quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

5143) Jessier Joyce (15.1.2025)



 
As idéias também rimam, de vez em quando. Às vezes a gente está lendo um romance policial italiano, aí pega por acaso um livro de um poeta argentino do século 19, e quando menos espera vê duas frases, ou dois parágrafos, ou duas cenas que têm tudo a ver entre si, como se aqueles dois autores estivessem conversando por cima das nossas cabeças e do nosso espaçotempo. 
 
Estou lendo o livro de Frank Budgen (James Joyce and the Making of Ulysses, 1934) onde o autor, que conviveu com Joyce em Zurich, recorda suas conversas, e comenta os episódios do romance joyceano com o olhar de quem acompanhou a criação daquela obra, por assim dizer, no próprio set de filmagem. 
 
E me caiu nas mãos o livro novo de meu primo-transverso Jessier Quirino, Eu Parece que Tô Vendo (Recife, Ed. Bagaço, 2024), com o habitual tabuleiro sortido de poemas, quadrinhas, aforismos, comparações, canções, verdades enfeitadas e mentiras involuntárias. 
 
Se eu fosse um profissional rigoroso faria aqui um parêntese para explicar aos meus leitores de Joyce quem é Jessier, e aos meus leitores de Jessier quem é Joyce; mas este blog é apenas o que Antonio Houaiss chamaria “uma obra de desfastio”, então irei direto ao assunto. 
 
Uma coisa em comum entre esses dois cabocos é a volúpia quase-etílica da palavra, o prazer de curtir as palavras, de abri-las como um guri abre um Kinder-Ovo, de colecioná-las como um torcedor coleciona gols na memória. Tanto o irlandês quanto o paraibano são escritores encharcados do linguajar dos livros e das feiras-livres, das academias e das calçadas, dos botequins e das bibliotecas, das lojas de conveniência e das casas de tolerância. 
 
Quando Jessier diz “eu parece que tô vendo” ele alude certamente à “inelutável modalidade do visível” de Stephen Dedalus no Ulysses: o que se pode ver com os olhos e com a mente, ou, como diz o catacego Joyce, “feche os olhos e veja”. 
 
Jessier define o poeta como “um prestador de atenção”, e vou aproveitar um dos seus textos onde ele se põe a explicar como é possível reconhecer um sertanejo pelo seu palavreado, palavrório, palanfrório. Como fazê-lo? Vejamos na página 71: 
 
Pegar bigu na palestra 
nos franzimentos de testa 
e, cada palavra escutar. 
 
É lascança; é caixa-prego 
breado; chorumingado; 
labrojeiro; é pirangueiro 
nem deu fé; amundiçado 
bafafá; foi no migué; 
munganguento; incriquiado; 
infeliz-das-costa-oca;
chinelão espragatado,
imbeiçado; puxincói;
é toitiço; é trimilique
zoró; brebote; miado;
bateu fofo; é breu-com-cola!
Tibungão; atabacado
encangado; cocorote
xexêro; malacabado. (...)
 
Por enquanto basta. Já me serve para deixar de presente uma paginazinha da minha Work In Progress pessoal: o meu Dicionário Nordestinense (também referido como Assim Falou Trupizupe), uma compilação desopilante que pode servir como modesto adendo ao gargantuesco Dicionário do Nordeste (Recife, CEPE, 2013, 2ª. ed.) de Fred Navarro. 
 
Dito isto, vamos ao ave-palavra em pauta.
 
Lascança
É o ato isolado de se lascar, ou a condição permanente de quem vive se lascando. “Veja o exemplo do Botafogo do Rio: não vivia naquela lascança?... Então? Se ele se salvou, qualquer um pode!...” 
 
Caixa-prego
Exemplo clássico de lugar distantíssimo, também conhecido como “Caixa-bozó”. Vale lembrar: é o nome de um lugar real na ilha de Itaparica (BA), com a grafia de “Cacha Pregos”. 
 
Breado
Tecnicamente, significa “sujo de breu”, mas na prática é sujo de qualquer coisa. “Me traz uma muda de roupa, essa aqui tá toda breada de lama.” 
 
Chorumingado
A ação de “choramingar”. “Você pare com esse chorumingado aí, não tá doente coisa nenhuma, vai pra aula nem que seja debaixo de cacete.” 
 
Labrojeiro
Mal-amanhado, mal-feito, mal-arrumado; uma coisa de mau gosto, de má qualidade. “Meu marido inventou de me dar um presente, mas me deu um relógio tão labrojeiro que quando eu vou pra rua eu tiro do braço”. 
 
Pirangueiro
Uma combinação de malandro, desocupado, filador-de-cigarro, pedidor-de-dinheiro-emprestado. “Não quero você andando com esse sujeito, é um pirangueiro de porta de bodega, não tem o menor futuro.” 
 
Nem deu fé
Dar fé é perceber, notar, reparar em alguma coisa. “Levaram meu celular e eu só dei fé quando cheguei em casa”. 
 
Amundiçado
“Mundiça” (ao pé da letra, “imundície”) designa tudo que não presta, principalmente algum conjunto de gente vulgar, de maus costumes. “Não se misture com aquela mundiça daquele bar.” “Você de uns tempos pra cá está todo amundiçado, são esses seus amigos da sinuca.” 
 
Bafafá
Briga, confusão, altercação violenta. Para alguns teóricos mais sofisticados, o mesmo que “rififi”. Ou “sururu”. 
 
Foi no migué
Curiosamente, esta gíria me parece mais carioca do que nordestina, e se for mesmo é mais um desses contrabandos verbais incentivados em mão dupla pela televisão. O “migué”, como o entendo, é truque, é finta, é negaceio, seja físico ou mental. “Cheguei atrasado no trabalho, mas quando me viram dei um migué e falei que tinha saído de novo, pra comprar cigarro”. 
 
Munganguento
Adjetivo, derivado do substantivo “munganga” (=trejeito, careta, gatimônia). “Eu sou fã de Tom Waits, mas depois de velho ele está cada vez mais munganguento”. 
 
