sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

1399) A arte das sombras (7.9.2007)


(Fred Eerdekens, "Minimum")

Ando pensando seriamente em encerrar esta coluna aqui no jornal e abrir um blog na Internet. Não é por nada não, é porque aqui no jornal não existe como inserir ilustrações. Fico eu pregando no deserto, comentando quadros ou desenhos que não dá para anexar, discutindo músicas sem poder fornecer um MP3 para download, e assim por diante.

Tô brincando; não vou parar com a coluna, mas há coisas que dependem de uma ilustração concreta, senão parece que eu estou inventando. (Já percebi que alguns leitores acreditam mais na minha imaginação do que na minha honestidade.) Um bom exemplo disto é um saite que descobri via BoingBoing: “Shadow Sculptures”. Basicamente é o seguinte: você pega objetos aleatórios e forma com eles um amontoado que, iluminado lateralmente, produz na parede uma sombra exata de algo que não está ali. Aqui (http://www.instructables.com/id/ERTLALRF46WOFDE/?ALLSTEPS) ele mostra o passo-a-passo da construção da sombra de um gato, sentado, com a cabeça virada para o lado. Em princípio, parece simples: você prega um papelão na parede, esboça a silhueta da sombra, fixa uma lâmpada acesa a certa distância (anotando tudo, para o caso de alguém da família mexer na lâmpada enquanto você foi comprar SuperBonder na esquina), e vai amontoando e colando objetos aleatórios que forneçam a forma desejada.

No mesmo saite tomei conhecimento da obra de Fred Eerdekens, um artista que pega essa mesma técnica e vai um passo adiante. Nas obras dele (algumas das quais podem ser vistas aqui: http://architectradure.blogspot.com/2006/11/shadows-of-objects.html) é utilizado o mesmo princípio: objetos aleatórios produzindo sombras significativas, como uma obra em que uma enorme mola espiral, levemente deformada, pendurada do teto em posição horizontal, projeta na parede a palavra “minimum”. Erdekens tanto usa a sombra direta do objeto quanto o contrário: uma sombra maciça com ranhuras por onde a luz passa, formando palavras.

Como em tudo na vida, podemos tirar disto uma lição metafísica (de um significado que vai além das coisas materiais) e cibernética (do modo como causa e efeito se influenciam mutuamente). Pensem num filme, por exemplo. Quando a gente vê um filme projetado numa tela, é uma beleza, parece uma coisa que já nasceu pronta. Um daqueles casos filosóficos em que a mera existência leva a supor uma necessidade, ou seja, algo que é tão “assim” que não poderia ser de outro modo senão assim. Ledo engano, meu amigo. O que você está vendo na tela é o produto de um aglomerado caótico de orçamentos, contratações, ensaios, cronogramas, testes, bate-bocas de executivos, deslocamentos da equipe, filmagens e refilmagens, madrugadas inteiras tentando colar pedaços que não combinam, milhões de pequenos pepinos de som e de luz sendo resolvidos a toque-de-caixa... Um evereste caótico mas que resulta naquela silhueta rabiscada no papelão, e que se intitula “Cidadão Kane” ou “Deus e o Diabo na terra do Sol”.

1398) Castro Lopes (6.9.2007)



Uma das figuras mais curiosas na história do nosso vernáculo foi o Dr. Castro Lopes (1827-1901), um filólogo que era meio invocado com a quantidade de palavras estrangeiras adotadas em nossa linguagem corrente. O doutor morreu em 1901, quando o grande referencial para quem queria ser “chic” no Brasil era o francês; hoje, o referencial para quem quer ser “cool” é o inglês. Se vivesse hoje, o doutor cairia fulminado por um enfarte antes de uma semana, ao ver como nosso idioma está absorvendo, sem digerir, um imenso vocabulário vindo de fora.

