sábado, 28 de fevereiro de 2015

3750) Spoilers (1.3.2015)




(Agatha Christie)




Quando o cartunista Péricles fazia “O Amigo da Onça” na revista O Cruzeiro, um dos meus preferidos era o que mostrava uma fila na bilheteria do cinema e o Amigo da Onça saindo da sessão anterior e repetindo, enquanto caminha ao longo da fila: “O assassino é o pai da moça... o assassino é o pai da moça...”  

Eu já lia Agatha Christie; era capaz de captar a crueldade dessa ação. Quando uma narrativa (filme, livro, etc) coloca todo seu peso no aparecimento de um enigma e sua posterior resolução, saber essa solução antecipadamente estraga 90% do prazer.

Daí que um debate antigo na literatura policial tenha sido o de manter a presença e o interesse do enigma, mas de tal maneira que ele não seja o único motivo pelo qual o livro está sendo lido.  

Um leitor do O Caso dos Dez Negrinhos de “Dame” Agatha pode, mesmo sabendo quem é o “vingador invisível”, reler o livro somente pelo clima de suspense, pela detalhada criação de personalidades.  Mas nem todo livro dela se sustenta para quem já sabe o final.  

Um volume de análise muito interessante (A Talent to Deceive – An Appreciation of Agatha Christie, 1980, de Robert Barnard) previne o leitor, na introdução, de que os capítulos de 4 a 6 são obrigados, por serem capítulos de análise técnica dos enredo, a revelar o final; mas o autor avisa que os demais capítulos podem ser lidos sem susto, pois não revelam mais nada.

Não é só com o romance policial.  Muitas obras de literatura mainstream têm revelações finais que são cruciais para o enredo, e que não são necessariamente sobre um crime. Pode ser uma revelação de identidade, como em Grande Sertão: Veredas, ou a descoberta de que o mundo não é o que parece ser, como em tantos romances de ficção científica. 

O mistério e o enigma não pertencem apenas à literatura de crime. Eu gostei muito dos desfechos de A Misteriosa Chama da Rainha Loana de Umberto Eco, ou de A Invenção de Morel de Bioy Casares. Se vier a escrever sobre esses livros, terei que omitir informações, para que o leitor leia em paz, fique impregnado do livro por inteiro, e possa extrair desses momentos literários a satisfação que eles pretendem produzir. 

Como resenhar livros dessa natureza?  Eu diria que a uma solução possível é: 

1) resenhar o romance descrevendo-o apenas em parte; 

2) prevenir o leitor de que o enredo se baseia em algum tipo de surpresa ou resolução de enigma; 

3) criar um certo suspense sobre o não-dito.  Deixar que a consciência de que há “spoilers” (revelações inoportunas) à espreita funcione como um atiçador a mais da curiosidade do leitor, e é melhor ainda que ele não saiba ao certo qual aspecto da história está sujeito a spoilers.





sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

3749) "The Black Room" (28.2.2015)



Colin Wilson, escritor existencialista britânico, propôs o conceito de “outsider” para designar o indivíduo inquieto, rebelde, movido por uma intensa busca de sentido na vida, e que tanto pode derivar para a grande arte quanto para o crime.  Muitos livros seus têm como centro personagens que realizam essa busca.  Neste romance de 1971, a história acompanha o compositor erudito Christopher “Kit” Butler, que aceita, meio na esportiva, o convite de um amigo que faz parte do Serviço Secreto britânico, o MI5, para participar de uma experiência científica como cobaia altamente qualificada.  A experiência, realizada numa espécie de hotel-com-laboratório num lugar remoto, consiste em submeter-se durante dias à experiência da total privação dos sentidos da visão e (tanto quanto possível) da audição.  O objetivo é medir o grau de resistência ao tédio e ao isolamento, para seleção e treinamento futuro de espiões.

Butler é o porta-voz das teorias de Wilson, e discute com os cientistas e as outras cobaias sobre energia mental, concentração, autocontrole emocional, etc.  Ao mesmo tempo, ele percebe que outras agências, como a CIA, a KGB e uma misteriosa “Estação X”, espionam as pesquisas dos ingleses.  Na segunda parte do livro, Butler, já aprovado, está em Praga numa missão um tanto inócua mas arriscada. É sequestrado e depois de algumas aventuras violentas vai parar na sede da misteriosa Estação X, onde se defronta com um chefe cheio de teorias próprias sobre o assunto.