Incriquiado
É uma versão-tremida de “encarquilhado”, cheio de pregas, de rugas. “Fiquei meia hora na pia lavando prato, vê só as pontas dos meus dedos, tá tudo incriquiado”. 
 
Infeliz-das-costa-oca
Um insulto pesado cuja origem se perde na noite dos tempos e na madrugada das discussões de mesa-de-bar. Não sei o significado, no contexto, dessas “costas ocas”. Talvez tenha relação com o termo “santinho do pau oco” (=hipócrita), em alusão àquelas imagens de santo, feitas de madeira, que eram ocas e serviam para esconder dinheiro. 
 
Chinelão espragatado
É o chinelo que, de tanto uso, espragatou-se todinho. Amassou-se, deformou-se. Termo parecido é “achinchelado”, mas usa-se com sapato: é quando a gente enfia apenas a parte dianteira do pé dentro do sapato, e fica pisando na borda traseira com o calcanhar: isso é “achinchelar” o sapato (“achinelar”). Atrai puxões de orelha maternos. 
 
Imbeiçado
Ou “embeiçado”: é estar em vias de apaixonamento por outra pessoa, arrastando-a-asa, arriado-dos-quatro-pneus. Em inglês, “infatuated”. 
 
Puxincói
“Puxa-encolhe”: qualquer processo repetitivo, que não avança, que não resulta, que é preciso ficar insistindo nele, mesmo sem muita esperança de resultado. Nas últimas décadas, tem dado lugar ao equivalente “muído”. 
 
Toitiço
A parte frontal do tórax; o peito, o peitoral. “Ele nem bem terminou de falar e eu dei-lhe uma cabeçada no toitiço que ele caiu de bunda na poça do meio-fio.” 
 
Trimilique
Estremecimento generalizado, talvez com causa física, mas geralmente por medo, paúra, choque de covardia, afrouxamento-das-pernas. Existe a variante “estrimilique”. 
 
Zoró
Tonto, desnorteado, desorientado, sem conseguir fixar a vista numa coisa nem a cabeça numa idéia. “Rapaz, quando ela vem falar comigo eu fico zoró, só acerto a dizer besteira, e quando-é-depois a vontade de morrer é grande”. 
 
Brebote
A pronúncia é “brê-BÔ-te”. Conversa fiada, miolo-de-pote, cordão-de-besteira, de nonada, de tutaméia... “Vamos comprar uma cerveja e ficar conversando brebôte na calçada!. 
 
Miado
Adjetivo: mixuruca, fraquim-fraquim, sem graça, sem valor, sem interesse. “Achei muito miada a festa de casamento deles – pra o tanto que ele diz ter gasto...” 
 
Bateu fofo
“Bater fofo” significa ficar muito aquém da expectativa criada. A analogia é com um tambor;  alguém se prepara pra percutir, com muita mizancene, e quando desfere a pancada vê-se que o couro do tambor está mole, frouxo, meh. Lenine usou isso em “Que Baque é Esse”: “E o maracatu passou já com o bombo batendo fofo...” 
 
Breu-com-cola
Breu é mais uma palavra multiuso. Na minha infância, usava-se para negar algo com veemência: “ – Domingo o Campinense vai ganhar do Treze!... – Vai ganhar, breu!  Treze cinco a zero!...”   Essas negações iam se enfeitando e ficando mais barrocas, quando eu tinha uns 12 ou 13 anos já se dizia: “É breu com cola, macaco na escola, tomando Coca-Cola!...” – pra dizer: “de jeito nenhum”, “nem que a vaca tussa”. 
 
Tibungão
O verbo é “tibungar”, onomatopéia derivada de “tchibum”. Ou seja: mergulhar na água com barulho, com espalhafato. “Bora tibungar no açude!” “Tibungão” pode ser um mergulho mais ruidoso. 
 
Atabacado
“Tabaco” é outra palavra multiuso. Um sujeito abobalhado, bundão, é “um tabaco-leso”. Quando uma pessoa cai de maneira desengonçada, barulhenta, ela “se estabacou”. “Atabacado” (ou “entabacado”) deve ser quando o sujeito está furioso, botando fumaça pelas ventas. 
 
Encangado
Preso a uma canga, aquela peça de madeira que mantém juntos os bois de carro. Por extensão, tudo que está sempre junto. “Ele e aquele amigo dele vivem encangados, pra onde vai um o outro vai atrás” Aparece também na expressão “Ah, Fulano, vai encangar grilo!...” – expressão de impaciência equivalente a “vai pentear macaco, vai catar minhoca no asfalto!...” 
 
Cocorote
Pancada na cabeça de alguém com os nós dos dedos. Primo-carnal do “cascudo”, com a diferença de que o “cascudo” é uma pancada seca e rápida no quengo da vítima, e no “cocorote” a gente fecha a mão, pressiona os nós dos dedos no quengo e depois os desliza com toda força, “riscando” o crânio do infelicitado. 
 
Xexêro
Ou “xexeiro”: o indivíduo que “passa xêxo”, ou seja, deixa de pagar uma despesa, uma dívida, etc., e escafede-se da maneira mais discreta (ou mais cara-lisa) possível. 
 
Malacabado
Pode trocar na balança por “labrojeiro”, e só um especialista toca o alarme. 
 
***
 
E para encerrar, preciso dar um alerta: a lista acima não é de invenções jessierianas. Tudo isto é linguagem coletiva, da rua-de-cima e da rua-de-baixo, das-antigas: é um vovocabulário, que gerações atrás já era dito e entendido sem catabís. 
 
Ao mesmo tempo, Jessier é também um palavrista consumado, e no mesmo livro eu cato ao Acaso invenções miúdas, desprovidas da prosopopéia impoluta de quem quer invadir dicionários – é apenas a palavra-nova brotando como um drible-de-corpo necessário para resolver um momento específico. 
 
E assim brotam “esperando de tocaia que ela me lararasse”, “versejador tutanudo”, “ele tava pensaroso”, “jumentice desgovernou sua vida”, “cuscuz cortado aos pedaços e cuscuz esfarofado”, “sofreu uma incinerança no peito”... 
 