O problema com o Dr. Castro Lopes é que suas soluções para os problemas eram piores do que os problemas em si. Diante das palavras importadas de países contemporâneos como Inglaterra ou França, o doutor sugeria criar palavras novas importando radicais linguísticos da Grécia e de Roma. O que me lembra a famosa frase de Jorge Luís Borges, de que todo mundo aceita influências dos clássicos mas ninguém gosta de dever nada aos contemporâneos. (Tem razão: os contemporâneos cobram.) Vai daí que o doutor não gostava da palavra “abajur” (do francês “abat-jour”), e sugeria “lucivelo” (de “luci”, luz, e o verbo “velar”). Convenhamos que de todas essas palavras nenhuma é mais simples e intuitiva do que o popular “quebra-luz”. Hoje, ao que parece, todas dançaram, sendo substituídas por “luminária”.

Algumas tentativas do doutor não foram tão mal assim. Por exemplo, consta que ele propôs “cardápio” no lugar do francês “menu”. Não tenho como quantificar essas coisas, mas eu diria que a disputa entre os dois termos está hoje pau-a-pau, mais de um século depois. Embora “menu” (com pronúncia abrasileirada e tudo, “menú”) tenha migrado inclusive para o campo de Informática (“o menu do Windows”), pode-se dizer que “cardápio” é um termo de uso corrente, que todo mundo entende, e que dispensa análises estruturais para decifrar seu significado.

Mas o doutor propôs “ludopédio” em vez de futebol, “convescote” no lugar de piquenique, “cinesíforo” ao invés de chofer. Nenhuma pegou. Qualquer aparecimento delas num texto atual é apenas como citação, como neste artigo, mas ninguém diz “Chame o cinesíforo e vamos embora”. Outras criações do doutor são de uma implausibilidade que impressiona. Ele não gostava do galicismo “galocha”, e propôs substituí-lo por “anidropodoteca”. Como diria Bussunda: “Fala sério!”

Muita coisa que vemos na política internacional de hoje é resultado de quando a mentalidade Castro Lopes assume plenos poderes. O Iraque é uma ficção política, três retalhos de mapa costurados entre si, batizados com um nome e entregues à própria sorte. A Palestina e Israel, idem idem. A região da Cachemira, entre Índia e Paquistão, também. As superpotências inventam países como um filólogo inventa palavras, e os usuários de ambos que se virem. São soluções de gabinete, possíveis de defender numa tribuna, mas que não se encaixam na vida real. E mais cedo ou mais tarde a vida cobra.

1397) Adeus às armas (5.9.2007)



Tenho aqui nas minhas anotações duas notícias que li no “Globo” do dia 7 de agosto passado. Na página 30, na seção Internacional, lê-se: “110 mil fuzis AK-47 e 80 mil pistolas foram perdidos pelos americanos no Iraque nos anos de 2004 e 2005. O Pentágono reconheceu que não sabe o que aconteceu com 30% de todas as armas que os EUA distribuíram para forças iraquianas de 2004 até o começo deste ano”. Notem que estamos nos referindo ao Departamento de Defesa do país mais rico e teoricamente mais bem aparelhado do mundo.

Isto deve nos consolar um pouco do que sentimos ao ler na coluna de Luiz Garcia, à página 7 do mesmo exemplar: “Em 15 anos 1.539 armas da PM do Rio acabaram nas mãos de bandidos. Outras 928, quase todas pistolas Taurus, de fabricação nacional, foram vendidas individualmente a policiais, e também acabaram indo dormir na casa do inimigo”.

É auto-sugestão minha, ou existe uma simetria perversa entre estes dois fatos, além de um cruel simbolismo cósmico-freudiano? Os americanos não conseguem fazer com que os iraquianos se matem uns aos outros em benefício dos EUA. Eles se matam pelas rivalidades étnicas e religiosas que alimentam há séculos; mas a verdade é que vai ser muito difícil fazer com que matem quem os americanos determinam.