Em matéria de escritor popular, conheço poucos como Colin Wilson capazes de encadear uma discussão filosófica e psicológica superficial, mas que faz sentido, com aventuras e um senso de realidade satisfatório.  Os seus romances policiais são bem melhores que sua ficção científica, e The Black Room lembra um pouco aquelas histórias de espionagem cheias de traições, subentendidos e reviravoltas, tipo John Le Carré.  O único defeito do livro, se é que é defeito e não um corte ousadíssimo, é que ele não acaba, interrompe-se bruscamente.  Há um desfecho em vista, mas precisaria de mais 20 ou 30 páginas para dar-lhe alguma conclusão satisfatória numa situação política tão complicada, embora haja algumas alusões interessantes à política européia de 1968. 

Pode-se dizer de Wilson o que já foi dito de Philip K. Dick: que a leitura de sua obra pode começar com qualquer título, porque sua visão do mundo está inteira em cada um, e cada um conduz aos demais como se todos fossem continuação de todos. A fé infatigável de Wilson nos poderes da mente humana perpassa sua filosofia, seus romances populares, suas antologias, sua obra sobre crimes e sobre ocultismo.







3748) Livros ilustrados (27.2.2015)



(ilustração de Poty para O Púcaro Búlgaro, de Campos de Carvalho)


O pesquisador João Antonio Buhrer postou no Facebook imagens de livros ilustrados pelo curitibano Poty. Obras de Campos de Carvalho, Guimarães Rosa, Jorge Amado e muitos outros.  

Houve um tempo em que era uma prática corrente em nosso mercado editorial lançar romances ilustrados.  Nosso conterrâneo Santa Rosa produziu ilustrações extraordinárias para obras de José Lins do Rego, Graciliano, Drummond e Jorge Amado. 

Hoje em dia, isso parece que acabou.  Se pegarmos ao acaso 100 romances (ou livros de contos) brasileiros lançados ano passado, de diferentes editoras, quantos deles terão ilustrações internas?

A ilustração encarece o livro? Não acho. Por outro lado, tem editora encarecendo livros ao imprimi-los, pretensiosamente, em papel cuchê, papel brilhante de todo tipo.  Olhe, é um absurdo imprimir em papel brilhante um livro para ser lido. A gente tem que ficar procurando um ângulo que não reflita a luz em nossos olhos  Papel de livro tem que ser fosco. Ponto final.  

E um romance ilustrado não precisa de papel de gramatura alta ou com brilho. Livro de arte, livro de fotografia, tudo bem.  Mas um livro onde o foco é no texto e a ilustração é complemento, essa ostentação não é necessária. Em geral, ilustrações como as de Poty ficam com seu valor estético intacto em qualquer tipo de papel.

Dizem que “livro ilustrado é livro para crianças”.  Já vi leitores metidos a sofisticados dizendo do livro de alguém: “O livro é cheio de figurinhas, até parece que é pra leitor analfabeto”. 

A verdade é que existem analfabetos da escrita e analfabetos da imagem. Um leitor desse tipo não sabe o que está perdendo, e talvez não saiba nem o que está ganhando.

Idealmente (cada caso é um caso, sempre) um livro ilustrado deveria pagar “luvas” ao ilustrador pela execução da encomenda (toda obra encomendada tem que ter uma paga extra, fora o recolhimento de direitos autorais), e uma percentagem do preço de capa, tal como o autor recebe.  As fórmulas são muitas, e devem ser conversadas em cada trabalho. 

Alguns livros pagam um preço fixo ao ilustrador, e tchau. Outros pagam uma percentagem a ele, sem mexer nos 10% do autor (o mínimo que um autor deve receber). Em outros casos, a percentagem do ilustrador é diminuída da do autor, este ficando com 9% e o ilustrador com 1%. Também há divisões de 5% para cada, quando a proporção do volume de material criado por cada um seja essa. 

