sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025
5150) Luís Custódio, 1950-2025 (7.2.2025)
(Em 2017, no Bar do Baixinho)
terça-feira, 4 de fevereiro de 2025
5149) As anotações finais de Antonio Cândido (3.2.2025)
(Gilda de Mello e Souza e Antonio Cândido)
-- Eu expliquei pras minhas filhas. “Ah, você é mais afetuoso que a mamãe...” Não. O negócio é o seguinte: eu sou mais afetuoso que a sua mãe, mas sua mãe é mais afetiva do que eu. Eu sou muito afetuoso. Eu encontro qualquer pessoa, “Oooh... como vai... você vai bem... senta aqui, vamos conversar...” Sua avó era mais seca. Agora, o sentimento... Sua avó era mais afetiva do que eu. Sua avó gostava muito mais das pessoas.-- Era mais emotiva?-- Emotiva, e afetiva. Eu não sou.-- Você não liga a mínima!-- Eu sou muito indiferente pro meu próprio... Sou muito cordial, por isso sou muito afetuoso. “Oh, João, como vai, venha, João, apareça, e tal...” Mas no fundo, é uma pessoa que... Eu sou morno. Não sou nem quente nem frio. Não tenho ódio às pessoas, não quero mal às pessoas, também não quero muito bem.
https://sesc.digital/conteudo/filmes/cinema-em-casa-com-sesc/o-espirito-da-colmeia
quinta-feira, 30 de janeiro de 2025
5148) O diretor e a atriz (30.1.2025)
(Isabella Rossellini e David Lynch, Veludo Azul)
Claro que Kubrick sabia o que estava fazendo, e tinha o direito de fazê-lo. Mas trabalhar com ele era provavelmente algo que todo mundo morria de vontade antes, e suspirava de alívio depois.
b) Diretor de História: o que quer contar uma história, e tudo deve colaborar com essa história. A narrativa é o centro do filme, não apenas pela originalidade do enredo, mas pelas idéias que essa enredo provoca. É um tipo de cinema mais próximo da Literatura; muitos roteiristas se tornam diretores, atuam nesta faixa, dizem nas entrevistas: “Sou um contador de histórias”.
c) Diretor de Atores: é o diretor para quem o trabalho com o elemento humano é o centro de tudo; muitas vezes são diretores que têm também uma carreira no teatro. Quando dão um close-up em alguém, decerto estão preocupados com a lente, a iluminação, e tudo o mais: mas, principalmente, com o que se está se passando naquele instante na cabeça do ator/atriz.
terça-feira, 28 de janeiro de 2025
5147) "Mindhunter": a mente de um assassino (28.1.2025)
-- O senhor vem, segundo percebo, da África do Sul.-- Sim, senhor, -- respondeu ele, algo surpreso.-- Da guarda imperial, creio eu.-- Exato.-- Do corpo de Middlesex, sem dúvida.-- Isso mesmo, Mr. Holmes, o senhor é um adivinho.Sorri vendo o ar de espanto do meu visitante.-- Quando um cavalheiro de aparência varonil entre nos meus aposentos com a tez tostada por um sol que não é o sol da Inglaterra e com o lenço metido na manga em vez de o ter na algibeira, não é difícil conjeturar a sua procedência. O senhor usa barba curta, e isso mostra que não era um soldado regular. Tem o corte de um cavalheiro. Quanto a Middlesex, o seu cartão já havia me mostrado que o senhor é corretor em Throgmorton Street. Em qual outro regimento o senhor havia de entrar?-- O senhor vê tudo.-- Não vejo mais que o senhor. O que eu fiz foi adestrar-me em reparar no que vejo.(Histórias de Sherlock Holmes, Ed. Melhoramentos, trad. Agenor Soares de Moura, p. 41)
Um detetive precisa adestrar-se constantemente a reparar
no que vê, e às vezes isto vai além do mais visível, do mais superficial. O que
somos capazes de ver da mente de um criminoso, apenas observando o local do
crime? Como saber quem é ele, que influências sofreu, que cacoetes possui, que
manias, que traumas? O que faz o comportamento de um assassino psicopata ser,
muitas vezes, organizado, racional, pragmático, lógico – e, consequentemente,
previsível?
Com essa idéia nas cabeças de muita gente foi criada na
década de 1970, na academia do FBI em Quantico (Virginia), a chamada BSU
(Behavioral Science Unit), em que investigadores e cientistas passaram a se
concentrar na elaboração de perfis psicológicos dos criminosos, o que envolvia
a realização de extensas entrevistas com psicopatas presos.