A mesma coisa é a guerra dos morros cariocas. Por um lado, alguns PMs não vêem motivo para matar sujeitos que são da mesma cor e da mesma origem social que eles para proteger os interesses dos “bacanas” que vivem nas coberturas de luxo. Por outro lado, veja-se a quantidade de armas surrupiadas dos quartéis para o tráfico, e a quantidade de espiões que o tráfico manda se alistar na PM ou no Exército para facilitar o acesso a armas, munições, informações, know-how. É uma guerra difícil, porque grande parte da força de repressão é recrutada exatamente nas mesmas favelas, nos mesmos bairros populares, nos mesmos conjuntos habitacionais onde fervilha o crime. Existem amizades, existe convivência, existem cumplicidades formais ou informais, e cedo ou tarde o sujeito fardado “se faz de doido” e beneficia outro sujeito que teoricamente é seu inimigo, mas que na prática é seu vizinho de bairro ou conhecido de botequim.

Certas guerras já estão perdidas antes mesmo de ser disparado o primeiro tiro, antes mesmo do primeiro soldado levantar do beliche e enfiar o uniforme. Estão perdidas; não porque o inimigo seja em número superior ou tenha armamento de melhor qualidade, não porque o Acaso ou o Destino tenham determinado algo de antemão. Estão perdidas porque são guerras que nunca deveriam ter começado. São situações em que, diante de um problema, alguém recorre à guerra sem perceber que ela será apenas a radicalização irremediável do problema. Como dizia Jorge de Lima, “há as naus que não chegam, mesmo sem ter naufragado; não porque nunca tivessem quem as guiasse no mar (...) mas simplesmente porque já estavam podres no tronco da árvore de que as tiraram”.

1396) A pedra no meio do caminho (4.9.2007)



Encontrei por vinte reais num sebo do Largo da Carioca o livro Uma pedra no meio do caminho – biografia de um poema de Carlos Drummond de Andrade (Editora do Autor, 1967), que algum tempo atrás estava à oferta na Estante Virtual por R$ 250,00. O livro consiste numa compilação minuciosa (e eu diria quase neurótica) de referências, em órgãos da imprensa e em livros, ao famoso poema de Drummond. A impressão que dá é que o poeta fez o livro graças a uma assinatura do Lux Jornal. uma famosa empresa que nos tempos pré-Internet recortava a nosso pedido (e pagamento), de todos os jornais, qualquer menção a um nome ou um assunto do nosso interesse.

São pouco mais de 400 itens reunidos pelo poeta, incluindo traduções, paródias, respostas, paráfrases; menções ao poeta e ao poema em crônicas, notícias, comentários políticos, resenhas, etc. O livro tem uma apresentação de Arnaldo Saraiva, analisando o poema e seu impacto. As respostas variam, desde as explicações filosóficas até a galhofa gratuita, desde a análise métrica até vituperações indignadas contra o Modernismo. Há trechos (contra ou a favor) de Vinicius de Morais, Sérgio Porto, Gilberto Freyre, Virginius da Gama e Melo, Lygia Fagundes Telles, José Lins do Rego... Dois sintomas se repetem insistentemente. O primeiro é a irritação dos articulistas diante da banalidade do tema. Eles se aborrecem com o fato do poeta estar prestando atenção a uma pedra, quando existem coisas muito mais importantes, mais dignas da inspiração poética. E outra é a briga dos críticos contra o uso da forma verbal “tinha” em vez de “havia”. Dizer em 1930 “tinha uma pedra no meio do caminho” era algo plebeu e agressivo para os ouvidos cultos dos praticantes e leitores da poesia.

Folheando este livro, entendi por que num poema Drummond diz ser, entre os poetas, “não dos maiores, porém dos mais expostos à galhofa”. O que se galhofou do poeta mineiro nessa época não está no gibi. O crítico Gondin da Fonseca é o que aparece mais vezes, fazendo todo tipo de provocação, deboche, imitação, demonstrando claramente o quanto a pedra o incomodou.