Uma palavra nova é um prego-e-tábua onde pregar uma idéia para que ela não fuja, e às vezes a dita-cuja cai no gôto, cai no gôsto, ganha nome, rosto e verbete. 



 
 




domingo, 12 de janeiro de 2025

5142) Oito fatos reais (12.1.2025)




1
Jim Walpole, 77 anos, caminhava por uma rua de Toronto quando tropeçou e caiu de encontro a um andaime, sofrendo um corte profundo no pescoço. Pessoas correram para ajudá-lo, e um homem careca, que passava pelo local, ajoelhou-se junto dele e exerceu pressão sobre o ferimento, contendo a hemorragia. O homem disse: “Meu nome é John. Fique tranquilo, o senhor vai ficar bem.” O homem chamado John parecia seguro do que fazia, controlando por completo a situação, dando instruções às pessoas em volta, até que chegaram os paramédicos e socorreram o idoso, que escapou com vida. O homem careca era o ator John Malkovich, que estava de passagem pela cidade com uma peça de teatro. 
 
2
No seu tempo de estudante em Madrid, Luis Buñuel tentou certa vez, por passatempo, com seus amigos, hipnotizar uma mulher num bordel que frequentava. Conseguiu, mas no mesmo instante vieram avisá-lo de que outra mulher, Rafaela, tinha adormecido bruscamente na cozinha. Dom Luis foi despertá-la, mas daí em diante criou-se um vínculo psíquico entre os dois. Bastava que ele passasse pela rua, caminhando na calçada diante do bordel, para que Rafaela, sem ter noção da proximidade dele, entrasse em transe. E mais de uma vez ele apostou com os colegas que podia chamá-la telepaticamente: sentavam na mesa de um café, Buñuel pensava nela com intensidade, e minutos depois Rafaela aparecia, desorientada, sem saber onde estava. 
 
3
O cineasta Orson Welles nasceu na cidade de Kenosha (Wisconsin), mas foi concebido no Rio de Janeiro, onde seus pais estavam em viagem de férias – o que talvez explique o interesse especial que sempre teve pelo Brasil. Era um garoto precoce, e quando tinha um ano e meio de idade um médico da família entrou no seu quarto e o viu de pé, dentro do berço, dizendo com toda seriedade: “O desejo de tomar medicamentos é uma das principais características que distingue o ser humano dos animais.” 
 
4
O escritor Julio Cortázar estava passando por Connaught Place, em Nova Délhi, quando foi cercado por pequenos engraxates, um dos quais rapidamente passou a tirar seus sapatos de camurça. Intimidado e um tanto compadecido, ele se resignou com a perspectiva de ver seus caros sapatos marrons serem mortalmente besuntados por uma graxa qualquer, e aceitou ser descalçado e enfiar os pés com meias em dois suportes de papelão. Qual não foi sua surpresa ao ver o pequeno lustrabotas abrir sua caixa de material e tirar dali uma inesperada, múltipla, policrômica, interminável e maravilhosa série de frasquinhos cheios de pós coloridos, de onde começou a misturar pós de cor marrom, sépia, amarelo, branco, negro... Enquanto com um palito os misturava dentro de um pedaço de gaze, seus olhos iam e vinham do sapato ao pó, do pó aos frasquinhos, até que tudo se encerrou com o gesto de turista torpe: pagar, única comunicação possível entre estes dois mundos. 
 
5
Em 1941, durante a guerra contra o Eixo, os estrategistas da propaganda britânica passaram a usar o chamado “V da Vitória”, o popular gesto com dois dedos erguidos, induzindo nas multidões um senso de confiança e otimismo. O primeiro-ministro Winston Churchill ajudou a popularizar o gesto, inclusive conjugando-o com o seu hábito de segurar o charuto entre os dedos. A BBC de Londres percebeu também que no código Morse a letra “V” é representada por três pontos e um traço ( “ . . . – “), e que esses sinais reproduzem, por coincidência, as notas iniciais da Quinta Sinfonia de Beethoven. (A coincidência envolve também o fato de que “Quinta” é representada com um “V” em algarismos romanos.) E as transmissões da BBC relativas ao noticiário da guerra passaram a ser introduzidas por estas notas musicais, o equivalente sonoro ao gesto visível. 
 
6
Henri Langlois, o famoso curador da Cinemathèque Française, teve em 1972 a idéia de fazer uma exposição de material relativo ao cinema, o Museu do Cinema. A exposição foi um sucesso, mas ele não se deu o trabalho de expor o material dentro de mostruários envidraçados e trancados. Isso fez com que poucos dias depois da abertura sumissem da exposição o casaco de couro de James Dean e o vestido que Marilyn Monroe usou em O Pecado Mora Ao Lado. Questionado a respeito pelo seu amigo Jean Rouch, ele respondeu: “Pouco importa se roubaram o vestido, eu tenho outros cinco e, se acabarem, peço a Pierre Cardin para fabricar outro igual. O museu é um museu do imaginário.” 
 
7
O escritor Conan Doyle, depois de ficar célebre com o espantoso sucesso editorial das aventuras de Sherlock Holmes, deparou-se com todo tipo de situação criada pelos seus fãs. Certa vez, estava tomando parte num campeonato amador de bilhar, esporte que curtia bastante, e ao entrar no salão das competições um funcionário lhe entregou um pequeno pacote deixado por um fã. Ao abri-lo, Doyle encontrou um pedaço de giz verde, do tipo que se usa para passar na ponta do taco. Pôs o giz no bolso e passou a usá-lo daí em diante; virou uma espécie de giz de estimação, possivelmente porque lhe dava sorte. Até um dia em que, meses depois, esfregando o giz na ponta do taco, o pedacinho se quebrou e revelou que era oco, e trazia lá dentro um papelzinho dobrado. Doyle abriu o papel e leu: “De Arsène Lupin para Sherlock Holmes”. 
 