Este é o tema da série da Netflix Mindhunter, cuja primeira temporada acabei de ver agora e já me
preparo para a segunda, porque a série é muito boa. Em primeiro lugar, não é
simplesmente sobre a elucidação de assassinatos e a prisão dos culpados: é a
luta de detetives com mentalidade científica para tratar cientificamente a
investigação criminal, enfrentando resistências em muitas frentes.
(Jonathan Gross, como “Holden Ford” e Happy
Anderson, como “Jerry Brudos”)
Transforma-se o amador na cousa amada,por virtude do muito imaginar:não tenho logo mais que desejar,pois em mim tenho a parte desejada. (...)
É meio irônico e meio cruel constatar que algo parecido
ocorre entre o caçador e a caça. O caçador pensa tanto na caça, preocupa-se tanto
com ela... Uma estranha identificação começa a surgir. Adivinhar o pensamento
de alguém é transformar-se nesse alguém, em certa medida. Jorge Luis Borges
dizia que todo homem que recita uma linha de Shakespeare torna-se Shakespeare
nesse momento.
Uma variante mórbida desse processo é o triângulo vítima-assassino-detetive,
quando lidamos com crimes planejados e longamente preparados por um “serial
killer”. Ele passa semanas ou meses vigiando sua vítima, ou preparando uma
armadilha em que a vítima (neste caso, qualquer pessoa que apareça) irá cair,
quando a ocasião certa se apresentar.
David Fincher dirigiu (entre outros) filmes como Se7en (1995), Clube da Luta (1999), Zodiac (2007),
The Girl with the Dragon Tattoo (2011), The Killer (2023). A psicologia mórbida
dos criminosos não lhe é estranha. Seu mérito como diretor, no presente caso, é
conseguir jogar seus agentes federais, de terno e gravata, no ambiente hippie-universitário
dos anos 1970, onde eles são vistos como símbolos da repressão do Governo.
A reconstituição de época é precisa, não apenas no
exterior (carros, roupas, objetos de cena, expressões) mas na mentalidade. É
irônico que a própria polícia norte-americana reaja com ceticismo à
possibilidade de analisar psicologicamente algumas dezenas de criminosos e, com
isto, ser capaz de “fechar” uma investigação em alguns poucos suspeitos, e
neles apontar o culpado.
A série se baseia no livro Mindhunter: Inside the FBI's Elite Serial Crime Unit (1995), escrito pelo agente aposentado do FBI John E.
Douglas (com Mark Olshaker). (No Brasil, “Mindhunter – o Primeiro Caçador de
Serial Killers Americano”, Ed. Intrínseca, trad. Lucas Peterson.)
Diz Douglas, comentando as investigações no caso do
assassinato de Francine Elveson, em 1979, em Nova York:
Depois de revisar todas as evidências e os materiais do caso, e de tentar me colocar no lugar tanto da vítima quanto do criminoso, tracei um perfil. Sugeri que a polícia procurasse um homem branco de aparência comum, entre 25 e 35 anos, provavelmente trinta, que pareceria um tanto desgrenhado, estaria desempregado, teria hábitos mais noturnos, moraria dentro de um raio de oitocentos metros do edifício com seus pais ou uma mulher mais velha da família, seria solteiro e não teria relacionamento algum com mulheres ou amigos próximos, teria abandonado a escola ou faculdade, não teria experiência militar, teria baixa autoestima, não teria carro ou carteira de motorista, estaria ou teria estado em uma instituição psiquiátrica e tomaria medicamentos controlados, teria tentado suicídio por estrangulamento ou asfixia, não abusaria de drogas ou álcool e teria uma coleção enorme de pornografia de bondage e sadomasoquismo. Esse seria o seu primeiro assassinato e, na realidade,seu primeiro crime grave, mas não seria o último, a não ser que fosse capturado.
— Não precisam procurar muito longe por esse homicida — falei para os investigadores. — Vocês, inclusive, já conversaram com ele. (p. 138)
Nos episódios finais da série há uma cena interessante em que os agentes Ford e Bill Tench (interpretado por Holt McCallany) conversam com a psicóloga Dr. Wendy Carr (interpretada por Anna Torv) e discutem a nomenclatura que precisam estabelecer para a pesquisa – e acabam chegando, meio casualmente, à expressão “serial killer”.
domingo, 26 de janeiro de 2025
5146) A foto impossível (26.1.2025)
Lá por volta dos anos 1980, o fotógrafo francês Greg Girard estava andando e fazendo fotos dentro de Kowloon City, em Hong-Kong. Fotógrafo é como caçador: tem que estar o tempo inteiro com o olho atento e o dedo no gatilho. Às vezes, por um segundo de distração se perde a caça.