O livro tem seções temáticas: “Reação pelo ridículo”, “Não sai da cabeça”, “Os amigos da pedra”, “E os inimigos”, “Emoções de viagem”, “Troca de autoria”, “A pedra na administração pública / na advocacia / na economia / no esporte / na escola...”, etc. Na última seção, “O poema visto pelo autor”, vêm citações de artigos ou entrevistas do próprio Drummond, meio encabulado por ter causado tanta celeuma e dizendo que o poema nem é tão ruim nem tão bom quanto se diz. Ele também inclui o poema em prosa “O enigma”, de 1947, que aqui nesta coluna (“O obscuro enigma de Drummond”, 12.12.2004) já interpretei como uma resposta ao outro. O poema mostra o ser humano visto pela pedra-no-caminho, numa inversão de ponto de vista que me parece óbvia mas que nunca vi ninguém mencionar.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

1395) Na estratosfera da globalização (2.9.2007)



Chamo-me Gunther Schneider, e trabalho num conglomerado financeiro com sede em Munique. Moro num apartamento de seis quartos com minha esposa Greta, um casal de filhos e um cachorro “husky siberiano” chamado Flash. Assumi esta semana o posto de CEO (Chief Executive Officer, assim mesmo, em inglês) do grupo, com a missão de fazer uma varredura em suas finanças. O CEO anterior foi demitido por roubalheira, e além do mais, bebia. Nos últimos dois anos o grupo perdeu seis posições no ranking. Estou aqui para botar a casa em ordem.

É uma manhã fria de segunda-feira, e recebo no meu escritório climatizado o grupo de auditores que “deu uma geral” na gestão anterior. Estive em contato permanente com eles por um mês; agora assumi oficialmente o cargo, e hoje é o primeiro dia de tomar decisões. Cumprimento a todos, peço águas e cafezinhos. Dieter Bohrmann, o porta-voz da equipe, um rapaz de rosto magro e óculos espessos, me estende duas folhas de papel grampeadas, com uma lista de 52 itens. Do 1 ao 30, estão em tinta azul; do 31 em diante, em vermelho. São os investimentos que estão dando prejuízo.

Percorro a lista com os olhos. Já vi do que se trata a maioria, e já sei o que vou fazer. Lá perto do fim vejo um nome desconhecido e pergunto o que é. Dieter responde: “É a editora brasileira que compramos em 2003. Pareceu um bom investimento na época”. Surpreendo-me: “Publicam-se livros no Brasil? Pensei que apenas jogavam futebol e dançavam o samba”. Dieter retruca: “É um mercado promissor. Os espanhóis estão entrando lá com tudo”. Peço detalhes, ele remexe na pasta, me entrega algumas planilhas.

Examino aquilo como um médico vendo um raio-X de um alienígena enfermo: sem saber que procedimento aconselhar. Os nomes próprios, ilegíveis, parecem todos iguais. “É grande o prejuízo?”, pergunto. “Mediano. Investiram muito, compraram muitos títulos estrangeiros, lançaram muitos títulos nacionais. Há quatro anos nos garantem que em um ano sairão do vermelho. E não saem.” “Quanto custa para fechar?” “Pagando os custos trabalhistas e jurídicos, e vendendo o catálogo e os bens, fica uma coisa pela outra”.

Vou até a janela. Lá fora, a neve se deposita em flocos suaves sobre o parque, sobre a arquitetura sólida dos ministérios da Blümerstrasse. Tenho 22 itens vermelhos para eliminar da minha lista, e é bom começar mostrando serviço. Viro-me para os auditores e digo: “Então, fecha”. Todos concordam num gesto breve de cabeça que parece ensaiado; Dieter pega sua cópia da lista e rabisca alguma coisa. “O próximo,” peço. Ele consulta a lista e diz: “A mina de diamantes em Angola.” Surpreendo-me de novo. Extraem-se diamantes em Angola? São 8:15 da manhã, e tenho até as cinco da tarde para decidir 22 itens. Estou ganhando quase o dobro do salário do sujeito a quem substituí. Sou um CEO. Estou aqui para resolver problemas, e quero ser uma mulata sambando se esses problemas não fôrem resolvidos.