8
Maria Luiza era uma jovem tímida e muito religiosa, que chegou a fazer estudos preparatórios para se tornar freira, mas acabou desistindo. Durante esse período de crise vocacional, hospedou-se na casa de um irmão seu, em outra cidade.  Certa tarde ficou sozinha cuidando do bebê do casal. Tinha que dar-lhe uma mamadeira na hora exata, mas os relógios da casa estavam desencontrados. O que fazer? Resolveu telefonar para algum lugar, mesmo desconhecido, e perguntar as horas. Viu no catálogo um nome que julgou ser de alguma instituição religiosa, ligou, um rapaz atendeu. Ela perguntou as horas, ele respondeu mas estranhou – “a senhorita não tem relógio?!...” Era uma pensão para jovens estudantes; os dois entabularam uma conversa, simpatizaram um com o outro, conheceram-se, casaram-se, ficaram juntos até o fim da vida. A moça era “Iza”, irmã de João Guimarães Rosa, que divertia-se contando este episódio a sua filha Vilma. 
 
 





quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

5141) As fantasmagorias artificiais (9.1.2025)




(imagem: Petr Válek)


Eu defendo há anos esta teoria: o videogame será, para o século 21, o que o cinema foi para o século 20. Começou como simples curiosidade técnica, uma diversão de quermesse e de galeria de camelôs, começou a atrair muita gente, a dar dinheiro, e começaram a chegar as pessoas de cabeça realmente criativa (e precisadas de dinheiro, como é o karma dos criativos), e “do nada” surgiu uma nova Usina de Sonhos. 
 
Agora, estamos em 2025, e basta comparar. No ano de 1925, no cinema, já tínhamos Griffith, Eisenstein, Fritz Lang, Chaplin... mas tudo isto é pouco.  O Cinema estava apenas começando.  

No mundo dos games, há gostos para tudo, mas pode-se considerar como franquias/séries fundadoras títulos como Super Mario Bros, Prince of Persia, Monkey Island, Grim Fandango, The Sims, The Legend of Zelda, Skyrim, Final Fantasy, Metal Gear, Grand Theft Auto, Fallout, Myst, Red Dead Redemption, Assassin’s Creed, Shadow of the Colossus... Estou falando apenas dos que já joguei algumas horas, uma vez ou outra. Tem muito mais coisas. 




 
Estou começando a considerar uma variável nova nessa equação: é a famigerada Inteligência Artificial. 
 
Se algo já estiver presente, como idéia, na cultura de um povo; se for tecnicamente possível, e não for economicamente inviável, provavelmente acontecerá. E a Inteligência Artificial, com todos os seus prós e contras, suas promessas e ameaças, com todo o seu brotar-desarrumando, já fincou sua bandeira em terra habitada.  
 
A invenção de tecnologias de produzir imagens animadas fez as redes sociais virarem uma proliferação de grotesquerias, no bom e no mau sentido. Quem tem tempo, grana, imaginação e curiosidade está tendo a chance de participar de um momento fundador na história das Imagens Luminosas em Movimento (nem vou falar de texto ou de imagem fixa, porque aí o céu é o limite). 
 
Os algoritmos das redes sociais têm feito pousar nas minhas timelines os trabalhos de gente que não conheço, com experiências curiosas. Esses artistas usam o fenomenal banco de imagens da I.A. (feito às custas de muita pirataria e pilhagem de trabalhos individuais, é bom lembrar), e começam a alterar essas imagens, interferir nelas, recombiná-las com imagens de outras estirpes, e criar com isso pequenas miniaturas animadas. 
 
Aqui estão alguns exemplos vistos ultimamente. Alguém pode dizer: “Que coisa horrorosa! Então todas as animações por I. A. da Internet são coisas de filme de terror?...”  
 
Minha resposta: Não, não é, e deve haver a esta altura um bilhão de animações com anjinhos barrocos, colibris gorjeantes, greguinhos de toga tocando harpa, e sei lá mais o quê. O algoritmo folheia isso e diz aos sub-algoritmos: “Não mandem isso para BT, ele não curte, ele gosta é de fantasmas, monstros alienígenas, esqueletos, ciência gótica, aventura steampunk...” – e não estará muito longe da verdade. 
 
Aqui vão algumas séries de imagens que recolhi e compartilhei no Facebook ultimamente. São trechinhos curtos, visivelmente imagens recicladas mediante um “prompt”, com resultado equivalente aos famosos “GIFs animados”, a novidade de quinze anos atrás, por aí. 
 
Fico comovido com as imagens da série The Rage of Angels, de Alexandra Gorsf (podem ser acessadas aqui:) 
https://www.facebook.com/watch/?v=3086375484843007
 
Elas fazem uma síntese curiosa entre o Fofo e o Horripilante, misturando criancinhas angelicais e insetos monstruosos. 





 
Um trabalho muito detalhado e inquietante é o de Fredrik Jonsson, com a série “Mechanimal” (com criaturas híbridas e animal e robôs), outra série mostrando grupos de cientistas investigando, com toda calma e atenção, criaturas monstruosas; e a série “Cloud Station” onde ele cria estações de trem meio futuristas, meio steampunk, onde evoluem personagens enigmáticos. 














 
Outro maluco genial é o músico Petr Válek. Ele gosta de fazer uns clips encarnando um personagem amalucado, com músicas barulhentas, uma espécie de noizak (noise + muzak). É uma mistura de Daminhão Experiença, Edgar Varèse e Walter Franco. Estes clips tornam-se bastante divertidos se a gente aceitar que o objetivo ali não é propriamente criar belas melodias ou harmonias inovadoras. 
 
O portal de Válek no YouTube tem uma série desses clips musicais, principalmente os clips com imagens aterrorizantes. Ver esses clips tem feito um grande bem à minha saúde, indiretamente, porque agora tenho certeza de que JAMAIS tomarei ácido lisérgico ou coisa parecida, só pelo medo de acessar essas memórias e ser mentalmente transportado para os ambientes macabros e as criaturas sinistras de Valék, imagens produzidas com grande economia de efeitos. Quem quiser que se arrisque.  
 