A ilustração não está ali para explicar o livro, para torná-lo mais fácil de entender, e sim para tornar o livro mais complexo, mais rico de informações, produzindo um diálogo entre dois criadores, mesmo quando é um diálogo em que um dos dois toma a dianteira.






quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

3747) Os nomes das ruas (26.2.2015)



(rua em Paraty, RJ)

Nomes de ruas já foram flashes de poesia ou de humor, ou serviram como uma polaróide-de-época, ou indicaram pequenos mistérios que um estrangeiro custa a decifrar.  

Vi um dia desses uma foto de uma placa inglesa, com o comentário embaixo: “A placa mais triste de todos os tempos”.  A placa dizia: “Carters Lane, antiga Wibbly-Wobbly Lane”.  “Wibbly-Wobbly” é um termo wibbly-wobbly de traduzir. Significa algo tortuoso, acidentado. Em termos nordestinos, a placa citada seria como trocar “Rua do Catabí” por “Rua Bonifácio Magalhães”. Tem coisa mais sem graça?  

Portanto, vou logo avisando: quando eu morrer não quero meu nome em rua.  Se quiserem me homenagear, criem uma biblioteca onde não existia nenhuma, e botem meu nome. Ou qualquer outro.

Alceu Valença tem uma canção (“Pelas ruas que andei”) homenageando os nomes das ruas de Recife e Olinda, talvez as cidades com nomes mais poéticos.  Nunca esquecerei que minha avó Clotilde, já velhinha, morava na Rua das Moças.  Quando eu era menino, passei muitas férias na casa dela na Rua Subida do S, no Fundão, nome que eu achava tão descritivo (a rua era exatamente isso, uma ladeira em forma de S, lembrando a sextilha famosa de Pinto do Monteiro) que o utilizei anos depois no meu romance A Máquina Voadora

O Rio ainda tem a Rua das Marrecas, a Rua do Teatro, a Rua do Jogo de Bola, a Rua da Quitanda, a Rua da Alfândega, a Rua do Paraíso e outras que talvez não demorem a ser rebatizadas com o nome de algum picareta municipal, cavalheiro-de-indústria estadual ou bilionário-provisório federal. 

Quando morei em Salvador, procurei casa no bairro do Garcia, e descobri a Rua dos Artistas. Saí batendo de porta em porta perguntando se não havia alguma casa para alugar ali.  Não havia, e o mais que consegui foi acabar morando na Rua Vítor Meireles.  (O fato de depois ter morado, no Rio, na Rua Pedro Américo me pareceu uma rima com essa moradia baiana.)  

A rua em que nasci, em Campina Grande, era chamada de Rua dos Paus Grandes (“honni soit qui mal y pense”), devido a umas árvores enormes que a enfeitavam nos idos de 1950.  É aquela rua que desce do final do Beco dos Bêbos (cujo nome oficial ninguém sabe) e vai até o Ponto Cem Réis.

Não são somente os nomes de ruas.  Drummond viu a cidadezinha de Brejo das Almas ser rebatizada como Francisco Sá; revoltou-se, e imortalizou o nome no título de um livro seu. Muitas vezes os nomes novos não pegam. O povo continua a dizer o nome enraizado na memória coletiva.  

E é tão bonito alguém poder dizer que mora Rua da Floresta, Rua da Passagem, Rua da Aurora, Rua das Palmeiras, Rua das Ninfas, Rua da Boa Hora.



terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

3746) Nossos bilionários (25.2.2015)



(ilustração: www.nationofchange.org)

Os dados são de 2013-2014, mas os números absolutos não importam muito. Vi-os no saite da revista Exame (http://tinyurl.com/oyuvsk6), com dados da consultoria Wealth Insight.  Outras fontes dão outros números, por diferença de metodologia. Uma fortuna inclui ações e outros papéis (e seu valor momentâneo), participação em lucros, contratos vigentes, valor de propriedades imobiliárias, etc. 