1394) Luís Buñuel e Nelson Rodrigues (1.9.2007)




Um artigo recente de Nuno Ramos na revista Piauí de abril faz uma boa análise da obra teatral de Nelson Rodrigues. A matéria-prima de Nelson são os sonhos e pesadelos da classe média suburbana: emprego e desemprego; casamento e adultério; obediência e desobediência às convenções; pecados e remorsos; impulsos de ascensão social e de afirmação erótica. 

Seus personagens se debatem entre uma luxúria poderosa que os arrasta a todos os tipos de pecados, e uma ânsia desesperada por um amor puro, espiritualizado, não maculado pela sordidez humana. Querem fazer sexo no Inferno, e depois adormecer em paz no Céu. Diz Nuno Ramos sobre Nelson: 

Sua persona foi sempre mais específica, particular e lenta – o reacionário, aquele que não se universaliza, como uma má notícia ambulante a assombrar a velocidade do mundo lá fora. (...) A sua matéria é o particular, entendido como o detalhe significativo que produz escândalo e denota a falsidade do resto. (...) O Brasil do dramaturgo não é aquele que se procura, mas o que não se deixa ir – aquele que ao ser esquecido volta para assombrar. 

Nelson é um conservador, no sentido de que é fiel aos fantasmas que o obcecavam na infância e adolescência. Dedicou sua vida adulta a dialogar com eles, em vez de varrê-los para baixo do tapete (como faz a maioria, inclusive seus personagens) ou de transcendê-los através da psicanálise ou da revolução sexual dos anos 1960. 

Nelson foi chamado de pornógrafo por uns e de moralista por outros, o que é sempre um indício de que estava remexendo camadas profundas. Nisto ele se assemelha a Luís Buñuel, que, como ele, foi um grande leitor de romances em estilo folhetim, muitos dos quais (Tristana, Belle de Jour, Diário de uma Camareira, etc.) adaptou para o cinema. Quanto a Nelson, usou o pseudônimo de Suzana Flag para escrever ele próprio alguns folhetins imensos que li quando adolescente e foram agora reeditados: Meu Destino é Pecar, Escravas do Amor

A obra de ambos revela os exageros próprios do folhetim, que em Nelson são redimidos artisticamente através de sua concepção peculiar de dramaturgia e diálogo, e em Buñuel são enriquecidos pelo imaginário surrealista francês. 

Ambos extraem sua inspiração do melodrama, mas o melodrama moderno que fazem deixaria desconcertados os artistas a quem copiam ou parafraseiam. Sexo e morte são seus temas preferidos. Criados em sociedades machistas e repressoras, o erotismo era sua obsessão. Buñuel diz em suas memórias: 

Os homens da minha geração, e além disso espanhóis, sofriam duma timidez ancestral relativamente às mulheres e dum desejo sexual que era talvez o mais forte do mundo. (...) Sem sombra de dúvida que um espanhol tinha um prazer superior ao copular do que um chinês ou um esquimó. 

É essa a mesma luxúria irresistível que conduz os personagens de Nelson a todo tipo de pecado. Para eles, pecar é uma forma de auto-afirmação e de auto-conhecimento.








terça-feira, 1 de dezembro de 2009

1393) O culto à personalidade (31.8.2007)



Eu estava descansando-o-almoço diante do History Channel, degustando um programa sobre a Era do Stalinismo, cujo roteiro ilustrava o culto à personalidade que ajudou Stálin a se manter no poder durante décadas. Todos nós sabemos do que se trata. O comunismo acabou com a religião, declarou Deus “persona non grata”, pulverizou a monarquia, os rituais, as pompas e circunstâncias que recobrem essa antiquíssima instituição. E o roteiro dizia: “Alguém teria que ocupar esse vácuo, e ele foi ocupado, naturalmente, pelo próprio Stálin”. E aí, pronto: nos anos 1930 você chegava na cidade de Stalingrado, pegava a Avenida Stálin, hospedava-se no Hotel Stálin, e à noite ia ao Teatro Stálin ver o Balé Stálin apresentar a coreografia “Vida e Glória do Camarada Stálin”.