Aqui, o portal do YouTube, the VAPE:
https://www.youtube.com/@thevape5030
 
E alguns exemplos das imagens de Válek:




"Insignificant Episode 698":




"Lighting the fourth Advent candle":





Não sei avaliar como anda no mundo inteiro a criação desses clips, e não tenho como saber até que ponto eles são feitos com o uso de Inteligência Artificial. São, em última análise, uma série enorme de colagens de imagens bizarras. Imagens com certos movimentos limitados, denunciando o uso de Inteligência Artificial. Gestos mecânicos, meio erráticos, que não esperaríamos de uma pessoa real. 
 
São cenas curtas com duração de cinco a dez segundos, logo substituídas por outras, sucessivamente. Não há narrativa, não há história. Tudo acontece num limbo sem contexto, imagens se movendo e nada mais. Apenas o ambiente fantástico, os personagens grotescos, os gestos limitados e repetitivos. 
 
Esses clips acabam me trazendo à memória as primeiras experiências de Georges Méliès (1861-1938), um dos pioneiros do cinema. Muita gente deve se lembrar dele como o personagem interpretado por Ben Kingsley no filme A Invenção de Hugo Cabret (2011), de Martin Scorsese. 


 
Méliès foi o primeiro cineasta a pesquisar, descobrir e aplicar sistematicamente todo o arsenal de efeitos especiais resultantes da natureza mecânica do equipamento cinematográfico: a filmagem interrompida, a câmera lenta, a câmera acelerada, a superposição de imagens, etc. 
 
Méliès acabou evoluindo para o filme narrativo, mas seus primeiros filmes de curtíssima metragem eram somente isto: episódios isolados, de poucos segundos, com o único propósito de explorar um novo truque, um novo efeito. Essa novidade técnica seduzia as platéias, tal como hoje nos deslumbra o fato de vermos em movimento essas imagens de I.A., híbridas, superpostas, improváveis, impossíveis. 





 
Minha expectativa é que aos poucos essas três vertentes fundamentais irão convergindo para formar "o Algo", a arte típica do século 21: 
 
a)      A Inteligência Artificial trará seu acervo pilhado e pirateado de toda a cultura mundial, e a brutal aceleração de seus algoritmos turbinados, capazes de copiar, cortar e colar as imagens mais diversas num piscar de olhos, de acordo com qualquer prompt do usuário; 

b)      O Videogame trará a interatividade, a participação ativa e a interferência constante do usuário/espectador na narrativa, a possibilidade de viajar por dentro de universos minuciosamente planejados para reagir à sua presença, produzindo uma infinita ramificação de situações e experiências; 

c)       O Cinema trará a dramaturgia, o senso narrativo, a capacidade de criar personagens e situações humanas com densidade suficiente para atrair, segurar e satisfazer por duas ou três horas ininterruptas a atenção de um público (individual ou coletivo). 
 
As possibilidades, como sempre, são infinitas. 
 
 
 
 
 

 

 

 




segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

5140) O "Ulysses" e suas odisséias (6.1.2025)




 
The book, pra variar, is on the table. 
 
Por variados motivos andei catando milho nas páginas do Ulisses de James Joyce, que infelizmente não tenho em papelivro – tenho cópia eletrônica (PDF) da edição em inglês, e também da tradução de Caetano W. Galindo, de quem já acompanhei com proveito palestras e entrevistas. Gosto do formato literatrônico, que tem a grande vantagem de buscar trechos específicos com velocidade Aladínica. 
 
Ulisses é um livro onde se aprende muito, se a gente abre mão da obrigação de entender tudo. Ou de lê-lo por inteiro. Alguém já viu o Louvre por inteiro? Já viu o MoMa por inteiro, ou até mesmo nosso querido MAM carioca por inteiro? Não. Esses lugares são para visitas frequentes e descobertas-de-surpresa. Em cada chegada-ali a gente aprende e decifra alguma coisa, e volta para casa com uma vitoriazinha nova na algibeira do espírito. 
 
Uma das dificuldades que sempre tive com o Ulisses foi o fato de que sou um leitor tradicionalista, quase caretão. Sou da escola de Conan Doyle, Maupassant e Erico Verissimo.  Gosto de textos onde os ambientes e personagens são visualmente descritos de forma até didática, onde quando há um diálogo sabemos quem foi que falou, e temos sempre uma noção clara do tempo e do espaço onde acontece a cena que estamos lendo. 
 
É justamente para não ficar atolado nesse formato que frequento a literatura de vanguarda, assim como quem durante a semana está no feijão-com-arroz caseiro, e no domingo vai a um restaurante tailandês ou baiano. Temos que empurrar o horizonte com a testa. 
 
E nessas fugidas ocasionais para conhecer o Ulisses acabei descobrindo uma série de filmes que me trazem o mundo visual da história, esse mundo que a descrição faiscadora e ziguezagueante de Joyce me negaceia o tempo todo. E aqui vão algumas dicas; todos podem ser encontrados no YouTube ou em serviços de “streaming”. 
 
1
James Joyce’s Ulysses (Channel 4)
https://www.youtube.com/watch?v=Ob3NWUtCCJI&t=1123s
 
Um desses documentários é James Joyce’s Ulysses, uma produção do Channel 4, da série “Ten Great Writers of the Modern World”. A direção e adaptação são de Nigel Watts e Gillian Greenwood. Este filme de uma hora de duração alterna imagens de arquivo da vida de Joyce, depoimentos de Anthony Burgess e Clive Hart, e cenas produzidas com atores reconstituindo episódios da vida de Joyce e do romance. 
 


(James Aubrey, como “Frank Budgen”, e Brian Murray como “James Joyce”)
 
 
Durante seus anos em Zurique, Joyce criou uma amizade com o artista plástico (e funcionário do governo britânico) Frank Budgen. Os dois tinham gostos e temperamentos parecidos, viram-se com frequência durante anos.  Essa amizade resultou num dos livros mais legíveis sobre a obra joyceana: James Joyce and the Making of Ulysses (1934), onde ele alterna reconstituições de conversas entre os dois, e interpretações próprias sobre o romance. 
 