Mas, resumindo: a matéria diz que o Brasil ganharia 17 mil milionários em 2014, 8,9% a mais em relação a 2013, que era de 194.300 milionários. A estimativa é de que com mais cinco anos, em 2018, haja no país um total de 407 mil milionários. (Como esses cálculos são estrangeiros, imagino que o critério seja o dólar, ou seja, milionário é quem tem mais de um milhão de dólares, ou 2 milhões e meio no câmbio atual, mais ou menos). E os bilionários?  Cito: “Em 2012, o país tinha 49 bilionários com uma fortuna combinada de US$ 300 bilhões. Neste ano, o país ganhou um bilionário, mas o total acumulado entre eles caiu 13,7%, para 259 bilhões de dólares. Eike [Batista] é responsável por aproximadamente metade desta queda.”

Não acho, como os anarquistas barbudos, que toda propriedade é um roubo. Vai ver que uma boa fatia desse dinheiro é dinheiro justo, de quem (pra usar o jargão vigente) aqueceu a economia, gerou empregos, botou produtos nas prateleiras, pagou seus impostos.  Muitos herdaram suas fortunas, e, como já disse um aristocrata inglês, “quem herda dinheiro roubado não roubou”.

Precisamos de uma revista misturando a Forbes e a Nature, para estudar cientificamente os bilionários e milionários. Dinheiro transforma a gente. Eu mesmo, quando estou com a conta bancária cheia de zeros, fico com 10 metros de altura e 900 anos de vida pela frente.  Só não saio voando porque os bolsos estão pesados.  E esses caras? Em que pensam? Que tipo de olhar eles dirigem para os pobres? (Não falo dos famintos do Sudão ou da Nigéria: falo de mim e dos meus leitores.) São indivíduos soturnos, misantrópicos, de cérebro lagartiforme, faturando fortunas a golpes de ambição e de perfídia?  São hedonistas construindo palacetes submarinos, satélites-de-lazer, bordéis repletos de andróides e ginóides?  São capitalistas truculentos à velha moda, esmagando a concorrência, jogando dez mil famílias na miséria enquanto cuidam da catarata do seu rotweiler? Mistério.

Bilionários e milionários, sejam eles xeiques sauditas, executivos de Manhattan ou playboys latino-americanos, são uma nova espécie criada em nosso tempo, e estudá-los pode lançar luz sobre o rombo no casco do nosso Titanic, mesmo que já seja tarde demais para consertá-lo.




segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

3745) Oliver Sacks (24.2.2015)



Oliver Sacks, neurologista e escritor, ficou famoso ao ser interpretado por Robin Williams no filme Tempo de Despertar, onde ele faz o médico que trata de um paciente (Robert de Niro) que está há anos em estado vegetativo.  O médico inventa uma complicada terapia para trazê-lo de volta à consciência, e consegue.  Depois, médico e paciente percebem que o tratamento funciona, mas não por muito tempo, e este se vê condenado a mergulhar de novo nas trevas. Lembra muito a situação do clássico de FC “Flowers for Algernon”, de Daniel Keyes (1959).

Sacks, de 81 anos, publicou recentemente no New York Times uma carta anunciando que está com câncer de fígado, em fase terminal, e tem apenas algumas semanas de vida. (Aqui, a carta, traduzida: http://tinyurl.com/k9xvcex). Os leitores brasileiros hão de lembrar livros como O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu, Um Antropólogo em Marte e muitos outros em que ele descreve casos clínicos recolhidos de sua longa carreira médica. Sacks dedicou sua vida ao estudo do cérebro humano e da mente humana, e ler um dos seus livros abre os nossos olhos para a fragilidade de conceitos como consciência, percepção, personalidade, etc. 

Diz ele, em sua carta: “É só minha a decisão de como viver os meses que me restam. Tenho que viver da forma mais rica, profunda e produtiva que conseguir. (...) Repentinamente me sinto possuidor de um foco muito claro, e de perspectiva. Não há mais tempo para nada que não seja essencial. Preciso focar em mim mesmo, no meu trabalho e nos meus amigos. Não vou mais assistir o jornal na TV todas as noites. Não vou mais prestar atenção para política ou para argumentos sobre aquecimento global. Não se trata de indiferença, mas de desapego – ainda me importo muito com o Oriente Médio, com o aquecimento global, com o crescimento da desigualdade, mas estas coisas não estão mais na minha alçada; pertencem ao futuro.”