A monarquia, como já falei aqui, é uma causa-e-conseqüência da visão monoteísta. Um só Deus no Céu, um só Rei na Terra. O universo religioso e monárquico é um Círculo com um ponto no centro. Essa visão-do-mundo foi pulverizada após a Revolução Francesa e a instituição, no mundo ocidental, dos governos republicanos. Se as monarquias correspondem ao monoteísmo, a República é um politeísmo democrático, uma espécie de Monte Olimpo onde os deuses vivem brigando pelo poder, intrigando e conspirando uns contra os outros, mas são forçados a manter as aparências, conviver civilizadamente, dar tapinhas nas costas dos adversários e chamar-se em público de “Vossa Excelência”.

A mentalidade republicana acabou a visão-do-mundo como um círculo com um centro. Visualmente, a República é uma pirâmide cujo conteúdo executa um movimento ascendente. Quem está na base sonha em subir para o meio, quem está no meio está bem pertinho do topo, e quem chega ao topo briga para se manter ali. O Topo é o novo Centro. E – este é o grande salto qualitativo da república – existe um rodízio no Topo. Em vez de seus ocupantes serem escolhidos por Deus, como eram os reis, eles são (para resumir um processo intrincado) escolhidos pelo Topo, ratificados pelo Meio e eleitos pela Base. Mais ou menos isto.

Daí que o culto à personalidade nos países democráticos e republicanos seja diferente do que ocorre nas monarquias e nas ditaduras. É um culto à personalidade pulverizado, diluído, democraticamente atirado no ventilador. Qualquer um pode ser objeto do culto à personalidade. Quem descobriu isto foi Hollywood, depois a TV e a indústria fonográfica tomaram conta, e agora é isto que se vê. As capas das revistas, os talk-shows, as colunas sociais, os cadernos de variedades: estes são os novos templos do culto à personalidade no universo republicano, onde, em princípio, qualquer um pode ser eleito presidente e qualquer um pode ir parar na capa da Veja ou no programa de Jô Soares (ou na capa da Time e no programa de David Letterman). A pirâmide não cessa de produzir gente, e todos se acotovelam tentando chegar na luminosa telinha triangular que reluz no seu Topo e o oculta.

1392) Crimes de arte (30.8.2007)


("A Fonte", de Duchamp)

O que leva alguém a praticar um crime contra uma obra de arte? Os ladrões de quadros querem ganhar dinheiro; é um roubo banal. Mas o que passa na cabeça de um sujeito que entra num Museu com uma faca escondida na roupa, e, na primeira bobeira dos seguranças, pula sobre um quadro e começa a cortá-lo em tiras?

O saite “Art Crime” (http://renewal.va.com.au/artcrime/pages/front.html) reúne material sobre vários casos famosos, uns incompreensíveis, outros grotescos, todos meio absurdos. O famoso quadro de Rembrandt A Ronda Noturna já foi atacado três vezes, no Stedelijk Museum, de Amsterdam, duas delas a faca e uma com ácido sulfúrico. Nos dois primeiros casos, houve restauração; no último, os guardas agiram a tempo e o ácido só atingiu a camada superficial de verniz. O primeiro ataque, em 1911, foi por parte de um ex-marujo demitido que queria protestar contra o Governo. E Rembrandt pagou o pato.

Alguns ataques são “conceituais”, como o do artista performático Pierre Pinoncelli contra A Fonte de Michel Duchamp. Para quem não sabe, esta obra consiste num simples urinol de porcelana, desses de mictório público, retirado do seu contexto e exposto como obra de arte. Pinoncelli urinou no urinol (até aí tudo bem) e depois o atacou com um martelo. Recebeu uma multa de algumas centenas de milhares de francos. Também performático foi o ataque do russo Alexander Brener contra o quadro Suprematisme do seu conterrâneo Malevich em 1997, sobre o qual ele pintou com spray um cifrão. Brener é conhecido pelo seu hábito de interromper eventos públicos, (principalmente os que envolvem alguma discussão sobre arte) praticando alguma ação desmiolada.