Budgen era um homem culto, bem-humorado, sem frescura. Alguns diálogos entre ele e Joyce são encenados no filme, com atores. 



(David Suchet, como “Leopold Bloom”)

 
Mais interessantes são as encenações de trechos do Ulysses, tendo David Suchet (o conhecido “Hercule Poirot” de dezenas de filmes) no papel de Leopold Bloom, John Lynch no de Stephen Dedalus, e Sorche Cusack como Molly Bloom. E não deixa de ser divertido ver os depoimentos de Anthony Burgess (Laranja Mecânica, etc.), um escritor que admiro, com seu terno xadrezado, sua cara rubicunda, sua voz de barítono encatarrado, parecendo um irmão mais velho de Van Morrison. 
 
2
O Ulisses de Joseph Strick
https://www.youtube.com/watch?v=h7xAM_eXuuk&t=5044s



(Maurice Roëves, como “Stephen Dedalus”, e Milo O’Shea, como “Leopold Bloom”)
 
 
A mais corajosa adaptação do romance foi dirigida em 1967 por Joseph Strick (1923-2010), documentarista, engenheiro, inventor. Dizem que ele era o dono da única residência nos EUA com projeto de Oscar Niemeyer. Ganhou um Oscar de “Melhor Documentário” (Interviews  with My Lai Veterans, 1970) e em Londres foi diretor da Royal Shakespeare Company. 
 
Sua adaptação do Ulisses, filmada em preto-e-branco, está no YouTube. Não tem legendas em português, mas é possível acompanhar os diálogos nas legendas “Closed Captions”, que transcrevem o áudio. Essas legendas são dos primórdios da Inteligência Artificial, e são uma diversão à parte, porque a interpretação dos áudios é deficiente e o que aparece nas legendas, de vez em quando, é Zé Limeira puro, é algo que “out-Joyces Joyce”. 
 
Diversão à parte, é um filme útil para quem tem à mão (e na memória) uma descrição explicativa de cada episódio do romance. Ulisses não é um livro onde você entra a toda velocidade, ao volante de uma Ferrari. É um livro para ler sobre, estudar a respeito, consultar resumos e sinopses, ver filmes (mesmo sem entender o inglês)... Ir chegando aos poucos, dando voltas em torno da cidade sitiada, como fez Josué circundando Jericó, até ser capaz de derrubar suas muralhas com o mero soar das trombetas. Boa sorte. 
 
 
3
James Joyce’s Women, de Fionnula Flanagan (1985)
https://www.youtube.com/watch?v=ivhmaIjmXBw&t=3179s


(Fionnula Flanagan, como "Nora Barnacle")

Também no providencial YouTube encontra-se a versão cinematográfica de James Joyce’s Women, uma peça teatral concebida e interpretada pela atriz irlandesa Fionnula Flanagan. É um projeto ambicioso e, pela parte que me toca, extremamente bem sucedido. Fionnula concebeu a peça (e depois o filme) em torno das personagens femininas da vida de James Joyce (sua esposa Nora Barnacle, sua mecenas Harriet Shaw Weaver, sua editora Sylvia Beach), bem como personagens dos seus romances (Molly Bloom, Gertie MacDowell, etc.). 

 


(Fionnula Flanagan, como "Gertie Mac Dowell")

O projeto de Ms. Flanagan é atemorizante (produzir, escrever e interpretar um texto assim), mas o fato é que ela consegue costurar todas essas figuras femininas numa colcha-de-retalhos em que cada pedaço revela coisas novas dos livros, do escritor, do papel que essas mulheres tiveram em sua vida. Principalmente Nora, a mulher com quem Joyce manteve um casamento tumultuado mas leal até o dia em que morreu, uma mulher não-intelectual, pragmática, irônica, que não lia os livros do marido mas o defendia na-porrada se preciso fosse. 
 
De Nora Barnacle, dizia o amigo de Joyce, Frank Budgen (James Joyce and the Making of Ulysses, Indiana University Press, 1960) 
 
Mrs. Joyce tem uma presença impositiva, mas o que mais impressiona as pessoas de suas relações é a sua absoluta independência. Seus julgamentos a respeito das pessoas e das coisas são sempre rápidos e diretos, e procedem de uma escala de valores inteiramente pessoal, que não imita nem se dobra a ninguém. (Cap. II, trad. BT) 



(Fionnula Flanagan, como "Molly Bloom")


Fionnula Flanagan é uma camaleoa diante da câmera, pulando de personagem em personagem com metamorfoses e coerência. E nos deixa imaginando como seria (im)possível fazer no palco, em tempo real, essa gincana de reencarnações. O filme tem como subtítulo “An Erotic Masterpiece”, e teve problemas com a censura (tal como o livro), até porque reconstitui as cenas de masturbação, do urinol, etc. 
 
 
4
Bloom, de Sean Walsh (2003)
https://www.ulysses.ie/watch
 

Também pode ser vista em streaming esta adaptação do romance dirigida por Sean Walsh. É interessante ver esse filme em paralelo com a adaptação de Joseph Strick, porque cada diretor visualiza as cenas à sua maneira, mas ainda assim vê-se uma convergência que resulta da leitura atenta do livro, em ambos os casos. 
 
Walsh é um diretor mais pragmático, menos conceitual do que Joseph Strick. Seu objetivo declarado não é fazer uma obra-prima a partir de outra obra-prima, mas transformar um livro tido como inacessível numa história audio-visual que qualquer um pode acompanhar. 
 
Esta matéria do The Guardian mostra algumas qualidades e limitações do filme, e transcreve as declarações de Sean Walsh a respeito: 
https://www.theguardian.com/film/2003/nov/23/classics.books
 
 
***
 
“Precisamos mesmo disso tudo para ler um simples livro?”, pergunta alguém. Eu diria que sim, precisamos (ou pelo menos EU preciso), porque não se trata de cumprir a tarefa de ler um romance, dar um suspiro de alívio, e riscar aquele título na lista das obrigações. Um grande livro é para ser frequentado. 
 