Diante de situações assim a gente percebe que o mundo se divide em O Mundo e o Meu Mundo. Há uma área imensa do mundo que ignora a nossa existência, que vai ficar para sempre invulnerável às nossas ações. Como se fosse outro planeta, e não o planeta onde vivemos. Mas há outro, o Meu Mundo, onde a nossa vida conta, nossas ações produzem resultados, nossa presença chama a atenção, nossa ausência deixará um vazio. Quando somos jovens cheios de sonhos, de atrevimento, de esperança, achamos que um dia o Meu Mundo se confundirá totalmente com o outro. Quando estamos na porta, nos preparando para ir embora, é hora de esquecer o que está fora do nosso alcance, e de reconhecer que o Meu Mundo é pequeno, mas é tudo que a gente tem.




domingo, 22 de fevereiro de 2015

3744) O livro sem E (22.2.2015)



A palavra “contrainte” (em francês; “constraint” em inglês) significa “restrição arbitrária que um autor se auto-impõe”, e tem produzido obras curiosas na literatura.  O sujeito pode dizer, por exemplo: “vou escrever uma história onde tudo acontece de trás para diante”, uma história onde o tempo corre ao contrário. Isto foi feito, com relativo êxito, por Philip K Dick (Counter-Clock World), Fritz Leiber (“The Man Who Never Grew Young”) e outros.  Em geral, contudo, a “contrainte” não se prende ao tema, mas à forma, a um detalhe técnico qualquer.

Já escrevi sobre o romance de Georges Perec La Disparition, onde ele não usa a letra “E”.  Não foi o primeiro a fazê-lo. Provavelmente essa honra cabe ao romance Gadsby (1939) de Ernest Vincent Wright, um autor obscuro que morreu logo após o lançamento do livro. Um artigo de Mark Juddery (aqui: http://tinyurl.com/bhyzlfw) comenta essa verdadeira anomalia literária, como foi considerado na época, e anota o detalhe de que Wright, para se manter fiel ao compromisso, amarrou com cordão a tecla da letra E de sua máquina de escrever, para não usá-la por distração. Não sei se o recurso poderia ser usado num teclado de computador, mas este tem a vantagem da busca. Toda vez que tentei fazer algo assim, uma rápida busca pela letra em questão acaba nos mostrando todas as vezes em que a empregamos por descuido.

É uma história de amor, mas Wright nunca usa, por exemplo, a palavra “love”, e a substitui por circunlóquios (“strong liking”, “throbbing palpitation”).  Wright foi mais rigoroso do que Perec: ele evita o uso de abreviaturas como “Mr.”, porque “Mister” contém a letra proibida (Perec abreviou algumas palavras que continham “E”).  Wright também praticou primeiro algumas das façanhas mais divertidas do livro de Perec: pegar frases famosas e parafraseá-las omitindo a letra proibida. Uma frase como “a thing of beauty is a joy forever” do poeta Keats (“uma coisa bela é uma alegria eterna”) ele recria como “a charming thing is a joy always”, que é quase a mesma coisa.

Proezas desse tipo se parecem àqueles filmes feitos num único plano-sequência, sem cortes, ou àquelas peças de piano tocadas apenas nas teclas pretas. O objeto não é o mesmo dos jogos comuns, das músicas comuns. No caso dos lipogramas (textos que omitem uma ou mais letras), trata-se de um exercício intelectual onde o objetivo estético, embora presente, retrocede para segundo plano.  O objetivo não é só o de produzir uma obra de arte, mas de testar os limites de esforço e de engenhosidade que alguém pode atingir na feitura de uma obra de arte. Metade obra, metade exercício.




sábado, 21 de fevereiro de 2015

3743) Dicionário Aldebarã IX (21.2.2015)



(ilustração: Arzach, Moebius)

O planeta de Aldebarã-5 tem uma civilização influenciada pelos colonizadores terrestres.  Seu vocabulário exprime as características da natureza do planeta, e o seu modo de observar os fenômenos da psicologia e da cultura.  Confiram os verbetes abaixo, recolhidos, meio ao acaso, do Pequeno Dicionário Interplanetário de Bolso.