Há casos em que o artista ajuda isso a acontecer. Yoko Ono, uma conhecida advogada da interatividade, teve suas obras “interferidas” por um estudante de arte em 1997: ele pegou uma caneta vermelha e riscou cinco de uma série de 25 painéis expostos pela artista numa galeria nos EUA. Em sua defesa, alegou uma frase da viúva de John Lennon: “Ninguém pode proibir você de tocar numa obra de arte”.

E há aqueles que são doidos mesmo e fim de papo. Um dos sujeitos que atacaram o quadro de Rembrandt era um desequilibrado que, depois de cumprir algum tempo numa clínica psiquiátrica, fugiu e foi até Amsterdam onde arrancou um tampo bem no meio de um quadro de Picasso, Mulher Nua Diante de um Jardim, no mesmo Stedelijk Museum.

Os performáticos, tudo bem; mas os doidos, por que motivo atacam obras de arte, e não um telefone público ou um cartaz de propaganda? Eu acho que é porque uma forma de ser doido é não entender a arte. Perceber a adoração das pessoas àquele objeto, e não saber por quê. Ele sabe apenas que é algo sagrado, mas, como um cachorro diante de um animal que nunca viu, sua única reação é arreganhar os dentes e partir pra cima. Porque, afinal, não estão sozinhos. Muita gente que não é doida também agiria assim, se pudesse, diante do que não compreende.

1391) O julgamento de Salomão (29.8.2007)





("O Julgamento de Salomão", por Gustave Doré)

Philip K. Dick dizia que uma máquina é alguém incapaz de agir como um ser humano, mesmo que seja um ser humano biológico. 

Não é um paradoxo gratuito, porque muitas pessoas só têm de humano o corpo em carne e osso, mas sua mente se comporta como a mente de um robô ou (como Dick lembrava) a mente de um inseto, que não faz julgamentos, não tem sentimentos, apenas sabe que precisa alimentar-se e para isso precisa devorar essa outra coisa viva à sua frente. Essa outra coisa viva podemos ser eu e você.

Um psicótico grave ou um viciado em drogas em estado avançado são “máquinas”, na visão de Dick. 

O que dizer de um serial killer, desses que tocaiam as vítimas, seqüestram, torturam e matam, apenas para extrair disso um prazer bestial? Não é um ser humano. O que dizer de um viciado em heroína que, no auge da crise de abstinência, sai para a rua à procura de 10 dólares e mata uma pessoa para vender por 10 dólares um relógio que vale 500? É uma máquina. 

São seres biologicamente humanos cuja mente está dominada a tal ponto por uma “função” que eles deixam de fazer as escolhas tipicamente humanas, tomar as decisões mais caracteristicamente humanas. Existem com a idéia fixa de cumprir aquela função que se apoderou se suas mentes por completo.

No filme Clube da Luta o personagem de Edward Norton trabalha para uma empresa de consultoria de seguros ou coisa parecida. Seu trabalho consiste em acompanhar acidentes de automóvel provocados por falhas mecânicas nos carros, e avaliar o que é mais caro: chamar os compradores de volta (fazer o “recall”) para trocar os produtos defeituosos, ou pagar os seguros dos acidentados, mesmo as vítimas fatais. Se o seguro for mais barato, eles deixam as pessoas morrerem. 

Quem toma decisões assim (e sabemos que decisões assim são tomadas o tempo inteiro no mundo corporativo) é um humano ou uma máquina?

Há um episódio famoso do Rei Salomão (I Reis, 3: 16-28) em que duas mulheres disputam um bebê, cada qual dizendo ser sua mãe. Salomão sugere que o bebê seja cortado ao meio e cada mãe fique com uma metade. Uma delas concorda, mas a outra prefere que o bebê seja entregue inteiro à rival – e Salomão percebe que esta última é a verdadeira mãe. 

