca o livro Uma pedra no meio do caminho – biografia de um poema de Carlos Drummond de Andrade (Editora do Autor, 1967), que algum tempo atrás estava à oferta na Estante Virtual por R$ 250,00. O livro consiste numa compilação minuciosa (e eu diria quase neurótica) de referências, em órgãos da imprensa e em livros, ao famoso poema de Drummond. A impressão que dá é que o poeta fez o livro graças a uma assinatura do Lux Jornal. uma famosa empresa que nos tempos pré-Internet recortava a nosso pedido (e pagamento), de todos os jornais, qualquer menção a um nome ou um assunto do nosso interesse.

São pouco mais de 400 itens reunidos pelo poeta, incluindo traduções, paródias, respostas, paráfrases; menções ao poeta e ao poema em crônicas, notícias, comentários políticos, resenhas, etc. O livro tem uma apresentação de Arnaldo Saraiva, analisando o poema e seu impacto. As respostas variam, desde as explicações filosóficas até a galhofa gratuita, desde a análise métrica até vituperações indignadas contra o Modernismo. Há trechos (contra ou a favor) de Vinicius de Morais, Sérgio Porto, Gilberto Freyre, Virginius da Gama e Melo, Lygia Fagundes Telles, José Lins do Rego... Dois sintomas se repetem insistentemente. O primeiro é a irritação dos articulistas diante da banalidade do tema. Eles se aborrecem com o fato do poeta estar prestando atenção a uma pedra, quando existem coisas muito mais importantes, mais dignas da inspiração poética. E outra é a briga dos críticos contra o uso da forma verbal “tinha” em vez de “havia”. Dizer em 1930 “tinha uma pedra no meio do caminho” era algo plebeu e agressivo para os ouvidos cultos dos praticantes e leitores da poesia.

Folheando este livro, entendi por que num poema Drummond diz ser, entre os poetas, “não dos maiores, porém dos mais expostos à galhofa”. O que se galhofou do poeta mineiro nessa época não está no gibi. O crítico Gondin da Fonseca é o que aparece mais vezes, fazendo todo tipo de provocação, deboche, imitação, demonstrando claramente o quanto a pedra o incomodou.

O livro tem seções temáticas: “Reação pelo ridículo”, “Não sai da cabeça”, “Os amigos da pedra”, “E os inimigos”, “Emoções de viagem”, “Troca de autoria”, “A pedra na administração pública / na advocacia / na economia / no esporte / na escola...”, etc. Na última seção, “O poema visto pelo autor”, vêm citações de artigos ou entrevistas do próprio Drummond, meio encabulado por ter causado tanta celeuma e dizendo que o poema nem é tão ruim nem tão bom quanto se diz. Ele também inclui o poema em prosa “O enigma”, de 1947, que aqui nesta coluna (“O obscuro enigma de Drummond”, 12.12.2004) já interpretei como uma resposta ao outro. O poema mostra o ser humano visto pela pedra-no-caminho, numa inversão de ponto de vista que me parece óbvia mas que nunca vi ninguém mencionar.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

1395) Na estratosfera da globalização (2.9.2007)



Chamo-me Gunther Schneider, e trabalho num conglomerado financeiro com sede em Munique. Moro num apartamento de seis quartos com minha esposa Greta, um casal de filhos e um cachorro “husky siberiano” chamado Flash. Assumi esta semana o posto de CEO (Chief Executive Officer, assim mesmo, em inglês) do grupo, com a missão de fazer uma varredura em suas finanças. O CEO anterior foi demitido por roubalheira, e além do mais, bebia. Nos últimos dois anos o grupo perdeu seis posições no ranking. Estou aqui para botar a casa em ordem.

É uma manhã fria de segunda-feira, e recebo no meu escritório climatizado o grupo de auditores que “deu uma geral” na gestão anterior. Estive em contato permanente com eles por um mês; agora assumi oficialmente o cargo, e hoje é o primeiro dia de tomar decisões. Cumprimento a todos, peço águas e cafezinhos. Dieter Bohrmann, o porta-voz da equipe, um rapaz de rosto magro e óculos espessos, me estende duas folhas de papel grampeadas, com uma lista de 52 itens. Do 1 ao 30, estão em tinta azul; do 31 em diante, em vermelho. São os investimentos que estão dando prejuízo.

Percorro a lista com os olhos. Já vi do que se trata a maioria, e já sei o que vou fazer. Lá perto do fim vejo um nome desconhecido e pergunto o que é. Dieter responde: “É a editora brasileira que compramos em 2003. Pareceu um bom investimento na época”. Surpreendo-me: “Publicam-se livros no Brasil? Pensei que apenas jogavam futebol e dançavam o samba”. Dieter retruca: “É um mercado promissor. Os espanhóis estão entrando lá com tudo”. Peço detalhes, ele remexe na pasta, me entrega algumas planilhas.