“Skensoul”: a sensação de não conseguir lembrar a identidade, o nome, o rosto de uma pessoa, mas lembrar com precisão todo o complexo de emoções que em nossa memória está associado a ela.  

“Campertuis”: a atitude de alguém que está fazendo várias coisas ao mesmo tempo, como tomar café da manhã, assistir TV e falar ao celular simultaneamente. 

“Amboure”: a sensação inexplicável de que todos os nossos problemas se resolverão ao mesmo tempo graças a um único fato que não imaginamos qual seja. 

“Talwin”: a sensação incômoda de ver uma pessoa carregando um objeto que parece ser mais pesado do que ela.

“Ustahan”: o dia convencional de jejum que se segue às datas festivas com ceias que reúnem toda a família.  

“Oldavires”: aplica-se a todas as pessoas que dão pouca atenção ao ambiente que as cerca e estão o tempo inteiro atravancando a passagem com seus veículos, etc.  

“Semajy”: pessoas extremamente cerimoniosas que passam horas para dizer ou pedir algo que a essa altura já ficou óbvio para todo mundo. 

“Bargle”: a fala ininteligível dos bebês, e também os significados intencionais que a família fica ansiosamente lhe atribuindo.

“Icterah”: a sensação de inebriação e de expectativa misturada com receio de quem embarca numa empreitada de grande porte.  

“Daiobill”: a falsa sensação de anoitecer produzida por uma chuva que escurece o céu durante o dia. 

“Endivar”: as pequenas mudanças no comportamento de alguém muito próximo que nos indicam que algo está acontecendo, embora a gente não possa adivinhar o que é.  

“Abofrin”: nossa tendência a imaginar que se uma sequência de fatos até agora assumiu uma forma, os próximos fatos também estarão sujeitos a ela.

“Ambiloon”: o lado bom e oculto de toda pessoa antipática, ou o lado negativo e oculto de toda pessoa simpática.  

“Todills”: qualquer solução repentina para um problema, que aparece como que caída do céu.  

“Nostres”: banhos de mar coletivos, noturnos, na época em que o sol forte do verão torna as praias inacessíveis.  

“Lequirum”: pequenas gavetas sob a mesa de jantar onde as pessoas da casa guardam seus talheres especiais, copos, etc.  

“Mausbaq”: rebatedores de luz pintados com tinta prateada e colocados à cabeceira da cama, para refletir a luz do teto e facilitar a leitura de quem está deitado.



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

3742) Um problema de xadrez (20.2.2015)



(As brancas jogam, e dão mate em dois lances)

Quem não é aficionado de xadrez pensa que um problema de xadrez é a mesma coisa que uma partida de xadrez, mas não é.  Uma partida é um jogo entre adversários. Como em qualquer jogo, parte de uma situação inicial sempre a mesma, e vai refletindo a disputa de forças que passa a acontecer.  Um problema de xadrez é outra coisa.  É uma situação imaginária, proposta numa revista ou jornal. Envolve poucas peças, e o desafio: “As brancas dão xeque-mate em três lances”, ou “as pretas deixam o jogo empatado com dois lances”, coisas assim.

A graça do problema é você saber, pelo enunciado, que existe, sim, uma combinação de jogadas que conduz ao resultado anunciado.  Fogo é encontrar, porque às vezes é preciso um raciocínio meio não-convencional para achar a resposta.  No problema, aliás, isso é até mais fácil de acontecer, porque não houve toda uma partida cheia de peripécias e de intenções não-alcançadas, para chegar até ali.  Numa partida de verdade é mais fácil ficar preso à narrativa que aquele momento do jogo está propondo.  Num problema, não: chega-se emocionalmente zerado ao que na verdade é um desfecho.

Nos romances de Raymond Chandler, um dos hobbies do detetive Philip Marlowe é o xadrez, mas não me lembro de nenhuma história em que Marlowe dispute uma partida com quem quer que seja.  Ele volta para casa à noite (mora sozinho), toma banho, ouve música no rádio, prepara comida, come, depois pega o tabuleiro e arma um problema, ou reconstitui uma partida inteira entre dois mestres do passado, como um pianista que volta a tocar um Noturno para não se esquecer.