A caça, no caso do fotógrafo, é aquela foto de algo que cruza a nossa vista, e quando o artista pega a câmera e leva ao olho... babau tia Chica. Passou. Aquela foto, nunca mais.
Foi
o que aconteceu com Girard. Ele conta que viu uma comissária-de-bordo da Cathay
Pacific descer de um táxi e entrar no labirinto urbano de Kowloon City, puxando
atrás de si a mala-com-rodinhas. Sua elegância e postura faziam um contraste
brusco com o ambiente decadente em volta, mas ele a perdeu no labirinto de
ruelas antes de poder fazer uma foto.
(Kowloon City)
Para quem não sabe, Kowloon City, “a Cidade Murada”, ou “a Cidade Emparedada”, era um dos ambientes urbanos mais surrealistas do Oriente. Num espaço equivalente a um quarteirão de uma grande cidade, viviam mais de 30 mil pessoas enfurnadas em edifícios precários, decadentes e gigantescos, num viveiro humano que é difícil de acreditar sem ver.
Em algum momento, Kowloon foi considerada o local de maior densidade de ocupação em todo o planeta. Cheio de problemas criminais, sanitários, ambientais, urbanísticos, o complexo de edifícios foi demolido em 1994.
Quanto a Greg Girard, ele ficou com aquela imagem na cabeça durante anos. Todo fotógrafo (cineasta, pintor, etc.) tem essas coisas. É uma idéia que fica pendurada na memória, como uma ficha esperando a hora de cair.
E de repente apareceu a tecnologia da Inteligência Artificial, onde é possível descrever com razoável precisão a imagem que temos em mente, e... voilà!... A foto é feita.
Trabalhando em
parceria com a artista de Hong Kong, Bianca Tse, Girard forneceu a ela as
informações e depois de muitas tentativas algumas fotoficções foram compostas.
Não para se fazer passar por fotos autênticas, mas para recuperar uma idéia que
tinha charme em si: o contraste entre a elegância da personagem e a sordidez do
local.
Bianca Tse usa a I. A. principalmente para encurtar caminhos e reduzir despesas logísticas, diz ela:
Bianca Tse usa a I. A. principalmente para encurtar caminhos e reduzir despesas logísticas, diz ela:
Não preciso contratar atores, não preciso montar toda a cena, e, sim, isto poupa uma enormidade de tempo, e principalmente de dinheiro, porque não haveria ninguém disposto a investir em mim para criar esse tipo de obra.
Aqui:
https://edition.cnn.com/2025/01/01/style/bianca-tse-hong-kong-images-ai-hnk-intl/index.html
Qualquer pessoa pode se sentir incomodada com isto – no presente caso, os atores que hipoteticamente poderiam ter sido contratados e pagos por Bianca, para realizar suas fotos. A questão é que quando os recursos são poucos qualquer pulo-do-gato é bem vindo, qualquer solução barateadora, simplificadora.
O cinema brasileiro faz isto há séculos. A lei que vigora no mundo da Arte Precária é esta: “Se for esperar para fazer somente quando tiver condições, você não vai fazer nunca; faça agora, do jeito que der, e lá na frente a gente resolve os pepinos.”
Acho que a Inteligência Artificial vai desempregar muita gente, talvez até eu mesmo. Entretanto, quando um tsunami se aproxima não cabe ficar discutindo se o tsunami está certo ou errado. Já aconteceu, e a questão é como sobreviver a ele.
Os bateristas sobreviveram à invenção da bateria eletrônica. O teatro sobreviveu à invenção do cinema, e este à invenção da TV.
Bianca Tse usa a I. A. para criar imagens meio surrealistas, impossíveis de produzir com atores e cenários de verdade.
“Superpopulação” (acima) é um trabalho dela usando a ferramenta do Midjourney, e abre esta linha de argumentação: a I. A. pode nos ajudar a produzir fotos impossíveis, fotos além das possibilidades físicas de um fotógrafo tradicional. Deixa-se o território da foto propriamente dita e entra-se no território dos efeitos especiais e da computação gráfica.