Examino aquilo como um médico vendo um raio-X de um alienígena enfermo: sem saber que procedimento aconselhar. Os nomes próprios, ilegíveis, parecem todos iguais. “É grande o prejuízo?”, pergunto. “Mediano. Investiram muito, compraram muitos títulos estrangeiros, lançaram muitos títulos nacionais. Há quatro anos nos garantem que em um ano sairão do vermelho. E não saem.” “Quanto custa para fechar?” “Pagando os custos trabalhistas e jurídicos, e vendendo o catálogo e os bens, fica uma coisa pela outra”.

Vou até a janela. Lá fora, a neve se deposita em flocos suaves sobre o parque, sobre a arquitetura sólida dos ministérios da Blümerstrasse. Tenho 22 itens vermelhos para eliminar da minha lista, e é bom começar mostrando serviço. Viro-me para os auditores e digo: “Então, fecha”. Todos concordam num gesto breve de cabeça que parece ensaiado; Dieter pega sua cópia da lista e rabisca alguma coisa. “O próximo,” peço. Ele consulta a lista e diz: “A mina de diamantes em Angola.” Surpreendo-me de novo. Extraem-se diamantes em Angola? São 8:15 da manhã, e tenho até as cinco da tarde para decidir 22 itens. Estou ganhando quase o dobro do salário do sujeito a quem substituí. Sou um CEO. Estou aqui para resolver problemas, e quero ser uma mulata sambando se esses problemas não fôrem resolvidos.

1394) Luís Buñuel e Nelson Rodrigues (1.9.2007)




Um artigo recente de Nuno Ramos na revista Piauí de abril faz uma boa análise da obra teatral de Nelson Rodrigues. A matéria-prima de Nelson são os sonhos e pesadelos da classe média suburbana: emprego e desemprego; casamento e adultério; obediência e desobediência às convenções; pecados e remorsos; impulsos de ascensão social e de afirmação erótica. 

Seus personagens se debatem entre uma luxúria poderosa que os arrasta a todos os tipos de pecados, e uma ânsia desesperada por um amor puro, espiritualizado, não maculado pela sordidez humana. Querem fazer sexo no Inferno, e depois adormecer em paz no Céu. Diz Nuno Ramos sobre Nelson: 

Sua persona foi sempre mais específica, particular e lenta – o reacionário, aquele que não se universaliza, como uma má notícia ambulante a assombrar a velocidade do mundo lá fora. (...) A sua matéria é o particular, entendido como o detalhe significativo que produz escândalo e denota a falsidade do resto. (...) O Brasil do dramaturgo não é aquele que se procura, mas o que não se deixa ir – aquele que ao ser esquecido volta para assombrar. 

Nelson é um conservador, no sentido de que é fiel aos fantasmas que o obcecavam na infância e adolescência. Dedicou sua vida adulta a dialogar com eles, em vez de varrê-los para baixo do tapete (como faz a maioria, inclusive seus personagens) ou de transcendê-los através da psicanálise ou da revolução sexual dos anos 1960. 

Nelson foi chamado de pornógrafo por uns e de moralista por outros, o que é sempre um indício de que estava remexendo camadas profundas. Nisto ele se assemelha a Luís Buñuel, que, como ele, foi um grande leitor de romances em estilo folhetim, muitos dos quais (Tristana, Belle de Jour, Diário de uma Camareira, etc.) adaptou para o cinema. Quanto a Nelson, usou o pseudônimo de Suzana Flag para escrever ele próprio alguns folhetins imensos que li quando adolescente e foram agora reeditados: Meu Destino é Pecar, Escravas do Amor. 

A obra de ambos revela os exageros próprios do folhetim, que em Nelson são redimidos artisticamente através de sua concepção peculiar de dramaturgia e diálogo, e em Buñuel são enriquecidos pelo imaginário surrealista francês. 

Ambos extraem sua inspiração do melodrama, mas o melodrama moderno que fazem deixaria desconcertados os artistas a quem copiam ou parafraseiam. Sexo e morte são seus temas preferidos. Criados em sociedades machistas e repressoras, o erotismo era sua obsessão. Buñuel diz em suas memórias: 

Os homens da minha geração, e além disso espanhóis, sofriam duma timidez ancestral relativamente às mulheres e dum desejo sexual que era talvez o mais forte do mundo. (...) Sem sombra de dúvida que um espanhol tinha um prazer superior ao copular do que um chinês ou um esquimó. 

É essa a mesma luxúria irresistível que conduz os personagens de Nelson a todo tipo de pecado. Para eles, pecar é uma forma de auto-afirmação e de auto-conhecimento.