Um problema é uma pequena obra de ficção enxadrística.  Como no romance, imaginamos a existência de uma imensa teia de narrativas prévias, não-contadas, que desaguam naquele texto que começamos pelo “Capítulo 1”.  Um romance é uma história que vai acontecer, e um problema de xadrez é uma história de que não vimos o começo mas vamos ter que adivinhar seu possível fim.  Teoricamente seria possível prolongar indefinidamente aquela partida, mas a certeza da existência de uma solução radical, uma guilhotina instantânea, leva o jogador a não descansar enquanto não a encontra.

Jogar xadrez é um duelo intelectual, uma relação densa e aguerrida entre duas mentes.  Um problema de xadrez é o contrário disso: é um prazer solitário.  Uma minipartida abstrata entre o cara que publicou o problema no jornal, e o cara que vai tentar resolvê-lo.  Parece muito com a literatura, e parece mais ainda com a literatura policial.  É um detalhe sutil de Chandler, fazendo uma homenagem discreta aos grandes mestres do romance detetivesco.




quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

3741) A Sexta Profecia (19.2.2015)



(Abbey Bookshop, em Paris)

Almério mandou o calhamaço de 600 páginas, romance ainda por cima, pra uma editora carioca. Depois de roer unhas uma semana, ligou para o editor, Diogo Montalvão. “E aí, Dr. Montalvão, o que o sr. achou?”  O editor disse: “Meu querido, eu tenho uma fila de leitura, por ordem de chegada. O seu acabou de chegar. Ou você pensa que é o único brasileiro que quer viver sem trabalhar?”   “Foi o sr. quem me pediu, o sr. mesmo disse que eu podia mandar.”  “Foi pedido, foi recebido, será lido, será avaliado.”  “E se alguém me fizer uma oferta  muito boa por ele?  Pelo que eu vejo o senhor nem passou os olhos pelo livro.”  “Acertou.  Ele foi para a prateleira de espera. Eu tenho um vazamento financeiro nas minhas empresas, preciso tratar. Quando normalizar tudo, eu volto a cuidar da editora.”  “Então o senhor não vive da editora, tem mais de uma atividade.”  “Isso mesmo.  Ter várias atividades é também uma forma honrosa de viver sem trabalhar, concorda?  Mas se a Gallimard ou a Penguin lhe fizerem uma proposta irrecusável eu cedo a vez. Basta me avisar, e desejo sucesso.”

Almério já desligou com o plano armado.  A prima em Paris fazia Letras, e o marido francês dela trabalhava nessa editora.  Ele pediria pro cara lhe mandar um email banal indagando sobre o manuscrito. O livro dele era uma fantasia heróica: Cavaleiros da Sexta Profecia, por Almério Patrício. Mostraria o email: “Olhe aqui, Dr. Montalvão, a Gallimard está me sondando...”  Isso poderia motivar o velho, certo?  Ninguém mais ficaria sabendo, o assunto morria ali mesmo.

De fato a prima conseguiu, e o marido dela até se interessou pelo livro. “Pensei que a Gallimard era uma editora para intelectuais,” disse Almério.  O francês disse que toda pessoa capaz de ler e entender um livro é um intelectual, e que fantasia heróica sempre vende, mas é muito repetitivo, é preciso procurar algo com um gume de novidade, de diferença.  Ele mandou.

Quando recebeu da Gallimard a confirmação de interesse e a informação de que já tinham até um tradutor, Almério ligou para Montalvão. “A Gallimard quer meu livro, Dr. Montalvão. E eu devo isso ao sr., por absurdo que pareça.” “Você nasceu de quina pra lua, rapaz, porque eu acabei de liquidar a editora, o vazamento era nela.  Fechando isso eu respiro. Teu livro é bom, então? Mas vejam só, talvez tivesse sido minha tábua de salvação. Você ia ser meu Paulo Coelho.”  A editora de Montalvão sumiu do mundo, Almério publicou em Paris, ganhou dois prêmios e já vendeu os direitos para o cinema e os quadrinhos.  À imprensa, já admitiu que tem uma idéia bastante clara para o próximo livro, Cavaleiros da Quinta Profecia.