“O Ulisses é para todo mundo?” Não, não é. Nenhum livro é para todo mundo. Isso vale tanto para o Ulisses quanto para Brás Cubas, O Pequeno Príncipe, as Memórias de Sherlock Holmes, A Rosa do Povo, Catatau, Meu Pé de Laranja Lima. Cada livro tem seu público. Escolha seus livros, e deixe o resto em paz. 
 
Entre outras coisas, Ulisses é feito (penso eu) para quem tem paixão pela palavra, mania, doença pela palavra. É curioso perceber que nem todo mundo tem isso, e mesmo muitos grandes intelectuais, escritores, poetas, cientistas sociais, não têm. Gostam das idéias, de preferências as idéias grandiosas, vastas, importantes. Usam a palavra como usam o dinheiro: por uma mera convenção social. 
 
Joyce tinha adicção pela palavra. Edmund Wilson observa com agudeza (O Castelo de Axel, trad. José Paulo Paes): 
 
O livro se torna muito mais compreensível a literatos do que a pessoas desprovidas de “mentalidade verbal”, pessoas cujas mentes não engendram palavras em resposta a sensações, emoções e pensamentos. 
 
Já acompanhei nas redes sociais discussões curiosas entre pessoas que “têm uma vozinha (ou várias) falando na cabeça o tempo todo” e pessoas que confessam só recorrer à verbalização quando precisam falar ou escrever algo. Bem – eu sou do primeiro tipo, e aposto meu Dicionário Houaiss que James Joyce também era assim; e não só ele, como Guimarães Rosa, Lewis Carroll, Jessier Quirino e Jacques Lacan. 

Não se trata de erudição, embora em alguns casos a erudição nos venha em socorro. Trata-se de experimentar um prazer sinestésico, quase físico, no ato de desmontar e remontar uma palavra nova, de fazer, desfazer e refazer uma frase besta para dizer que “o livre está na mesma”.  
 
Joyce divertia-se muito com a própria escrita. Costumava presentear o Ulisses a garçons e a porteiros de hotel, acreditando que estes seriam capazes de captar sua usina de gírias, suas alusões fesceninas, seu humor de cabaré. 
 
Dizia seu amigo Frank Budgen:
 
Joyce tem uma gargalhada longa, clara, cheia de divertimento diante dos próprios enganos. Uma gargalhada é um ato significativo. A gargalhada de Joyce é livre e espontânea. É o tipo de risada provocada pelas incongruências solenes, as trapaças malandras e as atrapalhações inesperadas da vida social, mas nela não há nenhuma malícia nem Schadenfreude, a alegria com a desgraça alheia. A risada dele é do tipo que a gente esperaria ouvir caso o presidente da república botasse na cabeça o chapéu errado, mas não se uma rajada de vento jogasse o chapéu de um homem pobre na sarjeta. (Cap. I, trad. BT) 
 
 

 




sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

5139) Notícias do fim do mundo (3.1.2025)




O algoritmo do inconsciente me fez visitar estes dias, como por acaso, filmes que têm como tema o Fim do Mundo. 
 
Não era esse tema que eu estava procurando; eram outros detalhes, diferentes em cada filme, mas bastavam alguns minutos de bola rolando para que eu percebesse o tema botando a cabeça por cima do muro. 
 
Bem – fim de ano e fim do mundo podem não ser sinônimos, mas também não são opostos. Tudo nos deixa uma lição. 
 
Caiu-me nas mãos uma cópia de A Hora Final (“On the Beach”, 1959), filme de Stanley Kramer que eu nunca tinha visto e resolvi ver agora. Lembro que naquela época era um filme comentado lá em casa, pelos amigos que visitavam meus pais. 
 
Falava-se dele em tom sério – era a história de um grupo de pessoas numa praia, esperando o fim do mundo devido à guerra atômica. Provavelmente foi a primeira vez (eu teria 9 ou 10 anos) em que ouvi falar nisto pra valer. 
 
O filme de Kramer é correto, bem narrado para a época. Quando começa, a II Guerra já aconteceu e destruiu praticamente toda a vida no Hemisfério Norte. A história se passa na Austrália. A tripulação de um submarino é recebida pela população local, e começam todos a se preparar para a chegada da “nuvem radioativa” que vai exterminar a população do último continente. 
 
Gregory Peck desfila sua canastrice habitual, como o capitão do submarino. É um ator solene e inexpressivo, que parece talhado para o Monte Rushmore. Quem surpreende é Fred Astaire, no papel de um cientista fascinado por carros de corrida – ao que se diz, é seu primeiro papel não-musical no cinema. Ava Gardner faz o papel de mulher-solteira-em-crise-que-bebe-todo-dia e não se sai mal. Anthony Perkins faz aquele papel loquaz e desassossegado de sempre, o cara angustiado e sorridente que não pára quieto. 



(Fred Astaire, Gregory Peck, Ava Gardner)
 

O submarino vara o Oceano Pacífico e vai até San Francisco, apenas para constatar que não há uma pessoa viva sequer. Curiosamente, as ruas estão todas vazias – não há corpos, carros batidos, casas incendiadas. Nada. É como se em vez de uma nuvem radioativa a cidade tivesse sido atingida por uma bomba de nêutrons, que varreu do mapa as pessoas e deixou tudo intacto. 
 
O filme na verdade tem como tema principal a eutanásia. Já que vamos morrer mesmo (dizem as pessoas) melhor escolhermos uma morte rápida e simples, do que esperar pelos efeitos da radioatividade, mais demorados e mais dolorosos. E perto do final há uma cena arrepiante, nas ruas de Melbourne, em que as famílias, rebocando suas crianças, fazem fila para receber sua cota de comprimidos para a “morte voluntária”. 
 