Nos recentes incêndios acontecidos em Los Angeles, compartilhei nas redes sociais uma imagem da colina onde o letreiro HOLLYWOOD aparece com uma cortina de fogo por trás.
Várias pessoas vieram me advertir que a foto era feita com I. A., e que daquele ângulo seria impossível avistar o fogo. Aceitei a correção, mas com uma ressalva: para mim, o poder da imagem não estava no seu possível conteúdo jornalístico (“captei visualmente um fato que está acontecendo”), mas na sua simplicidade simbólica: Hollywood está em chamas.
Esse conteúdo simbólico seria o mesmo se a imagem fosse um cartum desenhado a nanquim, um quadro a óleo, etc. O mesmo impacto: “Hollywood está em chamas”.
Não há dúvida de que a I. A. potencializa um perigo grave, que já vinha desde o CorelDraw, desde o AdobePhotoshop: a possibilidade de alterar imagens reais ou criar “do zero” imagens novas, com total aparência de realidade, mesmo sendo falsas.
Existe uma linha evolutiva muito clara entre estas tecnologias. A grande inovação da I. A. é o fato de que o usuário nem sequer preciso dominar uma técnica de interferência na imagem. Bastam comandos verbais. A pessoa pode inventar uma foto ou uma pintura ou um filme sem pegar no mouse, apenas descrevendo o resultado que quer.
(ilustração: Bianca Tse)
As fotos de Bianca Tse oscilam nesse limite entre o possível e o impossível – exatamente como o próprio “bairro” de Kowloon em sua cidade natal, aquele “favelão”, aquela aberração urbanística que, como já se disse muitas vezes, era preciso ver para acreditar que existia mesmo.
Depois que transcorre um século, a distância entre o real e o irreal se torna uma questão de fé.
(Para quem tiver curiosidade,
no link abaixo há uma extensa matéria sobre Kowloon City, com numerosas fotos.)
https://cityofdarkness.co.uk/category/the_city/
quarta-feira, 22 de janeiro de 2025
5145) "Little, Big" e a Fantasia Urbana (22.1.2025)
Um relançamento recente nos EUA tem motivado novas discussões sobre o
tema: o do romance Little, Big (1981)
de John Crowley, um clássico moderno, que na época em que saiu ganhou o World
Fantasy Award, e recebeu elogios entusiasmados do crítico Harold Bloom, que o
incluiu no seu livro O Cânone Ocidental.
Diz Bloom, comentando a obra de Crowley:
Diz Bloom, comentando a obra de Crowley:
“Little, Big” me parece tão miraculoso quanto Shakespeare ou Lewis Carroll: é como se o livro sempre tivesse estado aqui, tal como se Falstaff ou Humpty Dumpty estivessem aqui desde o princípio das coisas, e Shakespeare e Carroll os tivessem simplesmente encontrado. Sempre tive a impressão de que “Little, Big” já estava aqui e John Crowley apenas o encontrou e o trouxe para casa, a dele e a nossa.
(prefácio a Snake’s Hands: The Fiction of John Crowley, trad. BT)
Marge ficou parada na porta observando-a, repleta da estranha sensação de que tinha sido apenas para essa visita tão rápida que ela tinha vivido toda sua longa vida. Que esse chalé à beira da estrada e essa lanterna em sua mão e toda a série de acontecimentos que a fizeram existir tinha como único objetivo fazer com que aquela visita acontecesse. (p. 532, trad. BT)
E no entanto ele precisava apenas sentar diante da maltratada máquina de escrever (e como ela sofria!...) para que os capítulos começassem a se desdobrar tão habilmente e tão impossivelmente quanto uma fila interminável de lenços-de-seda coloridos que um mágico extrai da própria mão vazia. Como fazer uma história terminar com a promessa de que não terminará nunca? (p. 572)
Porque o Tirano, Russell Eigenblick, não seria esquecido. Um longo período de tempo se estendia diante do seu povo, um tempo amargo em que aqueles que se opuseram a ele iriam, na aus ausência, se voltar uns contra os outros, e a frágil República seria partida e recomposta de vários modos diferentes. Naquele longa disputa, uma nova geração viria a esquecer os sofrimentos e as dificuldades que seus pais haviam sofrido no tempo da Besta, iria olhar oara o passado com nostalgia crescente, com a dor profunda de uma perda, para aqueles anos já além do horizonte da memória viva, para aqueles anos em que, parecia-lhes, o sol sempre estava brilhando. (pág. 694)
Aqui, escrevi sobre o ótimo The Translator:
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