O teste de Salomão é um verdadeiro “teste de Turing”, o teste proposto pelo matemático Alan Turing para distinguirmos (sem ver) as respostas de uma pessoa das respostas de uma máquina. Diz a Bíblia: “A mulher porém, cujo filho estava vivo, disse ao rei (porque as suas entranhas se enterneceram por seu filho): Senhor, eu te peço que dês a ela o menino vivo e não o mates”. 

A imagem literária das entranhas tem tudo a ver com a situação de quem foi mãe, e mãe recente. Mas em verdade vos digo, caros leitores, que se diante de situações como algumas que referi neste artigo, e muitas outras que rolam por aí, as nossas entranhas metafóricas não se revoltarem, é porque somos máquinas. Não somos homens, e não merecemos ser tratados como tal.





1390) O realismo naturalista (28.8.2007)




(Julio Cortázar)

Os critérios do realismo na arte às vezes não batem uns com os outros. Algo é realista se visto de um ângulo, e não é, se visto de outro. 

Numa novela das 8 nada acontece que não possa acontecer na vida real (ultimamente têm aparecido fantasmas em tudo quanto é novela, mas estes sempre podem ser atribuídos a alucinações, etc.). Mas nelas aparece muita coisa que não bate com a realidade. Não questionarei a verossimilhança psicológica (“não é realista uma mãe se comportar assim!”), porque psicologicamente qualquer coisa pode ser justificada. 

Também não discutirei erros de continuidade ou anacronismos: “se a história se passa em 1958, a música tal, que é de 1962, não podia estar tocando no rádio”. Coisas assim são descuidos, não fazem parte da concepção da obra.

No mundo das telenovelas constatamos a ausência inexplicável de detalhes realistas, que nos levam a perguntar que mundo é aquele onde as pessoas vivem. Um exemplo muito citado é a total ausência, naqueles apartamentos, de interfone no prédio ou de olho-mágico na porta, o que proporciona aquelas surpresas de fim-de-capítulo, em que a campainha toca e as pessoas abrem sem poder verificar quem está tocando. Algo absurdo em nosso mundo; mas no mundo da novela é assim, e todo mundo aceita.

Julio Cortázar discutiu esta questão certa vez, quando um crítico questionou o fato de um personagem num romance seu chegar em casa depois de meses fora, ligar o carro e o motor deste “pegar” imediatamente. O crítico perguntou se isto era um exemplo do “realismo mágico”; Cortázar replicou que não, porque bastaria ao personagem ter deixado uma cópia da chave com um vizinho de confiança, como tanta gente faz, para que de vez em quando ligasse o motor, evitando que a bateria arriasse. 

“O realismo mágico,” disse ele, “se ocorre, é num plano muito menos banal”.

O mundo das telenovelas é interessante porque violenta o naturalismo o tempo inteiro. Basta assistir novelas mexicanas, perto das quais as da Globo são verdadeiros filmes de Luchino Visconti. Ali vemos aquelas mulheres que de madrugada são acordadas pelo telefone, acendem a luz de cabeceira e estão maquiladíssimas e com o cabelo todo armado, como se acabassem de chegar numa festa. Aqueles indivíduos que pegam uma briga de socos, e saem sem uma marca no rosto. Para um espectador de TV mais escolado, acostumado a produtos feitos de maneira mais exigente, tudo isto provoca risos de incredulidade. Os mesmos risos de um espectador de filme de Visconti quando se depara com o pseudo realismo da novela das oito.

Cada gênero usa um realismo aparente na medida de suas necessidades para que suas características de gênero prevaleçam. Até uma comédia de Mel Brooks, dos Irmãos Marx ou de Monty Python, que desmontam qualquer convenção, tem que ser verossímil e convincente em tais ou tais elementos para que as piadas possam funcionar. É preciso convencer o espectador de que, no mundo proposto, aquilo está de fato acontecendo.