Não houve como não lembrar de Melancolia (2011) de Lars von Trier, que também só vi pela primeira vez alguns dias atrás. Desta vez, o fim do mundo vem sob a forma de um planetóide em rota de colisão com a Terra. Toda a história transcorre na casa-de-campo, ou melhor, no castelo de uma família rica, que se reúne para festejar o casamento de uma das filhas. 



Melancolia foi comentado na época como o melhor expoente de um novo gênero cinematográfico, o “Vem, Meteoro!” – filmes em que o fim do mundo é descrito do ponto de vista de personagens tão desagradáveis que a platéia acaba torcendo para que o meteoro chegue logo. 
 
No caso do filme de Von Trier, a sequência inicial, com algo de comédia pastelão, dá o tom da extinção da humanidade. O casal de noivos resolve ir para a festa do casamento numa daquelas limusines quilométricas, ostentatórias, e somente no trajeto (pelo meio de bosques, riachos, etc.) eles percebem que a limusine não consegue manobrar na estrada de terra. O casal vai a pé, e quando chega na mansão (com horas de atraso) o clima não é dos melhores. 
 
Toda a primeira metade do filme é a tensa e insuportável festa de casamento. Um lado positivo do cinema de Lars Von Trier é que ele não liga a mínima para aquela máxima do cinema norte-americano de que é preciso haver personagens com quem a platéia simpatize. No presente caso, é difícil. A metade do filme dedicada ao casamento lembra outro filme dinamarquês, Festa de Família (1998) de Thomas Winterberg, uma viagem nelsonrodriguiana aos segredos de uma família rica. 
 
Melancholia, que acontece todo nos domínios de um castelo, mostra um grupo de pessoas neuróticas lamentando o fim de um mundo onde eles se deram tão bem e vivem tão mal. Não há notícias do que acontece lá fora, não se vê cenas em outras cidades pelo mundo, outras pessoas, nem mesmo os castelos vizinhos. É um mundo fechado em si mesmo, de onde ninguém consegue fugir, e nisto o filme lembra O Anjo Exterminador (1962) de Luís Buñuel. 




É também numa casa de campo, distante de tudo, que acontece toda a ação de O Sacrifício (“Offret”, 1986), o último filme de Andrei Tarkovsky. É a casa – modesta, se comparada com o castelo do filme dinamarquês – onde vive o casal de ex-atores Alexander e Adelaide, com seus filhos e criados, e onde recebem a visita do médico Viktor e do carteiro (e colecionador de fatos bizarros) Hugo. 
 
O filme tem uma curiosidade a mais, que não passou em branco pela crítica. Tarkovsky àquela altura (aos 54 anos) estava em choque permanente com o governo soviético, e este seu último filme foi feito na Suécia, aproveitando atores e técnicos que trabalhavam com Ingmar Bergman. É de certo modo um filme de Bergman feito por um discípulo. Há muitas diferenças entre o cinema dos dois, mas O Sacrifício anula a maior parte delas. 
 
Reunida na casa de campo, a família toma conhecimento de que bombardeiros nucleares estão voando pelo mundo, prontos para iniciar a III Guerra Mundial. (Vi aqui alguns ecos de Vergonha, 1968, de Bergman.) Bate o desespero em todos. E entra aqui um fator ausente em A Hora Final e em Melancolia: a religião. A Hora Final fala apenas de ciência e política; Melancolia é em torno de uma fatalidade astronômica. Mas O Sacrifício dá uma guinada, em seu terço final, na direção religiosa. 
 
Alexander, que se afirma ateu ou agnóstico, mas de qualquer modo indiferente à noção de Deus, cede ao desespero e reza. Promete destruir aquela casa (que ele ama mais que tudo), afastar-se de sua família e da vida, contanto que a guerra seja cancelada e a Humanidade escape mais uma vez. E cabe a Hugo, o amigo que coleciona ocorrências sobrenaturais, dizer-lhe que seus desejos podem ser atendidos caso ele convença a criada Maria (que é tida como bruxa) a fazer sexo com ele. 
 
Parece uma missão impossível, mas Alexander consegue. Na manhã seguinte, tudo volta ao normal, energia elétrica e telecomunicações são restabelecidas, o susto da III Guerra passou. 
 
E a última sequência do filme mostra como ele despista a família, afastando-a noutra direção, e depois toca fogo à casa. Uma cena justamente famosa, num plano com mais de seis minutos, em que a casa é totalmente destruída pelo fogo enquanto ele corre de um lado para o outro, desorientado. 



 
O filme de Tarkovsky é sobre um milagre (uma prece improvavelmente atendida) e sobre um sacrifício, porque segundo ele não se pode pedir algo grande a Deus sem oferecer algo também grande em troca. Tarkovsky era um indivíduo curioso, de forte crença espiritual (como se vê no seu livro Esculpindo o Tempo). Tinha aquele misticismo russo, algo entranhado no inconsciente coletivo ao longo de milênios cheios de céus, infernos e invernos. 
 
O Sacrifício mostra um milagre, o cancelamento repentino e não-explicado da guerra mundial. Mostra-o de maneira seca, sem fanfarras ou melodramas; mostra como Carl T. Dreyer mostra a ressurreição milagrosa da mulher no final de Ordet (1955): como um fato que não precisa de outra justificação além de ter acontecido.   
 
No mundo de Tarkovsky, o fim do mundo pode ser evitado pelo ato de fé absoluta (e pelo sacrifício absoluto) de uma única pessoa em todo o planeta. Como se bastasse a fé sincera de um só, para salvar oito bilhões. 
 
A certa altura do filme, o filho de Alexander prepara para ele um presente de aniversário: uma maquete da casa deles, uma réplica perfeita em tamanho menor. Essa réplica sobrevive à destruição da casa verdadeira, e de certo modo acena com a possibilidade de que a destruição do mundo do pai não implique na destruição do mundo do filho. Tanto é assim que na cena final o menino mudo (tinha feito uma operação na garganta) volta a falar, e a árvore seca que ele e o pai replantaram dá sinais de vida. 
 
O mundo não vai se acabar, dizem esses filmes. No máximo, acaba-se o mundinho de cada um.